Blogue coletivo, criado por Luís Graça. Objetivo: ajudar os antigos combatentes a reconstituir o "puzzle" da memória da guerra colonial/guerra do ultramar (e da Guiné, em particular). Iniciado em 2004, é a maior rede social na Net, em português, centrada na experiência pessoal de uma guerra. Como camaradas que são, tratam-se por tu, e gostam de dizer: "O Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande". Coeditores: C. Vinhal, E. Magalhães Ribeiro, V. Briote, J. Araújo.
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quinta-feira, 30 de abril de 2026
Guiné 61/74 - P27972: Efemérides (388): Memórias de Abril (1970/71/72) (José Câmara, ex-Fur Mil Inf)
1. Mensagem de José Câmara com data de 29 de Abril de 2026:
Memórias do mês de Abril
Recentemente, numa passagem que fiz pela página pessoal do meu mano e editor Carlos Vinhal, deparei com o artigo que refere a sua chegada à Guiné e o cantar dos miúdos aos novos periquitos. Para ele, para todos nós, a chegada àquela província ultramarina era o princípio de uma nova e longa jornada de esperança de vida e retorno ao seio familiar. Li e reli.
Mergulhei nas fontes de saudades, de fé, de esperança. As minhas memórias dos meses de Abril de 1970/71/72, lições físicas e mentais, marcaram a minha vida militar e pessoal até aos dias de hoje.
No ano de 1970, acabada a recruta no fim do mês de Março, vi partir os meus companheiros ao encontro dos seus familiares. A Páscoa de Abril era deles. Eu e a maioria dos açorianos estacionados no CISMI, em Tavira, não tivemos esse direito. Mais que a vida militar era esse tipo de tratamento diferente que me magoava.
No ano seguinte, no dia 6 de Abril, ainda estou a ouvir o 1.° Cabo Isolino Picanço gritar “Malas às costas”. Naquele dia a CCaç 3327/BII17, ainda periquita, partia para a Mata dos Madeiros. Pessoalmente, para trás ficava a Guarda ao Palácio, as luvas brancas e os atacadores da mesma cor. O Bachile seria testemunha noturna do maior combate à bofetada que alguma vez tive a oportunidade de viver. Os mosquitos da zona concentraram-se nos alpendres dos edifícios onde pernoitamos.
No dia seguinte fomos acampar no meio do nada na Mata dos Madeiros. No Sábado de Aleluia o 4.° Grupo de Combate, ao qual pertencia a minha Secção, acompanhado pelo 3.° grupo, fez a sua primeira saída de vinte e quatro horas de segurança. O regresso na manhã do dia de Páscoa, sem dúvida o dia da maior festa religiosa dos açorianos, seria marcado com a saída dos 1.° e 2.° Grupos de Combate. Inserido no 2.° Grupo ia o Furriel Miliciano Fernando Silva, que nesse dia casaria por procuração.
O comandante da companhia, Sr. Capitão Rogério Rebocho Alves, um homem de grande coração, mandou regressar aqueles dois grupos ao acampamento. Havia que celebrar o casamento do Fernando Silva. Entre os vivas, as pingas e alguns olhos marejados pelo ambiente, chegou o momento de botar palavra. A mais esperada era a do Fernando Silva. O seu discurso simples e assertivo, “Porra, eu aqui a ração de combate e ela em Lisboa a comer bolo”, foi aplaudido de pé. Mas o Fernando e aqueles dois grupos de combate tinham que continuar a cumprir a sua missão. As formigas, os mosquitos e as aves noturnas acompanhariam o Fernando na noite de núpcias. A lua sorridente seria testemunha privilegiada dos orgasmos daquela noite.
O Fernando Silva bebendo água do cantil no dia do seu casamento por procuração (Domingo de Páscoa, 11 de Abril de 1971) na Mata dos Madeiros. Ao seu lado direito o Fur Mil Operações Especiais Carlos Pereira da Costa, do 1.° GComb. A seguir o FurMil Minas e Armadilhas Joaquim Fermento, do 2.° GComb. Na frente o Fur Mil At Inf João Cruz, do 2.° GComb, que cedeu esta fotografia.
Na Segunda-Feira de Páscoa fomos chocados com o acidente sofrido pelo Soldado Manuel Veríssimo de Oliveira, que viria a falecer no dia 23 daquele mês de Abril. Seria a nossa única baixa mortal. Fui designado para assistir aos familiares. A troca de correspondência com a mãe do Manuel continua gravada no coração. Não cheguei a tempo de lhe dar um abraço, de apaziguar um pouco a sua dor.
Em Abril de 1972, fazendo parte do Pelotão de Caçadores Nativos 56, sediado no Destacamento de São João, em hora de folga fui até ao porto daquela zona que distava duas centenas de metros da porta-de-armas. Adorava ver os raios solares avermelhados do pôr do sol. Porém, naquela tarde do dia 12, seria bafejado com a visão de raios de fumo sobre o canal de Bolama. O IN entendeu fazer festa com o lançamento de “foguetes 122”, nada que eu não estivesse habituado nas minhas terrinhas dos Açores, com a diferença que os nossos eram acompanhados com música. Por sorte um dos foguetões não apanhou uma fragata que estava estacionada em frente a Bolama.
Mês de Abril, lições de vida que o tempo se encarregou de suavizar. Saudades sinto daqueles que ao meu lado viveram fizeram e fazem parte das minhas recordações.
Abraço transatlântico.
José Câmara
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Nota do editor
Último post da série de 25 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27951: Efemérides (387): "O POEMA", alusivo à efeméride de hoje, 52 anos do 25 de Abril de 1974, da autoria do nosso camarada Juvenal Amado, ex-1.º Cabo CAR do BCAÇ 3872
segunda-feira, 6 de abril de 2026
Guiné 61/74 - P27892: Boas amêndoas e melhores Páscoas de 2026 - Parte II: A minha segunda feira de Páscoa em Vila do Conde (Virgílio Teixeira)
(ii) segunda, 6 de abril de 2026, 13:53
A Páscoa também se celebra por cá na segunda feira.
É dia de tradição ancestral, o povo ir passar o dia em piqueniques pelos concelhos de Vila do Conde e Póvoa de Varzim.
É mais feriado do que sexta feira e Domingo. Só os bancos abrem pois já fecharam na quinta feira.
Há muitos sítios celebres para os ajuntamentos de amigos, familiares e outros. Come-se as coisas que levam de casa com o pão comprado ontem. É norma a Regueifa tradicional.
Fazem as tradicionais queimadas, os churrascos tudo bem comido e bebido. Se chove ou frio, fazem na mesma.
Não conheço a história desta tradição, aliás em meio século aqui nunca fui a estes convívios, não só porque não apreciamos e as condições, já se sabe é tudo no monte. A minha mulher não gosta, e as crianças não gostavam porque havia muitas moscas, formigas e outros insectos.
Fizemos alguns piqueniques, mas em locais onde oferecessem as condições mínimas. Os meus filhos já na idade adulta nunca soube destas andanças. Mas é um convívio saudável quando tudo corre bem, sem discussões inúteis de desporto, política ou Igreja.
Os locais são dentro das matas, das árvores, debaixo de eucaliptos na falta dos grandes poilões.
Há caminhos, picadas abertas pelos convivas e muita verdura nesta época de primavera.
Os restaurantes fecham, alguns cafés abrem e aqui no centro juntam-se as famílias e crianças na grande feira da Páscoa. Eu vou comer o meu bacalhau assado no Forno, à moda da minha chefe Manuela. É não há igual. Eu também fazia muitas vezes mas agora estou mais preguiçoso.
E assim se passa mais um dia com céu um pouco nublado e normal. O compasso ainda não o vi, quer ontem no almoço na casa do meu filho e hoje não ouço as sinetas, também não há muito tempo que não beijamos a cruz!
Sinais dos tempos.
Bom almoço, Luís e família bem como todos os camaradas.
Virgílio Teixeira
Dia 6 Abril 2026
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Nota do editor LG:
(*) Vd. poste de 4 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27888: Boas amêndoas e melhores Páscoas de 2026 - Parte I: "Páscoa", poema de Miguel Torga, enviado por Mário Beja Santos
sábado, 4 de abril de 2026
Guiné 61/74 - P27888: Boas amêndoas e melhores Páscoas de 2026 - Parte I: "Páscoa", poema de Miguel Torga, enviado por Mário Beja Santos
Páscoa
Um dia de poemas na lembrança
(Também meus)
Que o passado inspirou.
A natureza inteira a florir
No mais prosaico verso.
Foguetes e folares,
Sinos a repicar,
E a carícia lasciva e paternal
Do sol progenitor
Da primavera.
Ah, quem pudera
Ser de novo
Um dos felizes
Desta aleluia!
Sentir no corpo a ressurreição.
O coração,
Milagre do milagre da energia,
A irradiar saúde e alegria
Em cada pulsação.
Miguel Torga, in Diário XVI
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segunda-feira, 21 de abril de 2025
Guiné 61/74 - P26710: Boas amêndoas e melhores Páscoas de 2025 - Parte VI (Luís Graça, versos ao "compasso pascal")

Madalena, Vila Nova de Gaia, 5 de abril de 2015.
1. Uma seleção dos meus versos dedicados ao "compasso pascal": há 50 anos que venho ao Norte, nesta data, ao Porto, à Madalena (V. N. Gaia), a Candoz (Paredes de Viadores, Marco de Canaveses). Nesta e noutras datas festivas, como o Natal, o Carnaval, etc., ou trabalhos coletivos da quinta, como a vindima...
Viva o compasso pascal
Desta linda freguesia,
Fizeram-nos muito mal
Estes dois anos de pandemia.
Faltam beijos e abraços,
Mas lá iremos ao normal,
Hoje damos mais uns passos,
Viva o compasso pascal!
É uma antiga tradição
Que nos enche de alegria,
E reforça a união
Desta linda freguesia.
Andámos todos com medo
E com máscara facial,
Duas Páscoas sem folguedo
Fizeram-nos muito mal.
Sem compasso nem foguetório,
Sem convívio nem folia,
Nem sequer houve peditório
Nestes dois anos de pandemia.
Deste compasso pascal,
É uma festa bem bonita,
E que nunca é igual.
E que nunca é igual,
Logo vem outro, se falta algum,
Renova-se o pessoal,
Que aqui somos todos por um.
Que aqui somos todos por um,
Na alegria ou na tristeza,
Na fartura ou no jejum,
Cabendo todos à mesa.
Cabendo todos à mesa,
Onde não falta o anho assado,
Nesta casa portuguesa,
Onde honramos o passado.
Onde honramos o passado,
O presente e o futuro,
Se alguém está adoentado,
Tem aqui um porto seguro.
Tem aqui um porto seguro,
Damos valor à amizade,
Às vezes o rosto é duro,
Mas o resto é humildade.
Mas o resto é humildade,
Viva o compasso pascal,
E a nossa fraternidade!...
Boa Páscoa, pessoal!
Boa Páscoa, pessoal,
Boa saúde e longa vida,
À Ti Nitas, em especial,
Que nos é muito querida!
Quinta de Candoz,
segunda feira de Páscoa,
22 de abril de 2019
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Já lá vem, em festa, p’la estrada fora,
O compasso pascal da freguesia,
Chega à nossa casa mesmo na hora,
E a todos saúda com alegria.
Mais do que a tradição, é a certeza
Para nosso geral contentamento.
Se não for preenchido, é o dos ausentes,
E, em especial, dos nossos mortos queridos;
Aos que vieram e estão aqui presentes,
Saibam que nós ficamos muito honrados.
E, aos do compasso, diremos, reconhecidos:
Tenham um dia feliz, mesmo… estoirados!
Quinta de Candoz, 2 de abril de 2018
Apregoa o compasso pascal,
Que hoje nesta casa nos visitou,
E a todos nos juntou neste local.
É uma das ruas da Madalena,
Que tem nome do nosso primeiro rei,
E eu, quando não posso vir, tenho pena,
Porque a Páscoa é aqui, isso eu sei.
Lá vai o compasso pela rua fora,
Sem freima, com prazer e devoção,
Com ordem, em festiva procissão.
À frente vai a cruz e uma senhora,
E outra porta se abre, ali na hora…
Até p’ró ano… e viva a tradição!
Madalena, V. N. Gaia,
domingo de Páscoa,
16 de abril de 2017
Olha o compasso pascal,
Visitando a freguesia,
Nesta casa, é bom sinal,
Traz-nos a fé e a alegria.
Traz-nos a fé e a alegria,
Que todos bem precisamos,
É a Santa Páscoa o dia
Em que as forças renovamos.
Em que as forças renovamos,
Como seres humanos e cristãos,
Boas festas desejamos,
Pais, filhos, amigos, irmãos.
Vizinhos da Madalena,
Mais os de longe que aqui estão,
E quem não veio vai ter pena.
E quem não veio vai ter pena,
De neste ano faltar,
Mas fez esta cantilena,
Para com vós partilhar.
Para com vós partilhar
As coisas boas do Norte,
E a amizade reforçar
Com um abraço bem forte.
Lisboa e Madalena, V. N. Gaia, domingo de Páscoa,
27 de março de 2016, 10h30
Vem em abril este ano
O nosso pascal compasso,
Vem o sicrano e o beltrano,
A todos damos um abraço.
É já forte a tradição,
Desta gente aqui do Norte,
Abre a porta, pede a bênção,
A todos deseja sorte.
É um povo hospitaleiro,
Que sabe receber e dar,
Se na fé é o primeiro,
Não fica atrás no folgar.
Obrigados, nossos vizinhos,
Pela visita pascal,
E aceitem com carinhos
… As amêndoas deste casal.
(...) Madalena, 5 de abril de 2015
Diz o povo… Mas em Candoz,
Não há Páscoa sem compasso,
E não há gente como… nós!
Viva o compasso pascal
Que nos vem visitar,
Franqueando nosso portal,
Santas bênçãos nos quer dar.
Páscoa é festa com mensagem:
Triunfa a vida sobre a morte;
Segue o compasso a viagem
E a todos deseja…sorte.
Viva o compasso pascal
Que nos faz esta visita,
Vem por bem, não vem por mal,
Mas traz um saco prá… guita!
Sem guita não há foguetes,
Que é coisa que o povo adora,
Sem ovos não há omeletes,
Sem folar não me vou… embora!
Páscoa é festa da nossa vida,
É tradição cá do Norte,
Não há gente tão querida,
Alegre e de altivo… porte.
É casa de boa gente,
É povo abençoado,
Que gosta de dar ao dente
E se pela por anho… assado!
Parabéns às cozinheiras
Desta bíblica iguaria,
Elas são também obreiras
Desta nossa… alegria.
A todos, muito obrigados:
Sem uma farta e grande mesa,
Sem amigos e convidados,
Páscoa seria… tristeza!
(...) Quinta de Candoz, 1/4/2013
Último poste da série > 20 de abril de 2025 > Guiné 61/74 - P26708: Boas amêndoas e melhores Páscoas de 2025 - Parte V ( Mário Beja Santos / Miguel Torga, 1907-1995)
domingo, 20 de abril de 2025
Guiné 61/74 - P26708: Boas amêndoas e melhores Páscoas de 2025 - Parte V ( Mário Beja Santos / Miguel Torga, 1907-1995)
Data - 20abr2025 15:26
Um dia de poemas na lembrança
(Também meus)
Que o passado inspirou.
A natureza inteira a florir
No mais prosaico verso.
Foguetes e folares,
Sinos a repicar,
E a carícia lasciva e paternal
Do sol progenitor
Da primavera.
Ah, quem pudera
Ser de novo
Um dos felizes
Desta aleluia!
Sentir no corpo a ressurreição.
O coração,
Milagre do milagre da energia,
A irradiar saúde e alegria
Em cada pulsação.
Miguel Torga (1907 - 1995), "Diário XVI" (11 jan 1990 / 10 dez 1993),
in "Diário XIII-XVI" (Lisboa, Dom Quixote, 2013)
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Nota do editor:
Último poste da série > 20 de abril de 2025 > Guiné 61/74 - P26707: Boas amêndoas e melhores Páscoas de 2025 - Parte IV (Vilma e João Crisóstomo, Brestanica, Eslovénia)
Guiné 61/74 - P26707: Boas amêndoas e melhores Páscoas de 2025 - Parte IV (Vilma e João Crisóstomo, Brestanica, Eslovénia)
Estou na Eslovénia neste momento, onde o dia de Páscoa é dia festivo mais importante do ano, muito mais que o Natal que aqui passa quase despercebido.
Já tentei o telefone, mas ninguém apanhou .. vou tentar outra vez. Mas entretanto pode ser que leiam este ...
Primeiro: um abraço de Boas Festas de Páscoa para todos. (*)
Oxalá vocês recebam este. Geralmente são as vossas horas queridas, (Sra Emília e Sra Felismina) que apanham o telefone. E é sempre um prazer ouvi-las! Vou continuar a tentar o telefone, na esperança de que suceda um milagre… como dizia o outro :” eu não acredito em milagres, mas que acontecem, lá nisso acredito!” . E para "teimoso casmurro" , creio que poucos como eu.
Abraço a todos.
João e Vilma
Guiné 61/74 - P26706: Boas amêndoas e melhores Páscoas de 2025 - Parte III (Manuel Rei Vilar, presidente da Associação Anghilau)
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Nota do editor:
Último poste da série > 19 de abril de 2025 > Guiné 61/74 - P26704: Boas amêndoas e melhores Páscoas de 2025 - Parte II (José Câmara, EUA / António Ramalho, V.F. Xira)sábado, 19 de abril de 2025
Guiné 61/74 - P26704: Boas amêndoas e melhores Páscoas de 2025 - Parte II (José Câmara, EUA / António Ramalho, V.F. Xira)

1. Mensagem de José Câmara, da Tabanca da Diáspora Lusófona:
Data - 19 abr 2025 03:47
Assunto - Boas e santas Páscoas
Caros amigos e familiares,
Independengtemente dos sentimentos religiosos de cada um, que o Cordeiro Pascal vos cubra com o Manto da Sua Graça. Tenham um Feliz e uma Santa Páscoa.
JC
2. Mensagem de António Ramalho, natural da Vila de Fernando, Elvas, a viver em Vila Franca de Xira:
Data - quarta, 16/04/2025, 12:36
Asunto - Uma santa e feliz Páscoa
São os meus votos para todos.
These are my wishes for everyone.
António Ramalho
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Último poste da série > 18 de abril de 2025 > Guiné 61/74 - P26702: Boas amêndoas e melhores Páscoas de 2025 - Parte I (José Belo, Key West, Florida, EUA / Luís Graça, Tabanca de Candoz)
sexta-feira, 18 de abril de 2025
Guiné 61/74 - P26702: Boas amêndoas e melhores Páscoas de 2025 - Parte I (José Belo, Key West, Florida, EUA / Luís Graça, Tabanca de Candoz)

1. Mensagem de Joseph Belo (Key West, Florida, EUA)
Data - 18 abr 2025 16:30
Um abraço de despedida do J. Belo.
2. Comentário do editor LG:
quinta-feira, 17 de abril de 2025
Guiné 61/74 - P26696: Contos com mural ao fundo (Luís Graça) (39): a Páscoa de antigamente
Quinta de Candoz (Paredes de Viadores, Marco de Canaveses) > 10 e 12 de abril de 2025 (exceto a foto da Serra de Montemuro, com neve, que é de 15 de abril) > A primavera, a Páscoa, o eterno retorno... A esperança, sobretudo a esperança.
Não, não havia Páscoa, sem as cerdeiras (ou cerejeiras) florirem, e sem as videiras começarem a sorrir, e sem os abraços compridos e efusivos de quem chegava do Porto e de mais longe. Ana, Bagana, Rabeca, Susana, Lázaro, Ramos, na Páscoa estamos, já dizia o provérbio popular.
Não, não havia Páscoa, sem a famosa freima que se apoderava das gentes cá do Norte, na véspera dos pequenos grandes acontecimentos, como os trabalhos coletivos (a vindima, as serviçadas...), ou os festejos (o casório dos filhos, o Natal, a festa da Senhora do Socorro ou a do Castelinho...).
Tudo isto, quando o Natal tinha o seu pinhão, e a Páscoa o seu tição, e a salgadeira estava atulhada com o porquinho que era o governinho da casa mas também uma das causas principais dos ACV que matava a gente...
Depois veio a maldita covid, e passaste a ter a triste Páscoa do confinamento, do "take away", e das grandes superfícies, com filas à porta, e a malta toda mascarada, guardando a devida distância uns dos outros...
O raio da covid não olhava a senhorios e rendeiros, a ricos e a pobres, e, aliada da morte, estava à espreita mas não esperava. Não poupava novos e velhos, rapazes e raparigas, homens e mulheres.
Quando o compasso chegava a uma casa, o fogueteiro sinalizava a sua presença... Os vizinhos, mais à frente, a 100, 200 ou 300 metros, nesta região de povoamento disperso, preparavam-se, com grande excitação, muita freima, para a cerimónia...
Já não importava se a Páscoa era no domingo depois da primeira lua cheia do equinócio da primavera, que tu, em passando a covid-19, perdeste a conta aos dias e aos meses e anos do calendário.
Tradição rica de significado socioantropológico, hoje em vias de desaparecer, a tua Páscoa nortenha que adotaste, há meio século.
Domingo da Ressurreição, carne no prato, farinha na mão, que na Santa Feira Santa comia-se o sável do rio Douro.
Folgai, meus filhos, enquanto puderdes, que noutra hora deveis de chorar, lembrava o padre Agostinho.
À noite, do terraço da varanda de Candoz, assistia-se, de borla,
ao espectáculo único da largada de fogo de artifício, quando o compasso recolhia, cansado e suado, depois de andar por montes e vales, estradões e socalcos, pontões e ribeiros, o homem da cruz à frente, e a seu lado o puto, de sobrepeliz, a tocar a sineta, já meio rachada. E a canalha atrás, para apanhar as canas dos foguetes e as sobras das mesas, os rebuçados dos pobres e as amêndoas dos ricos.
Depois da visita do compasso, e bem arrotado o arroz de anho assado no forno, era o espetáculo talvez mais aguardado do ano, a disputa em fogo de foguetório entre cada uma das freguesias circunvizinhas ali em frente, naquele cenário de presépio.
Todos, afinal, a competir pelas luzes da ribalta do céu, e a mostrarem-se mais cristãos e mais valentes do que no ano anterior. E com um sorriso matreiro, e uma pontinha de vaidade, bem mostrados aos que se sentavam na plateia deste vale de lágrimas que sempre fora aquela terra de camponeses, rendeiros e cabaneiros, jornaleiros, trolhas, carpinteiros, ramadeiros, trabalhadores do milho, da vinha e do centeio...
Deus fizera o mundo e as quatro estações de Vivaldi, e os solstícios do inverno e do verão, e os equinócios da primavera e do outono, só não mandara anjos para ajudar a plantar, regar e mondar o milho e a dar de comer ao tourinho, que era metade do patrão (que, ele, "mandjor da tropa", coitado, também lá andava a mourejar por terras de África na defesa da Pátria.)
Havia palpites, críticas, comentários, exclamações... sobre a quantidade e a qualidade do fogo de cada freguesia. E no final Paços de Gaiolo era o vencedor...
Era a vida que, afinal, na Páscoa, triunfava sobre a morte, naquelas terras de camponeses do vale do Sousa e do Tâmega, que chegaram a alimentar um milhão de portugueses durante séculos e a ajudar a dilatar a fé e o império, sem saber ler nem escrever, e muito menos o latinório aldrabado do padre Agostinho. Bom homem, o que não quer dizer que fosse santo.
Na era da covid-19, deixou de haver Páscoa, compasso, fogo, forno. Só o fogo do inferno, que esse continuava a arder, por mor dos pecadores, para seu exemplo e temor.
Nem abraços nem chicorações, só quando muito "abracelos... Uma tristeza, as casas fechadas, mortos os velhos, cheios de mazelas os menos velhos, tristes e desamparadas as viúvas, desconsolados os órfãos, famílias de desvairadas gentes espalhadas pelas diásporas.
No passado, ao almoço, não podia faltar o arroz de forno, que, em cada ano que passava, estava sempre melhor do que o do ano anterior. Davam-se gabadelas às cozinheiras cuja arte e engenho a idade ia apurando.
Podia chover, que em abril águas mil, mas a água que brotava das minas e da levada de Covas, e que regava os campos de milho, não apagava o fogo da paixão da vida, nem estragava o gosto pelo folgar dos corpos, e o rebolar na cama de palha de centeio, o forno aceso, o folar para os afilhados, sua benção, padrinho!, o pão de ló dos Lenteirões, o doce da Teixeira, a aletria, os foguetes a estalar no ar, alto e longe, a caneca de porcelana, que luxo!, por onde se emborcava o vinho, verde tinto, da Carreira Chã, com o travo adstringente do jaqué.
Os parentes e os amigos, alguns vindo de longe, da terra dos mouros, o vinho verde novo que jorrava da pipa e alegrava os corações, a canalha numa correria para apanhar as canas dos foguetes...
E os cães a ladrar!...
O compasso era tradição minhota e duriense, diziam-te. Tenderá a acabar, há muito profetizavam os sociólogos da desgraça e da mudança.
à desarmotização dos bens de mão-morta que não poupou os passais, provocando a pobreza do senhor abade, que, sendo filho de Deus, também tinha de comer... e "boer". E se ele comia e bebia, que nem um abade!...
Ah!, mas até os padres e as freiras morriam, em tempo de peste e de covid-19, lia-se na gazeta de Lisboa. E o teu vizinho da porta da frente, que vivia na Paris dos portugueses, coitado, também lá se foi, telefonou-te, chorosa, a viúva. E mais o fulano e o sicrano. E mais este e aquele outro.
Já nada era como dantes, desde que o mundo que tu conheceras, começara a soçobrar.
A visita pascal era um pretexto também para a afirmação social, o exibicionismo dos vizinhos e parentes mais ricos, alguns que haviam retornado de França, se não ricos, remediados, pensionistas das "mutuelles" e da "sécurité sociale", e que eram capazes de gastar uns bons contos de réis em foguetório...
Já não havia contos de réis, é verdade, nem lendas e narrativas de brasileiros que haviam feito fortuna no Novo Mundo.
Naquele ano da desgraça de 2020 restava-te a saudade, a ti e à famelga!... E as fotografias e os vídeos de antanho que se partilhava pelas redes sociais... Valeram-nos, ao menos, o Zoom e o Skype e outras plataformas que ajudaram a gente a iludir a solidão... em plena covid-19 que nos confinava e nos emboscava a todos.
© Luis Graça (2021). Revisto 18 de abril de 2025.
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Nota do editor:
Último poste da série > 8 de abril de 2025 > Guiné 61/74 - P26665: Contos com mural ao fundo (Luís Graça) (38): Às vezes este país quase perfeito e sem mácula
segunda-feira, 10 de abril de 2023
Guiné 61/74 - P24214: Manuscrito(s) (Luís Graça) (222): Circadiana, a vida
Circadiana, a vida!...
Depois do solstício do inverno, virá o solstício do verão
e aos dias suceder-se-ão as semanas, os meses, os anos.
Circadiana, a vida!...
Pior que o suplício do inferno
é o pavor do eterno retorno.
É a eternidade, dizem-te,
que nos move ou demove ou comove,
os seus sucedâneos terrenos, efémeros,
o elixir da juventude, a beleza,
o amor até que a morte nos separe,
o poder, orgástico, de mandar matar e morrer
talvez a paternidade e o egoísmo genético.
Circadiana, a vida!...
Afinal todos os anos é Natal
e todos os anos por aqui passa(va) o compasso pascal.
Aleluia, aleluia, Cristo ressuscitou,
a vida triunfa sobre a morte.
Circadiana, a vida!...
Todos os anos, com sorte…
Exceto quando deixaste a tua terra e foste para a guerra:
perdeste a noção do dia e da noite,
dos dias, das semanas, dos meses, e das estações,
que eram duas, a do tempo seco e a das chuvas.
Circadiana, a vida!...
Disseram-te que o velho general
esteve à beira da tua cama no hospital:
- É uma subida honra, para qualquer mortal,
a sua visita, meu general ! –
terás tu dito mas, por favor, e por pudor, não ponhas isso
no teu “curriculum vitae”.
Esquece a Guiné, camarada, meu herói,
e os pauzinhos que gravaste na parede da caserna,
na contagem decrescente para o fim da tua (co)missão.
Circadiana, a vida!...
Quando eras jovem, tinhas um calendário perpétuo,
na secreta esperança de que os dias não tivessem 24 horas,
não tivessem noite, não tivessem fim.
e pegavas na tua pedra de granito,
montanha acima, montanha abaixo!
Circadiana, a vida!...
E, se Deus quiser, a primavera há de chegar,
e os melros que vão pôr os seus ovos
E trazem histórias de coragem,
as tuas andorinhas de torna-viagem,
vêm do norte de África, quiçá da Guiné,
e não precisam de passaporte,
nem de GPS, nem de código postal, nem de carimbo das alfândegas.
fogem da guerra, e das alterações climáticas,
ou a benção dos imãs
Circadiana, a vida!...
E todos os anos fazes anos
e haverá sempre um bolo de aniversário
e uma vela para soprares.
meu pobre feliz aniversariante ?
Sopras a vida, sopras a vela da vida, de fio a pavio!
Circadiana, a vida!...
Até as almas têm estados, dizem-te, circadianos,
estados de alma, bipolares,
ora de euforia ora de depressão,
socalco acima, socalco abaixo...
Afinal, tão certo como dois e dois serem quatro,
à noite sucede o dia,
Circadiana, a vida, meu amor!...
A vida é pura repetição,
é o teu coração que bate forte, até à exaustão,
até a gente queimar a vela, de fio a pavio.
... a vida, sempre, armadilhada,
presa por um fio de tropeçar.
Última versão, Candoz, 9 de abril de 2023
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Último poste da série > 6 de abril de 2023 > Guiné 61/74 - P24202: Manuscrito(s) (Luís Graça) (221): Boas e santas Páscoas, nós por cá... todos bem!









