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sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27663: Notas de leitura (1888): "Porto, 1934 a Grande Exposição", por Ercílio de Azevedo; edição de autor, 2003 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 28 de Julho de 2025:

Queridos amigos,
É o primeiro grande teste do Estado Novo para exibir a gesta Imperial, seguir-se-á 1937 e uma exposição que terá lugar no Parque Eduardo VII e em 1940 a Exposição do Mundo Português é o ápice da grande nação colonial, uma das maiores potências coloniais, é o que sobrou depois das guerras da Restauração e da independência do Brasil. Escolheu-se o Porto e uma área apropriada dentro dele, o Palácio de Cristal, houve obras profundas, Henrique Galvão cuidou dos primores decorativos, o êxito foi retumbante, irá ler-se no texto o número impressionante de comboios, camionetas e automóveis envolvidos, mais de um milhão e trezentos mil visitantes. A Guiné caprichou, pela majestade do régulo Mamadu Sissé, o pintor Eduardo Malta desenhou-o e pintou-o, sente-se que o personagem o deslumbrou; a Rosinha, já noiva do régulo dos Balantas, ganhou o concurso da grande beleza, o fotógrafo Domingos Alvão não lhe regateou belas fotografias; o menino Augusto era tão cativante que até fez publicidade; e o varonil e atlético Papé morreu inesperadamente, tal como o menino Augusto faleceu com tuberculose. O Tenente Henrique Galvão foi alvo de queixas das respeitáveis senhores portuenses que consideravam inaceitável andarem para ali umas meninas pretas com o peito ao léu, elas eram a grande atração dos visitantes, os grandes dignitários do regime não deram seguimento à queixa, dizendo que não tinha pés nem cabeça pôr as meninas vestidas à europeia... a civilidade viria com o tempo. E assim foi ganho o grande teste, o Estado Novo podia orgulhar-se de ter mostrado que Portugal não era um país pequeno.

Um abraço do
Mário



A Guiné e a Primeira Exposição Colonial Portuguesa, Porto, 1934

Mário Beja Santos

Porto, 1934 a Grande Exposição, por Ercílio de Azevedo, edição de autor 2003 é uma grande angular sobre o contexto sociopolítico e cultural em que decorreu a primeira exposição colonial, mostrando igualmente acontecimentos fotográficos, jornalísticos e propagandísticos desta grande realização. Era uma grande aposta do Estado Novo a impor em plena exibição pública o sonho imperial, a grandeza do Império, a missão evangelizadora, destacar as glórias da expansão ultramarina. Crescia por toda a Europa o autoritarismo e as apetências imperiais, havia uma larga tradição de feiras universais, mas eram poucas as exibições da história Imperial. O Ministro das Colónias, Armindo Monteiro, encarregou o Tenente Henrique Galvão da tarefa de organização dos stands da exposição.

O Acto Colonial fora prolongado em 1930, Portugal era a quarta potência colonial no mundo, o artigo 2.º do Acto Colonial era explícito, declarava ser da “essência orgânica da Nação Portuguesa desempenhar a função histórica de possuir e colonizar domínios ultramarinos e de civilizar as populações indígenas”. Procurava-se igualmente ultrapassar a deficiência ou a ausência de conhecimentos sobre a realidade colonial. Era grande a aposta, Salazar era Presidente do Governo desde 11 de abril de 1933, António Ferro editava no ano seguinte um luxuoso e artístico álbum que mostrava o estado florescente da nação, o que se alterara na rede viária, na instrução, nas finanças públicas, no restauro dos monumentos, no teatro e no cinema. O autor também nos desvela a vida do Porto por esse tempo.

E temos a realização passo a passo, a apresentação da iniciativa que meteu peditórios, baile e banquete no Palácio da Bolsa. Segue-se um acervo fotográfico entre a primeira pedra e a inauguração, nesse dia não faltarão o Presidente Carmona, o Ministro dos Negócios Estrangeiros, o Ministro da Guerra, o Ministro das Colónias, o Cardeal-Patriarca. Todas as colónias têm o seu pavilhão, ocupam espaço próprio, os visitantes cedo vão ficar deslumbrados com as mulheres guineenses em tronco nu, irá ouvir-se a queixa das respeitáveis senhoras do Porto, apelos uns atrás dos outros ao Tenente Henrique Galvão para que acabe com aquele desaforo, ver os indianos como encantadores de serpentes ainda vá, mas poder ver aquelas mulheres sem vergonha era inaceitável. Galvão replicou que os indígenas estavam vestidos exatamente como viviam.

Ercílio de Azevedo vai mostrando como ao longo da exposição eram apresentados os trabalhos jornalísticos, as visitas de pompa e circunstância como a do futuro Rei Eduardo VIII de Inglaterra, mostram -se imagens das grandes paradas, não falta o grande Cortejo Colonial, participam também as gentes da metrópole, não faltarão os Pauliteiros de Miranda, o carro da Casa do Douro, as Tricanas de Coimbra. A CP promoveu excursões a preços excecionais. A exposição custou 1.500 contos e rendeu 3.500, foi visitada por um milhão e trezentas mil pessoas, movimentou 1.300 comboios, 5000 camionetas, 2000 camiões e 40.000 automóveis.

Vieram muitos indígenas ao Porto, a comitiva guineense caprichava, o seu Embaixador era o Régulo Mamadu Sissé, o seu filho Abdula era um distinto fidalgo gentílico. Os jornais noticiavam:
“Mamadu, Rei dos Mandingas desde 1913, com a sua corte em Pachisse, domina os Balantas e ganha os Galões de Alferes, submete os Bijagós. Filho espiritual de Maomé, ao nascer do sol voltado para Meca começa o reinado de cada dia. Esposado de Catarina, grande mulher, filha da linhagem do Régulo de Bissau, tem ainda outra e outra. Mas no amor do homem todas três era como se fossem uma só. Malique, filho mais velho, dos treze que são, lá ficou a governar as rudimentares relações dos súbditos com a certeza indestrutível de ter obedecido. Sem fronteiras na vontade, além do Alcorão e do respeito da soberania portuguesa, majestaticamente, Mamadu, hirto nos seus 67 anos de amor a Portugal, em magoada saudade confidencia que Folupe, centro da sua casa, da sua família e da sua corte era a sua Pátria toda.”

A Rosinha merecia todo o destaque da imprensa. Vieram autoridades galegas e condecoraram Mamadu Sissé, houve grande emoção na comitiva guineense. O Régulo que chefiava a secção indígena da Guiné era Mona Sambu, Eduardo Malta fez-lhe um desenho. Entrevistado pela imprensa, Mona Sambu revelou que era Régulo dos Balantas, já o pai desempenhara funções na polícia e acompanhara o Capitão Teixeira Pinto e Mamadu Sissé nas operações de ocupação. A Rosinha iria casar com ele.

Quem ganhou também notoriedade foi o Augusto, era o ai-jesus do público, umas vezes aparecia com o capacete colonial, houve empresas que lhe tiraram fotografias para venderem produtos. Houve igualmente acontecimentos tristes na comitiva guineense. Morreu um Bijagó vigoroso de nome Papé, era apresentado como um dos pretos mais atléticos da exposição. Na aldeia lacustre em que viviam os guineenses batucou-se, em som de luto.

Este álbum termina com uma coletânea de depoimentos revelando imagens propagandísticas de grande valor.


Quadro de Eduardo Malta mostrando o rego Mamadu Sissé e Grupo da Guiné
A dimensão do evento
Fachada da exposição, entrada do Palácio das Colónias
O famoso mapa propagandístico de Henrique Galvão, irá reaparecer com a Guerra Colonial
O comboio da exposição. Fotografia de Domingos Alvão
Interior da exposição, Nave central
"O Homem do Leme na Exposição Colonial de 1934 – Nesta exposição a escultura do Homem do Leme era em barro. Só mais tarde foi fundida e colocada em frente à praia, na Avenida de Montevideu". Do blog Do Porto e não só.
Réplica do Farol da Guia em Macau
Aldeia da Guiné
A Rosinha, mulher Balanta, ganhará o prémio da grande beleza feminina da exposição
O simpático Augusto, chegou a aparecer em anúncios de promoção tabágica, não voltou à Guiné porque morreu tuberculoso. Fotografia de Domingos Alvão
"Amélia Rey Colaço (1898-1990), no Teatro Gil Vicente na Exposição Colonial do Porto, com um vestido de António Amorim tendo ao colo o miúdo guineense Augusto. Foto Domingos Alvão, Porto Museu Nacional do Teatro".
Trabalho de Almada Negreiros alusivo à exposição do Porto
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Nota do editor

Último post da série de 19 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27650: Notas de leitura (1887): "Soldadó", de Carlos Vale Ferraz; Editorial Notícias, 1997 (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27656: Historiografia da presença portuguesa em África (513): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1957 (71) (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 7 de Julho de 2025:

Queridos amigos,
Guardo da leitura que fiz ao Boletim Oficial de 1957 a ideia de que toda a legislação do Ministério do Ultramar, com ou sem incidência na Guiné, é dada à estampa no Boletim Oficial, cresce o número de funcionários públicos, naturalmente exigência dos próprios serviços; procura-se a resolução para as queixas da pouca qualidade dos produtos de exportação, particularmente do amendoim e do coconote, as carreiras de transportes de passageiros também crescem, há medidas do Estado Social em desenvolvimento, é o caso da assistência farmacêutica, a indústria de serrações é uma realidade. Busca-se alguma notícia de tensões, atos hostis à presença portuguesa, não há nada, ponto curioso é encontrar nomes de funcionários como Aristides Pereira ou Otto Schacht, futuros membros do PAIGC.

Um abraço do
Mário



Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Guiné, 1957 (71)


Mário Beja Santos

1957 confirma que o Boletim Oficial é agora um misto de legislação que vem de Lisboa, muita dela terá projeção na vida da província e assistimos ao desfilar dos trâmites administrativos, que tanto podem ser os correios nas províncias ultramarinas, a concessão de créditos, a execução de serviços, a regulamentação da utilização das viaturas automóveis do Estado, avisos para fornecimentos públicos com propostas em cartas fechadas, nomeações e transferências na permanente rubrica do “movimento do pessoal”, a catadupa de acórdãos, a cobrança de taxas de aterragem no Aeroporto Internacional de Bissau, concursos de material para o Instituto - Liceu Honório Pereira Barreto, o regulamento para a execução do serviço de vales e ordens postais nas províncias ultramarinas e, enfim, o reforço de verbas numa multiplicidade de serviços; obviamente, temos muito mais assuntos. Mas há um conjunto de novidades que apraz registar.

No Boletim Oficial n.º 23, de 8 de agosto, fala-se concretamente na indústria de serração, o Governador pretende ver clarificada a identificação da indústria, e daí o diploma legislativo n.º 1653, refere que anterior diploma legislativo, com data de setembro de 1951, não previra que pudesse ser industrializada em qualquer local da província a madeira abatida em outras concessões que o requerente possua noutros locais da província. Entende-se que tal facilidade em nada afeta a economia da província e por isso se deixa explícito que quando um concessionário já tenha montada ou pretenda montar uma instalação de serração mecânica, deverá requerer ao Governador, indicando, no primeiro caso o local da serração que já possui, juntando, no segundo caso os documentos constantes na legislação de setembro de 1951.


No Boletim Oficial n.º 24, de 15 de junho, estabelecem-se as condições de exportação das oleaginosas para a metrópole e estrangeiro, definindo-se os preços para o amendoim, coconote e óleo de palma. Neste mesmo Boletim Oficial ficamos a saber que se está a vulgarizar o transporte de passageiros por dois editais da Repartição Provincial dos Serviços de Obras Públicas, Portos e Transportes. Manuel Saad, concessionário de carreiras regulares de transportes, requereu o estabelecimento de uma carreira provisória semanal para o transporte de passageiros entre Bissau e Porto de Bambadinca, passando por Safim, Nhacra, Mansoa, Porto Gole, Enxalé e Mato de Cão; Armindo Gregório Ferreira requereu o estabelecimento de uma carreira provisória para o transporte de passageiros entre Cadique e S. João, passando por Bedanda e Catió. Obviamente que nestes avisos se convidavam as pessoas a manifestarem-se sobre a concessão de tais carreiras.

O Boletim Oficial n.º 31, de 3 de agosto, reproduz a lei orgânica do Ministério do Ultramar em cujo artigo 81 se refere O Arquivo Histórico Ultramarino e as suas competências (atenção, este Arquivo Histórico já tinha sido criado em 1981). Mas é importante relembrar que no artigo 83 se diz que são obrigatoriamente incluídos no Arquivo os documentos manuscritos de relevante interesse histórico até final do século XIX que pertençam ao Ministério do Ultramar, organismos seus dependentes e Governos Ultramarinos, o mesmo acontecendo com mapas, cartas, plantas, roteiros, guias, mapas náuticos ou outros documentos portugueses de natureza cartográfica.

No Boletim Oficial n.º 45, de 9 de novembro, tomam-se medidas para valorizar a qualidade da mancarra e do coconote, dizendo-se expressamente que têm sido tomadas nos últimos anos muitas medidas no sentido de valorizar os produtos de exportação, mas com poucos resultados, continuando a sair para os mercados externos produtos com elevadas percentagens de impurezas, o que traz prejuízo para a economia da província, para o indígena e para o exportador. Por este diploma legislativo n.º 1662 o Governador determina que as autoridades administrativas tomarão as providências necessárias no sentido de os indígenas procederem a limpeza prévia da mancarra e coconote, os compradores possuirão mecanismos para eliminar as impurezas, e segue-se um conjunto de requisitos onde não faltam análises e a respetiva fiscalização das operações de limpeza.

As medidas de carácter social continuam a avançar. No Boletim Oficial n.º 48, de 30 de novembro, dá-se a saber que têm direito a assistência farmacêutica prestada nas farmácias e nas ambulâncias do Estado, mediante a apresentação de receita passada pelos médicos dos Serviços de Saúde e Higiene, todos os funcionários públicos civis e militares em ativo serviço, têm igualmente direito a assistência farmacêutica prestada gratuitamente nas farmácias, os indígenas, os que estejam em extrema necessidade económica, o pessoal missionário, presidiários, etc. Define-se o que se entende por assistência farmacêutica e regulamenta-se o acesso destes contemplados à assistência farmacêutica.

No Boletim Oficial n.º 8, de 23 de fevereiro, consta outra medida que é mais do que uma curiosidade, veja-se o teor do diploma legislativo n.º 1643. O Encarregado da Prefeitura Apostólica enviara ao Governador uma exposição fundamentada, tendente a isentar de licença de uso e porte de arma caçadeira cada uma das Missões Católicas, o que tem a ver com as circunstâncias pessoais de isolamento em que aqueles elementos civilizadores trabalham no mato. E assim se determina que a cada uma das Missões Católicas é concedido o direito gratuito à licença de uso e porte de arma de caça legalmente adquirida.

E para concluir, atenda-se ao que consta no Boletim Oficial n.º 18, de 4 de maio, o teor da Portaria n.º 847, prende-se com a necessidade de melhorar a fiscalização de venda e circulação de arroz, e bem assim de entrada e saída de mercadorias em geral. Para melhorar esta eficiência de fiscalização devem ser constituídas brigadas postas pelo Governo à disposição da PIDE e constituída por pessoal requisitado aos serviços públicos da província. Competirá a estes agentes das brigadas de fiscalização a repressão de delitos, estes agentes, quando presenciarem qualquer infração, lavrarão o competente alto de notícia que será enviado ao Juiz da Comarca; A Inspeção do Comércio Geral fornecerá à PIDE todos os elementos que lhe forem solicitados.

No próximo ano temos novo Presidente da República e novo Governador, será o Capitão-Tenente Peixoto Correia.
Governador Silva Tavares foi assistir às festas da Independência da Costa do Ouro em 27 de fevereiro de 1957
Dançarino Bijagó
O Governador Silva Tavares observa uma fonte em Safim mandada fazer pelo Comandante Sarmento Rodrigues
Balanta a lavrar com o seu "arado"
Baile manjaco - (Pandim) (Costa de Baixo) Circunscrição Civil de Cacheu
O Administrador António Carreira, Presidente da União Nacional quando discursava
Fula a cavalo

Estas imagens foram retiradas do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, 1957.

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 14 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27634: Historiografia da presença portuguesa em África (512): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1956 (70) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27650: Notas de leitura (1887): "Soldadó", de Carlos Vale Ferraz; Editorial Notícias, 1997 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 29 de Julho de 2025:

Queridos amigos,
Nunca entendi este discreto silêncio dos editores de Carlos Vale Ferraz face a esta extraordinária narrativa publicada em 1997 pela Editorial Notícias. É uma tragicomédia como não há outra na literatura da guerra colonial, numa atmosfera que prima pelo grotesco, onde sobressai a teatralidade de figuras únicas desta literatura, um recém-comandante chegado a um temível destacamento de guerra, analisa-se o processo que poderá levar à condecoração de um soldado básico multifuncional, de cangalheiro a fiel de armazém e guarda-costas de prostitutas, assomam o Capitão Gorgulho, veio castigado, o Majorué, o oficial de Operações mais divertido de toda esta literatura, um Segundo-Comandante pouco dado à inteligência, o anarca Capitão Baltazar, um Capelão cheio de latinório, mas com muitas culpas no cartório quanto a sexo escondido e respetivas doenças. Soldadó merecia sair da sombra e voltar ao nosso convívio, aquela instituição militar já não existe e muito bem podia ter acontecido naquela guerra colonial o que aqui se conta com a verve de humor que nos faz rir a bandeiras despregadas.

Um abraço do
Mário



Soldadó, uma das obras mais belas de Carlos Vale Ferraz

Mário Beja Santos

Dedicado “Aos que gostam de mim”, a obra Soldadó, de Carlos Vale Ferraz foi publicada em 1997 pela Editorial Notícias. Penitencio-me de ter sido avaro na recensão dediquei a esta mirabolante, herética e apoplética narrativa. Sou levado a concluir que ler o livro para fazer a recensão tem a nobre exigência de a ele voltarmos com a memória arrefecida, é este um desses flagrantes casos em que se retoma a leitura, surgem revérberos caleidoscópios, novos ângulos, outro sentido das frases, uma maior subtileza para as mensagens que correm na estrada principal. Soldadó não era o livro humorístico, do bota-abaixo, de corrosivas caricaturas da instituição militar. Bem vistas as coisas, este soldado bronco, de obediência e fidelidade caninas, o mais improvável dos heróis, toda aquela atmosfera teatral em que vai decorrer a inquirição que poderá permitir a condecoração do Soldadó, revela o talento e a verve cáustica do escritor que põe em causa os consagrados valores da guerra colonial perfilhados pelo Estado Novo. Vamos aos factos.

Ele chama-se Fergusino do Ó, vem de um lugar ermo do Nordeste Transmontano, descoberto pela GNR quando andou a percorrer itinerários para o censo de 1960. Não é atirador Infante, cavaleiro ou artilheiro, é um soldado básico, pau para toda a obra, suficientemente ajustável para agir como cangalheiro, sacristão, fiel de armazém, projecionista de filmes pornográficos, guarda-costas daquelas meninas que vêm episodicamente minorar a vida agreste dos militares em Mueleka (será Mueda?).

Iremos conhecer a sua história tudo contado em ambiente fechado onde protagonizam figuras ímpares da literatura da guerra colonial: o recém-chegado Comandante, um vigoroso Tenente-Coronel de Infantaria a quem o cabelo cortado à americana, rapado dos lados nivelado no topo com qualquer máquina da família dos aparadores de relva, assemelhava a um boxeur retirado dos ringues; o Segundo-Comandante, um major pacato e gorducho, responsável pelos assuntos administrativos, cujo verdadeiro nome ninguém sabia e a quem todos tratavam por Segundo, o nosso Segundo, uma criatura apagada, de estômago atazanado por uma úlcera, sujeitando-se a uma dieta rigorosa, tinha fama de pouco dotado de inteligência; o narrador das diligências sobre a vida e obra do Soldadó, o Capitão Gorgulho, um inofensivo professor primário, de pernas curtas, braços compridos e peludos, viera punido para Mueleka, mas não parecia nada incomodado com a punição que o retirara do honroso posto à frente de tropas em campanha; a inesquecível figura do major de Operações, Majorué, um primor nos dichotes, nos comentários com vitriolo, ninguém lhe leva a palma. Outros surgirão, como o Capelão e o Alferes do Pelotão de Intendência.

Que pretende contar o Capitão Gorgulho de tudo quanto se sabe sobre o Soldadó? Veio de Cabeça Seca, quando chegou ao Regimento de Infantaria 13, havendo falta de espaço das casas quadriculadas dos mapas de registo passou a ser Soldado do Ó e depois Soldadó. À primeira vista, parecia destinado a ser atirador, o pior foi quando lhe puseram uma arma nas mãos, andou hilariante a disparar rajadas, todos se puseram de acordo que ele devia ser afastado do convívio com as armas de fogo, foi reclassificado como soldado básico. Veio a convocatória para a guerra, o assunto parecia tê-lo deixado indiferente. Também se faz uma reflexão sobre a tentativa de civilizar aquela gente de Cabeça Seca, enviou-se um padre, um bom homem que não foi bem-sucedido nas intempestivas discussões com o feiticeiro da terra, no fundo as gentes de Cabeça Seca tomavam como mau agoiro a presença de estranhos no seu seio.

E também se conta o cerimonial da partida do contingente militar no cais de Alcântara, vale a pena tomar nota do que escreve o autor:
“A magalagem pendurada nos bordos do Niassa era mais que moscas em boca de cão morto e cá em baixo juntava-se uma multidão de paisanos maior que um tapete de formigas carregadeiras dentro de um açucareiro. Acenavam desesperadamente aos militares embarcados e estes respondiam desensofridos, como se tivessem esquecido alguma coisa muito importante em terra, saltavam e guinchavam, demonstrando uma incompreensível raiva de condenados, ali conduzidos presos por uma corda.”


O recém-chegado comandante vai de assombro em assombro, faz perguntas aos outros oficiais, recebe respostas calmas e aparentemente sustentáveis. É nisto que bate à porta um Capitão, o Capitão Baltazar, fala-se do trabalho do Soldadó na sua atividade de cangalheiro. O Capitão Baltazar solta um prolongado uivo, o Majorué anuncia que ele está apanhado pelo clima, o comandante anda lívido com todos estes disparates que presencia.

O Segundo-Comandante elogia as atividades do Soldadó como cangalheiro:
“A princípio custara-lhe um pouco desenrascar-se, porque os corpos apareciam todos desengonçados das minas e outros vinham já muito rijos e era preciso dobrar-lhes os membros à força, mas com boa vontade tudo se resolvia. Ultimamente até os lavava para limpar o sangue e a pólvora, preferia os mortos pequeninos, para caberem nas urnas logo à primeira e de cara composta. No cemitério, enterrou dois mortos de cova, em beliche, para poupar espaço e trabalho.”


Entra em cena o Alferes do Pelotão de Intendência, era o responsável pelo Soldadó. Estamos já em Mueleka, foram contadas todas as peripécias da viagem, é nisto que o Majorué se revela desabrido com o Capelão e denuncia-o pelas suas piruetas sexuais, deixa o Capelão encavacado. O Alferes continua a sua apreciação das atividades do Soldadó, era doido por guardar armamento, incapaz de desperdícios, recolhia dos falecidos ouro e prata, notas e moedas. E, imprevistamente, acontece o seu feito heroico, o Comandante Militar e a sua comitiva vieram visitar Mueleka, é durante a visita que acontece um vendaval de fogo, prontamente o Soldadó, a peito descoberto, despejou os carregadores da espingarda, mais as fitas disponíveis na metralhadora, contra a orla da mata à sua frente, só parou depois de ter sido ferido por um estilhaço, o Soldadó será o único ferido daquela estranhíssima refrega, o General entendeu que se devia fazer o reconhecimento, a sua comitiva estava ansiosa por partir, ninguém gostara daquele inesperado tiroteio, e o recém-chegado Comandante fica ainda mais atónito quando se descobre que todo aquele foguetório tinha sido operação montada dentro de Mueleka.

O Alferes da Intendência, encarregado de organizar o processo do Soldadó herói descobre um facto estarrecedor: o Soldadó está há quatro anos em Mueleka, mais uma história difícil de descalçar a bota.

Não é nada conveniente contar como tudo acabou, quem faz recensões não é desmancha prazeres, se houver mistificação e mentira em todo aquele feito heroico era necessário levá-lo a bom porto. Foi o que aconteceu, dentro de alguns anos o povo de Cabeça Seca erguerá um monumento a esse militar de sublime comportamento.

Se é verdade que falta a Soldadó a dimensão de Nó Cego, a obra-prima de Carlos Vale Ferraz, porventura a mais importante obra de toda a literatura da guerra colonial, reconheça-se que esta tragicomédia devia ser reeditada, é uma narrativa de arromba.
Carlos Vale Ferraz, pseudónimo literário do Coronel Carlos de Matos Gomes (1946-2025)
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Nota do editor

Último post da série de 16 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27639: Notas de leitura (1886): Notas soltas sobre a renovação do nacionalismo imperial português (Mário Beja Santos)

sábado, 17 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27643: Os nossos seres, saberes e lazeres (718): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (239): Uma viagem à Córdova árabe, a todos os títulos inesquecível - 6 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 29 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
Ando por aqui sempre com a sensação de uma visita de médico, a visita à Mesquita era ponto obrigatório, as escolhas subsequentes, caso do alcázar dos reis católicos, a judiaria, os museus, os bairros típicos, preferiu-se optar por um passeio descontraído depois da visita à Mesquita e reservar a manhã seguinte, antes de partir para Tavira, ao bairro de Santa Marina e visitar cuidadosamente o Palácio de Viana, uma casa senhorial com surpreendentes jardins. Tudo começou andando à volta da Mesquita, contemplou-se o Pátio das Laranjeiras e com roteiro na mão percorreram-se as sucessivas etapas de construção entre os séculos VIII e X. Para surpresa do visitante há uma brochura em português que delineia o faseamento da construção, mostrando as sucessivas ampliações, as portas, tudo começando, como se procurou aqui mostrar na Mesquita fundacional de Abderramão I, que adota em planta um modelo basilical inspirado nas de Damasco e Jerusalém. Não deixa também de surpreender a reutilização de materiais onde não falta inspiração helenística, romana e visigoda. Pois vamos continuar.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (239):
Uma viagem à Córdova árabe, a todos os títulos inesquecível - 6

Mário Beja Santos

Córdova, durante o período do domínio romano, foi capital da Bética, uma das cidades mais importantes da Península Ibérica. Com a conquista árabe, converteu-se na cidade mais cosmopolita e refinada do ocidente. O legado romano foi enorme, em Córdova surgiram figuras de grande estatura como Séneca, o Retórico, e seu filho, o filósofo estoico e percetor de Nero, Séneca, bem como o poeta Lucano. Córdova foi conquistada em 711, os emires residiram na cidade desde 711. Em 755, Abderramão I, o único sobrevivente Omíada da matança ordenada pelos Abássidas, criou o Emirato independente, não reconhecendo a Bagdade mais do que a supremacia religiosa. No século IX, durante o reinado de Abderramão II haverá um grande florescimento cultural. Em 929, Abderramão III proclama o Califado de Córdova, com independência total. É um tempo de paz e prosperidade que favoreceu um esplendor cultural sem precedentes. Reina a tolerância religiosa permite às cultural judaica, cristã e muçulmana um convívio pacífico. Córdova torna-se na grande capital de todo o ocidente. A sua população chegou a superar os 250 mil habitantes, havia 3 mil mesquitas, uma infinidade de lojas e banhos, teve universidade, bibliotecas, edifícios sumptuosos.

No século XI deram-se intensas lutas internas que desembocaram na dissolução do Califado, surgiram os chamados Reinos de Taifas. Destacaram-se muitas personalidades neste período tanto no campo científico (caso da astronomia, matemáticas e medicina), como no filosófico, em que os nomes mais salientes foram o muçulmano Averróis, um comentador muçulmano da obra aristotélica, e o judeu Maimónides, filósofo e médico.

Em 1236, Fernando III, o Santo, reconquistou Córdova, mas a presença muçulmana tornou-se inextinguível, com destaque para a Mesquita, a cidade continua marcada por uma urbanização de cunho árabe.

A Mesquita-Catedral atrai todos os anos milhões de turistas, vêm procurar contemplar um monumento único no mundo. Sobre a basílica visigótica de São Vicente erigiu-se entre os séculos VIII e X a Mesquita tal como a conhecemos. Depois da Reconquista, os cristãos enxertaram uma catedral gótica, e daí o visitante contemplar um edifício tão heterogéneo, formado por dois oratórios completamente distintos.

Uma breve síntese das imagens que se seguem. Vou caminhando em direção à Mesquita, passo por duas belíssimas portas do lado direito e entro num edifício que hoje dá pelo nome de Palácio de Congressos e Exposições, antigo hospital.

Uma das entradas para a Mesquita-Catedral de Córdova, Património da Humanidade desde 1984, a sua construção original começou em 784 d.C., tinha na base uma basílica visigótica.
A imagem mostra uma estátua de Dom Quixote sentado numa pilha de livros, localizada no pátio do Palácio de Congressos de Córdova.
Retábulo da capela do antigo hospital de São Sebastião em Córdova, a capela foi concluída em 1516, atualmente, o edifício do antigo hospital funciona como o Palácio de Congressos e Exposições de Córdova.
A imagem mostra uma porta de entrada arqueada para a Mesquita-Catedral de Córdova, apresenta uma mistura única de estilos arquitetónicos islâmicos e cristãos, refletindo a sua história de conversão de mesquita para catedral.
Já estou no interior desta obra-prima da arte muçulmana, a sua planta responde ao esquema tradicional da Mesquita árabe que tem a sua origem na casa do profeta Maomé em Medina: um recinto retangular fechado, um pátio de abluções, a sala de orações e um minarete. Abderramão I iniciou a construção da Mesquita com 11 naves que se abrem ao Pátio das Laranjeiras. Na sua construção utilizaram-se colunas de mármore e capitéis de edifícios romanos e visigóticos. Com o objetivo de elevar o conjunto recorreu-se à sobreposição de dois pisos de arcos, dispondo-se as colunas com um segundo piso com pilares, solução de grande originalidade Abderramão II fez a primeira ampliação, Al-hakam II voltou a ampliar e construiu o Mihrab (é um nicho em arco ou reentrância na parede de uma mesquita que indica a Qibla, isto é, a direção de Meca). Por último, Almansor acrescentou 8 naves paralelas às primeiras (reconhecem-se porque o pavimento é de cor vermelha, deu-lhe as dimensões definitivas.

Estou no Pátio das Laranjeiras, tem este nome devido às laranjeiras plantadas pelos cristãos depois da Reconquista. Os muçulmanos antes de iniciar as suas orações deviam realizar abluções na fonte do pátio. Vejamos agora o Minarete, o ponto alto destinado ao chamamento para a oração. Abderramão III foi quem ordenou a construção do minarete monumental de 47 metros, o que testemunha a grandeza do autoproclamado Califa. Foi modelo para a construção posterior de famosos minaretes, como os de Sevilha, Marraquexe e Rabat. Embutido na torre do campanário, pode ver-se a sua estrutura e decoração no interior.

Em 1589, um terramoto afetou gravemente a estabilidade do minarete a que se havia acrescentado um corpo superior de campanário. No Pátio das Laranjeiras pode observar-se o que terá sido o primitivo minarete.
Começa aqui o espetáculo surpreendente, contraste entre os elementos cristãos e o bosque de colunas e árvores. Logo chamo a atenção a cor e as sombras, a formosura dos arcos em ferradura (herança visigótica) apresentam uma alternância de aduelas vermelhas e brancas. Esta bicromia enriquece com as tonalidades dos fustes das colunas em que predominam os tons acinzentados e róseos.
Inicia-se a visita pela zona mais antiga da construção, passamos pela nave central da primeira Mesquita e ainda não se consegue ver o mihrab. As naves correm perpendiculares ao muro da quibla é nesta direção que se orienta o muçulmano a rezar, é o muro voltado para Meca. Não deixa de surpreender a magnificência da decoração onde não existe a figura humana, devido aos preceitos religiosos muçulmanos, daí os artistas terem desenvolvido ao máximo os elementos decorativos de inspiração vegetal ao geométrica.
Numa zona reservada a peças soltas de inestimável valor, destaquei uma placa de pedra esculpida com um padrão de rosetas e círculos entrelaçados.
O teto de caixotões de madeira restaurado na imagem é do interior da Mesquita-Catedral de Córdova, apresenta intrincados padrões geométricos e caligráficos, típicos da arte islâmica e mourisca.
Uma fascinante mistura de arquitetura mourisca e elementos cristãos, como se pode ver na rosácea.

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 10 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27623: Os nossos seres, saberes e lazeres (717): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (238): Ver a Alhambra por um canudo, visitar o Palácio de Carlos V e partir para Córdova - 5 (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27639: Notas de leitura (1886): Notas soltas sobre a renovação do nacionalismo imperial português (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 26 de Novembro de 2025:

Queridos amigos,
Muito se tem falado sobre esta I Exposição Colonial, acabou por funcionar como o ensaio geral da Exposição do Mundo Português, pelo meio ainda se fez uma exposição no Parque Eduardo VII, nova exibição de matérias-primas e de atração aos investimentos e convocação de mão-de-obra. O evento constituiu uma declaração ideológica, Portugal assumia a sua missão civilizadora , tocava a rebate para mobilizar as almas, exaltava-se o espírito missionário, a propaganda tudo fez para mostrar que "Portugal não era um país pequeno". Ponto curioso, a presença guineense mereceu primeiro destaque, faziam-se excursões para ir ver as Bijagós em tronco nu, todo aquele exotismo encantava gente de todas as idades. O régulo Mamadu Sissé mereceu todas as honras, na pintura, na fotografia de Domingos Alvão, nos desenhos de Eduardo Malta, era a dimensão da pose de um soberano, destemido e profundamente fiel à bandeira portuguesa.

Um abraço do
Mário



Notas soltas sobre a renovação do nacionalismo imperial português

Mário Beja Santos

A I Exposição Colonial, que se realizou no Porto, em 1934, põe em prática os princípios ideológicos e programáticos do Acto Colonial de 1930, promulgado ainda durante a Ditadura Nacional, e que consagrou doutrina aceite na Monarquia Constitucional e I República, isto é, alterada a nossa presença em três continentes depois da Revolução de 1640 e com a separação do Brasil, o poder político manteve uma ideia imperial e um espírito de missão. Acresce que as decisões tomadas na Conferência de Berlim implicaram o envio de tropas, a procura de subordinação das chefaturas africanas, a atração de investimentos; a I República arrepiou caminho quanto aos critérios de missionação e ensaiou a descentralização política com a criação de altos-comissários. Salazar pôs a sua assinatura no Acto Colonial, ficou claro a subordinação das colónias aos interesses da metrópole, definiu-se a nação no desempenho da função histórica de possuir e colonizar domínios ultramarinos e de civilizar as populações indígenas; apagou-se a autonomia financeira e administrativa das colónias, estabelecendo-se critérios de rigor financeiro; com as devidas cautelas, as companhias privadas, muitas delas internacionais, perderam poderes soberanos, irá sendo a sua presença gradualmente vigiada, e no caso da Guiné serão substituídas por empresas que interessavam ao Estado fornecer matérias-primas à metrópole, será assim com a Casa Gouveia (dependente da CUF) e a Sociedade Comercial Ultramarina (associada ao Banco Nacional Ultramarino).

Em termos históricos, a Exposição Colonial do Porto deixa transparecer a renovação ideológica preconizada pelo Estado Novo. Nesta obra aqui referida, há um texto altamente sugestivo assinado por Francisco Vieira Machado, então do Governo, e mais tarde a figura de proa do Banco Nacional Ultramarino. O texto que ele deixa publicado intitula-se No Rumo do III Império:
“Há através da história de Portugal uma Ideia, ou antes, um ideal, que decerto enraíza na própria essência da alma e do carácter dos portugueses, tal é o rigor que se forma e a persistência com que renasce: o ideal da formação dos Impérios.

Esboçado e vago na organização do Infante, mais preciso sob a preciosa vontade de D. João II, ganha a primeira expressão real e perfeitamente enformada com Afonso de Albuquerque. E o primeiro esforço imperial da parte portuguesa despende-se no sonho de formação de um grande Império Asiático com guardas vigilantes em Áden, Ormuz e Malaca. Desfeito com a morte do grande político e guerreiro o plano tão audaz e inteligentemente iniciado, logo outro grande português – e esse tão desconhecido, tão caluniado, tão incompreendido por mais de três séculos de História: D. João III! – nos lança para a formação do Império Sul Africano. E do novo sonho, do novo rumo que o Ideal português procura, nasce esse portentoso Brasil, descoberto, colonizado, povoado e engrandecido por gente portuguesa.

Num vale escuro da História, invadidos nas organizações políticas e nas almas, pela ideologia de 1789, alheados do sentido da nossa grandeza e da nossa missão pelo falso esplendor de novas ideias, perdemos o Brasil e o rumo imperial da nossa nação nas Colónias.
Passam-se longas dezenas de anos – quase um século.
Uma geração de escol, que em si guardava as mais ricas virtudes de Portugal, levanta de novo a ideia colonial, lança-se para África, ocupa, pacifica e refaz e fixa as novas fronteiras imperiais.
Depois deles outros seguiram o seu esforço heroico.
E novamente o sonho do Império – desta vez o Império africano – ganha forma e encontra o velho Ideal português.
Estamos novamente no caminho do Império.”


Henrique Galvão foi mais do que o organizador da I Exposição Colonial, coube-lhe a ação de sensibilização da elite portuense para tirar partido de se ter escolhido o Porto para mostrar as gentes e as riquezas do Império. Dirá no decurso da sua exposição a estas elites que “Portugal é a quarta potência colonial do mundo, com um passado cheio de tradições, de aventura, arrojo e abnegação. Detém ainda, sob a sua soberania, vastos territórios de um património colossal.” Chama a atenção que embora em redor da Exposição Colonial tenha sido feita uma campanha de propaganda intensa, ao longo de dez meses, procurando esclarecer e despertar atenções, havia muito ainda para revelar: o que se pretendia com o certame, sabendo de antemão que a maioria das pessoas que o iriam visitar, vinham acicatados pela curiosidade, impunha-se aproveitar a oportunidade para fazer conferências, mostrar as riquezas coloniais, atrair gentes para irem até às colónias.

A Agência-Geral das Colónias, por seu turno, iria produzir documentação sobre os bravos militares, episódios da história da colonização, falar da nossa presença em todas as colónias. O objetivo primordial era formar as elites do regime e tendencialmente os investidores.

A Exposição foi um êxito e, ponto curioso, mais do que marcar presença, o que se mostrou da Guiné foi o que mais se guardou na memória e na imagem.

Henrique Galvão explica à elite comercial portuense os objetivos da I Exposição Colonial
Régulo Mamadu Sissé, um dos operacionais do Capitão Teixeira Pinto, fotografia de Domingos Alvão
Indígenas Bijagós numa das suas pirogas. Fotografia de Domingos Alvão
Um áspeto da aldeia lacustre dos Bijagós, fotografia de Domingos Alvão
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Nota do editor

Último post da série de 12 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27630: Notas de leitura (1885): "Os Có Boys (Nos Trilhos da Memória)", de Luís da Cruz Ferreira, ex-1º cabo aux enf, 2ª C/BART 6521/72 (Có, 1972/74) - Parte VIII: um quartel no coração chão mancanha (Luís Graça)

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27634: Historiografia da presença portuguesa em África (512): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1956 (70) (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 30 de Junho de 2025:

Queridos amigos,
Estes útlimos meses da governação de Diogo de Mello e Alvim processam-se num quadro de uma total normalidade administrativa. O seu antecessor, Raimundo Serrão, sonhara com um colégio-liceu, agora cria-se um Instituto Liceal com o nome de Honório Barreto, ficará assim crismado até ao fim da presença colonial. Há arranjos organizacionais da PIDE também para o Ultramar, e ficaremos a conhecer o efetivo da Guiné; tudo levava a crer que iríamos ter uma indústria de artigos de borracha sobre a égide da Cobornel; irão ser definidas pensões de invalidez para cipaios e intérpretes com mais de 20 anos de serviço, por motivos de doença incurável ou avançada idade; o antigo régulo de Sam Corlá (posto administrativo de Contuboel), tinha sido preso e amnistiado em 1947, fazia-se agora rogado para voltar a ocupar o seu lugar, o Encarregado do Governo considerava que era princípio em direito que indivíduo destituído de um cargo pela prática de atos desonestos não devia voltar a ocupá-lo; definem-se igualmente bolsas de estudo e disciplina urbanística, no plano dos princípios era exigida pelo menos para Bissau. Vai agora começar a governação de Silva Tavares que já estivera na Guiné como delegado do Procurador-Geral da República.

Um abraço do
Mário



Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Guiné, 1956 (70)


Mário Beja Santos

É o último ano da governação de Diogo de Mello e Alvim, tudo decorre na mais completa das normalidades. No Boletim Oficial n.º 2, de 12 de janeiro, o governador emite Portaria em que considera que a designação de Colégio-Liceu de Bissau não é correta, a que mais se ajusta ao espírito do estabelecimento de ensino é de Instituto Liceal, convindo enriquecê-la com o nome de uma prestigiosa figura do passado, a escolha recaiu em Honório Pereira Barreto, filho da província e seu antigo governador, daí o nome Instituto Liceal Honório Barreto, todos os anos, em 24 de abril, data de nascimento deste patriota guineense haverá festejos para se apontar à mocidade o exemplo de uma vida inteiramente devotada à integridade territorial da Guiné. No Boletim Oficial n.º 3, de 19 de janeiro, publica-se a Portaria n.º 15568 do Gabinete do Ministro do Ultramar, tem a ver com o Centro de Estudos de Cartografia e Geografia Colonial, que irá passar a denominar-se Centro de Geografia do Ultramar, com competências para promover ou realizar, entre outros, estudos de geodesia e hidrografia, geofísica, geografia física e humana, etc.

No Boletim Oficial n.º 10, de 8 de março, é deferido o pedido da Corbonel – Companhia da Borracha da Guiné, Lda., para montar na cidade de Bissau uma oficina de fabrico de calçado e de todos os artefactos de borracha, à exceção de pneus. No Boletim Oficial n.º 16, de 19 de abril, publica-se o Decreto-Lei n.º 40541, introduzindo alterações no funcionamento dos quadros da PIDE, podemos ver o seu efetivo na Guiné, publicado no mesmo Boletim Oficial. Em 4 de agosto, no Boletim Oficial n.º 31 temos o texto da Portaria n.º 772, que vem assinada pelo Encarregado do Governo, Abel de Sousa Moutinho, confiro-lhe a relevância suficiente para transcrever o essencial:
“O território de Sam Corlá, da área do Posto Administrativo de Contuboel, com predomínio de indígenas da tribo Mandinga que se computa em dois terços da sua população, tem estado sob a chefia de um regedor indígena da tribo Fula-Forro e julga-se que este facto é uma das razões de constantes dissidências que nele se vêm verificando.
Assim, mostra-se realmente necessário, para a normalização da política indígena e facilidade de atuação da autoridade administrativa, que o referido território deixe de estar sob a chefia de um único regedor. Considerando que se nota ali uma perfeita delimitação das zonas de fixação das tribos Mandinga e Fula-Forro, tendo em vista a doutrina do Estatuto dos Indígenas Portugueses, o território de Sam Corlá passará a constituir duas regedorias indígenas, uma compreendendo as povoações onde se verifica predomínio de indígenas da tribo Mandinga e a outra englobando as povoações em que há predomínio de indígenas da tribo Fula-Forro. Para a chefia de cada uma das regedorias a que se está a fazer referência só poderá ser nomeado regedor indígena da respetiva tribo predominante, a nomeação dos regedores fica a cargo do administrador do concelho de Bafatá.”


No Boletim Oficial n.º 31, de 4 de agosto, faz-se referência ao despacho em que o indígena Sambel Coio Baldé, quando régulo da região de Sam Corlá fora condenado a prisão pela prática de vários crimes e a sua atuação como autoridade gentílica revelara-se extremamente inconveniente, por isso fora destituído. Entretanto, aquando da visita do Subsecretário de Estado do Ultramar à Guiné em 1947, concedera-se amnistia a certos delitos, Sambel Baldé obtivera indulto do resto da pena que então lhe faltava cumprir, fora autorizado a regressar ao mesmo regulado e pretendia agora reintegrado no seu antigo cargo. O Encarregado do Governo considerava que o individuo destituído do cargo pela prática de atos desonestos, acrescendo que causara naquele regulado perturbações que poderiam acentuar-se com a pretensão de ser reposto no lugar de régulo. E assim era decidido fixar-lhe residência na Ilha Formosa e interdita a todo o tempo a entrada e permanência no concelho de Bafatá.

No Boletim Oficial n.º 32, de 11 de agosto, publica-se o Diploma Legislativo n.º 1632 que se prende com a concessão de bolsas de estudo. Passam a ser instituídas anualmente duas bolsas de estudo destinadas a beneficiar estudantes naturais da província que tendo concluído o 2.º ciclo dos liceus ou qualquer curso técnico ou do magistério primário na Guiné com classificação final não inferior a 14 valores e que pretendam continuar os seus estudos na metrópole em estabelecimento de ensino competente. As bolsas instituídas por este diploma acompanharão os seus beneficiários ao longo dos seus estudos. As quantias das bolsas criadas serão de 12 mil escudos para estudantes do 3.º ciclo liceal, 14 mil estudos para estudantes dos cursos médios e 16.800 escudos para estudantes dos cursos superiores.

No Boletim Oficial n.º 32, 2.º Suplemento, de 14 de agosto, são criadas as pensões de invalidez para assalariados indígenas que prestem serviços nos concelhos e circunscrições – cipaios e intérpretes – em identidade de circunstâncias com os assalariados indígenas dos vários serviços públicos da província. Passa a ser concedido aos assalariados indígenas, cipaios e intérpretes, com mais de vinte anos de serviço permanente prestado aos concelhos e circunscrições, o direito ao recebimento de uma pensão de invalidez, quando por motivo de doença incurável ou avançada idade sejam dispensados do serviço.

O Boletim Oficial n.º 41, de 13 de outubro, versa a disciplina urbanística, já tinha sido apreciada em Conselho de Governo, tendo sido objeto de reticências por parte de todos os intervenientes, e tudo levava a crer que ficaria para muito mais tarde. Ora, pelo Decreto n.º 40742, emanado do gabinete do ministro do Ultramar, definia-se o enquadramento da disciplina urbanística nos seguintes termos:
“O rápido crescimento de numerosos núcleos populacionais do Ultramar exige solícita atenção e permanente vigilância das autoridades responsáveis, que assegurem o oportuno planeamento da racional utilização dos espaços urbanos e a disciplina da construção. A tanto visa a elaboração de planos de urbanização, há anos em uso para as principais povoações das províncias ultramarinas, estudados e orientados através do Gabinete de Urbanização do Ultramar. Tendo-se verificado que os poderes facultados pela lei aos corpos administrativos lhes não permite responder pelo que nesta matéria se passa nas áreas de jurisdição, o que gera graves problemas urbanísticos e honorando pesadamente o futuro.

Urgindo evitar que se comprometa o futuro das povoações mais importantes, havendo que dar aos seus corpos administrativos a possibilidade de velar efetiva e oportunamente para que o desenvolvimento urbanístico se processe de acordo com os planos e normas aprovados.
Nestes termos, ficam sujeitas à disciplina urbanística as capitais das províncias ultramarinas e outras sedes de concelho ou povoações cuja situação ou importância o justifiquem"
.

Álvaro Rodrigues da Silva Tavares é o novo Governador da Guiné, chegou a Bissau em 14 de agosto de 1956
O novo Governador. Em 1961, apanhará em cheio os acontecimentos das insurreições em Angola, onde era Governador-geral
Felupes de Susana
Imagem retirada de um Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, ano de 1956
Imagem alusiva à visita do general Craveiro Lopes à Guiné, 1955, está rodeado à direita de Sarmento Rodrigues e à esquerda de Diogo de Mello e Alvim. Retirada de um Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, 1956
Bailarinos da Ilha de Maio
Imagem retirada de um Boletim Cultural da Guiné Portuguesa de 1956
Efetivos da PIDE na Guiné, um subinspetor da Polícia, um agente de 1ª classe e dois agentes de 2ª classe e auxiliares, 1956
Mulher saraculé
Imagem retirada de um Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, 1956

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 8 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27616: Historiografia da presença portuguesa em África (511): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1955 (69) (Mário Beja Santos)