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segunda-feira, 18 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28035: Notas de leitura (1925): "Estranha Guerra de Uso Comum" de Paulo Faria; Ítaca, 2016 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 21 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
É um romance excecional, creio que abre uma janela de originalidade. Estamos habituados a romance, novela, conto, digressão memorial, de antigos combatentes e não só, reportagens e biografias de largo espectro, abarcando enfermeiras paraquedistas, correspondência entre pais e filhos durante a guerra, estudos sobre as mulheres dos combatentes, filhos de combatentes que ficaram em África, que um dos nossos confrades deu o epíteto de filhos do vento, madrinhas de guerra, e algo mais. 

Desta feita, e sabe-se lá com que cunho autobiográfico, Paulo Faria, um tradutor conceituado, vai organizar uma viagem com cartas ao pai e entrevistas a dez militares que conviveram com este alferes miliciano médico em vários pontos de Moçambique. 

É um tremendo confronto numa sala de espelhos entre a memória do pai e da família e o que dele pensaram militares que partilharam as agruras, desventuras, descobertas, afetos e até confrontos na cadeia do comando. Uma trama de cunho universal, qualquer um de nós terá convivido com o todo ou as partes daquelas dez entrevistas. Quando o Dr. António Silveira morreu, o filho foi em busca da guerra dele e também da sua. Foi ao fundo do fundo, cumpriu-se o dever de memória e há mistérios tão densos como verdades que não devem ser interpeladas. De leitura obrigatória, é uma joia literária.

Um abraço do
Mário



Quis saber mais sobre o meu pai, alferes miliciano médico em Moçambique:
Este livro é a minha busca da guerra dele e também da minha


Mário Beja Santos

Paulo Faria
Quando procuramos o âmbito deste subgénero literário que designamos por literatura da guerra colonial, é possível incluir o romance, a poesia, a novela, o testemunho memorial do combatente, a vasta historiografia sobre as três frentes ou a visão de conjunto, a análise sobre os intervenientes feitos por terceira pessoa que estudam a enfermeira paraquedista, as tropas africanas que combateram ao lado das portuguesas, e podemos igualmente enxertar neste vasto âmbito os testemunhos dos filhos e a ficção que tem o seu foco em acontecimentos da guerra colonial, aqui posso incluir o romance O Último Avô, de Afonso Reis Cabral e agora este romance de altíssima qualidade de Paulo Faria, Estranha Guerra de Uso Comum, Ítaca, 2016.

A originalidade que preside a esta escrita passa pela organização de um romance que nos quer ludibriar que fosse uma reportagem, o alferes miliciano médico definhou, com muitos padecimentos viveu numa residência sénior e quando faleceu a guerra do pai apropriou-se do escritor, este falou com dez homens que estiveram numa guerra silenciada em casa, ou quase, e escreveu dez cartas ao pai, interpolam-se os testemunhos com as missivas íntimas do vinho que dá conta de paradoxos, labirínticas frases, com que, de tempos a tempos, se sabia do que ele vivera nalguns recantos de Moçambique.

Os testemunhos ficcionados são quase sempre admiráveis, e somados ganham tonalidades macroscópicas da vivência e lembranças dos antigos combatentes: a ardência do sexo, a presença das prostitutas, as colunas de abastecimento e o pesadelo das minas, a morte à queima-roupa do dia, a carta em que o filho interpela o pai sobre um punhado de fotos onde há a presença bastante frequente de uma criança, sabe-se lá se esta não foi tomada como um filho adotivo, o autor até foi ler revistas da época para tentar entender como o pai justificava a sua presença na guerra; iremos ouvir falar do Lago Niassa, de Vila Cabral, do quartel do Chicôco, de Jemusse, de Parapi, de Manhauane, e outras paragens; serão afloradas as relações entre oficiais e subordinados; o filho confessa ao pai que está a ávido de conhecer as histórias dele em África, porque “deixei passar o momento certo e agora corro atrás de um comboio em andamento, tentando apanhá-lo, é bonito, mas não é bem verdade. Estou ávido de conhecer as histórias precisamente porque já não estás aqui para as contar”; e dá-nos a imagem que ele guarda do pai e da relação familiar e de tudo mais que aconteceu depois do divórcio, tudo isto é escrito numa toada de mágoa e abandono; nas entrevistas aparece o alferes Elpídio Barros, tu cá e tu lá com o entrevistador, Carlos Silveira, procura dar um quadro daquela guerra vivida em alguns pontos do distrito de Manica e Sofala, fica-se a saber que o alferes médico António Silveira falava sem parar da família, que protegia as crianças, de novo aparece a história daquela criança abandonada, o tal Artur, que terá direito a uma farda e a dormir no quarto aos pés da cama do alferes médico, de novo recordações das picadas onde as viaturas se atascavam na época das chuvas, o filho do médico leva fotografias para as entrevistas, o entrevistado faz os comentários que a memória ainda permite; é inevitável, fala-se de operações, de mortes e feridos; outros testemunham, quem depõe chama-se Alberto Tavares Santana, diz que o pessoal do batalhão era quase todo da região do Douro, do Minho e de Trás-os-Montes, o que causava alguns problemas de logística, só queriam comer batata, o arroz era alpista, faz uma descrição das instalações militares, das valas de proteção, dos ratos a correr nas traves, das instalações sanitárias imundas, de uma jiboia a comer uma cabra, e de novo se volta à história do guia morto à queima-roupa.

Tudo conjugado, os entrevistados ajudam a fazer o puzzle, as cartas ao pai é um permanente caminhar no escuro, é quase como um querer agarrar uma esfera com dois dedos, são sucessivas recordações da infância e da juventude, como aquela vida doméstica parecia ter apagado em definitivo a memória do alferes médico.

 O leitor já está capturado pela forma como se rendilham entrevistas e cartas, é suposto haver alguém que desencante um elemento informativo que ilumine a figura do pai, todos abonam que o alferes António Silveira era um médico exemplar, nada dado a cunhas nem a falsas doenças, de súbito volta-se ao passado da vida familiar, o entrevistado seguinte abre uma nova dimensão de uma história que podia ser aferida como interminável, a figura do Artur em dado momento parece sair do livro e entrar diretamente na conversa, Carlos Silveira oferece a fatiota do Artur a alguém que nunca o esqueceu e que recebe aquela prenda como um tesouro.

Talvez o Artur fosse filho de um militar português, tinha sinais de mestiço. E com o avançar de entrevistas interpoladas com cartas ao pai, os contornos deste parecem ganhar uma forma de densidade, bem curiosa é a entrevista que o autor faz a João Castanheira Matias, este vai depondo sempre com o olho revirado para o ecrã da televisão e para um desafio do Sporting-Porto, Matias não se esquece de contar a história de que foi mordido por uma cobra, apareceu o pai com o antídoto, afinal era um médico bem-disposto, muito metido com ele, os entrevistados guardam dele a imagem de um homem sereno, nada que tenha ficado nas recordações de Carlos Silveira que achava o pai um homem tenso, mantinha uma relação dura com ele, pouco efusivo.

E prossegue toda esta caminhada sobre uma estranha guerra do que se passou lá em África e dos silêncios familiares contrastantes. E o autor tece numa meditação sobre os entrevistados, magnífico remate para o labirinto da guerra do pai e da guerra do filho:

“Quando eles me contam histórias que nunca contaram a ninguém, percebo que cheguei à tal essência, percebo que fui ao fundo. Quando me contam histórias que nunca contaram a ninguém daquela maneira, pelo menos. Quando deixam de se gabar e se interrogam. Querem que eu escreva tudo, porque esperaram muito tempo por alguém disposto a ouvi-los assim, alguém com todo o tempo do mundo para os ouvir. Percebo que fui ao fundo da história quando os olhos se lhes turvam, mas é uma coisa de escassos segundos, de meio segundo, uma coisa abafada. Percebo que fui ao fundo quando nos olhos deles já não vejo fúria nem vergonha, mesmo ao contarem-me gestos grotescos, coisas obscenas e vis que fizeram ou a que assistiram, quando percebo que eles sublimaram a fúria e a vergonha e me contam os gestos tal e qual os viram com as cores vivas e sujas do Niassa (…) Depois destas conversas com os teus camaradas, fez-se em mim uma estranha paz.”

Como se quisesse dizer que a guerra que ele quis saber do pai era mesmo uma estranha guerra de uso comum que reconciliou pai e filho. Quanto ao mais todas estas guerras vividas em África precisam urgentemente de revisitação e aceitação como corpo do nosso passado.

Um belíssimo romance, acreditem. Comecei por ler um exemplar emprestado pela Biblioteca da Liga dos Combatentes, não descansei enquanto não adquiri o exemplar. A Ítaca Editora vende este livro por um preço simbólico de 4 euros (contacto da Ítaca: 964 440 940).

“A guerra colonial foi o conflito mais significativo que Portugal travou no século XX. Tenho para mim que um país que não consegue olhar para a sua História é um país perdido.” Paulo Faria em entrevista

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Nota do editor

Último postda série de 18 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28034: Notas de leitura (1924): "Os Có Boys (Nos Trilhos da Memória)", de Luís da Cruz Ferreira, ex-1º cabo aux enf, 2ª C/BART 6521/72 (Có, 1972/74) - Parte XI: O primeiro ato de enfermagem: tratar um queimado

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28010: Notas de leitura (1921): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (7) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 22 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
Agora que chegamos ao término da viagem, importa realçar que não estamos perante uma história da guerra nem mesmo história oral de valor memorial sobre a guerra. Trata-se de uma abordagem onde se procura analisar a estratégias desenvolvidas pelas famílias no tocante à relação entre pais e filhos durante a guerra. Há uma linha de conduta dos militares lá longe apelando aos filhos perseverança nos estudos e coesão familiar, como se houvesse a antevisão de que eles viriam mudados e se impusesse um esforço de adaptação. Estes filhos dos militares, em conversa com as autoras, falavam por vezes como se ainda fossem pequenos; e o terem retomado as memórias da infância e da adolescência, as estadias do Colégio Militar e do Instituto de Odivelas, a necessidade dos irmãos se terem reunido para relerem cartas e aerogramas traz leituras por vezes bem curiosas sobre a relação dos pais depois dos militares terem definitivamente regressado a casa. Nestas reuniões com as autoras também houve assombros a escutar de novo as fitas magnéticas onde não faltam cantigas, conversas sobre os estudos e até músicas do Festival da Canção. Na verdade, os pais voltaram outros, em muitos casos houve a necessidade de deixar passar o tempo para depois descobrir que tudo tinha mudado na sociedade, nos valores e nos contextos sociais.

Um abraço do
Mário



Olhe que o pai faz muita falta. Foi com a sua comissão que eu aprendi o quanto custa o estar longe e só e para nós o sofrimento não se compara com o seu – 7

Mário Beja Santos

Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975, por Ana Vargas e Joana Pontes, Tinta da China, 2025, é um livro arrebatador, profundamente terno, e, tanto quanto me é dado de saber, preenche uma lacuna no campo da investigação.

Vamos hoje despedir-nos destas conversas entre filhos e pais em tempos de guerra falando de Joaquim Pires Afreixo e Fernando Manuel Saraiva. Joaquim era funcionário dos CTT quando foi requisitado em 1961 para o Serviço Postal Militar (SPM), tinha 36 anos e foi graduado em alferes. Constituído o teatro de operações de Angola havia que organizar a distribuição do correio aos militares em campanha. Os CTT em Angola não dispunham de meios para fazer face ao crescente volume da correspondência. Deu-se o caso de a correspondência entre os combatentes e as suas famílias se ter acumulado em Luanda por mais de três meses. Determinou-se que essa correspondência seria enviada para o Quartel-General da Região Militar de Angola, mas o problema não ficou resolvido.

Foi então que o ministro do Exército determinou a organização do SPM, o objetivo era criar uma estrutura que fizesse chegar ao seu destino, o mais rapidamente possível, a correspondência e as encomendas. Joaquim fez quatro comissões, sempre neste serviço, em Moçambique, em Macau, na Guiné, de novo em Moçambique. Joaquim permaneceu muito tempo afastado dos filhos. José, o mais velho, nasce em 1955, e Lucinda em 1962. Quando Joaquim regressa dois anos depois, José não o reconheceu. Até ao seu regresso em 1965, Joaquim passará apenas curtos períodos em Lisboa com a família. A mulher de Joaquim trabalhava como bibliotecária e arquivista, manifestamente não quis ir para os locais onde o marido procurava manter o SPM em bom andamento.

Lucinda vai com dez anos para o Instituto de Odivelas e o irmão para a Faculdade de Medicina. Na correspondência Joaquim nunca fala da guerra, mas em Lisboa aborda-a, à luz do que vê e ouve. Ele comprara um gravador de cassetes para poder enviar à família notícias suas e canções românticas; nas cartas remetia fotografias. O pai pede aos filhos notícias. Com o passar do tempo, Joaquim vai revelando um outro olhar sobre o lugar onde está. Na troca de cartas o tema da escola é recorrente.

Finda a guerra, Joaquim regressa em 1975, depois da independência de Moçambique, é integrado no Exército e chega a Tenente-coronel. A guerra raramente esteve presente nas conversas da família. O tempo foi passando e o que ficou desses tempos está na correspondência que se salvou da fogueira.

Agora Fernando Manuel Saraiva. Nuno tem três anos e oito meses quando o pai, o Capitão Miliciano Fernando Saraiva parte para Moçambique, mobilizado para comandar a 1.ª Companhia do Batalhão de Caçadores n.º 4811, partiu em abril de 1973, vai de avião com 165 homens, entre os quais um médico, um enfermeiro e dois auxiliares de enfermagem, quase todos os militares são originários dos Açores. Ao chegar a Moçambique, o Batalhão assume a responsabilidade por uma zona de atuação no distrito de Niassa com uma superfície aproximada de 14 mil km2.

Antes da mobilização, Fernando era estudante de Engenharia e havia entrado na carreira de Despachante. Quando soube que ia ser mobilizado, preparou a saída de Portugal com destino a Paris, mas o pai impediu-o. Nuno fica com a mãe, de nome Maria José, era doméstica. Maria José escreve todos os dias a Fernando, lamentando a sua ausência. Nos aerogramas que envia ao filho, Fernando faz desenhos para Nuno colorir ou copiar.

Nuno recorda às autoras: “As cartas que escreve para a minha mãe é para a descansar. É o paraíso. A forma como ele fala comigo é por vezes autoritária, outras vezes como se fala com um bebé. Nas cartas em que enviava ao meu avô a forma é um pouco mais dura. A partir de uma certa altura, o meu avô deixa de escrever, era a minha tia que escrevia em nome dele. A escrita do meu avô era muito certinha, escrevia autênticos testamentos onde ele dava conta do que estava a acontecer ao país real.”

Em 1 de abril de 1974 Nuno e a mãe chegam a África, comenta o filho: “Muita insistência dela, o meu pai não queria.” Mãe e filho chegaram a Muembe, local onde estava a Companhia de Caçadores que o pai comandava. Nuno não o reconhece. A família fica alojada no aquartelamento juntamente com outros oficiais e as respetivas mulheres. A companhia encontrava-se instalada numa zona montanhosa, cortada por inúmeros rios e linhas de água. Não há população branca na zona de atuação do Batalhão, apenas dois cantineiros. A população vive em aldeamento para onde foi deslocada. Muitos fugiram para o Maláui e para a Tanzânia, e aldeias que se sabe estar sob controlo do inimigo. A população é maioritariamente muçulmana e não fala português.

A conversa de Nuno com as autoras recolhe muitas informações do livro da Unidade. Chegou-se ao 25 de abril e Nuno lembra-se da agitação e da alegria dentro do quartel, veio depois uma grande tensão, pela indefinição relativa ao futuro dos militares. O Batalhão inicia o seu regresso a partir de novembro de 1974. A família regressa a casa. Nascem mais duas filhas. Não se fala da guerra. A mãe não esconde as boas memórias da passagem por África. Com o pai foi diferente, como Nuno relata: “O meu pai tornou-se extremamente violento comigo, e eu atribuo isso também um bocado à cabeça meio esfrangalhada com que ele veio. Houve episódios de violência muito, muito grandes. O meu pai também se reencontrou, mas muito mais tarde.”

Depois da sua morte, Nuno tem participado nos almoços de confraternização da Companhia. “O meu pai destruiu tudo o que tinha a ver com a guerra ou com a memória da guerra.” Dos poucos aerogramas que sobraram, Nuno lê um excerto:
“E por saber que tens ido à praia o pai fez hoje um desenho para colorires. Trata-se de um marinheiro, que está a passear numa praia e tem uma gaivota com um peixe na boca em cima do chapéu. Quando a mamã escrever diz-lhe para ela contar como o Nuno passa os dias, como costuma brincar. E também se desenhas e pintas bonecos.”
E a conversa com as autoras termina assim: “Eu tinha sempre de participar, sempre, o que me faz pensar que também esse exercício, esse jogo contínuo, me levou a ser o que sou hoje, um desenhador.”

No epílogo da obra, as autoras reafirmam que o seu objetivo era de contribuir para um melhor conhecimento deste período. “A separação familiar revelou-se uma experiência avassaladora, com repercussões nos laços entre o casal e os pais com os filhos. Esta vivência torna-se consciente muito mais tarde na vida das crianças envolvidas, hoje adultos.” Consideram que este recuo a memórias da infância, a descoberta de novas fotografias, a reunião com irmãos para falar desses tempos resultou num visível alívio para quase todos. Há filhos que fizeram perguntas ao pai sobre a guerra, as respostas foram raras, por vezes evasivas. E nos relatos onde se usa a crueza de narrar o acontecido, como observam as autoras, mais parecem desabafos escritos para si próprios do que para os filhos, que não podiam compreender do que falava o pai. Falava-se por vezes da fuga das populações, das aldeias dispersas permeáveis à influência do inimigo, há militares que falavam das crianças órfãs então escrevem sobre elas, alguns pensando nos próprios filhos.

O epílogo termina de modo muito poético:
“No regresso, os pais voltaram outros. Como só a poesia, nas palavras de Fiama Hasse Pais Brandão, sabe exprimir:
Outras andorinhas voltam, não as que
partiram dos beirais, no outono.
Mudaram no deserto as suas imagens,
e as que volteiam hoje sobre esta água
no passado conheceram outro destino.
Que lugar trarão na memória dos olhos?”

Terna e estrénua foi a pesquisa, o resultado é este livro esplendente.

Ana Vargas e Joana Pontes
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Notas do editor:

Vd. post de 4 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27987: Notas de leitura (1919): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (6) (Mário Beja Santos)

Último post da série de8 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28001: Notas de leitura (1920): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (1): I - À guisa de apresentação do ex-combatente e II - Foi assim que cheguei ao Cuor (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27959: Notas de leitura (1917): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (5) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
Bem distintos foram os itinerários de João Corte-Real de Araújo Pereira e o de Rogério Pereira. O primeiro embarcou para Timor em 1959, era capitão, na viagem no navio Índia, descobre empatia com Luísa, haverá namoro e depois casamento, o casal ficou quatro anos em Timor. Seguem-se novas comissões, vão aparecendo mais filhos. As comissões são em Moçambique, Angola e Guiné. Os mais velhos irão frequentar o colégio militar. A mãe sofre de surdez, mas nada abalou o bom relacionamento entre a mãe e os filhos. Dá por vezes pormenores do que faz nas suas comissões, sobretudo na Guiné. Rogério Pereira foi furriel miliciano em Angola entre 1969 e 1971. Publicou a sua correspondência num livro que intitulou de Almas que não foram fardadas. No seu casamento com Teresa surgiram três filhas, duas das quais já existem quando ele está em Angola. Sente-se do seu depoimento que a guerra lhe trouxe mudanças profundas, deu-lhe um grande sentimento de solidariedade com gente tão carenciada. Sofreu muito com a morte da mulher e está bastante arrependido de ter destruído a correspondência que lhe enviou dos sítios onde viveu em Angola.

Um abraço do
Mário



Olhe que o pai faz muita falta. Foi com a sua comissão que eu aprendi o quanto custa o estar longe e só e para nós o sofrimento não se compara com o seu – 5

Mário Beja Santos

Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975, por Ana Vargas e Joana Pontes, Tinta da China, 2025, é um livro arrebatador, profundamente terno, e, tanto quanto me é dado de saber, preenche uma lacuna no campo da investigação.

João Corte-Real de Araújo Pereira era capitão quando embarcou para Timor, no final do mês de setembro de 1959. Acontece que naquele navio, no Índia seguia também Luísa e a família. O pai da Luísa tinha sido nomeado para Comandante Militar em Timor. Aqui chegados, houve namoro e casamento, em Baucau, 1962. Observa João que Timor era uma colónia desgraçada, abandonada, não tinha luz, não tinha água, nada. Houvera uma sublevação em Viqueque contra as autoridades portuguesas em junho de 1959, rapidamente sufocada. Sabe-se que na sua origem estavam catorze indonésios que se encontravam exilados em Timor. O sogro de João fez um relatório da sublevação, aí escreveu: “O problema da subalimentação e definhamento das populações nativas, já referido pelo antigo Governador Álvaro de Fontoura no seu livro "O trabalho dos indígenas de Timor" é hoje verdadeiramente angustiante.”

João ficou quatro anos em Timor, Luísa regressa e dá à luz gémeos. Seis meses passados deste nascimento, João parte para a segunda comissão, em Moçambique, a família fica em Lourenço Marques. Um ano e pouco depois João é promovido a major. Mandaram-no então para Angola, Luísa regressa a Lisboa com os gémeos, nasce agora o terceiro filho. Quando João regressa de Angola voltará a ser mobilizado de novo para esta colónia como oficial de operações do Batalhão de Artilharia 2864. Entretanto nasce o quarto filho, Luís, João tinha metido férias e assistiu ao nascimento do filho. Aerogramas não faltaram. Em dezembro de 1972, João parte para a Guiné, é tenente-coronel e comanda o Batalhão de Artilharia 6522. Tinham sido desembarcados em Bolama e foram recebidos com foguetões 122. João comanda o Batalhão em Ingoré, trata-se do Sector 06, a zona de atuação tinha uma superfície aproximada de 1500 km2, a dimensão da fronteira norte com a República do Senegal era de cerca de 100 km.

Todo este relato será feito por João, assistiu ao aparecimento dos misseis terra-ar. O Batalhão ficou neste setor cerca de vinte meses. Luísa destruiu a correspondência que escreveu e recebeu do marido. Guardou cuidadosa e separadamente a que João trocou com cada um dos quatro filhos. João iniciava a sua correspondência com os filhos dizendo “Meus queridos filhos”, “Meus queridos rapazes” ou “Meus queridos homenzinhos”. Luísa sofria com a surdez, desenvolveu com a família uma linguagem própria. Quando se dá o encontro com as autoras do livro, é o filho mais novo que serve de intérprete. Guardam na memória a morte do tio Joãozinho, um estúpido acidente na Guiné. A memória dos anos da ausência do pai está muito relacionada com a passagem no Colégio Militar. A adaptação às regras da instituição não foi fácil.

João escreve aos filhos a sua rotina, por vezes fala aos filhos dos rapazes que vai encontrando à sua volta e também dos adultos:
“As mulheres andam nuas da cintura para cima. Andam à vontade, sem vergonha. É nelas natural. Olha, agora os miúdos vieram pedir esferográficas porque não têm. Todos estes rapazes têm um grande desejo em aprender para poderem ter uma vida melhor. Quase só comem arroz. É uma alimentação muito incompleta e por isso têm uma barriga enorme. Os rapazes fazem brinquedos com caixas de papelão, tampas das garrafas, etc. Com pouca coisa conseguem fazer trabalhos bem feitos.”

Chegou a hora da independência, entregou o território ao PAIGC. E deu-se uma viragem que para ele foi muito chocante: “Em Bissau, entregámos as armas, atirando-as para o monte, no cais, o monte de G3, nós passávamos e atirávamos a G3.

No fim da conversa os filhos de João disseram às autoras: “Nosso pai nunca falou da guerra nem nós perguntámos. Diz-se que uma guerra só acaba quando o último participante morrer. Enquanto houver um que viva, esta guerra ainda não acabou.”

Vejamos agora a história de Rogério Pereira, nascido em 1945, casou com Teresa em 1966, mobilizado como furriel miliciano enfermeiro para Angola entre 1969 e 1971. Quando Rogério parte, Teresa fica em Lisboa com duas filhas. Teresa trabalhava na área dos seguros. Rogério escreve às filhas no verso de fotografias que envia à mulher, às vezes escrevia poemas e quadras, Rogério dirá na entrevista às autoras que cada fotografia era um referencial daquele momento. A correspondência serviu-lhe para escrever um livro a que chamou Almas que não foram fardadas. Destruiu a correspondência depois da morte de Teresa e considera que foi uma coisa estúpida. Mas teve uma surpresa quando a filha mais velha, de nome Maria João, lhe trouxe uma embalagem castanha, a caixa de uma ração de combate, o conteúdo eram cartas, aerogramas e fotografias que escrevera em Angola.

Partiu para Angola em 12 de julho de 1969, com a Companhia de Cavalaria 2562, começou na região de Maquela do Zombo, na Fazenda Costa. Escreve à filha mais velha, fala-lhe das casas, da pobreza, das ruas, os meninos que não têm brinquedos, os meninos não têm areia, só terra. A maioria não fala português, havia os que falavam Quimbundo e o Quioco. Envia desenhos nas cartas. A meio da comissão, a companhia foi transferida para a zona centro para locais na Província do Bié, refere à mulher o meio em que vive, não lhe parece que haja comportamentos racistas, há cantineiros que casam com negras ou mulatas, mas é notório que os fazendeiros exploram as populações nas roças de café e do algodão, assistiu ao trabalho forçado.

No final da conversa com as autoras, João diz-lhes:
“A guerra humanizou-me muito. Relacionei-me com outras formas de ser, de estar, de conviver, com outras culturas. Quando aquela gente soube que os tratava bem, logo de manhã eu tinha filas à porta do posto de socorros, e isso, digamos, é uma experiência muito difícil de explicar. Porque o que nos produz são sentimentos. Eu, ao perceber aquela dependência, aquela vivência, e aquela forma de estar, percebi que, de facto, nós, enquanto potência colonial, fizemos muito mal o nosso trabalho de casa.”

Iremos seguidamente ouvir falar de João António Gonçalves Serôdio, militar do quadro permanente e de João Menino Vargas, aqui, uma das autoras, Ana Vargas, tem laços familiares apertados. É a penúltima viagem por este tão intimista e esplendente Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra, 1961-1975.

Ana Vargas e Joana Pontes

(continua)
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Notas do editor:

Vd. post de 20 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27935: Notas de leitura (1915): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (4) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 24 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27946: Notas de leitura (1916): "A Partilha de África", por Conde de Penha Garcia; Lisboa, 1901 (2) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27935: Notas de leitura (1915): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (4) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 11 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
Continuamos na companhia de militares e da sua correspondência endereçada a filhos menores durante a guerra colonial. Temos, primeiro, Carlos Alberto de Oliveira e Lemos, aqui relevado pela originalidade de ter enviado um conjunto de contos em pequenas bobines, assim deliciava crianças e adultos. Carlos fez o curso da Escola Naval, teve uma comissão em Moçambique entre 1968 e 1970. Os filhos recordam o camarote do pai e a sua mesa de trabalho, foi nessa cabine que o pai iria escrever e ler as centenas de cartas que trocou com a família e gravar as bobines com os contos e as conversas que enviou para os filhos. Carlos não escondia situações de apuros vividas durante a comissão militar. Terá vindo muito debilitado de Moçambique, morreu com 53 anos. Pedro João dos Santos Reis era oficial da arma de infantaria, fez quatro comissões. A primeira comissão em Moçambique, e depois Timor, experiência inesquecível para os filhos, Pedro deixou a filha mais nova ao cuidado dos avós. A terceira comissão foi na Guiné, leva parte da família, irão os três filhos mais novos, os mais velhos em instituições militares. Pedro fará a sua última comissão em Angola, aqui viverá o 25 de abril, será um dos últimos militares a regressar. Um dos filhos comenta: "Ele adorava aquela cidade (Luanda). O pouco que ele contava do que se passou depois era uma coisa horrível."

Um abraço do
Mário



Olhe que o pai faz muita falta. Foi com a sua comissão que eu aprendi o quanto custa o estar longe e só e para nós o sofrimento não se compara com o seu – 4

Mário Beja Santos

Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975, por Ana Vargas e Joana Pontes, Tinta da China, 2025, é um livro arrebatador, profundamente terno, e, tanto quanto me é dado de saber, preenche uma lacuna no campo da investigação.

Começamos hoje por falar de Carlos Alberto de Oliveira e Lemos, estou seguro de que ele vai prender a atenção do leitor. Escreveu um livro de contos aos filhos durante os dois anos que esteve em Moçambique, com o título Lá de Longe, Edições Culturais da Marinha, é um conjunto de contos que Carlos Lemos escreveu, gravou e enviou em pequenas bobines de som que os filhos ouviam, acompanhados pela mãe, pela avó e por Alice, a empregada que esteve sempre com a família. O encontro entre as autoras e o filho de nome Miguel realizou-se no Museu da Marinha, ouviu-se a voz do pai a contar uma história, lá de longe, com a música de efundo a condizer. Carlos Lemos tinha 42 anos quando partiu para Moçambique como oficial imediato da Fragata D. Francisco de Almeida. Deixa rastilhos: Guida, com 7 anos, e Miguel, com 6. Para além das bobines, havia a correspondência, as perguntas sobre o dia-a-dia dos filhos. Entretanto nasceu mais uma menina, a Sara. O pai mandou a notícia por carta: “Parece que Jesus nos vai mandar um irmão ou uma irmã para ti e para o Miguel […] é preciso não arreliar a mãe para não fazer mal ao bebé que está a crescer. Depois, quando ele nascer, tens de ajudar a criar. Não é muito difícil.” O correio dos dois filhos mais velhos é dar notícias da recém-nascida.

Carlos Lemos é mais aberto à escrita, conta mesmo operações em que intervinham fuzileiros, e descreve situações muito enrascadas. Ouve-se a voz do pai numa gravação: “Havia guerra entre pretos e brancos. A guerra era por causa dos brancos que queriam ficar a mandar nos pretos, e por causa dos pretos que não estavam satisfeitos com o procedimento dos brancos. Tanto pretos como brancos mandavam outros pretos e outros brancos, que não eles, pegarem armas para se matarem uns aos outros. Poucos sabiam porque é que haviam de lutar e pouquíssimos gostavam realmente de pegar em armas.”

Para os filhos não há dúvidas, Carlos Lemos escrevia para ele. O pai entende que não deve esconder aos filhos o dia-a-dia: “Ontem o navio parecia uma autêntica arca de Noé. Vinham atestados até mais não poder. Trazia mais de duzentos homens, coitados, dormem ao relento pelo chão e por onde calha. Deus teve pena deles e não mandou chuva.”

Falando com as autoras Guida diz que o pai veio diferente, triste e debilitado. Carlos morreu com 53 anos, doente.

Vejamos agora a trajetória de Pedro João dos Santos Reis. A conversa decorre à volta de uma mesa, estão cinco irmãos de uma família de sete filhos. Trouxeram fotografias, aerogramas e cartas que consultam, trocam entre si, e sobre as quais contam histórias, desafiando-se uns aos outros sobre memórias dos seus tempos de infância e da adolescência. Pedro fez a academia militar e foi mobilizado para quatro comissões, tendo, entre elas, concluído o curso de Estado-Maior que graduava oficiais superiores. A primeira comissão foi em Moçambique. Aqui nasceram dois filhos, a Paula e a Leny. Regressam e a família fica quatro anos em Lisboa e, entretanto, nascem mais três filhos, Zé Pedro, Ana e Maria João, entre 1956 e 1960. O pai é mobilizado para Timor, ele e a mulher levam quatro filhos, o bebé fica com os avós. Contam-se histórias como um convite feito a um padre para almoçar lá em casa, e o criado estava a servir à mesa quando viu aquela pessoa que fugiu. A mãe quis apurar a verdade, ainda por cima ia buscar os criados saídos da vida prisional. O criado confessou que tinha matado um padre que era o seu patrão. Ficou tudo em segredo de família.

Nasce mais um filho em Timor, a família regressa em 1963, o pai vai fazer o curso do Estado-Maior. Em Lisboa nasce mais uma filha, a Patrícia. O pai parte para nova comissão, vai para a Guiné e ficará em Bissau, com ele vai uma parte da família, a mãe e os três filhos mais novos. Conversando com as autoras, os filhos vão dando conta, uns recebendo a correspondência dos pais, outros a viver em Bissau, da atividade do pai, oficial perto de Spínola. As viagens que fizeram para a Guiné tornaram-se inesquecíveis. O pai é um dos últimos oficiais a deixar a Guiné, regressou em setembro de 1974. Há também lembranças do instituto de Odivelas, como recorda a filha Paula: “Havia órfãs, caso da nossa colega, também de nome Paula. Havia uma ideia de que o pai tinha sido morto na guerra, mas não se falava disso. Era um assunto sobre o qual não se falava. Na minha turma, havia duas que os pais ficaram malucos. Era tudo dito em surdina. Havia uma espécie de vergonha das famílias, porque eles não tinham sido mortos em combate, honradamente. Havia muita vergonha e eram sempre as pessoas mais próximas delas que faziam este sussurro entre nós.”

Deixa-se para o próximo texto a itinerância de João Corte-Real de Araújo Pereira, era capitão quando embarcou para Timor em setembro de 1959 e fez a sua última comissão na Guiné, para onde partiu em dezembro de 1962. Mais família com vida no quartel, mais filhos internados em instituições militares; e também Rogério Pereira, furriel miliciano enfermeiro em Angola entre 1969 e 1971. Nascido em 1945 casou em 1966 e quando parte a mulher fica com duas filhas. Durante dois anos, Rogério escreve quase todos os dias para casa. Parte significativa da correspondência é feita no verso de fotografias que envia à mulher e às filhas. Quando se dirige à filha mais velha escreve com letras muito grandes na expetativa de que ela talvez começasse a entendê-las. O Rogério falará com as autoras a quem dirá que a guerra o humanizara muito. “Por imperativos que eu não gostaria de ter tido, relacionei-me com outra forma de ser, de conviver, com outras culturas. Quando aquela gente soube que os tratava bem, logo de manhã, eu tinha filas à porta do posto de socorros… e isso deu-me, digamos, é uma experiência muito difícil de explicar. Porque o que nos produz são sentimentos. Eu, ao perceber aquela dependência, aquela vivência e aquela forma de estar e viver, percebi que, de facto, nós, enquanto potência colonial, fizemos muito mal o nosso trabalho de casa.”

Ana Vargas e Joana Pontes

(continua)
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Notas do editor

Vd. post de 13 de abril de 2026 >Guiné 61/74 - P27918: Notas de leitura (1913): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (3) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 17 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27927: Notas de leitura (1914): "A Partilha de África", por Conde de Penha Garcia; Lisboa, 1901 (1) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27918: Notas de leitura (1913): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (3) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 11 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
É elevado o número de oficiais do quadro permanente que neste livro aparecem a conversar com os filhos, e vemos que estas crianças, em situações frequentes, conheceram o internato no colégio militar e no instituto de Odivelas. Os pais tinham uma defesa na sua correspondência, acompanhavam os estudos dos filhos. São bem distintas as histórias que hoje aqui têm lugar.
Abílio Santiago Cardoso fez duas comissões em África que deixaram boa memória aos filhos. A terceira comissão é passada na Guiné, na região de Catió, entre 1967 e 1969. É parcimonioso nas descrições do seu dia a dia, os filhos socorreram-se da história da Unidade para saber mais da comissão do pai. Este veio muito abalado, comentam os filhos, demorou a recuperar. Nenhum dos filhos seguiu a carreira militar, os mais velhos revelaram-se contestatários e chegaram a ser presos na contestação ao regime e à guerra, em meio académico portuense. Amável Velez Serra, mal saído da Escola do Exército, ofereceu-se como voluntário, parte para Angola em 1955. Segue-se a Índia onde ficou prisioneiro, voltará a Angola entre 1963 e 1965. Também nunca escreveu aos filhos sobre a guerra, revelou-se profundamente terno a falar individualmente a cada um dos filhos, busca todos os assuntos, como as prendas de Natal, as aulas de piano e de judo, a catequese. voltará a ser mobilizado em 1970 para Moçambique, e logo a seguir para Angola. Também nunca quis falar com os filhos sobre a natureza das guerras que viveu.

Um abraço do
Mário



Olhe que o pai faz muita falta. Foi com a sua comissão que eu aprendi o quanto custa o estar longe e só e para nós o sofrimento não se compara com o seu – 3

Mário Beja Santos

Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975, por Ana Vargas e Joana Pontes, Tinta da China, 2025, é um livro arrebatador, profundamente terno, e, tanto quanto me é dado de saber, preenche uma lacuna no campo da investigação.

É uma longa série de relatos, as autoras captaram perfeitamente a natureza dos laços afetivos, as contingências que perpassam toda esta correspondência onde é por demais evidente que o militar procure silenciar o mundo da guerra em que vive. É o caso de Abílio Santiago Cardoso que assim escreve: “Meus filhos queridos, não me façam mais perguntas sobre este assunto e peçam a Deus que me ajude a cumprir o meu dever.” Vamos agora falar deste oficial de artilharia que fez três comissões.


Só recentemente é que os descendentes, os filhos e as noras de Abílio e Maria Lúcia, ao desmanchar a casa dos pais, encontraram a correspondência trocada durante a comissão militar na Guiné, entre 1967 e 1969.

Abílio teve a sua primeira comissão em Moçambique, em 1955. Ele e Maria Lúcia casaram por procuração e em Lourenço Marques nasceram os três filhos mais velhos. No regresso, em 1956, a família vai para Penafiel, ficando a viver no quartel, foi aqui que nasceu o quarto filho, em 1961.
A segunda comissão foi em Cabo Verde, Abílio leva a família toda, a comissão deixou boas recordações. Regressam a Penafiel. Em 1967 Abílio é tenente-coronel de artilharia vai comandar o Batalhão de Artilharia nº 1913, vão para o setor S3, com sede em Catió, ali vivem na área controlada pelos militares cerca de 6000 pessoas.


Consta do livro da Unidade a descrição do inimigo: “apresenta-se num setor bem instruído, experiente, moralizado e bastante aguerrido". O filho mais novo acompanha a mãe e vão para a Régua, os outros três filhos ficam internos no Colégio Militar. O pai escreve-lhes incentivando-os no desempenho escolar, mostra-se orgulhosos com os prémios que os filhos gémeos recebem. Numa carta Abílio escreve aos filhos: “É necessário que todos nós, os 6, formemos um bloco unido e pronto a ampararmo-nos uns aos outros seja em que circunstância for e implique os sacrifícios que implicar.” Os filhos gémeos terão na altura 12 anos. Abílio está acerca de um mês em Catió quando escreve esta carta aos filhos mais velhos:
“É a última vez que vos falo da minha atividade aqui. Operações são coisas muito sérias em que morrem a guerrear uns homens que têm pais, mulheres ou filhos ou todos os parentes mencionados. Claro que se esses homens estão do outro lado, lamentamos o facto de nos obrigarem porque eles assim o quiseram. Quando se trata de homens nossos, o problema é muito doloroso.”


Os filhos que irão conhecer a realidade da comissão através do tal livro da Unidade. O Batalhão aposta na ação psicológica e no apoio social. Há população que estava sob o controle do inimigo que se apresenta nos aquartelamentos do Batalhão. Este regressou a 2 de março de 1969. Em combate teve 26 mortos e 137 feridos. Nos tempos subsequentes à chegada do pai a guerra não era tema de conversa. Nenhum dos filhos seguiu a carreira militar. Abílio foi sempre aos almoços de confraternização, era muito querido entre os seus antigos subordinados.

É a vez de falar de Amável Velez Serra, que se alistou como voluntário aos 19 anos de idade. Tinha feito a Escola do Exército, a sua primeira comissão foi em Angola. Casa-se por procuração em 1957 com Maria Julieta Rogado. O primeiro filho nasce um ano mais tarde em Benguela, e no ano seguinte, nasce uma filha em Nova Lisboa, permaneceram em Angola quatro anos.

Em 1961, Amável, já como capitão, é mobilizado para a Índia, a família acompanha-o. Pouco antes da invasão pela União Indiana, a mãe regressa com dois filhos e grávida do terceiro. Amável é preso. Regressa e é novamente mobilizado para Angola, a partir desta terceira comissão a família não acompanha o pai. Amável ficará em Angola entre 1963 e 1965, receberá a visita da mulher e do filho mais novo.

Em 1966, começa em Évora a constituição do Batalhão de Caçadores n.º 1903, Amável vai novamente para Angola, vão para Zau-Evua, há uma grande dispersão da população por sanzalas, grande parte da população fala português. Seguem-se outras deslocações, o Batalhão regressa em junho de 1969. Durante estes dois anos de ausência, Amável nunca escreveu aos filhos sobre a guerra, fala sempre do quotidiano dos filhos, é muito terno na escrita.

Amável voltará a ser mobilizado em 1970, para Moçambique, onde ficou mais dois anos. E logo a seguir para Angola onde se encontrava quando se deu o 25 de abril. Os filhos não encontraram correspondência que o pai tivesse enviado destas comissões, embora recordem que ele escrevia com regularidade, sobretudo os pais entre si, e também os filhos recordam que o pai nunca falou de situações pelas quais tivesse passado durante o período em que esteve mobilizado, nem sequer do tempo em que esteve preso na Índia, nem mesmo com o filho mais novo, que seguiu a carreira militar.

Itinerários diferentes são o que iremos reportar a seguir, envolvendo Carlos Alberto de Oliveira e Lemos, Oficial da Marinha, que deixou uma correspondência singularíssima, e de Pedro João dos Santos Reis, Oficial da Arma de Infantaria. Recordamos ao leitor que estamos a passar em sequência a correspondência entre pais mobilizados e os seus filhos menores durante a Guerra Colonial. Em aerogramas escritos e desenhados, o militar vai desempenhando o seu papel de pai. Os filhos, por seu lado, consoante a idade, vão respondendo da maneira que conseguem, por vezes a com a ajuda das mães. Esta troca de correspondência oferece-nos uma reflexão muito particular sobre a ideia de família numa sociedade em mudança.

Ana Vargas e Joana Pontes

(continua)
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Notas do editor

Vd. post de 6 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27894: Notas de leitura (1911): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (2) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 10 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27909: Notas de leitura (1912): Um manjar para filatelistas acérrimos: "Os Selos Coroa da Guiné" (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27894: Notas de leitura (1911): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 2 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
Tenho para mim que estas cartas entre pais e filhos, e as memórias que deixaram, possuem um natural encanto e abrem uma nova janela à investigação. Julguei à partida que se tratava de uma incursão original, acabo agora de saber, por email recebido do Dr. João Horta, da Biblioteca da Liga dos Combatentes que há investidas precedentes, a saber: «Nós, os filhos da Guerra» referente a memórias de Frederico Valarinho, Âncora Editora, e «Sobretudo a Agonia – Angola, Memórias de uma Guerra Íntima» da autoria de Celso Braga Rosa, Edições Afrontamento. O livro Querido Pai, ainda vai dar pano para mangas, depois atiro-me a estas duas obras aqui referidas. Se porventura o leitor conhecer mais iniciativas desta índole, peço-lhe a amabilidade de me indicar o título e a editora.

Abraço do
Mário



Olhe que o pai faz muita falta. Foi com a sua comissão que eu aprendi o quanto custa o estar longe e só e para nós o sofrimento não se compara com o seu – 2

Mário Beja Santos

Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975, por Ana Vargas e Joana Pontes, Tinta da China, 2025, é um livro arrebatador, profundamente terno, e, tanto quanto me é dado de saber, preenche uma lacuna no campo da investigação.

Damos seguimento às conversas já havidas com Albano Mendes de Matos e José Afonso da Silva Neto, entra agora na nossa sala de conversa Hernâni Pereira da Silva Anjos, foi oficial do Quadro Permanente, a filha mais nova, Alexandra, refere o pai como pessoa com grandes interesses culturais e intervenções literárias. Fala do casamento dos pais que se tinham conhecido na Índia, era então capitão, já tinha feito uma comissão em Macau. A filha não consegue encontrar a razão pela qual o pai ficou sete anos na Índia.

Hernâni é promovido a major e mobilizado para Angola, parte com a família em 1964. Quatro meses após o regresso a Angola é mobilizado para a quarta comissão, em Moçambique, a família já não o acompanha. Ao longo da comissão vai escrevendo à filha tratando-a sempre por “minha muito adorada filhinha”, diz coisas como estas: “Tu ainda te lembras de mim? Sabes como eu me chamo? Lembras-te das brincadeiras que eu tinha contigo? Sabes tu, minha filhinha, que eu ando com os vossos retratinhos no bolso e todos os dias os vejo várias vezes?” Hernâni adoece e é internado, o hospital militar deteta, na sequência de problemas de coração será evacuado para Lourenço Marques e depois para Lisboa. Quando chega, Alexandra é avisada na escola “Pego na pasta e já fui, de bata vestida. Cheguei e estava lá aquele homem, para mim era um estranho. É tudo relativo para uma criança, um ano é uma eternidade, quanto mais dois.”

Segundo a filha, o pai chegou a ser violento com a mulher, houve divórcio, o pai morreu depois de uma operação ao coração. Após a morte da mãe, Alexandra ficou com uma pequena caixa de madeira onde estão guardadas as cartas que os pais trocaram entre si. Alexandra não teve coragem para as ler.

Temos agora a história de Mário Umberto Faria pela narrativa de seu filho Paulo, escritor e tradutor. "Sempre Excelentes e Valorosos" são as palavras que definem a divisa do Batalhão de Caçadores 1939, constituído por 632 homens incluindo três médicos milicianos e um capelão. Um dos médicos é Mário Faria, o destino é Moçambique. Mário parte com 29 anos e deixa a família em Lisboa, três filhos pequenos e a mulher grávida.

A Companhia de Caçadores 1798, a que pertence Mário, parte para Muôco, Mário permanecerá em Moçambique 796 dias. Observa Paulo:
“O meu pai escrevia muito à minha mãe. E a minha mãe escrevia muito ao meu pai. Escreviam muito, talvez duas mil cartas e aerogramas. Pelo que a minha mãe me contou, ficou tudo guardado num saco, um saco enorme que estava na dispensa da casa onde nós morávamos. E, numa dada altura, mudámos para este prédio, onde hoje ainda moro. Nessa mudança, pelo que a minha mãe me contou, estavam a arrumar a casa e a certa altura a minha mãe apercebe-se de que o meu pai sai. Ele sai e ela tem um pressentimento e vai à dispensa ver o saco. O saco já não estava lá. O meu pai, sem dizer nada pôs o saco no lixo. O meu pai já devia ter decidido, na cabeça dele, que queria virar aquela página, não queria que ninguém visse aquilo.”

Segundo Paulo, o pai escrevia para todos sem distinção dos filhos, escrevia com muita frequência, e vai identificando sempre o lugar onde está e data a correspondência. Enumera os presentes que compra para os filhos, deles vai recendo notícias. Faz desenhos na correspondência. E o pai regressa, e Paulo rememora. Existe a história da unidade e Paulo conversou com os homens da Companhia a que o pai pertenceu.

Mário nunca falou a sós com o filho sobre a guerra. Voltando ao assunto da destruição das cartas, Paulo observa: “Ele deve ter contado coisas que o impressionaram muito, o suicídio do tal soldado, provavelmente ter-lhe-á contado a história da consulta que fez e dos seus remorsos… E, portanto, ele não queria que alguém fosse depois ler aquilo, queria contar a história à sua maneira, com distanciamento e com calma. Era uma pessoa que se controlava, um homem de ferro, só o vi comovido no funeral da mãe, foi a única altura.”

Paulo ficou com as agendas do pai, e assim pode ler que Mário vacinou centenas de nativos contra a varíola, anotava quantas unidades de vacina ele recebia na Companhia, e quando se deslocava aos aldeamentos para as administrar. Foi nessas agendas que Paulo soube do soldado que se suicidou. Mário escreveu na agenda, na circunstância: “Dia mais negro da comissão até agora. Sinto-me o mais infeliz dos homens por me ver metido nesta porcaria. Poderei vir a esquecer o dia de hoje?”. Mário nunca foi aos almoços de confraternização com os militares da sua Companhia ou do Batalhão. Paulo começou a ir após a morte do pai. Aquele médico, como muitos outros, estava numa posição sempre difícil, havia muita gente a querer que ele os livrasse de irem para o mato.

Quando a conversa termina, Paulo arruma as fotografias dispersas, reúne as agendas e os papéis que mostrara e diz às autoras: “A guerra, no fundo, foi uma maneira de chegar ao meu pai. Digamos assim, foi uma espécie de atalho. Quando o meu pai morreu, percebi que tinha de escrever sobre ele.”

Iremos seguidamente falar de Abílio Santiago Cardoso, oficial de artilharia, com três comissões e de Amável Velez Serra que se alistou como voluntário aos 19 anos de idade, concluiu a escola do Exército.

Ana Vargas e Joana Pontes
A família de Albano de Matos. A neta Inês, a mulher Judite e a filha Rita, assunto que se abordou no texto anterior, fotografia do jornal Expresso, com a devida vénia

(continua)
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Notas do editor

Vd. post de 30 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27872: Notas de leitura (1909): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (1) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 3 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27885: Notas de leitura (1910): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (9) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27885: Notas de leitura (1910): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (9) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 28 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
Assim se conclui o punhado de textos que se elaboraram sobre o livro "Portugal em África depois de 1851", uma estupenda narrativa do 6.º Marquês do Lavradio. Tudo quanto ele diz sobre a Guiné já é do conhecimento do leitor, as permanentes rebeliões e atos de submissão, os ataques a Bissau, etc., tudo se tem procurado documentar e ilustrar aqui no blogue. O que o autor diz sobre Moçambique também não é inédito, precisou-se de chegar ao século XX para se dizer que do Cabo Delgado ao sul de Lourenço Marques tínhamos uma presença efetiva. Um dos pontos mais curiosos dos comentários tecidos pelo autor é o de nos contar as prepotências, atos insidiosos, os pagamentos aos rebeldes e até oferta de armas deles, por parte dos ingleses e do grupo financeiro onde pontificava Cecil Rhodes, não o impede de concluir que sem uma forte aliança com Inglaterra o Império português se iria desgovernar. Não aconteceu assim, o Marquês do Lavradio não podia prever na década de 1930 que em breve começaria um novo conflito mundial que iria fazer emergir a era dos nacionalismos.

Um abraço do
Mário



Um livro assombroso, o Império Colonial Português no microscópio, na década de 1930, pelo punho do Marquês do Lavradio – 9

Mário Beja Santos

Portugal em África depois de 1851, subsídios para a História, pelo Marquês do Lavradio, foi ditado pela Agência Geral das Colónias em 1936, trabalho que terá sido concluído em 1934. Goza da singularidade deste aio do Rei D. Manuel II ter tido acesso aos arquivos britânicos e possuir um repositório intitulado o Arquivo Lavradio, o seu pai, diplomata em Londres, correspondeu-se com diferentes governos britânicos, expediu notas para Lisboa e deixou relatórios da maior pertinência.

Verificámos anteriormente as campanhas de ocupação de Angola e passámos de imediato para Moçambique e Guiné. Gungunhana e os Vátuas era uma das questões prioritárias a resolver. Gungunhana enviara em 1885 uma embaixada a Lisboa para prestar vassalagem ao rei de Portugal, mas na prática não permitia no seu território qualquer forma de ocupação portuguesa. A resposta foi a criação do comando superior do Limpopo, com a intendência de Gaza. Aventureiros ingleses da Chartered, o empreendimento financeiro colossal ligado ao Standard Bank da cidade do Cabo, intrigavam contra os portugueses junto de Gungunhana, dando-lhe como presentes armas e munições. A intriga da Chartered foi ao ponto de conseguir com que Gungunhana enviasse a Londres dois seus representantes que no seu regresso trouxeram uma taça de prata com a inscrição da rainha Vitória. Os Vátuas mostravam em permanência hostilidade, não faltaram roubos nem massacres. Em dezembro de 1894 foi nomeado comissário régio de Moçambique António Enes, soube-se rodear de uma plêiade de oficiais, caso de Caldas Xavier, Freire de Andrade, Aires de Ornelas, Paiva Couceiro, Mouzinho de Albuquerque, entre outros.

E começam as campanhas de ocupação: Marracuene, em 2 de fevereiro de 1895, cujo efeito será imenso, desembaraçava a cidade de Lourenço Marques; a atitude de Gungunhana era dúbia, o que não o impedia de receber o tributo anual que a British South Africa Company lhe pagava. Em finais de maio de 1895, o distrito de Lourenço Marques estava limpo de revoltosos, mas o grosso das forças ativas da revolta permanecia armado no território de Gungunhana. António Enes enviou embaixadas ao régulo dos Vátuas, este exigiu que fossem retiradas as forças portuguesas das fronteiras de Gaza.

Em 8 de setembro tem lugar o combate em Magul, o efeito moral foi enorme, Gungunhana pedia diplomaticamente a proteção de Inglaterra. Lorde Salisbury, porém, não permitia atentados contra a soberania de Portugal. Segue-se o reencontro em Coolela, o império Vátua está ferido de morte. Tudo culmina com a marcha sobre Chaimite, há fuzilamentos de chefes revoltosos e Gungunhana é aprisionado. O régulo de Maputo pretendia livrar-se da soberania fictícia que ali exercíamos e foi necessário, em 1896, enviar uma força que, sob o comando de Mouzinho, percorreu o Maputo e obrigou o régulo a fugir para o território britânico. Ainda haverá reencontros importantes, como em Chibuto, depois Augusto Castilho pacificou a Zambézia, haverá também desastre das armas portuguesas, caso do Barué. O Governo decidiu dominar e ocupar o Barué, em 1892, a campanha durou dois meses, não abundou em feitos heroicos, mas em compensação foi decisiva.

Também em 1896, o território fronteiro à ilha de Moçambique era ocupado por povos que nos eram adversos, as primeiras expedições portuguesas tiveram que retirar, só em outubro desse ano na ação de Moguenga as forças hostis ficaram manifestamente desanimadas. O Marques do Lavradio descreve detalhadamente as façanhas de Mouzinho de Albuquerque, incluindo as que se realizaram no distrito de Cabo Delgado. Só no dobrar do século se pode dizer que havia ocupação da maior parte do território de Moçambique.

Para concluir, o autor relata uma nova fase de ocupação na Guiné. Convém ter em atenção o que escreve:
“Se as pedras da fortaleza de Bissau pudessem falar relatar-nos-iam as lutas, sacrifícios e tragédias sangrentas que testemunharam, contar-nos-iam dos assaltos que tiveram de sofrer e como as suas muralhas tantas vezes serviram para proteger vidas e haveres portugueses.
Ainda em 1906 os negros habitantes da ilha assaltaram a fortaleza, roubando munições do Paiol e pondo a vila em estado que os seus habitantes só com risco de vida podiam sair dela, e, em 1911, os Papeis negavam autorização para um campo de futebol fora da praça.”


Há relatos que desde a década de 1840 foi um suceder de ataques traiçoeiros, de recontros e escaramuças sanguinolentas, de chacinas bárbaras, da assinatura de Tratados que não passaram do papel, é longo o rosário de extorsões e pilhagens. E mais uma vez, nunca faltando à verdade, o Marques do Lavradio deixa bem claro como era ténue a presença portuguesa na Guiné:
“Em 1890 vários povos da Guiné desprezavam por tal forma a nossa autoridade que o Conselho de Guerra da Província, reunido a 2 de Dezembro, era unânime em declarar o estado de guerra em todo o território que formava a Circunscrição de Geba, houve que atacar o gentio rebelde em Intim e Bandim, a operação foi malsucedida, os revoltosos, armados de Snyder, abrigados pelas habitações, fustigaram o quadrado com um chuveiro de balas que trouxe grande pânico às fileiras dos soldados e auxiliares, que fugiram e puseram em debandada dois pelotões. Os rebeldes contra-atacaram, os nossos soldados fugiram para a Praça, o insucesso custou-nos 41 mortos, 22 feridos e duas peças de artilharia Krupp, os revoltosos ficaram moralizados.”

As rebeliões sucedem-se, em Bissau, Oio, no Churo, no Cuor, Costa de Baixo, o Governador Muzanty foi obrigado a pedir ao Governo central forças para bater e ocupar militarmente a região do Oio e do Cuor; e a situação também não era fácil, como era evidente o descontentamento dos Felupes de Varela. Em abril de 1907 batera-se toda a região do Cuor e o régulo rebelde fugiu; seguiu-se o bombardeamento de exposições inimigas de Bissau, mas os Papeis resistiam e atacavam a força portuguesa. Em suma, grande parte da Guiné estava verdadeiramente sublevada, os régulos dispostos a desprestigiar-nos.

Em 1912 Teixeira Pinto é nomeado o chefe do Estado-maior da Província, encetou uma série brilhante de combates que terminariam pela ocupação da parte continental da colónia. O autor esclarece que em 1912 a autoridade portuguesa era perfeitamente nominal na região compreendida entre os rios de Farim, ao noroeste, no rio Geba, a sul e circunscrição de Geba, a leste. Era uma ocupação somente focada em Cacheu e Bissau e no posto militar de Gole. Teixeira Pinto, em 1913, ataca a região do Oio e submete a região de Cacine, seguem-se as operações contra os Papeis e os Grumetes de Bissau, campanhas árduas, combates quase diários, marchas extenuantes, baixas numerosas, mas em agosto de 1915, depois da prisão do régulo de Biombo e da criação de postos em Bor, Safim, Bejimita e Biombo, dava-se a Guiné como ocupada, o problema dos Bijagós só será resolvido em 1936.

Nas suas conclusões, o Marques do Lavradio não deixa de chamar a atenção para problemas que necessitam de resolução urgente, caso das transferências de Angola, os fretes marítimos. Também não deixa de relevar o impulso dado pelo rei D. Carlos no esforço de ocupação que a sua hábil diplomacia com o acordo com Inglaterra e vale a pena citar as considerações do aristocrata e diplomata acerca do valor que ele confere a tal aliança:
“Se um dia a China conseguisse apoderar-se de Hong Kong nós não poderíamos conservar Macau; se a India se revoltasse e triunfasse, expulsasse Inglaterra, nós não necessitaríamos mais de um Governador da India; se a União Sul Africana se desmembrasse do Império Britânico, a nossa província de Moçambique deixaria de ser portuguesa e teríamos de lutar no sul de Angola para ali conservar a nossa bandeira. Conservar e valorizar esta aliança é um dever de todos os portugueses.”

O mínimo que se pode dizer do trabalho do Marquês do Lavradio que aqui fomos pondo é a demonstração eloquente de que só se pode falar, e com relativa leveza de uma ocupação em termos de administração e criação de infraestruturas básicas no território colonial de Guiné, Angola e Moçambique no século XX. É o que diz a documentação patenteada por inúmeras fontes, e o Marquês do Lavradio é uma delas, deitando por terra a falácia da nossa presença de cinco séculos em África.

D. José Maria do Espírito Santo de Almeida Correia de Sá, 6.º Marquês do Lavradio (1874-1945)
Standard Bank of South Africa, século XIX
Esboço da execução de alguns súbditos de Gungunhana, por parte do exército português, no contexto da ofensiva de Mouzinho de Albuquerque em Chaimite, 28 de Dezembro de 1895.
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Notas do editor

Vd. poste de 27 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27863: Notas de leitura (1908): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (8) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 30 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27872: Notas de leitura (1909): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (1) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 27 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27863: Notas de leitura (1908): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (8) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 28 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
O Marquês do Lavradio que revela-se altamente documentado, tem o privilégio de acesso a um arquivo notável, o da sua família, diplomatas com correspondência trocada com governantes de Londres e Lisboa, investigações em trabalhos de Caldas Xavier, António Enes, obras de Mouzinho de Albuquerque ou de Alberto de Almeida Teixeira sobre Alves Roçadas, muita pesquisa feita no Arquivo Histórico Ultramarino, descreve-nos neste resumo a ocupação de Angola, escreve de modo incisivo, gostando das descrições naturalistas exuberantes como vai fazer sobre a região dos Dembos, detalha as campanhas de ocupação por toda a Angola e o que houve que fazer quando os alemães invadiram o sul. e não se esquece de enfatizar que a escassos quilómetros de Luanda a hostilidade das populações era praticamente total. Iremos seguidamente ver o que aconteceu em Moçambique.

Um abraço do
Mário



Um livro assombroso, o Império Colonial Português no microscópio, na década de 1930, pelo punho do Marquês do Lavradio – 8

Mário Beja Santos

Portugal em África depois de 1851, subsídios para a História, pelo Marquês do Lavradio, foi ditado pela Agência Geral das Colónias em 1936, trabalho que terá sido concluído em 1934. Goza da singularidade deste aio do Rei D. Manuel II ter tido acesso aos arquivos britânicos e possuir um repositório intitulado o Arquivo Lavradio, o seu pai, diplomata em Londres, correspondeu-se com diferentes governos britânicos, expediu notas para Lisboa e deixou relatórios da maior pertinência.

Abordámos anteriormente o chamado Regime dos Prazos, no fundo concessões a particulares, que se veio a revelar desastroso, passou-se em revista as companhias majestáticas e chegámos agora à ocupação efetiva. De novo o Marquês do Lavradio nos faz revelações surpreendentes que, em boa-fé, nos leva a interrogar como foi possível termos vivido à sombra daquele mantra do Estado Novo de que estávamos de pedra e cal há 500 anos em África.

Veja-se o que ele diz da nossa presença em Angola, Guiné e Moçambique:
“Em Angola, no distrito do Congo, no interior de Landana, o estado de guerra era permanente; no distrito de Luanda, às portas da capital, os Dembos consideravam-se independentes; na Lunda negociávamos, mas não tínhamos posto algum; no distrito de Benguela, onde a influência portuguesa se estendia mais, ainda em 1902 o gentio atacava a Fortaleza do Bailundo; no distrito de Moçâmedes o posto militar do Humbe era insuficiente para dominar a região e nem sempre se podiam considerar seguras as suas comunicações com o litoral; além Cunene dominavam os Cuamatas e Cuanhamas, que opunham tenaz resistência ao domínio português.

Na Guiné, não éramos quase autorizados a sair da Praça de Bissau durante o dia e nunca o podíamos fazer durante a noite.

Em Moçambique, ao sul do Save, dominava o Gungunhana, cujas hostes chegavam a ameaçar Lourenço Marques; na Zambézia, os prazos que cercam Quelimane eram portugueses de facto, mas a Maganja colocara-se num estado de completa independência; nos territórios de Manica e Sofala, que iam fazer parte da Companhia de Moçambique, não havia sinal algum de ocupação e domínio; no distrito de Inhambane apesar da submissão dos indígenas, vivia-se sob o peso do terror que inspiravam os Vátuas.”


E num tom quase de epopeia, e com pormenores onde domina o sopro épico, o Marquês do Lavradio fala de uma época gloriosa, de heróis destemidos que submeteram o gentio. Em termos literários, a narrativa chega a ser empolgante. Não nos sendo possível alongarmos em minúcias, começa-se com o retrato do que foi a ocupação de Angola:
“Subir a majestosa serra da Chela, atravessar o planalto, passar o Cunene, internar-se nas vastas regiões do Cuamato, Cuanhama e Evale não era possível no princípio do século atual.
Foi em 1845 que pela primeira vez se tentou a ocupação do Gambos, seguindo-se em 1859 a tentativa de ocupar o Humbe para o que para ali seguiu uma pequena força; a falta de recursos em tropa regular e dinheiro fizeram abandonar a ideia de ocupar o Cunene. Em 1863 retiram os postos militares do Humbe e dos Gambos e em 1880 a ocupação do distrito de Moçâmedes reduzia-se a algumas feitorias da Costa.

Em 1880, o estabelecimento de uma colónia bóer no planalto de Huila e a fundação da missão católica do Espírito Santo chamaram de novo a atenção do Governo português para essas regiões e o Humbe é novamente ocupado.
Em 1885 os Hotentotes atacam o posto do Humbe, no regresso à reação aos rebeldes o comandante do posto é morto juntamente com 52 dos seus homens.”


A descrição é completíssima, escrevem-se as diferentes expedições e a forma como iam sendo dominados os povos dentro do território angolano. O custo em sangue suor e lágrimas foi enorme. Falando das operações sobre os Cuamatos, dirá o autor que houve dez ações que custaram a vida a 5 oficiais, 53 praças brancas, 8 indígenas e registaram-se 139 feridos, foi assim que se ocupou o sul de Angola.

Voltando à região dos Dembos, às portas de Luanda, o autor lembra uma frase de Henrique Galvão, que era “uma região negra, impenetrável, onde nem sequer os indígenas que trajavam à europeia eram admitidos”. Dava-se o caso de o nosso domínio e influência ter sido grande no fim do século XIX, quando da inauguração do caminho-de-ferro de Matadi, os enviados do rei do Congo, ao serem apresentados aos representantes de Portugal, deram sinais de submissão. Em 1872 uma revolta não castigada levara os Dembos à independência, desdenhando do nosso poder e manifestando-se agressiva e insolentemente.

É muito bela e expressiva a apresentação que o autor faz desta região dos Dembos:
“A região é das mais inóspitas da África portuguesa; negras cadeias de montanhas encabeleiradas de exuberantes abundâncias de vegetais, espessas, emaranhadas, pujantes, assentando numa série de contrafortes que servem de base a planaltos interiores, atingindo por vezes altitudes de 1300 a 1500 metros; vales atulhados de vegetação, ásperas ravinas, ora cortadas a prumo ora em declives vertiginosos; subidas tão ásperas que tornavam necessário cavar degraus para os cavalos passarem; descidas tão penosas que os próprios homens, agarrados às trepadeiras e arbustos, mal se aguentavam; planícies alagadiças; linhas de água frequentes, que na época das chuvas transformam as margens em lameiros intransitáveis; vegetação luxuriante, que chega a forma maciços impenetráveis; temperaturas que atingem 47 a 48ºC; terreno empestado de mosquitos e mosca tsé-tsé; tal era a região onde, em 1907, uma coluna de 900 homens, em grande parte formada por condenados, ia escrever uma das mais belas páginas da nossa história colonial.”

Heroísmo atrás de heroísmo, a ocupação da Lunda, depois de duras campanhas, ocupação, em 1887, de Santo António do Zaire, mas em 30 de janeiro de 1900 os povos do congo atacavam e roubavam a missão católica de Santo António do Zaire.

Vamos seguidamente falar das páginas de heroísmo da ocupação de Moçambique.



D. José Maria do Espírito Santo de Almeida Correia de Sá, 6.º Marquês do Lavradio (1874-1945)
A batalha de Mongua, sul de Angola, 1915.

“O combate durou três dias, entre 17 e 20 de Agosto de 1915, e terá constituído a maior batalha campal alguma vez ocorrida em solo africano entre tropas indígenas e europeias. Apesar da diferença qualitativa, dum grau de eficácia e letalidade incomensuravelmente superior do armamento luso, a verdade é que o cerco às nossas tropas durou três dias, tendo um só combate durado 10 horas, chegando as forças nativas a aproximarem-se até a uns escassos 50 metros do quadrado.”
Imagem retirada da RTP Ensina, série As guerras de ocupação, com a devida vénia

(continua)
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Notas de editor

Vd. post de 20 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27840: Notas de leitura (1906): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (7) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 23 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27850: Notas de leitura (1907): "Os Descobrimentos Portugueses, Viagens e aventuras", I volume, por Luís de Albuquerque, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, Editorial Caminho, 1991 (Mário Beja Santos)