Blogue coletivo, criado por Luís Graça. Objetivo: ajudar os antigos combatentes a reconstituir o "puzzle" da memória da guerra colonial/guerra do ultramar (e da Guiné, em particular). Iniciado em 2004, é a maior rede social na Net, em português, centrada na experiência pessoal de uma guerra. Como camaradas que são, tratam-se por tu, e gostam de dizer: "O Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande". Coeditores: C. Vinhal, E. Magalhães Ribeiro, V. Briote, J. Araújo.
Pesquisar neste blogue
terça-feira, 28 de julho de 2026
Guiné 61/74 - P28221: Reencontro e memórias em Cacheu-Teixeira Pinto (José Macedo, 2.º Ten RN)
1. Mensagem do nosso camarada José Macedo, 2.º Ten da RN, DFE 21 (Cacheu e Bolama, 1973/74), enviada ao nosso blogue através do Formulário de Contacto do Blogger em 16 de Julho de 2026:
Reencontro e memórias em Cacheu-Teixeira Pinto
Em 1973 quando estive aquartelado em Vila Cacheu com o DFE 21, o comando operacional da Zona (na área de Canchungo/Biangue, (no contexto do PAIGC) estava a cargo do Batalhão de Caçadores n.º 3863.
Pouco tempo depois da minha chegada ao DFE 21, acompanhei o meu comandante, Tenente José Maria da Silva Horta, numa deslocação para uma reunião com o comandante do Batalhão 3863. Para minha surpresa — e talvez também para eles — reconheci o Tenente-Coronel António Joaquim Correia, comandante do Batalhão de Caçadores 3863, e também o Major João José Pires, que era o seu segundo comandante e oficial de operações.
A surpresa foi ainda maior porque eu já conhecia o Tenente-Coronel Correia havia cerca de dois anos, em São Vicente, Cabo Verde. Naquele tempo, ele era o Comandante Militar de Cabo Verde e, além disso, era pai de um colega meu do Liceu Gil Eanes.
Quanto ao Major João José Pires, eu também o tinha conhecido antes: ele tinha sido meu professor de Educação Física no mesmo Liceu Gil Eanes.
As voltas que o mundo dá
Foi então que percebi, com toda a força, que o mundo dá mesmo “as voltas”: relações que começam na escola voltam a encontrar-se em contextos completamente diferentes, e memórias pessoais acabam por cruzar-se com realidades históricas e institucionais.
Mantenhas do Zeca Macedo
Tenente FZE-DFE21
Guiné-Bissau, Cacheu-Bolama 73-74
_____________
quarta-feira, 10 de junho de 2026
Guiné 61/74 - P28088: Historiografia da presença portuguesa em África (530): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1973 (89) (Mário Beja Santos)
1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Dezembro de 2025:
Queridos amigos,
O Governador e Comandante-chefe partirá para férias e não regressa, é assunto que está bem tratado pelos investigadores. O novo Governador é um conceituado General, exerceu funções na governação e prestigiou-se em Angola, será ele que a 24 de abril escreverá ao Governo: "Chegámos à exaustão de meios", uma declaração de que os apaixonados pela tese de uma Guiné defensável fogem como o Diabo da Cruz. Não faltarão louvores, desde as irmãs missionárias, a militares como Carlos Fabião, militares do Batalhão de Comandos da Guiné, o Regedor de Bigene, por último o inspetor Fragoso Allas, um indefectível colaborador de Spínola; omitiram-se referências aos orçamentos extraordinários e outras matérias financeiras, quando se estuda a lista de iniciativas de desenvolvimento socioeconómico que a Guiné viveu nesse ano vem ao de cima a transferência de verbas e encargos a fundo perdido; Teixeira Pinto tornou-se cidade, e a promulgação de regulamentos foi uma constante, caso do regulamento para o abate de animais para consumo. Vamos agora para o Boletim Oficial de 1974 que em muito ultrapassa o 25 de abril e não nos podemos alhear que os primeiros boletins oficiais da Guiné Independente, há para ali referências de relevo para o estudo da nossa presença na Guiné.
Um abraço do
Mário
Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Guiné, 1973 (89)
Mário Beja Santos
António de Spínola partirá da Guiné com o máximo de discrição, antes de partir para os seus tratamentos no Luso, haverá uma revoada de louvores. 1973 é, à semelhança do ano anterior, um ano ligado à educação. Daí a visita de Azeredo Perdigão, acompanhado da mulher; visitaram a Guiné muitos jornalistas, deu-se um acontecimento circense, a presença em Bissau e no interior da Província da Companhia de Circo de Sevilha; e em termos futebolísticos houve a visita do Boavista Futebol Clube.
No Boletim Oficial n.º 6, de 6 de fevereiro, são louvadas algumas irmãs missionárias. Pela Portaria n.º 6/73, a irmã Maria Josefina Augusta de Assis, da Congregação Franciscana da Imaculada Conceição, uma presença missionária do IV século, então a prestar serviço no Hospital Central de Bissau. Louvada pelos seus dotes de competência, dedicação, zelo, espírito de sacrifício e amor pelo próximo. Pela Portaria n.º 7/73, é louvada a irmã Maria Francisca de Jesus Mendes, da mesma ordem e a prestar serviço no mesmo hospital. Distingue-se assim o teor do louvor do anterior: “Alheia a fadigas ou dificuldades, possuidora de personalidade firme, revelando a maior competência profissional à qual alia excecionais qualidades de carinho e dedicação pelos doentes, a irmã constitui um exemplo para todo o pessoal do Hospital de Bissau.” Segue-se a Portaria n.º 8/73, reverte para a irmã Maria Josefina Augusta de Assis, o Governador da Província da Guiné concede-lhe a Medalha de Prata de Dedicação e Mérito; e pela Portaria n.º 9/73, a irmã Maria Francisca de Jesus Neves recebe igualmente a Medalha de Prata de Dedicação e Mérito.
No Boletim Oficial n.º 9, de 27 de fevereiro, louva-se o Coronel Engenheiro Francisco José de Sousa Freire, e dão-se a s seguintes razões: “Profundo conhecedor das necessidades mais prementes da mão-de-obra local e das possibilidades de apoio do Ministério das Corporações e dotado de elevadas qualidades intelectuais, espírito de organização e inultrapassável dedicação, bem como de alta competência técnica, o Coronel Engenheiro Sousa Freire ao ser encarregado pelo governo da Província de centralizar e coordenar todas as ações de Formação Profissional Acelerada ao nível provincial, correspondeu plenamente à missão de que foi incumbido, vencendo os muitos obstáculos que se levantam à concretização de uma iniciativa de características pioneiras.”
Vamos novamente ouvir falar da Esso Exploration Guiné Inc. No Boletim Oficial n.º 13, de 27 de março, publica-se a convocatória da Assembleia Geral para 12 de abril, aprovação do relatório, balanços e contas, a eleição do Conselho de Administração para o ano em curso, etc. etc.
Novo louvor, desta feita para o Major Carlos Fabião, vem no Boletim Oficial n.º 15, de 13 de abril, Suplemento, atenda-se ao texto do louvor constante na Portaria:
“No desempenho das funções de Comandante da Organização Provincial dos Voluntários da Defesa Civil da Guiné (o que nos remete para os pelotões de milícias e companhias de caçadores guineenses), demonstrou o Major de Infantaria Carlos Alberto Idães Soares Fabião extrema dedicação e insuperável eficiência.
O seu profundo conhecimento do ambiente local, adquirido ao longo de largos anos de serviço nesta Província e a aureola de prestígio que criou, mercê dos valorosos feitos em combate aqui praticados, a verticalidade da sua conduta e o seu impoluto carácter deram-lhe uma situação ímpar perante a sociedade civil.
Acompanhando o Governador em missões de grande responsabilidade e no desempenho de incumbências especiais junto das populações que se revestiam de transcendente delicadeza, teve o Major Fabião oportunidade de pôr em evidência os seus excepcionais atributos, a sua inultrapassável lealdade e o seu real mérito.”
Na Portaria subsequente foi lhe concedida a Medalha de Prata de Dedicação e Mérito.
No Boletim Oficial n.º 16, de 17 de abril, pela Portaria n.º 24/73, tomam-se medidas para a prevenção e segurança de um contingente importante de condutores de veículos: “Verificando-se cada vez maior número de acidentes de viação com a intervenção de motociclos, ciclomotores e velocípedes de motor auxiliar em que muitos dos seus ocupantes têm perdido a vida; presumindo-se que, na maioria dos casos, as consequências mais graves de que se revestem tais acidentes se devem, possivelmente, ao facto desses indivíduos não circularem, nos referidos meios de transporte, protegidos de capacete, o Governador da Guiné determina que os condutores e passageiros dos motociclos com ou sem carro lateral, ciclomotores e velocípedes de motor auxiliar, devem obrigatoriamente proteger a cabeça com um capacete. A infração ao disposto neste artigo será punida com multa de 300$00.”
A Esso Exploration Guiné reaparece no Boletim Oficial n.º 19, de 8 de maio, trata-se de uma apostila ao contrato. Refere-se que em 23 de março desse ano, no Ministério do Ultramar e no gabinete do respetivo Ministro, outorgando em nome do Estado e em representação da Província da Guiné, e na outra parte, como segundo outorgante o Sr. Fernando Bráulio de Castro Neves, em representação da Esso Exploration Guiné Inc., sociedade por ações, com sede em Bissau, Guiné Portuguesa, celebraram a apostila ao contrato de 1966, alterando a área inicial da concessão, explicando o novo perímetro e acrescentando o seguinte parágrafo: “Os direitos conferidos incluíram os direitos de pesquisa e exploração dentro da zona contínua de 80 metros de largura contados a partir da linha de nível da máxima preia-mar na direção da terra.” Noutra cláusula diz-se que a Esso pagará ao Fundo de Fomento Mineiro Ultramarino, por cada ano contratual, a importância de 1.000 contos. Noutra cláusula a sociedade obriga-se a apresentar, para aprovação do Governo, programas anuais de trabalhos de prospeção e pesquisa.
Mas não ficamos por aqui quanto a referência à Esso, dela há novamente menção no Boletim Oficial n.º 21, de 22 de maio, insere o relatório e contas do Conselho de Administração e parecer do Conselho Fiscal relativos à gerência de 1972. Mas a Esso continua na berlinda. No Boletim Oficial n.º 22, de 29 de maio, temos o contrato da Esso Exploration Guiné, é bem longo, limito-me a dizer que a área inicial da concessão é de cerca de 9700 Km2 e abrange toda a porção da plataforma continental da Província da Guiné.
Temos agora no Boletim Oficial n.º 27, de 5 de julho, o Regulamento dos Congressos do Povo da Guiné, escreve-se nos considerandos que a experiência de quatro anos de Congressos do Povo se tem revelado um instrumento de comprovada utilidade. Estes congressos são definidos como assembleias representativas de todas as etnias da Província, destinadas essencialmente a institucionalizar a sua mais direta participação na Administração Pública e na definição das bases da Acção Governativa. Estabelece a organização dos congressos, quem são os congressistas, a estrutura das reuniões, constituição e atribuições das mesas, etc.
Teixeira Pinto, a populosa e progressiva vila de Canchungo, sede da circunscrição de Cacheu vai passar a ser cidade, o teor do preâmbulo é claramente encomiástico:
“Continuando sempre na esteira do progresso, a vila novel Teixeira Pinto, graças à sua privilegiada situação geográfica e labor da sua população e, consequentemente, à real e efetiva valorização social e económica da região foi instituído pelo Conselho do municipalismo, criando-se a Comissão Municipal Teixeira Pinto.
Porém, foi do ano de 1969 a esta parte, que a vila Teixeira Pinto, sacudida por um evidente e verdadeiro surto de progresso, consequente do plano de promoção socioeconómica do ‘Chão Manjaco’, realidade bem palpável que se traduz em inúmeras obras de vulto e largo alcance, especialmente no concernente à promoção das populações e elevação do seu nível de vida, bem patente dos setores agropecuário, educacional, sanitário e outros.”
Dito isto, a Vila Teixeira Pinto, dotada de todos os serviços públicos, apanágio dos grandes agregados populacionais, atingiu um nível que justifica e lhe dão jus à sua elevação a cidade, e o dia da Cidade de Teixeira Pinto passa a ser 24 de julho. Pela Portaria n.º 47/73, do mesmo Suplemento ao Boletim Oficial n.º 29, é aprovado o floral da Cidade Teixeira Pinto, descreve-se a área da cidade, os subúrbios e os limites.
O Boletim Oficial nº 33, de 14 de agosto, traz uma Portaria onde se noticia a concessão ao alferes Bacar Djassi a medalha de cobre de dedicação e mérito; este alferes graduado do Batalhão de Comandos da Guiné fora chamado a desempenhar funções de relevante importância no enquadramento da Força Africana.
No Boletim Oficial nº 34, de 21 de agosto, publica-se o Decreto Provincial nº 10/73, é aprovado o Regulamento para o abate de animais para consumo, inspeção e trânsito de carnes verdes. Diz-se no preâmbulo que constitui perigo para a saúde pública o consumo de carnes provenientes de animais abatidos em locais higienicamente deficientes e sem inspeção sanitária. Este Regulamento detalha matérias como o controlo sanitário, o trânsito de carnes verdes, o que são matadouros, etc. etc.
No Boletim Oficial n.º 41, de 9 de outubro, o Governador Bettencourt Rodrigues, por Portaria, louva o Regedor Bigene “porque durante o difícil período que Bigene atravessou no passado mês de maio, em que por imperiosa necessidade houve redução dos efetivos militares que foram deslocados para outra zona, estando atento ao perigo que rondava Bigene, deu provas da sua valentia, coragem, portuguesismo e sangue-frio, quando com o seu grupo armado colaborou ativamente na defesa da povoação, merecendo a confiança das populações e demonstrando ser um chefe digno de respeito e admiração por todos, foi-lhe concedida a medalha de cobre por dedicação e mérito.”
Finalmente, no Boletim Oficial n.º 51, de 18 de novembro, por via da Direção-Geral da Administração Civil, do Ministério do Ultramar, Marcello Caetano e de Baltazar Rebelo de Sousa assinam o louvor ao Inspetor-adjunto da Direção-Geral de Segurança António Luís Fragoso Allas, exercendo desde 1971 as funções de Chefe da Subdelegação da DGS na Guiné, revelou no seu desempenho alta eficácia e inexcedível dedicação. Foi-lhe concedida a medalha de prata de serviços distintos ou relevantes no Ultramar.
(continua)
_____________
Nota do editor
Último post da série de 20 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28040: Historiografia da presença portuguesa em África (530): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1972 (88) (Mário Beja Santos)
sábado, 9 de maio de 2026
Guiné 61/74 - P28005: Blogpoesia (812): "A Mulher Grande lá do Canchungo", por Albino Silva, ex-Soldado Maqueiro (2)
Boa noite Carlos Vinhal
Como gosto destas coisas, aqui envio para a Tabanca Grande este elogio às mulheres grandes lá do Canchungo.
São verdades estas que escrevo, e como continuo a pensar que ainda ando pela Guiné, não esqueço nem um pouquinho daquilo que por lá vivi. Hoje é pela segunda vez que escrevo sobre a Mulher Grande, referindo-me às Balantas do Canchungo.
Vai um Abraço para toda a Tabanca em Especial para os Régulos
Albino Silva
FIM
Por Bino Silva
011004/67
_____________
Nota do editor
Vd. post de 8 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28002: Blogpoesia (811): "A Mulher Grande lá do Canchungo", por Albino Silva, ex-Soldado Maqueiro (1)
sexta-feira, 8 de maio de 2026
Guiné 61/74 - P28002: Blogpoesia (811): "A Mulher Grande lá do Canchungo", por Albino Silva, ex-Soldado Maqueiro (1)
Boa noite Carlos Vinhal
Como gosto destas coisas, aqui envio para a Tabanca Grande este elogio às mulheres grandes lá do Canchungo.
São verdades estas que escrevo, e como continuo a pensar que ainda ando pela Guiné, não esqueço nem um pouquinho daquilo que por lá vivi. Hoje é pela segunda vez que escrevo sobre a Mulher Grande, referindo-me às Balantas do Canchungo.
Vai um Abraço para toda a Tabanca em Especial para os Régulos
Albino Silva
(continua)
_____________
Último post da série de 1 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27877: Blogpoesia (810): "Dia de enganos", por Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68)
terça-feira, 7 de abril de 2026
Guiné 61/74 - P27895: As nossas geografias emocionais (64): Teixeira Pinto, ao tempo do Francisco Gamelas, ex-alf mil cav, Pel Rec Daimler 3089 (1971/73)
Foto nº 1 > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto (hoje Canchungo)> c. janeiro / fevereiro de de 1972 > Vista aérea do quartel e da vila (e depois cidade)
(iii) aquartelamento, lado direito (Foto nº 9C): instalações dos soldados, refeitório dos soldados e bar dos oficiais; depois da última linha dos edifícios, por entre as árvores ainda se divisam as instalações do CAOP1 e, ao lado, as casernas dos comandos.
(iv) final do caminho que vem da bolanha e entra pelo aquartelamento, fica a porta de armas;
(v) Em baixo, esquerda – para baixo, o caminho que vai dar à bolanha, que termina no cais (foto nº 2) e, sobre a esquerda, vê-se o início da pista de aterragem e o heliporto.
(vi) Em cima, direita (Foto nº 1E) – centro da vila (depois cidade), avenida principal), no final da qual ficava o aldeamento do Canchungo.
(...) "Implantada na planície, a meio da metade litoral norte da Guiné, entre os rios Cacheu, a norte, e Mansoa, a sul, mais próxima do último e dele recebendo a visita das suas águas na bolanha (...), a sua parte nobre e mais recente desenvolveu-se a partir da abertura de uma larga avenida em linha recta, com orientação aproximada norte-sul, que ligava o primitivo aldeamento do Canchungo ao quartel erguido a sul do povoado, a cerca de seiscentos metros de distância.
(*) Vd. poste de 6 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27893: Esposas de militares no mato (7): Teixeira Pinto, ao tempo do Francico Gamelas, ex-alf mil cav, cmd Pel Rec Daimler 3089 (1971/73) - Parte III
domingo, 5 de abril de 2026
Guiné 61/74 - P27890: Esposas de militares no mato (6): Teixeira Pinto, ao tempo do Francico Gamelas, ex-alf mil cav, cmd Pel Rec Daimler 3089 (1971/73) - Parte II
Foto nº 1
- "O apelido Gamelas: um património histórico e sociológico de Aveiro" (2009);
- "Lavradores do Vilar ou o casamento inter-pares como estratégia de sobrevivência" (2014) (ambos publicados pela ADERAV - Associação para o Estudo e Defesa do Património Natural e Cultural da Região de Aveiro);
- "Outro olhar - Guiné 1971-1971" (a sua "primeira incursão nas áreas da poesia e da crónica".
Capa do livro de Francisco Gamelas ("Outro olhar - Guiné 1971-1973. Aveiro, 2016, ed. de autor, 127 pp. + ilust. O design é da arquiteta Beatriz Ribau Pimenta. Tiragem: 150 exemplares. Impressão e acabamento: Grafigamelas, Lda, Esgueira, Aveiro.
O livro, feito de pequenas crónicas e poemas, e profusamente ilustrado com as fotos do álbum da Guiné, é dedicado "à memória de Maria Helena" e às as "nossas filhas Sara Manuel e Maria João e os nossos netos Sara, Francisco José e João Gil".
Sobre a sua primeira esposa, Maria Helena, já falecida, e sua companheira da aventura guineense, o Francisco escreveu um belíssimo poema "Amor em tempo de guerra" (pp. 99/101), de que já reproduzimos no poste anterior (*):
As poucas mulheres que seguiram o seus maridos na Guiné foi por amor e companheirismo. "Éramos jovens. Sentíamo-nos imortais", escreveu o Francisco. A guerra criava, para a nossa geração, uma "urgência emocional", o tempo era curto, a vida podia ser breve (bastava uma mina A/C ou uma emboscada do IN ou uma morteirada de 120 em ataque ao aquartelamento)... Estar juntos, mesmo em condições adversas, valia o risco. Para algumas mulheres, pode ter sido também uma forma de escapar â tristeza do quotiano em Portugal. Para uma ou outra como a Maria Helena, professora, foi também uma forma de se sentir útil.
A escola local em Teixeira Pinto precisava de docentes, e o exército, se não incentivava, pelo menos tolerava a presença de civis, mulheres (e até filhos), para "humanizar" a vida no "mato". De resto,no àmbito da política spinolista "Por uma Guiné Melhor", as "senhoras professoras" eram bem-vindas. E a mulher portuguesa, mesmo inferiorizada no Estado Novo, podia aliar algum idealismo e aventura. Em todo o caso, foram mulheres, portuguesas, de coragem.
A Guiné, apesar dos seus riscos (guerra, paludismo, doenças infetocaontagiosas, stress, desconforto, recursos de saúde limitados, isolamento, dificuldades de tramsportes...) representava uma aventura exótica, um mundo desconhecido. O Francisco Gamelas escreve sobre isso: "aproveitando os intervalos de alguma normalidade para nos inventarmos como casal". Havia uma espécie de romantismo trágico em viver ali, como se a guerra tornasse o amor mais emociante e intenso.
A Lena e o Francisco, apesar de tudo, tinham algum espaço de privacidade: viviam ao lado da escola, no edifício destinado ao diretor. Provavelmente frequentavam a messe de oficiais. De qualquer modo, o círculo de convívio era muito restrito. O ambiente era fortemente masculinizado. As saídas da vila tinham os seus riscos, e o contacto com a população local era limitado. A "normalidade" a que o Francisco se refere era frágil: um jantar no messe, uma ida ao mercado local, ou uma sessão de cinema (com dois ou três anos de atraso em relação à programaçãpo de Lisboa).
Sendo comandante do Pel Rec Daimler 3089, o Francisco tinha a sua vida operacional. E a Lenba ficou grávida da sua primeira filha, a Sara, que não nascerá todavia em Teixeira Pinto ,mas já em Aveiro. Náo devia haver sequer obstetras na Guiné!...
Havia isoalamento. O corrreio podia demorar quinze dias (apesar do SPM ser um bom serviço). As notícias da metrópole (e do mundo) chegavam com atraso. A solidão era quebrada pelo convívio entre as poucas mulheres europeias que havia nestas paragens mas também com as mulheres locais (que também viviam sob alguma tensão).
Todas pagaram algum preço. Mas cremos que o balanço final foi positivo, nesta fase das suas vidas, sendo jovens e recém,casadas... O poema do Francisco Gamelas responde, em parte, a esta pergunta:"Foi aqui, no Canchungo, / e nestas condições que aceitámos, / que o nosso amor floriu".
Estas históris são fragmentos de humanidade no meio do caos que é sempre a guerra, em qualquer época e lugar. Elas mostram que, mesmo em tempos de violência, a vida, com os seus amores, medos e esperanças, continua.
(*) Último poste da série > 4 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27887: Esposas de militares no mato (5): Teixeira Pinto, ao tempo do Francico Gamelas, ex-alf mil cav, cmd Pel Rec Daimler 3089 (1971/73) - Parte I
(**) Vd. poste de 14 de junho de 2016 > Guiné 63/74 - P16201: Álbum fotográfico de Francisco Gamelas, ex-alf mil cav, cmdt do Pel Rec Daimler 3089, ao tempo do BCAÇ 3863 (Teixeira Pinto, 1971/73) - Parte III: Canchungo e o amor em tempo de guerra
sábado, 4 de abril de 2026
Guiné 61/74 - P27887: Esposas de militares no mato (5): Teixeira Pinto, ao tempo do Francico Gamelas, ex-alf mil cav, cmd Pel Rec Daimler 3089 (1971/73) - Parte I
Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > Março de 1973 > Habitação nativa típica, na tabanca de Cachungo. Em primeiro plano, a Lena.
Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > Janeiro de 1972 > Edifício do ciclo preparatório do ensino secundário e casa do director (à esquerda). Foi nesta casa que o casal Gamelas se instalou. A Maria Helena Gamelas foi a professora de português no ano lectivo de 1972/73. Em frente, do outro lado da rua, ficavam as camaratas dos soldados da 35.ª CCmds.
(i) nasceu em Aveiro, em 1949:
(ii) formou-se em eletrotecnia (Instituto Superior de Engenharia do Porto, 1969);
(iii) esteve na Guiné, em Teixeira Pinto, em 1971/73, como alf mil cav, a comandar o Pel Rec Daimler 3089, ao tempo do BCAÇ 3863 (onde foi médico o nosso camarada Mário Bravo) e do CAOP1 (a que pertenceu o nosso camarada António Graça de Abreu; em fevereiro de 1973, o CAOP 1 foi transferido para Mansoa):
(iv) fez a sua carreira profissional na PT Inovação como quadro superior de telecomunicações;
(v) está reformado;
(vi) tem-se dedicado à escrita, à poesia e ao ensaio histórico-sociológico: "O apelido Gamelas: um património histórico e sociológico de Aveiro" (2009); "Lavradores do Vilar ou o casamento inter-pares como estratégia de sobrevivência" (2014), ambos publicados pela ADERAV - Associação para o Estudo e Defesa do Património Natural e Cultural da Região de Aveiro;
(vii) em 2016 publicou "Outro olhar - Guiné 1971-1971" (a sua "primeira incursão nas áreas da poesia e da crónica";
(vii) vive em Aveiro;
Capa do livro de Francisco Gamelas ("Outro olhar - Guiné 1971-1973. Aveiro, 2016, ed. de autor, 127 pp. + ilust. O design é da arquiteta Beatriz Ribau Pimenta. Tiragem: 150 exemplares. Impressão e acabamento: Grafigamelas, Lda, Esgueira, Aveiro.
O livro, feito de pequenas crónicas e poemas, e profusamente ilustrado com as fotos do álbum da Guiné, é dedicado "à memória de Maria Helena" e às "nossas filhas Sara Manuel e Maria João e os nossos netos Sara, Francisco José e João Gil".
Sobre a sua primeira esposa, Maria Helena, já falecida, e sua companheira da aventura guineense, o Francisco escreveu um belíssimo poema "Amor em tempo de guerra" (pp. 99/101), de que reproduzimos um excerto (***):
e começar a nossa vida em comum
neste reino de guerra sempre latente
aproveitando os intervalos
de alguma normalidade
para nos inventarmos
como casal.
Éramos jovens.
Sentíamo-nos imortais
apesar da evidência em contrário.(...)
(...) Foi aqui, no Canchungo,
e nestas condições que aceitámos,
que o nosso amor floriu,
que nos fomos aprendendo
na partilha permanente,
nas cumplicidades do presente
e nela germinou a semente
que foi crescendo
no teu ventre,
sangue do nosso sangue,
carne da nossa carne,
até nos acrescentar
em forma de rebento
a quem demos o nome de Sara
Então,
passámos a ser uma família”.
Este poema do Francisco Gamelas, sobre o "amor em tempo de guerra", é um testemunho comovente e raro desse lado mais íntimo e humano da guerra colonial, e merece uma análise mais detalhada na Parte II.
(Continua)
(*) Vd. poste de 28 de junho de 2016 > Guiné 63/74 - P16242: (De)Caras (43): A minha lavadeira Aline... "herdou-me" (Francisco Gamelas, ex-alf mil cav, cmdt Pel Rec Daimler 3089, Teixeira Pinto 1971/73)
(***) Vd. poste de 14 de junho de 2016 > Guiné 63/74 - P16201: Álbum fotográfico de Francisco Gamelas, ex-alf mil cav, cmdt do Pel Rec Daimler 3089, ao tempo do BCAÇ 3863 (Teixeira Pinto, 1971/73) - Parte III: Canchungo e o amor em tempo de guerra
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026
Guiné 61/74 - P27751: Excertos do Diário de António Graça de Abreu (CAOP1, Canchungo, Mansoa e Cufar, 1972/74) (25): A coluna de Teixeira Pinto, 31 de outubro de 1972
![]() |
Guiné > Região de Tombali > Cufar > CAOP1 > c. 1973/74 >O António Graça de Abreu no rio Cumbijã. Tem c. 390 referèncias no blogue Foto (e legenda) : © António Graça de Abreu (2007). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné] |
"Esta história parece-me mal contada.
Estamos a falar do livro Diário da Guiné: Lama, Sangue e Água Pura (Lisboa: Guerra & Paz Editores, 2007, 220 pp), que é uma referência absolutamente obrigatória para quem quiser aprofundar o conhecimento da situação político-militar no CTIG nos últimos 3 anos (1972, 1973, 1974), vista por um alferes miliciano de um CAOP, com formação universitária, culto, vivido, informado e mais velho (25/26 anos) do que a média dos outros milicianos, tendo passado por regiões nevrálgicas e sensíveis da Guiné, na zona Oeste (Mansoa / setor O1 e Teixeira Pinto / sector O5) e Sul (Cufar /S3).
Esta manhã às seis e vinte, acordei de maneira diferente. Era pum, pum, pum, catrapum, os rebentamentos secos na distância.
Acordámos os três alferes, o que é, estão a atacar o quê? Era longe daqui, mas não muito. Eu disse: “Deve ser a coluna para Bissau.”
O IN concentrou o fogo sobre as primeiras viaturas, só cinco é que foram atingidas num total de quarenta.
Quando acontecem estas coisas, pedem-se logo os helicópteros de Bissau para a evacuação dos feridos e vem também o helicanhão que faz fogo sobre os itinerários de retirada do IN.
(*) Vd. poste de 19 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27749: Notas de leitura (1897): "Os Có Boys (Nos Trilhos da Memória)", de Luís da Cruz Ferreira, ex-1º cabo aux enf, 2ª C/BART 6521/72 (Có, 1972/74) - Parte IX: o batismo de fogo numa das primeiras colunas de Teixeira Pinto - Pelundo - Bissau (Luís Graça)


































