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quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28272: Casos: A verdade sobre... (76): O soldado básico que era médico, e que eu conheci no Campo Militar de Santa Margarida, entre 23 de fevereiro e 24 de abril de 1970 (António Tavares, ex-fur mil SAM, CCS/BCAÇ 2912, 1970/72)









Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: António Tavares (2010)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


 1.   É uma daquelas histórias de caserna que, à primeira vista, parecem quase anedóticas. Mas talvez não o sejam. 

O caso já aqui foi contado, pelo nosso estimado camarada António Tavares, ex-fur mil SAM, vagomestre, CCS/BCAÇ 2912 (Galomaro, 1970/72), que vive na Foz do Douro, Porto.

É a história de um soldado básico que terá chegado (?) a integrar o BCAÇ 2912, em formação, a decorrer no Campo Militar  de Santa Margarida (CMSM), entre 23 de fevereiro e 24 de abril de 1970, e que era médico (ou licenciado em medicina) (*)

O caso merece ser de novo trazido à baila (**). 

António Tavares  contou-a no blogue em 2010, quarenta anos depois dos acontecimentos. Um licenciado, médico, alegadamente por razões políticas, foi incorporado como simples soldado básico. Um “Senhor Doutor” sem galões de aspirante a oficial miliciano médico, que os camaradas (e nomeadamente as praças e os 1ºs cabos milicianos do BCAÇ 2912) procuravam quando precisavam dos seus conhecimentos.

Vale a pena recuperar esta memória,  não apenas pela personagem, cuja identidade foi preservada mas também porque ela nos obriga a olhar para uma realidade pouco conhecida da tropa no tempo do Estado Novo: a distância que podia existir entre a formação, a competência profissional e o lugar que o aparelho militar atribuía a cada homem.

Quanto aos pormenores, alguns poderão exigir confirmação documental. Mas a história, no essencial, é perfeitamente plausível. 

E tem uma ironia que salta à vista: um médico transformado em “soldado básico” pelos homens que mandavam; e reconhecido como médico pelos homens que com ele conviviam, os seus camaradaplls. E que, contrariamente aos outros soldados básicos, era tratado com deferência, respeito e cumplicidade  como "senhor doutor", comendo  na messe de sargentos e dormindo com os 1º cabos milicianos...


O soldado básico que era médico no Campo Militar de Santa Margarida

 por António Tavares

Na lista dos nossos Marcadores/Descritores (badana do lado esquerdo do blogue), no tag ”Os Nossos Médicos”, li o nome de um médico, nosso camarada durante a formação do Batalhão, de que por razões óbvias omito o nome, mas recordo com saudade.

Na formação do BCAÇ 2912, iniciada a 23 de fevereiro de 1970, no Campo Militar de Santa Margarida (CMSM), tivemos um soldado básico que era licenciado em... medicina!

Era soldado básico por motivos políticos,  com o único mal de ter ideias diferentes daqueles que nos mandavam ir matar e morrer… a bem da riqueza de alguns!

Tinha estado no Presídio Militar de Penamacor onde passou dificuldades de vária ordem e até económicas.

Homem de fino trato,  sempre pronto a ajudar quem precisasse dos seus serviços médicos com a sua mala triangular, estetoscópio, antipiréticos, anti-inflamatórios, ligaduras, etc. … Um autêntico João Semana!

Sentia-se útil em ajudar e os milicianos agradeciam a sua cooperação que era muito solicitada naquela frigidíssima terra do CMSM.

O frio era tanto que os camaradas roubavam mantas uns aos outros para não dormirem gelados na caserna!

Eu fui uma das vítimas, mas confesso que também roubei uma! Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão… Logo, fui perdoado. Se o não fui, a penitência foi cumprida logo a seguir no teatro de guerra: Guiné!

No fim da IAO, em Santa Margarida, não faltou nenhuma manta!

Sem o conhecimento da hierraquia militar,  o soldado básico, médico  (ou, pelo menos, licenciado em medicina), dormia na caserna dos cabos milicianos e comia na messe dos sargentos!

O BCAÇ 2912 partiu, em 24 de abril de 1970, da gare marítima de Alcântara, no T/T Carvalho de Araújo, rumo ao CTI da Guiné, com os alf mil médicos Vítor Veloso,  José Alberto Martins Faria e Eduardo Teixeira Sousa.

O Dr. Vítor Veloso, em 1971,  foi para Bafatá como Delegado de Saúde, sendo substituído pelo alf mil médico José Guedes, ex-Otorrino no Hospital Geral de Santo António do Porto.

O médico, já com C
édula Profissional, soldado básico na tropa, esse, continuou no CMSM. Em 1971 ou 1972 encontrei-o na Guiné, tenho a ideia já como alf mil médico.

Os seus bons serviços e competência técnica foram precisos naquela macabra guerra de guerrilha, onde se matava para não morrer!

Quarenta anos passados é o que recordo do "Senhor Doutor" ... Assim era conhecido e tratado pelos milicianos!

Os ex-combatentes conhecem bem histórias de repressão política, com intervenções da PIDE, nos anos de 1961 a 1974,  contra  vários cidadãos de pensamento contrário ao regime vigente de então.

A juventude do após 25 de Abril de 1974,  por muito que leia, veja e ouça,
 não tem felizmente a noção e a vivência de uma guerra de  guerrilha que visava a conquista das populações nativas segundo a propaganda da época.


Com um abraço do 

António Tavares

Ex-Fur Mil SAM, CCS/BCAÇ 2912 (Galomaro, 1970/72)

Foz do Douro, 23-02-2010

(Revisão / fixação de texto, título: LG)


2. Comentátrio do editor LG:

É pena é que o nosso camarada António Tavares tenha omitido o nome do "senhor doutor" do Campo Militar de Santa Margarida (ou, pelo menos, não o tenha partilhado com os editores do blogue).

É uma história perfeitamente verosímil no essencial, mas há nela alguns pontos que importa separar: (i) o que é historicamente plausível; (ii) o que precisa de confirmação documental; e (iii) aquilo que provavelmente resulta de memórias com 4 dezenas de anos.

O que há de verdade nesta história ?

Bem, a figura do soldado básico licenciado em Medicina não deveria ser vulgar, antes pelo contrário. Em princípio, as NT não podiam dar-se ao luxo de perder um médico, com tanta falta deles (quer na metrópole, quer no ultramar). 

Mesmo que o médico não estivesse alinhado política e ideologicamente com o regime que sustentava a guerra. Guerra que, afinal, foi feita por tantos "desalinhados", nomeadamente milicianos, médicos e não médicos, obrigados a cumprir o serviço militar como qualquer um de nós. 

Havia uma enorme penúria de médicos, no início da década de 1960, quando "rebentou a guerra de Angola"... Em contrapartida, não  faltava "carne para canhão", como se costuma dizer...

Hoje (dados de 2025), temos mais de 65 mil médicos, dez vezes mais do que em 1960, sendo quase 60% mulheres. Em 1960, o número de médicos era da ordem dos 6,7 mil (com uma taxa de feminização muito baixa, c. 3% a 5%). Dez anos, no início de 1970, o total de médicos, não ultrapassava os 8,2 mil (taxa de feminização: 15%). 

Era de todo impossível ter 3 ou 4 médicos por batalhão, 1 por companhia!... ( O BCAÇ 2912 teria sido mais a exceção do que a regra.)

 Durante a guerra colonial (1961/74),  só o Exército mobilizou cerca de 1.100 médicos milicianos. 

Portanto, era dramaticamente escasso o número de médicos em Portugal. Com o início da guerra colonial, as Forças Armadas (Exército, Marinha e Força Aérea) tiveram que competir com a sociedade civil e o sistema de saúde (público e privado) por este recurso escasso. (Ainda não havia o Serviço Nacional de Saúde, criado apenas em 1979.)

 Não deve ter sido caso único, durante a guerra colonial, o deste soldado básico, com habilitações literárias superiores,  alegadamente licenciado em medicina...

A ser verdade, conviria encontrar documentação (nomeadamente no Arquivo Histórico-Militar) que confirmasse ou infirmasse a existência deste médico que não passava de soldado básico (entre fevereiro e abril de 1970), no CMSM,  alegadamente "por razões políticas"... E que depois,  beneficiando talvez de uma amnistia, terá sido reclassificado, reabilitado e terá feito  o COM, acabando  por ser mobilizado como alf mil médico...

O pomo da discórdia pode ser este: 

 (i) ser licenciado em medicina não chegava para se ser médico, era preciso estar inscrito em (reconhecido por) a Ordem dos Médicos; 

e, por outro lado, (ii) nada obrigava o Exército a que o indivíduo, médico,  fosse incorporado como aspirante ou alferes miliciano médico.

Um médico convocado para o serviço militar podia, por razões administrativas, disciplinares ou políticas, não ser aproveitado como médico militar, por ter, por exemplo, chumbado no COM (Curso de Oficiais Milicianos).

A explicação dada pelo António Tavares (“soldado básico por motivos políticos”) é elucidativa.

Não havia a categoria de furriéis milicianos médicos nem soldados médicos, muito menos soldados básicos médicos. (Em contrapartida, havia furriéis milicianos enfermeiros, 1ºs cabos auxiliares de enfermeiro e soldados maqueiros.)

O que provavelmente aconteceu, pelo menos neste caso relatado acima, é que  um cidadão português,  apesar de ter uma licenciatura em medicina e ter cédula profissional emitida pela Ordem dos Médicos, foi  incorporado como "soldado básico"...

A passagem pelo Presídio Militar de Penamacor é o elemento que gostaríamos de poder confirmar documentalmente. 

Se esse nosso camarada esteve efectivamente preso por razões políticas (em Peniche, Caxias ou até Tarrafal, para os ultramarinos) ou disciplinares (em Penamacor ou em Elvas) e depois foi colocado como soldado básico no CMSM,  a narrativa ganha uma coerência muito forte.

E há um pormenor delicioso: “Homem de fino trato,  sempre pronto a ajudar quem precisasse dos seus serviços médicos…”

Isto é exactamente o tipo de coisa que acontece numa organização militar: (i) a instituição podia não o reconhecer formalmente como médico; (ii) os camaradas, pelo menos no CSMS, reconheciam-no imediatamente como tal.

Ele tinha conhecimentos médicos, sabia diagnosticar, tinha provavelmente a sua maleta de médico, e as praças e os milicianos recorriam naturalmente a ele. Daí a expressão, cerimoniosa e respeitadora, “Senhor Doutor".

Todavia, a referência à “maleta triangular” merece alguma cautela:  a descrição de uma maleta / estojo médico (com estetoscópio, ligaduras, antipiréticos, anti-inflamatórios etc.) é perfeitamente plausível; mas não se deve tomar esse objeto como prova de que ele tinha oficialmente equipamento médico militar; pode ter sido material pessoal ou obtido informalmente.

 A parte mais saborosa da história (mas que deve ser tratada com cautela ou prudência) é o facto de o "senhor doutor" dormir com os cabos milicianos e comer na Messe de Sargentos. 

E mais: à revelia da hierarquia militar:  “Sem o conhecimento dos Comandos Militares"...

É perfeitamente possível como arranjo informal tolerado localmente.  Até porque o Campo Militar de Santa Margarida não era/é um simples quartel, era/é uma base gigantesca (hoje uma das maiores instalações militares da Europa, a maior instalação militar portuguesa em termos de guarnição e a segunda maior em termos de área ocupada, com 6,7 mil hectares de área ocupada, sendo 350 ha de área da zona de aquartelamentos!).

De qualquer modo, a  expressão “sem o conhecimento dos Comandos Militares” deve ser uma ficção ou uma memória truncada  do narrador. 

É difícil imaginar que ninguém na cadeia de comando, no CMSM,  soubesse que um homem estava a dormir e a comer fora do lugar que formalmente lhe correspondia. (Pelo menos, o comando do batalhão em formação, o BCAÇ 2912.)

O ponto que merece mesmo confirmação: quando ele reaparece como alferes médico no CTIG. Diz o Tavares: “Em 1971 ou 1972 encontrei-o na Guiné, tenho a ideia como Alf Mil Médico".

Isto escritio em 2010, tem de ser lido com reservas. O Tavares podia ter sido atraiçoado pela memória. Bastaria haver aqui uma confusão de identidade, de posto ou de função.

A ser verdade, teríamos uma transformação extraordinariamente interessante: licenciado em Medicina / médico com cédula profisisonal da OM  → soldado básico  (no CMSM)→ médico informal dos camaradas na caserna → finalmente alferes miliciano médico (no CTIG).

E isso levanta uma pergunta histórica muito interessante: o que é que aconteceu entretanto? Foi reintegrado? Voltou  a fazer o COM ? Mudou a sua situação militar? Foi reconhecida a sua  licenciatura? Foi simplesmente mobilizado posteriormente como médico?
 
A história deve ser recuperada não apenas como uma "anedota de caserna" ou uma simples "fait-divers" da história de vida de  um médico,  durante a guerra colonial,  que, hoje, a estar vivo (como esperamos), será octogenário e estará seguramente  reformado.

Ela diz muito sobre a extraordinária capacidade da tropa para criar soluções informais. De facto, o protagonista era "formalmente" um soldado básico, mas na realidade as praças do contngente geral e os milicianos tratavam-no como médico ( “Senhor Doutor").

A instituição militar podia desqualificá-lo ou subalternizá-lo; os homens à sua volta faziam exactamente o contrário: reconheciam-lhe a competência e recorriam a ela.

 E há ainda uma segunda história dentro desta história: descobrir quem era o médico. Não para necessariamente revelar o seu nome mas para tentar reconstruir documentalmente, a partir dos arquivos.  como é que um licenciado em medicina acabou como soldado básico em no Campo Militar de Santa Margarida e, eventualmente, como alferes miliciano médico na Guiné. (**).

Não deve ter sido caso único, durante a guerra colonial, a deste soldado básico, com habilitações literárias superiores,  alegadamente licenciado em medicina...

A ser verdade, conviria encontrar documentação que confirmasse ou infirmasse a existência deste médico que não passava de soldado básico (entre fevereiro e abril de 1970), no CMSM,  "por razões políticas"... E que depois,  beneficiando talvez de uma amnistia, terá sido reclassificado, reabilitado e terá feito  o COM, acabando  por ser mobilizado como alf mil médico...

Todavia, temos  de ser cautelosos: esta não devia (nem podia) ser uma prática corrente. Temos evidência de um caso. Não temos ainda evidência de uma prática generalizada por parte do Exército.

Recordo-me de, também há muitos anos, ter lido uma história parecida: haveria um soldado, que julgo que seria básico, que esteve em Bambadinca, nos primeiros anos de guerra, e que era médico, ou estudante de medicina... Será que alguém se recorda também desde caso ?

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28153: A nossa guerra em números (50): o custo de uma chamada telefónica, de 3 minutos, em 1969, para a Metrópole, podia ir de 100 a 130 escudos (37 a 48 euros, a preços de hoje)

Teresa Reis
em 1972
1. Nunca soube quanto custava, em escudos, uma chamada telefónica, feita no posto dos CTT (Correios, Telégrafos e Telefones) de Bambadinca, zona leste, região de Bafatá, em 1969, para a minha terra Lourinhã, a 70 km, a norte de Lisb
oa... 

Nunca fiz nenhuma chamada em quase 2 anos que estive na Guiné. Falando com o Humberto Reis, há dois dias atrás (no Hospital de Santa Maria, onde está internado em recuperação de uma cirurgia cardiotorácica) disse-me que chegou a telefonar, mais do que uma vez, para Lisboa, para os pais e para então namorada, e depois sua mulher, a nossa querida Teresa Reis (1947-2011).  Em Lisboa, já se costumava  ter telefone fixo em casa. Mas na província ainda era um luxo, por exemplo, para Albergaria dos Doze, concelho de Pombal, onde os pais tinham casa de fim-de-semana, não havia telefone fixo. Usava-se o do café ao lado...

O Humberto não se lembra do tarifário. Nas pesquisas na NET, também não é fácil encontrar tabelas tarifárias completas dos CTT para o serviço telefónico ultramarino nessa altura (em que estávamos os em Bambadinca, 1969/71). Mas podemos fazer uma estimativa bastante credível (*).

Naquela época, uma chamada entre a Guiné e Portugal fazia-se pela rede de radiotelefonia de alta frequência (HF), através da estação de Bissau, sendo depois encaminhada  para a rede telefónica nacional. 

Não existia marcação automática; a chamada era pedida à telefonista, muitas vezes com um dia de antecedência, sobretudo em postos do interior como Bambadinca. E mesmo em Bissau.

O custo era elevado. Namorar pelo telefone, nem pensar. As tarifas dos CTT da segunda metade dos anos 60 apontam para valores da ordem de cerca de 80 a 120 escudos por 3 minutos, conforme a hora e o circuito disponível,   cada período adicional de 3 minutos sendo cobrado separadamente. 

Para termos uma ideia do que isso representava, basta lembrar que uma praça ganhava em média entre 900 escudos (soldado) e 1300 escudos (1º cabo).

Assim, uma única chamada de três minutos podia representar entre um décimo e um sétimo do vencimento mensal de uma praça. 100 escudos em 1969 representariam, a preços de hoje, a 37 euros.

Era um verdadeiro luxo. Na melhor das hipóteses, só um em cada très de nós terá telefonado pelo menos uma vez para casa (**).

Além do preço, havia outro problema: a morosidade e a incerteza. A chamada podia ser marcada para determinada hora e só ser estabelecida muito mais tarde ou nem chegar a completar-se por falta de circuitos ou más condições de propagação rádio.  Muitas vezes, quando finalmente a telefonista chamava, era preciso correr para o posto dos CTT porque a ligação não esperava (***). Em Bissau chegava-se a dormir nas instalações (!).

No caso específico de Bambadinca, em 1969, o procedimento seria igual ao de outros postos dos CTT no interior da província: (i) o Humberto dirigia-se ao posto dos CTT;  (ii) preenchia um impresso pedindo a ligação para o número dos pais ou da namorada, no bairro da  Encarnacão, Lisboa, ou para o café  vizinho dos pais, em Albergaria dos Dozea;  (iii) a telefonista de Bambadinca (a dona Leontina)  transmitia o pedido para Bissau; (iv) Bissau tentava obter um circuito para Lisboa; (v) Lisboa estabelecia a ligação com o posto dos correios de Pombal (e depois Albergaria dos Doze); e (vii) finalmente, chamava o assinante (!)... 

Tudo isto podia demorar horas ou, frequentemente, até ao dia seguinte.

Tal como eu, muitos militares na Guiné nunca telefonaram para casa. As cartas e os aerogramas eram muito mais baratos. Eram o principal elo com a família (e amigos). O SPM funcionava bem. A chamada telefónica ficava reservada para casos muito especiais: uma doença grave, um nascimento, um aniversário, uma morte ou outra urgência familiar (de resto, havia, em alternativa, o telegrama, para um SOS como um pedido de dinheiro).

2. Tudo indica que era absolutamente proibitivo para a maior parte dos militares no CTIG (e em especial para as praças  (soldados e cabos ) fazer uma chamada telefónica para a Metrópole, via CTT...

Escreveu o Arménio Estorninho em comentário ao poste P14937:...

(...) "No Posto Administrativo de Empada, havia um Balcão dos CTT no qual por várias vezes telefonei para os meus familiares e pela módica quantia de 100$00 (pesos) por período de 3 minutos.

A chamada tinha que ser marcada (dia e hora) com aviso ao receptor e confirmada a quem solicitava.

Obs: Por intermédio do balcão do Posto Administrativo de Empada (via telefone), foi solicitado à Rádio PFA - Programa das Forças Armadas  para a passagem de um 'disco pedido'  e como foi dito que era do interior passaram-no de imediato (coisa rara).(...)"
 

27 de julho de 2015 às 16:16:00 WEST


3. Pode perguntar-se  qual era então a utilidade (social, económica, administrativa, política...) dos postos dos CTT na Guiné ? ... Qual era a tabela tarifária em vigor ? Qual o seu movimento diário ? Quais seriam as suas receitas e despesas ? Quem tutelava os CTT ?  

É no tempo do ministro das colónias e depois do Ultramar, Sarmento Rodrigues (nomeado em 1950, depois de servir na Guiné como governador e "deixar saudades", entre 1945 e 1949) que se começa a modernizar a rede de telecomunicações. 

Pelo Arménio Estorninho (ex-1.º Cabo Mec Auto Rodas, CCAÇ 2381, Ingoré, Aldeia Formosa, Buba e Empada, 1968/70), ficamos a saber que Empada, que era posto administrativo (, sendo a sede da circunscrição em Tite, região de Quínara)  e tinha balcão dos CTT... E que se pagava 100 pesos por uma chamada de 3 minutos para a metrópole... 

"Módica" quantia é que não era... Era o preço de uma garrafa de uísque velho, ou o equivalente a 4 refeições em Bafatá, no restaurante A Transmontona (bebidas incluídas).

Tite passou a sede de circunscusncrião, em lugar de Fulacunda que perdeu importância com a guerra, e ficou isolada. Hoje é Buba a capital da região de Quínara. Buba também devia ter balão dos CTT tal como Tite.
 
O cor art ref António J. Pereira da Costa também confirma que o serviço era caro:

(...) Usei os serviços dos CTT a partir do telefone do chefe de posto (administrador(?) de Mansabá.

Era caro, mas consegui falar para casa e perguntar à minha mulher se queria lá ir ter comigo. Ela foi e esteve lá durante cinco meses. Apareceram também as mulheres de dois furriéis milicianos até o cor pqdt  Durão me ter ordenado que fizesse uma proposta para que fosse autorizada a presença de mulheres metropolitanas em Mansabá. Obviamente a proposta foi chumbada e elas foram regressando a casa, excepto a Júlia que ficou em Bissau com resultados trágicos.

O telefone ouvia-se pessimamente mal devido ao "aquecimento" das antenas, mas falava-se e isso já era bom. (...)
 
segunda-feira, 20 de julho de 2015 às 21:52:00 WEST 

(Revisão / fixação de texto, negritos: LG)
________________


 
(***) Vd. poste de 8 de julho de 2015 > Guiné 63/74 - P14938: (Ex)citações (287): Certa vez fui a Teixeira Pinto, e na estação dos CTT marquei dia e hora para telefonar para casa... A família reuniu-se em peso, reunida, ansiosa, à espera do telefonema... Mas eu não consegui lá voltar nesse dia e hora...A família ficou em pânico, como seria de imaginar (Leão Varela, ex-alf mil, CCAÇ 1566, Jabadá, Pelundo,Fulacunda e S. João, 1966/68)

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28058: Efemérides (393): Há 57 anos, a 24 de maio de 1969, partiu o T/T Niassa para o CTIG - Parte IV: "E tudo o vento levou"... Os navios de transporte de tropas


A caminho da Guiné > A bordo do Niassa > c. 24-29 de maio de 1969 > Quadros metropolitanos da CCAÇ 2590 (futura CCAÇ 12), na viagem de Lisboa-Bissau. Da esquerda para a direita: 2º sargento Alberto Videira (já falecido), furriéis milicianos António Branquinho (já falecido), Tony Levezinho, Humberto Reis, Joaquim Fernandes, eu (Graça Henriques) e Luciano Almeida (já falecido). Na mesa de trás, ao fundo, receonhece-se, à ponta, do lado esquerdo, o  João Martins, o nosso "pastilhas" (fur mil enf).

Foto: Arquivo Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné


1. Foi há 57 anos que embarquei para a Guiné no T/T Niassa,  regressaria 22 meses depois no T/T Uíge (*). 

Hoje, olhando para trás, impressiona a dimensão logística e humana daquele esforço militar que o nosso país fez. Entre partidas e regressos, milhares de portugueses cruzaram o Atlântico e o Índico em navios que ficaram para sempre associados à memória da Guerra do Ultramar / Guerra Colonial  

Para muitos antigos combatentes, recordar o Niassa, o Uíge ou o Vera Cruz é recordar uma etapa decisiva da sua juventude, feita de camaradagem, incerteza, medo, distância e saudade. (E já não falo das "viagens de retorno" de centenas de milhares de portugueses, vítimas da descolonização, em 1974 e 1975.)

Recorde-se aqui a "epopeia" do transporte marítimo (e depois aéreo) de tropas para o Ultramar, a pretexto de mais uma efeméride.

Em finais dos anos 50, depois de investimentos públicos de grande envergadura, a marinha mercante portuguesa tinha atingido o seu desenvolvimento máximo. Éramos uma "potência marítima",  com uma frota de 22 paquetes, somando no total de 167 000 toneladas. (Sem esquecer a frota pesqueira, e nomeadamente a "frota branca", que  ia á pesca do bacalhau na Terra Nova e na Gronelândia.)

Na marinha mercante  destacavam-se   quatro gigantes, Santa Maria, Vera Cruz, Príncipe Perfeito e Infante D. Henrique:
  • com cerca de 30 000 toneladas cada um;
  • sendo capazes de transportar mais  de 1000 passageiros ou mais de 2000 soldados.

Quase todos estes paquetes foram requisitados em diversas ocasiões para transporte de tropas, muito especialmente na fase inicial da guerra. De resto, todas as unidades da marinha mercante seriam essenciais para manter o esforço de guerra em África.  Entre os  mais requisitados na ligação a África  destaca-se  o Vera Cruz, o Niassa, o Lima, o Império e o Uíge.

O Niassa foi o primeiro paquete fretado como transporte de tropas e de material de guerra, por portaria de 4 de Março de 1961. O Vera Cruz, por sua vez, seria aquele  a fazer mais viagens, chegando a realizar 13 num ano:

  • em 1961, efectuaram-se 19 travessias por nove paquetes em missão militar;
  • o ritmo aumentou à medida que a força expedicionária em África crescia;
  • em 1963, tinham-se efectuado 27 viagens por oito paquetes;
  • e, em 1967, 33 por nove. 
  • até 1974, o mar foi grande via de ligação ao império, tendo mais de 90 por cento da carga e de 80 por cento do pessoal metropolitano empenhado na guerra sido transportado em navios

 Fonte: Adapt de Centro de Documentação 25 de Abril, com a devida vénia.

 2. Recorramos, mais uma vez,  ao nosso "enciclopédico" Pedro Marquês de Sousa, autor de "Os números da Guerra de África" (Lisboa, Guerra & Paz Editores, 2021, pp. 306 e ss.), que tem informação preciosa sobre esta matéria no seu capítulo IV (As despesas da guerra).

Escreveu ele: "Estes três navios que asseguraram 75% das viagens de ligação de Lisboa para África realizaram 146 viagens para Angola, 50 para a Guiné e 30 para Moçambique" (pag. 306). 

Analisando o período entre 1965 e 1970 (seis anos), o autor apurou que o número médio anual de viagens foi 18, 8 e 5, para Angola, Guiné e Moçambique, respetivamente (pág. 307).  

Por sua vez, a média de militares transportados (ida e volta), por ano foi a 70 mil: mínimo, 54 mil em 1966, máximo, 74,9 mil em 1969.

Discriminam-se a seguir os navios que transportaram tropas entre 1961 e 1975, por ordem decrescente do nº de viagens. O destaque vai para o Vera Cruz, o Niassa, o Uíge e o Ana Mafalda, com mais de duas dezenas de viagens:

  • Vera Cruz: 85;
  • Niassa: 66;
  • Uíge: 47; 
  • Ana Mafalda: 22;
  • Índia: 13;
  • Cuanza: 11;
  • Império: 9;
  • Pátria:7;
  • Carvalho Araújo: 5;
Total=265.

Estes nove  seriam os principais navios afetos ao transporte de tropas... Mas o autor fala num frota de 15... Há outros que fizeram também viagens, mas esporádicas: 

  • Arraiolos (em 1961, para Angola, e depois em 1974, para a Guiné); 
  • Sofala (em 1963, para a Guiné);
  • Timor: 2 viagens para a Guiné em 1967;  outra, em 1969, para a Guiné; em 1970, para Angola; em 1971, outra para Angola e Moçambique,

Mas há mais: 

  • em 1974, os navios Bragança, Cabo Bojador e Alcobaça, fizeram uma viagem para a Guiné; 
  • e em 1975 realizaram uma viagem a Angola e Moçambique os navios Lendas, Beiras, Amarante,  Infante D. Henrique, e o Serpa Pinto;
  • e ainda em 1975, mas só para Angola, viajaram o Papacostas, o Panarrange (duas viagens), o Lobito, o Novo Redondo e o Leixões (pág. 309), nomes de navios de que nunca tínhamos ouvido falar...

Mas, no caso de transportes de tropa para a Guiné (e da Guiné), há omissões: 

  • não são referidos o N/M Angra do Heroísmo, o N/M Rita Maria e o N/M Alenquer; 
  • o N/M Lima não sabemos se alguma vez foi à Guiné; 
  • mas há ainda o N/M Alfredo da Silva (que viajava para a Guiné, era da SG / CUF);
  • e, se calhar outros,  que não nos vêm à memória.

Vejam-se aqui as referências todas que temos no nosso blogue aos navios a motor (N/M) (às vezes designados por T/T no texto), por ordem decrescente de referências:


Segundo a fonte que  temos vindo a citar (Sousa, 2021, pág. 309),  o Uíge (com lotação de 571 passageiros e 139 tripulantes)  fez mais viagens (28) para a Guiné do que o Niassa (22). 

O Ana Mafalda também fez muitas viagens para a Guiné, "sobrelotado com unidades dos Açores e da Madeira, chegando a levar duas companhia (cerca de 300 homens), apesar de a sua lotação ser apenas de 52 passageiros e 47 tripulantes".

O N/M Funchal nunca transportou tropas que eu saiba, era um navio de cruzeiro... Transportou, sim, em fevereiro de 1968,  o presidente da República, Américo Tomás, e sua comitiva na visita  à Guiné, ainda no tempo do gen Arnaldo Schulz. Daí ter uma referência no nosso blogue.

3. Nunca, ao longo da nossa história secular, recrutámos, mobilizámos e transportámos tantos combatentes, para teatros de operações,  distantes, em milhares de quilómetros, em África, como durante o período de 1961/75. 

Basta recordar que nos três teatros de operações (Angola, Guiné e Moçambique) estiveram empenhados cerca de 800 mil militares portugueses: cerca de 70% provenientes da metrópole, e sendo os restantes do recrutamento local (pág. 199).

Nessa época Portugal tinha uma belíssima  frota da marinha mercante, à qual podia requisitar navios para transporte de tropas, material de guerra, víveres e outros meios logísticos. 

Em 1971, o país aumentaria a sua capacidade de transporte por via áerea, com a aquisição de dois aviões Boeing 707, por parte dos TAM - Transportes Aéreos Militares. Começaram a operar na ligação Lisboa-Luanda, trajeto que faziam em 10 horas (enquanto o Vera Cruz demorava 10 dias). 

É bom recordar aqui a demora média das viagens  para os três teatros de operações, por via marítima:  
  • 9/10 dias, Lisboa-Luanda;
  • 5/6 dias, Lisboa-Bissau; 
  • 19/22 dias, Lisboa-Moçambique (dependendo do porto de desembarque).
(Continua)
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quinta-feira, 23 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27941: Casos: a verdade sobre... (72): Kalashnikovomania - Parte VII: até o ajudante de campo do gen Bettencourt Rodrigues, um tenente 'cmd', se rendeu aos encantos da AK-47 (segundo o fotógrafo António Murta) ou da SA Vz58 (na opinião do nosso especialista em armamento, Luís Dias)

 


Espingarda automática, checoslovaca, SA vz58 P (com coronha, punho de pistola, e guarda-mão; e bandoleira). Fonte: cortesia de Wikipedia




Ak-47, de origem soviética. Aos olhos de um leigo, estás duas armas podem confundir-se.

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)




Foto nº 5B, 5A, 5> Guiné > Região de Tombali > Sector S2 (Aldeia Fomosa) > Nhala > 2ª C/BCAÇ 4513 (Nhala, 1973/74) > 23 de Abril de 1974 > "O tenente guarda-costas (que ostenta o crachá dos cmds na boina, e está equipado com uma Kalash), aproveita para ler uma carta chegada da Metrópole, quero crer. Porquê? Porque o envelope é debruado pelo tracejado característico do correio aéreo."



Foto nº 2 e 2A > Guiné > Região de Tombali > Sector S2 (Aldeia Fomosa) > Nhala > 2ª C/BCAÇ 4513 (Nhala, 1973/74) > 23 de Abril de 1974 > "Depois das honras militares o general cumprimenta o cmdt de Nhala, cap Braga da Cruz, da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513. Atrás de si, o Oficial de Dia, alf mil Campos Pereira. [No lado esquerdo da foto, vè-se o ajudante de campo de Kalash em punho.]"


Foto nº 3 > Guiné > Região de Tombali > Sector S2 (Aldeia Fomosa) > Nhala > 2ª C/BCAÇ 4513 (Nhala, 1973/74) > 23 de Abril de 1974 > "A comitiva dirige-se para o aquartelamento. À esquerda da imagem o coronel Hugo da Silva, Chefe do Estado-Maior, cumprimenta o Oficial de Dia. Em primeiro plano, de Kalashnikov, o tenente Ajudante de Campo. E guarda-costas, pareceu-me."


Foto nº 11  > Guiné > Região de Tombali > Sector S2 (Aldeia Fomosa) > Nhala > 2ª C/BCAÇ 4513 (Nhala, 1973/74) > 23 de Abril de 1974 > "As visitas preparam-se para partir. Ao volante do jipe, o Cmdt do Batalhão Ten-Cor Carlos Ramalheira e, ainda a subir, à esquerda, o Cmdt de Operações do BCAÇ 4513, Capitão Cerveira. De cigarro, à direita, o Coronel Hugo da Silva. No jipe de trás o resto da comitiva, apenas se reconhecendo ao volante o Major Dias Marques  [e o ajudante de campo que se preparava para tomar o seu lugar, atrás, no lado direito, no jipe da frente]. A comitiva dirigiu-se a Aldeia Formosa, onde o general almoçou regressando logo a seguir a Bissau."


Fotos do álbum do António Murta, ex-alf mil MA, 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (Aldeia Formosa, Nhala e Buba, 1973/74). Manteve-se a mesma numeração.(*)

Fotos (e legendas): © António Murta (2015). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. É mais um caso de... kalashnikovomania ?! Podia chocar alguns de nós ao ver o ajudante de campo do governador e comandante-chefe que sucedeu ao gen Spinola optar, em vez da G3, por uma arma  com que os  homens do PAIGC nos matavam..

Mas há aqui uma dúvida: trata-se de um AK-47  (como diz o fotógrafo, António Murta)  ou de uma  SA Vz58 (como garante o nosso especialista em armamento, Luís Dias) ?

 Este último diz que é uma SA Vz58:

(...) "Na foto nº 5 é identificado um Tenente dos Comandos, referindo que o mesmo porta uma espingarda de assalto Kalashnikov. 

No entanto, a arma que ele transporta é uma SA Vz58, de origem Checoslovaca, com aparência semelhante à AK-47, mas opera num sistema diferente. 

Estas armas foram adquiridas aquando da Operação "Mar Verde", em 1970, efectuada na República da Guiné-Conacri. Continuaram a ser usadas por forças dos Comandos na Guiné (graduados) e era a arma preferida do então alferes Marcelino da Mata, quando comandava o Grupo de Operações Especiais, mais conhecido pelo Grupo do Marcelino da Mata. (...)

quinta-feira, 21 de março de 2024 às 11:41:00 WET 

2. Comentário do editor LG:

Luís Dias, obrigado pelo teu comentário. Tens "olho clínico", és  bom observador e sobretudo és especialista em armamento.... És capaz de ter razão, a arma do ajudante de campo ( e guarda-costas, o dois em um) não será uma AK-47 mas a tal SA Vz58 (a avaliar por pequenos pormenores como o feitio da coronha, o tapa-chamas, a alça. a mira, o guarda-máo,  o punho, etc., além do porta-carregadores em couro).

Do que tenho dúvidas é em relação às armas que foram adquiridas para equipar as forças que estiveram empenhadas na Op Mar Verde (22 de novembro de 1970). 

De acordo com o António Luís Marinho ("Operação Mar Verde: um documento para a história", s/l, Círculo de Leitores, 2005), foram compradas 250 espingardas automáticas AK-47, além de 20 morteiros  e 12 RPG-7, encomenda feita diretamente à então URSS (!) pela empresa portuguesa "Norte Importadora", de João Zoio, e paga pelo cheque nº 30983. no valor de 3450 contos, endossado ao inspetor da DGS, Barbieri Cardoso (pág.  79). (Essa importância seria equivalente, a preços de hoje, a mais de 1,2 milhões de euros, era muita massa.)

A título de curiosidade:

  • Cada AK-47 (equipamento completo, incluindo 4 carregadores) custava 5750 escudos em 1970 (c. de 2000 euros); loop
  •  Cada mil munições 7.62 para a Kalash custava mil euros (a preços de hoje);
  •  Já o RPG-7 (LGFog) custava 50750 escudos (c. 17,8 mil euros);
  • Cada granada-foguete perfurante (para a bazuca) andava à volta de 1750 euros;
  • O morteiro 82 era ligeiramenet mais caro que o LGFog: 53879 escudos (c. 18,9 mil euros);
  • A granada de morteiro, HE (Altamente explosiva), era mais baratinha: c. 300 euros...

(Seleção e edição de fotos, revisão/ fixação de texto, parênteses retos, título: LG)

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Notas do editor LG:

sábado, 28 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27867: A Nossa Guerra em Números (49): BCAÇ 3872 (Galomaro, 1971/74): Flagelações e ataques aos quartéis e às tabancas; minas ativadas e detetadas; emboscadas e contactos (Luís Dias)


Guiné > Zona Leste > Sector de Galomaro > CCAÇ 3491 / BCAÇ 372 (1971/74)  (1971/74) >

  Luís Dias, alf mil op esp :  "Chegada a Galomaro da CCAÇ 3491,  no dia 9 de março de 1973. No jipe podemos ver eu, e  o fur mil Baptista, do 1º Gr Comb, e ao lado, a sorrir, um guerrilheiro do PAIGC que, no dia anterior, se tinha entregue a uma patrulha nossa na área do Dulombi. A arma é uma Shpagin PPSH 41, no calibre 7,62 mm Tokarev, mais conhecida por "costureirinha" e com a particularidade de ter um carregador curvo de 35 munições, em vez do habitual tambor de 71". 

(Foto do Luís Dias, reproduzida com a devida vénia, do seu blogue, Histórias da Guiné, 71-74: A CCAÇ 3491, Dulombi.


Comentários do Luís Dias ao poste P 27859 (*):


(i) Na história resumida do BCAÇ 3872, haveria mais para contar, quer em material apreendido ao IN, quer em número de mortos infligidos, mas está errada a data da partida da Guiné.

O Batalhão, em conjunto com 4 companhias independentes, embarcou no Niassa, não em 25 de março, mas em 28 de março de 1974, tendo chegado a Lisboa no dia 4 de abril de 1974. E são registo oficiais, dos quais se esperava melhor acerto nas datas.

Abraço.
sexta-feira, 27 de março de 2026 às 18:38:00 WET


(ii) Já agora publico mais elementos gerais 
do BCAÇ 3872 (**):


  • Flagelações e ataques aos nossos quartéis

CCAÇ 3489 - CANCOLIM

8 Flagelações em 1972 (1 delas c/ 3 mortos, 5 feridos graves e 5 feridos ligeiros)
2 Flagelações em 1973
2 Flagelações em 1974

CCAÇ 3490 – SALTINHO

Não sofreram quaisquer ataques ou flagelações durante a comissão

CCAÇ 3491 – DULOMBI

3 Flagelações em 1972
4 Flagelações em 1973
2 Flagelações em 1974

CCS - GALOMARO

1 Ataque/flagelação em 1972 c/1 IN morto confirmado e prováveis feridos IN

  • Minas ativadas e detetadas

Cancolim: 

- Mina A/P reforçada accionada c/1 morto e 1 ferido+mina A/C accionada c/12 feridos graves, 1 ferido ligeiro e 2 feridos pop.+2 minas A/P levantadas

Saltinho: 

- 3 minas A/C levantadas e 1 A/P levantada

Dulombi: 

- 2 minas A/C levantadas e 2 minas A/P levantadas e 1 A/P, rebentada por viatura nossa em Pirada.

Galomaro: 

- 1 mina A/P reforçada accionada c/1 morto+1 mina A/C reforçada accionada c/1 ferido grave

  • Emboscadas | Contactos | Flagelações auto 

CCAÇ 3489 

- 1 contacto com o IN, após flagelação ao quartel, em 1972
- 1 emboscada aos milícias em Anambé, em 1973 c/2 mortos e 1 ferido

CCAÇ 3490
 - 1 emboscada no Quirafo c/ 9 mortos+1 milícia e 2 civis+1 militar capturado. 1 emboscada c/feridos e mortos do IN+1 contacto do IN c/milícias de Cansamange

CCAÇ 3491 

- Flagelação numa operação no Fiofioli + 1 emboscada/contacto com 4 feridos ligeiros nossos e mortos do IN (s/confirmação de quantos, mas a rádio do PAIGC referiu que tínhamos tido 8 mortos e eles também tinha tido mortos 
- 1 emboscada/flagelação junto à recolha de águas no Dulombi 
- 2  flagelações a coluna de escolta e protecção na estrada Piche-Buruntuma.

CCS

- Contacto entre forças milícias e o IN, após ataque a Campata c/ elemento IN capturado.

  • Ataques a tabancas em autodefesa e tabancas indefesas

- Tabanca indefesa de Bambadinca/Cancolim, em 25/1/72;
- Tabanca indefesa de Mali Bula/Galomaro, em 1/2/72;
- Tabanca de Umaro Cossé/Galomaro, c/2 feridos civis, em 7/12/72;
- Tabanca de Campata/Galomaro, em 20/6/72;
- Tabanca indefesa de Sinchã Mamadu/Saltinho, na mesma data de 20/6/72;
- Tabancas indefesas de Sana Jau e Bonere/Saltinho, em 30/6/72;
- Tabanca de Cassamange/Saltinho, em 15/7/72;
- Tabanca indefesa de Guerleer/Galomaro, c/ morte de 3 prisioneiros civis e 1 ferido grave, em 27/7/72;
- Tabanca de Patê Gibele/Galomaro c/ 1 sarg. milícia morto+1 ferido grave e 2 feridos ligeiros da pop., em 11/8/72;
- Tabanca de Anambé/Cancolim c/1 morto (CCAÇ 3489)+3 feridos também da mesma CCAÇ, que ali estava de reforço, em 5/9/72;
- Tabanca de Sinchã Maunde Bucô/Saltinho, c/3 feridos IN confirmados, em 20/9/72;
- Tabanca de indefesa de Bujo Fulpe/Galomaro, em 26/9/72;
- Tabanca ainda indefesa de Bangacia/Galomaro, com 1 milícia e 2 civis mortos, no mesmo dia (26/9/72);
- Tabanca de Dulô Gengele/Galomaro, com 3 mortos IN confirmados e 3 mortos civis (que tinham sido feitos prisioneiros antes do ataque e que foram abatidos+1 ferido grave e 1 ferido ligeiro dos milícias e 4 feridos graves da pop e 5 feridos ligeiros da pop., em 17/10/72;
- Tabanca indefesa de Sarancho/Galomaro, com 2 mortos civis e 2 feridos civis;
- Tabanca indefesa de Samba Cumbera/Galomaro, c/1 ferido grave da pop., em 13/11/72;
- Tabanca de Cansamange/Saltinho, 17/12/72;
- Picada Saltinho-Galomaro c/16 elementos da pop. capturados e roubados dos seus haveres (dinheiro), em 18/1/73;
- Tabanca de Bangacia/Galomaro, c/2 mortos civis+2 feridos civis+2 feridos milícias, em 1/2/73;
- Tabanca de Campata/Galomaro, c/5 mortos do IN e 1 capturado+3 mortos milícias e 3 mortos civis, em 16/3/73;
- Tabanca de Sinchã Maunde Bucô/Saltinho, em 14/5/73;
- Tabanca de Bangacia/Galomaro, em 18/9/73;
- Tabanca de Madina Bucô, em 20/1/74


PS - Comentário do Paulo Santiago (*) em complemento do que escreveu o Luís Dias:

No comentário do Luís Dias, umas pequenas correções nas flagelações a tabancas/ Saltinho até Agosto/72,  mês em que regressei em fim de comissão:

Tabanca de Sinchã Maunde Bucô/Saltinho,em 14/5/73
Tabanca de Madina Bucô,em 20/1/74

É a mesma tabanca, o nome correto é o primeiro,mas era mais conhecida por Madina, era a tabanca antes de chegar ao Quirafo vindo do Saltinho.

Não consta da lista, mas esta tabanca foi flagelada numa data em que eu ainda estava no Saltinho,talvez Junho ou Julho.

Sana Jau e Bonere. não conheço, não ficavam na zona do Saltinho

sábado, 20 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27551 A nossa guerra em números (48): é provável que em média um soldado gastasse, mensalmente, só em cerveja, até 1/3 do pré; e, quando não tinha "patacão", bebia fiado...


Guiné > Região de Tombali > Cachil > CCAÇ 557 (1963/65) > 1964 > Uma pausa nos trabalhos ciclópicos de construção do famoso "Forte Apache" (perímetro defenbsivo feito por troncos de  cibes)... Num dos piores lugares do inferno verde e vermelho que foi, para muitos de nós, a Guiné... Mas hoje seria uma fantástica imagem de publicidade a uma marca de cerveja (que por sinal não seria a Sagres mas a Cristal). Fotograma  de vídeo, do álbum do José Colaço (ex-soldado trms,  CCAÇ 557, Cachil, Bissau e Bafatá, 1963/65).

Foto (e legenda): © José Colaço (2011). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

 

Guiné > Notas 100  escudos (ou "pesos") Banco emissor: BNU - Banco Nacional Ultramarino (1971). Efígie: Nuno Tristão. No câmbio e no comércio, em relação ao escudo da metrópole, emitido pelo Banco de Portugal, havia uma quebra de 10%... Ou seja: 100 "pesos" (escudos do BNU) só valiam 90 escudos (do Banco de Portugal)... Recorde-se que o BNU foi criado em 1864 como Banco Emissor para as ex-colónias portuguesas (tendo também exercido funções de banco de fomento e comercial no país e no estrangeiro; vd. aqui a sua história).

Uma nota destas, em 1969, dava para pagar à lavadeira, diz o nosso editor LG,  ou comprar uma garrafa de uísque do bom... Na cantina do Zé Soldado, rm Bambadinca, dava para comprar,  cerca de 14 cervejas de 0,33 l. 

Foto: © Sousa de Castro (2005). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Quanto é que um soldado bebia de cerveja,  em média, por mês ?   É  arriscado calcular médias.  Porque nem toda a gente bebia (e muito menos cerveja).

O nosso 1º cabo cond auto  José Claudino Silva, da 3ª CART /BART 6250/72 (Fulacunda, 1972/74) dá-nos algumas pistas: promovido pelo 1º sargento a cabo dos reabastecimentos, compete-lhe controlar o "stock" de bebidas e não deixar o pessoal morrer de sede... 

 Estamos na companhia dos "Serrotes", a que pertenciam também os nossos camaradas Jorge Pinto e Armando Oliveira.

Escassos meses depois da chegada (em finais de junho de 1972), "os serrotes de Fulacunda" (sic)  passam, em outubro, a consumir  ( ou, com mais rigor, a requisitar,  em média, 12 mil cervejas por mês, em vez das 10 mil) (*). Era bom ter alguns "excedentes" no armazém, para o caso do mundo acabar...

Pelo menos era esse o "stock" mensal. Já lhe pedi para confirmar esses números, distinguindo entre existências e compras/consumos.

 Admitindo que houvesse, no máximo,  cerca 200 militares  em Fulacunda (1 companhia de quadrícula + 1 Pel Art), um consumo médio de 12 mil cervejas, dava 2 cervejas por dia  por cada militar, o que não é muito. ( Não sabemos a proporção de cervejas de 0,33 l e de "bazucas",. de0,. 66 l.)

Também não temos termos de comparação com outros sítios da Guiné, com mais facilidades de reabastecimento (por ex., Bambadinca, por onde se abastecia todo a Zona Leste,as regiões de Bafatá e Gabu, que iam do Xime a Buruntuma).

A cerveja no meu tempo (Bambadinca, 1969/71) era a 3$50,e a "bazuca a 6$00. As duas marcas eram a Sagres e a Cristal, em garrafa de 33 cl (a "bazuca", a 0, 66 l). Acho que também já havia a enlatada, mais cara (mas já não tenho a certeza: as bebidas enlatadas eram a coca-cola e outros refrigerantes, que vinham da África do Sul, supono, juntamente com as fritads em calda).

De qualquer modo, modo lá se ia 1/5 a 1/3 do pré de um soldado (que era 900$00, enquanto um 1º cabo ganhava 1200$00).

Estamos a falar de uma média estatística (que é sempre enganadora): 

  • 2 a 3 cervejas por dia, em média,  é perfeitamente aceitável, se considerarmos as condições (de clima e de guerra) que enfrentávamos na Guiné;
  • temos, por outro lado, que considerar o número (desconhecido) dos abstémios... e o consumo de outras bebidas (coca-cola, uísque, vinho...);
  • provavelmente não se bebia mais cerveja porque o "patacão" não chegava, nem muito menos havia capacidade de frio (que melhora,apesar de tudo,  no tempo do gen Spínola);
  • como muitos de nós diziam, "a cerveja quente sabia a mijo"...

Já agora reproduz-se  aqui, de novo,   um interessante documento que é o  "Rol das despesas mensais de um soldado". Permite-nos  reconstituir, de certo modo, o quotidiano e o padrão de consumo de um soldado-tipo. Não temos  a certeza se a situação se reportava à Guiné ou outro TO (Angola ou Moçambique). Para o caso, também não interessa muito. De qualquer modo diz respeito a março de 1973.

Encontrámos esta informação numa nota de despesa, fotografada, que consta de um livro de que é primeiro autor o nosso saudoso grão-tabanqueiro Renato Monteiro (1946-2021), ex-fur mil art (CART 2479 / CART 11, Contuboel, Nova Lamego e Piche, 1969; e CART 2520, Xime e Enxalé, 1969/70).

Despesa de 3 [março]/1973:

  • Cerveja > 54 x 6$00 = 324$00 [=54 x 0,66 l= 35, 6 litros]
  • Cerveja > 24 x 4$00 = 92$00 [= 24 x 0,33 l= 7,92 litros]
  • Floid (sic) = 55$00
  • Pasta p/ dentes = 18$00
  • 1 frasco de cola = 30$00
  • 1 bloco de escrever = 15$00
  • 1 lata de fruta = 11$00
  • 1 garrafa de Porto = 55$00
  • Sabão = 7$00
  • Selos = 30$00
  • Envelopes = 8$00
  • Fotos = 44$00
  • Carne patoscada (sic) = 77$00
  • Vagaço (sic) = 14$00
  • 1 lata de leite = 8$00
  • Subtotal = 788$00
  • FIO (sic) = 750$00
  • Despesa total = 1538$00

1/4/1973
Assinatura ilegível


[ Fonte: Monteiro, R.; Farinha, L. - Guerra colonial: fotobiografia. Lisboa: Círculo de Leitores / D. Quixote. 1990, p. 223.]








Excertos do capítulo IV (Quotidiano do soldado, pp. 193-259) do livro  de Monteiro, R.; Farinha, L. - Guerra colonial: fotobiografia. Lisboa: Círculo de Leitores / D. Quixote. 1990, p. 223.] 


Legenda da foto de cima, com o militar a um canto no bar: 

"Bar de Sargentos e Oficiais, Nova Lamego, Guiné-Bidsau: sujeito  a grandes períodos de isolamento no mato ou nos aquartelamentos avançados das zonas de combate, o militar encontra nas pastuscadas e no consumo, por vezes imoderado, de bebidas alcoólicas, uma compensação para o esgotamento psicológico e moral. Nesses consumos dissipa o grosso do seu pré melhorado, que começa a auferir assim que  inicia a sua condição de 'mobilizado' ". 

Repare-se que a decoração da parede do fundo, do bar,  ainda é a do fur mil op esp Pechincha, que foi camarada do Renato Monteiro, do Valdemar Queiroz e do Abílio Duarte, em 1969, em Nova Lamego  na  CART 2479 / CART 11, os "Lacraus".

A legenda da foto com a lista das despesas diz apenas isto: "Rol de despesas mensais de um soldado" )(sic). Pela data do documento (1/4/1973) já não é do tempo do Renato Monteiro.

2. Repare-se que numa despesa mensal de 788$00 (equivalente hoje a 164, 26 euros) já nada restava do pré do soldado do Ultramar, uma parte do qual era de resto depositado na Metrópole.  Era um militar que comprava a fiado. E o cantineiro devia ser nortenho, que trocava os "bês" pelos "vês"...

Do total do consumo mensal (788$00), 52.8% ia para a cerveja! Em todo o caso, estes valores tem que ser vistos como um "outlier"; este militar, "soldado" (sic), chegaria ao fim da comissão  completamente endividado. 

Convertidos em litros,  o consumo de cerveja daria c.  de 43,5 litros por mês, 1,5 litros por dia... Se este fosse o "comportamento típico" do nosso Zé Soldado, o consumo anual de cerveja devia ultrapassar os 300 litros "per capita", admitindo-se  que na época das chuvas se bebia menos...(Parece-nos um valor exagerado.)

Havia dois tipos de garrafa: a de 0,66 litros (a chamada bazuca, na Guiné) e a de 0,33 l. 

Em 1973, o preço era, respetivamente, 4$00 e 6$00 (0,83 euros e 1, 25 euros, respetivamente, a preços atuais). Terá aumentado a cerveja de 0,33 l (de 3$50 para 4$00). Admitimos que o preço da cerveja se tenha mantido relativamente estável, ao longoi da guerra, por vezes razões "psicossociaias"...

Parece-nos mais razoável apontar para, no máximo, um 1/3 o valor da despesa em cerveja,  tendo em conta os consumos em junho de 1970 em Nova Sintra  (***).

3. Já agora, vamos rever os preços de alguns bens de consumo, na época, bem como outros valores de referência (vencimentos, por exemplo) (**).

2.1. O Sousa de Castro diz-nos que no seu tempo (1972/74) "não era muito diferente: os preços que se praticavam, eram mais ou menos os mesmos" [que em  1969/71]...

  • eu como 1º cabo radiotelegrafista ganhava 1.500$00, sendo 1.200$00 por ser 1º cabo e mais 300$00, de prémio de especialidade" [tudo somado, 1500$00 em 1973, era o equivalente, a preços de hoje,  a 312,67 €];
  • por lavar a roupa, como cabo pagava 60 pesos [em 1973][=12, 51 euros ]

Em 1969, diz o nosso editor LG:

  • recordo-me que os soldados da minha CCAÇ 12 (que eram praças de 2ª classe, oriundos do recrutamento local), recebiam de pré 600 pesos/mês [=181, 92 €];
  • além de mais uma diária de 24$50 [=7,43€] por serem desarranchados. 600 pesos deviam dar para comprar uma saca de arroz de 100 kg ( o arroz irá passar de 6 escudos o quilo para 14 em 1974, com a inflação)...

2.2. Elementos fornecidos por outros camaradas (**):

José Casimiro de Carvalho:

  • 100 pesos dava para comprar uma garrafa de Old Parr (em 1972/74);
  • como furriel, o Carvalho ganhava por mês entre 5400$00 e 6240$00 (isto já em 1974).

Humberto Reis:

Dos produtos que ele mais consumia, entre 69 e 71, referei:
  • 1 maço de SG Filtro: 2,5 pesos (sempre que saía para o mato, levava 3 a 4 maços para 2 dias);
  • 1 garrafa de whisky novo (J. Walker Juanito Camiñante de 5 anos, rótulo vermelho, JB): 48,50 pesos;
  • Idem, de 12 anos, J. Walker rótulo preto;
  •  Dimple e  Anti query: 98,50
  • Idem, de 15 anos, Monkhs e kOld Parr: 103,50
  • um uísque, no bar da messe de sargentos, eram 2,50 pesos sem água de sifão e com água eram 3,00 pesos;
  • o uísque era mais barato que a cervejola : 2$50, simples, contra 3$00 ou 3$50, além de que dava direito, o uísque,  a gelo;
  • as cervejas nunca estavam suficientemente geladas pois os frigoríficos da messe, a petróleo, não tinham poder de resposta para a quantidade de pedidos.
  • quanto à lerpa, ou ramim, uma noite boa, ou má, poderia dar, em média,  200 a 300 pesos para a lerpa e 50 a 100 para o ramim.
Luís Graça:
  • para uma família africana 100 pesos era muito dinheiro;
  • para a maior parte dos nossos militares, era muito dinheiro;
  • uma lavadeira em Bambadinca devia receber, nesse tempo (1969/71) 100 pesos por mês (era quanto ele pagava à sua)...(Elas tinham diferentes preçários, conforme a hierarquia militar; e tinham mais do que um cliente).
Com a inflação provocada pela guerra (era tudo importado!), houve uma progressiva degradação dos preços...e dos rendimentos. O problema agrava-se a partir de finais de  1973, com a chamada crise petrolífera...

Recorde-se que em 1973 os países árabes organizados na OPEP aumentaram o preço do petróleo em mais de 400% como forma de protesto pelo apoio norte-americano a Israel durante a Guerra do Yom Kippur... A nossa economia foi muito afetada...E a inflação disparou, pondo seriamente em risco a capacidade do país para poder continuar a financiar a guerra.

4. O melhor termo de comparação em relação a preçário, existências e compras de bebidas alcoólicas nas cantinas, é com Nova Sintra, ao tempo da CCAV 2483, e do nosso querido amigo e camarada,  ex-fur mil SAM Aníbal José da Silva.

Recorde-se m junho de 1970, a companhia (160 homens)  consumiu 7,8 mil garrafas de cerveja de 0,33 l , o que dava dava cerca de 2,6 mil  litros (uma média de 16 litros "per capital"... num só mês, meio litro por mês, perfeitamente aceitável, naquelas circunstâncias: um aquartelamento isolado, sem população, com reabastecimento apenas mensal)...

Claro que nem todos bebiam (cerveja ou outras bebidas alcoólicas). Mas seria raro aquele que só bebia água da torneira: na Guiné era intragável...
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22 de abril de 2010 > Guiné 63/74 - P6212: O 6º aniversário do nosso blogue (12): Cem pesos ? Manga de patacão, pessoal! ( Luís Graça / Humberto Reis / A. Marques Lopes / Afonso Sousa / Jorge Santos / Luís Carvalhido / Sousa de Castro)

(***) Último poste da série > 6 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27499: A nossa guerra em números (47): mais de 2/3 do consumo, do valor de vendas em junho de 1970 (n=89 contos), na cantina, da CCAV 2483, em Nova Sintra, foi em álcool e tabaco (Aníbal Silva / Luís Graça)