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segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28266: Notas de leitura (1950): "Gente Acenando Para Alguém Que Foge", de Paulo Faria; Minotauro, 2020 (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 19 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
Nunca pensei que esta dimensão romanesca dos descendentes dos antigos combatentes irem visitar os locais onde os seus pais combateram tivesse tão largo lastro, existem obras comprovativas de tais viagens, como veremos mais adiante. Esta narrativa de Paulo Faria anda quase sempre no fio da lâmina, se o móbil principal da viagem de Carlos a Moçambique é a busca de uma criança nativa que o pai a mimou, acompanhado por outro, o furriel Gamito, acontecerão coisas naquele país ainda cheio de escombros, mas há um ritmo alucinante em que no presente da viagem a memória se povoa de casamentos disfuncionais, de apelos patéticos em que a mulher amada não se vai embora, enquanto se procura Artur em todos os desencontros e encontros, e na torrente dos destroços o protagonista tece uma belíssima epifania ao neto que vai nascer. Romance original, uma singularidade que emocionará quem combateu e procura o melhor destino para esta literatura de regressos, que ainda nos dá agradáveis surpresas como esta.

Um abraço do
Mário



Em Moçambique, à procura de lembranças do pai, alferes miliciano médico:
Viagem de expiação familiar, escrita de sublimação para encontros e desencontros - 2

Mário Beja Santos

Esta "Gente Acenando para Alguém que Foge", de Paulo Faria, Minotauro, 2020, é para efeitos práticos continuação de outro título do mesmo autor, "Estranha Guerra de Uso Comum", publicado pela Ítaca, 2016. De novo assalta à memória uma vida familiar lacerada, o autor diz-nos agora no prólogo que “A infância extingue-se no dia em que percebemos que os nossos pais nos sonegaram a parcela mais preciosa do seu afeto. Sem o sabermos, acumulamos visões que nos irão perseguir para sempre.” Retoma-se a duríssima memória daqueles pais divorciados que se reencontravam lá em casa da mãe pela sexta-feira à tarde, antes dos dois filhos seguirem para casa dele e da madrasta, tudo dissimulado, como se aquelas crianças não acabassem por perceber o que se passava no quarto, uma aprendizagem da hipocrisia e do cinismo. Só que a partir daqui a prosa entra numa cavalgada, o palco enche-se de inúmera gente, ficamos a saber que Carlos Silveira já está em Nampula, encaminha-se para Cuama, Niassa, vai à procura de Artur, uma criança muito mimada pelo pai, alferes miliciano médico e pelo furriel Gamito, história já contada no livro anterior.

Estamos em Cuamba, Carlos Silveira é apresentado a muita gente, e subitamente vê-se envolvido como colaborador num projeto-piloto para países muito pobres e muito grandes, onde não há dinheiro para montar uma rede elétrica decente. “O projeto tinha todo o ar de coisa para inglês ver, de gota de água no deserto, os técnicos da EDP eram arraia-miúda, putos de vinte e tal ou trinta anos, mandados até este fim do mundo para se esfalfarem a trabalhar, para passarem por vendedores de ilusões e por fracassar, para apanharem uma doença com um nome impronunciável, para fazerem currículo. O Chinelinhas era meio careca, tinha uma barbicha que cofiava com ademanes de filósofo, vestia uns calções com muitos bolsos de vários tamanhos e uma t-shirt branca, calçava umas chinelinhas pretas de enfiar no dedo e pisava o chão como se o apagasse carinhosamente.” E, mais adiante: “O Caixa-de-Óculos, o outro engenheiro, era um rapaz castiço, sempre a usar onomatopeias e interjeições para dar vida às histórias que contava.” Há mais gente, como o Mário, economista, Anita, uma engenheira do ambiente, e outros mais.

Como se anotou no texto anterior, um dos aspetos mais talentosos deste romance é a forma como se embrecham memórias no tempo presente, em que está a decorrer a viagem à procura de Artur, o que obriga o leitor a ir fazendo a sinalização subliminar dos tempos e lugares, a filha mais velha, de nome Camila, o seu namorado, de nome Armando, são memória bastante viva que se insere nas peripécias do inquérito, bem tormentoso e acidentado, por sinal, estamos a ler numa linha oscilante entre o cinema São Jorge e aquele aparatoso inquérito que, tanto quanto parece, está destinado a não servir para coisa nenhuma.

A viagem de Carlos parece ganhar luminosidade com tudo o que se passa naquele inquérito, o afã de preencher questionários, as promessas de trazer eletricidade, a surpresa de encontrar numa povoação o escombro de um tanque de guerra, as conversas soltas entre os membros da equipa de projeto, os equívocos na comunicação, as confianças em grau efémero, e a memória daquele viajante que foi a um ponto de Moçambique à procura de um homem que foi a criança que o pai acarinhara, que tem momentos inesperados como este, no meio da girândola dos inquéritos e questionários frente a gente embasbacada:
“Escrevi o meu romance sobre a guerra para desapossar o meu pai do exclusivo da narrativa bélica, para o destronar, para escrever o livro que ele próprio não foi capaz de escrever. Para reescrever as histórias da guerra dele, para as extirpar da mentira posterior. Para o enobrecer. Fi-lo à custa dos outros veteranos, que viram as suas narrativas reformuladas, subordinadas à infelicidade do meu pai, por mim usurpada. Escrevi o meu romance para, com o engodo da Guerra Colonial, contar aos veteranos uma outra guerra, a minha.”

E a narrativa agora muda de registo, é a memória da mulher encalacrada com dívidas, aquela Amália a quem o narrador pede repetidamente que não se vá embora, de novo saltamos para outro lugar e outro tempo, os almoços anuais do batalhão do pai, outras conversas se intercalam, há um telefonema ao furriel Gamito, o outro militar que também desvelava pela criança Artur, para lhe comunicar que nesse almoço anual, realizado em Aveiro, ele encontrara o quarto alferes da companhia, de nome Cristóvão Rosado, novas advertências são transmitidas ao autor, são discordâncias entre o que está posto no romance e o que efetivamente se passou na guerra havida naquele ponto de Moçambique.

Entra em cena o ex-alferes Cristóvão Rosado, tem direito a farto soliloquio, acaba estafado e garantindo prova de vida: “Chegou altura de comunicar, se é que não é tarde demais, se é que ainda vou a tempo. Vou tentar escrever o meu relato. Nunca me envergonhei de ter sido combatente. Foi justa ou injusta, a guerra do Ultramar? Pouco importa. O que conta é se foi justa ou injusta a forma como a fizemos, isso é que conta.”

Caminhamos para o local onde Carlos Silveira espera encontrar aquele que foi o Artur menino, estamos em Chicôco, que é Velho ou Novo, no caso estamos em Chicôco Novo, quando Carlos sai do jipe, foi rodeado por garotos descalços, “uns vinte ou trinta, andrajosos, de olhos enormes, cheios de uma estupefação genuína, só possível nos filhos da miséria, garotos que segredavam uns aos outros frases em macua e se riam.” O guia, Pedro indica onde fora a vivenda do administrador e o respetivo posto, fala-se na palmatória para castigar as mãos do régulo, castigo até o sangue rebentar. Carlos conversa com os velhos da aldeia, reconhecem a fotografia do médico António Silveira, encaminham-se para o que fora o quartel, é nessa altura que Carlos mostra a fotografia de Artur com o furriel Gamito, há muitas evasivas, pergunta-se pela mãe, há novos fogachos da memória, consulta-se outro velho, Baltazar Mihaca, é o final da viagem, foi há muito tempo, a fotografia não fala para o presente, parece que Artur fica condenado num túnel às escuras.

Mas o final do romance é vibrante, Camila está grávida, anuncia o pai que se nascer rapaz será Artur, tudo irá culminar em epifania e hossana:
“És a grande ilusão, és o primeiro passo para me apaziguar. És tão pequeno, não tenho o direito de te sobrecarregar com esta responsabilidade, de te atirar para cima dos ombros um peso assim. És o meu neto. És meu. Respira, ocupa espaço, não deixes nenhuma pedra por virar. Trava os teus combates, os teus, não os dos outros, faz sempre diferente do que vires fazer.”

No posfácio, Djaimilia Pereira de Almeida empunha uma observação que trás luminescência a toda esta trama: “Nascemos para um mundo previamente dinamitado, contrafeito, em luto por mortes a que somos alheios, ressentido, amargurado com mentiras que não nos lembramos de ter contado a ninguém ou de nos terem sido segredadas, tal como os nossos filhos nascem para as nossas guerras e esquinas, sem nem eles nem nós nos apercebermos. Nascemos para as grandes mentiras das gerações passadas e aguentamos a maré com pequenas mentiras, o que não significa que amemos menos aqueles que vivem connosco.”

Vale a pena insistir: um belíssimo romance.


Paulo Faria
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Notas do editor:

Vd. post de 10 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28255: Notas de leitura (1948): "Gente Acenando Para Alguém Que Foge", de Paulo Faria; Minotauro, 2020 (1) (Mário Beja Santos)

Último posta da série de 14 de agosto de 2026 >
Guiné 61/74 - P28260: Notas de leitura (1949): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (1) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28255: Notas de leitura (1948): "Gente Acenando Para Alguém Que Foge", de Paulo Faria; Minotauro, 2020 (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 13 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
Pelas minhas contas, julgava que o cardápio literário da guerra colonial tinha esgotado todas as formas de olhar: romance, conto, novela, poesia erudita e poesia popular, abordagem memorial, historiografia, ensaio e ou narrativas sobre figurantes como as mulheres que acompanharam os oficiais, o pessoal de saúde, incluindo as enfermeiras paraquedistas, e pouco mais. É nisto que irrompem em cena os filhos a recordar a correspondência dos pais e os filhos que vão visitar os locais onde os pais combateram. É nesta última dimensão que podemos apreciar a obra de Paulo Faria, detentor de uma belíssima escrita, leva-nos à guerra acompanhada de lembranças por vezes muitos dolorosas da infância, não se escusa a confissões íntimas, vamos assistir ao descalabro de Moçambique numa prosa talentosamente organizada com toda a engrenagem dos afetos da vida do narrador. Uma agradável surpresa, isto para quem julgava que este subgénero literário ia-se confinar à literatura memorial dos antigos combatentes, os filhos e os netos deles entrariam em cena muito mais tarde.

Um abraço do
Mário



Em Moçambique, à procura de lembranças do pai, alferes miliciano médico:
Viagem de expiação familiar, escrita de sublimação para encontros e desencontros - 1


Mário Beja Santos

Esta "Gente Acenando para Alguém que Foge", de Paulo Faria, Minotauro, 2020, é para efeitos práticos continuação de outro título do mesmo autor, "Estranha Guerra de Uso Comum", publicado pela Ítaca, 2016. De novo assalta à memória uma vida familiar lacerada, o autor diz-nos agora no prólogo que “A infância extingue-se no dia em que percebemos que os nossos pais nos sonegaram a parcela mais preciosa do seu afeto. Sem o sabermos, acumulamos visões que nos irão perseguir para sempre.” Retoma-se a duríssima memória daqueles pais divorciados que se reencontravam lá em casa da mãe pela sexta-feira à tarde, antes dos dois filhos seguirem para casa dele e da madrasta, tudo dissimulado, como se aquelas crianças não acabassem por perceber o que se passava no quarto, uma aprendizagem da hipocrisia e do cinismo. Só que a partir daqui a prosa entra numa cavalgada, o palco enche-se de inúmera gente, ficamos a saber que Carlos Silveira já está em Nampula, encaminha-se para Cuama, Niassa, vai à procura de Artur, uma criança muito mimada pelo pai, alferes miliciano médico e pelo furriel Gamito, história já contada no livro anterior.

A viagem àquele ponto de África, é uma dor de alma, um retrato detalhado do descalabro e miséria em que se encontra o país, não faltam as lembranças da dementada guerra civil que ali se viveu. É uma narrativa de avalanche, aqui e acolá despontam sketches de tragicomédia, feridas abertas, o casamento de Carlos com Fernanda e o divórcio, perguntas sobre o garoto Artur, filho de uma prostituta, que os dois militares tinham adotado no Chicôco, que coisa foi essa de se ter metido ao caminho para percorrer os quartéis onde viveu o pai militar só porque houve um profundo afeto por uma criança de que nem o médico nem o furriel eram pais – interpelam quem com Carlos Silveira vai convivendo.

A memória deste Carlos, que é sempre o narrador, está num completo turbilhão, anda à rédea solta, ele lança odes amorosas a quem ainda não nos foi apresentada, Amélia de nome; a viagem começa em Maputo, cidade arruinada e cheia de lixo, há uma pungente visita ao Museu da História Natural de Maputo e não se quer esconder o sofrimento que avassala o visitante, tudo a coberto de uma sensibilidade ocidental, porventura:
“O museu é bonitinho por fora, em estilo bolo de noiva pseudo-manuelino. Por dentro arrasta-se, malferido e bolorento, porque sim, porque não há dinheiro nem energia para virar a página, porque a força do que existe pesa sobre as coisas e faz estiolar o que o poderia existir, porque a violência não dá tréguas e não deixa revisitar o passado com gestos serenos. Os animais estão cheios de pó, corroídos de gangrena, há um leopardo cinzento, já sem manchas, com a cauda partida, a palha a ver-se. O búfalo e os leões que o meu pai fotografou estão ainda no seu lugar, na sala principal, debaixo de uma enorme claraboia, na mesma posição de há cinquenta anos, mas, vistos de perto, à luz crua do sol que dardeja dos vidros sujos, não tem encanto nenhum, parecem pessoas vestidas com peles de animais que lhes servem mal, nuns casos demasiados justas, noutros a dançarem-lhe no corpo, os olhos de vidros esbugalhados, as pálpebras secas e peladas.”

E o autor dá-nos a justificação para este propósito de ter vindo a Moçambique, tudo problema que vem da infância, aquele pai deixou documentação deveras intrigante da sua passagem pela guerra colonial, assim se deliberou, sabe-se lá por expiação ou por reconciliação por tantíssimos desencontros da vida familiar, viajar por esses locais onde o pai revelou afetos, vacinou gente de todas as idades, cuidou dos estropiados e guardou silêncio pela vida fora.


Entra agora em cena Camila, filha do primeiro casamento, de comportamento extravagante, fica-se igualmente a saber que Carlos vai buscar a filha ao Algarve aos fins de semana, de acordo com os ditames da tutela parental, e aproveita para fazer sexo com a primeira mulher. Camila, entretanto, cresceu, experimentou saídas profissionais, fez fotografia, regressa-se ao casamento com Fernanda e ficamos a saber que no dia seguinte ao casamento o sogro suicidou-se, voltamos a saber dos itinerários de Camila. Carlos Silveira já chegou a Nampula, é daqui que partirá à procura de Artur.

Carlos pergunta ao motorista se havia táxis para Cuamba, sim, era possível fazer o frete por 12 mil meticais. Mais adiante, Carlos acorda noutro frete, e é exatamente neste ponto que Paulo Faria engrena num espantoso puzzle de conversas avulsas onde jogam vários passados, várias histórias familiares, entrecruzamentos com a visita a Nampula, onde não faltam estátuas mutiladas dos colonizadores portugueses, irrompe agora uma nova situação, a insolvência de uma das suas mulheres, que irá definir um período de rigorosa austeridade, Carlos a comandar a operação. Ficamos a saber como o autor escrevera o seu romance "Estranha Guerra de Uso Comum", hospedado num convento e num retiro de silêncio.

E ficamos a saber em detalhe que isto de faltar dinheiro lá em casa começara com o divórcio dos pais, agora ganhara sofisticação, a dívida era um garrote. As recordações são agora canalizadas para a infância e para a vida de Camila com o Antero, e depois temos uma litania dirigida a uma Amélia que parece estar disposta a partir:
“Estás à mercê do pânico, do salve-se quem puder, da debandada geral. Há em ti a firmeza inabalável de quem não teme perder as coisas, porque sabe que em todas elas há uma verdade que só a sua perda nos revela.”


Estamos agora em Cuamba, antiga Nova Freixo, perto do lugar onde o alferes miliciano médico, o pai de Carlos, fez a guerra. Temos novos personagens, caso do Luís Gouveia, que é de Coimbra e vive em Cuamba há dez anos a chefiar a fábrica de algodão. “É o branco certo para trabalhar em Moçambique. Não carrega o peso do passado, finge que o passado não existe. Nunca diz ‘os pretos’, diz ‘esta gente’, diz ‘estes gajos’. As pessoas desta terra produzem algodão, ele dirige uma fábrica de onde tem saído todos os anos fardos de algodão aos milhares. Não me parece que tenha alma de carrasco, mas, se tiver de escolher entre ser vítima e carrasco, será sempre carrasco. E em Moçambique é preciso escolher todos os dias, a todas as horas do dia.”

Carlos anda por Cuamba a tirar fotografias, procura que o leitor entenda o seu comportamento, a sua mentalidade:
“Transferi para os outros, para os seres e para as coisas com quem me cruzava, a responsabilidade de me atraírem para junto de si, disponível para me deixar cativar. Ensaiei ousadias, pus de parte alguns pruridos. Semeei sorrisos a lanço, plantei olhares simpáticos sem cuidar de saber se iriam medrar naquele solo. Tratei esta terra com um tu-cá-tu-lá excessivo de velhos conhecidos, como se a reencontrasse depois de muitos anos sem nos vermos (…) Percorri a quadricula colonial destas ruas largas, sentei-me num alpendre que parecia ter sido posto ali para meu deleite. Era uma casa branca com muitas portas, uma fiada de lojas, e as portas davam todas para esse alpendre corrido que se apoiava em colunas de alvenaria e que dobravam a esquina numa curva suave. E o piso do alpendre era de cimento pintado de ocre, um socalco elevado em relação à poeira da rua, e eu sentei-me ali, encostado a uma coluna, e senti através do tecido das calças a frescura do cimento muito macio nas nádegas e nas coxas, e a altura daquele degrau pareceu-me feita à medida das minhas pernas. E um velho saiu de uma loja e meteu conversa comigo e disse-me que se chamava Faustino, e disse-me que eu estava diante da casa de alvenaria mais antiga da povoação, construída por um branco chamado Francisco Maria Soeiro em 1958, quando aquela terra ainda se chamava Nova Freixo, para servir de loja de comércio geral, e que nesse tempo se vendia ali tudo.”


Posto isto, Carlos confessa para si próprio que não dissera ao seu interlocutor que Cuamba era uma terra bonita. Mas ainda estamos bastante longe de fazer a peregrinação à procura de Artur, a pretensa figura central nesta viagem, mas também onde há um móbil da expiação e em que todas as memórias da infância se canalizam para a autodescoberta que dá a provar a felicidade que há nos outros.

Paulo Faria

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 7 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28247: Notas de leitura (1948): "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições Tinta-da-China, 2026 (4) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28190: Notas de leitura (1940): "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições tinta-da-China, 2026 (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 30 de Junho de 2026:

Queridos amigos,
No prefácio deste memorável trabalho escreve o historiador António Costa Pinto: "Este livro representa o primeiro estudo substancial sobre os novos regimes políticos africanos surgidos com o fim do colonialismo português, que se tornaram independentes em 1974-1975. Publicado em inglês em 2001, não teve infelizmente até hoje um novo estudo que lhe desse continuidade."
Chabal conseguiu reunir um conjunto de nomes sonantes para apresentar em estudos país por país: David Birmingham para Angola, Malyn Newitt para Moçambique, Joshua Forrest para a Guiné-Bissau, Elisa Silva Andrade para Cabo Verde e Gerhard Seibert para São Tomé e Príncipe. Disse Chabal que foi uma auspiciosa conjugação de fatores, alguns pessoais e outros institucionais.
Obra volumosa, necessariamente que a teremos de repartir por um conjunto de textos, embora recomende a todos os interessados a sua aquisição. Volumosa pela apresentação da história destes cinco novos países, não descurando a descrição sistemática dos acontecimentos ocorridos pós-independência: o volume liga o passado pré-colonial e colonial ao período pós-colonial, numa tentativa de explicar como o seu passado pré-colonial estava a influenciar a condição atual, e visando mostrar de que modo a evolução dos cinco países se assemelha ou contrasta com a de Estados africanos semelhantes; e temos a combinação de conhecimentos específicos sobre cada país. Tarefa um tanto ciclópica, lê-se compulsivamente um estudo que apresenta no final toda a bibliografia fundamental para este quarto de século e o antes.

Um abraço do
Mário


Uma obra historiográfica de referência:
Os primeiros 25 anos das antigas colónias africanas - 1


Mário Beja Santos

É um trabalho magistral, datado de 2002, felizmente agora traduzido com o título "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições tinta-da-China, 2026; o autor principal foi o eminente académico Patrick Chabal, que dirigiu o Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros do King’s College de Londres, acolitado por outros nomes sonantes da investigação, caso de David Birmingham, Joshua Forrest, Malyn Newitt, Gerhard Seibert e Elisa Silva Andrade. Como escreveu o prefaciador António Costa Pinto, trata-se do primeiro estudo substancial sobre os novos regimes políticos africanos surgir com o fim do colonialismo português, tornados independentes em 1974-75. É, pela força das circunstâncias, um trabalho datado, um quarto de século de independências africanas lusófonas.

A estruturação da obra é bem interessante: um longo ensaio de Patrick Chabal seguindo-se estudos complementares sobre Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo-Verde e São Tomé e Príncipe. Na ótica de Patrick Chabal, o livro é fruto de uma auspiciosa conjugação de fatores que permitiram a constituição desta equipa de renomados estudiosos da África Lusófona, e o resultado é uma história abrangente de cinco países discrepantes em dimensão, localização geográfica e perfil socioeconómico; a despeito de tais discrepâncias, estes cinco países estão ligados por uma longa história colonial, foi o domínio português que ligou estes territórios, suscitando mobilidades e encontros de povos: os cabo-verdianos fixaram-se na Guiné e tiveram uma importante presença em São Tomé e Príncipe; os angolanos foram levados para São Tomé, os indianos de Goa estabeleceram-se ao longo do Zambeze, em Moçambique a partir do século XVI.

Este volumoso trabalho de equipa revela aspetos inovadores na abordagem: temos uma primeira parte que apresenta a história destes cinco países em duas perspetivas complementares, incluindo capítulos analíticos e temáticos, primeiro, e uma descrição sistemática dos acontecimentos ocorridos durante um quarto de século, depois.

Por si só, a exposição de Chabal sobre a África lusófona numa perspetiva histórica e comparada podia até ser assumida como livre autónomo. É uma longa digressão sobre quem era quem na guerra colonial, como se exprimiam os movimentos independentistas, o seu peso revolucionário, se possuíam, ou não, uma ampla base nacional, como fundamentaram a contrainsurreição, como reagiam os portugueses, a tais hostilidades, política e militarmente. Chabal procede a uma análise da descolonização observando a evolução do nacionalismo dos diferentes países, a vitalidade ou fraqueza da luta pela libertação nacional nos termos em que se descolonizou e como esta descolonização foi acompanhada com compromissos ideológicos.

O tema subsequente é o da questão da unidade nacional e o Estado-Nação, ponderando as diferentes disparidades na Guiné, Angola e Moçambique, o que abre a porta para a análise do chamado nacionalismo revolucionário. Feita a exposição sobre a guerra colonial e as suas consequências o autor pondera os modos de construção do Estado-Nação onde observa o seguinte:
“Para compreender a política pós-colonial de África, é necessário compreender a natureza da relação entre a sua história política pré-colonial, colonial e pós-colonial. Assim, é mais importante estudar a evolução da política pós-colonial africana com base na perspetiva da evolução das sociedades africanas que formam estes países independentes, em vez de o fazer simplesmente do prisma do Estado pós-colonial tal como ele foi erigido, quando da independência, sobre os alicerces (e como reação a ele) do Estado colonial.”

E socorre-se de dois exemplos que considerem elucidativos:
“Em primeiro lugar, seria de esperar que da comparação entre o Estado pós-colonial na Guiné-Bissau e em Cabo Verde resultassem grandes semelhanças. Os dois países partilharam o mesmo movimento de libertação nacional, o PAIGC, no seio do qual combateram lado a lado nacionalistas cabo-verdianos e guineenses. Na época da independência, instituíram um Estado bicéfalo, de partido único em que os dois países estavam estreitamente ligados. O PAIGC estava empenhado em fomentar uma maior ligação entre os dois países. No entanto, no intervalo de poucos anos, os laços entre ambos desfizeram-se e cada um seguiu o seu caminho.
Em retrospetiva, é fácil afirmar que Cabo Verde e a Guiné-Bissau eram muito diferentes entre si, que a sua união não era viável e que era improvável que o seu respetivo desenvolvimento pós-colonial fosse semelhante. Contudo, uma perspetiva excessivamente centrada no Estado pós-colonial oferece uma base muito frágil para explicar as razões para tão acentuadas divergências.

Em segundo lugar, uma análise do significado político da UNITA e da RENAMO, em Angola e Moçambique, a partir de um ponto de vista estritamente pós-colonial, poderia sugerir a existência de semelhanças importantes. Os dois movimentos eram ‘antissocialistas’ e ‘anti mestiços’, ‘direcionados para os negros’ e ancorados em estrutura sociopolíticas ‘tradicionais’. Ambos recorreram à violência em grande escala, ambos contribuíram para a falência da economia do respetivo país e ambos procuraram obstinadamente destruir as infraestruturas e os símbolos do poder estatal. Por último, ambos tiveram o apoio da África Austral. É, todavia, evidente que esta linha de análise ocultaria, ao invés de revelar, a génese e a importância da UNITA e da RENAMO na evolução de Angola e Moçambique, no período pós-colonial."


Patrick Chabal (1951-2014)

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 14 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28182: Notas de leitura (1939): Prefácio de António Vilar ao livro "3x44: Abel e Caim em Contrapé", de António Carvalho (Porto: eVida, 2026, 287 pp.)

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28180: Notas de leitura (1938): "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes; Tinta da China, 2016 (4) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
Catarina Gomes escreveu um livro de referência. Já nos chamara a atenção com outra obra Pai, Tiveste Medo? - sobre a forma como a experiência da Guerra Colonial chegou à geração de portugueses filhos de ex-combatentes. A primeira edição desta obra está associada a uma série documental Filhos de Tuga (RTP 1). Tudo começou em 2013 quando, em termos jornalísticos, ela partiu para a Guiné-Bissau para contar esta história no jornal Público, os filhos deixados para trás. Foi procurada por muitíssima gente. O testemunho de Fernando Hedgar da Silva, a associação que ele criou destes filhos de tuga estimularam a continuar a sua investigação, percorreu os três países onde houvera guerra, e aqui temos a história do movimento da Guiné, obra deste Fernando, a espantosa história de Óscar de Albuquerque e a sua tia Filomena, a mana Emília, a incansável Rosa Monteiro que tinha imensas saudades do pai sem nunca o ter conhecido. Sim, obra de referência, vale a pena confiar em futuras investigações sobre estas crianças que ficaram em África, filhas de pais desconhecidos.

Um abraço do
Mário



Filhos do inimigo, restos dos portugueses, seres humanos à procura de identidade – 4

Mário Beja Santos

A 1.ª edição de "Furriel não é Nome de Pai, os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes, data de 2016, a escritora e investigadora foi-se afeiçoando a este tema e esta terceira edição, já publicada em 2026, está substancialmente aumentada, mantém um vigoroso discurso narrativo, muitas vezes pungente, é uma tocante viagem à dignidade humana naqueles territórios onde houve Guerra Colonial e apareceram meninos e meninas tantas vezes repudiados, sujeitos às mais ignóbeis humilhações e que não desistem de lutar pelo direito à identidade.

Não sei se o leitor se recorda que suspendemos esta viagem contando a história de Celestina e o seu irmão gémeo Celestino, filhos de um major reformado que andou por Bambadinca, que até contou à mulher que aqui teve um “deslize”, os gémeos entraram em contacto com a mana branca, de nome Emília, esta vai dando conta das suas diligências em auxiliar os manos guineenses à mãe, Sara Martins Prado. Este nosso major fez várias comissões acompanhado pela mulher e as filhas, mas na comissão na Guiné-Bissau esteve sozinho, e a autora aproveita a circunstância para falar destes militares que tinham encontros com as lavadeiras ou combinavam com outras mulheres idas à tabanca.

Dentro do quartel era tudo difícil para as praças, dormiam em casernas lotadas de homens, os furriéis acomodavam-se em quartos de quatro homens, só de capitão para cima é que tinham quarto privativo. O pai de Emília fora um desses privilegiados. O nosso major reformado, confrontado por Emília, encolheu os ombros. “O pai aceitou falar com o dito Celestino ao telefone, mas percebeu pouco ou nada do que lhe dizia o homem guineense que afirmava ser seu filho. O pai está muito surdo, mesmo com aparelho, passou o telefone à Emília. Mas o filho distante agarrou-se àquele número de telemóvel que agora o aproximava do pai, e passou a ligar com uma insistência que, em vez de os aproximar, os afastou.”

Será Emília quem se encarregará de ir ajudando os irmãos, enviando dinheiro ou roupas. A conclusão é de que aquele pai via a relação da filha com os gémeos de lá, mas não queria falar de afetos ou reconciliação, no fundo uma história com um final como muitas outras.

Catarina Gomes dedica um capítulo aos chamados pais procuráveis, isto é, tomando como verdadeiras as histórias dos filhos, ela procurava os pais putativos para dizer que aqueles filhos existiam, e tentaria apurar se estes pais desejavam saber deles. A primeira dificuldade a superar era localizar os pais com as informações dos filhos, as pesquisas nem sempre são frutíferas, para a investigadora os resultados são mais amargos que agridoces. É neste contexto que ela pega num caso que obteve um grande tantã mediático, a viagem de António Bento que viveu uma relação amorosa com Esperança em Luvuei, leste de Angola, quarenta anos depois viajou para se encontrar com o filho, é um relato emocionante até chegar ao encontro com o seu filho Jorge Paulo Bento, conhecido entre familiares e amigos como o Pula ou o Branco; em Luena, o filho é membro da polícia de intervenção rápida, António Bento fala com os superiores dos filhos, conhece a nora e os netos e depois chega o filho, ele fora mandado de avioneta militar de Luanda para vir conhecer aquele pai, ressuma uma ternura neste encontro, nos abraços e nas lágrimas.

“António veio dizer-lhe a sua data de nascimento, 15 de janeiro de 1975, veio dizer-lhe que nasceu na enfermaria do quartel português e não em casa. Jorge gostou muito de ouvir do pai que o pai gostou da mãe, no livro que António escreveu propositadamente para o filho vem escrito que a mãe esperança é a mulher que eu amei. António diz-lhe que queria muito dar um abraço a Esperança, ‘agradecer-lhe por te ter criado sozinha’. O pai veio dizer-lhe o nome dos seus avós, Maria José Carita Reisinho e Júlio da Graça Bento, que estão na certidão de nascimento que vai usar para registar o nome do seu pai. Veio mostrar-lhe fotos de uma mãe jovem que ele não conhecia, numa delas apontou-lhe para a barriga, dizendo: ‘tu estavas aqui’.”

Se o leitor estiver interessado em conhecer mais pormenores da história, consulte o site https://acervo.publico.pt/sociedade/noticia/quem-e-o-filho-que-antonio-deixou-na-guerra-1699039.

Catarina Gomes fala-nos de Rosa que tinha saudades do pai que não conhecera, o que dele sabia resumia-se ao seu apelido, Monteiro, que ela usa; o pai fora militar em Metangula, no norte de Moçambique, de 1967 a 1968 (Rosa nasceu a 22 de maio de 1968). Metangula era porto militar colonial, dali partiam as lanchas da marinha portuguesa. Há fotografias da mãe tiradas pelo pai, Fátima Ndala com t-shirt de algodão justa ao corpo, mini saia de pregas em tecido de padrão escocês, sapatos claros estilo sabrinas. Rosa vai mostrando tudo a Catarina, queria mesmo apresentar-lhe dezenas de filhos de marinheiros portugueses da base naval de Metangula, é uma das histórias mais emocionantes pela persistência em conhecer o pai, socorrendo-se das redes sociais, até se chegar ao momento culminante de vir a saber que o pai falecera com 67 anos, ela não desfalece, insiste em contactar o irmão branco, este não quer comunicação, a irmã, a mesma coisa, Rosa guarda um álbum completíssimo com a sua família portuguesa, espero que o leitor não perca este capítulo intitulado Saudades do Pai Monteiro.

A investigadora vai colecionando histórias, ouvindo resignações, tomando nota de palavras associadas àquele tipo de relacionamento espúrio e que ganham valor complexo, tais como namoro, conversa, casamento, marido, esposa, e algo mais, matéria que merece a maior reflexão:
“Mal termino de escrever sobre estas mães, vêm-me à mente estes pais acidentais, homens que se deslocavam em bando à procura de mulher, uma qualquer, saídos de um Portugal das décadas de 1960 e 1970, em que as mulheres se queriam virgens até ao casamento, em que as famílias protegiam a castidade das filhas, em que para muitas famílias as filhas terem relações sexuais antes da noite de núpcias significava ‘desgraçarem-se’. Elas deviam vestir-se decentemente, prescreviam-se saias a ¾, das pernas apenas podiam revelar-se os tornozelos.
Longe deste Portugal, tais jovens, a maioria vindos de aldeias, encontravam-se, pela primeira vez, fora do país, num estrangeiro em que havia mulheres que não usavam sutiãs, nem saiotes e combinações, apresentando-se ao mundo estranhamente despidas. Eles podiam até assistir ao mais íntimo dos rituais: o banho.
Aportaram num mundo com uma moral às avessas.”


De uma dignidade sem mágoa do início ao fim, esta investigação aborda um dos maiores tabus entre os militares portugueses, as crianças que ficaram para trás quando terminou o conflito e que andam há anos à procura de uma identidade perdida, e onde não deixa de ser chocante a indiferença do Estado português para reconhecer a dimensão desta realidade.
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Notas do editor:

Vd. post de 6 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28161: Notas de leitura (1934): "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes; Tinta da China, 2016 (3) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 12 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28177: Notas de leitura (1937): "3x44: Abel e Caim em Contrapé", de António Carvalho (Porto: eVida, 2026, 287 pp.): "O gerúndio famoso sempre existiu no português do Brasil e, pasmem, foi nos navios, diretamente do português europeu para a América." (Angélica Lima, escritora e ediucadora brasileira)

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28161: Notas de leitura (1934): "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes; Tinta da China, 2016 (3) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 4 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
Se já estava afeiçoado ao que Catarina Gomes nos oferecera na 1.ª edição deste livro, em 2018, consolidei que esta edição de 2026 comprova como esta investigadora intensifica o vigor e a luminosidade que põe nas suas reportagens, a ponto de a dor sentida por estes filhos de tuga mexerem connosco. É uma nova dimensão dos estudos da história da guerra colonial que Catarina Gomes abriu as portas. Estamos perante factos consumados, não se podem fazer contas a quantos filhos de tuga, uns se resignaram ao abandono, outros buscam a identidade, e a única coisa certa que conhecemos é que tanto o Estado português como Angola, Guiné e Moçambique não se prepararam para reconhecer a dimensão desta realidade que a autora tão meritoriamente veio desvelar, escancarando os tabus, não deixando de nos alertar para as suscetibilidades que envolvem antigos combatentes que não têm coragem de dizer às suas famílias que há "restos de branco", carne da sua carne, a pedir identidade no clamor lá longe.

Um abraço do
Mário



Filhos do inimigo, restos dos portugueses, seres humanos à procura de identidade – 3

Mário Beja Santos

A 1.ª edição de "Furriel não é Nome de Pai, os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes, data de 2016, a escritora e investigadora foi-se afeiçoando a este tema e esta terceira edição, já publicada em 2026, está substancialmente aumentada, mantém um vigoroso discurso narrativo, muitas vezes pungente, é uma tocante viagem à dignidade humana naqueles territórios onde houve Guerra Colonial e apareceram meninos e meninas tantas vezes repudiados, sujeitos às mais ignóbeis humilhações e que não desistem de lutar pelo direito à identidade.

Depois da história de Óscar Albuquerque e da sua tia Filomena, uma narrativa sublime, onde se cruzam a dedicação, onde subjaz sempre uma forma de ternura e há um pai biológico que se põe a milhas da vida desse filho, tudo entremeado por uma burocracia infernal, temos agora os manos Celestina e Celestino, irmãos gémeos, há também um jovem branco que é o pai destes dois adultos mestiços, por acaso oficial do quadro permanente, saberemos pela narrativa que há um major reformado que tem uma filha chamada Emília, que não ficará indiferente a estes dois filhos de tuga, seus irmãos, residentes em Bambadinca.

A história começa com uma fotografia do pai dos gémeos, que está emoldurada por decisão de Celestino, este escreveu muitas vezes ao pai, não obteve resposta. Os irmãos guineenses entraram em contacto com a irmã branca através de uma carta endereçada à Excelentíssima Mana Emília Martins Prado, pediram-lhe algum dinheiro para os ajudar a viver um pouco melhor e também a fotografia do pai dos três. Emília apresentou-se, professora de Geografia, com três filhas adolescentes, vivendo numa cidade no norte de Portugal. Em nova carta Emília foi muito clara: “Sou só eu que desejo contactar convosco. Como compreendes, não posso enviar uma fotografia de uma pessoa que se recusa a estabelecer contacto convosco.” Um início de história pouco promissor.

Contudo Emília não está propriamente sozinha nesta história, tem a mais improvável das aliadas, a sua mãe, Sara Martins Prado, 82 anos, também professora – a suposta mulher traída pelo militar que já era casado quando fez os filhos gémeos na guerra. Sara sempre desconfiou de qualquer coisa. Aliás, muito interpelado por Sara, o oficial contou a verdade, deixara crianças na Guiné. Em comissões anteriores, Sara e Emília, e depois uma outra irmã, acompanharam o militar em Moçambique e Angola. Ele esteve sozinho depois na Guiné, numa geografia inventada por um qualquer estratega chamada Setor L1, o pai de Emília esteve em Bambadinca, as crianças nasceram de uma relação com a lavadeira.

A história agora ganha intensidade, Celestino corresponde-se com a tia Emília, cada um dos gémeos tem um descendente. A situação de Celestino preocupa Emília. “Celestino é carpinteiro sem carpintaria. O que consegue construir fá-lo usar ferramentas emprestadas por um vizinho, a bancada improvisada debaixo de uma árvore carregada de mangas. Portas e janelas são o que mais sai, mas ele tem competências também para montar tetos falsos. E não só. Um baú de madeira em casa de uma tia está protegido por um pano que Celestino afasta, como uma cortina que protege um quadro numa exposição, para que se veja como o alindou com trevos de quatro folhas gravados na tábua; noutra das arcas da sua lavra cunhou palmeiras, numa terceira um pelicano.”

Vamos conhecendo a família, a discreta Celestina, o seu filho Nadu, o filho de Celestino chama-se Geovane, os gémeos mudam de nome, fazem desaparecer os apelidos da mãe, Gomes Correia, para os substituir por Machado Prado, o nome do pai. Emília vai sabendo de tudo, como funcionam as creches e as escolas, uma parente afastada dos gémeos que vive em Portugal, de nome Carla, aconselha Emília quanto aos critérios da distribuição de dinheiro.

Emília fica atónita quando sabe que Celestina e Nadu estão em Portugal, o rapaz tem um problema nos olhos, toca de ensinar português a Nadu, o português de Celestina também vai melhorando. Nadu vai para uma instituição chamada Casa do Gaiato, em Miranda do Corvo, estuda com aproveitamento, a tia estimula-o. A relação entre irmãos é permanente, Celestino envia um SMS à mana, a mulher dera à luz uma menina, o seu nome é Emília Carla. Emília manda sistematicamente roupa infantil para a afilhada e não só.

E o pai dos gémeos, continua indiferente? A história termina, sabendo nós que tudo irá continuar com as preocupações da mana Emília e os sucessivos percalços na vida dos gémeos, assim:
“Emília e o pai vivem perto e são próximos, ainda há pouco ele saiu de sua casa. Há, dobradas pelos cantos, roupinhas de menina pequena. Não tem qualquer preocupação em escondê-las, pelo contrário, inconscientemente talvez as queira expor, como quando a mãe quis deixar o artigo do jornal no caminho do olhar do pai.
É impossível que o pai não repare nas saiinhas espalhadas pela casa, como uma com galo e galinha bordados em tecido de xadrez colorido. É impossível que não se tenha apercebido da acumulação de meiazinhas, sapatinhos, e que isso não lhe cause estranheza. Não há crianças pequenas na família. ‘Ele vê.’ Emília soa a criança travessa quando diz, algo sonsamente, que cumpre o que o pai lhe pediu. ‘Não falo disso’.”


A saga de Catarina Gomes vai prosseguir, temos seguidamente pais procuráveis, provavelmente não resistiremos às saudades do pai Monteiro, que a televisão se encarregou também de difundir, e a autora irá despedir-se com uma listagem de filhos que procuram pais portugueses, do género:
“António Urbino Gonçalves Brito. O pai seria 2.º grumete, originário de Câmara de Lobos, na Madeira, nascido a 11 de junho de 1951. Consta que até tentou raptar o filho pequeno para o levar para Portugal, mas que os familiares da mãe o impediram. Vive em Bissau.”
E também:
“Erasmo Fonseca. Engenheiro mecânico agrícola, nasceu em 1969. Os seus estudos levaram-no até Cuba. A sua mãe, Maria Geralda Soares Cassamá, era professora primária em Quinhamel, perto de Bissau. O furriel, de quem usa o apelido, esteve colocado no quartel de Binar, onde conheceu a mãe, numa festa em casa de familiares.”


(continua)
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Notas do editor:

Vd. post de 29 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28144: Notas de leitura (1932): "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes; Tinta da China, 2016 (2) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 3 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28152: Notas de leitura (1933): "Retratos de Guerra", desenhos de Cristina Sampaio a partir da obra de Neves e Sousa, uma exposição a não perder na Livraria Municipal Verney, Oeiras, patente ao público até 14 de Novembro (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28144: Notas de leitura (1932): "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes; Tinta da China, 2016 (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 2 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
É, indiscutivelmente, uma reportagem em dó maior, a Guiné tornou-se um palco de eleição, foi aqui que começou a investigação de Catarina Gomes para o jornal Público, houve depois livro que deu origem ao documentário Filhos de Tuga, emitido pela RTP. Tudo começou com a história de Fernando, vergastado pelo padrasto por ter nascido com a pele mais clara, Fernando não se rendeu e criou um movimento associativo, sendo motorista foi descobrindo filhos de tuga por todo o país, o nome Fernando Hedgar da Silva é o nome que muitos soletram na Guiné-Bissau, uma luz acesa para filhos de guerra, crianças que ficaram para trás em Angola, Moçambique e na Guiné-Bissau, muita gente a buscar uma identidade perdida. São relatos por vezes pungentes, em que a busca da identidade negada se acompanha de uma tocante busca de dignidade. O mais estranho de tudo, como a autora observa, é que nem o Estado nem nenhum de nós se interessa pela dimensão desta realidade.

Um abraço do
Mário



Filhos do inimigo, restos dos portugueses, seres humanos à procura de identidade – 2

Mário Beja Santos

A 1.ª edição de "Furriel não é Nome de Pai, os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes, data de 2016, a escritora e investigadora foi-se afeiçoando a este tema e esta terceira edição, já publicada em 2026, está substancialmente aumentada, mantém um vigoroso discurso narrativo, muitas vezes pungente, é uma tocante viagem à dignidade humana naqueles territórios onde houve Guerra Colonial e apareceram meninos e meninas tantas vezes repudiados, sujeitos às mais ignóbeis humilhações e que não desistem de lutar pelo direito à identidade.

Quero recordar ao leitor que estamos perante um livro de procuras, tanto há encontros como desencontros, luminosidade e negrume, não falta a mediação de Catarina Gomes, a sua tentativa que pôs filhos e pais em comunicação, os falhanços são mais que muitos, estes velhos antigos combatentes devem entrar em pânico só com a ideia de informar a família constituída que chegou a hora de receber outros descendentes até então completamente desconhecidos. O que a autora nos vai contar sobre Óscar Albuquerque e a sua tia Filomena deixa o leitor estarrecido, a ânsia de Óscar ser recebido pelo pai e a tia Filomena que acaba por fazer as vezes desse pai que não quer sair das suas tamanquinhas.

O relato começa no Instituto de Medicina Legal, é ali que se vão fazer os testes de paternidade, a tia não tem dúvidas, para ela o irmão e o sobrinho são iguais no andar, têm as pernas arqueadas. Pai e filho fazem o teste sem trocar uma palavra. “A verdade vai ser extraída do interior de dois líquidos. Em menos de 1mm de sangue e saliva, retirado aos dois homens, está contida uma resposta.” Antes de ser Óscar, chamava-se Abdulai Seidi, assim que a família descobriu que a mãe estava grávida de um militar português casou-a de urgência. Os pais separaram-se, a mãe seguiu para outro marido, Abdulai ficou a cargo do padrasto, foi educado com mais quatro irmãos por um padrasto que o maltratava. Um dia uma vizinha não resistiu contar que ele era filho de um tropa português.

Ele começou a olhar para o antigo quartel português de Ingoré como o quartel do pai. Um guineense ex-camarada de armas do pai que agora era jornalista da Rádio Nacional, confirmou a versão da vizinha, e veio a revelação do nome do pai, Manuel Albuquerque, começaram as pesquisas sobre o pai tuga. Mudou de nome. Na escola tinha ouvido falar em Afonso Albuquerque, um vice-rei da Índia destemido, Abdulai converteu-se em Óscar, processo moroso. No novo registo de nascimento preencheu o campo do pai com Manuel Albuquerque. Inevitavelmente, surgiram as trapalhadas nas datas de nascimento, no novo documento pôs-se a data de nascimento em 1978, não fazia sentido, o pai tinha andado pelo Ingoré em 1972.

Óscar começou a bater às portas: a embaixada de Portugal na Guiné-Bissau, depois o Arquivo Geral do Exército, por portas e travessas, conseguiu a morada da casa do pai, seguiu carta, e depois outra, nada de resposta. Telefonou ao pai: “Lembra de Maimuna Djau? Eu sou filho de Maimuna, o filho que você deixou na barriga. Está a falar com o seu filho, Óscar.” E veio a resposta: “Não leve a mal, não sei de nada, amigo.” Seguiram-se outros telefonemas, inúteis, e assim se passaram dez anos sem Óscar voltar a escrever ou a telefonar. A foto de Maimuna chegou ao conhecimento de Filomena Viegas, a história da existência de uma criança vinha do passado, quando o militar chegou deu notícia à mãe que terá respondido: “manda vir o menino que eu crio-te”.

Filomena herdou os álbuns de família quando a mãe morreu. O irmão de Filomena casou e assim se esqueceu o feto na barriga da adolescente negra. Foi no jornal Público que ela viu a reportagem sobre os restos de Tuga e havia lá a fotografia em meio-corpo de alguém que se chamava Óscar Albuquerque. A partir daí Filomena não parou, conversa com Catarina Gomes, depois escreveu ao rapaz da reportagem, informa o alegado sobrinho de que a data do nascimento não pode ser 1972 pois a comissão do irmão fora em 1967-1968. Impunha-se fazer um teste de paternidade, Filomena traçou os seus planos, pagaria o bilhete de avião e os testes genéticos, o rapaz ficaria em sua casa, pessoas da família acham que ela se está a exceder. No Facebook, Filomena e Óscar conversam intensamente, Óscar tem 44 anos, os problemas de família não preocupam Filomena, a sua mãe era filha de um carpinteiro de Salvaterra de Magos e uma são-tomense; também o seu pai era filho de um beirão de Vouzela e de uma são-tomense.

Filomena anda empolgada: “Sou avó, sou mãe, sou educadora de infância reformada. Se eu ajudo pessoas de fora porque é que não hei de ajudar o meu sobrinho, o meu rapaz". Filomena envia fotos da família a Óscar. Filomena gosta muito do irmão, teme que a relação dos dois possa sofrer com a vinda de Óscar. Problemas não faltam: há sempre dificuldades em obter visto na Guiné para Portugal, foram precisos muitos meses de insistência para que Óscar aterrasse no aeroporto de Lisboa numa noite chuvosa de janeiro, Filomena espera-o com um saco cheio de roupa quente, os seus diálogos são um rico manancial de ternura, e assim se chega à convocatória do Instituto Nacional de Medicina Legal para a colheita de material biológico. O encontro de pai e filho é marcado por distâncias, é uma conversa de circunstância, o pai bem lhe perguntou o que fazia, não se furtou a responder que fazia biscates em pintura.

Há uma espera de semanas, Óscar vai conhecer Lisboa, recebe ternura da tia Filomena, esta não esconde a sua euforia nas redes sociais, o sobrinho nunca tinha provado grão nem frutos secos, engordou dois quilos, depois quatro, a tia ofereceu-lhe um dicionário de português, vestiu-o com aprumo, chega o resultado, o grau de probabilidade de Óscar Albuquerque ser filho do homem que no ofício ainda é identificado como pretenso pai é de 99,999997%. No primeiro aniversário de Óscar com a família portuguesa, Filomena cozinhou bacalhau no forno, comprou champanhe do bom e um bolo de chocolate rodeado de framboesas. O pai de Óscar mantém-se distante, mas acedeu ao pedido da irmã para irem à Conservatória do Registo Civil, mais um imbróglio, o pai esteve na Guiné em 1968, mas a documentação guineense diz que Óscar nasceu em 1978, os papéis têm de voltar para a Guiné. Tudo parecia estar resolvido quando o pai disse à funcionária que era o pai do Óscar. Mas surgiu novo obstáculo, o mais inesperado: Óscar não podia ser perfilhado pelo seu pai biológico porque já estava nos seus documentos. Enfim o que servia na Guiné não servia em Portugal.

Na continuação da saga, enquanto se aguarda a chegada dos documentos corrigidos da Guiné, a tia ensinou-o a cozinhar, o sobrinho arranjou um quarto, foi-lhe recomendado que não andasse na rua a partir das dez da noite para não ser apanhado por uma rusga do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. Óscar continua a ser assíduo nas reuniões de família que Filomena organiza, o pai nunca comparece. “Filomena diz que aprendeu a gostar de Óscar desde que ele nasceu. O irmão diz que não sente nada por ele, que o rapaz foi um acidente, Filomena suspira que os pais tenham partido, eles poriam aquele filho na ordem.” Óscar pôs-se a trabalhar, ora ajuda a fazer as instalações elétricas ora a rebocar ou a pintar paredes. “Já passou tempo suficiente para se perceber que Óscar e o pai não vão estar unidos sem ser em papel, são dois nomes escritos na mesma folha de papel guineense, onde o grau de parentesco que os deviam unir não os uniu ainda, e talvez nunca os venha a unir.”

Uma história dura de ler pela intensidade a que levou o encontro, os ziguezagues da burocracia, aquela tia que às vezes é tomada de desalento, Óscar está na família portuguesa e não está, quando fala com a tia já não diz “o meu pai”. Os dias e os meses passam, o papel que ainda acalenta a esperança de Óscar é o teste do ADN. “Se for apanhado numa rusga por estar ilegal, só tem aquela folha para mostrar e, se lhe derem tempo, pode contar a sua vida. Óscar bem sabe que o valor legal do papel e da sua história são nulos. Pode ser expulso, apesar deles. Mas foi o que conseguiu, o papel e a tia.”

Que o leitor se prepare, há outras histórias empolgantes ainda para citar.

(continua)

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Notas do editor:

Vd. post de 22 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28122: Notas de leitura (1930): "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes; Tinta da China, 2016 (1) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 26 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28134: Notas de leitura (1931): "Morrer no Cacheu", um trabalho do jornalista Rui Araújo, publicado na Revista do Semanário Expresso do dia 31 de Março de 2001 (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28122: Notas de leitura (1930): "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes; Tinta da China, 2016 (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 28 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
"Furriel não é Nome de Pai", de Catarina Gomes, é de leitura obrigatória, é uma longa viagem sobre tema sobre o qual se manteve discrição ao longo de décadas, os filhos dos militares portugueses deixados na Guiné, Angola e Moçambique, crianças sovadas, discriminadas, continuam a buscar uma identidade perdida, as autoridades dos países independentes e as de Portugal nem tentam reconhecer a dimensão do problema, parecem ser coisas do destino, ainda por cima os ex-combatentes é uma categoria em vias de extinção, e as crianças deixadas nas antigas colónias, hoje homens e mulheres com mais de 50 anos nem são tema para conversas nos almoços anuais que eles fazem. É uma bela edição revista e aumentada, a narrativa é primorosa, e momentos há, caso do encontro entre Óscar Albuquerque e a sua tia Filomena que temos a convicção do poder radial e luminescente desta moderna literatura portuguesa.

Abraço do
Mário



Filhos do inimigo, restos dos portugueses, seres humanos à procura de identidade – 1

Mário Beja Santos

A 1.ª edição de "Furriel não é Nome de Pai, Os filhos que os militares portugueses deixaram na Guerra Colonial", de Catarina Gomes, data de 2016, a escritora e investigadora foi-se afeiçoando a este tema e esta terceira edição, já publicada em 2026, está substancialmente aumentada, mantém um vigoroso discurso narrativo, muitas vezes pungente, é uma tocante viagem à dignidade humana naqueles territórios onde houve Guerra Colonial e apareceram meninos e meninas tantas vezes repudiados, sujeitos às mais ignóbeis humilhações e que não desistem de lutar pelo direito à identidade.

Na introdução, a autora dá-nos conta de outras histórias de filhos de militares, não deixa de impressionar a lista de filhos de guerra, noutras paragens. A momentosa questão dos “filhos de tuga” parece não sensibilizar a sociedade portuguesa, quando os meios de comunicação social afloram esta dolorosa realidade, é o discreto silêncio que prevalece, parece ser praga ou vicissitude dos tempos de guerra sem remédio.

Esta investigação foi iniciada em 2013, na Guiné-Bissau, a própria autora ficou surpreendida pelo dilúvio da procura, partira com quatro contactos de supostos filhos de ex-militares portugueses, a receção foi turbilhonante: “Um passa-palavra descontrolado colocou ao nosso dispor uma torrente de vidas que era impossível recolher no tempo que tínhamos. Alguns filhos tinham de esperar horas para os ouvirmos, as suas histórias eram as mensagens que nunca tinham conseguido enviar aos pais. Os primeiros dias emocionaram-me, mas houve momentos em que me senti como se estivesse num guichê de repartição pública, a preencher folhas e folhas de relatos que, a certa altura, se repetiam no essencial – eu fazia ali as vezes de Portugal.”
Haverá um testemunho, o de Fernando Hedgar da Silva, que a empurrará a escrever este livro, a história da associação que ele criou é qualquer coisa de sublime nos seus percursos de dramatismo que a autora traz ao leitor. Mais adiante, ouviremos falar de Óscar Albuquerque e da sua tia Filomena, creio que são espantosas páginas antológicas que ultrapassam a linha da investigação, é um dos mais luminescentes encontros que a literatura portuguesa nos proporciona.

Ninguém conhece ao certo a dimensão do universo dos “filhos de tuga”, se são centenas ou milhares, na Guiné, Angola ou Moçambique e, francamente, é difícil fazer comparações com estimativas do Vietname ou outros locais de outras presenças coloniais, onde houve belicismos. Atenda-se ao que Catarina Gomes escreve na introdução: “Todos os dias morrem metades desta história. Os pais portugueses estão nas fases finais das suas vidas, e estes filhos, na casa dos 40-50 anos, também podem estrar perto do fim das suas. A esperança de vida dos três países africanos ronda os 30 anos. Se continua a haver todos os anos almoços-convívios de ex-combatentes é porque a guerra ainda vive nestes homens.”

Fernando Hedgar da Silva, como se disse, é um dos fios condutores desta trama. Lembra na sua meninice os fuzilamentos havidos em Canchungo de quem tinha colaborado com as tropas portuguesas, o PAIGC apodava-os de serem “traidores da Guiné”, a população fora obrigada a assistir aos fuzilamentos e do mesmo modo teve de comparecer a um baile noturno, era obrigatório celebrar – mesmo quem acabava de perder familiares. A vida de Fernando mudou no dia em que o vizinho o admoestou dizendo que ele não tinha direito à opinião, era um resto de tuga. Pôs-se nu diante do espelho, ali estava no seu tom de pele a razão pela qual a mãe o chamava em casa “branco” e “tuga”. Assim se iniciou a sua saga à procura de identidade, Fernando pensava que o pai se chamava Furriel, bateu a portas, mesmo à da Embaixada de Portugal, não encontrou saída, um dia tomou a decisão de criar uma associação “os filhos de tuga”.

Como era camionista, ia percorrendo o país à procura de “filhos de tuga”, passados os inúmeros encontros, ganhou corpo a Associação de Solidariedade dos Filhos e Amigos dos Ex-Combatentes Portugueses na Guiné-Bissau – Fidju di Tuga. As primeiras reuniões acabavam em longos convívios. E Catarina Gomes faz entrar em cena outros personagens, retornamos à vida nos quartéis, aos restos de comida dados a mulheres, e de repelão surge-nos a história de Nenedjo Djaló, ela não procurou, foi encontrada. “Foi por acaso: dois ex-combatentes portugueses, em romagem nostálgica à Guiné, cruzaram-se com um primo de Nenedjo, que aproveitou para chamar a atenção para a filha que o capitão Lopes tinha deixado. Conheciam-no e aceitaram levar-lhe a novidade. A primeira vez que Nenedjo e o pai falaram ao telefone choraram, e ele deu-lhe a escolher: ‘Queres vir cá ou vou eu aí?’. Ela não teve dúvidas, era a oportunidade de se vingar: ‘Preciso que você venha cá, as pessoas que me discriminaram, quero que elas o vejam’.” O pai veio, Nenedjo foi até Portugal, mas a relação não teve sequência, o pai gosta, mas não a reconhece.

Acompanharemos outras viagens de Fernando, iremos mesmo ao cemitério de Bissau. “Alguns filhos da Associação já choraram ao ler os nomes que se deixam ler. Os que não sabem bem como se chama o pai, como Fernando, também já se perguntaram se nalgumas daquelas sepulturas estará o pai. E se ele for um dos homens apagados? Nesse sentir há uma tristeza, mas, simultaneamente, uma esperança porque assim o abandono dos filhos não o seria. Os pais não vieram ter com eles porque nunca saíram dali, morreram na Guiné, coitados, tão jovens, pouco depois de os terem feito.”

Discutem-se nomes hipotéticos para os pais desconhecidos, fazem-se aditamentos nas certidões de nascimento, e assim se criou a ilusão de se ganhar uma vida própria. Fernando não para de investigar. Consultou os registos paroquiais na igreja de Canchungo. Encontrou-se a ser batizado na folha 59, certidão n.º 106. Existia há mais tempo do que pensava. Em vez de ter nascido a 24 de dezembro de 1971, como vinha no seu bilhete de identidade, ele era, afinal, de 5 de janeiro de 1968. Na certidão nada da identidade do pai nem dos avós paternos. Mas vinha lá o nome dos padrinhos de batismo, um português que então vivia em Teixeira Pinto, um comerciante que já tinha morrido. A madrinha era parteira, viera para Portugal há muitos anos. O seu nome era Ermelinda Félix Tavares. A autora, depois de longos meses de pesquisa, encontrou-a. Mostrou-lhe a fotografia de Fernando adulto, não se lembrava dele nem da mãe, Sabadozinha Mendes. Houve conversa de mulheres: “São coisas que aconteceram durante a guerra. Se elas precisavam de alguma coisa davam-se aos militares. Não era amor, não, coitadas.”

Vamos ver seguidamente um dos episódios espantosos (senão o mais espantoso, pelo nível de ternura e meandros de encontros e desencontros) desta pesquisa, Óscar Albuquerque e a sua tia Filomena, prestem atenção.

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 19 de Junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28115: Notas de leitura (1929): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (4): VII - A Viagem do Tangomau e VIII - As investigações sobre a Senegâmbia e algo mais (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28035: Notas de leitura (1925): "Estranha Guerra de Uso Comum" de Paulo Faria; Ítaca, 2016 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 21 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
É um romance excecional, creio que abre uma janela de originalidade. Estamos habituados a romance, novela, conto, digressão memorial, de antigos combatentes e não só, reportagens e biografias de largo espectro, abarcando enfermeiras paraquedistas, correspondência entre pais e filhos durante a guerra, estudos sobre as mulheres dos combatentes, filhos de combatentes que ficaram em África, que um dos nossos confrades deu o epíteto de filhos do vento, madrinhas de guerra, e algo mais. 

Desta feita, e sabe-se lá com que cunho autobiográfico, Paulo Faria, um tradutor conceituado, vai organizar uma viagem com cartas ao pai e entrevistas a dez militares que conviveram com este alferes miliciano médico em vários pontos de Moçambique. 

É um tremendo confronto numa sala de espelhos entre a memória do pai e da família e o que dele pensaram militares que partilharam as agruras, desventuras, descobertas, afetos e até confrontos na cadeia do comando. Uma trama de cunho universal, qualquer um de nós terá convivido com o todo ou as partes daquelas dez entrevistas. Quando o Dr. António Silveira morreu, o filho foi em busca da guerra dele e também da sua. Foi ao fundo do fundo, cumpriu-se o dever de memória e há mistérios tão densos como verdades que não devem ser interpeladas. De leitura obrigatória, é uma joia literária.

Um abraço do
Mário



Quis saber mais sobre o meu pai, alferes miliciano médico em Moçambique:
Este livro é a minha busca da guerra dele e também da minha


Mário Beja Santos

Paulo Faria
Quando procuramos o âmbito deste subgénero literário que designamos por literatura da guerra colonial, é possível incluir o romance, a poesia, a novela, o testemunho memorial do combatente, a vasta historiografia sobre as três frentes ou a visão de conjunto, a análise sobre os intervenientes feitos por terceira pessoa que estudam a enfermeira paraquedista, as tropas africanas que combateram ao lado das portuguesas, e podemos igualmente enxertar neste vasto âmbito os testemunhos dos filhos e a ficção que tem o seu foco em acontecimentos da guerra colonial, aqui posso incluir o romance O Último Avô, de Afonso Reis Cabral e agora este romance de altíssima qualidade de Paulo Faria, Estranha Guerra de Uso Comum, Ítaca, 2016.

A originalidade que preside a esta escrita passa pela organização de um romance que nos quer ludibriar que fosse uma reportagem, o alferes miliciano médico definhou, com muitos padecimentos viveu numa residência sénior e quando faleceu a guerra do pai apropriou-se do escritor, este falou com dez homens que estiveram numa guerra silenciada em casa, ou quase, e escreveu dez cartas ao pai, interpolam-se os testemunhos com as missivas íntimas do vinho que dá conta de paradoxos, labirínticas frases, com que, de tempos a tempos, se sabia do que ele vivera nalguns recantos de Moçambique.

Os testemunhos ficcionados são quase sempre admiráveis, e somados ganham tonalidades macroscópicas da vivência e lembranças dos antigos combatentes: a ardência do sexo, a presença das prostitutas, as colunas de abastecimento e o pesadelo das minas, a morte à queima-roupa do dia, a carta em que o filho interpela o pai sobre um punhado de fotos onde há a presença bastante frequente de uma criança, sabe-se lá se esta não foi tomada como um filho adotivo, o autor até foi ler revistas da época para tentar entender como o pai justificava a sua presença na guerra; iremos ouvir falar do Lago Niassa, de Vila Cabral, do quartel do Chicôco, de Jemusse, de Parapi, de Manhauane, e outras paragens; serão afloradas as relações entre oficiais e subordinados; o filho confessa ao pai que está a ávido de conhecer as histórias dele em África, porque “deixei passar o momento certo e agora corro atrás de um comboio em andamento, tentando apanhá-lo, é bonito, mas não é bem verdade. Estou ávido de conhecer as histórias precisamente porque já não estás aqui para as contar”; e dá-nos a imagem que ele guarda do pai e da relação familiar e de tudo mais que aconteceu depois do divórcio, tudo isto é escrito numa toada de mágoa e abandono; nas entrevistas aparece o alferes Elpídio Barros, tu cá e tu lá com o entrevistador, Carlos Silveira, procura dar um quadro daquela guerra vivida em alguns pontos do distrito de Manica e Sofala, fica-se a saber que o alferes médico António Silveira falava sem parar da família, que protegia as crianças, de novo aparece a história daquela criança abandonada, o tal Artur, que terá direito a uma farda e a dormir no quarto aos pés da cama do alferes médico, de novo recordações das picadas onde as viaturas se atascavam na época das chuvas, o filho do médico leva fotografias para as entrevistas, o entrevistado faz os comentários que a memória ainda permite; é inevitável, fala-se de operações, de mortes e feridos; outros testemunham, quem depõe chama-se Alberto Tavares Santana, diz que o pessoal do batalhão era quase todo da região do Douro, do Minho e de Trás-os-Montes, o que causava alguns problemas de logística, só queriam comer batata, o arroz era alpista, faz uma descrição das instalações militares, das valas de proteção, dos ratos a correr nas traves, das instalações sanitárias imundas, de uma jiboia a comer uma cabra, e de novo se volta à história do guia morto à queima-roupa.

Tudo conjugado, os entrevistados ajudam a fazer o puzzle, as cartas ao pai é um permanente caminhar no escuro, é quase como um querer agarrar uma esfera com dois dedos, são sucessivas recordações da infância e da juventude, como aquela vida doméstica parecia ter apagado em definitivo a memória do alferes médico.

 O leitor já está capturado pela forma como se rendilham entrevistas e cartas, é suposto haver alguém que desencante um elemento informativo que ilumine a figura do pai, todos abonam que o alferes António Silveira era um médico exemplar, nada dado a cunhas nem a falsas doenças, de súbito volta-se ao passado da vida familiar, o entrevistado seguinte abre uma nova dimensão de uma história que podia ser aferida como interminável, a figura do Artur em dado momento parece sair do livro e entrar diretamente na conversa, Carlos Silveira oferece a fatiota do Artur a alguém que nunca o esqueceu e que recebe aquela prenda como um tesouro.

Talvez o Artur fosse filho de um militar português, tinha sinais de mestiço. E com o avançar de entrevistas interpoladas com cartas ao pai, os contornos deste parecem ganhar uma forma de densidade, bem curiosa é a entrevista que o autor faz a João Castanheira Matias, este vai depondo sempre com o olho revirado para o ecrã da televisão e para um desafio do Sporting-Porto, Matias não se esquece de contar a história de que foi mordido por uma cobra, apareceu o pai com o antídoto, afinal era um médico bem-disposto, muito metido com ele, os entrevistados guardam dele a imagem de um homem sereno, nada que tenha ficado nas recordações de Carlos Silveira que achava o pai um homem tenso, mantinha uma relação dura com ele, pouco efusivo.

E prossegue toda esta caminhada sobre uma estranha guerra do que se passou lá em África e dos silêncios familiares contrastantes. E o autor tece numa meditação sobre os entrevistados, magnífico remate para o labirinto da guerra do pai e da guerra do filho:

“Quando eles me contam histórias que nunca contaram a ninguém, percebo que cheguei à tal essência, percebo que fui ao fundo. Quando me contam histórias que nunca contaram a ninguém daquela maneira, pelo menos. Quando deixam de se gabar e se interrogam. Querem que eu escreva tudo, porque esperaram muito tempo por alguém disposto a ouvi-los assim, alguém com todo o tempo do mundo para os ouvir. Percebo que fui ao fundo da história quando os olhos se lhes turvam, mas é uma coisa de escassos segundos, de meio segundo, uma coisa abafada. Percebo que fui ao fundo quando nos olhos deles já não vejo fúria nem vergonha, mesmo ao contarem-me gestos grotescos, coisas obscenas e vis que fizeram ou a que assistiram, quando percebo que eles sublimaram a fúria e a vergonha e me contam os gestos tal e qual os viram com as cores vivas e sujas do Niassa (…) Depois destas conversas com os teus camaradas, fez-se em mim uma estranha paz.”

Como se quisesse dizer que a guerra que ele quis saber do pai era mesmo uma estranha guerra de uso comum que reconciliou pai e filho. Quanto ao mais todas estas guerras vividas em África precisam urgentemente de revisitação e aceitação como corpo do nosso passado.

Um belíssimo romance, acreditem. Comecei por ler um exemplar emprestado pela Biblioteca da Liga dos Combatentes, não descansei enquanto não adquiri o exemplar. A Ítaca Editora vende este livro por um preço simbólico de 4 euros (contacto da Ítaca: 964 440 940).

“A guerra colonial foi o conflito mais significativo que Portugal travou no século XX. Tenho para mim que um país que não consegue olhar para a sua História é um país perdido.” Paulo Faria em entrevista

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Nota do editor

Último postda série de 18 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28034: Notas de leitura (1924): "Os Có Boys (Nos Trilhos da Memória)", de Luís da Cruz Ferreira, ex-1º cabo aux enf, 2ª C/BART 6521/72 (Có, 1972/74) - Parte XI: O primeiro ato de enfermagem: tratar um queimado