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segunda-feira, 25 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28051: Álbum fotográfico de Ernestino Caniço, ex-alf mil cav, Pel Rec Daimler 2208, Mansabá e Mansoa, e Rep ACAP/QG/CCFAG, Amura, Bissau, 1970/72 - Parte III: dissociar o binómio População / IN






Foto nº 1, 1A e 1B




Foto nº 2 e 2A




Foto nº 3 e 3A



Foto nº 4 e 4A



Foto nº 5

A política !Por Uma Guiné Meçlhor" em ação...

Fotos (e legendas): © Ernestino Caniço (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Ernestinmo Caniiço,
médico de famíla, inscrito da OE,
desde 1977,
nº 17053

Ernestino Caniço (ex-Alf Mil Cav, Comandante do Pel Rec Daimler 2208, Mansabá e Mansoa; Rep ACAP - Repartição de Assuntos Civis e Acção Psicológica, QG/CCFAG, Bissau, jan 1970/ dez 1971, hoje médico, vive em Tomar, estando reformado do SNS (em 1971, era chefe da Rep ACAP o major inf Mário Lemos Pires, que será entretanto promovido a tenente-coronel; trabalhou com o então cap Otelo Saraiva de Carvalho):

1. Mensagem de Ernestino Caniço 

Data - domingo, 24/05, 17:35 (há 13 horas)
Assunto - Rep ACAP

Caros amigos

Em resposta aos comentários ao poste  P28042  (*), posso exprimir o seguinte:

A população do “mato” (“turra”) estava em fase de sensibilização e recuperação pelas NT.

Após as visitas anteriormente referidas, as populações optavam por ficar nos reordenamentos já referenciados, ou regressavam às suas tabancas.

Ninguém era “obrigado” a ficar. A decisão era sempre dos próprios de acordo com os seus critérios opcionais.

Os reordenamentos em apreço eram construídos, também, pelos militares metropolitanos e/ou pela população, que ainda colaboravam no apoio e participação na agricultura, conforme se pode verificar em algumas fotos expostas.

A população (presumivelmente balantas, a das fotos) sofrida e explorada, sem condições de vida aceitáveis no “mato,” vislumbrava alguma melhoria do lado dos metropolitanos. O seu semblante sugere-me desconfiança. Provavelmente indecisos entre a expectante melhoria da qualidade de vida e a situação deplorável no “mato”, com putativas represálias.

Os intervenientes para essa promoção, como eu, cumpria as diretivas e/ou diretrizes, do Governador e Comandante Chefe (Gen Spínola), conforme foi redigido pelo cap Otelo Saraiva de Carvalho, subscrito pelo ten coronel Lemos Pires e publicado na O.S. de 14dez71 do Com-Chefe /QG/CTIG (nos muitos contactos que teve com as populações evidenciou perfeita identificação com a manobra psicológica em curso no TO, contribuindo de forma bastante satisfatória para o cumprimento da missão da Rep ACAP).

Não me movia qualquer motivação político-ideológica, com total alheamento da mesma, e nem agora é o meu forte.

Na foto nº vê-se, de costas, alf Fidalgo numa das suas visitas: pertencia à Rep ACAP (Secção de Operações Psicológicas) e que eu fui substituir.

Não havia guerrilheiros nessa visita ao reordenamento.

Aproveito para anexar mais algumas das fotografias que possuo sobre esta temática.

Um abraço,

Ernestino Caniço

PS - Trata-se de população IN, capturada pelas NT.

2. Comentário do editor LG:

Obrigado, Ernestino, obrigado por estas preciosas (e raras) fotos... Acho que respondeste cabalmente às minhas perguntas e observações, com exceção da última:

(i) era população do "mato", em fase de "recuperação / integração ?

(ii) são balantas (pelo vestuário rudimentar);

(iii) estão a visitar um reordenamento

(iv) quem seria o alferes ? da ACAP ? ou da unidade a que pertencia o reordenamento ?

(v) donde veio esta gente ? havia também guerrilheiros ?

Temos de reconhecer, mais de meio século depois, o fantástico trabalho que as NT que fizeram (sob a superior orientação da Rep ACAP / QG / CTIG, ao tempo do governador e comandante-chefe, gen António Spínola) no plano da recuperação e reintegração das populações que viviam no "mato", nas chamadas "zonas libertadas" do PAIGC.

Foram portugueses generosos, competentes e dedicados, como vocês, tu, Ernestino Caniço, o Fidalgo, o Otelo Saraiva de Carvalho, o Lemos Pires e tantos outros, que passaram pela Rep Acap,que ajudaram a comprovar que aquela guerra (e os "senhores da guerra") não podia levar a Guiné a lado nenhum, e que só havia uma via para acabar com ela: sentar à mesa todos as partes interessadas, os combatentes de um lado e do outro, e a população civil que os apoiava (ou tolerava).

Foi feita um esforço gigantesco com a construção, até 1974, de mais de 8 mil casas para alojar população sob duplo controlo ou controlo do PAIGC (que vivia no "mato"). E com as casas, veio a escola, o posto sanitário, a água potável, a estrada, o convívio pacífico interétnico, etc. Estas fotos do nosso amigo e camarada Ernestino Caniço, que depois da "peluda" licenciou-se em medicina pela Universidade de Coimbra (1976), são a prova de que as guerras não se ganham só por ação dos "rambos" e cabras-matchu" mas pela arte e engenho da paz, da empatia, da solidariedade, da partilha, da inteligência, da participação de "todos" na busca de soluções duradouras para os conflitos...
________________


Nota do editor LG:

Último poste da série > 20 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28042: Álbum fotográfico de Ernestino Caniço, ex-alf mil cav, Pel Rec Daimler 2208, Mansabá e Mansoa, e Rep ACAP/QG/CCFAG, Amura, Bissau, 1970/72 - Parte II: recuperar a gente do "mato"

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28042: Álbum fotográfico de Ernestino Caniço, ex-alf mil cav, Pel Rec Daimler 2208, Mansabá e Mansoa, e Rep ACAP/QG/CCFAG, Amura, Bissau, 1970/72 - Parte II: recuperar a gente do "mato"






Foto nº 1, 1A e 1B




Foto nº 2, 2A e 2B







Foto nº 3, 3A, 3B e 3C







Foto nº 4, 4A, 4B e 4C





Foto nº 5, 5A, 5B e 5C







Foto nº 6 e 6A







F oto nº 7, 7A, 7B, TC

Guiné > Bissau > Rep ACAP / QG/CCFAG > c. 1971 > Possível legenda: população, anteriormente sob controlo do PAIGC (que vivia, portanto, no "mato", a avaliar pelo traje: um simples pano a cobrir as vergonhas, as bajudas e mulheres de seios à vela, homens e mulheres descalços, com exceção de 3 homens na foto nº 3, e que devem ser três gajos importantes), que usam as sandálias de plástico, típicas dos guerrilheiros do PAIGC); população entretanto "recuperada" pelas NT.

Visita de acção psicossocial organizada pela Rep ACAP. A um reordenamento. Preparada e conduzida com cuidado: por exemplo, o condutor da viatura é guineense (foto nº 4), não há tropa por perto (a não ser um alferes, na foto nº 7), apenas elementos da administração civil (porventura o chefe de posto da localidade) (foto nº 5).

Talvez o Ernestino Caniço nos possa dar mais detalhes sobre estas preciosas fotos. Parece haver alguma tensão ou apreensão nos rostos dos "visitantes" deste reordenamento (que não sabemos onde ficava). Provavelmente estão a falar entre eles sobre o que vão fazer, o que vão dizer sobre o que viram e ouviram... Gostaram, não gostaram ? E será que vão voltar para o "mato" ou vão ficar na "Spinolândia" ? Será que temem represálias ?... (Os mamilos femininos foram esbatidos, para violar as regras do Blogger, o nosso servidor.)

Fotos (e legendas): © Ernestino Caniço (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné] 



O médico Ernestino
 Caniço (Tomar, 2014)
1. Mensagem, mais abaixo. de Ernestino Caniço (ex-Alf Mil Cav, Comandante do Pel Rec Daimler 2208, Mansabá e Mansoa; Rep ACAP - Repartição de Assuntos Civis e Acção Psicológica, Bissau, jan 1970/ dez 1971, hoje médico, vive em Tomar, estando reformado do SNS (em 1971, era chefe da Rep ACAP o major inf Mário Lemos Pires, que será entretanto promovido a tenente-coronel); trabalhou com o então cap Otelo Saraiva de Carvalho):


Data - 4 de maio de 2026, 21:11
Assunto - Rep ACAP

Votos de ótima saúde


A fim de dar continuidade ao “material” sobre a Rep ACAP (Assuntos Civis / Acção Piscológica), remeto mais algumas fotos sobre esta temática.

De relevar, a população que após informação, visitava obras e estruturas do governo da Guiné.

Aproveito o ensejo para referir que ao visualizar os postes sobre o PIFAS, concluí que eu e o camarada Garcês Costa fomos contemporâneos na Rep ACAP e ao qual deixo um abraço.(O resto da mensagem será publiucada noutro poste a seguir.) (...)

Um abraço,

Ernestino Caniço


2. Comentário do editor LG:

Obrigado., camarada, por mais este lote de fotos, relativas ao tempo em que estiveste na Rep ACAP. 

Embora as legendas sejam sucintas, e não tragam  datas, tudo indica tratar-se de população "turra", que está em fase de recuperação e reintegração.  Pelo aspect0, é gente do mato e, maioritariamente, balantas. De onde vieram não sabemos. Nem sequer o local da visita. Talvez possas ajudar a fazer o "enquadramento".

Com Spínola enquanto governador e comandante-chefe, houve uma forte aposta na "recuperação" de antigos combatentes do PAIGC como da população que vivia no "mato"...

Dos relatóros da ação psicológioca  realizada  no ano de 1972, destaco por exemplo este excerto (vd,. nmais abxio, em itálico), bastante elucidativo sobre o sucesso que estava a ter o desenvolvimento da política "Por uma Guiné Melhor".

O gen Spínola, em 1970 e 1971, não só estava a "inverter a situação militar" como a ganhar pontos ao PAIGC, na (re)conquista das populações que viviam no "mato", nas chamadas "áreas libertadas": mal instaladas, refugiadas nos sítios mais recônditos  das matas e floresta, mal alojadas, mal alimentadas, mal vestidos, tendo de alimentar também a guerrilha, dispondo de poucos ou mesmo nenhuns cuidados de saúde, sujeitas  aos abusos dos "senhores da guerra", obrigados a "trabalho forçado" (colunas logísticas, etc.), vítimas de bombardeamentos, assaltos de tropas helitransportadas, golpes de mão da tropa de infantaria, flagelações da artilharia, etc.  Enfim, um inferno!...

Viver num reordenamento, com escola, posto sanitário, água potável, mercado, estradas mais seguras, transportes, casa com telhado de zinco, bolanhas ricas para cultvar o arroz (como Sambassilate, no subsector do Xime, Sector L1),  em segurança relativa, no seu primitivo chão, etc., era bem melhor do que viver no  "mato"...

(...) "População

O aspecto mais significativo no período foi a recuperação de cerca de 3.500 elementos da população balanta em Caboxanque e Cadique  [no Cantanhez, região de Tombali] que, após a implantação das NT naqueles locais, franca e abertamente, se acolheram à nossa protecção, colaborando na construção dos aldeamentos locais imediatamente iniciados.

Esta atitude, manifestada por uma população há anos sob controlo IN, para além de revelar um fraco índice de contaminação subversiva, onfirma o quadro de desequilíbrio psicológico a nosso favor, vindo há muito manifestar-se pela generalidade da população controlada pelo inimigo em consequência dum cansaço de guerra, pesadas exigências do Partido e precárias condições da vida no "mato". (...)


Fonte:  Excerto de: CECA - Comissão para o Estudo das Campanhas de África: Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974) : 6.º Volume - Aspectos da actividade operacional: Tomo III - Guiné - Livro III (1.ª edição, Lisboa, 2015),  pág. 186.

_________________________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 29 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27967: Álbum fotográfico de Ernestino Caniço, ex-alf mil cav, Pel Rec Daimler 2208, Mansabá e Mansoa, e Rep ACAP/QG/CCFAG, Amura, Bissau, 1970/72 - Parte I: "Conquistar mentes e corações"

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27915: Casos: a verdade sobre.... (66): Kalashnikovomania - Parte I: Até Moçambique (embora caso único no mundo...) tem na bandeira, símbolo nacional por excelência, a imagem da famigerada AK 47


Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > CAOP1 > 35ª CCmds (Teixeira Pinto, 1971/73) > Março de 1972 > "Durante a protecção aos trabalhos de desmatagem das margens, ou da pavimentação, da estrada entre Teixeira Pinto e o Cacheu."... Na foto, o alf mil 'cmd' Alfredo Campos, empunhando uma AK-47 .


Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > CAOP 1> 35ª CCmds (Teixeira Pinto, 1971/73) > Março de 1972 > Estrada Teixeira Pinto - Cacheu > Outro camarada da 35ª CCmds, que se rendeu aos encantos da AK-47, o alf mil 'cmd' António Rui de Mendonça Andrade, açoriano, que, mais tarde, após a evacuação do comandante da 35ª CCmds (cap mil inf 'cmd' António Joaquim Alves Ribeiro da Fonseca, ferido em combate)  foi graduado em capitão para assumir o comando daquela companhia a que pertenceu também o nosso grão-tabanqueiro Ramiro de Jesus, aveirense, tal como o Francisco Gamelas)

Fotos do álbum do Francisco Gamelas, ex-alf mil cav, cmdt do Pel Rec Daimler 3089 (Teixeira Pinto, 1971/73), adido ao BCAÇ 3863 (1971/73).

Fotos (e legendas): © Francisco Gamelas (2016). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Bandeira de Moçambique, adotada em 1983. Imagem do domínio público. Fonte: cortesia de Wikipedia.

Legenda: bandeira nacional da República de Moçambique:

(i) uma bandeira tricolor com fimbriações brancas e um triângulo vermelho;

(ii) o verde-azulado representa as riquezas da terra, as bordas brancas significam a paz, o preto representa o continente africano, o amarelo simboliza os minerais do país e o vermelho representa a luta pela independência:

(iii) inclui a imagem de uma espingarda automática Kalashnikov (AK-47) com uma baioneta fixada ao cano e cruzada a uma enxada, sobrepostos a um livro aberto;

(iv) a AK.47 representa a defesa e a vigilância, o livro aberto simboliza a importância da educação, a enxada  está associada á  agricultura e aos camponeses
 e, por fim,  a estrela  exalta o internacionalismo do país;

(v) é uma das quatro bandeiras nacionais entre os Estados-membros da ONU que apresentam uma arma de fogo, junto com as da Guatemala, Haiti e Bolívia.


1. Pode-se falar em kalashnikovomania, o culto da Kalashnikov pelos "tugas",  definida como uma forte atracção pelo armamento do... IN ? 

No TO da Guiné, incluía sobretudo a AK-47 mas também outras armas (como a "costureirinha"  e o RPG) ... 

Se a resposta é sim, esta tendência não era exclusiva dos nossos "rambos" na Guiné... Chegou inclusive à simbologia nacional de um país lusófono como Moçambique. E ao cinema: veja-se o filme Lord of War / O Senhor da Guerra (2005)...

Kalashikovomania:

Trata-se de um neologismo, inventado pelos editores do blogue da Tabanca Grande, que "paga direitos de autor"; um dia irá figurar nos novos Dicionários da Língua Portuguesa, como muitos outros termos que usávamos na guerra (por exemplo, dila=dilagrama, LGFog=lança-granada foguete, ameixa=granada, lobo mau= helicanhão).

Curiosamente, a bandeira de Moçambique [imagem acima], na actual versão (que vem de 1983), ostenta a AK-47, de origem russa, arma-padrão dos guerrilheiros da FRELIMO, bem como do MPLA e do PAIGC , que passou a ser símbolo nacional (!) da luta armada e da defesa do país de Samora Machel 

Registe-se que  é a única bandeira no mundo a ostentar uma arma de fogo  moderna (ainda por cima, estrangeira)... 

Singularidades da lusofonia ?... Dessa tentação, ao menos, livraram-se os nossos amigos guineenses.

 

Cartaz do "Lord of War", filme norte-americano de 2005, com Nicolas Cage, e que  passou em Portugal com o título O Senhor da Guerra (tradução literal)- 

 Cage interpreta a personagem de Yuri Orlov, um traficante de armas perseguido pela Interpol, que no filme faz o elogio da AK 47 (confesso que não o vi). 

Esse monólogo é de antologia pela forma irónica e crítica como o traficante promove a famigerada AK-47 (o mesmo é dizer, a kalashnikovomania). Eis aqui um excerto, com tradução para português:

(...) De todas as armas do vasto arsenal soviético, nenhuma foi mais lucrativa do que o Avtomat Kalashnikova, modelo de 1947, ais conhecida como AK-47, ou Kalashnikov.

É a espingarda de assalto mais popular do mundo. Uma arma que todos os combatentes adoram.

Uma combinaçáo, simples mas elegante, o de cerca de quatro quilos de aço forjado e madeira prensada.

Não se parte, não encrava, não sobreaquece. Dispara sempre, mesmo coberta de lama ou cheia de areia.

É tão fácil de usar que até uma criança a consegue manejar — e usam-na, as criancinhas por esse nundo fora-

Os soviéticos cunharam uma moeda com a sua efígiue. Moçambique colocou-a na sua bandeira, símbolo nacional.

Desde o fim da Guerra Fria, a Kalashnikov tornou-se o  maior produto de exportação dos russos.  
Depois vêm a vodka, o caviar e os romancistas suicidas.

Uma coisa é certa: ninguém fazia bicha  para comprar os carros soviéticos. (...)

2. Contexto histórico

A AK-47 foi desenvolvida por Mikhail Kalashnikov no final da década de 1940, em plena consolidação da União Soviética após a Segunda Guerra Mundial. 

A sua grande vantagem seria, alegadamente, a simplicidade, a robustez, o preço/qualidade  e o baixo custo de manutenção,  características ideais para a sua produção em massa e distribuição a exércitos e movimentos aliados (incluindo os que lutavam "contra o colonialismo e o imperialismo"). 

Durante a Guerra Fria, e num mundo bipolarizado, 
a União Soviética forneceu a AK-47 a inúmeros países e "movimentos de libertação" em África, Ásia e América Latina.

 Isso fez com que a arma, licenciada ou contrafeita,  se tornasse não apenas um instrumento militar, mas também um poderoso símbolo político. E mais: foi um eficaz instrumento da diplomacia soviética... Como,  de resto, são todos os produtos dos fabricantes de armas.

O caso de Moçambique é um exemplo dessa "idolatria" ou "fetichismo" pela AK-47. É o único país do mundo (e ainda por cima lusófono!)  cuja bandeira nacional inclui uma arma de fogo moderna... 

Quer se goste ou não, o raio da Kalashnikov transcendeu o seu papel técnico (de arma de guerra ou "brinquedo de morte") para se tornar um ícone histórico.

Mas façamos uma pequena análise do tom crítico e irónico do supracitado  discurso de Yuri Orlov (a personagem de Nicolas Cage, no filme O Senhor da Guerra):

É um monólogo brilhante porque funciona em dois níveis:

(i) há uma aparente admiração técnica:  à primeira vista,  ele descreve a AK-47 com entusiasmo quase reverencial (“elegantemente simples”, “não encrava, não sobreaquece”, “até uma criança a consegue usar”); é a linguagem típica dos fabricantes e dos comerciantes, focada na eficiência, durabilidade,  design, preço/qualidade do produto;

(ii) mas, nas "entrelinhas", há uma ironia sombria, um  subtexto moral, profundamente crítico: o facto de qualquer criança-soldado  a poder usar (como podemos ver em imagens que nos chegam de  África, e até nas "áreas libertadas do PAIGC"  no nosso tempo, como nesta foto à direita, de Roel Coutinho), é profundamemte perturbador. 

De facto, a  sinistra “popularidade” da AK-47  
resulta da sua difusão em massa.


Criança-soldado do PAIGC

Em guerras, muitas delas civis e fratricidas.  E a referência  a Moçambique está longe de ser lisongeira...

A frase sobre “romancistas suicidas” e carros que ninguém quer comprar  (mesmo a preços de saldo...) introduz um humor negro que ridiculariza os estereótipos sobre a Rússia, faz contrastar bens culturais (literatura) com bens destrutivos (armas), sugere que o verdadeiro “sucesso” económico  e social do antigo país dos sovietes é algo de ainda profundamente problemático.

Enfim, no monólogo  do cínico  traficante de armas há uma crítica sujacente ao negócio global de armas, ao mesmo tempo que promove a kalashnikovomania... 

No fundo, o monólogo desmonta a lógica do mercado: a AK-47 é apresentada como o produto perfeito porque aumenta a "literacia de guerra", facilita a instrução  militar e paramilitar, ogimiza a violência em massa, banaliza a "violência revolucionária", usa a lógica redutora do  mundo dividido em opressores e oprimidos... 

 Ou seja, o discurso imita uma apresentação 
e vendas ( quase um pitch comercial),acabando 
por  expor o absurdo moral de tratar  "armas de guerra" como um qualquer outro produto de consumo.

Quem viu (e se lembra de) o filme, faz uma leitura mais profunda: o que é mais inquietante é que Yuri não está a mentir. Tudo o que ele diz é factual, mas a seleção e o tom criam uma espécie de “verdade desconfortável”: a eficiência tecnológica + a lógica de mercado + a geopolítica = uma arma, a AK-47, a dos "oprimidos", que moldou e alimentou conflitos em todo o mundo.

É isso que dá força ao texto: não é um discurso ideológico explícito, mas uma descrição fria que acaba por ser também, implicitamente,  uma crítica devastadora da kalashnikovomania (o culto da AK-47 e de todas as outras tecnologias de guerra e morte).

E aqui, temos que o reconhecer, não há "armas em boas mãos"...

(Pesquisa: LG + Wikipedia + IA / ChatGPT)
(Condensação, revisão / fixação de texto: LG)
_______________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 31 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27874: Casos: a verdade sobre... (65): o acidente com canhão s/r 82, B-10, russo, que vitimou o 2º srgt António Duarte Parente, do Pel Caç Nat 53, no Saltinho, em 13 de maio de 1970

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27906: (De) Caras (248): Jorge Moisir Pires, ex-alf mil mec auto, CCS / BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) (Ernestino Caniço, ex-alf mil cav, Pel Rec Daimler 2208, Mansabá e Mansoa, e Rep ACAP, Bissau, 1970/1971)


Foto nº 1 > O Jorge Moisir Pires à esquerda,  em 2012.03.03 no convívio do BCaç 2885 em Cantanhede. Ao centro Jorge Picado.


Foto nº 2 > O alferes Pires (à esquerda), com o oficial de dia (em segundo plano) e o alf graduado capelão José Torres Neves (examinando a "cobiçada" Kalash dos "turras")


Foto nº 3 > O alf mil cav Ernestino Caniço examinando uma AK 47 capturada ao IN; será a mesma da foto nº 2 


Foto nº 3 >  O alf mil cav Ernestino Caniçoposando com uma AK 47 capturada ao IN; será a mesma  da foto nº 2 

Guiné > Região Oeste > Mansoa > BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71)

Foto nº 2 (e legenda): © José Torres Neves (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

Fotos nº 1, 3 e 4  (e legendas): © Ernestino Caniço (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Mensagem do Ernestino Caniço, ex-alf mil cav, cmdt  do Pel Rec Daimler 2208 (Mansabá e Mansoa) e Rep ACAP - Repartição de Assuntos Civis e Ação Psicológica, (Bissau) (1970/1971), hoje médico em Tomar:

Data - quinta, 9/04/2026, 19:49

Assunto - Kalashnikov   

Caros amigos Luís e Carlos

Que a saúde não vos falte.

Venho desta vez à liça para responder ao Luís sobre quem é o alferes Pires (*) (Foto nº 2). Trata-se de Jorge Moisir Pires,  engenheiro mecânico que integrava a CCaç 2589 / BCaç 2885 (Mansoa, 1969/71) e que era responsável pela manutenção auto (Foto nº 1) (**)
Referido nos P6005 (20
10.03.17) e P20622 (2022.02.04) (***) pelo Jorge Picado (ex-cap mil da CCAÇ 2589/BCAÇ 2885, Mansoa, CART 2732, Mansabá e CAOP 1, Teixeira Pinto, 1970/72),

A Kalasnhikov na foto com o Pe. Zé Neves (1971) (*) será a mesma que também consta nas fotos comigo que anexo (Fotos nºs 3 e 4).

Um abraço,
Ernestino Caniço



2. Comentário do editor LG:

Obrigado, Ernestino, o Jorge Picado, no poste P20622, diz que o Pires era alf mil mec auto (ou seja, cmdt do pelotão da "ferrugem") da CCS/BCAÇ 2885. O que faz sentido: só as CCS tinham um alf mil mec auto. Nas unidades de quadrícula, como a CCAÇ 2589, havia só um furriel da "ferrugem".

Ainda a propósito de material capturado ao IN: registe-se que,  segundo a CECA, o número de AK 47 capturadas de 1963 a 1970 foi de 78: mínimo 2 (1964) e máximo 23 (1970)... (no mesmo período, foram capturadas 16 G3 ao IN).

 Não temos dados para o período de 1971 a 1974. Parece-nos, em todo o caso,  que 78 Kalash é um valor irrisório para 8 anos de intensa atividade operacional. De qualquer modo, impõe-se uma ressalva: este número (78 AK 47 capturadas pelas NT) deve dizer apenas respeito ao Exército, não incluindo a Marinha e a FAP (tropas paraquedistas)...

E deve pecar por defeito... Julgamos que, depois da Op Mar Verde (invasão anfíbia de Conacri, em 22 de novembrod e 1970), terão passado a haver, disponíveis no TO da Guiné, mais umas centenas de AK 47 que foram compradas, no estrangeiro, para equipar a força invasora. 
__________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 8 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27899: Álbum fotográfico do Padre José Torres Neves, ex-alf graduado capelão, CCS/BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) - Parte XXXIII: da "cobiçada" Kalash do IN ao nosso obus 14

(**) Último poste da série > 9 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27904: (De)Caras (247): Memórias da ida para a Guerra da Guiné integrado na CART 3494 (Sousa de Castro, ex-1.º Cabo Radiotelegrafista)

(***) Vd. postes de:


sábado, 28 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27867: A Nossa Guerra em Números (49): BCAÇ 3872 (Galomaro, 1971/74): Flagelações e ataques aos quartéis e às tabancas; minas ativadas e detetadas; emboscadas e contactos (Luís Dias)


Guiné > Zona Leste > Sector de Galomaro > CCAÇ 3491 / BCAÇ 372 (1971/74)  (1971/74) >

  Luís Dias, alf mil op esp :  "Chegada a Galomaro da CCAÇ 3491,  no dia 9 de março de 1973. No jipe podemos ver eu, e  o fur mil Baptista, do 1º Gr Comb, e ao lado, a sorrir, um guerrilheiro do PAIGC que, no dia anterior, se tinha entregue a uma patrulha nossa na área do Dulombi. A arma é uma Shpagin PPSH 41, no calibre 7,62 mm Tokarev, mais conhecida por "costureirinha" e com a particularidade de ter um carregador curvo de 35 munições, em vez do habitual tambor de 71". 

(Foto do Luís Dias, reproduzida com a devida vénia, do seu blogue, Histórias da Guiné, 71-74: A CCAÇ 3491, Dulombi.


Comentários do Luís Dias ao poste P 27859 (*):


(i) Na história resumida do BCAÇ 3872, haveria mais para contar, quer em material apreendido ao IN, quer em número de mortos infligidos, mas está errada a data da partida da Guiné.

O Batalhão, em conjunto com 4 companhias independentes, embarcou no Niassa, não em 25 de março, mas em 28 de março de 1974, tendo chegado a Lisboa no dia 4 de abril de 1974. E são registo oficiais, dos quais se esperava melhor acerto nas datas.

Abraço.
sexta-feira, 27 de março de 2026 às 18:38:00 WET


(ii) Já agora publico mais elementos gerais 
do BCAÇ 3872 (**):


  • Flagelações e ataques aos nossos quartéis

CCAÇ 3489 - CANCOLIM

8 Flagelações em 1972 (1 delas c/ 3 mortos, 5 feridos graves e 5 feridos ligeiros)
2 Flagelações em 1973
2 Flagelações em 1974

CCAÇ 3490 – SALTINHO

Não sofreram quaisquer ataques ou flagelações durante a comissão

CCAÇ 3491 – DULOMBI

3 Flagelações em 1972
4 Flagelações em 1973
2 Flagelações em 1974

CCS - GALOMARO

1 Ataque/flagelação em 1972 c/1 IN morto confirmado e prováveis feridos IN

  • Minas ativadas e detetadas

Cancolim: 

- Mina A/P reforçada accionada c/1 morto e 1 ferido+mina A/C accionada c/12 feridos graves, 1 ferido ligeiro e 2 feridos pop.+2 minas A/P levantadas

Saltinho: 

- 3 minas A/C levantadas e 1 A/P levantada

Dulombi: 

- 2 minas A/C levantadas e 2 minas A/P levantadas e 1 A/P, rebentada por viatura nossa em Pirada.

Galomaro: 

- 1 mina A/P reforçada accionada c/1 morto+1 mina A/C reforçada accionada c/1 ferido grave

  • Emboscadas | Contactos | Flagelações auto 

CCAÇ 3489 

- 1 contacto com o IN, após flagelação ao quartel, em 1972
- 1 emboscada aos milícias em Anambé, em 1973 c/2 mortos e 1 ferido

CCAÇ 3490
 - 1 emboscada no Quirafo c/ 9 mortos+1 milícia e 2 civis+1 militar capturado. 1 emboscada c/feridos e mortos do IN+1 contacto do IN c/milícias de Cansamange

CCAÇ 3491 

- Flagelação numa operação no Fiofioli + 1 emboscada/contacto com 4 feridos ligeiros nossos e mortos do IN (s/confirmação de quantos, mas a rádio do PAIGC referiu que tínhamos tido 8 mortos e eles também tinha tido mortos 
- 1 emboscada/flagelação junto à recolha de águas no Dulombi 
- 2  flagelações a coluna de escolta e protecção na estrada Piche-Buruntuma.

CCS

- Contacto entre forças milícias e o IN, após ataque a Campata c/ elemento IN capturado.

  • Ataques a tabancas em autodefesa e tabancas indefesas

- Tabanca indefesa de Bambadinca/Cancolim, em 25/1/72;
- Tabanca indefesa de Mali Bula/Galomaro, em 1/2/72;
- Tabanca de Umaro Cossé/Galomaro, c/2 feridos civis, em 7/12/72;
- Tabanca de Campata/Galomaro, em 20/6/72;
- Tabanca indefesa de Sinchã Mamadu/Saltinho, na mesma data de 20/6/72;
- Tabancas indefesas de Sana Jau e Bonere/Saltinho, em 30/6/72;
- Tabanca de Cassamange/Saltinho, em 15/7/72;
- Tabanca indefesa de Guerleer/Galomaro, c/ morte de 3 prisioneiros civis e 1 ferido grave, em 27/7/72;
- Tabanca de Patê Gibele/Galomaro c/ 1 sarg. milícia morto+1 ferido grave e 2 feridos ligeiros da pop., em 11/8/72;
- Tabanca de Anambé/Cancolim c/1 morto (CCAÇ 3489)+3 feridos também da mesma CCAÇ, que ali estava de reforço, em 5/9/72;
- Tabanca de Sinchã Maunde Bucô/Saltinho, c/3 feridos IN confirmados, em 20/9/72;
- Tabanca de indefesa de Bujo Fulpe/Galomaro, em 26/9/72;
- Tabanca ainda indefesa de Bangacia/Galomaro, com 1 milícia e 2 civis mortos, no mesmo dia (26/9/72);
- Tabanca de Dulô Gengele/Galomaro, com 3 mortos IN confirmados e 3 mortos civis (que tinham sido feitos prisioneiros antes do ataque e que foram abatidos+1 ferido grave e 1 ferido ligeiro dos milícias e 4 feridos graves da pop e 5 feridos ligeiros da pop., em 17/10/72;
- Tabanca indefesa de Sarancho/Galomaro, com 2 mortos civis e 2 feridos civis;
- Tabanca indefesa de Samba Cumbera/Galomaro, c/1 ferido grave da pop., em 13/11/72;
- Tabanca de Cansamange/Saltinho, 17/12/72;
- Picada Saltinho-Galomaro c/16 elementos da pop. capturados e roubados dos seus haveres (dinheiro), em 18/1/73;
- Tabanca de Bangacia/Galomaro, c/2 mortos civis+2 feridos civis+2 feridos milícias, em 1/2/73;
- Tabanca de Campata/Galomaro, c/5 mortos do IN e 1 capturado+3 mortos milícias e 3 mortos civis, em 16/3/73;
- Tabanca de Sinchã Maunde Bucô/Saltinho, em 14/5/73;
- Tabanca de Bangacia/Galomaro, em 18/9/73;
- Tabanca de Madina Bucô, em 20/1/74


PS - Comentário do Paulo Santiago (*) em complemento do que escreveu o Luís Dias:

No comentário do Luís Dias, umas pequenas correções nas flagelações a tabancas/ Saltinho até Agosto/72,  mês em que regressei em fim de comissão:

Tabanca de Sinchã Maunde Bucô/Saltinho,em 14/5/73
Tabanca de Madina Bucô,em 20/1/74

É a mesma tabanca, o nome correto é o primeiro,mas era mais conhecida por Madina, era a tabanca antes de chegar ao Quirafo vindo do Saltinho.

Não consta da lista, mas esta tabanca foi flagelada numa data em que eu ainda estava no Saltinho,talvez Junho ou Julho.

Sana Jau e Bonere. não conheço, não ficavam na zona do Saltinho

segunda-feira, 16 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27826: Notas de leitura (1905): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (6) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 19 de Setembro de 2025:

Queridos amigos,
Faço juz ao intenso trabalho de pesquisa e leitura a que José Alvarez procedeu. A grandiosidade de Cabral supera o desastre que se seguiu, revela que aquela geração de políticos e guerrilheiros se revelou incapaz de pôr em prática um plano patriótico de desenvolvimento e de democracia participativa, mesmo quando esta, na ótica de Cabral, se aparentava a um tipo de democracia vigiada por uma elite dominante. 

Ele advertiu que a chegada a Bissau e o acomodamento da direção do PAIGC à atmosfera existente traria corrupção, vigarices, apadrinhamentos, uma completa adulteração das ajudas internacionais, como aconteceu. 

É expectável que este trabalho de José Alvarez suscite novos avanços na investigação e que esta não se confine exclusivamente tanto à luta nascionalista como aos acontecimentos da guerra colonial. Já passou o centenário de nascimento deste líder revolucionário, se podemos lamentar que poucas obras de estofo sobre Cabral foram editadas na efeméride, é de crer que este impulso dado por uma biografia romanceada abra caminho a novos olhares sobre o fundador da Guiné-Bissau.

Abraço do
Mário



O primeiro romance histórico sobre a vida e obra de Amílcar Cabral – 6

Mário Beja Santos

Salazar toma a decisão de escolher um militar prestigiado para substituir o Governador e Comandante-chefe Arnaldo Schulz que regressara em abril de 1968, visivelmente doente e desmotivado. 

Em 19 de fevereiro desse ano, um grupo armado do PAIGC, chefiado por André Pedro Gomes e Joaquim N’Com atravessou o rio Mansoa perto de Bula e alcançou a proteção de arame farpado do aeroporto de Bissalanca, abriu fogo e atingiu edifícios aeroportuários e pistas. 

A conversa havida entre Salazar e Spínola consta de numerosa documentação, José Alvarez releva algumas das alegadas tomadas de posição de Spínola, bem como a sua exposição de motivos numa reunião havida na Cova da Moura.

Entretanto Salazar sofre um traumatismo craniano que o irá incapacitar por completo, ocorre, entretanto, em Madina do Boé, um julgamento em que Honório Sanchez Vaz e Miguel Embaná serão condenados à morte por provado envolvimento numa tentativa de negociar a rendição de vários elementos do PAIGC, sob o seu comando, e conversações havidas com um dirigente da PIDE. 

Chegado à Guiné, Spínola inicia uma serie de remodelações que inclui a atividade das tropas especializadas, surge a consigna Por Uma Guiné Melhor, no fundo uma vasta campanha para a conquista social das populações. A PIDE vai informando Spínola que existem divisões no seio do PAIGC, e que ela própria os incrementa. A questão cabo-verdiana continua a ser uma dor de cabeça para Amílcar Cabral, os soviéticos davam apoio militar ao PAIGC, mas reconheciam a inviabilidade de guerrilha no arquipélago.

O autor também põe em destaque o descontentamento de guerrilheiros guineenses quanto ao tratamento que Cabral dava aos cabo-verdianos, refere uma reunião havida em Ziguinchor em que já se pede a morte de Cabral. 

Dentro da nova lógica de só haver destacamentos onde há população civil, abandona-se Madina do Boé, toda a região do Boé fica despovoada, abrindo novas oportunidades a incursões do PAIGC, que irão surgir em 1970, o desastre de uma jangada no Corubal vitimou na região de Cheche quarenta e sete homens. 

No secretariado do PAIGC analisa-se a política de Spínola, a libertação de presos políticos, com Rafael Barbosa à cabeça, o apoio do Governador aos régulos e o aparecimento de um lema perigosíssimo “A Guiné para os Guinéus”

O Comité Executivo de Luta reúne-se em Conacri para analisar os efeitos da política introduzida por Spínola, recorda-se os efeitos sempre devastadores da Força Aérea, Cabral fala nos mísseis e nas unidades de artilharia antiaérea, reclama-se a presença do líder do PAIGC no interior do território, ao que Cabral responde que não há ninguém que o possa substituir no relacionamento com o estrangeiro.

É o relato de uma reunião onde não faltam tensões: a colónia de refugiados no Senegal era um fator de destabilização para os combatentes do PAIGC; continuava-se a alcatroar estradas, com destaque para o Chão Manjaco, os fuzileiros especiais apreendiam embarcações do PAIGC na fronteira sul. 

O autor sublinha que é visível uma certa hostilidade de Osvaldo e Nino Vieira nas reuniões presididas por Cabral. Os foguetões do PAIGC marcam presença no ataque a Bolama em 3 de novembro de 1969, embora com estragos mínimos. 

Numa reunião no sul do Senegal presidida por Luís Cabral e em que estão presentes comandantes e comissários políticos também há muitas críticas desde falta de munições a falta de comida, é nisto que irrompe um ataque das tropas portuguesas àquela posição de Kumbamory que obriga a evacuar Luís Cabral e os comissários políticos da frente norte.

Cabral continua o seu imparável roteiro internacional; perante a tentativa portuguesa de negociar com bigrupos do PAIGC do Chão Manjaco, é decidida emboscar a força negociadora, supunha-se mesmo que viria Spínola em pessoa, massacraram-se três majores, um alferes e outros membros da comitiva, caía na água a operação de aliciamento de guerrilheiros do PAIGC. 

Cabral encontra-se com a sua filha mais velha em Moscovo por ocasião do centenário do nascimento de Lenine, a filha faz-lhe saber que se conspirava contra ele e contra os cabo-verdianos, o pai pede-lhe para ela não se preocupar com ele.

José Alvarez elenca eventos que dão conta ressentimentos dos guerrilheiros guineenses. A reunião em Roma dos três líderes dos movimentos de libertação com o Papa Paulo VI é uma vitória para os revolucionários e crispa as relações de Lisboa com a Santa Sé. Segue-se a Operação Mar Verde, um verdadeiro desaire diplomático para a política portuguesa, a repressão de Sékou Touré é sanguinária, com fuzilamentos e encarceramentos.

Entre 9 e 16 de agosto de 1971 ocorre em Boké uma reunião do Conselho Superior de Luta do PAIGC, reacendem-se as críticas e as reclamações: resistência dos pais em deixar sair as crianças para a escola, desaparecimento de equipamento hospitalar, a falta de médicos, a má gestão dos Armazéns do Povo, Cabral não esconde o exagero. Começam a ser tomadas medidas para efetuar em 1972 eleições gerais por sufrágio universal e secreto para a constituição da primeira Assembleia Nacional Popular. A PIDE/DGS obtém informações do que se passa nestas reuniões de Direção do PAIGC, a rede de infiltrados era fértil em informações.

O processo dos mísseis Strela fica concluído entre a URSS e o PAIGC, constituiu-se uma equipa que foi receber formação na URSS. Esse ano de 1972 foi de uma enorme azáfama para Cabral, o reconhecimento do PAIGC era cada vez maior, Portugal perdera aliados na ONU; independentemente de andar muito tempo no estrangeiro, Cabral estava notificado de atos de corrupção e negociações de guerrilheiros com as forças portuguesas.

E assim chegamos aos acontecimentos do assassinato de Cabral, Alvarez ficciona conversas de Cabral com Osvaldo Vieira e com outros protagonistas com quem conviveu ao longo do dia de 20 de janeiro de 1973. E há uma última palavra para as cerimónias fúnebres de Amílcar, a 31 de janeiro de 1973, em Conacri. Segue-se uma referência aos devastadores acontecimentos de Guidaje, Guileje e Gadamael.

Alvarez termina a sua biografia romanceada dizendo:

“Cabral foi, sem dúvida, uma das mais notáveis figuras nacionalistas de África e um incansável lutador pelas causas que acreditava. Era um ideólogo marxista, um carismático defensor dos negros, brilhante como estratega militar e genial na condução da política externa. Foi o pai da independência da Guiné, promovendo a integração social, o ensino e o respeito pela mulher, mas acabou traído pelos camaradas guineenses do partido, tendo sido assassinado na condição de cabo-verdiano.

Desconhece-se quem ordenou a sua morte, sabendo-se apenas que quem o assassinou e os seus cúmplices eram todos elementos da fação do PAIGC que pretendia afastar os cabo-verdianos da direção. Também se ignora o grau de responsabilidade da PIDE no homicídio, apesar de a sabermos interessada na divisão do PAIGC.”


Há que reconhecer o intenso trabalho em leituras e consultas que José Alvarez efetuou para nos dar a primeira biografia romanceada de Amílcar Cabral. Como é compreensível, não esgotou todas as temáticas do estratega, do líder revolucionário e até do visionário.

 Cabral terá sido demasiado complacente quanto ao relacionamento de guineenses e cabo-verdianos, tinha uma fé inabalável, digamos cega, de que as duas nações iriam entrelaçar-se para benefícios comuns, terá sido este sonho que o levou a uma vitória onde ele não pôde participar. E suficientemente visionário para saber que a entrada da direção do PAIGC em Bissau sem um rigoroso e ponderado projeto de regionalização e descentralização redundaria num desastre. Tal como aconteceu.
24 de setembro de 1973, o PAIGC declara unilateralmente a independência em local da região do Boé
Casa de Amílcar Cabral em Conacri
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Notas do editor:

Vd. post de 9 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27807: Notas de leitura (1903): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (5) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 13 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27818: Notas de leitura (1904): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (6) (Mário Beja Santos)