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sábado, 9 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28004: Os nossos seres, saberes e lazeres (734): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (255): No Palácio Nacional de Queluz, para ver as obras de conservação e restauro - 2 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 20 de Abril de 2026:

Queridos amigos,
Quero lembrar os meus confrades que pelo menos aos domingos a visita é gratuita para todos e em todos os casos para os ex-combatentes, Palácio e Jardins. Procurei passar em revista os espaços essenciais merecedores de visita, numa amplitude onde procurei inserir o valor arquitetónico, escultórico, as belas artes, não escapando a valiosíssima coleção de cerâmica e porcelana, pondo ênfase nas obras de conservação e restauro da capela real; os jardins, em toda a sua escala, bem como as estufas reais, têm sido primorosamente alvo de conservação e restauro, é evidente que se irá gastar uma fortuna para melhorar a conservação do canal de azulejos, também ele objeto de extremos cuidados, mas o tempo foi inclemente. Dá gosto encontrar tão grande harmonia entre o Palácio Real e os formosos jardins.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (254):
No Palácio Nacional de Queluz, para ver as obras de conservação e restauro - 2


Mário Beja Santos

Continuamos a visita a este Palácio que não pode deixar de nos fascinar pelo que tem de imponência e exuberância nos seus detalhes arquitetónicos – muita majestade para suas majestades. Recordo que o Infante D. Pedro, senhor da Casa do Infantado, futuro Rei D. Pedro III (por casamento com D. Maria I) encarregou o arquiteto Mateus de Vicente de Oliveira de ampliar o que se chamava “Paço Velho”, tudo começara com a Casa de Campo de Queluz, as obras encomendadas por este Infante D. Pedro datam de 1747. Em 1760, com o anúncio do casamento de D. Pedro com a princesa D. Maria com o irmão do rei D. José, iniciam-se obras para transformar este local num espaço de lazer e entretenimento, foi assim que se rechearam sala de aparato como a Sala do Trono ou a Sala dos Embaixadores.

Incendiada a Real Barraca da Ajuda em 1794, o Palácio de Queluz tornou-se residência oficial da rainha D. Maria I, aqui vão também viver os príncipes regentes, D. João (futuro D. João VI) e D. Carlota Joaquina. O Palácio foi habitado em permanência até à partida da Família Real para o Brasil. No seu regresso, a habitação real é intermitente, D. Carlota Joaquina viverá aqui em regime de semiexílio (era declaradamente antiliberal) aqui morrerá D. Pedro IV, no quarto chamado D. Quixote, onde nascera. Recordo igualmente que este Palácio foi classificado Monumento Nacional em 1910 e que a partir de 1957 o pavilhão D. Maria I, ala nascente deste Palácio, passou a ter funções de residência dos Chefes de Estado estrangeiros em visita oficial a Portugal.

A gestão deste monumento pela Parques de Sintra tem sido muito bem sucedida em todos os seus projetos de conservação e restauro, nomeadamente pondo os jardins históricos numa ligação harmoniosa entre a paisagem e a arquitetura palaciana, sente-se perfeitamente essa harmonia passando dos jardins junto dos canais por onde passa a Ribeira do Jamor para o patamar superior, que prima por belos lagos e esculturas.

O Corredor dos Azulejos é também chamado Corredor das Mangas, numa alusão às mangas de vidro que protegiam as velas que se presume terem sido aqui guardadas.
Trata-se de uma sala revestida a azulejos, representando as estações do ano, os continentes, cenas da mitologia clássica, singeries (representações de cenas com macacos), chinoiseries e cenas de caça.

Pormenor da bela Sala dos Embaixadores
Cómoda-papeleira com alçado, Itália, Piemonte, cerca de 1740
Retrato do rei D. Pedro IV representado com o uniforme de Coronel do Batalhão de Caçadores n.º 5, que comandou durante a Guerra Civil Portuguesa.
O Canal de Azulejos, por onde passa a Ribeira do Jamor, tem uma extensão de 115 metros e atravessa os jardins de Queluz, de norte para sul.
Aqui erguia-se outrora a Casa do Lago, também chamada Casa Chinesa ou Casa da Música. Neste pequeno pavilhão tocavam, nas tardes de Verão, os músicos de câmara da Rainha, enquanto a Família Real e a corte se passeavam de barco sobre as águas tranquilas (represadas por um sistema de comportas), apreciando as paisagens fantasiosas dos grandes painéis de azulejos, concebidas a partir de gravuras, representando portos de mar e paisagens variadas.
À noite, ao longo do canal, acendiam-se archotes em forma de cornucópias de talha dourada.

Pormenor do Jardim da Barraca Rica. Esta barraca ficou concluída em 1757, hoje desaparecida, era o elemento central deste jardim, outrora prefusamente decorada com estatuária em chumbo. Construída em madeira, a Barraca Rica compunha-se de sete pequenas divisões revestidas de damasco, com espelhos, tremós e talha dourada. Nesta zona localizam-se hoje três dos mais notáveis grupos escultóricos em chumbo da oficina londrina John Cheere: Caim e Abel, Eneias e Anquises e o Rapto de Perséfone.
Caim e Abel
Esplendor da arquitetura e da escultura, jardinagem formosa, o topo da harmonia
Duas obras-primas do jardim do patamar superior, as esculturas de chumbo de John Cheere foram muito bem restauradas
O Jardim Botânico do Palácio Nacional de Queluz foi construído entre 1769 e 1780, sendo contemporâneo das grandes realizações setecentistas do período barroco-rococó nos Jardins de Queluz. De pequena escala, quando comparado com outros jardins botânicos desta época, Queluz assume uma natureza de entretenimento e recreio. Também designado Jardim das Estufas, este era o espaço onde no reinado de D. Pedro III se plantavam ananases, um dos frutos mais apreciados pela família real. Esta zona estava ornamentada com lagos, bustos e estatuária.
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Nota do editor

Último post da série de 2 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27981: Os nossos seres, saberes e lazeres (733): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (254): No Palácio Nacional de Queluz, para ver as obras de conservação e restauro - 1 (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28001: Notas de leitura (1920): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (1): I - À guisa de apresentação do ex-combatente e II - Foi assim que cheguei ao Cuor (Mário Beja Santos)

CONGRESSO INTERNACIONAL
DAS GUERRAS AO PÓS-25 DE ABRIL
Os Militares em Territórios em Conflito
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
De 2 a 4 de abril de 2025


A biografia de um combatente:
O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História

Mário Beja Santos

I - À guisa de apresentação do ex-combatente

Permitam que me apresente. Toda a minha vida profissional andou à volta do serviço público, nela incluo dois períodos em que tive ligação ao Exército: de abril de 1967 a agosto de 1970, em que me preparei e vivi na então Guiné Portuguesa, comandando tropa africana, caçadores nativos e milícias; no intuito de concluir as minhas habilitações universitárias, fiz um contrato com o Ministério do Exército, voltei a Mafra, à Escola Prática de Infantaria, dei recrutas a soldados cadetes, muitos deles partiram como oficiais para os teatros de operações da Guiné, Angola e Moçambique, colocado em Lisboa, tive condições de fazer o bacharelato e a licenciatura.

A minha vida profissional parecia destinada ao ensino, fui mesmo colocado num liceu para dar História de Arte, acabei no Ministério de Economia e passei quase quatro décadas ligado à política dos consumidores, por essa via fui autor e apresentador de programas televisivos e radiofónicos, tive uma prolongada participação cívica e associativa e pude colaborar na política a favor dos consumidores tanto em Portugal como a nível europeu.


Um acaso, um reencontro com um antigo camarada da Guiné, que tinha criado um blog, hoje sem qualquer dúvida o mais influente blog constituído por antigos combatentes da Guiné (Luís Graça & Camaradas da Guiné) levou-me e ainda em plena vida ativa a começar a escrever sobre a minha experiência, depois a investigar tanto a História da Guiné Portuguesa como a História da Guiné-Bissau. Em 2008, publiquei os dois volumes do meu diário, nunca mais parei, no ano passado publiquei o tomo I de Guiné, Bilhete de Identidade, tudo somado são mais de dez livros, uma imensa vontade de continuar, já tenho projetos de entrar em domínios que carecem ser desbravados, caso do Boletim Oficial da Guiné e começar a inventariar os olhares estrangeiros, sobretudo a partir do último quartel do século XIX até meados do século XX (diga-se em abono da verdade que há já um bom levantamento dos olhares estrangeiros sobre a Guiné nos tempos de luta armada, no que toca à investigação portuguesa continua a faltar um trabalho em profundidade sobre o período da governação do General Arnaldo Schulz (1964-1968). Direi mesmo que continua para mim a ser um mistério a falta de estudos sobre alguns intervenientes da guerra colonial, recordo, a título meramente exemplificativo, que não há nenhuma investigação sobre o relacionamento diplomático entre Portugal e Cuba, nos tempos da guerra colonial, Cuba tinha embaixada em Portugal enquanto dava apoio técnico-militar à Guiné e a Angola; o mesmo poderei dizer da cooperação entre Portugal e Israel, este país foi nosso fornecedor de armas e durante anos foi discreto apoiante da política externa do Estado Novo.

Estando feita a minha apresentação, passo para a guerra que vivi, depois ainda tenho algumas coisas a dizer sobre os meus retornos à Guiné, então já República da Guiné-Bissau, e pretendo dar-vos conta dos trabalhos de investigação e livros publicados aproximadamente há duas décadas.


II - Foi assim que cheguei ao Cuor

Cheguei à Guiné em 29 de julho de 1968, aqui vivi até aos inícios de agosto de 1970, fui colocado no início de agosto de 1968 no regulado do Cuor, no Centro-Leste do território, com responsabilidades em dois destacamentos: Finete, uma povoação com Mandingas e Balantas, vivendo a cerca de 4Km da margem direita do rio Geba, dispondo de uma fértil bolanha e bons terrenos agrícolas, encontrei um aquartelamento com escassa segurança e armamento diminuto, a força militar era o Pelotão de Milícias n.º 102, cerca de 40 homens, predominantemente Fulas e Mandingas; Missirá, a sensivelmente 16Km de Finete, com Mandingas e Fulas, residência do régulo, igualmente um aquartelamento com muitas vulnerabilidades, armamento inapropriado, com um largo histórico de flagelações, emboscadas e minas anticarro, a força militar era o Pelotão de Caçadores Nativos n.º 52, homens que tinham feito a sua instrução em Bolama em 1966, muitos deles provenientes de forças de milícias, e o Pelotão de Milícias n.º 101, a que se juntavam alguns elementos provenientes da Companhia de Comandos e Serviços do Batalhão de Artilharia 1904, em vésperas de partida, virá a ser substituído pelo Batalhão de Caçadores n.º 2852, chegará em setembro desse ano. Tenho que me deter sobre a minha chegada a locais onde viviam misturados militares e civis, rodeados de arame farpado, cultivando à volta a sua sobrevivência.

O embate foi terrível, a adaptação custosa, a iniciação para conhecer a envolvente foi-me facilitada por um furriel experiente, Zacarias Saiegh, que colaborará comigo alguns meses, irá pertencer à 1.ª Companhia de Comandos Africana, que se formou perto do meu território, em Fá. Logo me apercebi que havia obras inevitáveis a implementar, para as quais eu não tinha a mínima preparação, e também me fizeram sentir que faltavam os materiais necessários: rolos de arame farpado, estacas, tesouras corta-arame, isto no tocante à segurança básica da tropa ali instalada e da população civil; os abrigos estavam envelhecidos, o madeirame apodrecido e sem a devida cobertura de cimento; o balneário não possuía os requisitos para uma boa higiene, não havia sanitários, só umas valas para defecar e urinar; a chamada messe era um casinhoto em tijolo com uma simples cobertura de chapa ondulada, uma mesa e uns bancos mal amanhados, tendo ao lado uma cozinha, tudo num completo desconforto; conversando com os meus colaboradores, apurei que a criançada não dispunha de uma escola, ia-se ao médico ou à enfermaria de Bambadinca só em situações de força maior e não havia tradição da visita de médico, Missirá e Finete dispunham de um cabo maqueiro em cada uma das localidades.

Em Bambadinca, na véspera de eu partir para Missirá, portanto em 3 de agosto, o oficial de operações do batalhão deu-me nota dos aspetos primordiais da minha missão: acima de tudo, e com a regularidade necessária, devia montar segurança num local chamado Mato de Cão, a sensivelmente 12,5Km de Missirá, para garantir a navegabilidade no rio Geba, já que tinha deixado de ter uso o itinerário por terra Jugudul – Porto Gole – Enxalé – Cancumba/Missirá – Gambiel – Bafatá (também no norte não havia circulação por terra entre Mansabá e Bafatá); se não fosse mantida a circulação pelo rio Geba toda a região do Leste ficaria gravemente afetada. Eu ainda não tinha conhecimento do planeamento de uma instalação portuária na localidade de Xime, que passou a ser operacional a partir de outubro de 1969, e que veio permitir a todas as unidades de Leste circularem entre Bafatá e Xime em termos de abastecimento de víveres, equipamentos e armamentos, materiais de construção civil, transporte de militares e civis, etc.

Este era o trabalho irrecusável, não obstante eu devia não só patrulhar regularmente todo o território à minha guarda e procurar manter os guerrilheiros em respeito; em nenhuma circunstância me foi sugerido que demarcasse a área ocupada pelo destacamento militar da povoação civil. No entanto, virei a ser bastante criticado pelo então Brigadeiro Spínola que quando visitou Missirá, achou que eu já devia ter iniciado a área do destacamento militar da área civil (fiz orelhas moucas, considerei sempre inaceitável, ainda por cima vivendo com soldados africanos e suas famílias, e com acesso limitadíssimo a materiais de construção, entrar numa operação de demarcação onde não via qualquer tipo de utilidade, sabendo de antemão que não haveria compreensão nem de militares nem de civis, seria sempre entendida como uma operação de discriminação).


Sendo as idas a Mato de Cão o aspeto primordial da minha missão, procurei aperceber-me como viajar sempre a pé e acautelando emboscadas e minas antipessoal. Demorou meses a pôr em prática a seleção de sete itinerários diferentes, numa lógica de corta-mato, o que me compensou não termos tido baixas nem emboscadas, pedi mesmo aos elementos guineenses que divulgassem no mercado de Bambadinca (onde circulavam informadores do PAIGC) que as nossas idas a Mato de Cão tinham itinerários imprevisíveis, quer a partir de Missirá quer a partir de Finete.

Logo no dia seguinte à minha chegada comecei a fazer o reconhecimento do terreno, dois meses depois conhecia o essencial do regulado do Cuor à exceção dos acampamentos do PAIGC sitos em dois pontos no termo no regulado, Madina e Belel, destes dois pontos só lá fui em operações com o reforço de duas companhias, uma vez um desastre completo, outra vez com o resultado da destruição do acampamento de Belel.

Referi acima que houve choque no confronto de um terreno para o qual eu não possuía nenhuma informação, uma boa parte do meu efetivo militar ou só falava crioulo ou um português mascavado, cheguei mesmo a ter necessidade de me socorrer de um intérprete em todas as situações em que era crucial perceber o que pretendia o chefe da tabanca, cabos ou soldados que me vinham fazer pedidos da mais diferente índole, mas acima de tudo adiantamentos da soldada. Conversando com os meus colaboradores diretos, concluí que se devia fazer um documento expondo a situação da segurança militar, a necessidade de ter apoios em engenharia para melhorar ou mesmo criar de raiz abrigos para proteger militares e civis.

Foi nesse contexto que o cabo quarteleiro de Missirá me chamou a atenção que o material que tinha a carga havia faltas clamorosas, tinham desaparecido camas de ferro, colchões de espuma, capacetes, e muito mais, impunha-se fazer um auto de abate e entregá-lo na sede do batalhão. Quando quis tratar do assunto com o então comandante da companhia, ele informou-me que contava comigo para incorporar nas minhas faltas as dele, entretanto iria obsequiar-me com material em excesso, bom jeito nos deu meter nas canoas com que atravessávamos o Geba cadeiras, pratos, talheres e copos. Estava a descobrir o desenrascanço.


O PAIGC brindou-me com uma flagelação em 6 de setembro, perto da meia-noite. Houve resposta rápida, enérgica, incendiaram-se duas moranças e um soldado milícia acidentou-se com um tiro no pé. Entre Finete e Missirá, Madina e Belel, é uma terra de ninguém; uma terra de ninguém, em cenário de guerrilha e contraguerrilha, significa que ninguém possui o domínio do território, e se houver um encontro é para abater o outro, o chamado inimigo; quando ainda hoje leio e vejo escrito que o PAIGC dominava uma parte importantíssima do território, eram as terras libertadas, a propaganda dizia umas vezes que se tratava de metade outras vezes de dois terços do território, posso perceber o peso da mentira, para a guerrilha era fácil chegar a estes dois quartéis, iluminados à noite, eu entretanto podia percorrer cerca de quatro quintos do regulado com 25-30 homens, quanto muito ouvia tiros longínquos, em poucos meses tive o entendimento que guerrilheiros e civis do PAIGC cambavam (atravessavam) o rio Geba em duas direções, para se abastecerem, possivelmente colher informações, aproveitavam sobretudo a noite para transferir gente de um acampamento para o outro, na margem esquerda do Geba, acima do Xime, o PAIGC estava fortemente implantado, tinha um domínio que direi quase total no curso principal do rio Corubal, até à região do Xitole.

Chegou o novo batalhão, senti-me à vontade para apresentar com mais tempo e critério as exigências de apoio médico, professor, de material de engenharia, de minas e armadilhas, um morteiro 81, uma viatura, um barco a motor que me salvaguardasse o abastecimento na época das chuvas, estava informado do alagamento seja da bolanha de Finete seja de um percurso de cerca de 6Km a partir de Canturé até à região de Sansão, já perto de Missirá, o percurso ficava praticamente intransitável. Fui pedinchando, ganhei uma manhã para levar os doentes à consulta médica, apareceu dinheiro para pagar a um professor, pedi dois, não podia ter só um professor em Missirá e não ter em Finete, lá apareceu dinheiro para o segundo professor; um de cada vez, os cozinheiros de Missirá foram estagiar na messe de Bambadinca, o resultado foi positivo, o rancho melhorou, mesmo sendo monótono: arroz, esparguete, carne enlatada, uma completa ausência de frutas e legumes, embora pudéssemos comer fruta enlatada, o resto podiam ser as compras locais, gazela, porco do mato, papaias, galinhas e ovos.

Muitas vezes aproveitava as boleias dos barcos que navegavam em direção a Bambadinca para ir fazer as minhas reivindicações ou abastecimentos. Em outubro, o novo oficial de operações adverte-me que me devo apresentar no dia tal às tantas horas pois irei participar numa operação. E nesse dia tal vou encontrar-me com outros oficiais, entramos numa sala de operações e vamos saber para onde vamos e o que se pretende. A intenção é chegarmos a uma base do PAIGC que terá dois pequenos acampamentos, Baio e Burontoni, a uma distância do Xime, eles também distantes de uma zona chave do PAIGC chamada Poidom, nessa altura as forças portuguesas já tinham abandonado um destacamento chamado Ponta do Inglês, ou seja, o regulado do Xime era mais outra terra de ninguém, mas aqui o dispositivo da guerrilha era incontestavelmente superior àquele com que eu me confrontava. Pouco há a dizer desta operação, andámos praticamente um dia inteiro às voltas dentro de matas, houve que fazer um alto noturno com todos os ruídos que a mata oferece, incluindo a surpresa seja da passagem de um porco do mato ou as ferroadas das formigas. Lembro-me perfeitamente que o regresso que fizemos do Xime para Bambadinca pensei seriamente que havia muita displicência na preparação destas operações, com resultados moralmente devastadores e desmobilizadores.


(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 4 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27987: Notas de leitura (1919): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (6) (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P27993: Historiografia da presença portuguesa em África (528): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1970 (86) (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 26 de Novembro de 2025:

Queridos amigos,
Quando os investigadores da história da Guiné apontarem o foco para estes últimos anos que precedem a independência, concretamente a governação Spínola, quando mergulharem neste mar de créditos, orçamentos extraordinários, fundos de investimento, diversos alívios de pagamentos obrigatórios, certamente que darão nota de que existiu uma economia fantasmática em que o produto interno era dado sobretudo pelos consumos das unidades militares e pelas débeis exportações. 1970 foi um ano que se apostou no ensino, até a Fundação Calouste Gulbenkian ajudou; o arroz manteve-se a grande preocupação do Governo, havia que ter mão firme. No Boletim Oficial são quase inexistentes os sinais da luta armada, mas é publicado o louvor a Mamadu Seidi, chefe da tabanca de Sinchã Madiu, e fruto do seu destemor e liderança face aos ataques do inimigo. o Governo de Lisboa passou a permitir aos Comandantes-Chefes que promovessem militares e milícias com provas dadas, era mais um sintoma de que estávamos na africanização da guerra.

Um abraço do
Mário



Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Guiné, 1970 (86)


Mário Beja Santos

O que parece ganhar mais relevo neste ano de 1970 são os sucessivos orçamentos extraordinários e suplementares, fundos de investimento, créditos; há também muita enfâse na educação. Tendo em conta o que se publica no Boletim Oficial n.º 13, de 4 de março, os espelhos das contas de gerência e do exercício de 1969, avolumam-se os débitos. As escolas primárias passam a ter designações. No Boletim Oficial n.º 21, de 26 de maio, é criada uma escola primária na vila de Farim com a designação de Marechal Carmona; o Boletim Oficial n.º 22, de 4 de junho, dá-nos a saber que a Fundação Gulbenkian incluía no seu plano de realizações a construção de cinco escolas primárias: a de Bafatá teria o nome de Calouste Gulbenkian, a de Bissau Almeida Garrett, a de Nova Lamego Alexandre Herculano, a de Teixeira Pinto Luís de Camões e a de Cacheu Honório Pereira Barreto. No Boletim Oficial n.º 45 de 14 de novembro, a escola primária de Fulacunda passa a designar-se escola de Mouzinho de Albuquerque. É uma constante, a criação de postos escolares. São redobradas as preocupações com o ensino, veja-se a Portaria n.º 2280, de 9 de dezembro:
“Considerando que na Escola Comercial e Industrial de Bissau, funcionam, com pleno rendimento, os cursos de formação de serralheiro e de montador eletricista, é autorizado o funcionamento nessa Escola das secções preparatórias para o ingresso nos institutos industriais.”

O Boletim Oficial n.º 52, de 29 de dezembro, refere as escolas primárias de Rebelo da Silva, em Bissau e a escola primária James Pinto Bull em Buba.

Neste ano surgiu mais uma Associação Desportiva, no Boletim Oficial n.º 52, Suplemento de 30 de dezembro, vê publicados os estatutos do Ajuda Sport Sport Clube de Bissau.

Mas há outros acontecimentos dignos de registo. Logo no Boletim Oficial n.º 1, de 6 de janeiro, diferentes Portarias de reformulações administrativas: é desdobrada a área do Posto Administrativo da sede do concelho de Bissorã, sendo criado o Posto Administrativo de Bissum; são desanexados da área do Posto Administrativo Contuboel, concelho de Bafatá, várias regedorias que passaram a constituir o Posto Administrativo de Sama. No mesmo Boletim Oficial, pela Portaria 2192 cria-se o posto escolar de Ambancaná, na ilha das Galinhas, concelho de Bolama.

O Boletim Oficial n.º 7, de 17 de fevereiro, chama-nos a atenção para um problema crónico, o arroz. Pela Portaria 2205, durante o ano de 1970 é autorizada a isenção de direitos e outras imposições a cobrar nos despachos de importação de arroz, de qualquer origem, bem como das respetivas taras, até ao total de 15 mil toneladas, isentando-se também das taxas de direitos de cais.

A vila de Bafatá é elevada à categoria de cidade, é o que consta no quarto suplemento do Boletim Oficial n.º 10, de 13 de março, tem o seguinte preâmbulo: “A privilegiada situação geográfica do concelho de Bafatá e as suas especiais condições agrícolas, florestais e pecuárias concorrem para que o seu agregado populacional mais importante adquira foro de cidade. Instituído o municipalismo no concelho pela Portaria n.º 1104, de 15 de maio de 1952, dia-a-dia se tem intensificado a sua atividade mercantil e industrial, sendo hoje a vila de Bafatá o centro urbano de mais destacado desenvolvimento no interior da Província.”

As promoções das tropas de milícias foram alvo de nova legislação, é o que consta no Boletim Oficial n.º 18, Suplemento, de 6 de maio: determina que sejam graduados os Comandantes-Chefes, nos postos para que tenham revelado especial aptidão, os militares ou elementos das milícias designados para fazerem parte de unidades que venham a ser constituídas nas províncias ultramarinas onde existem operações militares ou de polícia. Era mais um degrau na africanização da guerra. Dá-se como razão a necessidade de valorizar os naturais há vários anos integrados em unidades militares ou de milícias; a escolha para o preenchimento dos diversos graus hierárquicos deverá recair nos combatentes mais provados e que tenham revelado melhores qualidades de chefia em operações.

E temos mais postos escolares. No Boletim Oficial n.º 19, de 12 de maio, pela Portaria 2226, criou-se um posto escolar em cada uma das seguintes localidades do concelho de Cacheu: Bajope, Batucar, Belequisse, Caió, Capunga, Carungue, Chulane e ilhéu de Caió. O Boletim Oficial n.º 26, de 30 de junho, traz um louvor a Mamadu Seidi, chefe de tabanca Sinchã Madiu, por ter revelado excecionais qualidades de inteligência, desembaraço, elevado espírito de iniciativa e entusiasmo, contribuindo de forma notável para a realização de trabalhos de autodefesa das populações.

“Durante todos os ataques à sua tabanca, o chefe Mamadu Seidi evidenciou sempre possuir coragem inabalável, decisão, sangue-frio e grande controlo de vontade, dotes estes que lhe permitiram obter assinaláveis êxitos contra o inimigo e lhe granjearam não só natural ascendente e prestígio entre os elementos da sua tabanca, como a amizade e consideração de todas as forças militares da área.”
O louvor é dado pelo Governador e Comandante-Chefe.

Os ministérios das Finanças e do Ultramar juntaram-se para trazer um alívio financeiro à Guiné, conforme consta no Boletim Oficial n.º 32, de 12 de agosto, é o Decreto-Lei n.º 327/70. Nele é referido que a atual situação económico-financeira da Província da Guiné não permite o cumprimento das obrigações decorrentes num empréstimo contraído, pelo que é autorizada a Província a suspender pelo período de cinco anos, a partir de 1969, inclusive, o pagamento das semestralidades do empréstimo, e é eventualmente autorizada a redução da taxa de juro.

E findamos a leitura do Boletim Oficial de 1970 com uma nova referência ao arroz, consta do Boletim Oficial nº 43, de 29 de outubro, é um despacho do Governador onde se faz referência à melhoria das condições de vida, e dentro deste âmbito uma das preocupações do Governo é a redução dos preços dos géneros de primeira necessidade, sobretudo daqueles que constituem a base da alimentação do guinéu. Como é evidente, o foco é o arroz, o principal género de alimentação, e o Governo determina que a partir de 1 de novembro próximo passem a vigorar na comercialização interna do arroz descascado mecanicamente, originário da Província, de segunda qualidade e do importado, preços que vão dos 4$60 a 5$00.

O leitor que se prepare para o ano que vem, logo no Boletim Oficial nº 1, temos a Portaria nº 630, do Ministério do Ultramar, abrindo um crédito destinado a reforçar verbas da tabela de despesa extraordinária do orçamento da Província da Guiné para o corrente ano económico.

Faleceu Salazar
Visita do Ministro do Ultramar
Famílias Saracolés
Spínola fala à multidão na inauguração de três escolas
Dança de mancebos Balantas
Tatuagens em mulher Manjaca
Feiticeiro Papel
Balobeiro, dirigente de cerimónias rituais

Estas imagens foram retidas do Boletim cultural da Guiné Portuguesa 1970

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 29 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27968: Historiografia da presença portuguesa em África (527): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1969 (85) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P27987: Notas de leitura (1919): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (6) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 22 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
Para sermos francos, já outros se aventuraram a pesquisar e corrigir as narrativas familiares envolvendo militares na guerra de África e os filhos que aqui ficaram ou que eventualmente tenham podido acompanhar as comissões dos pais. É mais uma janela que se abre para o estudo caleidoscópico da guerra, temos relatos de enfermeiras-paraquedistas, mulheres de militares que os puderam acompanhar, histórias de madrinhas de guerra, isto para não falar já de impressionantes relatos deixados por combatentes, estou a lembrar-me do pungente e dramático relato do Capitão Salgueiro Maia intitulado "Crónica dos Feitos da Guiné", a descrição que ele faz da coluna que vai até Guidaje completamente cercada por uma operação de grande envergadura do PAIGC, em maio de 1973. Sem margem para dúvidas, somos agora confrontados quanto ao modo como os militares procuravam desempenhar o seu papel de pais, enviando inclusivamente bobines com histórias apropriadas para menores; é uma troca de correspondência, como dizem as autoras, uma reflexão muito particular sobre a ideia de família numa sociedade em mudança, a par dos valores e dos contextos sociais que marcaram uma época fundadora na história do país.

Um abraço do
Mário


Olhe que o pai faz muita falta. Foi com a sua comissão que eu aprendi o quanto custa o estar longe e só e para nós o sofrimento não se compara com o seu – 6

Mário Beja Santos

Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975, por Ana Vargas e Joana Pontes, Tinta da China, 2025, é um livro arrebatador, profundamente terno, e, tanto quanto me é dado de saber, preenche uma lacuna no campo da investigação.

João António Gonçalves Serôdio, militar do quadro permanente parte para a sua segunda comissão em março de 1970. Os filhos, Ana, a fazer catorze anos, Zá com doze, Cristina com onze e João com três estarão no Cais da Rocha do Conde de Óbidos. A mãe está grávida de uma menina que havia de nascer uns meses depois, Margarida. Os filhos mais velhos estão nos colégios internos, no Colégio Militar e no Instituto de Odivelas. A primeira comissão de João Serôdio foi na Índia. A filha Cristina recorda: “Ele estava lá sozinho. Escrevia para a mãe quase todos os dias. Temos a correspondência toda que o pai enviou para cá. A que a mãe enviou desapareceu.”
O pai enviava para a família uma mensalidade de quatro contos.

Ficará em casa oito anos, durante os quais frequentará vários cursos. A família não o vai acompanhar quando ele parte para Luanda, alguns dos filhos irão lá visitá-lo. O Colégio Militar deixou alguns traumas ao filho Zé. O pai dá conselhos: “Tens de saber ser forte na adversidade. Tens de reagir e não podes fraquejar. Crê, meu filho, que todos os homens encontram na sua vida mais obstáculos que facilidades. Mas, aqueles que desistem, que cruzam os braços, são arrastados para situações medíocres e são durante toda a vida infelizes porque sentem que não lutaram quando deviam.”
Há troca de correspondência com as filhas.

Quando nasceu Margarida, a mãe vai para o Porto para casa dos pais e leva o filho de três anos e a bebé recém-nascida. Segundo os filhos, a mãe sofre muito com a ausência do pai. Zé foi três vezes visitar o pai a Luanda, em 1972 foi a família toda sem a filha mais nova. João Serôdio pediu para continuar a comissão por oferecimento, foi um choque para toda a família. João Serôdio trabalhava diretamente com o General Costa Gomes, exerceu as funções de Chefe de Gabinete quando Costa Gomes foi Presidente da República. É numa destas cartas que encontrei a frase que vai encimando este conjunto de textos:
“Querido Pai,
Olhe que o pai faz mesmo muita falta. Foi com a sua comissão que eu aprendi o quanto custa estar longe e só e para nós o sofrimento não se compara com o seu, onde está sozinho; só às vezes acompanhado por espírito.”

O pai regressa em junho de 1974, João tem então sete anos e lembra-se que o pai lhe observava que devia dobrar os calções ao deitar, não pôr os cotovelos na mesa.

João Menino Vargas tem muito a ver com Ana Vargas, a prosa que se segue é muito enternecedora:
“Há uma caixa de madeira em cima da mesa à volta da qual estamos à conversa. Aqui se guardam, há muito tempo, cartas, diários antigos, aerogramas e fotografias. São memórias relacionadas com a vida militar de João Vargas, pai de Luís, Ana e Cristina. Entre eles e connosco vai surgir uma reflexão sobre o passado familiar e comum, em grande medida marcado pela passagem do pai pela guerra colonial.”

João entra na Academia Militar com dezasseis anos. É filho de um capitão. João sai da Academia como oficial de artilharia, namora com Beatriz, estudante no Instituto de Odivelas, Beatriz tem nove irmãos, veio para Lisboa tirar um curso de costura após o qual ficou a trabalhar em casa, dando também aulas deste ofício. O pai de Beatriz é destacado para Timor como comandante-militar, leva consigo cinco dos dez filhos entre os quais Beatriz. Como ela já namorava com João, este ofereceu-se como voluntário para acompanhar, não podiam ainda casar, quer pela idade quer pelos rendimentos.

João Vargas escreveu que ficou chocado com a penúria e o atraso com que viviam os timorenses:
“Eram obrigados a trabalhar um mês de borla para a Administração, período muitas vezes ampliado para dois meses, ou o que fosse decidido pelas autoridades administrativas locais; a que se somava o imposto de capitação, que todos os homens eram obrigados a pagar, vulgo imposto de palhota e, para completar o quadro, estavam sujeitos a serem arrebanhados para as plantações de café, sempre que os fazendeiros precisavam de trabalhadores, aos quais depois pagavam salários miseráveis. Os castigos corporais eram moeda corrente.”

Beatriz e João casam em 1960. Um ano depois nasce Luís. Em 1964 a família deixa Timor. Quatro meses depois, João é mobilizado para Tete em Moçambique. Vai a família toda, Beatriz, Luís e Ana. Em 1966 nasce Cristina. Regressam todos de Moçambique. João escreveu sobre esse tempo: “Na pacatez de Tete, parte da população branca não escondia as suas simpatias pela política de apartheid e a discriminação racial era evidente. Era do conhecimento público a colaboração das autoridades na angariação de donativos para trabalho de escravo e o seu envio forçado para a colheita da cana-de-açúcar da Sena Sugar sem que alguém manifestasse discordância.”

No regresso ficam a viver na Escola Prática de Artilharia. É por essa altura que um familiar, o tio Joãozinho, um dos irmãos da mãe parte para a Guiné e na própria noite em que chegaram ele morre num acidente, estava de oficial de dia, ia passar a ronda, o desgraçado que o abateu ouviu um barulho, ele morreu com dezassete tiros. João Vargas é mobilizado pouco tempo depois para a terceira comissão, vai para a Guiné, a família não o pode acompanhar. João é colocado em Nova Lamego. Pouco depois da partida do pai, Luís entra para o Colégio Militar, Ana vai para o Instituto de Odivelas, Cristina ainda com cinco anos, fica com a mãe em casa. Beatriz irá trabalhar como bibliotecária. Troca-se muita correspondência, o tema dos estudos é recorrente. A família envia a João gravações de músicas. No regresso virá muito mais tenso. João tece o seguinte comentário: “Vinha necessitado de mostrar que era quem mandava. Nós estávamos habituados a maior autonomia e independência.”

Estamos chegados ao 25 de abril. Após a morte recente dos pais, os filhos têm encontrado mais correspondência, postais e outros textos. Num deles, já no ocaso do regime e sobre a sua passagem pela Guiné, o pai deixou escrito:
“A guerra tem consequência interessantes. Curiosamente, as pessoas sentem-se libertas para dizerem o que lhes vai na alma. A PIDE era ali omnipresente, mas para o combatente é-lhe indiferente. Ouvem-se afirmações, alto e bom som, de verdadeira revolta: eu estou aqui porque o meu pai não me deu dinheiro para emigrar; estou aqui, porque não posso abandonar a minha família, senão tinha emigrado; se eu fosse africano também lutaria pela independência.”

Ao terminar a conversa os filhos de Beatriz e João, Luís dirá: “Pela maneira como se encara as guerras, parece que a gente está a ver na televisão, parece quase um filme. Nem se percebe às vezes, que de ambos os lados há vítimas e mesmo o maior facínora tem família.”

Estamos praticamente no fim desta belíssima recolha de narrativas, concluiremos na próxima semana.

Ana Vargas e Joana Pontes

(continua)
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Notas do editor

Vd. post de 27 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27959: Notas de leitura (1917): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (5) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 1 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27976: Notas de leitura (1918): Carta de Bertrand-Bocandé sobre o islamismo no Casamansa, 1851 (Mário Beja Santos)

sábado, 2 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P27981: Os nossos seres, saberes e lazeres (733): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (254): No Palácio Nacional de Queluz, para ver as obras de conservação e restauro - 1 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Abril de 2026:

Queridos amigos,
Desta feita vim até à mais conhecida residência real setecentista. Aqui impera o barroco e o rococó, há momentos em que parece que estamos a ver cenários de ópera, a carga decorativa é imensa, basta olhar para as balaustradas, com estátuas, no jardim superior, em frente ao Jardim de Neptuno, o lago perfila-se diante da fachada Robillon. Conhecer a história deste Palácio é entrar na vida de uma corte que a seguir ao terramoto de 1755 se prantou na Real Barraca da Ajuda, e houve sonhos de grandeza, daí a adesão a diferentes estilos, onde não falta a influência neoclássica. Quando se incendiou a Real Barraca, em 1794, Queluz passou a ser residência da Família Raal. As grandes obras de restauro começaram em 1933, houve um terrível incêndio em 1925 que consumiu a Sala dos Embaixadores, coube ao arquiteto Raul Lino dirigir as obras. Vinha com curiosidade de ver os trabalhos de restauro mais recentes, nunca me fora dado a visitar a capela, ainda há trabalhos em curso, mas é um espaço imponente, goste-se ou não dos barrocos ao gosto italiano. E satisfiz a minha gula em porcelanas e cerâmicas, como aqui vos conto.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (254):
No Palácio Nacional de Queluz, para ver as obras de conservação e restauro - 1


Mário Beja Santos

Pelas minhas contas, o Palácio Nacional de Queluz tem aproximadamente 280 anos, se se tomar como referência a data de arranque das grandes obras iniciadas pelo Infante D. Pedro, em 1747. Partiu-se da residência da família Corte-Real, os seus bens tinham sido confiscados depois da Restauração e integrados no património da Casa do Infantado. O Palácio irá adquirir a dimensão de Palácio Real, as vicissitudes por que passou espelham as últimas décadas do absolutismo, o gosto do final do barroco e a sua exuberância rococó, os ricos investimentos em decoração, pintura, mobiliário, artes decorativas, com realce para a cerâmica. A partir da década de 1750, e até ao falecimento do rei consorte D. Pedro, ocorrida em 1786, seguida da morte prematura do príncipe herdeiro D. José, a Real Quinta de Queluz conhece um primeiro período de habitação real marcada por uma vivência lúdica e festiva. É o que se pode visitar na opulenta Sala do Trono, Sala dos Archeiros até à sala de música, sem me querer esquecer a Sala dos Embaixadores que viveu um incêndio devastador e conheceu a sua reabilitação acompanhada pelo arquiteto Raul Lino. Por aqui andou um dos grandes arquitetos, escultor e gravador do seu tempo, Jean-Baptiste Robillon.

Queluz ganhará o estatuto de residência permanente da Família Real após o incêndio em 1794 da Barraca Real da Ajuda, era habitação real desde que o terramoto de 1755 destruíra, daqui partiu D. Maria I e o regente D. João e mais membros da Família Real para o Brasil, em novembro de 1807. Junot levou daqui uma série de peças, e até sonhou instalar em Queluz o próprio Napoleão. Família Real regressa a Portugal em 1821, houve obras da recuperação do Palácio. Aqui faleceu em 1834 D. Pedro IV. D. Maria II e o seu marido, D. Fernando II, irão preferir Sintra e o Palácio da Pena. O rei consorte até aproveitou a oportunidade para deslocar algum recheio para os jardins do Palácio das Necessidades, Alfeite e Tapada da Ajuda. Só há notícia que D. Luís e D. Maria Pia passaram em Queluz o verão de 1874, e D. Carlos e D. Amélia fizeram visitas esporádicas e obras de beneficiação, caso da Sala de Jantar, Sala do Café e Sala de Fumo. Veio a República, por aqui andou uma escola agrícola e a partir de 1955 passou a ser residência oficial de Altos Dignatários e Chefes de Estado em visita oficial ao nosso país.
Começa a visita pela Sala do Trono, de que guardo as melhores memórias e conto porquê.

Dá gosto ver as benfeitorias, tudo bem dourado e estucado, até os tetos ganharam relevo, dá gosto olhar lá para cima. Tive o privilégio de aqui assistir a concertos memoráveis no âmbito do Festival de Música de Sintra. Vi e ouvi pianistas de grande craveira como Sequeira e Costa, Aldo Ciccolini, Maria João Pires, Andreas Staier, Vladimir Ashkenazy e Ivo Pogorelich. Não resisto a contar histórias destes dois últimos. As cadeiras eram douradinhas e com palhinha, um senhor que era vereador, bem pesado, dispunha desconfortavelmente da sua corpulência na cadeira elegante mas frágil; tocava Ashkenazy, uma conhecida sonata de Beethoven, quando se ouviu um estalo e caiu um dos pés da cadeira, o senhor, com ar muito encavacado, bem tentava manter o equilíbrio; Ashkenazy levantou-se, pôs o pé da cadeira ao pé de si e deu-lhe um lugar que é reservado a quem faz mudanças nas partituras, o vereador só olhava para o chão; fim do concerto e depois de vários extras, Ashkenazy pegou no pé da cadeira e mandou a assistência segui-lo, era hora de todos irmos para a cama.

Com Ivo Pogorelich foi mais dramático. Era uma noite quentíssima, quem financiava o recital era a EDP, vieram as senhoras dos diretores, bem encasacadas, à entrada ofereceram-lhes belos ramalhetes de rosas envolvidos numa película de celofane. Pouco antes de se iniciar o concerto, veio uma menina informar que o senhor que a seguir ia dar o concerto exigia que as portas fossem todas fechadas, não queria palmas, nada de interrupções enquanto ia tocar as suites inglesas de Bach, seguiam-se obras de Rachmaninoff, e depois uma catadupa de Scriabin. O que interessa é que algumas daquelas senhoras ficaram ofegantes dentro da estufa em que se tornou a Sala do Trono, uma delas teve o sacrilégio de começar a remexer no celofane, o genial pianista lançou-lhe um olhar terrível, eu estava em frente e vi como a senhora ficou intimidada, de mansinho pôs as rosas no chão, as senhoras iam fazendo manobras para tirar os casacos impróprios para aquela sauna. Mas estou felicíssimo agora com estes restauros, tudo brunido e luzidio, se por aqui aparecesse Luís XV seguramente ficaria enternecido.

A Sala de Música também teve beneficiações, lá ao fundo D. Maria I olha-nos atentamente, tenho a impressão de quando ela ouvia aqui o cravo bem temperado aqueles dois jarrões não existiam.
É a primeira vez que vejo a Capela Real de Queluz. É um deslumbramento de volumes, formas e conteúdo que não me enche a alma, mas reconheço que é um belíssimo restauro. A Capela foi projetada por Mateus Vicente de Oliveira, por volta de 1752. A cúpula da capela-mor tem uma cobertura exterior em forma de bolbo, revestida de cobre, ao gosto centro europeu. A talha dourada é de inspiração rococó e as paredes e teto são decorados com pintura de fingidos imitando mármore e lápis-lazúli. O retábulo do altar-mor representa Nossa Senhora da Conceição, que é o orago de Queluz e nos altares laterais temos S. Pedro, S. Paulo e S. Francisco de Paula. Leio na legenda que algumas das pinturas do altar-mor são da autoria das infantas, irmãs de D. Maria I.
Pormenor do teto
Saindo da capela-mor entramos numa sala ao gosto do Império, lá ao fundo D. João VI olha-nos com uma certa bonomia e a mesa vitrina está cheia de belos objetos.
Travessa da Dinastia Qing, período Qianlong 1760-1780

Perdi-me na sala das cerâmicas, aqui não faltam peças fabulosas de porcelanas chinesa e europeia e faianças portuguesa e europeia, deixem-me fazer alguns comentários. O acervo da porcelana chinesa destaca peças riquíssimas, as Dinastias Ming e Qing estão representadas por pratos, cabaças, potes, jarras, gomis, há para ali deslumbrantes peças “chocolate” e “família rosa”, não faltam canudos e defumadores e frascos de chá, e, cereja no bolo, um incompleto serviço de jantar, chá, café e chocolate, parei a admirar uma travessa, daí a fotografia abaixo. A porcelana europeia é da mais rica do seu tempo, com destaque para porcelanas de Meissen, belas peças francesas e doutros países; a faiança portuguesa também está altamente representada, há objetos da Real Fábrica do Rato, de inegável qualidade e a puro estético; e temos cerâmicas da Holanda, Inglaterra e Espanha. Para quem gosta de porcelana e cerâmica tem aqui muito para contemplar.
As salas multiplicam-se, dou comigo a pensar como o viajante só tem a ganhar em preparar-se para a imensidade de património que lhe vai desafiar a atenção. Não me detive aqui ao acaso, quem decorou esta sala tem sapiência para decoração e ornamentação. Percorrer todas estas divisões, quartos de dormir, salas e aposentos, por onde andaram artistas portugueses, franceses e italianos, entalhadores, escultores e ourives, e depois de todas as voltas que deu este património encontrar uma solução que realce o bom gosto, tem méritos que apraz realçar.
Aqui se interrompe o passeio, temos aqui um pormenor da chamada escadaria Robillon, não faltam leões, este senhor sabia de arquitetura e de muitas mais coisas, entenda-se esta escadaria como uma ligação entre o jardim superior e aquele que leva a um imenso espaço lúdico à volta da Ribeira do Jamor, lá ao fundo há uma imensa cascata e diversas estufas, olhando esta imagem sinto-me feliz com património conservado, todo este trabalho deve custar uma fortuna, aqui, a curta distância está uma azulejaria riquíssima a pedir conservação, não sei se a degradação que vemos é fruto do céu aberto ou do vandalismo, quem visita o Palácio Nacional de Queluz tem tudo a ganhar em passear-se pelos belíssimos jardins.

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 25 de Abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27953: Os nossos seres, saberes e lazeres (732): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (253): No Convento de Chelas, revivendo o passado na Guiné (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P27976: Notas de leitura (1918): Carta de Bertrand-Bocandé sobre o islamismo no Casamansa, 1851 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 22 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
À procura de documentação atinente a esta tentativa de encontrar relatos de olhares estrangeiros sobre a Guiné do século XIX e primeira metade do século XX, encontrei este extrato de carta que Bertrand-Bocandé, de que iremos ver um relevante trabalho que fez sobre a Senegâmbia portuguesa ter enviado a Ferdinand-Denis uma carta de que o Boletim da Sociedade de Geografia de França publica um extrato. Tem a ver com as arremetidas de gente oriunda do Futa-Djalon contra os Mandingas Soninqués ou bebedores, isto é gente teoricamente islamizada, mas que bebia bebidas experimentadas, seria esta a sua ligação ao Estado idólatra. o autor dá nota do assunto, a gente do Futa não se confinou ao Casamansa, desceu até às regiões de Cacheu e de Geba. Implicitamente Bocandé compara o grau de civilização destes povos islamizados, fala em pilhagem e velhacaria e alude ao sucesso de missões que começavam a espalhar-se na região. Importa não esquecer que quer o Casamansa quer o chão Felupe detinham uma maioria de povos da etnia Djola, animistas, que resistiram aos Fulas e que sempre procuraram conservar a sua identidade, daí a tensão permanente em que vivem com a República do Senegal.

Um abraço do
Mário


Carta de Bertrand-Bocandé sobre o islamismo no Casamansa, 1851

Mário Beja Santos

A folhear a documentação referente a olhares estrangeiros sobre a Guiné, encontrei no Boletim da Sociedade de Geografia de França, ano de 1851, julho/dezembro, o extrato de uma carta de Bertrand-Bocandé, residente francês em Carabane (Casamansa) ao Sr. Ferdinand-Denis, como data de 2 de fevereiro desse ano. Emmanuel Bertrand-Bocandé tem a ver com a história da Guiné; explorador, homem de negócios e administrador colonial francês, teve desempenho na influência francesa no Senegal, principalmente na ilha de Carabane. Deve-se-lhe um importante testemunho desta região em tempos coloniais. Na oportunidade aqui se falará do seu trabalho Notas sobre a Guiné Portuguesa ou Senegâmbia Meridional, publicado no Boletim da Sociedade de Geografia de França em 1849. A carta que iremos traduzir aqui informalmente encontra-se na edição francesa original no link https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k37657w/f427.item

Junto à minha carta um documento que se prende com a história atual da região de África onde resido; tem a ver com os processos do islamismo na África ocidental; peço-lhe que utilize estes elementos como melhor lhe convier.

Uma guerra religiosa ocorreu no Casamansa setentrional depois de 1840. Os seus promotores são gente do Futa-Djalon. Convocados pelos Mandingas islamizados, que se designam por Marabus ou Mouros, subjugaram os Mandingas idólatras ou Soninqués (nome que é dado a todos os que bebem bebidas fermentadas). Eles projetaram alargar as suas conquistas e converter o resto do continente até ao mar, desde a sua fronteira do Futa-Djalon. Eles mandaram já clamar tributos aos diferentes entrepostos europeus, a Geba, Farim, Selho.

Correm mil histórias absurdas sobre o seu número de guerreiros e a sua bravura; e foi assim que todos iam cedendo à sua invasão. Passada a primeira surpresa, os Soninqués tentaram resistir-lhes; menos de 50 homens na pequena povoação de Banhuns, em Jaroumi, travaram a sua marcha, devido a dois ataques diferentes, quando eles procuravam uma passagem em direção da Gâmbia; eles fracassaram também em duas tentativas de retomar na povoação Soninqué-Mandinga de Canjénou, entre o Casamansa e o rio Grande de S. Domingos ou Cacheu; os Fulas pastores, que são também Soninqués e que estavam reunidos com os Mandingas, provocaram-lhes perdas. Apesar de todas as ameaças e de novos projetos, os esforços de gente de Futa-Djalon não tiveram sucesso no Casamansa; aqui ou aí, todo o país Mandinga ficou sobre o seu domínio, com exceção de algumas povoações Soninqués, onde temos o nosso forte de Selho.

Antes da chegada de gente do Futa-Djalon, nenhuma povoação maometana estava fortificada ou murada por paliçadas, os Soninqués eram considerados como proprietários da terra, e fortificaram as suas povoações. Os habitantes Soninqués de um mesmo território não têm, regra geral mais do que um ou dois patronímicos que são conhecidos por todos: nas povoações muçulmanas cada individuo tem um nome de família próprio, de modo que é evidente que o país dos Soninqués é povoado pela agregação de famílias conduzidas por um chefe enquanto as povoações maometanas são gradualmente formadas pela reunião de indivíduos vindos cada um da sua região e atraídos pelo comércio ou a esperança de vender amuletos e qualquer tipo de artesanato.

Depois dos chefes muçulmanos terem dominado pelo número, procuraram dominar pela força. Creio que é esta a história do islamismo numa grande parte do interior de África, aqui é fácil de observar como as coisas se passam. O Futa-Djalon é há muito tempo inteiramente maometano; também já dominam no Casamansa, fortificaram as suas povoações e destroem as dos Soninqués. Nas margens dos rios de São Domingos ou Cacheu, ou do rio Geba, os maometanos são em grande número, mesmo quando estão sob a dependência dos Soninqués; todos os povos em contacto com os Mandingas adotaram aos poucos os usos e a língua destes, acabando por se confundir com eles. Assim essa etnia aumenta à custa de Felupes, Banhuns, Balantas e Biafadas que se tornam Mandingas Soninqués; os Mandingas maometanos procuram dominar em toda a parte onde se sentem bastante fortes.

Importa observar que é menos o espírito do proselitismo que expande a religião de Maomé que a cupidez. Os Futa Fulas são atraídos pelo espírito da pilhagem. Se o islamismo venceu a idolatria é menos porque emprega a força que pelo facto de se fazer avançar por uma civilização mais avançada.

As civilizações vindas do interior de África são menos desenvolvidas que as que os nossos missionários estabelecem na costa ocidental de África; só que a fé no cristianismo não consegue repelir o maometanismo para o interior de África. A nossa missão cristã em Dahar, perto de Gorée, nos maometanos jalofos, fez poucos progressos, tiveram mais sucesso em Joal e também nos povos idólatras. Têm uma capela onde os cânticos da igreja se cantam em língua serere, escrita em caracteres latinos; propõe-se formar missões na orla costeira; os povos, convertidos a uma religião que ensina a caridade onde estavam os submetidos ao cristianismo, acabam por reconhecer que os prosélitos maometanos se comportam como velhacos.

Há um facto simples que também pesa como dado civilizacional, os povos da costa não se alimentam só de arroz enquanto os do interior se alimentam de milho e dos alimentos do tarrafe, caso dos caranguejos, amêijoas e ostras.

Sobre este assunto encontramos na Inteligência Artificial o seguinte:
“No século XIX, os Fulas do Futa-Djalon, frequentemente referidos como Futa-Fulas, exerceram influência significativa na Casamansa, marcada por expansão militar e islâmica. Estes grupos, oriundos da região da atual Guiné-Conacri, realizaram incursões e ataques contra populações locais, como os Mandingas, num contexto de luta pelo poder após a desintegração do Império de Kaabu. 

 - Ataques e Conflitos: Em meados do século XIX, os Fulas do Futa-Djalon realizaram ataques contra os Mandingas na região, gerando conflitos intensos. Um exemplo citado é o episódio "turrubam" (o fim da sementeira), onde populações preferiram a morte a serem capturadas.

- Islamização: A presença dos Fulas do Futa-Djalon intensificou a islamização na região, consolidando o Islão como força política e religiosa.

- Influência Regional: Embora focados na luta pelo poder e expansão, a sua influência inseria-se no contexto de desestabilização da Casamansa durante o século XIX, que também envolvia a rivalidade colonial entre Portugal e França.

Esses povos, conhecidos pela sua organização militar, procuravam dominar as rotas comerciais e assenhorear-se das populações locais, intensificando a instabilidade e as transformações sociais na Casamansa.”


Encontrámos também um documento universitário que pode ser útil a quem queira aprofundar conhecimentos sobre esta matéria: https://repositorio.iscte-iul.pt/bitstream/10071/29871/1/master_mamadu_nanque.pdf

Carta da Guiné por Bertrand-Bocandé, 1849
Ninte Kamatchol e mais pequeno a escultura da Deusa Nimba
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Nota do editor

Último post da série de 27 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27959: Notas de leitura (1917): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (5) (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27968: Historiografia da presença portuguesa em África (527): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1969 (85) (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 17 de Novembro de 2025:

Queridos amigos,
O Governo central revela-se generoso, abre mão ao dinheiro e até a alguns meios militares, será assim até 1971, nessa data o Ministro das Finanças anuncia que os encargos militares chegaram ao rubro enquanto o Ministro da Defesa irá referir que se atingiu o máximo dos efetivos o que levará o Comandante-Chefe a intensificar a africanização da guerra.

 O que se irá ver ao longo deste ano no Boletim Oficial é a injeção de dinheiro com queda nas receitas, não deixa de surpreender a remissão para o Boletim Oficial de louvores militares e perto do final do ano abrem-se concursos para um conjunto de estradas, caso de Bambadinca-Xime, Jugudul-Bambadinca, Nova Lamego-Piche-Buruntuma, Cacheu-Teixeira Pinto e Buba-Aldeia Formosa. 

Falando por mim, apanhei por tabela os trabalhos do alcatroamento de Bambadinca-Xime, isto em junho/julho de 1970, pouco antes de findar a minha comissão, já o porto do Xime estava em pleno funcionamento. Em 2010, visitei o Xime, aquela consistente construção estava reduzida a meia dúzia de estacas, o alcatroado todo esburacado. E pouco mais há a dizer.

Um abraço do
Mário



Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Guiné, 1969 (85)


Mário Beja Santos

Ainda em 1968, em reunião do Conselho Legislativo, António de Spínola dirige uma mensagem à Província, informando que apresentara ao Governo Central, com todo o realismo, a situação que se vivia na Guiné, com base no que apresentara em Lisboa, ia ser estabelecido um Plano de Acção, haveria um significativo apoio financeiro que se iria concretizar num conjunto de medidas: investimentos no campo do económico, do social e do cultural no valor de 650 mil contos, ao abrigo do III Plano do Fomento; dispensa de juros relativos às dívidas diferidas dos diferentes Planos de Fomento; ampla dilatação dos prazos de pagamento das anuidades dos Planos de Fomento e dispensa de contribuição para os encargos com a Defesa Nacional. 

Considerava o Governador que se podia assim ampliar a obra em matéria de infraestruturas (rede rodoviária e de comunicações, reconstrução dos portos no interior, promoção social, melhoria da assistência sanitária, etc.).

O que se vai plasmar no Boletim Oficial n.º 8, de 28 de fevereiro de 1969, pela Portaria n.º 2067, põe-se em execução para esse ano, as tabelas adicionais que constituem os recursos para financiamento do Programa do III Plano de Fomento (agricultura, silvicultura e pecuária, pescas, indústrias extrativas, indústrias de construção e obras públicas, energia, transportes, comunicações e meteorologia, educação e investigação, saúde). 

Falava-se no empréstimo da Metrópole de 95 mil contos e 15 mil contos do rendimento das concessões petrolíferas. A ESSO Exploration Guiné Inc  parece funcionar, pois no Boletim Oficial n.º 9, de 4 de março, fala-se numa Assembleia Geral a realizar-se em 31 de março, na Rua Filipe Folque, n.º 2, 3.º, em Lisboa. Na ordem de trabalhos, entre outros pontos, tratar-se-ia da fixação da caução a prestar por cada membro do Conselho Fiscal para o fiel cumprimento das obrigações do seu cargo.

Inusitadamente, e fora daquela rotina de créditos e débitos, fundos de investimento, nomeações e transferências, inscreve-se no Boletim Oficial n.º 16, de 22 de abril, notícias sobre a guerra em Moçambique, trata-se do Decreto n.º 48766 do Ministério da Marinha:


“Considerando que o Destacamento n.º 5 de Fuzileiros Especiais actuou nas frentes de combate em Moçambique com excepcional brilho, demonstrando destacada coragem, muita decisão, energia debaixo de fogo e um arreigado espírito de unidade, qualidades estas que se manifestaram em acções que comprovadamente contribuíram para os êxitos militares alcançados naquelas frentes;
Atendendo a que em várias operações e por força da situação operacional existente fez incursões de dezenas de quilómetros, sem comunicações, apoio aéreo e meios de evacuação diferidos para enfrentar um inimigo forte e moralizado, no que mostrou extraordinária agressividade;
Tendo em atenção a sua atividade no Niassa, nomeadamente nas regiões de Lipoche, Chitege, Chitope, Tchia, Juza Gombe e Meluluca, onde infligiu dezenas de baixas ao inimigo, capturando-lhe armamento, documentos, muitas populações e destruindo mais de 17 dos seus principais acampamentos, o que conseguiu em dezenas de operações, algumas de bastante violência, outras com desigualdade de forças desfavorável às fracções empenhadas do Destacamento;
Tendo presente os louvores colectivos conferidos e a proposta do Comandante-Chefe das Forças Armadas de Moçambique, em que consta ter a unidade conquistado lustre e prestígio para as instituições militares portuguesas, é concedida a medalha militar de Cruz de Guerra de 1.ª Classe ao Destacamento n.º 5 de Fuzileiros Especiais.”


No Boletim Oficial n.º 20, de 20 de maio, uma Portaria concede meios à ação missionária. Refere-se que os Missionário Franciscanos de Veneza que vieram para a Província para se ocuparem do tratamento da lepra no Hospital Colónia de Cumura, adaptaram-se às exigências do tratamento dos leprosos, revelando muita dedicação, espírito humanitário e de sacrifício, atendendo que a Missão de Combate às tripanossomíase tinha proposto alargamento de espaço para as suas atividades, o Governo da Província aprovava que os terrenos que faziam parte da Reserva do Estado a cargo desta Missão, situados na região de Cumura, passavam a constituir uma reserva parcial para o tratamento da lepra, a cargo da Missão Católica da Cumura.

Mais um dado estranho na vida do Boletim Oficial, no seu n.º 29, de 22 de julho, o Ministério do Ultramar condecora com a medalha de cobre de assiduidade do serviço o Primeiro-Sargento do Serviço Geral Francisco João Pinheiro Marrafa.

Ficamos a saber que os Serviços de Centralização e Coordenação de Informações, em funcionamento desde 1961, irão funcionar a título transitório no Gabinete Militar do Comandante-Chefe, presidido pelo Governador, tendo como vogais o Comandante da Defesa Marítima da Guiné, o Comandante Territorial Independente da Guiné, o Comandante da Zona Aérea de Cabo Verde e da Guiné, o Comandante da PSP, Chefe da Subdelegação da PIDE e Chefe da Repartição Provincial dos Serviços de Administração Civil.

Abriram-se créditos especiais de milhões de escudos, tem a ver com programas de meteorologia, fomento dos recursos agro-silvo-pastoris, transportes rodoviários, telecomunicações, etc. A dívida pública da Guiné atingiu verbas astronómicas.

No 3.º Suplemento do Boletim Oficial n.º 39, de 6 de outubro, dá-se notícia do concurso para a execução de empreitadas de construção de terraplanagens das estradas de: Bambadinca-Xime; Jugudul-Bambadinca; Nova Lamego-Piche-Buruntuma; Cacheu-Teixeira Pinto; Buba- Aldeia Formosa (alguns destes trabalhos prolongaram-se até ao ano de 1974).

O Boletim Oficial n.º 47, de 25 de novembro, pela Portaria n.º 2162, publica o terceiro orçamento suplementar referente à Administração do Porto de Bissau, e nesse mesmo Boletim, o Governador louva o Marinheiro n.º 67, Januário Abibe Tchame, em serviço na Repartição Provincial dos Serviços de Marinha, pelo seu exemplar comportamento durante a reação a uma flagelação inimiga dirigida a um quartel do Interior e ao porto fluvial vizinho:

“Encontrando-se a prestar serviço no referido porto, sob as ordens de um cabo fuzileiro, a este se apresentou voluntariamente, apesar de não ser militar, logo que teve conhecimento do início do ataque. Com uma arma recebida do mencionado cabo fuzileiro, que comandara a defesa da zona portuária, ocupou uma posição isolada de onde contribuiu para a reacção que obrigou o inimigo a debandar da área do porto. Revelou assim, qualidades de patriotismo, coragem, decisão e exemplar lealdade que considero de inteira justiça destacar.”
Marcello Caetano em Bissau
Dança compó
Rapaz Papel
Dançarino Balanta
Batuque Felupe
Rapaz Papel
O Chefe Religioso da Mauritânia recebendo uma lembrança do Governador da Província

Estas imagens foram retiradas de números do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa de 1969

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 22 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27940: Historiografia da presença portuguesa em África (526): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1968 (84) (Mário Beja Santos)