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sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28303: Notas de leitura (1955): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (3) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Julho de 2026:

Queridos amigos,
A laboriosa pesquisa feita por este investigador norte-americano introduz um olhar diferente sobre o papel do continente africano na história detalhada de seis séculos de desenvolvimento mundial. O que Howard French procura consolidar como historicamente demonstrado, mas praticamente ausente ou até mesmo minimizado, é o papel fulcral desempenhado pela mão de obra escravizada nas plantações de açúcar de São Tomé, do Brasil, de toda a agricultura de plantação das Caraíbas e dos estados sulistas do que virá a ser os EUA, pois foi esta mão de obra escravizada que serviu de alavanca para a ascensão económica da Europa, para o seu desenvolvimento político, naturalmente uma trajetória que se inicia com os países ibéricos e que chegará à Revolução Haitiana e pelo adiante à evolução do conceito de Direitos Humanos e às modificações drásticas que tinham sido impostas pelos preconceitos raciais. É um convite para que os historiadores globais revejam as abastadas civilizações da África medieval e como o comércio negreiro configurou o papel do negro na História. Por isso vale a pena continuar a ler este livro com elementar cuidado.

Um abraço
do Mário



África, os africanos e a criação do mundo moderno, de meados do século XV à Segunda Guerra Mundial - 3

Mário Beja Santos

Se tentássemos contabilizar a proveniência dos autores que escreveram relatos, fizeram investigações, orientaram ou orientam estudos académicos sobre o continente africano, o número mais expressivo iria recair certamente nos europeus, seguido dos norte-americanos. No seu livro Origem: África, o jornalista, escritor e académico Howard W. French, Bertrand Editora, 2022, releva que os relatos tradicionais têm o seu foco na era dos Descobrimentos europeus do século XV, não escondendo os reais interesses de quem e para quê impulsionava estas viagens e a instalação de feitorias e fortalezas: sonhava-se descobrir mundo, encontrar o lendário rei Preste João, ter acesso ao ouro, levar a crença cristã e sempre que necessário, combater a crença muçulmana, encontrara a ligação entre os rios Níger e o Nilo – e parece que mais nada aconteceu.

É incontestável que foi este desencravamento do mundo que abriu as portas à modernidade. E Howard W. French sublinha que África foi a pedra-chave da máquina da modernidade:
“Sem os povos africanos traficados desde as suas costas, as Américas teriam contado pouco para a ascensão do Ocidente. O trabalho africano, materializado em escravos, tornou-se o fator providencial que tornou possível o desenvolvimento das Américas. Sem África, os projetos coloniais da Europa no Novo Mundo, tal como os conhecemos, são simplesmente inimagináveis. Através do desenvolvimento da agricultura de plantação – tabaco, café, cacau, anil, arroz e, principalmente, açúcar – os laços profundos e muitas vezes brutais entre a Europa e África conduziram ao desenvolvimento de uma economia capitalista verdadeiramente global.”

Chegou o momento de o autor abordar frontalmente a essência da escravatura. Primeiro, sempre houve escravatura, há testemunhos delas em todas as civilizações. A escravatura que vai partir de África, nomeadamente do século XVI em diante é nela que assentam as raízes do racismo moderno. Mas que escravatura havia em África, antes da chegada dos portugueses e de outros povos? O autor responde:
“A escravatura nesta parte de África (como noutras regiões subsarianas do continente) eram a prática antiga, embora não tivesse quase nenhuma semelhança com o modelo de escravo-mercadoria que estava prestes a surgir nas plantações de açúcar, de mãos dadas com o florescimento do imperialismo ocidental. Para os acãs (importante grupo étnico do Gana e da Costa do Marfim), os escravos eram tradicionalmente adquiridos no decurso de disputas múltiplas, bem como durante as campanhas expansionistas contra grupos externos. Os cativos nestes conflitos eram por vezes expostos a trabalhar na agricultura, na construção de estradas, e até mesmo como soldados, mas, tal como os otomanos, em geral era dada prioridade à sua assimilação na sociedade o mais rapidamente possível.
Os acãs, que controlavam as mais ricas fontes de ouro, tinham recentemente estabelecido laços comerciais lucrativos com os impérios do Sahel ocidental, como o Mali e Songhai, utilizando-os para escoamento dos seus metais preciosos. Vendiam-nos em troca de mercadorias provenientes do Norte de África e até da Europa. O valor na proposta de contacto e a despesa ou incómodo para casa lado, portugueses e acãs, assentava tanto num volume maior como mais regular. Mas até que os cobiçados panos da Índia se tornassem disponíveis, os bens portugueses não eram considerados suficientemente desejáveis para os acãs de modo a justificar o desvio em grande escala da sua própria mão de obra indígena para a produção de ouro.”


Havia manifestamente relutância em vender os seus semelhantes étnicos ou mesmo os prisioneiros de guerra, uma das principais medidas de riqueza e poder nos reinos africanos era o número de súbitos. Ora esta relutância deixou de se verificar com a proliferação do comércio europeu, eles traziam armas e outros bens que eram preciosos para os africanos, tudo conjugado contribuiu para o surgimento de um novo mercado de escravos. Ainda em termos mitigados, os navios portugueses que exploravam o extremo oriental do delta do rio Níger encontraram em 1486 cinco canais serpenteantes que passaram a ser conhecidos por Rios Escravos. Os portugueses chegaram ao Benim e imediatamente reconheceram o grande potencial comercial de um pimento que se tornou largamente apreciado nos mercados da Flandres. Mas nada se igualava aos escravos, e os portugueses ficaram satisfeitos por descobrir uma oferta de escravos com raízes nas guerras do Benim com os povos vizinhos. A cultura do Benim impressionou os portugueses. Os beninenses queriam negociar manilhas de cobre e bronze, a arte beninense ganhou imediatamente fama.

Howard French muda agora para São Tomé, formalmente decretada como uma colónia em 1485, irá ser muito importante na produção de açúcar, também daqui partiram escravos para o Benim, e havia escravos enviados do Congo via São Tomé para o Novo Mundo. Estamos, pois, a assistir à organização de circuitos do tráfico negreiro. O autor dissecará em profundidade a importância da plantação esclavagista de São Tomé e como o complexo de plantação deu um salto de São Tomé para as Américas. Teremos depois um histórico sobre Barbados. Outra condicionante histórica relevante que o autor destaca é o nascimento do crioulo, a formação de comunidades crioulas em lugares tão diferentes como Cartagena, Havana, Cidade do México e São Salvador, nestas comunidades era frequente encontrar os escravos a falar pidgins e línguas crioulas fortemente ligadas ao português.

Mudando de assunto, o autor vai observar a competição europeia por África, os grandes conflitos que vão envolver a cobiça e os interesses das grandes potências europeias.

Dirá, a título introdutório:
“A história moderna de África como uma massa terrestre geopoliticamente disputada, cheia de parcelas de território que foram cortadas por forasteiros ávidos, começou formalmente na Alemanha em 1884, num famoso evento conhecido como Conferência de Berlim. Na altura, os europeus mal controlavam 10 por cento do continente, na sua maioria nas extremidades norte e sul. Por volta de 1914, em consequência das decisões tomadas em Berlim, monarcas e outros governantes do Velho Continente dominavam mais de 90 por cento de África. As fronteiras que estes líderes europeus estabeleceram entre si continuam a ser as fronteiras em vigor atualmente na maior parte do continente.
À medida que assumiam o controlo do continente, os europeus quase não tinham em conta a história africana, o legado dos impérios indígenas ou os Estados africanos preexistentes. Ignoraram considerações envolvendo o mosaico de línguas que prevaleciam à medida que eles definiam e depois subdividiam regiões. Prestavam pouca atenção aos padrões de identidade local de longa data, ao comércio local ou mesmo às rivalidades e animosidades étnicas. Nem os próprios africanos foram consultados.”


Vamos seguidamente ver mais pormenores sobre esta corrida a África.


Professor Howard W. French

(continua)
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Notas do editor

Vd. post de 21 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28278: Notas de leitura (1951): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (2) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 24 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28288: Notas de leitura (1954): “Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida”, por Catarina Gomes; Matéria Prima Edições, 2014 (1) (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28297: Historiografia da presença portuguesa em África (541): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (9): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 19 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
Temos agora uma narrativa sobre a caça ao hipopótamo na região de Kandiafara. Vai aparecer o comissário português, o Tenente Costa Oliveira, da Armada Real, vem acompanhado, traz dez dias de atraso, tinha desembarcado nas margens do rio Cajet, só encontrara obstáculos, por embarcação pôde subir até Cantagniès (provavelmente o Cantanhez). A partir de agora as duas missões andarão irmanadas, irão prosseguir até encontrar as respetivas colunas de carregadores; outro membro da comissão francesa irá reconhecer o curso do Corubal, saber se este comunica com o rio Grande de Bolola. Creio que o leitor apreciará este documento histórico alusivo à primeira demarcação das fronteiras da Guiné, será aqui que se selará o destino de Ziguinchor e de todo o Casamansa de português.

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 9
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".

Vimos no texto anterior que o Sr. Galibert recebeu a incumbência por parte do Capitão Brosselard para fazer uma exploração no rio Cogon; experiência sem sucesso, agora o Capitão Brosselard relata uma experiência que ele viveu e que culminou com a morte de um hipopótamo, como se escreve.

Avistou-se um dia na margem oposta um enorme crocodilo que espreitava macacos. Querendo afastar estes perigosos animais das águas de Kandiafara, nas quais as pessoas da nossa missão se banhavam diariamente, dei ordens para atirar sobre eles quando os avistássemos na vizinhança do acampamento. O crocodilo não parecia mover-se, mas depois se ter atirado várias vezes embarquei no barco à vela com o Sr. Galibert e dois estivadores, e dirigimo-nos para a margem oposta.

O crocodilo mergulhou e apareceu a uma certa distância, a embarcação vigiava os seus movimentos e cada vez que ele aparecia davam-se mais tiros. De repente, na vizinhança do barco apareceram dois hipopótamos e olharam-nos com surpresa. Tive o despropósito de disparar sobre um deles, o monstro deu um salto enorme acompanhado de um barulho tal que quem estava na margem se apavorou, pensando o pior. O Sr. Galibert manobrou o barco para meio do rio, sabia por experiência que se navegássemos para um baixio, onde a besta tivesse pé, estávamos perdidos. De súbito, a um metro apenas da embarcação o monstro pôs a cabeça fora de água: a proa guinou e ergueu-se e houve um barulho sinistro que parecia anunciar que a frágil embarcação ficaria em mil pedaços. Achando-me de pé, fui atirado borda fora, isto enquanto a embarcação se enchia de água. Chegou-se à margem direita com dificuldade: não era sem tempo.

Contrariamente a uma opinião muito difundida, os hipopótamos só atacam quando pensam estar ameaçados, os indígenas dão-lhes caça, conhecendo esta particularidade. Tivemos ocasião de assistir a estas caçadas e, em cada uma delas, é utilizado o mesmo método: os monstros eram assinalados na proximidade de um banco de areia e os indígenas atiravam sobre os que se encontravam fora de água. Uma piroga dirigia-se ao mesmo tempo para um deles, o hipopótamo não demorava a dar caça à embarcação que se refugiava prudentemente no banco de areia. O hipopótamo não parava, perseguia os caçadores, começava o tiroteio e o animal ficava num estado enfurecido, dirigia-se contra os agressores, mas, como a sua marcha é lenta não lhes permitia chegar aos caçadores a tempo. Estes vão atirando à queima-roupa, especialmente sobre os olhos e a besta enorme ficava rapidamente cega. Seguiam-se as arremetidas com lanças e golpes de sabre usados para lhes quebrar os jarretes (acima do joelho). O animal cambaleava, a luta tornava-se desigual: o sangue escorrendo por todas as feridas. Nesta altura aumenta o número de caçadores, o solo está empapado de sangue.

Animal esgotado, a sentir que chegou a sua hora, a procurar ainda fugir para o rio, aqui entrando e mergulhando. A superfície da água a ficar rapidamente vermelha, e este indício sangrento indica aos carrascos onde ele está, perseguem-no dando gritos horríveis. O animal, a morrer, é, entretanto, obrigado a vir frequentemente respirar à superfície. A piroga segue-o de perto, levada por dois negros vigorosos: um rema, o outro maneja uma lança de ferro, fere o animal sempre que pode. Não é raro ver a piroga erguer-se e afundar-se. Quando isto acontece, os negros nadam e põem-na a flutuar; a sua vítima, que já não pode distingui-los também já não pode atacá-los com as suas poderosas mandíbulas. Por último, o hipopótamo dirige-se em direção a terra para expirar. Aqui chegado, ele para, a sua respiração é ruidosa, o seu dorso agita-se com violência. Os indígenas dançam, gritam e assistem à agonia do monstro, agonia que por vezes se prolonga por horas.

Os negros são apreciadores da carne de hipopótamo; os primeiros colonos portugueses da Guiné gostavam muito deste alimento e os padres autorizavam mesmo que a comessem à sexta-feira, pois consideravam que o hipopótamo era um peixe.

Durante a nossa estadia em Kandiafara enviei mensagens em diferentes direções para recolher informações sobre a digressão dos portugueses. Ninguém podia atravessar as linhas de demarcação marcadas pelo limite atual da invasão Fula. Todos os caminhos estavam sob vigilância, faziam-se emboscadas nas florestas aos infelizes Nalus quando procuravam escapar aos seus invasores.

A presença da missão não fez cessar os ataques invasores. Assim vi-me obrigado a fazer advertências a Bacar-Lombi, fazendo-lhe saber oficialmente que se eu soubesse que uma povoação Nalu fosse atacada eu iria defendê-la, tomando partido contra o agressor. Na esperança de obter algumas informações, enviei um intérprete a Buba, mas o comandante da praça nada sabia. Temia-se que o Sr. Costa Oliveira estivesse a enfrentar grandes dificuldades: a situação política do país permitia admitir a hipótese de uma resistência armada dos indígenas.

Bacar-Lombi pôs muitas dificuldades para fornecer carregadores. Foi enviando gente em pequenos contingentes, exigindo caso a caso um novo testemunho de reconhecimento. Os que estavam prometidos para 22 só chegavam a 23; enviei ao chefe Fula o intérprete Ibrahima, com ordem de pedir explicações. Nessa circunstância este chefe ganancioso respondeu que “lhe tinha sido prometido como presente dois barris de pólvora e que ele só tinha recebido um; que os brancos não cumpriam a sua palavra e que ele não se sentia obrigado a cumprir a sua”.

O intérprete observou-lhe tinha sido enviado um barril com um conteúdo com o dobro que os de uso habitual. “Pouco importa, respondeu Bacar: prometeram-me dois barris e eu só recebi um”. O intérprete deu-me conta da sua missão e foi enviado um segundo barril a Bacar-Lombi. Ele decidiu agradecer e aproveitou para dar sinal que exigia mais para haver boas relações, pediu açúcar e frascos de perfume. Recebeu açúcar e o incidente ficou sanado. No mesmo dia chegava um correio do Sr. Oliveira, o comissário português estava em Cantagniès (provavelmente Cantanhez) e anunciava-se para o dia 25. A 24, chegou um segundo correio: a missão portuguesa estava em Simbéli. A 25, encontro-me com os portugueses, com os Srs. Oliveira e Cabral. O Capitão Bacelar, teve de regressar a Bolama para repatriar uma parte do pessoal, recrutar novos carregadores e organizar uma coluna de víveres. O comissário português explica que veio atrasado dez dias porque procurou atravessar a região essencialmente pantanosa que separa o Cacine do Compony. Após ter desembarcado nas margens do rio Cajet, não pôde fazer uma só etapa em direção ao leste, detido pela vegetação cerrada e os lodos profundos, precisou de subir a norte e assim alcançar o Cacine. Neste rio, graças a Sayon-Sallifou, que no cumprimento das minhas instruções procurara embarcações, a missão portuguesa pôde subir até Cantagniès. A partir daqui dirigiu-se para Kandiafara seguindo o caminho anteriormente utilizado pelo Tenente Clerc.


Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Carta da Guiné em 1897, proveniente do Arquivo Histórico Ultramarino, houve depois alteração de fronteiras
Carta geográfica da autoria do capitão Henri Brosselard referente ao Casamansa e o distrito de Cacheu, podemos ver como o Governo português reivindicava o território até ao Rio Casamansa e como acabou o esbulho
Os homens sobem para a piroga, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia
Cúter (designação do barco) da ilha de Gorée, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia
O Casamansa em Carabane, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 19 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28271: Historiografia da presença portuguesa em África (540): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (8): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28288: Notas de leitura (1954): “Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida”, por Catarina Gomes; Matéria Prima Edições, 2014 (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 20 de Abril de 2026:

Queridos amigos,
A literatura da guerra começa a ter uma dívida com Catarina Gomes que tem vindo a abrir portas e a dar mais longitude e latitude a este subgénero literário; é uma vertente do pós-colonial que mergulha num passado diluído, com claros-escuros, porque o essencial da história, até há pouco tempo, era constituído por relatos na primeira pessoa do singular, o tal ex-combatente e o poder da sua memória, e também a historiografia onde os filhos pouco ou nada contaram, até porque o tal poder da memória era de alguém maioritariamente solteiro ou com filhos muito pequenos. Importa reconhecer que é muitíssimo bom ver esses filhos que querem desvendar por onde andaram os pais - enfim, exaltemos este dever de memória que ganha continuidade nas gerações mais novas.

Um abraço do
Mário



Pode um filho ter memórias de uma guerra que nunca viveu? - 1

Mário Beja Santos

Multiplicam-se os casos em que a literatura da Guerra Colonial revela uma nova dimensão: são os filhos a visitar os locais onde os pais combateram, os filhos de uma relação entre ex-combatentes e mulheres de Angola, Guiné e Moçambique à procura dos pais e de uma identidade; memórias e testemunhos de mulheres e filhos, e sobretudo estes que querem entender o que o pai viveu na guerra, fazem perguntas depois de ler as cartas que eles trocaram com as suas mulheres ou namoradas, isto sem já falar em recordações de infância marcadas pela violência da guerra. Catarina Gomes é hoje um nome firmado neste tipo de investigações, o que vem conferir uma abordagem diferente àquela literatura em que a memória ou a ficção do ex-combatente estava no primeiro plano.

“Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida”, por Catarina Gomes, Matéria Prima Edições, 2014, comporta quadros desta nova visão, como a autora se procura explicar na introdução:
“Cada uma das histórias privadas deste livro é uma porta de entrada para diversas dimensões da história da guerra colonial: a realidade dos prisioneiros de guerra, das enfermeiras paraquedistas, dos desaparecidos em combate, das vítimas de stress de guerra, dos africanos que lutaram pelos portugueses, de ex-combatentes que também foram retornados. Sem se conhecerem entre si, algumas das histórias destes pais entrecruzam-se, embora isso não tenha sido procurado: a Operação Mar Verde atravessou a vida de dois pais, um fuzileiro, outro que era prisioneiro e foi libertado; Alexandra Penteado e Júlia de Sá da Costa são irmãs; o pai de Joana Bastos relembra uma enfermeira paraquedista que o socorreu; a mãe de Miguel Sousa foi uma dessas 46 mulheres. Mariama Sambu fica aqui como o símbolo de milhares de histórias que podiam ser contadas do outro lado de um conflito que foi batizado com outros nomes, como Guerra de Libertação Nacional ou Guerra da Independência.”

A narrativa abre com um prisioneiro de guerra. Teresa Capítulo sabia que o seu pai saíra para a guerra antes de ela ter nascido, fora dado como morto. No entanto, chegaram algumas vezes cartas, o pai dizia que estava preso, quando um dia regressar à sua terra, Sesimbra, terá um acolhimento eufórico, foi libertado durante a Operação Mar Verde. Teresa folheia o álbum deste soldado radiotelefonista que teve o cuidado de dizer no interrogatório do PAIGC que era maqueiro. Um pai sempre discreto a falar de acontecimentos violentos, comparece regularmente ao almoço dos prisioneiros de guerra. A memória de Teresa vai ao fundo da sua infância, sempre que ela ou o irmão diziam que não queriam comer ou que não gostavam da comida que tinham à frente, lá vinha a história dos três anos que o pai teve que passar a comer arroz. Ainda hoje em Sesimbra Teresa continua a ser conhecida pelos mais velhos como “a filha daquele rapaz que esteve lá fora, a filha daquele que esteve preso” e ela diz no fecho da história: “Seria uma pessoa diferente se não fosse Teresa Capítulo, filha de um prisioneiro de guerra.”

O relato de Alexandra Penteado é a de um pai violento e de uma vida familiar calamitosa. Sempre fez perguntas porque é que o pai batia tão violentamente na mãe e apavorava os filhos, embora Alexandra saiba que tinha um papel apaziguador quando o pai desvairava, chegava a ir de calções para a rua a gritar “vou matar os pretos”. Nas noites em que se enfurecia gritava “saiam, senão mato-vos a todos”, fúrias que geraram uma rotina na família: ninguém se despia a não ser no exato momento de ir para a cama. Isto passou-se no Barreiro velho. A família foi desenvolvendo uma espécie de sensor para medir os inícios da ira do pai, aprenderam a prever os momentos em que os surtos acabavam. O pai chegava a partir tudo em casa, buscava-se a normalidade indo comprar a loiça partida que era preciso repor. Em jeito de desabafo, Alexandra disse que o seu pós-guerra durou até aos 18, 20 anos, não resta quase nada da origem lá em casa, tudo foi sendo partido e substituído.

Descobriram depois que o pai sofria de Perturbação Pós-Stress Traumático de Guerra, mas o pai recusou ir a um psicólogo ou psiquiatra, dizia que não estava maluco, isto embora tivesse estado internado na ala de psiquiatria do Hospital da Marinha. Aos poucos, ela foi procurando saber o que acontecera ao pai durante a guerra. Por exemplo, num desses almoços de ex-combatentes, ouviu que o pai tinha matado uma mulher com um punhal. “Depois da sua morte foi encontrar a condecoração largada dentro de um saco de plástico atado com um nó, depositada numa menosprezada terrina com a tampa de duas flores amarelas e ramagens verde seco que andava lá por casa dos pais. Tem-se esforçado por perceber porque arrancou da caderneta um símbolo desses supostos atos de bravura e pensa que poderá estar relacionado com alguns dos seus fantasmas mais assustadores.”

Guarda as memórias do pai violento num diário de adolescência. O pai morreu de cancro do pulmão aos 59 anos, cinco anos antes da morte estava mais calmo. Guardou fotografias de guerra do pai, que era fuzileiro, para sua surpresa, no funeral o cemitério estava cheio. No dia em que acordava a meio da noite com o pai a gritar “saiam, senão eu mato-vos”, Alexandra vê agora a tentativa de proteger a família de si mesmo.

Temos agora a história de Marisa, muito curiosa com a mala de tropa do pai. Em momentos excecionais, o pai mostrava a homens, ex-camaradas de guerra, ou então aos tios, mais novos do que o pai, o conteúdo. O pai foi deixando que Marisa lesse livrinhos de aventuras que estavam guardados na mala. Num dia em que os pais estavam ausentes, Marisa abriu a mala e encontrou cartas, e descobriu uma coisa única: o pai na guerra tinha uma quantidade enorme de madrinhas de guerra, havia um inicio de contacto que tinha sempre um padrão: “Ao ler o meu nome verifica que lhe sou totalmente desconhecido, dirijo-me a si com sinceridade e com um fim que lhe é fácil realizar caso queira dar-me aquilo que até agora não obtive, o que lhe peço é correspondência como madrinha de guerra.” Apresenta-se a todas dizendo que tem 22 anos, 1,72m de altura, olhos castanhos, cabelo um pouco loiro e era natural do concelho Porto de Mós, não tencionava ficar muito tempo solteiro porque o pai tinha casa de comércio. “Marisa vivia fascinada com a forma como se podem conhecer tantas raparigas ao mesmo tempo não saindo do mesmo sítio e vivendo num local onde quase só se convive com homens.”

É uma correspondência assombrosa, começa sempre por tratar as meninas por você, depois passa a tratá-las por tu e a dizer amor. Em adulta, Marisa fizera uma grande surpresa ao pai, escreveu um livro para encaixar aqueles objetos, fotos e memórias ordenadas, o pai acedeu, entrou no jogo da verdade, fez-se a cronologia da sua comissão em Mocímboa da Praia, dedicou o seu relato às 21 madrinhas de guerra. Acontece que uma dessas madrinhas de guerra, de nome Mimi é a mãe de Marisa. Umas duas a três vezes por ano, o pai volta à mala, esta é um lembrete do que ele foi capaz de fazer e de até onde foi capaz de ir. Marisa sempre sonhou voltar àquele local onde o pai escreveu tantas cartas às madrinhas, ali no jardim previsto da paixão entre Fernando e Mimi Vieira Reis, Vila Nova de Ourém.

Por ironia do destino, vamos ouvir falar de novo do pai de Teresa Capítulo e da menina que ele deixou na Guiné, e há muitas outras histórias para contar. Que belo livro de narrativas que Catarina Gomes nos ofereceu.


Catarina Gomes, imagem do Público, com a devida vénia

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 23 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28284: Notas de leitura (1953): "Geração Afro: Os Últimos Guerrilheiros do Império" , de Recaredo (volume I, 2026, 455 pp); análise feita pela AILA (A IA da Editora Clube de Autores)

sábado, 22 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28281: Os nossos seres, saberes e lazeres (746): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (267): Lisboa-Luxemburgo, daqui para Trier, o passeio pelo Mosela, depois Koblenz até Wiesbaden, foi este o início da viagem - 2 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 12 de Agosto de 2026:

Queridos amigos,
Jogo à defesa com as limitações que me impõe uma hérnia inguinal bilateral que, acabo hoje de saber, vai à faca em 18 de outubro, estou bem farto dela e de engolir comprimidos de paracetamol; ponho-me à sombra em casa dos anfitriões e continuo a reler Fado Alexandrino, deste livro notável falarei no blog num outro espaço; à tarde sou honrado com o convite de ir ao primeiro dos dois espetáculos com que fui seduzido, um concerto no castelo de Johannisberg, um espaço histórico e vinícola onde se bebe o vinho Riesling, um parente talvez remoto do João Pires, ainda por cima acompanhado de água mineral com borbulhas. Um passeio estupendo que dá para ver como o Reno tem pouca água, tal o poder da canícula. No dia seguinte viagem até Mainz, o que mais me tocou foram os vitrais de Marc Chagall, achei a catedral, com o devido respeito, um tanto matacão, o claustro esplendoroso, impressionado com um Cristo escultórico contemporâneo, Mainz é uma bela cidade cosmopolita, haja saúde e voltarei aqui de bom grado.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (267):
De Wiesbaden para Idstein, o Festival de Música do Reno no castelo de Johannisberg, visita a Mainz - 2


Mário Beja Santos

É este o terceiro dia de viagem, tenha-se em conta que se voo de Lisboa para o Luxemburgo, grão-ducado percorrido de noite em direção a Trier, aqui se pernoitou, ao alvorecer encetou-se a viagem de comboio à volta do rio Mosela até Wiesbaden, aqui os meus anfitriões levaram-me para Idstein, burgo que pertenceu ao príncipe de Nassau-Idstein, hoje na órbita de Wiesbaden, a umas dezenas de quilómetros de Frankfurt. Dois dias de viagem que justificam, a quem padece de uma hérnia inguinal bilateral e que tem um programa previsto à volta do Reno, um belo concerto do Festival de Música do Reno, no castelo Johannisberg, o Quarteto Maxwell, música de Haydn Brahms e música folclórica da Escócia, um bom pedaço de repouso. Enquanto me ponho à sombra para fugir à caloraça que progride para perto dos 40ºC, vou bisbilhotar o jardim de quem tão amigavelmente me recebeu, vejo um ácer bem novinho a fazer sombra a um Buda, vou até ao fim da vedação e avisto um ácer maduro de um vizinho ali em frente, é uso e costume dizer-se que são os britânicos que têm a paixão dos jardins, e então os alemães? Enfim, mitos e preconceitos. E fico toda a manhã, embevecido, a reler Fado Alexandrino, já que tenho limite na bagagem trouxe estas 700 páginas para grande regalo.
Fachada do castelo Johannisberg, um dos palcos em que decorre o festival musical do Reno, pertenceu ao Príncipe Klemens Wenzel von Metternich, que teve um relevante papel no Congresso de Viena, é aqui que desde o século XVIII se passou a cultivar a uva com que se produz o vinho Riesling
Gosto de chegar cedo, garanto que quando subiu ao palco o Quarteto Maxwell não havia uma cadeira vazia
De paredes meias com o castelo temos uma reminiscência medieval, uma igreja associada a um convento, tudo cercado de vinha, no final do concerto percorre-se o caminho para disfrutar um esplêndido panorama de Wiesbaden ao fundo e o serpenteio do rio Reno
Era o fim de tarde, muita gente perto, tal é a maravilha do panorama, mesmo com o Reno com pouca água, estávamos embevecidos com o maravilhoso cenário
No dia seguinte partiu-se de comboio para Mainz, em português Mogúncia, em francês Mayence, é a capital do Land Renânia-Palatinado, ali perto corre o rio Meno. Consta que há uma população afável, tem um dos carnavais mais espetaculares da Alemanha, uma história que supera dois mil anos, por aqui andaram as legiões de Roma, teve um período dourado na Idade Média, como não se pode visitar uma grande cidade em escassas horas, não pude visitar o museu Gutenberg, considerado uma joia para a história daa imprensa. Vim munido de um calhamaço que há meio século era famoso, um Guide Bleu dedicado à República Federal da Alemanha. Recomendava-me que fosse diretamente da Gare Central à Catedral, daqui à Praça Schiller, desobedeci, queria ir à igreja de Santo Estevão, famosa pelos vitrais de Marc Chagall, foi um regalo para a alma, vou mostrar
Não escondo a comoção, estes vitrais, além de serem os únicos que Chagall fez para a Alemanha, como expressão do que ele entendia ser a reconciliação entre os judeus e os alemães, foram os únicos vitrais feitos diretamente por Chagall, são nove na envolvência do altar-mor. Depois do seu falecimento, um conjunto de discípulos terminou o trabalho dos vitrais da paróquia de Santo Estevão. A escolha desta igreja teria sido devido à amizade que unia Chagall ao respetivo padre de Santo Estevão. Se é verdade que as imagens podem substituir mil palavras, deixo a quem me está a ler o deslumbramento destes azuis de incomparável intensidade.
A Fonte do Carnaval, na praça Schiller, é uma impressionante escultura em bronze com quase 9 metros de altura. Projetada pelo artista Blasius Spreng e inaugurada em 1967, a obra celebra a rica e animada tradição carnavalesca da cidade. A torre de bronze está repleta de mais de 200 figuras detalhadas, incluindo bobos da corte, heróis, animais e símbolos satíricos da história local e da mitologia.
Escultura "Christus" (1998), da autoria do artista alemão Karlheinz Oswald, Catedral de Mainz
Vista do interior da Catedral de Mainz, são bem visíveis as múltiplas adições, recorde-se que o templo foi muito danificado pelos bombardeamentos da Segunda Guerra Mundial
Púlpito do período tardo-gótico, renovado no século XIX, um impressionante trabalho escultórico, de cima a baixo
Estamos a falar de uma catedral com 112 metros de comprimento, com o nome de São Martinho e Santa Genoveva, teve inicialmente três naves, hoje cinco, duas absides, recorda os tempos carlíngios, fica aqui um pormenor das suas torres vista do claustro tardo-gótico
Uma perspetiva do claustro, ainda há mais coisas para mostrar, fica para a semana

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 15 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28262: Os nossos seres, saberes e lazeres (745): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (266): Lisboa-Luxemburgo, daqui para Trier, o passeio pelo Mosela, depois Koblenz até Wiesbaden, foi este o início da viagem - 1 (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28278: Notas de leitura (1951): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 6 de Julho de 2026:

Queridos amigos,
Tenho consciência de estar a deglutir uma continuidade de capítulos, pontuando questões que seguramente todos nós já ouvimos falar nos bancos da escola sobre a história da expansão marítima e como África e os seus povos se colocaram no centro das atenções. Há uma efetiva singularidades nas observações deste investigador que é a de querer ver o reverso do espelho, o que para além dos feitos históricos da exploração marítima, dos avanços científicos e tecnológicos com contributos até de muçulmanos e judeus, o que ele põe em relevo é o desempenho dos africanos na ascensão económica da Europa e como o desenvolvimento político e a concretização dos ideais do Iluminismo se construíram à custa do continente negro e de uma mão-de-obra escravizada que foi determinante para mudar o curso da História, como ia acontecer no século XIX com a Revolução Haitiana e a explosão dos direitos humanos.

Um abraço do
Mário



África, os africanos e a criação do mundo moderno, de meados do século XV à Segunda Guerra Mundial - 2

Mário Beja Santos

Se tentássemos contabilizar a proveniência dos autores que escreveram relatos, fizeram investigações, orientaram ou orientam estudos académicos sobre o continente africano, o número mais expressivo iria recair certamente nos europeus, seguido dos norte-americanos. No seu livro "Origem: África", o jornalista, escritor e académico Howard W. French, Bertrand Editora, 2022, releva que os relatos tradicionais têm o seu foco na era dos Descobrimentos europeus do século XV, não escondendo os reais interesses de quem e para quê impulsionava estas viagens e a instalação de feitorias e fortalezas: sonhava-se descobrir mundo, encontrar o lendário rei Preste João, ter acesso ao ouro, levar a crença cristã e sempre que necessário, combater a crença muçulmana, encontrara a ligação entre os rios Níger e o Nilo – e parece que mais nada aconteceu.

É incontestável que foi este desencravamento do mundo que abriu as portas à modernidade. E Howard W. French sublinha que África foi a pedra-chave da máquina da modernidade:
“Sem os povos africanos traficados desde as suas costas, as Américas teriam contado pouco para a ascensão do Ocidente. O trabalho africano, materializado em escravos, tornou-se o fator providencial que tornou possível o desenvolvimento das Américas. Sem África, os projetos coloniais da Europa no Novo Mundo, tal como os conhecemos, são simplesmente inimagináveis. Através do desenvolvimento da agricultura de plantação – tabaco, café, cacau, anil, arroz e, principalmente, açúcar – os laços profundos e muitas vezes brutais entre a Europa e África conduziram ao desenvolvimento de uma economia capitalista verdadeiramente global.”

No contexto das expedições henriquinas, em dado momento a Coroa passou a ter acesso regular a grandes quantidades de ouro, o que nos remete para a fortaleza da Mina.

Não estávamos sozinhos na busca do ambicionado ouro, também os Reis Católicos encorajavam a esta região chamada Elmina mediante expedições privadas. D. João II, em 1481, ordenou a construção de um forte ao longo da costa do Gana para proteger o crescente fornecimento de ouro a Portugal de rivais e piratas, construção que ficou a cargo de Diogo da Azambuja. A maior parte do comércio de ouro português tinha estado concentrada em redor de Shama, considerada um porto inadequado, daí a escolha ter recaído em Elmina. Correram bem as negociações com as chefaturas locais. Nascia uma experiência nova, a construção de uma guarnição permanente e fortificada nos trópicos africanos. Este acontecimento decorre em simultâneo com o tráfico de escravos no Atlântico. São Jorge da Mina tornou-se no primeiro de cerca de sessenta postos avançados construídos, ao longo da costa do Gana dos tempos modernos.

“São Jorge da Mina tornou-se o primeiro de cerca de sessenta postos avançados construídos ao longo da costa do Gana dos tempos modernos, nos três séculos que se seguiram, por um conjunto diversificado de nações europeias. A primeira vaga de construção de postos avançados tinha como objetivo a obtenção de ouro. Só muito mais tarde, a partir da década de 1640, é que esta região se tornou uma importante fonte de escravos, muito depois de outras regiões como a Alta Guiné, o Congo e Luanda. No século XXI, o Castelo de Elmina, como é hoje chamado o Forte de São Jorge da Mina, é tão sólido e bem construído como parece, visto à distância do cume da colina a que escalei para admirá-lo.
Hoje em dia, multidões de visitantes acorrem ao castelo para visitas guiadas aos andares do topo, que abrigavam o governador e os seus oficiais superiores, às masmorras, situadas mesmo ao lado do pátio, por baixo, e à famosa Porta sem Retorno, por onde os escravos saiam para os barcos em direção às Caraíbas, ao Brasil e, mais tarde, às colónias britânicas na América do Norte. O metal foi o motor da história que conduziu os portugueses até aqui. E assim se desencadearam os eventos que se seguiram, desde as descobertas espanholas do Novo Mundo até ao lançamento das economias de plantação que, quase literalmente, ‘aspiravam’ os africanos cativos para as longínquas costas do Atlântico.”


Portanto o ouro foi o motor. Como observa o autor, desde a conclusão do forte em Elmina até meados do século XVI, a caravela portuguesa vai e vem até à Costa do Ouro, com uma média de 46 a 57kg de metal precioso por mês. O tesouro do reino, anteriormente conhecido como Casa da Guiné, foi renomeado Casa da Mina e transferido para o próprio edifício do Palácio Real. Por si só, o comércio com Elmina levou a que as receitas reais portuguesas quase duplicassem nos últimos vinte anos do século XV.

Em 1506, o ouro da região de Elmina ainda constituía ¼ das receitas da Coroa. A Costa do Ouro gerava cerca de 680Kg de ouro para Portugal ou, estima-se cerca de 1/10 de toda a oferta mundial de ouro naquela época. Esta enxurrada de metal precioso impulsionou uma complexa integração económica baseada no comércio a longa distância. Para adquirir ouro africano ofereciam-se manilhas e armas de fogo. Tendo descoberto que a lã e linho eram pesados impróprios para os trópicos, os portugueses começaram a usar algum do seu ouro de origem africana para comprar algodões indianos.

Esta quantidade de ouro era tão estimada que a alardeada busca de uma rota para a Ásia ficou suspensa, deu-se prioridade a continuar a identificação de outras jazidas de ouro em África. Os portugueses enviaram embaixadas a Tombuctu, tinham a expetativa de monopolizar o mercado de ouro a partir do Sahel. Empreendeu-se uma grande embaixada ao reino no Congo, em 1491, um projeto repleto de padres e artesãos. Portugal durante anos não deu continuidade ao progresso alcançado por Bartolomeu Dias no Oceano índico, o país estava demasiado ocupado em África.

Howard French observa que há uma outra perspetiva completamente distinta sobre o impacto histórico do ouro proveniente da África Ocidental. Este ouro teria contribuído para o financiamento de novas frotas e missões de exploração em várias latitudes, mas primeiro prosseguiu-se a Costa Africana a partir de 1497. Ele diz mesmo que o gigantesco ouro da Mina proporcionou à Coroa o desejo de descobrir ainda mais ouro em África; bem como, tronou possível a Portugal acompanhar o ritmo da Espanha no seu percurso acelerado de exploração oceânica. E recorda o encontro entre Colombo e D. João II. Estava em curso o Tratado de Tordesilhas de 1494, os dois países ibéricos tinham dividido as terras recém-descobertas fora de Portugal. Porventura, depois de conversar com Colombo, o rei português ficara esclarecido que a rota asiática não estava em perigo.

Veremos seguidamente como se instalou o tráfico negreiro e os seus circuitos.


Professor Howard W. French

(continua)
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Notas do editor:

Vd. post da série de 14 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28260: Notas de leitura (1949): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (1) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 17 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28266: Notas de leitura (1950): "Gente Acenando Para Alguém Que Foge", de Paulo Faria; Minotauro, 2020 (2) (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28271: Historiografia da presença portuguesa em África (540): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (8): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 18 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
Devo uma explicação ao leitor, estou a fazer uma tradução livre da narrativa do capitão Brosselard, um belo francês do século XIX, tenho três dicionários de francês à frente e nem sempre tenho sucesso com a escolha das palavras mais adequadas e fico sempre com a noção de que a fluidez destas descrições não é das melhores, isto somente para pedir a benevolência do leitor, sou um tradutor improvisado. Temos aqui a viagem do tenente Clerc que anda a explorar o Cacine e descobriu que não é um rio é um braço de rio. De facto a Guiné só tem dois rios se entendermos que um rio tem de ter nascente e foz, são o Geba e o Corubal. O fascinante desta digressão é a descrição dos meandros e confluência de riachos à volta do Cacine, os cenários estão diferentes na maré-alta e maré-baixa. Outro membro da comissão francesa, o Sr. Galibert, tentou explorar o ponto alto do rio Cogon, encontrou obstáculos intransponíveis, mas vai premiar com uma cena espantosa de caçada ao hipopótamo.

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 8
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".

Vimos no texto anterior que o Capitão Henri Brosselard determinou ao Tenente Clerc que fosse explorar as proximidades do rio Cacine, deu-se a particularidade de quando este e a sua comitiva chegaram a Ahmadu-Boubou, onde pernoitaram, passaram por povoações que nunca tinham visto um branco. No dia seguinte à pernoite no entreposto de Ahmadu-Boubou a pequena coluna transpôs com a baixa-mar os braços do rio de Kakondum e com muitas dificuldades por causa do lodo que se estende pelo outro lado do leito, numa extensão de duzentos metros; este lodo é tão mole que nele nos afundamos até aos joelhos.

Após esta peripécia, era preciso seguir na direção de Cacine através de um caminho atravessado por pântanos e era muitas vezes necessário caminhar neste leito lodoso por causa da vegetação muito cerrada que bordeja as margens. De resto este caminho só é praticável na maré-baixa porque na maré-alta a água sobe um metro nos pântanos.

Este rio tem um aspeto imponente porque as suas águas são límpidas e correm sobre uma areia dura; o rio banha uma das regiões mais selvagens, onde o homem parece pouco conhecido e pouco temido pelos animais, porque todos, aves aquáticas, macacos, serpentes, caimões e crocodilos, ficam ao alcance de tiros de espingarda e parecem olhar os viajantes com espanto. O guia assegurou que, apesar da maré estar a subir, era possível passar a vau. Os atiradores e os homens da escolta, inteiramente nus, colocaram à cabeça tudo quanto levavam e apesar dos buracos em que se podia cair a qualquer instante, atravessaram o rio com água até ao queixo.

O guia voltou à outra margem para buscar os pertences do tenente, mas a enchente e a profundidade do rio tinham aumentado, ele perdeu o pé no regresso e deixou cair a sua carga. Apesar da ajuda dos seus companheiros que se lançaram à água e mergulharam, dando o seu melhor, tudo se perdeu.

Tomou-se o caminho que conduzia à aldeia de Ahmadu-Boubou. O chefe da localidade, ou melhor dito, o proprietário, estava ausente; mas a sua mulher, uma negra muito bela, ofereceu ao tenente, em nome do seu senhor, uma generosa hospitalidade. Ahmadu-Boubou, disse ela, gosta muito dos franceses; ele foi educado na Gorée e ele fala fluentemente a vossa língua: ele ficará muito satisfeito por um branco de França ter dormido sob o seu teto!

A casa de Ahmadu-Boubou era em terra batida, estava coberta de colmo e lembrava precisamente as casas rurais que se encontram na Baixa-Normandia. O interior era composto de quatro grandes divisões; uma delas, a mais confortável, servia de quarto do proprietário; nela ficou instalado o Tenente Clerc. O mobiliário, relativamente luxuoso, compunha-se de uma cama de ferro revestida com um mosquiteiro, lençóis muito brancos e com uma coberta acolchoada; diante da cama, uma espécie de baú em carvalho, e sobre o pano que o cobre havia cadernos e livros, entre os quais uma história em França do padre Gaultier e uma gramática francesa de Noël et Chapsal.

O Tenente Clerc chegou à tardinha a Cantaguiès, residência de Toly-Bey e no regresso prometeu uma recompensa aos negros que encontrassem a sua bagagem que ficara no rio. A notícia espalhou-se na povoação de Ahmadu e até em Cantaguiès, e à noite, pelo luar, mais de vinte negros mergulharam para obter a recompensa anunciada. Após muitas horas de esforços penosos, as suas pesquisas foram coroadas de sucesso.

No dia seguinte o tenente regressou ao Cacine numa piroga. A oito quilómetros do vale que se tinha atravessado na véspera, a maré deixara de se sentir e o rio recuara bruscamente. Não era mais do que um riacho pantanoso e arborizado.

O Cacine, por conseguinte, pode ser considerado como um braço de mar, mais do que um rio. O tenente tornou a descer o Cacine até à confluência com o braço de rio de Kakondum, neste sítio o rio atinge uma largura de 400 metros; as margens são arborizadas, o aspeto é do mais selvagem possível. Ele subiu então ao braço do rio de Kakondum, o qual tem uma largura de 100 metros, mas que recua rapidamente e então não tem mais de 10 metros na parte superior do seu curso.

O explorador das fontes do Cacine regressou a Ahmadu-Boubou com a sua pequena coluna, tomou depois a direção de Compony para fazer o reconhecimento da região de Tchiermo até Kandenbel e regressou a Kandiafara a 21. Enquanto o Tenente Clerc explorava o Cacine, o Sr. Galibert dirigiu-se para o braço do rio de Nalouel, com três estivadores, num barco à vela. Atingiu duas escalas usadas pelos comerciantes, situadas nas margens opostas deste braço do rio, a sete metros da confluência do Cogon. Estas duas escalar têm o nome de Nalouel e de Gadamael e dão o seu nome ao rio. A maré faz-se sentir até à altura destas duas povoações. A montante, a vegetação cobre o rio e torna-se impossível toda e qualquer tentativa de navegação.

Convidado a tentar explorar o alto Cogon, o Sr. Galibert não pôde, devido à sua fraca embarcação mais do que saber a alguma distância acima da barreira de Kandiafara, a cerca de 7 mil metros acima deste ponto. Chegado a esta distância, o rio separa-se em dois braços, um corre debaixo das árvores entrelaçadas e o outro estreita imediatamente. Rio cheio de pedras, mas a água é muito clara e profunda. Acostou num baixio, marcado por vestígios de hipopótamo, debaixo de um caramanchão de verdura. Perto havia uma planície de ervas secas muito altas; deitou-se fogo, enquanto alguns homens foram caçar e em menos de 20 minutos trouxeram um antílope e uma corça. Há muitos hipopótamos no Cogon; em Kandiafara vê-se a toda a hora as suas grossas narinas à superfície da água e ouvem-se permanentemente as suas poderosas fungadelas. Estes grandes paquidermes são perigosos para a povoação.

Segue-se uma espantosa descrição da caça ao hipopótamo, será tema de substância no próximo texto.


Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Carta da Guiné em 1897, proveniente do Arquivo Histórico Ultramarino, houve depois alteração de fronteiras
Esta carta das populações da Senegâmbia e do Alto Níger é muito mais do que uma curiosidade, permite-nos observar o posicionamento no que vai ser a Guiné Portuguesa, veja-se a importância dos Soninqués, dos Nalus, Mandingas e Fulas
Postal antigo da Guiné Francesa, fala-se aqui de povoações por onde andou o capitão Henri Brosselard
Postal antigo da Guiné Francesa, cerimónia religiosa dirigida por um Almami

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 12 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28257: Historiografia da presença portuguesa em África (539): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (7): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28266: Notas de leitura (1950): "Gente Acenando Para Alguém Que Foge", de Paulo Faria; Minotauro, 2020 (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 19 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
Nunca pensei que esta dimensão romanesca dos descendentes dos antigos combatentes irem visitar os locais onde os seus pais combateram tivesse tão largo lastro, existem obras comprovativas de tais viagens, como veremos mais adiante. Esta narrativa de Paulo Faria anda quase sempre no fio da lâmina, se o móbil principal da viagem de Carlos a Moçambique é a busca de uma criança nativa que o pai a mimou, acompanhado por outro, o furriel Gamito, acontecerão coisas naquele país ainda cheio de escombros, mas há um ritmo alucinante em que no presente da viagem a memória se povoa de casamentos disfuncionais, de apelos patéticos em que a mulher amada não se vai embora, enquanto se procura Artur em todos os desencontros e encontros, e na torrente dos destroços o protagonista tece uma belíssima epifania ao neto que vai nascer. Romance original, uma singularidade que emocionará quem combateu e procura o melhor destino para esta literatura de regressos, que ainda nos dá agradáveis surpresas como esta.

Um abraço do
Mário



Em Moçambique, à procura de lembranças do pai, alferes miliciano médico:
Viagem de expiação familiar, escrita de sublimação para encontros e desencontros - 2

Mário Beja Santos

Esta "Gente Acenando para Alguém que Foge", de Paulo Faria, Minotauro, 2020, é para efeitos práticos continuação de outro título do mesmo autor, "Estranha Guerra de Uso Comum", publicado pela Ítaca, 2016. De novo assalta à memória uma vida familiar lacerada, o autor diz-nos agora no prólogo que “A infância extingue-se no dia em que percebemos que os nossos pais nos sonegaram a parcela mais preciosa do seu afeto. Sem o sabermos, acumulamos visões que nos irão perseguir para sempre.” Retoma-se a duríssima memória daqueles pais divorciados que se reencontravam lá em casa da mãe pela sexta-feira à tarde, antes dos dois filhos seguirem para casa dele e da madrasta, tudo dissimulado, como se aquelas crianças não acabassem por perceber o que se passava no quarto, uma aprendizagem da hipocrisia e do cinismo. Só que a partir daqui a prosa entra numa cavalgada, o palco enche-se de inúmera gente, ficamos a saber que Carlos Silveira já está em Nampula, encaminha-se para Cuama, Niassa, vai à procura de Artur, uma criança muito mimada pelo pai, alferes miliciano médico e pelo furriel Gamito, história já contada no livro anterior.

Estamos em Cuamba, Carlos Silveira é apresentado a muita gente, e subitamente vê-se envolvido como colaborador num projeto-piloto para países muito pobres e muito grandes, onde não há dinheiro para montar uma rede elétrica decente. “O projeto tinha todo o ar de coisa para inglês ver, de gota de água no deserto, os técnicos da EDP eram arraia-miúda, putos de vinte e tal ou trinta anos, mandados até este fim do mundo para se esfalfarem a trabalhar, para passarem por vendedores de ilusões e por fracassar, para apanharem uma doença com um nome impronunciável, para fazerem currículo. O Chinelinhas era meio careca, tinha uma barbicha que cofiava com ademanes de filósofo, vestia uns calções com muitos bolsos de vários tamanhos e uma t-shirt branca, calçava umas chinelinhas pretas de enfiar no dedo e pisava o chão como se o apagasse carinhosamente.” E, mais adiante: “O Caixa-de-Óculos, o outro engenheiro, era um rapaz castiço, sempre a usar onomatopeias e interjeições para dar vida às histórias que contava.” Há mais gente, como o Mário, economista, Anita, uma engenheira do ambiente, e outros mais.

Como se anotou no texto anterior, um dos aspetos mais talentosos deste romance é a forma como se embrecham memórias no tempo presente, em que está a decorrer a viagem à procura de Artur, o que obriga o leitor a ir fazendo a sinalização subliminar dos tempos e lugares, a filha mais velha, de nome Camila, o seu namorado, de nome Armando, são memória bastante viva que se insere nas peripécias do inquérito, bem tormentoso e acidentado, por sinal, estamos a ler numa linha oscilante entre o cinema São Jorge e aquele aparatoso inquérito que, tanto quanto parece, está destinado a não servir para coisa nenhuma.

A viagem de Carlos parece ganhar luminosidade com tudo o que se passa naquele inquérito, o afã de preencher questionários, as promessas de trazer eletricidade, a surpresa de encontrar numa povoação o escombro de um tanque de guerra, as conversas soltas entre os membros da equipa de projeto, os equívocos na comunicação, as confianças em grau efémero, e a memória daquele viajante que foi a um ponto de Moçambique à procura de um homem que foi a criança que o pai acarinhara, que tem momentos inesperados como este, no meio da girândola dos inquéritos e questionários frente a gente embasbacada:
“Escrevi o meu romance sobre a guerra para desapossar o meu pai do exclusivo da narrativa bélica, para o destronar, para escrever o livro que ele próprio não foi capaz de escrever. Para reescrever as histórias da guerra dele, para as extirpar da mentira posterior. Para o enobrecer. Fi-lo à custa dos outros veteranos, que viram as suas narrativas reformuladas, subordinadas à infelicidade do meu pai, por mim usurpada. Escrevi o meu romance para, com o engodo da Guerra Colonial, contar aos veteranos uma outra guerra, a minha.”

E a narrativa agora muda de registo, é a memória da mulher encalacrada com dívidas, aquela Amália a quem o narrador pede repetidamente que não se vá embora, de novo saltamos para outro lugar e outro tempo, os almoços anuais do batalhão do pai, outras conversas se intercalam, há um telefonema ao furriel Gamito, o outro militar que também desvelava pela criança Artur, para lhe comunicar que nesse almoço anual, realizado em Aveiro, ele encontrara o quarto alferes da companhia, de nome Cristóvão Rosado, novas advertências são transmitidas ao autor, são discordâncias entre o que está posto no romance e o que efetivamente se passou na guerra havida naquele ponto de Moçambique.

Entra em cena o ex-alferes Cristóvão Rosado, tem direito a farto soliloquio, acaba estafado e garantindo prova de vida: “Chegou altura de comunicar, se é que não é tarde demais, se é que ainda vou a tempo. Vou tentar escrever o meu relato. Nunca me envergonhei de ter sido combatente. Foi justa ou injusta, a guerra do Ultramar? Pouco importa. O que conta é se foi justa ou injusta a forma como a fizemos, isso é que conta.”

Caminhamos para o local onde Carlos Silveira espera encontrar aquele que foi o Artur menino, estamos em Chicôco, que é Velho ou Novo, no caso estamos em Chicôco Novo, quando Carlos sai do jipe, foi rodeado por garotos descalços, “uns vinte ou trinta, andrajosos, de olhos enormes, cheios de uma estupefação genuína, só possível nos filhos da miséria, garotos que segredavam uns aos outros frases em macua e se riam.” O guia, Pedro indica onde fora a vivenda do administrador e o respetivo posto, fala-se na palmatória para castigar as mãos do régulo, castigo até o sangue rebentar. Carlos conversa com os velhos da aldeia, reconhecem a fotografia do médico António Silveira, encaminham-se para o que fora o quartel, é nessa altura que Carlos mostra a fotografia de Artur com o furriel Gamito, há muitas evasivas, pergunta-se pela mãe, há novos fogachos da memória, consulta-se outro velho, Baltazar Mihaca, é o final da viagem, foi há muito tempo, a fotografia não fala para o presente, parece que Artur fica condenado num túnel às escuras.

Mas o final do romance é vibrante, Camila está grávida, anuncia o pai que se nascer rapaz será Artur, tudo irá culminar em epifania e hossana:
“És a grande ilusão, és o primeiro passo para me apaziguar. És tão pequeno, não tenho o direito de te sobrecarregar com esta responsabilidade, de te atirar para cima dos ombros um peso assim. És o meu neto. És meu. Respira, ocupa espaço, não deixes nenhuma pedra por virar. Trava os teus combates, os teus, não os dos outros, faz sempre diferente do que vires fazer.”

No posfácio, Djaimilia Pereira de Almeida empunha uma observação que trás luminescência a toda esta trama: “Nascemos para um mundo previamente dinamitado, contrafeito, em luto por mortes a que somos alheios, ressentido, amargurado com mentiras que não nos lembramos de ter contado a ninguém ou de nos terem sido segredadas, tal como os nossos filhos nascem para as nossas guerras e esquinas, sem nem eles nem nós nos apercebermos. Nascemos para as grandes mentiras das gerações passadas e aguentamos a maré com pequenas mentiras, o que não significa que amemos menos aqueles que vivem connosco.”

Vale a pena insistir: um belíssimo romance.


Paulo Faria
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Notas do editor:

Vd. post de 10 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28255: Notas de leitura (1948): "Gente Acenando Para Alguém Que Foge", de Paulo Faria; Minotauro, 2020 (1) (Mário Beja Santos)

Último posta da série de 14 de agosto de 2026 >
Guiné 61/74 - P28260: Notas de leitura (1949): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (1) (Mário Beja Santos)