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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27754: Notas de leitura (1898): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (3) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 2 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
Para sermos justos não há verdadeiramente nada de novo na narrativa do Marquês do Lavradio quanto à questão de Bolama. O autor, detentor do arquivo dos marqueses do Lavradio, tendo vivido em Londres como aio do Rei D. Manuel II, teve seguramente acesso à documentação britânica para além de possuir os arquivos de seu pai, que fora representante de Portugal na primeira metade do século XIX, tendo-se relacionado com primeiros-ministros e ministros dos negócios estrangeiros britânicos que tudo fizeram para expulsar Portugal das franjas da Guiné, de Angola e Moçambique. Inequivocamente, o Reino Unido, como este livro revela pela documentação mostrada, tinha um plano imperial para África onde urgia reduzir drasticamente a presença portuguesa. E como o próprio Marquês do Lavradio aponta nas suas conclusões o Reino Unido preparava-se para negociar com a Alemanha, ainda no século XIX, a retirada de Portugal de Angola. Nas conclusões, para nosso espanto, o Marquês do Lavradio condiciona a existência do Império português em África ao beneplácito dos políticos de Londres, e dirá coisas que parecem ter uma carga premonitória, tais como: "Se um dia a China conseguisse apoderar-se de Hong Kong nós não poderíamos conservar Macau; se a Índia se revoltasse e, triunfante, expulsasse a Inglaterra, nós não necessitaríamos mais de um governador na Índia." Para que conste.

Um abraço do
Mário



Um livro assombroso, o Império Colonial Português no microscópio, na década de 1930, pelo punho do Marquês do Lavradio – 3

Mário Beja Santos

Portugal em África depois de 1851, subsídios para a História, pelo Marquês do Lavradio, foi editado pela Agência Geral das Colónias em 1936, trabalho que terá sido concluído em 1934. Goza da singularidade deste aio do Rei D. Manuel II ter tido acesso aos arquivos britânicos e possuir um repositório intitulado o Arquivo Lavradio, o seu pai, diplomata em Londres, correspondeu-se com diferentes governos britânicos, expediu notas para Lisboa e deixou relatórios da maior pertinência. O aspeto mais curioso deste seu trabalho é a franqueza que ele põe nas suas considerações da decadência imperial portuguesa, como se procurou mostrar nos dois textos anteriores revela como até ao século XIX a nossa presença circunscrevia-se praticamente à orla da costa de regiões que só no século XIX passaram a ser designadas ou até fronteiras, caso da Guiné, Angola e Moçambique (os arquipélagos de Cabo Verde e São Tomé e Príncipe). Dentro da franqueza que o Marquês usa na sua narrativa é patente a crítica por vezes brutal face ao imperialismo britânico; no entanto, dirá nas conclusões que o Império português só poderá sobreviver à sombra da proteção britânica.

Era inevitável que a Guiné aparecesse neste trabalho logo a questão de Bolama era uma das três questões importantes que tínhamos com os britânicos: em Bolama, em Lourenço Marques e em Angola. Vejamos a primeira, seguindo textualmente o que ele escreve.

A ilha de Bolama estava na posse de Portugal desde 1607 por uma doação que dela havia feito o Rei de Guinala, em recompensa do auxílio que os portugueses lhe haviam dado para o defenderem dos ataques dos Bijagós; em 4 de abril de 1753, Portugal havia tomado posse da ilha; em 1628, os Régulos que então dominavam a ilha haviam espontaneamente feito de novo cessão da ilha a Portugal, assinando um tratado e ajuste de posse, pelo qual era conferido à Corte Portuguesa o seu perpétuo domínio. A Inglaterra reclamou pela primeira vez em 1884 a ilha fundando-se em que em 1792 ela lhe fora cedida pelo Rei de Canhabaque e pedindo esclarecimentos sobre o fundamento que a nação portuguesa tinha para se julgar com direito ao domínio da ilha.

A verdade era que até 1792 nunca o domínio de Bolama fora contestado a Portugal, que em 1792 alguns ingleses fundando-se na tal venda haviam ali estabelecido, mas em 1793 haviam sido expulsos pelos naturais, só voltando em 1814; em 1827, Sir N. Campbell, tentara obter do Rei do Rio Grande uma ratificação da cessão ou venda feita em 1792; e em 1828 o Governador da Serra Leoa havia querido tomar violentamente posse daquela ilha o que lhe fora impedido pelas medidas adotadas pelo Governador e Capitão General de Cabo Verde, D. Duarte da Costa Sousa Macedo. Em 1830, o tenente da marinha A. Kellet comandando o brigue Bisk dirigira-se a Bolama, e com o fundamento de que ali se traficava em escravos, cortara o pau da bandeira, arrancara esta da mão de um soldado e chegara mesmo a cuspir-lhe.

Houve protesto em Londres. A nota ficou sem resposta até 22 de maio de 1840, dava razão a Kellet e declarava que não podia permitir que Bolama, reclamada pelo Governo inglês, servisse para mercados de escravos. Em 9 de junho de 1841, Lorde Palmerston declarava por escrito que a ilha de Bolama pertencia à Inglaterra, dizendo que os documentos apresentados por Portugal nada provavam a favor dos seus direitos e que os por ele apresentados provavam claramente os da Grã-Bretanha. Em 1842, o vapor de guerra inglês Pluton fundeava na ilha de Bolama, cometendo arbitrariedades. Em 15 de julho de 1842, o Governador de Bissau comunicava que o comandante do navio Pantaloon lhe participara em 23 de maio que por ordem superior ia tomar posse da ilha de Bolama, mas o Governador não mandou retirar o destacamento sem para isso receber ordem; a 6 de novembro de 1843, o Governador de Bissau mandava arriar a bandeira inglesa em Bolama, o que gerou protesto do Ministro de Inglaterra em Lisboa. Em 13 de janeiro de 1847, o comandante do brigue Rolla abusava da sua força em Bolama, com o fundamento de que a ilha era possessão inglesa. Nova queixa do Governador Militar de Bissau ao Governador Geral de Cabo Verde, este atribuiu o ato a embriaguez, ordenou ao Governador Militar de Bissau que repelisse a força quando o número de agressores não fosse tal que só causasse vítimas.

O autor elenca um corrupio de situações hostis, inclusive do Governador da Serra Leoa, sempre protestos das autoridades de Bissau e o Governo português sustentando que Bolama pertencia à coroa de Portugal. Em 1861, o Ministro dos negócios estrangeiros britânico propõe a decisão da contenda submetida a uma arbitragem. Havia mais de 20 anos que o Governo britânico disputava a Portugal o domínio de Bolama, fundando-se em documentos que o Governo português não podia reconhecer, por serem inválidos. O Ministro de Portugal em Londres, o 5.º Marquês do Lavradio conferenciou com o Ministro dos Negócios Estrangeiros e dele deixou o seu relato:
“Fiz a narração do que na ilha de Bolama havia praticado o Governador da Serra Leoa. Notei a insolência, a falta de princípios das duas cartas do Governador da Serra Leoa, a dignidade e prudência da resposta do honrado Governador da Guiné. Depois de fazer algumas poucas, posto que severas, observações sobre o procedimento do Governador da Serra Leoa, procedimento sem exemplo na história das nações civilizadas, concluí dizendo a sua excelência que fazia a devida justiça ao Governo de sua Majestade britânica e que por isso não podia, nem mesmo suspeitar que o Governador da Serra Leoa tivesse procedido em virtude ordens do seu Governo, e que igualmente estava certo que o Governo britânico, por sua própria honra se havia de apressar a corrigir o seu agente e a reparar as péssimas consequências do seu insólito e indiscutível procedimento.”

Encurtando razões, a arbitragem era o único meio que to Governo português tinha para poder assegurar não só as suas possessões na Guiné, mas também as das duas costas da África Meridional. O Governo britânico disputava o uso dos nossos direitos na costa ocidental ao norte de Ambriz; contra o nosso direito, e apesar dos nossos protestos, exercia direitos soberanos em uma parte das nossas possessões na África Oriental; na baía de Lourenço Marques pretendia usurpar-nos alguns pontos essenciais; por meios ostensivos e traiçoeiros procurava privar-nos do interior do Zambeze; procurava considerar-nos com os povos africanos. Cientes que a razão estava do lado português, o Governo britânico não quis aceitar a arbitragem proposta pelo Governo português quanto às questões relativas a Bolama.

O Conde de Ávila foi nomeado plenipotenciário em 28 de junho de 1864 para negociações quanto à posse da ilha de Bolama. E o Conde do Lavradio declarou a Lord Russell, Ministro dos Negócios Estrangeiros que tinha recebido ordem de propor novamente ao Governo britânico uma arbitragem. A arbitragem tornava-se absolutamente necessária porque o Governo inglês não reclamava já unicamente Bolama, queria apossar-se das ilhas adjacentes e do rio Grande até Bolola e o rio de Guinala. As hostilidades britânicas em Bolama mantiveram-se, os protestos portugueses redobraram. Finalmente, em 8 de julho de 1868, o Ministro britânico em Lisboa participava que o governo britânico estava disposto a aceitar a arbitragem e posteriormente propôs para árbitro o Presidente dos Estados Unidos da América. Em 21 de abril de 1870 o Presidente Ulysses Grant proferia a sua sentença dando completa satisfação aos direitos de Portugal. A teimosia britânica durara 28 anos, houve prepotências, a nossa bandeira arriada. E não será por acaso que em 1879, quando a Guiné se autonomizou de Cabo Verde, a capital da Província foi Bolama.

Iremos proximamente e em síntese falar da questão de Lourenço Marques e a do Zaire, assim chegamos à Conferência de Berlim, ponto de viragem da política imperial portuguesa.

Imagem de 1930
Bolama, a velha capital ao abandono
Imagem da inauguração da estátua do 18.º Presidente dos Estados Unidos da América, General Ulysses Grant, na Ilha de Bolama
D. José Maria do Espírito Santo de Almeida Correia de Sá, 6.º Marquês do Lavradio (1874-1945)

(continua)
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Notas do editor

Vd. post de 13 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27732: Notas de leitura (1895): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (2) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 19 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27749: Notas de leitura (1897): "Os Có Boys (Nos Trilhos da Memória)", de Luís da Cruz Ferreira, ex-1º cabo aux enf, 2ª C/BART 6521/72 (Có, 1972/74) - Parte IX: o batismo de fogo numa das primeiras colunas de Teixeira Pinto - Pelundo - Bissau (Luís Graça)

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27732: Notas de leitura (1895): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 23 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
O Marquês do Lavradio faz um resumo da situação de Cabo Verde, Guiné e S. Tomé e Príncipe em meados do século XIX, lançado-se depois na análise das principais causas da decadência do Império Português. Observa que quando foi descoberto o caminho para a Índia, os portos de África passaram a ser apenas portos de escala para as armadas; e descoberto o Brasil, a colonização encontrou em África o viveiro onde ia procurar os braços necessários para as minas e engenhos americanos, deu-se uma concorrência feroz no comércio negreiro, África despovoou-se. E tece as considerações que se prendem com a dominação espanhola, a ausência de um plano colonial e a abolição das ordens religiosas. Mas também se pode admitir um outro fator: a escolha dos governadores nem sempre se atendeu às qualidades e valor dos nomeados, eram escolhas que obedeciam a influências na corte, tudo se agravou com a guerra fratricida entre miguelistas e liberais. E o Marquês do Lavradio diz também o seguinte: "A péssima administração financeira do Estado, a falta de energia, o fatal hábito de fazer tudo fora de tempo, são outras tantas causas do estado da decadência." É neste quadro que se inicia a Era da Regeneração e a diplomacia portuguesa ir-se-á confrontar com ambições das grandes potências coloniais, será o caso da Questão de Bolama e a Questão de Lourenço Marques, que iremos ver proximamente.

Um abraço do
Mário



Um livro assombroso, o Império Colonial Português no microscópio, na década de 1930, pelo punho do Marquês do Lavradio – 2

Mário Beja Santos

Incúria minha, desconhecia inteiramente a existência desta obra que saiu do punho do 6.º Marquês do Lavradio, que não deixa de causar uma certa estupefação, na data da sua publicação pela Agência Geral das Colónias, em 1936, já corria a torrente do nacionalismo imperial do Estado Novo, feita de glórias, de guerreiros invictos e de feitos estrondosos, nunca se questionando que aquelas parcelas exibidas no mapa tinham verdadeiramente 500 anos de presença portuguesa; e agora o Marquês do Lavradio vinha dizer que não era exatamente assim. Deu-se uma súmula do estado das colónias de Angola e Moçambique em 1851 e a narrativa vai agora prosseguir a partir de Cabo Verde.

“Cabo Verde fora sempre mais pobre e miserável de todas as possessões portuguesas. A sua colonização começou em 1562 com alguns casais do Algarve e Alentejo, a que e juntaram casais da Guiné das tribos Balanta, Papel, Bijagó, Felupe, Jalofo, dando origem a uma raça especial variável de ilha para ilha. Durante longos anos a sua importância resultava principalmente de ser um entreposto de escravos e a ilha de Santiago fora muito florescente quando os navios com escravos eram obrigados a ir ali pagar os quartos e vintenas.

A grande maioria dos terrenos, ainda os mais abundantes de água, e nas ilhas mais saudáveis, como S. Vicente, S. Nicolau e Fogo, estavam incultos; no interior das ilhas não havia estradas e as comunicações entre as diferentes ilhas e com a capital eram morosas e difíceis. João de Fontes Pereira de Mello, assumindo o Governo da Província em 1849, descreve o estado em que a encontrou nas seguintes linhas:
‘Achei exaustos os cofres públicos, o crédito perdido pelo não pagamento em Lisboa das letras sacadas aqui pela Junta da Fazenda; os oficiais e mais empregados públicos com cinco meses de atraso e o clero com treze; devendo-se um mês de pré, quinze dias de pão e onze contos de reis de massas aos soldados. A tropa estava desgostosa pelos descontos que são obrigadas a fazer as praças de pré (militares de baixa patente) para ocorrer à sua maior precisão de vestir e calçar. E finalmente encontrei a necessidade de mandar render os destacamentos da Guiné e a impossibilidade de acudir a este importante serviço’.”


O autor, na sequência de outros depoimentos refere os sacerdotes imorais, ébrios e debochados, homens sem vocação, o maior rendimento da Província, no passado, provinha da urzela.

Passando agora para a Guiné, dirá o autor que estava muito reduzida da sua antiga grandeza, marchava todos os anos para uma decadência total. E conhecia um apertar de cerco de franceses e ingleses. Dependia do Governador-Geral de Cabo Verde. Não tinha fronteiras explícitas, os seus limites só viriam a ser definidos pela Convenção Luso-Francesa de 12 de maio de 1886. É relevada a figura de Honório Pereira Barreto, comprara com o seu próprio dinheiro parcelas do território, fizera convenções que davam exclusivamente aos portugueses o direito de navegar e comerciar em certos pontos. Denunciou a ocupação da região do Casamansa, enviou cartas insistentes ao Governador de Cabo Verde, nada teve andamento. E o autor também explica o comportamento dos ingleses que disputavam a ilha de Bolama, vai referir uma série de peripécias que nós já temos conhecimento.

Falando das ilhas de São Tomé e Príncipe, desfaz-se em elogios:
“São, juntamente com o Brasil a maior coroa de glória da dominação portuguesa. Desde que as ilhas de São Tomé e Príncipe foram bem povoadas, em 1493, começaram logo sendo uma colónia agrícola importante; a primeira cultura experimentada foi a cana sacarina, transplantada para ali da ilha da Madeira; o grande desenvolvimento que essa cultura teve no Brasil aniquilou por completo as duas ilhas, forçando os colonos a experimentar novas culturas. Em 1800, o Governador Lagos mandou ir do Brasil sementes de café; a cultura desenvolveu-se rapidamente, a produção, devido à fertilidade do solo, compensou largamente a iniciativa, a qualidade premiou os agricultores e o café das duas ilhas do Equador em breve as tornou famosas.

Em 1822, foi introduzida a cultura do cacau, que devido a iniciativas particulares se estendeu pelas duas ilhas, transformando-as numa modelar colónia de plantação e dando-lhe o primeiro lugar nas colónias de plantação de toda a costa africana. As medidas repressivas do tráfico de escravos criavam grandes dificuldades ao recrutamento de serviçais para S. Tomé; embora os tratados com a Inglaterra autorizassem a ida de negros livres de Angola, os cruzeiros ingleses originavam conflitos constantes, davam origem a reclamações diplomáticas e impediam que o recrutamento se fizesse com regularidade.
Nas ilhas havia sossego, tranquilidade e segurança individual. Os naturais das ilhas, descendentes dos negros de Angola e judeus de Espanha, eram ignorantes, fanáticos e corrompidos e viviam de roubo e da rapina.”


O autor vai agora explanar-se sobre as causas principais da decadência: a escravatura, dizendo que o lucro que os negreiros ofereciam não ficavam nas colónias e as receitas que o Tesouro arrecadava estavam muito longe de compensar o prejuízo que resultava da saída de tantos homens válidos que iam enriquecer com o seu trabalho domínios alheios; a dominação espanhola, entrámos em decadência com o desastre da Invencível Armada, fechado o porto de Lisboa ao comércio do inimigo, este foi procurar conquistá-lo nos mares, Castela levou-nos mais de 7 mil peças e havia 900 bocas de fogo que Sevilha guardava nos seus depósitos com as armas de Portugal, e escreve o Marquês do Lavradio:

“Foi sobretudo na Índia e nos últimos dez anos de dominação espanhola que os holandeses e ingleses mais nos perseguiram, mas as duas costas africanas tiveram de sofrer duros ataques, e o nosso domínio no interior foi fortemente abalado.
Em dez anos o nosso comércio do Oriente passou quase por completo para as mãos dos holandeses e quando, em 1669, se assinou finalmente a paz com os Países Baixos, estes guardaram o que nos haviam tomado na Índia, renunciando ao Brasil, donde os havíamos expulsado, mediante uma indeminização de 3 milhões de florins.”


Continuando as causas da decadência, refere o autor a completa ausência de um plano de colonização ou de administração colonial. E simplifica:
“A doação feita a Paulo Dias de Novais (neto de Bartolomeu Dias) de 35 léguas de costa de Angola, do Cuanza para o Sul, sem limite para o interior, com obrigação de ali estabelecer cem famílias e levar quatrocentos homens válidos e seis cavalos (doação feita por El Rei D. Sebastião) não pode ser considerada como obedecendo a um plano de administração colonial, antes deve ser olhada como um ato isolado e como uma mercê arrancada ao Rei com fins bem diferentes daqueles que se encontravam na carta de doação”; e a última causa invocada pelo autor foi a abolição das ordens religiosas; desaparecidas as missões, com elas desapareceu a obra de séculos, caíram em ruína monumentos levantados pelos missionários, morreram plantações por eles feitas, diminuiu o nosso prestígio no sertão, e a falta de missionários portugueses facilitou mais tarde a Livingstone as missões protestantes que tão funestas nos foram.

De seguida o autor vai abordar questões diplomáticas começando pela Questão de Bolama.


D. José Maria do Espírito Santo de Almeida Correia de Sá, 6º Marquês do Lavradio (1874-1945)

(continua)
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Notas do editor:

Vd. post de 6 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27710: Notas de leitura (1893): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (1) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 9 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27718: Notas de leitura (1894): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (1) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27710: Notas de leitura (1893): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 22 de Dezembro de 2025

Queridos amigos,
Bem procurei saber mais sobre este 6.º Marquês do Lavradio que acompanhou o Rei D. Manuel II no exílio, cujo pai foi diplomata, terá certamente vindo para Portugal depois da morte do último Rei de Portugal, beneficiou de um arquivo onde não falta a correspondência trocada pelo pai com as figuras gradas do poder britânico. O que o Marquês do Lavradio nos vai apresentar está nos antípodas da narrativa imperial do Estado Novo, desenhada para se enfeitar de heróis, conquistadores e muito mais. É verdade que muito irá mudar depois da Conferência de Berlim, quando se alicerçam os ideais do Terceiro Império, doutrina que fermentou em espaços como a Sociedade de Geografia de Lisboa. O Marquês pretendeu repor a verdade, antes de se agigantar a doutrina imperial do Estado Novo, mostrou o que era o nosso império em África antes de 1851 (ou seja, antes da Regeneração) e daí estas verdades com punhos, uma autêntica desmistificação da doutrina que vivemos nos tempos da escola. Ao lermos este soberbo trabalho do Marquês do Lavradio não nos sobra dúvida que se montou uma máquina de ilusão para a nossa presença em África, a ideologia forjou um cenário de ilusões que talvez ajudem a explicar o que se dizia de uma recente sondagem em que mais de um terço dos inquiridos gostava que Portugal ainda tivesse colónias.

Um abraço do
Mário



Um livro assombroso, o Império Colonial Português no microscópio, na década de 1930, pelo punho do Marquês do Lavradio - 1

Mário Beja Santos

Foi uma manhã de boa safra, em sábado de Feira da Ladra, encho um trólei com livros e por uma ninharia trouxe esta obra que jamais ouvira falar do Marquês do Lavradio, nem me passou pela cabeça a surpresa que me estava reservada. Guardei a tralha toda em pilha, e depois de almoço, mordido pela curiosidade, preparei-me para folhear Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História), pelo Marquês do Lavradio, edição da Agência Geral das Colónias, 1936.

Só parei ao fim da tarde, o trabalho do Marquês do Lavradio, em boa hora, deu-me uma extraordinária companhia pelo fim de semana. Interrogo-me como só agora cheguei ao conhecimento deste livro. Nunca me fora dado a ler um relato tão denunciador das fábulas, devaneios miríficos, mistificações que virão a galope ainda antes de se iniciarem as guerras de África em 1961. O Marquês tinha a faculdade de possuir um arquivo de grande importância, o Arquivo Lavradio, o 5.º Marquês, por exemplo, será diplomata em Londres numa fase em que o Império Britânico pretende dilatar-se à custa do Império Português.

Confiro tal importância a esta obra que me proponho a fazer uma súmula de todos os seus capítulos. Logo revelando o estado das colónias portuguesas em 1851, em que o autor fala da nossa soberania muito problemática, o nosso domínio muito fictício e uma ocupação muito limitada. Ele passa em revista as colónias começando por Angola:
“Pelo norte, os pontos extremos que estão ocupávamos no interior eram: S. Salvador do Congo, Bembe e Encoge, a 100 km pouco mais ou menos uns dos outros e a 200 km da costa. No sul ocupávamos Caconda no interior de Benguela e Humbe no de Moçâmedes, a 250 km proximamente da costa. De S. Salvador ao Bembe e entre Bembe e Encoge, transitava-se quase sem dificuldade; de Encoge para Duque de Bragança não havia passagem; as comunicações entre Duque de Bragança e Malange eram, muitas vezes, impedidas pelos Gingas e Mabangas.”

Mais adiante:
“O distrito de Moçâmedes havia sido, por vezes, inquietado pelas guerras dos sobas vizinhos próximos, naturalmente belicosos, e que desde longa data tinham o hábito da rapina. Os sobas vizinhos de Pungo Andongo e Duque de Bragança não estavam sossegados, os povos do presidio de Caconda consideravam-se quase independentes e os de S. José de Encoge pouca obediência prestavam à autoridade portuguesa (…) Pelo porto de Ambriz, que não estava ocupado, fazia-se grande contrabando para o interior, desfalcando assim a Fazenda Nacional. A instrução pública não se achava muito espalhada; existiam na Província apenas oito escolas de instrução primária, sendo uma para o sexo feminino. O tráfico da escravatura era fortemente reprimido tanto pelas autoridades como pela vigilância dos navios da Divisão Naval; contudo, era quase impossível acabá-lo por completo, pois pontos havia onde não existia autoridade alguma portuguesa. Dos lugares onde tremulava o pavilhão nacional ou onde havia autoridade portuguesa não saía um só navio com carregação de escravos, e nem um só navio com a bandeira nacional havia sido encontrado transportando escravos.
A população da Província era muito diminuta: 99% era absolutamente rude e inculta, selvagem, desobediente e em parte mais ou menos hostil.
A agricultura indígena era rudimentar e a dos brancos estava em tal atraso que pode dizer-se ‘não existia’; o preto só por exceção trabalhava por seu próprio impulso e o branco não tinha a precisa ação sobre o preto para o fazer trabalhar às suas ordens e sob a sua direção.”


E o Marquês do Lavradio dá-nos o retrato de Moçambique:
“Banhada pelo Oceano Índico em toda a sua extensão, desde o Cabo Delgado à Baía de Lourenço Marques, não tinha para Leste as suas fronteiras bem definidas. Dividida em distritos, estes dependiam do Governador-Geral, que residia em Moçambique, e com ele comunicavam dificilmente e só por via marítima; as comunicações por terra eram impedidas pela hostilidade do gentio. Lourenço Marques era um pequeno presídio sujeito aos ataques dos negros e com uma pequena guarnição por tal forma indisciplinada que em 1850 prendia e punha a ferros o próprio Governador. O presídio tinha 87 praças, das quais só dois soldados eram europeus, e talvez não excedesse a 20 o número de espingardas em estado de fazer fogo.

Em Inhambane o nosso domínio não ia além do alcance da artilharia da Praça, e quando em 1849 o Governador do distrito pretendeu livrar-se dos régulos que nos deixavam, sofreu um revés e encontrou na morte o prémio do seu esforço.
A companhia de Inhambane compunha-se de 140 praças; o número seria suficiente se aquelas 140 praças fossem soldados que tal nome merecessem. Eram esses chamados soldados que anos antes haviam lançado ferros aos pés do Governador do distrito.
Sofala, o estabelecimento mais antigo da Província e o mais famoso na história dos nossos descobrimentos do África, era o mais decadente e abandonado.

O distrito de Quelimane, ‘A Zambézia’, assim chamado por ser na maior parte da sua extensão regado pelo Rio Zambeze, era verdadeiramente o coração da Província.
Os jesuítas, que possuíam os prazos de Luabo e Caya, haviam com o Evangelho e a prédica conquistado tanto como os soldados com as baionetas. Nos seus prazos havia povoações e estabelecimentos agrícolas e eram um núcleo para qualquer melhoramento governativo.
Haviam construído igrejas em Quelimane, Luabo, Caya, Marranque, Sena e Tete. Expulso pelo Marquês de Pombal foram substituídos por frades de outras ordens, que não tiveram nem perseverança nem a coragem de continuar a obra daqueles, nem mesmo sustentar o que tanto havia custado.”


Depois de referir ainda o distrito das ilhas de Cabo Delgado, dirá que Moçambique era o único ponto fortificado indefensável. Dirá adiante que no interior da Província o nosso domínio podia dizer-se que se resumia à influência de alguns sertanejos e capitães-mores, e dá-nos um quadro das gentes:
“Os únicos colonos que para ali iam eram alguns militares e empregados civis, os degredados e gente das nossas possessões asiáticas que iam a África procurar fortuna. Inhambane era um dos mais populosos. Sofala achava-se quase deserto. A agricultura indígena era rudimentar e a dos brancos não existia desde que os prazos haviam sido abandonados. O comércio estava em bastante decadência. Comércio de exportação reduzia-se quase exclusivamente a 8 ou 10 mil arrobas de marfim, que embarcava a maior parte para Bombaím e EUA, portos portugueses de Goa, Diu e Damão e algum excecionalmente para o Cabo da Boa Esperança ou Lisboa.”

O autor fala-nos do comércio dos distritos, dirá que entre outras consequências da extinção das ordens religiosas nunca mais se cuidara nem de religião nem de instrução, as freguesias estavam quase todas abandonadas por falta de parcos, os que havia eram mandados de Goa por não poderem ali viver pela sua má conduta ou estupidez. A religião islâmica progredia extraordinariamente.

Iremos seguidamente ter o retrato de Cabo Verde, Guiné e São Tomé e Príncipe e ouviremos o autor falar das causas principais desta decadência.

D. José Maria do Espírito Santo de Almeida Correia de Sá, 6.º Marquês do Lavradio (1874-1945)

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 2 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27693: Notas de leitura (1892): "Náufragos do Império", por Albano Dias Costa, Prémio Literário Antigos Combatentes 2025, atribuído pelo Ministério da Defesa Nacional (Mário Beja Santos)

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27484: Recortes de imprensa sobre o império colonial (2): a nau "Portugal", vida e morte de uma réplica de um galeão quinhentista, que foi uma das principais atrações da monumental Exposição do Mundo Português (Lisboa, 1940) - Parte I




A nau "Portugal", uma das principais atrações  da Exposição do Mundo Português
 Tinha 3 mastros e cerca de meia centena de canhões. Pretendia ser uma réplica de um agleão quinhentista.

(Fonte: Ilustração Portuguesa,nº 979, 7 de setembro de 1940,. pág, 6 (cortesia de Hemeroteca Municipal de Lisboa)



1. Ainda não tínhamos nascido, a maior parte de nós em 1940. Em plena II Guerra Mundial, Portugal era, milagrosamente (?), um oásis de paz. Precário, é certo. Milhares de refugiados fugidos da barbárie nazi, nomeadamente judeus, chegavam a Portugal, país neutral, na esperança de conseguir um visto e uma passagem para o Novo Mundo, e em especial os EUA.

 O Duplo Centenário (1140, "fundação da nacionalidade"; e 1640, "restauração da independência") foi o pretexto, genial, para a organização de um grande evento político-cultural de consagração do regime de Estado Novo. 

Toda a sociedade portuguesa e a sua elite (incluindo os seus melhores arquitetos, engenheiros, escultores, decoradores, pintores, cenógrafos,  artesãos, escritores, jornalistas, poetas, cineastas, etc.) foram mobilizados: cinco mil trabalhadores sob as ordens do arquiteto Cottinelli Telmo (1897-1948) ergueram um espaço equivalente a 56  campos de futebol, no tempo recorde de um ano, e com limitados recursos financeiros. Em Belém, na zona ocidental de Lisboa,entre o mosteiro dos Jerónimos e o rio Tejo, zona até então considerada pobre e periférica de Lisboa.

De 23 de junho a 2 de dezembro de 1940, a Exposição do Mundo Português, em Belém, teve 3 milhões de visitas. Gente de todo o país vinha em excursão a Lisboa, num tempo em que a mobilidade era reduzida, e um ribatejano nunca tinha ido ao Algarve, nem um transmontano conhecia sequer o Porto, e muito menos Macau ou Angola. A visita tornou-se quase obrigatório para os portugueses da época. Os clichés do Portugal do Minho a Timor vêm desse evento, do casa de sobrado colonial ao solar do Minho, da tabanca guineense à roça são-tomense. O ingresso custava 2 escudos e 50 centavos. Ficou na memória da geração dos nossos pais. Tal como ficou na nossa memória a Expo 98.


Hemeroteca Municipal de Lisboa > Efemérides | Exposição do Mundo Português (1940) (excerto) (com a devida vénia)


(...) Em plena guerra civil de Espanha, quando os regimes autoritários pareciam impor-se na conturbada cena política europeia, o Estado Novo consolidava-se.

É neste ambiente que, em 27 de Março de 1938, Salazar anuncia a realização, em nota oficiosa, de uma grande comemoração do duplo centenário da independência (1140) e da restauração (1640), para o ano de 1940.

A iniciativa assumiu então, em termos de recursos materiais e humanos, uma dimensão inédita, tornando-se o mais importante acontecimento político-cultural do Estado Novo.

O empenho político nas comemorações resulta da compreensão do que estava em jogo: passar ao acto (em forma de comemoração) a consagração pública de uma legitimidade representativa própria, desta feita, eminentemente ideológica e histórica.

Ao invés da legitimidade eleitoral dos regimes democráticos, esforçou-se o Estado Novo por associar os traços mais marcantes do seu nacionalismo – autoritarismo, elitismo, paternalismo e conservadorismo – a um passado mítico legitimador do presente.

Mais, buscou, pela mão dos artistas e a pena dos historiadores, difundir, com «a clareza» possível, essas linhas invisíveis da continuidade, que uniam a grandeza do passado, do presente e do futuro de Portugal.

Corolário de uma «política de espírito», lançada na década anterior pelo audacioso director do Secretariado de Propaganda Nacional, António Ferro, assiste-se à mais conseguida conciliação da arte com a política no Estado Novo. Efémera e irrepetível, contudo.

Ninguém escondia o valor propagandístico da exposição que o próprio António Ferro sintetizaria: «1140 […] explica 1640, como 1640 prepara 1940».

Evocação histórico-ideológica dos momentos edificantes, recheados de heróis e lições exemplares. Espécie de fábula contada em imagens, símbolos, frases e palavras. A exposição ficaria como marco crucial da cumplicidade dos artistas com o Estado Novo ensaiada nos anos 30 e, simultaneamente, o seu ponto final e de viragem.

O certo é que, enquanto em Junho os portugueses assistiam pacíficos à inauguração da sua «cidade mítica», nas chancelarias acendera-se já o alarme – a guerra alastrava por toda a Europa.

Quatro anos volvidos, e o jovem e vigoroso regime atravessaria a sua primeira crise política. A exposição viera afinal comemorar, em apoteose, o fim do ciclo mais sólido da sua existência.


Para saber mais, ver:

BARROS, Júlia Leitão de, “Exposição do Mundo Português”, in BRITO, J. M. Brandão de, e ROSAS, Fernando (dir.), Dicionário de História do Estado Novo, Lisboa, Círculo de Leitores, 1996, vol. 1, pp. 325-327;

MÓNICA, Maria Filomena, “Exposição do Mundo Português”, in BARRETO, António, e MÓNICA, Maria Filomena (Coord.), Dicionário de História de Portugal, Vol. 7, Lisboa, Livraria Figueirinhas, 1999, pp. 710-711. (...).


Fonte: excertos de © 2005 | Hemeroteca Municipal de Lisboa

Vd. também: RTP Ensina > Exposição do Mundo Português, vídeo: 23' 42''



2. A nau “Portugal” (vd. foto acima), idealizada pelo cineasta Leitão de Barros (1896-1967), construída em 1940 para a Exposição do Mundo Português, foi pensada como um símbolo grandioso da epopeia marítima e do imaginário dos Descobrimentos.

No entanto,  alguns 
historiadores e críticos culturais olham para ela como uma "encenação", uma versão romantizada e artificial de um passado que o regime do Estado Novo queria promover. Há quem, mais radical, não esconda que foi uma caricatura de um "império de papel".

De facto, a Exposição do Mundo Português (1940) foi, em grande parte, uma obra de arte efémera (e sobretudo de arquitetura), se bem que que tenha sido também um grande êxito, enquanto evento cultural e propagandístico, prestigiante para o País e para o Estado Novo. Seis dezenas de anos depois, só a Expo 98, também em Lisboa, lhe poderia pedir meças.

Muitos dos pavilhões e estruturas foram construídos com materiais baratos e temporários, tais como madeira, estuque / gesso, pasta de papel (incluindo papelão moldado e reforçado), fibrocimento, telas pintadas, revestimentos decorativos não duráveis, etc,

Estes materiais permitiam criar uma cenografia monumental a baixo custo, dado que as estruturas não eram pensadas para durar após o encerramento da exposição.

Contudo, alguns elementos mais importantes, como o Mosteiro dos Jerónimos, a Torre de Belém, já existentes, ou certas infra-estruturas de apoio, como o jardim colonial, a Praça do Império, o espelho de água, o padrão dos Descobrimentos, o Museu de Arte Popular, etc., são marcas que ainda hoje nos falam desse momento de glória, irrepetível, que foi, para Portugal e o Estado Novo, a Exposição do Mundo  Português.

3. O que infelizmente não chegou aos nossos dias foi a pobre nau "Portugal". (Tal como a nau "Catrineta", teria hoje muito que contar.)

Tópicos a reter sobre a Exposição do Duplo Centenário e o papel da nau "Portugal" que mimetizava um galeão quinhentista:

  • Propaganda do Estado Novo: a Exposição de 1940 tinha como objetivo enaltecer a “missão civilizadora” de Portugal e reforçar a narrativa de um país com um destino imperial, por desígnio divino (imperial mas não "imperialista"....); a nau servia mais como peça cénica do que como reconstrução museográfica rigorosa;
  • Falta de autenticidade e rigor históricos: embora se inspirasse nos galeões quinhentistas, a nau incorporava elementos estilizados e não seguia fielmente aas técnicas de construção naval da época nem adoptava os materias originais; daí a perceção de “caricatura”;
  • Símbolo de um império já decadente: em 1940, Portugal já não tinha o império que proclamava; a nau torna-se assim um símbolo paradoxal: imponente à vista, mas representante de um poder mais mítico do que real, um "império de faz-de-conta", gerido a distância;
  • Valor cultural atual: apesar do seu evidente  caráter propagandístico, a nau “Portugal” podia continuar a ter interesse enquanto objeto histórico, revelando como o país (o regime, falando em seu nome) quis representar-se a si próprio naquele momento político, numa conjuntura internacional de excepcional gravidade (estava-se em plena guerra e as democracias ocidentais estavam em sério risco de se desmoronarem).

Recorde-se, entretanto. que entre a união ibérica, monarquia dual ou III dinastia (filipina) (1580–1640) e a independência do Brasil (1822), Portugal enfrentou um período de enorme pressão de potências europeias (sobretudo Holanda e Inglaterra) mas também do próximo oriente (como Omã),  perdendo vários territórios, praças e feitorias estratégicas do seu império oriental e africano, ou alienando outras (como as praças de Tanger, no Norte de África, e de Bombaim, na Índia, parte do dote da princesa Catarina de Bragança...). Eis os principais: territórios perdidos:

  • Ceilão (Sri Lanka)
  • Cochim, Quilon, Cananor e feitorias menores na Índia
  • Fortes no Coromandel
  • Ormuz (Irão)
  • Mascate (Omã)
  • Mombaça (Quénia) e domínio na costa suaíli, etc,

O império português reduziu-se sobretudo no Índico e no Golfo Pérsico, devido à ascensão holandesa, inglesa e omanita. E em 1822 perdeu a sua jóia da coroa, que era o Brasil. A "redescoberta" de África vem depois da independência  do Brasil, a única colónia do Novo Mundo.

Mas voltando à nau "Portugal"... Acabou por tombar mal do saiu do estaleiro, na Gafanha da Nazaré, no chamado dia do "bota-abaixo"... E esse episódio (caricatural) reforça ainda mais a ideia simbólica de fragilidade do “império” que o Estado Novo tentava encenar com pompa e circunstância.

De facto, assim que a nau “Portugal” foi lançada à água, adornou  devido ao mau cálculo do casco e ao desajuste do centro de gravidade (defeitos de desenho e construção conjugados também com um eventual erro de manobra). 

Foi um embaraço público, especialmente porque a embarcação tinha sido concebida para representar a glória marítima portuguesa na Exposição do Mundo Português. E causou grande comoção entre o público que assistia a esse momento único.

Alguns aspetos relevantes para se entender este revés (de que vale a pena falar com mais detalhe na II Parte).

  • Erro técnico evidente: a construção foi feita com grande preocupação estética, mas menos rigor técnico; o resultado foi um navio visualmente imponente, mas estruturalmente desequilibrado;
  • Reação na época: apesar de se tentar minimizar o episódio, ficou para a posteridade como símbolo do improviso,   do efeito perverso da propaganda ( e talvez do "desenrascanço" lusitano):
  • Força simbólica posterior: alguns historiadores interpretam o acidente como uma metáfora involuntária: um projeto grandioso mas mal fundamentado, refletindo a discrepância entre a imagem do império projetada pelo regime e a realidade.

Depois do acidente inicial, a história da nau “Portugal” continua a ser, de certa forma, tão simbólica como o próprio projeto.

Depois de ter adornado, logo após o lançamento à água, em 7 de junho de 1940,  a embarcação teve de ser endireitada e estabilizada: foram feitas modificações de emergência para permitir que o navio pudesse cumprir minimamente a função decorativa e cénica que lhe tinha sido atribuída na Exposição do Mundo Português.

E foi, de facto, uma das grandes atrações da Exposição  (a partir de 17 de setembro, depois de recuperada), servindo como cenário flutuante, mais ornamental do que funcional, e tornado-se parte do percurso expositivo que celebrava a epopeia marítima...  

Enfim, era mais um símbolo do que um navio. Tinha problemas estruturais persistentes: a embarcação nunca foi estruturalmente sólida. Era demasiado pesada no cimo, pouco estável e feita sobretudo para “parecer”, não para navegar, embora tivesse sido pensada como uma réplica navegável, para ser usada depois na promoção de produtos portugueses, como os vinhos (nomeadamente no Brasil).

Teve um triste fim: depois de cumprir o seu papel cénico num ambicioso programa propagandístico, a nau deixou de ter utilidade. Uns escassos meses depois, em 16 de fevereiro de 1941, sofreu danos irreparáveis devido ao ciclone que atingiu o país e sobretudo a região de Lisboa.  O seu casco foi aproveitado para batelão ou barcaça para transporte de mercadorias no estuário do Tejo. E em 1952 acabou ingloriamente por ser abatida.

Hoje a nau "Portugal" nem sequer é  lembrada, ou quando muito é
 citada como uma "anedota", uma peça de propaganda estética do Estado Novo; um símbolo da tentativa de recriar um passado grandioso com materiais frágeis; e um caso curioso de engenharia naval que revelou os limites entre o mito e  o realidade. (Na década de 1940 Portugal não tinha acesso a planos originais detalhados de galeões quinhentistas: ou não existiam muito simplesmente ou eram incompletos.)

 (Pesquisa: LG + Net + IA / Gemini, ChatGPT)

(Condensação, revisão / fixação de texto: LG

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27483: Notas de leitura (1870): "Os Descobrimentos no Imaginário Juvenil (1850-1950)"; edição da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses; 2000 (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 22 de Março de 2025:

Queridos amigos,
Prosseguimos na leitura de Descobrimentos no Imaginário Juvenil (1850-1950), a exaltação do passado colonial com os seus heróis-modelo vão integrar a literatura infanto-juvenil, nomeadamente no fim da monarquia constitucional, a I República e as primeiras duas décadas do Estado Novo. Os heróis dos Descobrimentos enfileiram com outros, tais como Viriato, Egas Moniz, Nuno Álvares Pereira. Impor-se-ão vários nomes, tais como Ana de Castro Osório e Virgínia de Castro Almeida, mas será Mariazinha em África o bestseller desta literatura nos anos 1939 e 1940. Estuda-se aqui a imagem do outro, a ação missionária, obviamente que da monarquia ao Estado Novo há nuances no tratamento do outro, pode aparecer como inferior, aberto ou indisponível à civilização, fala-se no bom selvagem; o Estado Novo irá desenvolver o exotismo, os perigos e a fantasia, será o caso da saga da travessia africana de Capelo e Ivens; e há o sistema de valores, o enaltecimento de Nuno Álvares ou do Infante D. Fernando, não será na escola mas fundamentalmente na imprensa que se irá privilegiar o esforço na criação de infraestruturas, desenvolvimento material, serviços de saúde, etc. Deixaremos para o terceiro e último apontamento o modo como os Descobrimentos serão abordados por associações e organizações da juventude, caso da Mocidade Portuguesa.

Um abraço do
Mário



Não fomos combater na Guiné pela integridade de Portugal de Minho a Timor?
(Uma abordagem dos valores educativos entre o liberalismo e o Estado Novo) – 2

Mário Beja Santos

Falando por mim, e seguindo integralmente o que se escreve na obra de ensaio Os Descobrimentos no Imaginário Juvenil (1850-1950), por Maria Cândida Proença e outros, edição da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 2000, éramos educados nos bancos da escola de que o Infante D. Henrique fora o impulsionador dessa ação patriótica engrandecedora que tornou Portugal imperial – e manda o rigor que se diga que não foi obra exclusiva do Estado Novo, a monarquia constitucional também fez soar esta trombeta.

O que mudou ao longo deste século (entenda-se 1850-1950) é a visão que se pretendeu dar do Infante. “Para os autores oitocentistas o Infante era fundamentalmente um homem de ciência dotado de profundos conhecimentos para a época que teriam sido causa do progresso que pode incrementar nos Descobrimentos marítimos.” Homem sábio, até versado nas matemáticas e conhecedor das artes de navegar. “Os avanços da ciência e a divulgação do positivismo eram favoráveis à apresentação de um herói humanizado longe da visão hagiográfica que mais tarde vinha impor-se.”

Tudo muda no final do século, Fortunato de Almeida introduz uma nova perspetiva, ao atribuir-lhe o plano de encontrar um caminho alternativo para a Índia e até a vocação apostólica de dilatar a fé cristã. Atribui-lhe igualmente um plano em que convergiriam três empresas gigantescas, a conquista territorial em Marrocos, a descoberta do caminho marítimo para a Índia e o descobrimento das ilhas do Atlântico.


Como observa a autora, a mitificação do Infante foi ao ponto de se procurar apresentar as suas ações menos exaltantes como movidas pelo imperativo superior da fé e do espírito de cruzada. Era uma constante dos manuais que o Infante era muito mais movido pela fé do que por motivos comerciais, e exigia-se em termos de Ministério da Educação que se escrevesse à frente do nome do Infante que era mestre da Ordem Militar de Cristo. Foi assim que D. Henrique passou do herói essencialmente laico do positivismo oitocentista para o santo mitificado pelo Estado Novo, passou a ser um exemplo de virtudes a seguir pela mocidade do nosso país.

Igualmente se desmonta a fábula que houve uma Escola de Sagres, que o Infante teria mandado erigir um observatório astronómico em Sagres, Mattoso, célebre autor de compêndios de História, dirá que o Infante estabeleceu uma escola de cosmografia náutica. Toda esta incorreção histórica teve momentos de delírio, como escreveu o Padre Marcelino da Conceição dizendo que a Escola de Sagres era a universidade náutica onde portugueses e estrangeiros aprenderam a navegar cientificamente, os Descobrimentos tinham sido feito com método e com certeza científica. Um dos responsáveis por este disparate foi Oliveira Martins. Não há uma só prova documental de alguma Escola de Sagres.

Outras incorreções aqui apresentadas pela autora prendem-se com o descobrimento e colonização do Brasil, procura-se deixar ciente de que já se conhecia a rota antes de 1500; também há mitificação quanto ao Império do Oriente, veja-se o caso de D. João de Castro, herói mítico da Índia nos compêndios:
“O relato dos cercos de Diu e dos atos de valentia que então se teriam praticado sempre estiveram integrados no conjunto das façanhas que preenchiam a memória oficial transmitida nas nossas escolas. É interessante verificar, porém, que no relato do segundo cerco o episódio das entregas das barbas pelo vice-rei como penhor do empréstimo pedido, apenas surge nos compêndios dos anos 30. Mais uma vez, pela sobrevalorização de um pequeno pormenor, a História era posta ao serviço da transmissão no conjunto de valores que o regime pretendia impor. O Império do Oriente era, nos livros escolares, o símbolo por excelência da grandeza de Portugal, mas, a partir da década de 80 do século XIX, passou a ser também a causa primordial da decadência da raça e do Reino. Neste ponto os manuais acompanham as teses então vigentes sobre a decadência da Pátria. A riqueza, o luxo, o dinheiro fácil, trouxeram consigo a indolência e a corrupção que teriam estado na origem da decadência do Império, acelerada a partir de finais do século XVI.”


Também se procura desmontar a teoria obtusa da nossa ação evangelizadora no Brasil, procurou-se exaltar a imaginação dos homens com a grande aventura dos bandeirantes. E mesmo sobre as campanhas de África e a ocupação do território não se poupou um elogio a Portugal como o melhor povo colonizador, e a prova que o colonizado estava permanentemente agradecido ao colonizador era aquele régulo timorense que se tinha deixado fuzilar para não abjurar Portugal. Em jeito de conclusão, a autora enfatiza a evolução do discurso nos manuais escolares, as tais três etapas em que se ia encaminhando a gesta dos Descobrimentos nos livros escolares falando no maior desenvolvimento científico, durante a monarquia constitucional até chegarmos aos grandes heróis do Estado Novo, como caso de D. Henrique ou de Afonso de Albuquerque que eram sábios, escritores e cientistas.

Feita esta exposição à escola e aos Descobrimentos, Luís Vidigal vai aludir à expansão contada às crianças, dá-nos a génese e desenvolvimento de uma literatura infantojuvenil em Portugal, refere os seus nomes e foca-se em duas autoras: Virgínia de Castro e Almeida e Ana de Castro Osório, como elas irão apresentar este passado grandioso que acabava por ser fonte inspiradora para o presente, os portugueses daqueles tempos, que descobriram e conquistaram o mundo destacavam-se pela valentia e a confiança em Deus. Grandes reis marcaram o sentido da História, no fundo era o moralismo com que pretendia apresentar-se o Estado Novo, como escreveu Virgínia Castro e Almeida: “A maior fortuna de quem obedece está na amizade e na confiança de quem manda. Mandar e obedecer são ofícios iguais aos olhos de Deus. Quem manda mal vale menos que quem obedece bem.”

Temos depois a imagem dos outros, a conceção de que o selvagem, o preguiçoso encontra a sua redenção no trabalho, a ação missionária jogava em vários tabuleiros: a escola, o serviço de saúde, a aprendizagem da religião, mas também aqui houve francos desenvolvimentos. Por exemplo, na I República apostava-se na laicidade, com o Estado Novo marca-se outro conceito de civilização que é a de associar o primitivo à violência e à barbárie, ou seja, houve um humanismo republicano que se pautava por uma grande tolerância e passa-se agora para um ideal de civilização em que as escolas do Império são instadas a apresentar os grandes modelos da sociedade portuguesa. Veremos no próximo apontamento qual o papel da História de Portugal e dos Descobrimentos na ideologia e na conduta das associações e organizações da juventude, neste período de 1850 a 1950.
A mitologia da escola de Sagres
Imagem integrada em Portugal Colonial, nºs 7-8, 1931
Mocidade Portuguesa na Guiné, imagem da RTP Arquivos

(continua)
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Notas do editor:

Post anterior de 24 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27460: Notas de leitura (1867): "Os Descobrimentos no Imaginário Juvenil (1850-1950)"; edição da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses; 2000 (1) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 30 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27478: Notas de leitura (1869): "A Mais Breve História do Ultramar", de David Moreira (Porto, Ideias de Ler, 2025) (Virgílio Teixeira, Vila do Conde)

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27460: Notas de leitura (1866): "Os Descobrimentos no Imaginário Juvenil (1850-1950)"; edição da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses; 2000 (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 11 de Março de 2025:

Queridos amigos,
A então Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses convidou três estudiosos a fazer uma apreciação do quadro ideológico entre os inícios da Regeneração e o último ano do Estado Novo em que passámos de ter um império colonial e passámos a ter um Ultramar. O trauma da independência do Brasil acompanhado dos gravíssimos conflitos para a implantação do liberalismo levaram só num período de acalmia que foi o da Regeneração a que tenha sido criado um novo contexto ideológico em torno do passado marítimo dos portugueses; no campo educativo, tomaram-se medidas para a formação da juventude. Para além da educação formal, impõe-se observar a não formal, é o caso da Cruzada Nacional D. Nuno Álvares Pereira ou da Mocidade Portuguesa, e de uma catadupa de eventos com caráter imperial, caso do tricentenário da morte de Camões, o quinto centenário do nascimento do Infante D. Henrique, o quarto centenário do descobrimento da caminho marítimo para a Índia, a Primeira Exposição Colonial Portuguesa, a Exposição do Mundo Português, etc., etc. Estamos a falar de um livro incrivelmente esquecido.

Um abraço do
Mário



Não fomos combater na Guiné pela integridade de Portugal de Minho a Timor?
(Uma abordagem dos valores educativos entre o liberalismo e o Estado Novo) – 1


Mário Beja Santos

Parece-me útil, ao iniciar a apreciação dos ensaios com o título "Os Descobrimentos no Imaginário Juvenil (1850-1950)", edição da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 2000, trazer à consideração do leitor este parágrafo de mestre Paulo Pinto publicado pela Associação Portuguesa de História, na Circular Informação n.º 93, com o título “2015, Descobrimentos e Memória”:
“A época vulgarmente chamada ‘dos Descobrimentos’ (grosso modo, os séculos XV e XVI) é uma espécie de baú sagrado, de relicário da memória onde o etos nacional compila e guarda sigilosamente um rosário de grandezas de um tempo marcado por feitos de armas, bravura e espírito aventureiro e que permanece incrustada no imaginário coletivo como uma espécie de ‘Idade do Ouro’ de Portugal. A evocação de figuras e datas dessa época excede a dimensão de outros momentos-chave (como a fundação da nacionalidade, os momentos de recuperação de crise ou de ameaça à independência nacional) no sentido em que envolve a relação pioneira que Portugal estabeleceu com outras partes do mundo, outros povos e culturas; não apenas a relação em si própria, mas também no impacto global que teve no contexto da História Universal.”

Os autores desta obra, que vamos analisar, pretendem apreciar o quadro ideológico em que num século se fomentou um discurso pedagógico não só na escola bem como na literatura e associações juvenis, sendo de incluir o contexto familiar e a difusão dada pelos meios de comunicação social aos feitos e heróis dos Descobrimentos. Não obstante, a ideologia imperial tem antecedentes, alguns deles bem marcantes. Mas foi a partir da década de 1850 que se deu a organização do sistema de ensino e emergiram constantemente, obsidiantemente, os ideais da exaltação das virtudes da raça através do enaltecimento dos seus heróis e de regeneração da Pátria através do Império. É esta a viagem em que nos vamos envolver.

O título do ensaio de Maria Cândida Proença é a escola e os Descobrimentos, e cita Eduardo Lourenço recordando-nos que nenhum povo pode viver sem uma imagem ideal de si próprio; a ideia de Pátria indissoluvelmente ligada ao mito da posse do império ultramarino ganhou profundas raízes entre o século XIX e o século XX. A estruturação do sistema educativo foi determinante. A historiadora disserta sobre a evolução do ensino primário, a preponderância do analfabetismo e da iliteracia, como a nossa alfabetização foi tardia e no fundo aparece associada ao período da Regeneração; dá-nos uma apreciação também do que se pretendeu fazer na I República, logo a partir da reforma de 1911, a natureza dos programas escolares, caracterizadamente os de História, Português e Geografia.

Desde o início da segunda metade do século XIX que assistimos a uma gradual melhoria dos manuais, dando realce às conquistas em Marrocos, à figura do Infante D. Henrique, às navegações e descobertas ultramarinas, a Índia e o Brasil, por exemplo. Só na reforma de Jaime Moniz (1894/95) é que a disciplina de História passou a ter um lugar de destaque, lecionada em todos os anos do ensino secundário. Ao tempo, continuava a privilegiar-se uma história factual e eurocêntrica em que os Descobrimentos portugueses mereciam destaque no conjunto da história europeia, as figuras com maior relevo eram o Infante D. Henrique, Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral. Fala-se muito no papel civilizador, mas há referências específicas ao comércio e ao papel das especiarias e do ouro. Nessa reforma de Jaime Moniz procurou-se estabelecer uma visão interdisciplinar da História com a Geografia e a Língua e Literatura Portuguesa. Poder-se-á dizer que o nacionalismo republicano não postulava o isolacionismo e chauvinismo que irão ser mais tarde defendidos pela ditadura.

É com a chegada a chegada da Ditadura Nacional, e a partir das reformas de Gustavo Cordeiro Ramos que se vão lançar as bases de uma nova escola em que o ensino assenta numa inculcação de valores e endoutrinamento propagandístico. O leque de heróis alarga-se, o mártir Infante D. Fernando ou D. João de Castro e o célebre episódio do cerco de Diu passam a heróis no primeiro plano. A verdade científica era bastante duvidosa, como no caso da mítica Escola de Sagres. É com Carneiro Pacheco que se dá a primeira e importante reforma do ensino com o regime de Salazar e chega às escolas a missão providencial da nação portuguesa no quadro da história mundial. Com as sucessivas reformas, ganham importância outras abordagens, estudam-se trechos de Fernão Lopes, aparecem as narrativas de viagens, as aventuras do século XVI, a história trágico-marítima; e os Lusíadas é a epopeia que assegura a consagração de que os portugueses se tinham tornado um povo criador de novos povos.

Mas tem interesse voltar a Gustavo Cordeiro Ramos e citar a autora: “a obrigatoriedade de inserir nos livros de leitura adotados oficialmente um conjunto de 113 frases de autores nacionais e estrangeiros que contribuíssem para inculcar nos alunos um corpo de valores subordinados a princípios como a obediência, respeito e amor ao chefe incontestado, amor à pátria e defesa intransigente da unidade da família como célula primária do corporativismo. As 113 frases deveriam ser distribuídas pelos compêndios da 4.ª classe do ensino elementar, das cinco primeiras classes dos liceus, para a 6.ª e 7.ª classes da secção de Letras e para as escolas do ensino técnico e profissional. Tratava-se de frases que enalteciam o patriotismo, a obediência e os valores morais. Entre os autores nacionais encontravam-se Salazar, Sidónio Pais, Alfredo Pimenta, António Sardinha, Camões, Gil Vicente, António Correia de Oliveira e, entre os estrangeiros, Mussolini, Comte, Goethe, Bossuet.”

Em 1936 aparece o livro único, as tendências nacionalistas e apologéticas do regime vão encontrar o seu expoente máximo nos compêndios escolares de António Mattoso. Está montado o cenário para que Pátria e Império sejam a mesma coisa. Vitorino Magalhães Godinho dirá mais tarde:
“Império! Mas não houve um império português. É um dos maiores erros do nosso tempo o esquecermo-nos de que, desde o século XV, atravessamos sucessivas fases de expansão e, por outro lado, de descolonização. Descolonizámos, a meio do século XVI, em Marrocos, no Norte de África. Descolonizámos, nos anos de 1570 e 1680, no Extremo Oriente, em Java e nas outras ilhas da Insulíndia, onde tínhamos estabelecido um império poderoso, com base marítima. Descolonizámos, quando o Brasil conquistou a sua independência e, também aí, tanto se discutiu se a unidade na formação teria ou não uma solução melhor do que a simples independência e rutura. Portanto, um império, mas curiosamente, através da História, são poucos os portugueses que vão para esse império. Algumas centenas ao acabar do século XIX, são 500 a 600 que daqui partem para o Ultramar, ao passo que para o Brasil vão, por ano nessa altura, cerca de 30 mil.”

A equação Pátria e Império envolve o espírito de cruzada e a missionação, há uma declarada omissão de objetivos económicos ou estratégicos, a conquista de Ceuta é apresentada como fazendo parte de um movimento ibérico da reconquista cristã, António Mattoso dirá que os Descobrimentos portugueses eram uma obra de apostolado cristão. “Se, posteriormente, surgiram motivos económicos e políticos, estes traduzem apenas a necessidade de os fazer manter e progredir. O que distingue o império português de quantos o procederam é isto: - Ele não é senão, na sua essência, um instrumento de evangelização do mundo.” Daí o papel fundamental que se vai atribuir ao Infante D. Henrique, ele passa a ser a figura mítica da história da expansão.

Vamos ver seguidamente como a historiografia e a propaganda política irão tratar o Infante de Sagres, a mítica Escola de Sagres. Concluída esta viagem proporcionada por Maria Cândida Proença vamos ver como se processou a expansão contada às crianças.

D. Afonso Henriques na Batalha de Ourique, conjunto azulejar de Jorge Colaço na então Escola Primária de Rodrigues de Faria, em Forjães. O mito do milagre de Ourique, que teria conduzido a uma grandiosa vitória de D. Afonso Henriques sobre cinco exércitos mouros era um dos mais divulgados na historiografia escolar. Através dele, desde muito cedo, se interiorizava nos jovens alunos o caráter da eleição do povo português, protegido por Cristo desde a fundação da nacionalidade

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 21 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27449: Notas de leitura (1865): Uma publicação guineense de consulta obrigatória: O Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné (1) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Guiné 61/74 - P27336: Notas de leitura (1854): "Um Império de Papel", por Leonor Pires Martins; posfácio de Manuela Ribeiro Sanches; Edições 70, 2.ª edição, 2014 (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 24 de Dezembro de 2024:

Queridos amigos,
No posfácio desta importantíssima obra que é um "Império de Papel, Imagens do Colonialismo Português na Imprensa Periódica Ilustrada (1875-1940)", a investigadora Manuela Ribeiro Sanches releva a retórica da missão civilizadora, como a do marquês de Sá da Bandeira, e a sua filantropia anti-esclavagista, desmentidas pelas práticas nas colónias, a noção de cristianização que acompanhou o processo missionário, onde estavam ausentes dois fundamentos essenciais: o da igualdade natural de todos os humanos e o do seu estádio civilizacional inferior para justificar o aproveitamento do progresso, uma forma de puxar para cima as raças e as culturas - era como se o colonialismo exigisse a África entrar na Idade das Luzes, isto no século XIX, porque a seguir, com a industrialização maciça, com a valorização das matérias-primas, a intenção libertadora ou filantrópica ganhou outra dimensão. A resposta política que o Estado Novo encontrou, na efervescência dos movimentos anticoloniais, foi o lusotropicalismo, outra ficção, basta pensar na Guiné onde a população branca era mínima e quase sempre de passagem. Procurou-se dar uma imagem de tolerância, catapultar os quadros africanos para lugares intermédios da Administração Pública, subsidiar as peregrinações a Meca, construir estradas a galope, etc. Claro que estamos a falar de uma ou outra história posteriores à de um Império de Papel. E Manuela Ribeiro Sanches observa que cabe à Europa tentar ver no seu passado menos um repositório de glórias e feitos, mas uma oportunidade para reconhecer os limites e ensaiar um pequeno passo para se reinventar a Europa e as suas relações consigo mesma e com o mundo.

Um abraço do
Mário



Um Império ficcionado em jornais e revistas, livros e álbuns, um Império de e em papel (2)

Mário Beja Santos

Trata-se de uma obra esmerada pelo conteúdo e apresentação, "Um Império de Papel", por Leonor Pires Martins, posfácio de Manuela Ribeiro Sanches, Edições 70, 2.ª edição em 2014. A autora visionou e analisou publicações entre 1875 e 1940 e diz que vem ao mesmo tempo propor uma revisitação crítica da iconografia. “Com esse objetivo, procurei fazer um enquadramento histórico de imagens aqui reproduzidas, assinalando as circunstâncias políticas, culturais, mas também da ordem tecnológica, que marcaram – e possibilitaram – a sua produção e circulação. Considerei os temas mais recorrentes e as motivações dos diversos artistas e fotógrafos. O papel diligente e ideologicamente empenhado da generalidade da imprensa periódica ilustrada na disseminação de ideias e conhecimentos.“

Porquê 1875 e até 1940? Em 1875 é criada a Sociedade de Geografia de Lisboa, a quem caberá o papel catalisador para a construção do Terceiro Império, funcionará como o lobby junto do poder soberano, contribuirá para expedições, congregará intelectuais, diplomatas, agentes dos negócios e da finança, escritores, tem no seu comando uma figura excecional, Luciano Cordeiro- 1940 é a data da maior obra ideológica da construção e mentalização de que o Mundo Português ia do Minho a Timor, o regime de Salazar não poupou esforços para o grandioso espetáculo que ofereceu na Praça do Império.

Jornais e revistas contribuem para que os leitores nutram um sentimento de grandeza pelos cerca de 2 milhões de quilómetros quadrados do Império Colonial Português, é graças a esse Império de Papel que se vai tomando conhecimento da ocupação das regiões africanas, do atrativo em emigrar, refazer a vida numa base de prosperidade, tudo parece abrir campo à riqueza daquelas Áfricas, mais a mais o país continua a ser visceralmente de analfabetos, o que realça o peso da imagem.

Mas, como escreve a autora, tudo era relativamente ilusório. “O país não dispunha de meios para explorar e colonizar os seus domínios ultramarinos. Repare-se que na viragem do século a maior parte dos territórios, sobretudo os maiores, não estavam mapeados, não tinham redes de estradas ou caminhos de ferro, nem um sistema de administração unificado e as comunicações com a metrópole eram esporádicas e dependentes da navegação inglesa. As ferrovias existentes, construídas com capitais ingleses e à custa do trabalho forçado imposto aos indígenas ligava não as regiões das províncias ultramarinas portuguesas, mas Lourenço Marques aos Transval e a Beira à Rodésia. Assim, talvez mais do que a deficiente organização do aparelho administrativo colonial, ou as cíclicas crises financeiras nacionais, foi a dificuldade de atrair colones para a África Portuguesa, para a transformar no novo Brasil.”

As publicações esforçavam-se por mostrar as estações zootécnicas, os touros, os pastores portugueses, a produção de açúcar. Dava-se notícia do transporte gratuito de portugueses para Angola e da entrega de terras a esses novos colonos, preferindo-se aqueles que soubesse ofícios mecânicos ou fossem artistas e lavradores. Mas o Brasil continuava a ser um polo de atração.

A Igreja Católica mobilizava padres, freiras e missionários. E, sem tréguas, surgem imagens de construções, plantações, embarques de cacau, as famílias no planalto de Moçâmedes. Andaram a conviver portugueses e bóeres na Huíla, não se misturaram bem na maneira de viver, os bóeres grandes caçadores, os madeirenses dedicados principalmente a culturas alimentares, os bóeres abandonam o planalto da Huíla, houve depois um ambicioso projeto de colonização com transmontanos, estes só chegaram depois da Segunda Guerra Mundial. Também a autora observa que o imediato envolvimento de Portugal na Primeira Guerra Mundial acarretou a deslocação de tropas expedicionárias para o sul de Angola ou norte de Moçambique, estes atos foram decisivos para que o país mantivesse as suas colónias, contudo não ficou afastado o fantasma da expropriação do Império. Para afastar esse perigo criou-se em 1920 o regime dos Altos-Comissários para Angola e Moçambique, conferindo-lhe vastos poderes e maior autonomia de decisão, Norton de Matos foi Alto-Comissário em Angola, tinha um plano bastante ambicioso que previa, entre outros aspetos, a rápida modernização do território, feita através da reorganização das estruturas administrativas, o fomento da economia, a construção de habitações – mas um regime encapotado de escravatura ainda permanecia na colónia.

Há também uma outra observação pertinente que a autora regista:
“A iconografia alusiva à África colonial mascarava as fragilidades do Império: um Império onde as viagens de exploração não trariam grandes vantagens a Portugal no jogo da diplomacia e política coloniais europeias, mas a que as imagens publicadas na imprensa periódica deram uma expressão notável; um Império cujo efetivo controlo foi tardio, apesar das revistas ilustradas confirmarem a presença de regimentos de tropas portuguesas em várias regiões africanas desde os meados da década de 1890; um Império que, década após década, assistiu à falência dos sucessivos projetos do povoamento ‘branco’, mas que os retratos de grupos de colonos pareciam contraditar; um Império que, em termos globais, não gozava de uma economia próspera, mas do qual chegavam notícias e imagens de grandes fazendas agrícolas, empregando mão de obra nativa que era educada na aprendizagem da música europeia…”
Tudo conjugado, estas imagens tinha o poder de ludibriar, o mesmo não acontecia nos altos círculos da política, aí sabia-se perfeitamente que havia ameaças de expropriação estrangeira, e que os governos eram incompetentes para defender, administrar e desenvolver eficientemente as possessões ultramarinas.

Império de ficção, basta pensar na missão civilizadora advogada por Sá da Bandeira, a abolição da escravatura, que se prolongou à sorrelfa do que a lei prescrevia, mascarada de trabalho forçado. O Estado Novo procurou usar todo este material imagético a partir da Agência Geral das Colónias, teve a preocupação de apoiar ou incentivar a publicações periódicas para preparar os quadros da administração colonial (basta pensar no Boletim Geral das Colónias, a revista "O Mundo Português", a coleção "Pelo Império", os "Cadernos Coloniais", as mostras de produtos, os cortejos, as exposições coloniais, eram imagens em que aparecia o ministro das Colónias, Armino Monteiro, no Parque Eduardo VII, onde se realizava a Grande Exposição Industrial Portuguesa, em 1932, ali apareceram grupos de guineenses, depois a exposição colonial de 1934, apresentada publicamente como uma grande lição de colonialismo, faziam-se excursões no centro e no norte do país para ir ver esta gente exótica e as meninas de peito ao léu.

E assim se chegou ao acontecimento mais espetacular do Estado Novo, a exposição do Mundo Português, momento de grande dinamismo do regime, a par das comemorações, iniciava-se a recuperação de vários castelos medievais, o restauro dos chamados “Primitivos Portugueses” (pinturas dos séculos XV e XVI), a construção do Estádio Nacional, da Fonte Luminosa na Alameda D. Afonso Henriques, dos bairros do Restelo e Alvalade, do aeroporto, das gares marítimas e fluvial, de entre outras obras e infraestruturas públicas que mudariam de forma significativa a toponímia e a vida na cidade.

Não voltou a haver elã para repetir tal desafio de desenvolvimento à sombra do Império, nem mesmo nas comemorações do 40.º aniversário da Revolução Nacional. E a autora assim termina:
“Poder-se-á dizer que o Império de Papel aqui referido foi-o sobretudo de papel de jornal e revista. Não chegou a ser sequer um Império, de capa dura ou emoldurado – e muito menos de película.”

Exposição do Mundo Português, indígena Bijagó
Plano geral da Exposição do Mundo Português, 1940
Exposição do Mundo Português, outra vista panorâmica
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Notas do editor:

Vd. post anterior de 13 de outubro de 2025 > Guiné 61/74 - P27314: Notas de leitura (1850): " Um Império de Papel", por Leonor Pires Martins; posfácio de Manuela Ribeiro Sanches; Edições 70, 2.ª edição, 2014 (1) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 20 de outubro de 2025 > Guiné 61/74 - P27333: Notas de leitura (1853): "Os Có Boys (Nos Trilhos da Memória)", de Luís da Cruz Ferreira, ex-1º cabo aux enf, 2ª C/BART 6521/72 (Có,1972/74) - Parte IV: de Figo Maduro a Bissalanca "by air", e depois de LDG até Bolama para a estopada da IAO (Luís Graça)