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segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28403: In memoriam (590): António Dâmaso (ex-srg-mor pqdt) (1940-2026): Textos publicados no blogue dos Especialistas da BA12 - Parte V: Recordações amargas de Gadamael (2)




Foto nº 1A, 1B, 1




Foto nº 1, 1A




Foto nº 3A, 3B, 3


Legendas: 

Foto nº 1 > Gadamael Porto no tempo dos BCP 12, junho/julho de 1973,
Foto nº 2 > Vista parcial, desoladora,  do quartel de Gadamael Porto: em primeiro plano o Obus 14; o fundo, o reordenamento.
Foto nº 3 > Gadamael Material capturado pela CCP 121 / NCP 12  na acção “Cobra Ondulante” em 23 de junho de 1973
 
Guiné > Região de Tombali > Gadamael > junho / julho de 1973 > BCP 12 >
Fotos originais, a preto e branco, publicados pelo António Dâmaso, oriundas da Hstória do BCP 12 (que julgamos não ser de livre acesso na Net)

Restauro, melhoria técnica e colorização: LG + IA (Gemini / Google) (2026)



1. Em 1973, o 1º srgt paraquedista António Dâmaso, natural de Odemira, a exercer a função de 2º cmdt do 3º Gr Comb / CCAÇ 121 / BCP 12, depois de ter perdido 3 dos seus homens no Cufeu, de má memória, a caminho de Guidaje (Op Mamute Doido, 23 de maio de 1973) , é enviado para reforçar a defesa de Gadamael, no sul da Guiné, região de Tombali, junto à fronteira (Op Dinossauro Preto, Gadamael, 2 jun - 17 jul 1973). A CCP 121 chegou a Gadamael, pelo rio, em em LFG e depois em LDM, a 12 de junho de 1973. Foi juntar-se às restantes subuniddaes do BCP 12: CCP 122 e CCP 123.

Ele escreveu, na primeira pessoa do singular, como viveu e sobreviveu à dura batalha de Gadamael, sempre operacional, e mesmo doente. (À mesma CCP 121/BCP, 2º Gr Comb, pertenceu o nosso amigo e camarada Victor Tavares. ex-1º cabo pqdt,  do 2º Gr Comb, apontador de MG42, natural de Águeda.)  

Este segundo texto, sobre as recordações amargas de Gadamael, foi inicialmente publicado no Bogue Especialistas da Base Aérea 12, Guiné 65/74 > sábado, 12 de março de 2011 Voo 2197: Gadamael Porto (2)

É agora republicado, com melhoria das imagens (que o acompanhavam, a preto e branco), em homenagem a este camarada do BCP 12 que em vida nos honrou com a sua presença, ativa e produtiva, na Tabanca Grande, bem como em homenagem a todos os nossos camaradas que participaram na Batalha dos 3 G (Guidaje, Guileje e Gadamael) (maio-julho de 1973). Foram, sem dúvida,  os melhores soldados de Portugal durante toda a guerra colonial / guerra do Ultramar. Infelizmente, eram poucos, um batalhão em cada TO. No presente caso, foram eles que aguentaram e salvaram Gadamael, em maio, junho de julho de 1973.

Dâmaso, herói de Guidaje (pela sua atuação sob intenso fogo IN, na emboscada à CCP 121, no Cufeu, em 23 de maio de 1973) rompeu, em vida, 40 anos depois, uma cultura de silêncio, pudor ou  reserva que parecia impedir que certos comportamentos internos dos paraquedistas chegassem ao conhecimento público. E fê-lo sem transformar o seu testemunho numa denúncia genérica dos paraquedistas: fala de situações concretas, de pessoas e sobretudo de uma experiência pessoal  numa situação-limite.

Este excerto é particularmente importante porque não é uma acusação feita hoje por terceiros: é o testemunho, na primeira pessoa, de António Dâmaso, publicado em 2011, sobre acontecimentos que viveu em Gadamael em 1973 (entre 12 de junho e 17 de julho). Não é um testemunho contra os paraquedistas, é, precisamente, o testemunho de um paraquedista.

 Não queremos fazer uma acusão gratuita aos nossos camaradas paraquedistas do BCP 12, e muito menis um "provocação",  falando ostensivamente em  “pacto de silêncio”: nunca ouvimos, vimos  ou lemos um  paraquedista utilizar essa expressão. O que o testemunho do Dâmaso permite constatar é que  ele  quebrou o silêncio sobre aspetos negativos (ou menos positivos) da vida operacional e disciplinar do BCP 12 (problemas disciplinares, conflitos, fragilidades do comando, recusas em ir para o mato, doença, stress físico e psicológico, tratamento das praças, situações de privilégio ou outrasque pudes sem atingir a imagem de coesão e de eficácia do Corpo de Tropas Paraquedistas).

Teremos ocasião de voltar a este tema sempre delicado, mas que náo pdoe ser tabu: afinak, a guerra j+a acabou há mais de meio-século e quem a fez está a desaparecer lenta mas inexoravelmente.


1º srgt pqdt António Dâmaso, CCP 121 / BCP 12, CTIG, 1973

Recordações amargas de Gadamael (2)

por António Dâmaso (1940-2026)


Depois de municiados foi dada ordem à minha Companhia, CCP 121, de preparar para sair. O meu pelotão estava completo de graduados pelo que eu não fazia falta. Sabia que mais um homem,  ainda que debilitado, poderia ser uma mais-valia, mas tinha consciência que a minha capacidade estava muito diminuída e que em vez de mais-valia podia tornar-me num empecilho. 

Devido ao meu estado de saúde, pedi ao Comandante de pelotão para me dispensar, para ir ao médico. Disse que não era com ele,  que era com o comandante de Companhia. Este apontou para o segundo Comandante do batalhão, este por sua vez mandou-me para o primeiro Comandante. 

Aquilo caiu-me mal, até ali tinha dado tudo o que tinha, passei-me e,  numa folha de bloco de carta, fiz um requerimento a pedir para ser submetido a uma junta médica, uma vez que me queriam obrigar a ir para o mato sem estar em condições de saúde para o fazer. Não queria que os homens,  que sabe Deus como se arrastavam, tivessem de andar comigo às costas. 

Enquanto andava nestas andanças,a Companhia saiu sem mim.

Não saí e assumi a responsabilidade. Mais tarde fui chamado ao segundo Comandante para me devolver o requerimento que eu tinha entregado a pedir a junta médica. 

Fiquei à espera e só me deixaram ir ao médico no dia em que a Companhia foi descansar em Cacine. Nessa altura já o meu estado de saúde se tinha agravado mais.  Enquanto estive à espera,  fui-me aguentando como pude. Levavam-me comida que já era difícil de tragar para quem tinha saúde e apetite. 

Como não dispunha dos dois,  fui bebendo umas cervejas bem “quentinhas”,  duma caixa que tinha comprado quando lá cheguei. Cerveja mesmo quente já era um luxo, mas o instinto de sobrevivência lá me ia dando forças para me deslocar para a vala,  sempre que haviam flagelações. 

Neste espaço de tempo em que estive sem assistência, tive conhecimento de dois alferes e de um ou dois furriéis que se negaram a ir para o mato, mas não por motivos de saúde.

Algumas praças de outra Companhia,  por estarem muito debilitadas, ao não acompanharem os seus pelotões na saída para o mato, foram selvaticamente agredidas pelo Comandante de Companhia, que gostava de sovar praças indefesas e “turras” com as mãos atadas atrás das costas.
 
No Quadro do Batalhão havia um médico, mas este ficou no Posto de Socorros de Bissalanca. 
Havia um médico do Exército em Cacine, um alferes miliciano.  Só fui presente ao médico em Cacine no dia 19 de junho de 1973, puseram-me a soro e lá fiquei enquanto o soro corria. Estive a ouvir as queixas dos militares da minha Companhia, pareciam tiradas a papel químico: “Cansaço, falta de apetite, insónias, dores de cabeça, os nervos arrasados, etc.” 

De repente chegou uma catrefada de feridos da CCP 122, uns mais outros menos grave. tinham caído numa emboscada, os ferimentos era quase todos por estilhaços de granadas RPG 2. Lembro-me que um deles era sargento e ficou incapacitado. Com a chegada dos feridos as consultas foram interrompidas até fazer as evacuações para Bissau e tratar dos mais ligeiros, Depois fui medicado e fiquei em convalescença até 27 de junho de 1973.

Entretanto a Companhia acabou o curto período de descanso e regressou novamente a Gadamael Porto, eu ainda estava de convalescença, mesmo assim gostavam tanto de mim que queriam que fosse com eles. Só não fui porque o Comandante da Companhia não me encontrou, mas fui quando esta acabou.

Saudações Aeronáuticas

A. Dâmaso

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)
 _________________

Nota do editor LG

Último poste da série > 1 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28393: In memoriam (589): António Dâmaso (ex-srg-mor pqdt) (1940-2026): Textos publicados no blogue dos Especialistas da BA12 - Parte IV: Recordações amargas de Gadamael (1)

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28350: Verso & reverso (5): (i) PIB do território na época da guerra colonial; (ii) "armazéns do povo"; (iii) peso da economia informal; (iv) realidade e propaganda



Fonte: PAIGC - História da Guiné e Ilhas de Cabo Verde. Porto: Edições Afrontamento. 1974

O PAIGC promovou a criação dos Armazéns do Povo por decisão tomada no 1º Congresso de 1964. O objectivo  era garantir o fornecimento de artigos de primeira necessidade à população sob o seu controlo ("áreas libertadas"), por meio de troca, receber produtos agrícolas que deveriam em seguida escoar-se para o exterior, criando-se e desenvolvendo-se assim, progressivamente, a base de um comércio externo. O número de Depósitos dos Armazéns do Povo terá passado  de 6, em 1964, para 16, em 1969.








O elogio dos "Armazéns do Povo"... Fonte: Excerto do relatório da Missão Especial da ONU na Guiné, Abril de 1972, pág. 8 (*)



1. Perguntámos à IA (ChatGP / Open AI) : (i) qual era o PIB (Produto Interno Bruto) da Guiné (hoje Bissau), no tempo da guerra colonial e da luta pela independência; e (ii) qual o peso da economia informal ?


Transmitimos a nossa impressão de que nas "áreas libertadas" do PAIGG havia os "Armazéns do Povo", mas era um mito, mais propaganda do que realidade económica...

No nosso tempo, e no decurso de operações militares, as NT podiam destruir algumas dezenas de toneladas de arroz, além de gado bovino e criação doméstica (estimativas, nalguns casos exageradas, mas que ficavama bem nos relatórios militares, como durante a Op Lança Afiada, Sector Leste, L1, 8-19 de março de 1969).

A verdade é que os famosos "Armazéns do Povo" colapsaram no tempo da economia planificada imposta pelo regime de Luís Cabral... Podiam ter funcionado pontualmente fora das fronteiras, no Senegal e na Guiné-Conacri, nas "bases recuadas" do PAIGC (com o Boké, Kandiafara, Conacri...) mas dificilmente nas "áreas libertadas" (cuja superfície, de resto, nunca foi sequer estimada, a não ser grosseiramente, e para efeitos de propaganda).

Na realidade, o PAIGC desde cedo, e ainda com o Amílcar Cabral vivo, reivindicou o controlo político-militar de 2/3 do território...Criou-se até o mito de que a Guiné, no fim do mandato do gen Arnaldo Schulz, estaria à beira do colapso militar...

O exército português, pelo menos no tempo do gen Spínola, como governador e comandante-chefe (maio de 1968 - agosto de 1973) entrava em todo o lado, incluindo o Cantanhez, na zona sul, e o Óio, na zona oeste, e em todo o lado na zona leste.

2. Não deixa de ser muito interessante, a resposta de várias ferramentas de IA que consultámos e pusemos em confronto, e de que reproduzimos o essencial neste poste e eventualmente noutros, da série "Verso & reverso" (**). Comecemos pelo ChatGPT.

"Camarada, aqui entramos num terreno muito escorregadio, porque a então Guiné Portuguesa praticamente não tinha estatísticas económicas fiáveis durante a guerra (1963-1974), e muito menos contas nacionais completas comparáveis às de hoje"

O conceito moderno de PIB (Produto Interno Bruto) era ainda rudimentar na colónia, e a esmagadora maioria da atividade económica escapava à contabilidade oficial. Recorde-se que o PIB é a medida monetária do valor de mercado total de todos os bens finais e serviços produzidos e prestados durante um período específico (normalmente um ano) por um país ou região; os principais componentes do PIB são: o consumo, os gastos do governo, as exportações líquidas (exportações menos importações) e o investimento; a alteração de qualquer um desses fatores pode aumentar o tamanho da economia.

Façamos então uma aproximação à realidade histórica.

(i) O que era a economia da Guiné nos anos da guerra ?

Assentava em cinco pilares:
  • agricultura de subsistência (arroz, milho, mandioca, coconte, óleo de palma);
  • exportações primárias: amendoim ("mancarra"), coconote (semente donde se extrai o óleo de palma ou dendê), algum pescado;
  • comércio africano informal (“djilas”, “bideiras”);
  • despesa militar portuguesa;
  • administração colonial.
A guerra acabou por distorcer tudo. A partir de meados dos anos 60, o principal “motor económico” passou a ser, paradoxalmente, a presença militar portuguesa: salários, construção de quartéis e outras infraestruturas, reordenamentos, transportes, abastecimentos, importações, contratos locais, serviços (lavadeiras, caçadores, guias, picadores, etc.). A Guiné deixou de ser autossuficiente em arroz, e passou a importar arroz, por exemplo. Muitas populações estavam dependentes do fornecimento de arroz pela tropa e pela administração do território.

(ii) Um PIB modestíssimo: entre 2,5 a 4 milhões de contos

As estimativas variam muito conforme as fontes (portuguesas, francesas, Banco Mundial retrospetivo e estudos da ONU posteriores à independência).

Em valores correntes da época, o PIB anual da Guiné Portuguesa no final dos anos 60/início dos 70 terá andado grosso modo entre 80 a 150 milhões de dólares da época (ou cerca de 2,5 a 4 mil milhões de escudos portugueses antigos, ou seja 2,5 a 4 milhões de contos). (Durante o sistema de Bretton Woods, ou seja, até 1971/1973, a taxa de câmbio oficial do escudo português manteve-se fixa em aproximadamente 28,75 escudos por 1 dólar USA).

O PIB "per capita" da Guiné Portuguesa na viragem da década de 1960 para 1970 (e ent~´ao com uma população estimada enter 530 e 580 mil habitantes, 
excluindo parte substancial do contingente militar metropolitano ali fixado), situava-se entre os 150 e os 300 dólares por ano (aproximadamente 4,3 a 8,6 contos), dependendo do ano específico e das estimativas populacionais utilizadas"

Per capita", era uma das economias mais pobres do império português, seguramente abaixo de Angola , Moçambique, Cabo Verde, São Tomé. Só Timor talvez estivesse em situação semelhante.

(iii) Comparação do PIB "per capita" no  contexto do Império e da Região (c. 1970)

  • Portugal Metropolitano: ~930 USD per capita (~26,7 contos).

  • Angola e Moçambique: Angola situava-se claramente acima (impulsionada pelo petróleo, café e diamantes, ultrapassando os 300–400 USD per capita), enquanto Moçambique oscilava numa gama intermédia superior devido aos serviços portuários e agricultura de rendimento.

  • Cabo Verde e São Tomé: apresentavam rendimentos médios superiores aos da Guiné, fruto de maiores taxas de urbanização e economias de plantation/serviços.

  • Timor Português: era o único território imperial que rivalizava diretamente com a Guiné nos patamares mais baixos de rendimento per capita (frequentemente abaixo dos 100–150 USD).

 Na Guiné Portuguesa do final dos anos 60, este valor médio dissimulava duas realidades profundamente distintas:

  • economia monetarizada / urbana (Bissau, Bafatá, Bolama): concentrada no comércio colonial, na administração pública e no forte consumo gerado pela presença das Forças Armadas Portuguesas, que sustentava artificialmente o setor de serviços e importações.

  • economia de subsistência rural: a grande maioria da população autóctone vivia da agricultura de subsistência (arroz, mancarra/amendoim), cujos circuitos escapavam em larga escala à contabilidade nacional oficial; adicionalmente, o estado de guerra a partir de 1963 desarticulou a produção agrícola tradicional em vastas zonas do interior, acentuando a dependência de subsídios e transferências da Metrópole.


Depois da independência (1974/75), a economia formal praticamente entrou em colapso parcial por múltiplas razões: "cofres do Estado vazios"; saída de quadros portugueses e inexistência ou insuficiência de quadros técnicos locais (apesar do esforço de formação de cabo-verdianos e guineenses que foram para a URSS, China, Cuba, Suécia);  rutura logística; queda brutal do comércio externo; nacionalizações (a começar pelo pequeno comércio, substituído pelos Armazéns do Povo); hostilização dos pequenos comerciantes (portugueses, libaneses e cabo-verdiano), dos poucos que ficaram; administração central praticamente inexistente; seca e desorganização produtiva. 

A Guiné-Bissau passou a viver da "caridade internacional" (doações)... Meio século depois o PIB da Guiné-Bissau será da ordem dos  2,5 mil milhões de dólares, o que dá um o PIB "per capita" nominal de cerca de 800 a 1.000 dólares por ano (dados do Banco Mundial e FMI).

Em termos estritamente nominais, o valor atual é cerca de 3 a 5 vezes superior. No entanto, esta comparação direta é enganadora devido ao efeito da inflação do dólar ao longo de mais de meio século (100 dólares de 1970 equivalem a mais de 800 dólares atuais).

(iii) O peso da economia informal e de subsistência

A economia “real” era sobretudo informal, rural e não monetarizada. Os estudos retrospetivos sugerem que:

  • mais de 70% da população vivia quase totalmente da agricultura familiar;
  • grande parte das trocas fazia-se fora do mercado formal;
  • o autoconsumo tinha peso enorme;
  • o comércio fronteiriço “paralelo” com Senegal e Guiné-Conacri era decisivo.

Se usássemos critérios atuais, talvez apenas 20% a 35% da atividade económica passasse pelo “Estado” ou por circuitos contabilizados. O resto pertenceria à economia informal, tradicional ou clandestina.

Ou seja: o “PIB oficial” provavelmente captava menos de metade da riqueza realmente produzida e consumida.

(iv) As “áreas libertadas” e os "armazéns do povo":  realidade e propaganda

Sobre isto, a tua leitura aproxima-se bastante da de muitos historiadores atuais. O PAIGC construiu uma narrativa político-militar muito eficaz: escolas; hospitais; tribunais populares; produção agrícola organizada; "armazéns lojas do povo”; administração paralela; construção do "homem novo"...

Parte disso existiu mesmo. Não foi pura invenção. Mas a escala foi frequentemente exagerada... A estabilidade territorial era muito variável, muitas “zonas libertadas” eram permeáveis. Enfim, o controlo militar português continuava intermitente em vastas áreas.

Tens razão ao lembrar que as tropas portuguesas penetravam regularmente em zonas consideradas “libertadas”: Cantanhez, Óio, Sara, Morés, Choquemone, Cubucaré, Fiofioli, etc., nunca foram espaços estanques. O domínio do PAIGC era mais político e noturno do que administrativo e diurno, permanente, em muitos sítios.

A própria expressão “áreas libertadas” era também um instrumento diplomático, que servia para convencer a ONU e a OUA, legitimar reconhecimento internacional, justificar a generosa ajuda soviética, chinesa e escandinava (e nomeadamente sueca).

 Os “Armazéns do Povo” existiram, mas tiveram, muito provavelmente, mais importância política, ideológica e simbólica do que peso económico estrutural.

Funcionavam sobretudo como pontos de redistribuição; ontrolo político; abastecimento de guerrilheiros e populações sob o seu controlo; tentativa de demonstração de “Estado em construção”.

O problema era estrutural: não havia estradas; o PAIGC só tinham viaturas de transporte, de origem soviética, na Guiné-Conacri e no Senegal; economia não monetirazada; escassez de produção excedentária; dependência externa; guerra constante.

Como tu sugeres, o sistema podia funcionar nas bases recuadas do Senegal e da Guiné-Conacri e junto dos corredores logísticos externos... mas dificilmente no "mato", no interior da Guiné onde o PAIGC não tinha (nem nunca teve) estruturas físicas edificadas (quartéis, armazéns, escolas, hospitais, etc.)

Depois da independência, o modelo de economia centralizada de Luís Cabral colapsou rapidamente por falta de quadros, incompetêncai, incapacidade administrativa, corrupção, nepotismo, contrabando, mercados paralelos, desincentivo à produção, fufa dos campos para Bissau...

Os “Armazéns do Povo” estavam, muitas vezes, de prateleiras vazias... A organização e o funcionamento eram burocráticos, enfim, foram rapidamente ultrapassados pela comércio informal. Até por que a população precisava de comer e sobreviver.

E a ironia ha História: a economia informal que o PAIGC pretendia disciplinar acabou por sobreviver ao próprio modelo estatal revolucionário.

(v) O que sobreviveu realmente ?

Em termos reais (volume de bens e serviços por habitante), o PIB "per capita" atual da Guiné-Bissau é praticamente equivalente ou até inferior ao do período colonial tardio. Ou seja, cinquenta anos depois da "libertação do colonialismo", o nível médio de vida da população (e sobretudo rural) não melhorou.

Vários fatores explicam este estagnação e perda de rendimento real ao longo de cinco décadas:
  • explosão demográfica: a população cresceu de cerca de 550 mil habitantes em 1970 para mais de 2,1 milhões atualmente; o crescimento do produto nacional bruto não conseguiu acompanhar proporcionalmente o ritmo de crescimento populacional;
  • impacto da guerra e instabilidade: a destruição das infraestruturas agrícolas durante a guerra colonial (1961–1974), seguida por sucessivos golpes de Estado, pela guerra civil de 1998/1999 e pela instabilidade política crónica, paralisaram o investimento produtivo a longo prazo;
  • fim do "Efeito de Enclave Militar": no final dos anos 60, o PIB colonial estava fortemente "inchado" de forma artificial pelo enorme consumo e despesa do contingente militar português e da máquina administrativa metropolitana, criando um setor de serviços urbano que colapsou após a independência;
  • monocultura do caju: a economia desindustrializou-se e perdeu diversidade agrária (como a produção de arroz, na qual o país era autossuficiente antes da guerra), tornando-se quase totalmente dependente da exportação da castanha de caju bruta e do setor das pescas.
O que resistiu, antes e depois da independência, foi a importância do "chão", da tabanca, da bolanha, o pequeno comércio africano, as redes familiares e comunitárias, o mercado paralelo, o comércio transfronteiriço, as “bideiras”, os "gilas", etc.

Ou seja: a sociedade guineense profunda mostrou-se, e ainda bem,  muito mais resiliente do que o aparelho colonial português, ou o socialismo de Estado do pós-independência.


Pesquisa: LG + Blogue + IA (ChatGPT / Open AI | Gemini / Google AII)
(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)

3. Recorde-se, aqui, o oportuno e contundente  comentário de Cherno Baldé, nosso colaborador permanente (vive em Bissau), ao poste P23609 (***):


(...) Como em tudo que diz respeito ao PAIGC e a sua "gloriosa luta de libertação", os Armazéns do Povo não passou de mais um mito para Sueco ver.

A rede que, aparentemente, funcionou durante a luta nas chamadas zonas libertadas, eram postos ou depósitos móveis para a distribuição das ajudas dos países Nórdicos, com especial destaque para a Suécia, que contribuía com ajuda humanitária.

Estou em crer que, embora a propaganda do partido fale do povo e da comercialização através da permuta, a realidade dos factos diz-nos que os principais destinatários seriam os guerrilheiros das barracas do interior que, como se sabe, tinham muitas dificuldades de abastecimento.

Caso os famosos Armazéns tivessem funcionado bem no mato em plena guerra, era suposto o sucesso ser maior nas condições do pós-guerra, mas na verdade, os vícios do consumo gratuito e da gestão danosa e irresponsável não permitiram o florescimento desta rede de comércio nacional que estava destinada para substituir o comércio das lojas das casas Gouveia e Ultramarina em toda a extensão do território.

Quando ocorreu o golpe de 14 de Novembro de 1980, embora os Suecos ainda continuassem a fornecer auxilio "humanitário" já com algumas contrapartidas, na verdade, já não restava nada destes Armazéns para além de prateleiras vazias e, de tal maneira que o regime que surgiu do golpe de 'Nino' Vieira foi obrigado, para além de solicitar a ajuda do FMI, uma instituição do capitalismo outrora abominado, a proclamar a abertura ao comércio privado para que o país não morresse de fome.

De salientar que o Consulado do gen Spinola na Guiné tinha criado alguns hábitos de consumo, mormente, no meio da população urbana e não só, que os dirigentes do PAIGC queriam extirpar de raiz, o que criou uma situação de fome e um ambiente explosivo de mal-estar que acabou por desembocar na mudança do regime de Luís Cabral. (...) 



(Revisão / fixação de texto, itálicos, negritos: LG)


sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28274: Verso & reverso (2): Muita honra e pouca glória: a história de Portugal Colonial resumida em três palavras-chave (Cherno Baldé, nosso colaboraor permanente, Bissau)


















Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: Cherno Baldé (2026)
Imagens: Arquivo Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. Comentários (*) de Cherno Baldé, nosso colaborador permanente, natural de Fajonquito,  a viver em Bissau (deppois de ter vivido estudado também em Bafaftá, Bissau, Moldávia, Ucrânia, antigos territórios da URSS, Lisboa;  é hoje consultor independente na área da economia e gestão; tem página no Facebook.


(i) "Muita Honra e Pouca Glória" ou a história de Portugal colonial resumida em 3 palavras- chave.  Gostaria de acrescentar que ttambém os valentes perdem as guerras.

Na Guiné, o soldado português foi bom e firme, enquanto pôde, enquanto os meios à sua disposição o permitiram. Eu testemunhei a firmeza, a bravura desses soldados por mais de 10 anos, em fases e companhias diferentes e,  desses,  poucos eram profissionais ou do quadro permanente, e a partir de 70 quase todos eram milicianos, uma categoria ligeiramente um pouco acima das nossas milicias, voluntárias da sua própria desgraça.

Mas os valentes também perdem as guerras. Eu testemunhei o paradoxo de uma guerra perdida por homens valentes, transformada em vitória efémera a fim de permitir, no máximo,  gossi-gossi,  o regresso a casa, com medalhas, muita honra e pouca glória. (...)


(ii) Na Guiné do pós-25A74, poucos sabem dessa verdade histórica pós-colonial, pois o PAIGC encarregou-se, brilhantemente, de reescrever a história em cujos cenários eles eram os únicos e verdadeiros "Cabras-Machos",  e que a tropa "Tuga" não passava de espantalhos para inglês ver. 

Eu, pessoalmente, sabia que não era a verdadeira história, fazendo despertar em mim os primeiros sinais de desconfiança em relação a um Partido-Estado que se tinha apoderado de tudo e todos, prometendo mel e maná do céu ao povo e às suas ovelhas obedientes.

quarta-feira, 19 de agosto de 2026 às 14:41:00 WEST 
 

(iii) Eu assisti (Cambaju, 1965/66) ao regresso dos homens do alferes Maia (CCAÇ 674), de fardas encharcadas,  depois de 5 dias de emboscadas e nomadizacão na fronteira com o Senegal, entre Solucocum e Cuntima (Colina do Norte).

Estava em Fajonquito aquando do ataque devastador a Cantacunda em 1968 e o sequestro dos 11 soldados do pelotão de metropolitanos da companhia sediada em Geba (CART 1690, 1967/69) e assistimos à pronta reação da companhia de Fajonquito do capitão Alcino de Jesus Raiano (CCAÇ 1685, 1967/69), com o envio de tropas às regiões abandonadas de Caresse e Cola, na tentativa de uma intercessão dos guerrilheiros, o que seria em vão.´

Eu convivi na minha terra com o soldado ("comando") Almeida que, quando havia um ataque numa localidade próxima,  não esperava por ordens ou colunas e corria a pé para não perder a festa do chumbo e da pólvora. 

Eu conheci os intrépidos Capitães do quadro permanente, o Carvalho (CCAÇ 2435) e o Patrocínio (CCAÇ 3549) (**), todos eles grandes homens e soldados que honraram o nome de Portugal em África.

quarta-feira, 19 de agosto de 2026 às 15:21:00 WEST 
 
(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos,links,  título: LG) (***)
 ________________________

Notas do editor LG:


(**) Vd. poste de 3 de abril de 2009 > Guiné 63/74 - P4136: As Unidades que passaram por Fajonquito (José Martins)


sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28247: Notas de leitura (1948): "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições Tinta-da-China, 2026 (4) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 20 de Julho de 2026:

Queridos amigos,
Recomendo sem qualquer hesitação a leitura deste importante estudo organizado por Patrick Chabal e que contou com uma equipa de especialistas de topo que apresentaram estudos sobre as cinco antigas colónias portuguesas africanas. Não é um estudo que aprofunde o pré-colonial, a presença e a colonização em si, a vida dos movimentos de libertação.
A questão fulcral proposta por Chabal e outros é avaliar o primeiro quarto de século da vida destes países independentes, a partir das descolonização, e encontrar pontos de relação entre essas mesmas cinco colónias portuguesas.
O estudo de Joshua Forrest dá-nos conta das governações de Luís Cabral e Nino Vieira, relata o que de fundamental aconteceu no conflito político-militar de 1998-99, no seguimento de outros trabalhos seus não esquece pôr ênfase sobre o afastamento do poder central das comunidades locais e como estas se revigoraram neste quadro de afastamento; o autor procede a uma narrativa que revela como durante esse quarto de século, o povo, mesmo descurado pelo Estado central assumiu energias de subsistência e, espantosamente, sempre que há eleições, vota em soluções genuinamente democráticas.

Um abraço do
Mário



Uma obra historiográfica de referência:
Os primeiros 25 anos das antigas colónias africanas - 4


Mário Beja Santos

É um trabalho magistral, datado de 2002, felizmente agora traduzido com o título "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições Tinta-da-China, 2026; o autor principal foi o eminente académico Patrick Chabal, que dirigiu o Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros do King’s College de Londres, acolitado por outros nomes sonantes da investigação, caso de David Birmingham, Joshua Forrest, Malyn Newitt, Gerhard Seibert e Elisa Silva Andrade. Como escreveu o prefaciador António Costa Pinto, trata-se do primeiro estudo substancial sobre os novos regimes políticos africanos surgir com o fim do colonialismo português, tornados independentes em 1974-75. É, pela força das circunstâncias, um trabalho datado, um quarto de século de independências africanas lusófonas.

Como observa no proémio Patrick Chabal, o livro tem o objetivo de superar a perspetiva especificamente lusófona que penaliza a maioria das descrições da África língua portuguesa, a discussão anda em torno do desenvolvimento destes cinco países. Dedicámos dois textos ao estudo que Chabal fez sobre a África lusófona numa perspetiva histórica e comparada: a guerra e os seus efeitos; o nacionalismo e o exercício político pós-colonial: como se criou a nação e quis construir o socialismo; o que falhou nas experiências do partido único e como se transitou, mesmo nos estados de guerra civil para o pluralismo político. Sendo a segunda parte do livro dedicada à análise dos cinco países, obviamente, atendendo à natureza do nosso blogue, socorri-me do estudo da Guiné-Bissau elaborado por um incontestado especialista da região, Joshua Forrest.

Recapitulando o que se escreveu nos três textos anteriores, temos um longo ensaio de Patrick Chabal, expondo o propósito de uma história abrangente destes cinco países africanos, seguindo-se estudos complementares desses mesmos cinco países de que aqui se dá destaque à Guiné-Bissau. Já se comentou como o PAIGC não se mostrou capaz de atingir os seus objetivos em matéria de construção do sistema político ou do desenvolvimento económico. Nino Vieira viu-se obrigado a abrir o país a eleições multipartidárias, isto numa atmosfera de reconhecimento de que as experiências socializantes tinham caído na água, houvera mau aproveitamento da ajuda internacional quer na saúde, nos transportes e na habitação, ficara-se cada vez numa maior dependência do FMI e do Banco Mundial. O PAIGC iniciou programas de ajustamento estrutural que incluíam o incentivo à iniciativa privada, à desvalorização da moeda, à redução da despesa pública, cortes em subsídios etc, etc. O Governo da Guiné-Bissau recebeu um total superior a 31 milhões de dólares do FMI no período 1987-90 como incentivo para prosseguir as reformas.

Diferentes autores já se pronunciaram sobre o resultado destas reformas. Apareceram empresas privadas ligadas à cultura do caju e da amêndoa de palmiste, e o caju tornou-se a principal cultura de exploração do país. Mas houve consequências bastante problemáticas. A expansão do comércio de import-export saudou-se numa proliferação de “pontas”. Algumas dessas pontas foram originalmente criadas durante o século XIX como explorações agrícolas do amendoim. A expansão dessas pontas no final da década de 1980 e no decénio seguinte refletiu a viragem do Estado pós-colonial para a privatização, tendo sido os seus proprietários, os ponteiros, quem mais beneficiou do empréstimo a médio e a longo prazo associado ao programa de ajustamento estrutural – a maioria destes ponteiros eram altos funcionários do Governo que não tinham competências para transformar as novas pontas em empresas produtivas. Resultado: dinheiro dos empréstimos perdido, a agricultura não melhorou; com as sucessivas desvalorizações disparou os preços dos bens alimentares sociais; não houve crédito para os pequenos agricultores, não se conseguiu estimular o aumento da produção de amendoim. Cresceu a economia informal, as trocas diretas que asseguraram a subsistência da maioria das pessoas. Os bens importados (caso do vestuário, rádios, pilhas e bicicletas) eram trazidos do Senegal ou da Guiné-Conacri.

Deu-se, portanto, uma combinação do comércio informal local com o comércio não regulamentado de longa distância. As reformas do ajustamento estrutural não beneficiaram os pequenos agricultores, mas os ponteiros; houve uma divisão entre os comerciantes privados, predominantemente orientados para a exportação e ligados ao Estado e a grande maioria dos produtores rurais. Cresceu a dependência do regime de Nino Vieira em relação a fontes de financiamento externas, e num contexto de grande debilidade financeira ponderou-se a hipótese de trocar o peso guineense pelo franco CFA, o que veio a acontecer em janeiro de 1997.

O partido do poder ia-se progressivamente afastando da população em geral. Joshua Forrest detalha como foi desaparecendo a presença do Estado na administração regional e comunitária. “Ressurgiu com um particular vigor um conjunto de estruturas sociais e políticas camponesas localizadas, com raízes no período pré-colonial e que nunca tinham sido totalmente capturadas pelo Estado colonial. As lealdades políticas, as redes sociais e os recursos locais passaram a organizar-se mais claramente em torno de bases de poder controladas pelas aldeias e não pelo Estado. Não pretendo afirmar que os camponeses guineenses eram agora contra o PAIGC, mas sim que estavam mais interessados em reivindicar a sua autonomia política relativa.”

Temos, portanto, um Estado que deixou de exercer o controlo direto sobre as comunidades rurais e que nos seus escalões mais elevados de poder central revelava incoerência e discórdia, dominado por uma burocracia interna. Quem estava no topo do poder só podia subsistir reforçando as suas cliques e integrando nelas apoiantes da burocracia e das Forças Armadas. De Luís Cabral a Nino Vieira vão suceder-se golpes de Estado, repressão dos opositores e rutura da unidade interétnica. Agravou-se o conflito até então surdo entre as alas cabo-verdiana e guineense do PAIGC. Num contexto de dificuldades causadas pela escassez de arroz, Nino Vieira organizou grupos de apoio com as Forças Armadas e concluiu um golpe de Estado praticamente sem derramamento de sangue.

O regime de Vieira assumiu um carácter cada vez mais autoritário. Em setembro e outubro de 1999, descobriram-se duas valas comuns, uma perto de Bissau, com 14 corpos de pessoas que se crê terem sido mortas em meados dos anos 90, e outra perto de Mansoa, contendo 22 corpos, aparentemente de indivíduos acusados de conspiração golpista e executados em 1986. A descoberta destas valas fez aumentar o nível de hostilidade popular contra a ditadura de Vieira. O autor dá-nos um quadro da evolução das eleições, demissões sucessivas de primeiros-ministros, o descontentamento das Forças Armadas era por demais evidente, Vieira forçou a destituição de Ansumane Mané, Chefe de Estado-Maior, foi a gosta de água para a rebelião que se iniciou em 7 de junho de 1998; nem a chegada de tropas estrangeiras fez estancar aa rebelião, pois o apoio popular maciço aos rebeldes fez com que o regime de Vieira ficasse praticamente confinado à Guiné-Bissau.

Houve tentativas de negociação internacionais, procurou-se levar por diante um Governo de transição que não revelou operacionalidade, e em 8 de maio de 1999, cedendo à provocação que foi a chegada de um navio de guerra da Guiné-Conacri que transportava armas pesadas destinadas aos partidários de Vieira, os rebeldes atacaram os aliados do Presidente e as suas tropas de apoio senegalesas. Era a decisiva batalha final, as tropas pró-Mané empurraram para o centro de Bissau todos os apoiantes da fação presidencial e os senegaleses, derrotaram-nos em combates de rua. Vieira refugia-se na Embaixada de Portugal e parte depois para o exílio, primeiro para a Gâmbia e depois das Portugal.

O sonho da estabilidade durou pouco tempo. Formara-se uma Junta Militar, houve eleições em novembro desse ano, ganhou o Partido de Renovação Social, seguido do Partido Resistência Guiné-Bissau, o PAIGC ficou em terceiro lugar.

Em 2000 foi eleito o Presidente Kumba Ialá, tudo acabou mal. Aqui termina o ensaio de Joshua Forrest e damos por concluída a recensão ao livro "História da África Lusófona Pós-Colonial", organizado por Patrick Chabal e outros colaboradores, Tinta-da-China, 2026.


Patrick Chabal (1951-2014)
Joshua Forrest
_____________

Notas do editor:

Vd. post de 31 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28230: Notas de leitura (1945): "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições tinta-da-China, 2026 (3) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 5 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28242: Notas de leitura (1947): "Parábola do livro esquecido", retirada, com a devida vénia, do livro "Inventarium Vitae (Escritos, Memórias e Olvidos)", por Alberto Branquinho; Partenon, 2026

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28230: Notas de leitura (1945): "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições tinta-da-China, 2026 (3) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 1 de Julho de 2026:

Queridos amigos,
Após dois textos em que se sumariou o pensamento de Patrick Chabal que analisou em grande angular a guerra e a descolonização, a emergência de políticas pós-coloniais, como se tentou construir o socialismo, quais as falhas do Estado de partido único e como se operou a transição para o pluralismo político, segue-se agora o estudo da Guiné-Bissau, trabalho que coube ao renomado investigador Joshua Forrest.
Veremos neste primeiro texto como o PAIGC não se mostrou capaz de atingir os seus objetivos em matéria de construção do sistema político ou do desenvolvimento económico, analisam-se as reformas económicas, como e porque falharam e, igualmente, como a liderança do PAIGC, desprezando o pensamento de Cabral, se foi afastando de auscultar e fazer vingar as aspirações populares.

Um abraço do
Mário



Uma obra historiográfica de referência:
Os primeiros 25 anos das antigas colónias africanas - 3


Mário Beja Santos

É um trabalho magistral, datado de 2002, felizmente agora traduzido com o título "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições tinta-da-China, 2026; o autor principal foi o eminente académico Patrick Chabal, que dirigiu o Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros do King’s College de Londres, acolitado por outros nomes sonantes da investigação, caso de David Birmingham, Joshua Forrest, Malyn Newitt, Gerhard Seibert e Elisa Silva Andrade. Como escreveu o prefaciador António Costa Pinto, trata-se do primeiro estudo substancial sobre os novos regimes políticos africanos surgir com o fim do colonialismo português, tornados independentes em 1974-75. É, pela força das circunstâncias, um trabalho datado, um quarto de século de independências africanas lusófonas.

Como observa no proémio Patrick Chabal, o livro tem o objetivo de superar a perspetiva especificamente lusófona que penaliza a maioria das descrições da África língua portuguesa, a discussão anda em torno do desenvolvimento destes cinco países. Dedicámos dois textos ao estudo que Chabal fez sobre a África lusófona numa perspetiva histórica e comparada: a guerra e os seus efeitos; o nacionalismo e o exercício político pós-colonial: como se criou a nação e quis construir o socialismo; o que falhou nas experiências do partido único e como se transitou, mesmo nos estados de guerra civil para o pluralismo político. Sendo a segunda parte do livro dedicada à análise dos cinco países, obviamente, atendendo à natureza do nosso blogue, socorri-me do estudo da Guiné-Bissau elaborado por um incontestado especialista da região, Joshua Forrest.

A Guiné-Bissau nasce num quase estado de graça, confiava-se no PAIGC pelo seu comportamento durante a luta armada, a liderança de Amílcar Cabral colocara a Guiné com uma enorme visibilidade internacional. Cabral avisara os seus companheiros dos perigos emergentes da independência e da afirmação de comportamentos ingénuos e até imitativos da herança colonial. Foi exatamente o que veio a acontecer, as opções de política económica beneficiaram diretamente as elites do Estado; subavaliaram-se as heranças sociais, políticas e económicas do período colonial e a atividade política do PAIGC tornou-se facciosa, desfasou-se a direção política dos reais interesses da população. As elites políticas tomaram decisões que levaram à explosão da dívida externa; no período de Luís Cabral (1974-1980) alimentou-se a ideia de que o país tinha que acelerar a sua industrialização, o desenvolvimento da agricultura viria depois, isto esquecendo a lição de que a infraestrutura estatal colonial praticamente não é à lei de Bissau, o mesmo é dizer que o Governo não possuía capacidade administrativa para a pôr em prática com êxito. Com empréstimos externos e com a ajuda internacional, sonhou-se na construção de um gigantesco complexo agroindustrial que custou milhões e nunca funcionou; numa fábrica de montagem de automóveis; recebeu-se uma fábrica de refrigerantes pronta a funcionar e não se instituiu um plano de gestão viável, etc. etc. Como observa Forrest, enquanto cresciam as falhas de abastecimento e faltava dinheiro e era bem visível que as elites estavam de costas voltadas para as populações fora dos principais aglomerados, o interior rural onde vivia cerca de 85% da população, as pessoas mantiveram vivas as instituições políticas na dimensão comunitária.

Não se conseguiu romper com este problema existente em toda a África subsariana: a ausência de burocracias bem institucionalizadas e falta de familiaridade com uma cultura política baseada em regras. Problema que se manteve durante a presidência de Nino Vieira, esta agravada pelo personalismo e pelo florescimento da discórdia entre fações. Forrest analisa a reforma económica, seria a trave-mestra para transitar para o socialismo, nacionalizou-se tudo, a economia formal passou a ser gerida através dos Armazéns do Povo, uma cadeia de 120 pontos de venda de mercadorias e da SOCOMIN (Sociedade Comercial Industrial) um organismo governamental de importação-exportação que procurava proporcionar aos guineenses uma troca justa dos seus produtos agrícolas por bens importados. Acontece que se impuseram preços baixos aos produtores, estes procuraram melhores preços fora dos organismos nacionalizados, cresceram as práticas corruptas, como a especulação por parte dos gestores.

As reformas falharam, o Estado tornou-se cada vez mais dependente da ajuda externa e dos projetos internacionais de desenvolvimento. A classe política revelou-se incapaz de criar uma visão rigorosa nos métodos de produção. “Por exemplo, decidiu-se utilizar tratores e vários dispositivos mecânicos modernos em substituição do trabalho normal e da participação local da construção de barragens fluviais, com vista a criar arrozais ou a restaurar os mais antigos. No entanto, tal como sucedera no período colonial, a coordenação múltipla e os erros técnicos produziram resultados insatisfatórios – foi o caso das eclusas dos canais incorretamente instaladas. Como resultado destes e de outros fatores, metade das minibarragens e dos diques modernos teve efeito negativo na produção de arroz.”

O autor recorda que no final da década de 1970 assistia-se a uma paralisia do setor comercial formal, o Governo iniciou reformas de privatização em 1984, apareceu uma linha de crédito do FMI, iniciaram-se programas de ajustamento cultural, que incluíam o incentivo à iniciativa privada, a desvalorização da moeda, a redução da despesa pública, cortes dos subsídios alimentares e o aumento dos preços ao produtor, nomeada no caju e nos óleos.

Estas reformas do ajustamento estrutural e a nova política de privatização teve consequências bem problemáticas. Apareceram em grande quantidade propriedades rurais, as chamadas “pontas”, estas têm uma longa história desde o século XIX. “A expansão destas pontas no final dos anos 80 e no decénio seguinte refletiu a viragem do Estado pós-colonial para a privatização, tendo sido os seus proprietários, os ponteiros quem mais beneficiou de empréstimos a médio e longo prazo. O problema é que a maioria desses ponteiros se compunha de altos funcionários do Governo que não eram comerciantes ou agricultores e, portanto, não possuíam as competências nem o compromisso de transformar as suas novas contas em empresas produtivas. Como consequência, poucos hectares de terra foram efetivamente dedicados à agricultura comercial, apesar de estes ponteiros terem recebido empréstimos favoráveis no âmbito do processo de privatização agrícola.”

Com a dependência do regime de Nino Vieira face às fontes de financiamento externas, acreditou-se no milagre da moeda, integrou-se a Guiné-Bissau na zona do franco CFA, passou a ser a moeda oficial em janeiro de 1997. Alguns comerciantes tiraram proveito da liberalização do comércio. A maior parte dos guineenses continuou a sobreviver à custa dos mercados informais locais e de longa distância. De modo insidioso, o regime no poder deslocava-se confiante para órbitas estrangeiras, completamente indiferente às repercussões mais alargadas das suas decisões para a população em geral.


Patrick Chabal (1951-2014)
Joshua Forrest

(continua)
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Notas do editor:

Vd. post de 24 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28209: Notas de leitura (1943): "Uma História da África Lusófona Pós-Colonial", Edições tinta-da-China, 2026 (2) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 27 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28218: Notas de leitura (1944): "Depois da Guerra", de Luís Rosa; edição de autor, 1990 (1) (Mário Beja Santos)

domingo, 26 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28213: Em bom português nos entendemos (33)_ a palavra "mafé", usada na culinária da Guiné-Bissau (crioulo, que vem do mandinga "mafen"): o velho pescador sai na sua canoa "à procura de mafé" (=acompanhamento da bianda, que pode ser peixe,marisco ou carne)

 


Excerto do "O Nosso Livro:  1ª Classe",  ediado pelo PAIGC (1970), "A Pesca",  pág. 34


1. O que dizer aqui, neste contexto, o termo "mafé" ? 

O velho Ali, de manhã cedinho, vai na sua canoa pescar nos "pequenos rios" que levam as suas águas ao rio Cacine (afluentes). 

"Ele sai à procura de mafé para os seus valentes filhos — os guerrilheiros." (Negritos nossos).

À primeira vista, para um leitor português, "mafé" faz pensar imediatamente no conhecido prato da África Ocidental (o mafé do Senegal ou do Mali, um guisado com molho de manteiga de  amendoim, "o caldo de mancarra", hoje também um dos pratos típicos da gastronomia da Guiné-Bissau). 

Mas não é esse o significado aqui. Neste contexto, "mafé" parece ser usado no sentido de "mantimentos para comer", "alimento", "comida", "conduto"... E mais concretamente peixe,  destinado neste caso a alimentar os guerrilheiros do PAIGC. 

O rio Cacine e os seus afluentes eram ricos em peixe, como eu próprio pude comprovar em março de 2008, quando voltei à Guiné, e mais concretamente ao Cantanhez.

Vejamos: o  título da lição é "A pesca"; toda ela descreve Ali a ir à pesca; o objetivo da pesca é abastecer os guerrilheiros. A frase "à procura de mafé" só pode, pois,  ser tomada como sinónimo de "à procura de alimento". 

Na segunda parte, descreve-se a sua bravura: ele não medo dos "jacarés" (leia-se: crocodilos, não há jacarés em África...) nem dos "colonialistas", com os seus canhões e aviões. Tem uma missão a cumprir, o que faz com orgulho.

O vocábulo "mafé" vem do crioulo, que por sua vez deriva de "mafen", uma palavra da língua mandinga.  Era usado na época com o significado genérico de "comida" ou "conduto", e não apenas de "caldo de mancarra".  

Os manuais escolares do PAIGC recorriam frequentemente a vocabulário crioulo ou africanizado, mesmo quando o resto do texto era em português.

Há, porém, uma hipótese ainda mais interessante. Na Guiné-Bissau, hoje, "mafé"  designa genericamente  "conduto" que acompanha o arroz, isto é, o caldo de peixe,  galinha, de carne de caça, de marisco, de legumes,etc.,  que acompanha o arroz  ("caldo de mancarra". "caldo de chabéu" e outros pratos). 

Nesse caso, a frase ganha uma precisão etnográfica muito bonita:

"Ele sai à procura de mafé" = "ele sai à procura do peixe que servirá de acompanhamento ao arroz/bianda  dos guerrilheiros."

Isto faz todo o sentido, porque o arroz era (e continua a ser) a base da alimentação guineense, sendo o peixe (mas também o marisco, a carne de frango, ou de caça, etc.) o respetivo mafé, isto é, o acompanhamento sob a forma de caldo.

Aliás, era nesse sentido que eu entendia o termo "mafé", usado pelos meus soldados fulas da CCAÇ 12, em 1969/71, em Bambadinca: hoje "ca tem mafé na bianda" (hoje é arroz com arroz, sem conduto).

Portanto, podemos grafar o termo com este significado: " Ele sai à procura de mafé (peixe para alimentação, o acompanhamento do arroz) para os seus valentes filhos, os guerrilheiros."

Logo, há que acrescentar aos dicionários de português: Mafé, substantivo de dois géneros ou só masculino (?): 1. [Guiné-Bissau] [Culinária] Molho ou caldo, geralmente feito de carne, peixe ou marisco (ex.: o mafé serve de acompanhamento à bianda); 2. Acompanhamento do arroz ("bianda"), geralmente peixe ou carne; por extensão, alimento, conduto.


2. Significado de mafé como vem grafado nos dicionários de português:

2.1. Priberam - Dicionário da Língua Portuguesa:

Mafé (lê-se: (maˈfɛ)
substantivo de dois géneros
[Guiné-Bissau] [Culinária] Molho ou caldo, geralmente feito de carne, peixe ou marisco (ex.: o mafé serve de acompanhamento à bianda).

2.2. Infopédia - Dicionários Porto Editora

Mafé (lê-se: maˈfɛ)
nome masculino
Guiné.Bissau | Culinária | Prato tradicional à base de carne ou de peixe cozido num molho de manteiga (de amendoim, na época colonial).

Etimologia: do crioulo guineense mafé, do mandinga mafen.


Vd. tambéem >Wikipedia > Mafê



Capa de "O Nosso Livro: 1ª Classe... Exemplar capturado pelo nosso camarada Manuel Maia no Cantanhez, possivelmente em finais de 1972 ou princípios de 1973 (Op Grande Empresa).

 Vê-se que esse exemplar teve muito uso. A capa teve de ser reforçada com uns improvisados adesivos (aparentemente autocolantes, que acompanhavam embalagens de apoio humanitário, vindas do exterior). Sabe-se que foram feitos, na Suécia, 20 mil exemplares deste livro, em edição de 1970.

"Neste mesmo dia apanhei ainda duas cartas, uma escrita em árabe e outra em crioulo", diz.nos o nosso camarada Manuel Maia, ex-fur mil da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4610, Bissum Naga, Cafal Balanta e Cafine (1972/74).

Sabemos que primeira edição de O Nosso Livro: 1.ª Classe foi publicada em 1970, em Uppsala, Suécia (e não em 1964,  como já temos lido). Há alguma confusão bibliográfica porque o projeto pedagógico do PAIGC começou em 1964, mas o manual com esta capa e este título pertence à edição de 1970.

A confusão resulta de haver dois livros diferentes:

(i) 1964 > O Nosso Primeiro Livro de Leitura: é o primeiro manual de alfabetização elaborado pelo PAIGC; preparado na Escola Piloto de Conacri, sob coordenação pedagógica de Lilica Boal; o manuscrito foi terminado em 1964 e inicialmente impresso com apoio internacional (há fontes que referem a RDA; outras indicam que a impressão passou depois para a Suécia).

(ii) 1970 > O Nosso Livro: 1.ª Classe: edição revista e ampliada; impressa em Uppsala (Suécia); é esta a edição cuja capa apresentamos em cima ("Nosso Livro: 1.ª Classe", menino junto ao quadro, "Amo a minha Terra", "3+2=5", assinatura "P.A.I.G.C.").

Quanto ao exemplar do Manuel Maia, tudo indica que é precisamente um desses exemplares da edição de 1970. O facto de ter sido capturado no Cantanhez em finais de 1972 ou princípios de 1973, na sequência da ocupação do Cantanhez,  encaixa perfeitamente: nessa altura o manual estava já amplamente distribuído nas escolas das  chamadas "zonas libertadas".

O número de 20 mil exemplares para a primeira edição sueca é referido em diversos estudos sobre o sistema educativo do PAIGC e é perfeitamente plausível, tendo em conta o financiamento sueco e a expansão da rede escolar nas zonas libertadas. A Suécia foi, de longe, o principal parceiro do PAIGC na produção de material escolar.

Há muita informação contraditória sobre estes manuais do PAIGC.

Um pequeno pormenor interessante da capa: a frase "Amo a minha Terra" sintetiza bem a filosofia do manual. O ensino da leitura estava intimamente ligado à formação cívica, política e ideológica da população e dos guerrilheiros. As primeiras frases não eram neutras, como nos antigos livros portugueses ("A mãe amassa a massa"), mas procuravam associar desde cedo a alfabetização ao sentimento nacional e à "luta de libertação", prosseguida pelo PAIGC.

Este exemplar é particularmente valioso porque mostra sinais de utilização real: a lombada reforçada com fitas adesivas; os remendos feitos com material de embalagem proveniente da ajuda internacional; o desgaste da capa.

Do ponto de vista da história da educação, estes sinais contam quase tanto como o próprio texto. Revelam que não era um exemplar de arquivo, novinho em folha, ainda a cheirar a tinta, mas um livro efetivamente usado por crianças numa escola do mato (ou pelo próprios guerrilheiros, que andavam a aprender português).

Foto (e legenda): © Manuel Maia (2009). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 7 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P27994: Em bom português nos entendemos (32): Ainda a papaia e o mamão: são da mesma espécie botànica, frutos da Carica papaya, ...mas de variedades diferentes