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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27764: Notas de leitura (1899): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (3) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 5 de Setembro de 2025:

Queridos amigos,
O romance de José Alvarez destaca as atividades de Cabral entre a sua reunião em Bissau (nesta altura ele tem intensa atividade profissional em Angola) em setembro de 1959, reunião determinante para pôr o movimento político de que ele é o cérebro em marcha, já se fala numa direção no exílio (Conacri) e no trabalho clandestino no interior da Guiné liderado pelo Presidente Rafael Barbosa. Cabral revela-se um ideólogo de referência em reuniões africanas, sensibilizando os novos Estados para a luta pela independência das colónias portuguesas. A ida a Londres será muitíssimo importante, quer pelo documento que Cabral elabora e que irá situar na imprensa e nas redes diplomáticas quer pela amizade que fará com Basil Davidson. Será em Tunes que se ouvirá pela primeira vez falar no PAI, à escala internacional. No romance, o autor procura recriar situações de grande tensão no casal, Maria Helena tinha extrema dificuldade no escasso ambiente familiar decorrente das atividades de Cabral. Este conseguirá êxitos diplomáticos com a China e com a URSS. a China assegura um plano de apoio militar, com a formação de elementos do PAIGC em Nanquim, e oferecendo armas. A URSS irá recebê-lo em 1961 e começará por oferecer bolsas de estudo, mais adiante formação e armamento.

Um abraço do
Mário



O primeiro romance histórico sobre a vida e obra de Amílcar Cabral – 3

Mário Beja Santos

Estamos chegados à controversa reunião em Bissau de 18 de setembro de 1956, há quem tenha assegurado que Amílcar Cabral não estava nesse dia em Bissau. Reza a história oficial do PAIGC que ocorreu aqui a data fundacional do partido, estariam presentes Luís e Amílcar Cabral, Aristides Pereira, Fernando Fortes, Elisée Turpin e Júlio de Almeida. Amílcar teria dito que a hora era propícia para a formação de um novo partido, o PAI, teria havido acordo da pequena plateia, e Cabral teria dado o seu pseudónimo, Abel Djassi. Como estava apressado para seguir para Angola. A verdade é que só se falará do PAI em 1960, e é dado como seguro que Amílcar estará em Bissau pouco depois dos acontecimentos do Pidjiguiti, de 3 de agosto de 1959, reunião determinante para estabelecer o arranque da vida partidária.

Amílcar Cabral recebe na sua casa em Lisboa, na Avenida Infante Santo, n.º 8, o nacionalista angolano Viriato da Cruz, 1957. Viera da China, cometera a asneira de vir para Lisboa, a PIDE estava a persegui-lo, conseguira desorientá-los, vinha pedir ajuda, Amílcar pôs-se em contacto com Lúcio Lara, há conversas sobre o Partido Comunista Angolano. Amílcar estará ativo em Lisboa, já tem relatório na PIDE, na sua ficha assinala-se fazer parte de uma rede de articulações políticas e ligações com movimentos clandestinos. Luís Cabral e a mulher visitam Amílcar e a mulher em Lisboa, dão notícias do que se está a passar na Guiné, Amílcar explica o que vai fazer em Angola, fala-se igualmente das eleições presidenciais de 1958. Amílcar volta a África, pago pelo Estado português, mas comparece de 8 a 13 de dezembro em Accra como observador, à 1.ª Conferência dos Povos Africanos, a vaga anticolonialista continuava a alastrar em África, dera-se a independência da Guiné-Conacri, o exército português começa a reorganizar-se, não há ilusões quanto a futuros conflitos entre os nacionalistas e o Estado Novo.

Amílcar Cabral irá conhecer um crioulo natural da Martinica, Frantz Fanon, em abril de 1959, este líder revolucionário, à margem do II Congresso dos Escritores e Artistas Negros, propôs, em nome do Governo Provisório Revolucionário da Argélia a formação de onze jovens angolanos. As relações de Cabral com Fanon não foram das melhores, diferem claramente nas suas estratégias, Fanon andará próximo de Guevara quanto à teoria do Foco, para Cabral inaceitável, pretende a presença de guerrilheiros e tornar a vida impossível aos colonos, garantindo uma continuada guerra de guerrilhas que leve à independência nacional.

Nesse ano de 1959, Cabral ainda trabalhava em Angola, na Companhia Angolana de Agricultura, em setembro chega a Bissau, encontra-se sigilosamente com Fernando Fortes, Aristides Pereira e Rafael Barbosa. É delineada a linha estratégica, a direção irá instalar-se em Conacri, a mobilização no interior da Guiné passará pela mobilização e organização dos camponeses. Amílcar conversará longamente com o irmão sobre os acontecimentos de Pidjiguiti em 3 de agosto, Luís partirá também para a clandestinidade ficará instalado em Ziguinchor. Amílcar moldou do seu espírito que deverá haver a união de Cabo Verde com a Guiné. Regressa a Lisboa via Dakar.

Aqui escreverá a Lúcio Lara:
“Estive na minha terra durante uns dias. Apesar de todas as opressões, de todas as manhas, a luta continua, cada vez mais conscientemente, cada dia mais reforçada. De tal maneira que eu próprio fico admirado de tanta vontade espontânea, de tanto desejo consciente fazer alguma coisa de concreto e consequente em relação à terra. Dado que surgiram outros movimentos (organizações clandestinas) é objetivo fundamental do programa traçado, conseguir uma união sólida, a formação de uma só frente para lutar. A chacina feita pela polícia e civis portugueses teve este balanço: 24 mortos e 35 feridos, alguns deles muito graves. Chegaram a matar alguns africanos dentro de água, quando tentavam fugir à polícia e alcançar os barcos que estavam ancorados perto do cais de Pidjiguiti.”

No final do ano regista-se uma grande atividade da PIDE, há muitas prisões em Luanda. Procurando a maior descrição, em viagens ao serviço do Governo português, Cabral procura reunir-se com elementos do Movimento Anticolonialista. Quando regressa a Angola sabe da prisão dos guerrilheiros selecionados. Saiu precipitadamente de Luanda escolhendo um itinerário a partir do Gana e outros países antes de chegar a Bissau. As atividades de Amílcar em Lisboa são acompanhadas pela PIDE, avisado por um professor do Instituto Superior de Agronomia sobre a vinda de elementos da PIDE ali para obterem informações dele, parte apressadamente para Paris, Maria Helena irá ter com ele, terá havido uma grande discussão no casal. Ela regressará a Lisboa e ele parte para a conferência em Tunes e depois para Londres. Em Tunes, Amílcar estará muito ativo na Conferência dos Povos Africanos, houve a exigência de que os delegados deveriam obrigatoriamente representar movimentos políticos com formação nacional própria. Pela primeira vez, a nível internacional, surge o nome do PAI e o Movimento Anticolonial passa a designar-se por FRAIN – Frente Revolucionária Africana para a Independência Nacional das Colonias Portuguesas. Cabral pede a Hugo Azancot de Menezes que lhe dê auxílio na sua ida a Londres e se o ajudava nas diligências para ter autorização para a instalação de membros do Movimento Anticolonial na Guiné-Conacri.

Em Londres, Cabral encontra-se com o jornalista e escritor Basil Davidson, que se transformará numa grande amizade. Vai aparecer o primeiro documento saído do punho de Cabral que sensibilizará a opinião pública internacional: The Facts about Portugal African Colonies, assinado com o nome de Abel Djassi. Hugo Menezes escreve a Cabral dizendo-lhe que está autorizado a residir em Conacri com a família, irá trabalhar como técnico do Governo. Instalado em Conacri, Cabral encontra-se com diplomatas, o primeiro secretário da embaixada da China mostra-se particularmente recetivo, de contacto em contacto uma delegação de movimentos nacionalistas constituída por Viriato da Cruz, Eduardo M. dos Santos e Cabral recebem o convite para uma visita de estudo e amizade à China.

Em meados de 1960, a PIDE emite uma nota sobre Amílcar Cabral e as suas atividades, nota que inclui falsidades como lhe atribuir responsabilidade na revolta dos estivadores do porto de Bissau, em agosto de 1959. Luís Cabral foge para Conacri. Maria Helena e a filha abandonam Lisboa, vão primeiro a Paris e depois Conacri. Um grupo de jovens, parte para a China, entre eles Nino Vieira e Osvaldo Vieira.

A atividade de outros movimentos anticolonialistas guineenses preocupa Cabral são-lhe hostis, destacam o que eles consideram ser a exploração secular dos guineenses pelos cabo-verdianos. No final do ano de 1960, Cabral recebe o convite para visitar a URSS em março do ano seguinte, a primeira oferta dos soviéticos são bolsas de estudo nas instituições de ensino técnico e superior da URSS. Estimulado por estas ajudas, Cabral prepara uma escola de formação em Conacri e vai confrontar-se com outros movimentos independentistas guineenses.

Amílcar Cabral e Maria Helena, sua mulher, na Guiné, mota com sidecar
Coisa curiosa, a PIDE da Guiné em 1958, não apurou nada em desabono de Cabral, moral e politicamente, o que faz cair por terra, as demissões e expulsões, os impedimentos de visitar a família, etc., têm aparecido na hagiografia mitológica e martirológica de Cabral.
Cabral na China em 1960, delegações do MPLA e do PAIGC

(continua)
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Nota do editor

Post anterior de 16 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27738: Notas de leitura (1896): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (2) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 20 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27754: Notas de leitura (1898): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (3) (Mário Beja Santos)

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27750: Os 50 anos da indepedência de Cabo Verde (23): Morreu a Amélia Sanches Araújo (1934-2026), a antiga locutora da "Rádio Libertação" (1964-1974), a famosa "Maria Turra", como era conhecida entre a malta do CTIG (Carlos Filipe Gonçalves, Praia, jornalista aposentado)


Foto nº 1


Foto nº 2

Amélia Sanches Araújo (Luanda, 1934 - Praia, 2026) (*)

Legendas: Foto nº 1 > s/l > c. 23/24 de setembro de 1973 > "Amélia Araújo gravando os trabalhos da I Assembleia Nacional Popular da Guiné-Bissau para a Rádio Libertação".

Fonte  (e legenda): Antena Um / Fundação Mário Soares / Casa Comum / Arquivo Amílcar Cabral (Com a devida vénia...)

Foto nº 2 > Amélia Araújo aos microfones da Rádio Libertação, a rádio do PAIGC, a emitir a partir de Conacri. Teve início em julho de 1967. Data da foto: c. 1967.

Amélia Araújo, a nossa "popular Maria Turra", que é "muito mintirosa" (dizia o Zé Tuga), vivia há anos  em Cabo Verde. Era angolana, de origem cabo-verdiana. A sua voz pode ser aqui recordada no ficheiro áudio (10' 18'') do portal DW - Deutsche Welle ("Rádio Libertação: Fala o PAIGC").

Fonte: Antena Um / Fundação Mário Soares / Casa Comum / Arquivo Amílcar Cabral (Com a devida vénia...)


1. Postagem, no nosso Facebook, do nosso camarada Carlos Filipe Gonçalves, ex-fur mil amanuense (Chefia dos Serviços de Intendência, QG/CTIG, Bissau, 1973/74), radialista, jornalista, escritor, natural do Mindelo, a viver na Praia, Cabo Verde:

Faleceu Amélia Araújo, locutora da Rádio Libertação 1964/1974 conhecida entre a tropa portuguesa na Guiné por «Maria Turra».

Faleceu hoje 19 de fevereiro de 2026, na Cidade da Praia, Amélia Sanches Araújo, de origem cabo-verdiana, nasceu em Angola em 1934. Conhecida e popular apresentadora da "Rádio Libertação",  desde a sua fundação em 1964 com programas através de emissoras de países (como o Senegal, Guiné-Conacri e outros) que apoiavam o PAIGC.  Ficou conhecida entre a tropa portuguesa  por "Maria Turra". 

Apresentou na rádio, muitos textos de Amílcar Cabral a denunciar "a política enganosa dos colonialistas portugueses". Era casada com o alto dirigente do PAIGC José Araújo, que mais tarde a partir de 1980 desempenhou em Cabo Verde os cargos de ministro da Educação e da Justiça.

Carlos Filipe Gonçalves – Recordação da Rádio Libertação/Rádio Bissau em Setembro/Outubro de 1974 – Extracto do livro “Recordações de Um Furriel Miliciano, Bissau 1973 – 1974/75:

Fui talvez o único militar português que ficou em Bissau, depois de 10 de setembro de 1974, quando saiu o último Governador português. Passei a tabalhar na Rádio Bissau, depois Radiodifusão Nacional da Guiné-Bissau. Regressei a Cabo Verde em 22 de agosto de 1975. O livro ainda não publicado, descreve o último ano de Guerra vivido em Bissau em 1973/74 e depois o período de setembro de 1974 a agosto de 1974 depois da chegada do PAIGC a Bissau. Eis um extracto:


(...) "E foi numa dessas visitas do 'camarada' José Araújo à rádio em Bissau, que ouço uma voz conhecida, timbre inconfundível, pronúncia impecável do português… É a voz da 'Maria Turra'! Desde que entrara na rádio, tinha ouvido gravações com essa voz, mas nunca tinha visto a pessoa! Agora, ouço ao vivo aquela voz e vejo esta senhora, que me cumprimenta, educadamente… Conhecia agora a 'camarada' Amélia, cuja voz, desde que a Rádio Libertação viera para Bissau, passava nas gravações de abertura e anúncios da estação, ou nos programas que tinham sido gravados em Conacri e que muitas vezes, eram agora repetidos, nomeadamente as palavras de ordem de Cabral. 

Desfez-se para mim a imagem que fazia da 'Maria Turra'… Vejo senhora educadíssima, de bons modos, bem falante… claro, pronúncia e timbre impecáveis no português. Como sempre discreto, não digo nada, não comento. Pelas conversas do pessoal operador de som (fardado e armado) que veio de Conacri, fico a saber que a 'camarada' Amélia Araújo, é a mãe da Terezinha, a cantora de voz estridente, cujas gravações vindas de Conacri, passam muitas vezes na rádio. 

Eu conhecia bem aquela bobine, com uma vozinha de criança, muito ao gosto desses 'camaradas' operadores de som, uma gravação da participação de uma delegação cultural do PAIGC no 'Festival Internacional da Juventude' em Berlim, RDA, em 1973. 

Depreendi, seria a menina, que eu já conhecia, pois muitas vezes acompanhava o pai, nas visitas à rádio. Mas…, 45 anso mais tarde, venho a saber, que afinal, ela era a irmã da Terezinha! 

Esta, continuou a carreira de cantora, que se destacou mais tarde, no panorama da música cabo-verdiana, com muitos sucessos e actuações, integrou o conjunto Simentera, conhecido internacionalmente. 

Um belo, dia, numa conversa comigo, sobre a rádio em Bissau, afirmou: “Não! Não era eu, que ia à rádio em Bissau! Naquela época, eu, estava a estudar na União Soviética! Quem estava em Bissau, e ia à rádio com meu pai, era a minha irmã." (**)

(Revisão / fixação de texto: LG)

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Notas do editor LG:


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27738: Notas de leitura (1896): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 1 de Setembro de 2025:

Queridos amigos,
Aqui se relata como Amílcar Cabral, terminado o seu curso de Agronomia, requereu trabalho para a Guiné e foi colocado na granja de Pessubé, trabalho que inicia em setembro de 1952, ganhará rapidamente alguma notoriedade com o seu Boletim Informativo, segue-se o recenseamento agrícola, há muito pedido pela FAO, no romance de José Alvarez dá-se como seguro que Cabral foi demitido pelo Governador Mello e Alvim, não há documentos concludentes e correspondência de Cabral para os amigos nada indicia, Cabral e a mulher estavam fortemente afetados pela malária, isto de acordo com o parecer da Junta Médica. De regresso a Lisboa, empregos não faltam ao engenheiro podólogo. Veremos a seguir como se vai abrir um período internacional de reuniões dos nacionalistas africanos, em Tunes, em 1960, é anunciado pela primeira vez a existência do PAI, mais tarde transformado em PAIGC. E veremos também como a polícia política no Estado Novo vai colhendo informações sobre o ativismo de Cabral. Assim ele irá preparar a saída de Portugal, de Paris seguirá para Conacri. Houvera entretanto em 1959 uma reunião em Bissau, o movimento nacionalista estabelecera os trâmites para a sua organização, Rafael Barbosa ia encaminhando os jovens para Conacri, aqui Cabral iria criar uma escola para lhes dar os rudimentos da formação ideológica, de Conacri partiriam para Nanquim, China, regressariam já com o espírito de guerrilheiros.

Um abraço do
Mário



O primeiro romance histórico sobre a vida e obra de Amílcar Cabral – 2

Mário Beja Santos

No prefácio deste romance histórico, o General Pedro de Pezarat Correia apresenta a obra de José Alvarez [na foto à direita] do seguinte modo:
“É um ensaio biográfico porque o tema é a vida de Amílcar Cabral, sustentada por uma exaustiva investigação de fontes primárias e resultando na caracterização de uma personalidade que, creio, é retratada com justíssima fidelidade. É um romance porque nessa vida sobressai a acidentada e apaixonada vida amorosa de Cabral, traduzida em dois casamentos dominados pelo empenhamento ideológico e político do próprio e das suas companheiras e, por isso, terminados em tragédias. E é ficção histórica porque tratando-se da descrição de um percurso político, de uma época e das suas circunstâncias, da formação e liderança do PAIGC, do envolvimento frentista com os movimentos de libertação das outras colónias portuguesas numa luta comum contra a ditadura colonial, onde se cruzam personagens reais e em situações reais, toda ela é enriquecida com a óbvia imaginação criativa do autor na descrição e reprodução de cenários, da tensão nas reuniões, dos diálogos ideologicamente discordantes, do ambiente na clandestinidade, do risco iminente nas zonas de guerra, da precariedade nos países de acolhimento no estrangeiro, das cumplicidades e traições que ali se cruzam.”


Em síntese, um romance histórico. Vimos alguns elementos preponderantes da vida de Amílcar entre 1924 e 1951, o agrónomo distinto continua a reunir-se com nacionalistas de outras colónias na Rua Actor Vale, n.º 37, reuniões de grande entusiasmo e contestação aos processos colonialistas em curso. Morreu Juvenal Cabral, envia um telegrama ao seu irmão Luís: “Ciente dolorosa fatalidade unidos lutaremos”. Maria Helena é o seu arimo, casam em 20 de dezembro de 1951, após a cerimónia civil, na companhia de amigos como Mário de Andrade e Alda Espírito Santo foram almoçar bacalhau no Café Colonial, na Avenida Almirante Reis.

Refere o autor:
“Amílcar decidiu realizar o estágio para acabar o curso, pelo que ficou em Lisboa a desenvolver o seu projeto no Instituto Superior de Agronomia e na Estação Agronómica Nacional do Alentejo. Passou bastante tempo em Cuba e na Vidigueira em trabalhos de campo, sob a orientação do professor Botelho da Costa (…) Em 1952, terminou o projeto com a classificação de 18 valores. Foi um ano importante para Amílcar, em que se formou e a sua mulher apareceu grávida. Optou pela Guiné. Amílcar sentia que tinha uma missão cumprida. O contacto com outros estudantes das colónias na Casa dos Estudantes do Império fê-lo acreditar que podia ser útil na luta pela emancipação do homem negro e da terra africana. Teve a honestidade, de ao longo do namoro com Maria Helena, lhe mostrar que essa era a sua missão, apesar dela o ter contrariado e rompido a relação, por mais de uma vez.”


Em setembro de 1952, Cabral tem emprego na Guiné, passa por Cabo Verde para visitar a família, foi contratado pela Repartição Provincial dos Serviços Agrícolas e Florestais da Guiné Portuguesa, como Adjunto do Chefe da Repartição Provincial. Instala-se na granja do Pessubé, Mária Helena ainda ficou em Lisboa a acabar a tese, chegou dois meses depois. Informa a mulher que vão viver no meio de quatrocentos hectares de campo, Amílcar pensa em tudo para o conforto da mulher. Criou um Boletim Informativo para divulgar as atividades da granja, tudo redigido para compreensão de destinatários rurais. Irá planificar o Recenseamento Agrícola da Guiné Portuguesa, que se efetivará em 1953, irá percorrer grande parte da colónia, muitas vezes acompanhado da mulher. Continua a jogar futebol, no romance Amílcar irá encontrar Nino Vieira e Aristides Pereira, conversa para estabelecer relação. Fala-se na chegada de novo governador, um homem da Armada, Diogo Mello e Alvim.

É durante um repasto que Cabral comenta que Salazar queria implementar a produção da mancarra, fazer dela o principal produto exportador. Mas os solos já apresentavam alguma erosão, a degradação ir-se-ia acentuar. Fala-se da política na terra, nas condições sub-humanas em que têm sido feitas as estradas, e Amílcar conversando com Aristides Pereira sugere que se forme uma agremiação desportiva, a ideia parece ter pernas para andar, há um grave óbice, a agremiação seria só para negros. Clara Schwarz ensina francês a Amílcar, este seria delegado do Governo português à Conferência Arachide-Mils em Bambey, no centro oeste do Senegal.

Chega o irmão de Amílcar a Bissau, Luís, irá trabalhar na Casa Gouveia. Nasce a filha mais velha do casal, Iva Maria, a avó, Iva Pinhel Évora, ajuda Maria Helena. Começam as operações de recenseamento, tarefa enorme. Em Bissau, o casal que se passara a relacionar com uma farmacêutica que estivera presa em Caxias e obrigada a vir para a Guiné, Sofia Pombo, é convidada para uma reunião em sua casa, comparecem, entre outros, Aristides Pereira, Fernando Fortes, Luís Cabral, Júlio Almeida, debatem-se os ares de independência que sopram em África. No final desse ano de 1953, Cabral e a sua equipa começaram o recenseamento no sul da Guiné.

No início de 1954 chega Mello e Alvim, estão elaborados os estatutos da associação, há discussão na medida em que Cabral inicialmente não devia assinar. Maria Helena começa a ter crises de malária. Dá-se o encontro entre o novo governador e Amílcar, conversa bastante cordial, Cabral faz a crítica à cultura da mancarra, o governador promete visitar a granja de Pessubé. Dentro do romance surge a notícia que Mello e Alvim iria demitir Cabral das suas funções na Estação Agrária e que a sua autorização de residência na Guiné ser-lhe-ia retirada, nova conversa entre o governador e Cabral, dera-se a rutura, Cabral pede para partir para Lisboa o quanto antes, alega que vai aceitar o lugar de assistente do professor Baeta Neves, na cadeira de Entomologia Agrária. De acordo com a historiografia e com a correspondência de Amílcar Cabral na época para vários amigos, não há qualquer menção à demissão por razões políticas, no casal vão ocorrendo sucessivas crises de paludismo.

O casal e a filha regressam a Lisboa, estamos em 18 de dezembro de 1955, Cabral começa a procurar emprego, o professor Botelho da Costa pede-lhe um estudo sobre o cultivo da cana-de-açúcar na Guiné, foi igualmente integrado em vários trabalhos conotados com o estudo de solos. Fala-se no regresso à Guiné, Maria Helena está profundamente reticente. Cabral recebe nova proposta de trabalho, propõem-lhe que seja diretor da Brigada de Estudos Agrológicos da Companhia de Açúcar de Angola. Chegam notícias da Guiné de que há prisões de nacionalistas.

Estamos chegados a setembro de 1956 e à realização da discutível reunião da fundação do PAI. José Ferreira de Lacerda estaria na origem da fundação de um novo partido, o Movimento de Libertação da Guiné, constituía-se em Bissau um grupo de oposição, Cabral via toda esta movimentação com pouco agrado, dizendo que “eram burgueses que se moviam pelos interesses de classe, interessados na ascensão dentro da sociedade colonial e não pelos negros da Guiné, povo anónimo multiétnico. Apoiavam-se em homens fortes como armador de pesca Eugénio Peralta e comerciantes endinheirados como Manuel Spencer e Fernando Lima”; e o autor escreve que Amílcar Cabral aproveitou a sua estadia em Angola para voar até Bissau em 18 de setembro de 1956 (este evento é fortemente contestado pelo historiador guineense Julião Soares Sousa).
Café Colonial, Avenida Almirante Reis n.º 24, aqui se festejou o almoço do casamento de Maria Helena e Amílcar Cabral, a pedido de vários nacionalistas africanos comeu-se uma bacalhauzada, 1951
Maria Helena, Amílcar Cabral e a segunda filha do casal, Ana Luísa

(continua)
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Notas do editor

Vd. post de 9 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27718: Notas de leitura (1894): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (1) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 13 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27732: Notas de leitura (1895): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (2) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27718: Notas de leitura (1894): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 28 de Agosto de 2025:

Queridos amigos,
É uma novidade, um romance histórico dedicado à vida e obra de Amílcar Cabral. Romance é romance, mesmo quando o autor apresenta bibliografia condigna assiste-lhe todo o direito de forjar diálogos, recriar ambientes. Tratando-se de um romance de 600 páginas, achei por bem compartimentar por períodos o trabalho de José Alvarez, arrancamos no período que antecede a sua vinda para Lisboa (1924, data de nascimento a 1944, conclusão dos estudos liceais a 1951, ano em que Cabral irá realizar o estágio para acabar o curso, passando bastante tempo em Cuba e na Vidigueira). No próximo texto, Cabral está formado, com alta classificação, optou por ir trabalhar na Guiné, a relação entre ele e a mulher é muito próxima, mas haverá muitas tensões por ele ter escolhido esta missão, que o levará à Granja de Pessubé e depois ao recenseamento agrícola na colónia, era uma exigência da FAO, há muito adiada, ele, e na companhia da mulher, cumprirão cabalmente esta missão.

Um abraço do
Mário



O primeiro romance histórico sobre a vida e obra de Amílcar Cabral – 1

Mário Beja Santos

José Alvarez volta à Guiné, estreara-se na literatura com o romance Dois Amigos, Dois Destinos, isto em 2014. Publica agora algo a que se pode intitular romance histórico Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império, Âncora Editora, 2025.

Em nota prévia, justifica-se ao que vem:
“Por certo haverá leitores que se interroguem os motivos que me levaram a escrever este livro sobre Amílcar Cabral, decorridos mais de cinquenta anos sobre o seu brutal assassinato. Em boa verdade devo-lhes esta explicação. Eu pertenço à geração nascida nos anos 40, que viveu a Guerra Colonial até à queda do regime, a 25 de abril de 1974. O serviço militar era obrigatório e foi em fase de conclusão do meu curso universitário que decidi ingressar na Reserva Naval da Armada, por se tratar de uma alternativa menos penosa e com menos riscos que a do Exército. Concluída a fase de instrução, fui mobilizado para a Guiné, onde cheguei a 30 de julho de 1971, para só regressar à Metrópole no final da comissão, a 6 de outubro de 1973. Comecei por comandar um navio patrulha (LFP), lancha de pequena fiscalização, dotada de uma guarnição de oito militares, que tinha por missão a vigilância das águas territoriais marítimas e dos rios da Guiné, mormente o Cacheu, o Geba, o Rio Grande de Buba, o Tombali, o Cumbijã e o Cacine, para além de coordenar operações logísticas, comboiando batelões de mercadorias para abastecimento das povoações do interior como Bolama, Farim, Buba, Jabadá e Cacine. Participava ainda no transporte de tropas de intervenção, fuzileiros, para-quedistas ou comandos, em operações especiais. Em outubro de 1972, fui transferido para o Comando da Defesa Marítima, passei a ter acesso a documentos secretos e informações da PIDE, apercebendo-me de que Amílcar Cabral era um líder de grande dimensão, não só pela atividade política que desenvolvia no plano internacional, como também pela forma como conduzia as operações armadas do terreno.

Com a queda do Estado Novo, o país conheceu outros rumos, mas a Guerra Colonial deixou marcas profundas nos nossos combatentes. Aqueles anos de África ficaram gravados de forma especial na minha memória. Olhando para a guerra à distância e com os meus conhecimentos sobre Cabral, entretanto ampliados por muito que se foi escrevendo sobre aquela personagem e pela leitura detalhada da documentação do arquivo de Amílcar Cabral da Casa Comum, da Fundação Mário Soares e Maria Barroso, pude compreender melhor as ações do líder guineense, tendo em conta a sua infância, marcada pela influência dos seus progenitores e pelo seu percurso como estudante de Agronomia em Lisboa. Optei por escrever um romance histórico ficcionado sobre Amílcar Cabral baseado na sua bibliografia, dando vida ao Homem, à sua família e aos seus amigos. Preocupei-me em referir as circunstâncias diversas que Cabral viveu no Mindelo, em Lisboa, em Bissau, Conacri e Rabat. Dei ênfase aos acontecimentos contemporâneos, como a II Guerra Mundial, a independência da Guiné-Conacri, a Tricontinental de Havana, a operação Mar Verde, bem como a influência dos seus professores do liceu Gil Eanes e dos pensadores marxistas como Aimé Césaire e Franz Fanon e também do escritor e jornalista Basil Davidson.

Embora as personagens desta obra sejam reais, os seus diálogos são ficcionados com base em documentação consultada em vários arquivos.”


O autor começa por referir a filiação do líder do PAIGC, a transferência dos pais para Cabo Verde, em momentos diversos, a separação de Juvenal Cabral e de Iva Pinhel Évora, a frequência de Amílcar na Escola Central da Praia, a transferência de Iva e de Amílcar para São Vicente, os trabalhos duríssimos de Iva para sustentar a família que Amílcar deixará uma afetuosa evocação no seu livro de curso de Agronomia. No Mindelo, Amílcar observa a presença do Corpo Expedicionário que veio reforçar as defesas no decurso da II Guerra Mundial. Visita o pai na ilha de Santiago, na casa deste em Achada de Falcão, inevitavelmente falar-se-á de política, Juvenal era admirador da obra de Salazar, Amílcar brinca com os irmãos do terceiro casamento do pai. É neste período que vai emergindo a consciencialização nacionalista de Amílcar. Em 1945, ele ganha por concurso uma bolsa de estudos e chega a Lisboa, irá frequentar o Instituto Superior de Agronomia. Apresenta-se à chegada na Casa dos Estudantes do Império, prédio de esquina no Arco do Cego com a Rua D. Estefânia, vai fazer amizades, muda-se para Alcântara, logo procurou dar explicações de matemática, entra na Tapada da Ajuda, cedo revela as suas aplicações no meio universitário, conhece Maria Helena Vilhena Rodrigues, haverá amor transbordante, recíproco, a correspondência de Amílcar para Maria Helena será publicada em 2016, lendo aquela epistolografia manual não deixa de surpreender não haver para ali uma rasura, um desalinhamento, uma extrema sintonia entre a mente e a mão.

José Alvarez vai ficcionando relatos, desvela mentalidades das colegas de Amílcar, este vai-se apercebendo das tensões sociais, o leitor é induzido no relacionamento de Maria Helena com as amigas, cresceu, entretanto, a ligação amorosa, muito mal vista pela diretora do colégio de Maria Helena, Amílcar continua a frequentar a Casa dos Estudantes do Império, a polícia política começa a estar atenta às manifestações dos estudantes nacionalistas africanos. Nas relações de Amílcar surgem Marcelino dos Santos e Mário Pinto Andrade, já se fala na negritude, põe-se em causa o direito de Portugal possuir colónias, critica-se o luso-tropicalismo, considerada uma teoria que dava força à continuação do império português, desfigurando a realidade vivida pelos negros, sujeitos à discriminação social e à ideologia colonialista. Entra neste círculo de relações o angolano Agostinho Neto.

Em agosto de 1948, Amílcar arranjou emprego temporário na secção do Contencioso do Instituto Nacional do Trabalho. Reencontra Maria Helena depois das férias, Amílcar propõe-lhe um futuro comum. Amílcar está de regresso a Cabo Verde nas férias de verão de 1949, também visita o pai, recebe um convite para colaborar na Rádio de Cabo Verde, reencontra um amor da juventude, Rosa, a quem dedicará um poema Rosa Negra. Faz programas radiofónicos, é recebido pelo Governador Carlos Alves Roçadas, conversa calorosa.

Estamos em Lisboa no início da década de 1950, Amílcar inicia um estágio na Brigada dos Solos de Santarém, saiu, entretanto, do MUD, manifesta o seu desgosto da oposição não ter preocupações anticoloniais. Maria Helena e Amílcar já falam em casamento, chegam mais estudantes africanos, Lúcio Lara, angolano, Alda Espírito Santo, santomense. Nasceu na rua Actor Vale, n.º 37, em casa de Januário da Graça Espírito Santo, pai de Alda, o Centro de Estudos Africanos, espaço que se iria dedicar ao estudo e reflexão de temas africanos. Aqui se reuniram Agostinho Neto, Mário Pinto Andrade, Amílcar Cabral, Francisco Tenreiro, Marcelino dos Santos e Alda Espírito Santo.

Nesse ano de 1951, Amílcar e Maria Helena, entre outros estudantes de Agronomia, partem com o professor Botelho da Costa para o Alentejo, vão estudar a erosão dos solos.

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 6 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27710: Notas de leitura (1893): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (1) (Mário Beja Santos)

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27715: S(C)em Comentários (88): Paiai Lémenei, de má memória (Luís Dias, ex-alf mil op esp, CCAÇ 3491 / BCAÇ3872, Dulombi e Galomaro, 1971/74)


Guiné > Zona Leste > Sector de Galomaro > CCAÇ 3491 / BCAÇ 372 (1971/74)  (1971/74) >

  Luís Dias, alf mil op esp :  "Chegada a Galomaro da CCAÇ 3491,  no dia 9 de março de 1973. No jipe podemos ver eu, e  o fur mil Baptista, do 1º Gr Comb, e ao lado, a sorrir, um guerrilheiro do PAIGC que, no dia anterior, se tinha entregue a uma patrulha nossa na área do Dulombi. A arma é uma Shpagin PPSH 41, no calibre 7,62 mm Tokarev, mais conhecida por "costureirinha" e com a particularidade de ter um carregador curvo de 35 munições, em vez do habitual tambor de 71". 

(Foto do Luís Dias, reproduzida com a devida vénia, do seu blogue, Histórias da Guiné, 71-74: A CCAÇ 3491, Dulombi.


1. Comentárioo do nosso grão-tabanqueiro Luís Dias, ao poste P27713 (*)


A história do Rui Felício fez-me lembrar a que eu passei, na zona que ele descreve, em Paiai Lemenei, anos depois, em 11 de março de 1972, quando com o meu grupo de combate (2º) e outro combate (3º), ambos da CCAÇ3491, recentemente chegados ao Dulombi, e reforçados por 1 secção de milícias, regressávamos de uma operação a uma zona perto do Rio Corubal, numa zona fortemente arborizada, onde parámos para descansar. 

Fomos alertados pelos gritos de aviso de um dos meus soldados, que avistou 2 elementos IN a avançar sobre a nossa zona, seguidos de uma forte rajada de metralhadora. 

Após alguns segundos de silêncio, desatou um "fogachal" sobre nós, com roquetes e tiros de armas automáticas. 

Depois da surpresa, houve uma reacção do nosso pessoal e foi um elemento africano, do 3º grupo, já experiente, que agarrou o morteirete 60mm, colocou-o à barriga (um feito que nunca mais vi ninguém fazer) e largou um par de granadas que terão caído perto donde estavam os elementos do IN acoitados. 

De facto, o fogo deles quase parou imediatamente.

 Entretanto o escuro da noite foi surgindo. A rajada que tínhamos ouvido, fora lançada por um dos meus 1º cabos, que também avistara os elementos do PAIGC e disparara uma rajada da sua ML e pouco mais porque a HK-21 entretanto se encravou. 

Tivemos feridos ligeiros, mas o IN pelos rastos e poças de sangue encontradas (só no dia seguinte) e material deixado pelo chão, tiveram baixas de certeza. 

Na rádio do PAIGC disseram que tínhamos sofrido 8 mortos e, o que não era normal, referiram terem sofrido baixas. 

Como na história do Rui, deduzimos que o grupo IN também tinha parado na mesma zona, provavelmente a descansar, para mais tarde ir atacar o Dulombi. 

Abraço a todos os camaradas.

Luís Dias, ex-alf mil at inf, CCAÇ 3491 / BCAÇ 3872 (Dulombi/Galomaro, 1971/74)

domingo, 8 de fevereiro de 2026 às 10:39:00 WET  (**)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27698: Os 50 anos da independência de Cabo Verde (20): E se tivesse havido um referendo em 1975 ? (Adriano Miranda Lima, cor inf ref, mindelense, que bebeu a água do Madeiral, a viver na diáspora desde 1963, e atualmente em Tomar)


 

Adriano (Miranda) Lima: mindelense da diáspora, nascido em 1943, é cor inf ref, vive em Tomar desde 1963. Serviu muitos anos no RI 15. Nao passou, na guerra de África, pela Guiné, mas sim por Angolas e Moçambique. Escritor, tem-se interessado pela história, património e cultura da sua terra. É igualmenet assíduo colaborador de jornais e blogues de (ou com referência a) Cabo Verde. É membro da nossa Tabanca Grande desde 2012. 

Tem cerca de duas dezenas e meia de referências no nosso blogue. É autor, nomeadamente. dos livros " "Forças Expedicionárias a Cabo Verde na II Guerra Mundial" e "Dr. José Baptista de Sousa – O Homem, o Médico e o Militar". Ambos, edição de autor, publicados em 2020.


1. Mensagem do Adriano Lima, comentando o poste P27669 (*)


Data - 3 fev 2025 02:49
Assunto - E se... ? Invasão do Mindelo em 1942


Amigo Luís, boa noite.

Só reajo agora porque, infelizmente, problemas familiares forçaram-me a fazer uma pausa na minha rotina habitual.

 Agradeço este interessantíssimo trabalho, que li com imenso gosto e muito gozo. 

As meninas da IA fizeram o que delas era de esperar, reproduzindo fielmente a história do que realmente aonteceu. O que, noutra circunstância, poderia ter acontecido está bem reproduzido nas imagens aos quadradinhos e comentado com refinado humor pelo editor do blogue. 

Olha que quem lê até é levado a pensar que és um mindelense de gema, ou seja, que bebeste a água do Madeiral, expressão que antigamente se usava para caracterizar o natural da ilha que melhor se identifica com os seus usos e costumes (a água que abastecia a ilha vinha de uma nascente no lugar com esse nome, Madeiral). 

Na idiossincrasia mindelense cabe um humor típico e que não tem paralelo no resto do arquipélago. Parece que isso se deveu à influência da comunidade inglesa, que em grande parte impulsionou o desenvolvimento da cidade e do porto. O crioulo de S. Vicente incorpora no seu léxico termos ingleses com mais ou menos adulteração.

Quanto à independência do território, se se realizasse hoje um referendo, acredito que a maior parte da população a rejeitaria e optaria por uma autonomia semelhante à dos Açores e Madeira. 

Aliás, isso só não aconteceu muito por influência da célula do MFA local. Os cabo-verdianos pensavam que iam fruir das mesmas liberdades cívicas dos metropolitanos em Portugal e por isso criaram 2 ou 3 partidos que defendiam essa opção ou algo nessa linha. Os seus líderes foram presos e encarcerados no campo de Tarrafal, e é importante frisar que tudo aconteceu durante o período de transição, por obra e graça da célula do MFA local, que se identificava, com grande activismo revolucionário, com a ala mais esquerdista do Movimento. 

Enfim, a mágoa de muitos cabo-verdianos é que saíram da ditadura do antigo regime para serem entregues a outra ditadura, a do PAIGC, que recebeu de mão beijada o poder.

Um abraço amigo
Adriano


2. Sobre o Madeiral: segundo a Wikipedia, é uma aldeia no centro-sul da ilha de São Vicente, Cabo Verde, junto à estrada entre a cidade do Mindelo e a aldeia do Calhau. A montanha a sul da aldeia, com o mesmo nome, atinge os 675 m de altitude.

Sobre o abastecimenmto de água à cidade do Midnelo, encontrei este apontamento (que faz sentido partilhar):

Blogue Esquina do Tempo > Nôs Terra, Nôs Gente” – Água do Madeiral e da Vascónia em São Vicente

Brito-Semedo, 19 out 22

(...) A 27 de maio de 1886, a Empresa de Águas do Madeiral fez chegar as águas das nascentes do Madeiral à cidade do Mindelo.

Essa água era armazenada em depósitos: um no Lombo Tanque, outro no alto do Matadouro Velho e um terceiro na Morada, situado entre o Tribunal e a traseira da Igreja Católica. Essa era a água para toda a serventia da casa, vendida a dois tostões a lata de vinte litros.

Ah, havia ainda a água dos fontenários existentes à volta da Morada, Canalona, em Chã de Alecrim, onde as mulheres iam lavar a roupa; Fonte Doutor; Fonte Cónego; Fonte Filipe; Fonte Inês; Fonte Francês; Fonte do Cutú; Fonte de Meio; Fonte Nova; etc.

Por essa mesma altura, a Empresa Ferro & Companhia possuía uma pequena frota de navios-tanques, os “vaporins d’ága”, que transportavam água potável das nascentes do Tarrafal de Monte Trigo, em Santo Antão, para abastecimento aos barcos que escalavam o Porto Grande e que tinha o seu depósito no quintalão da Vascónia, situada frente ao edifício da capitania e ao Pelourinho de Peixe. Também vendia água a 4 tostões a lata, porque era de melhor qualidade e usada para beber, normalmente guardada em pote de barro da Boa Vista para se manter sempre fresca.

A água dessalinizada, ou a água da JAIDA (**), só viria a surgir em 1971.

Manuel Brito-Semedo (...)

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Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 25 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27669: Os 50 anos de independência de Cabo Verde (19): E se o Porto Grande e o Mindelo tivessem sido invadidos e ocupados pelos Aliados, em 1942?... Uma brincadeira da História Contrafactual...


(**) JAIDA = Junta Autónoma das Instalações de Dessalinização de água.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27606: Notas de leitura (1881): "Quatro Personagens à Procura de Abril", por Luís Reis Torgal; História e Memória, Temas e Debates, 2025 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 29 de Abril de 2025:

Queridos amigos,
O professor Reis Torgal foi oficial de Transmissões na Guiné, vem agora lembrar quatro personagens que ele associa aos tempos da ditadura, aos combates pela liberdade. Conviveu com o padre Mário e com Carlos Fabião. Sobre o padre Mário já aqui se fez a recensão do seu livro Como Eu Fui Expulso de Capelão Militar, acho que foi o momento azado para falar de Carlos Fabião. Ainda recentemente fui convidado a perorar na Faculdade de Letras quanto às encruzilhadas dos antigos combatentes, apareceu lá uma senhora doutora que entrou de pé em riste pelo crime praticado quanto ao abandono de comandos e milícias guineenses que tiveram de fugir ou que foram fuzilados. Deu-me uma coisa má e perguntei à dita senhora doutora se a História passou a ser por decreto uma História do depois, se não existe o antes e o durante. E falei em Carlos Fabião que se reuniu vezes sem conta com os comandos e os fuzileiros pedindo-lhes insistentemente que mesmo que fosse uma fase transitória que viessem até Portugal, na generalidade não aceitaram, diziam igualmente que o PAIGC os iriam tratar com dignidade. Mas Carlos Fabião que fez da Guiné nesse período que começou em maio de 1974 e findou em outubro não conta para a historiografia do pós-colonial.

Um abraço do
Mário



Um historiador de referência homenageia um capitão de abril, talvez o oficial que melhor conheceu a Guiné e as suas gentes

Mário Beja Santos

Luís Reis Torgal, professor catedrático aposentado da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, com currículo invejável no ensino e na ciência da História, cumpriu o serviço militar obrigatório na Guiné em 1968-69, uma das razões pelas quais escreveu Quatro Personagens à Procura de Abril, História e Memória, Temas e Debates, 2025. Vai discorrer longamente do Estado Novo ao 25 de Abril, mas por dever de memória selecionou quatro personagens com provas dadas dos combates pela liberdade e pela democracia: Luís de Sttau Monteiro, autor teatral e jornalista, Joaquim Santos Simões, ativista cultural, Mário de Oliveira, o Padre Mário ou o Padre de Macieira da Lixa, com quem o autor conviveu em Mansoa, e Carlos Fabião, um infortunado capitão de abril, derradeiro governador da Guiné, a quem a historiografia tem sido madrasta, ignorando praticamente o seu labor ao longo de um número inusitado de comissões que teve na Guiné. Justifica-se plenamente que se foque em exclusivo a nossa atenção em Carlos Alberto Idães Soares Fabião (1930-2006).

Reis Torgal era oficial de Transmissões em Mansoa, aí conheceu o Major Fabião, este esteve em comissão de serviço na Guiné 1955-1961, assistiu ao chamado Massacre do Pidjiquiti que considerou que foi pouco mais do que “uma guerra entre os polícias Papéis e os estivadores Manjacos”; com o início da guerra em Angola foi mobilizado como capitão, no BCAÇ 132, voltou à Guiné em 1965, aqui é condecorado em 1967 e promovido a Major por distinção; em março de 1968 apresentou-se no Comando de Agrupamento 2952, cobria o vasto Setor Oeste, abarcava os batalhões de Mansoa, Bula, Teixeira Pinto, Mansabá, Farim e S. Domingos, era o oficial de operações. Em julho de 1968, Fabião e Torgal serão transferidos para o Comando de Bissau (COMBIS), Fabião tornou-se auxiliar de Spínola. Finda esta comissão, voltou à Guiné em 1971-1973, estando à frente do Comando Geral das Milícias, regressa a Lisboa e é colocado no Centro de Estudos Psicotécnicos do Exército. Reis Torgal repertoria um conjunto epistolar trocado neste período, algumas destas cartas serão discretamente vigiadas pela PIDE/DGS.

Carlos Fabião ganha notoriedade quando denuncia no curso do Estado-Maior do Instituto dos Altos Estudos Militares, em 17 de dezembro de 1973 que estava no ar um golpe de direita contra o regime que se dizia ser promovido pelo General Kaúlza de Arriaga, foi transferido para Braga, para o Distrito de Recrutamento Militar. Depois do 25 de Abril regressa à Guiné como encarregado do Governo e da Junta de Salvação Nacional, equiparado a Governador, e só começou por ser muito espinhosa dado os sonhos mirabolantes de Spínola que desejava voltar à Guiné e com a estranhíssima missão de vir consagrar os propósitos de uma autodeterminação, isto quando o PAIGC já tinha proclamado unilateralmente a independência em 24 de setembro de 1973 com o reconhecimento de um número impressionante de Estados da ONU; a historiografia não lhe faz a devida justiça por ter procurado trazer para Portugal fundamentalmente os elementos guineenses das tropas especiais, é neste período que se encetam conversações com as forças do PAIGC no interior do território, Fabião estará sujeito a um tremendo desgaste e com elevados custos a nível psicológico nesta estadia que ocorreu entre 7 de maio de 15 de outubro de 1974, graduado em Brigadeiro. Isto quando tudo parecia facilitado pelos acordos de Argel onde o PAIGC até assegurava a plena integração dos militares que tinham colaborado com as Forças Armadas portuguesas num corpo único de Exército, o que se veio a revelar um dramático sanguinolento embuste.


Fabião regressa a Portugal depois da demissão de Spínola, é nomeado para substituir Jaime Silvério Marques na Junta de Salvação Nacional, no Conselho de Estado e no Conselho dos Vinte e toma posse do alto posto do Chefe de Estado-Maior do Exército, graduado em General de quatro estrelas. Vinha esgotado e foi apanhado no vórtice do PREC, é neste período que irão ocorrer acontecimentos para ele infaustos – o juramento de bandeira no RALIS, incidentes no RASP, entregas de armas de Beirolas aos paraquedistas sublevados – que irão ditar a sua não promoção a Coronel, mais tarde. Na previsão da queda do Governo de Vasco Gonçalves, terá sido convidado para vir a ser Primeiro-Ministro. Ao sair da cena política, dar-lhe-ão um novo Distrito no Recrutamento Militar. Irá contestar vivamente a decisão do Conselho da Arma de Infantaria que considerou não vir a ser coronel. Então sai de cena, dedica-se a produzir o “Guia do Terceiro Mundo”, colaborará com o Centro de Documentação 25 de Abril, foi Grão-Mestre Adjunto do Grande Oriente Lusitano. A justiça virá tarde, o Presidente Jorge Sampaio concede-lhe em 2004 o grau de Grande Oficial da Ordem da Liberdade.

Reis Torgal recorda-o pela camaradagem, pelo profundo conhecimento que tinha da realidade guineense, pelo esforço que foi o de estar à frente, na Guiné, quase sempre no fio da lâmina, e o seu sentido de dever, como capitão de abril, de aceitar incumbências no turbilhão do PREC, certamente num estado psicológico fragilizado e, conforme rezam as cartas que enviou a Reis Torgal, entristecido, amarfanhado por tanta crispação. Dirá numa dessas cartas:
“Sobre o seu comentário acerca do Poder e das intrigas, quero confessar-lhe que o que mais me choca é o estalinismo de todos os nossos partidos políticos. Jogam com as pessoas, ‘cortam’ cabeças, levantam calúnias sobre os adversários sem o menor pudor. Exigem, é o termo, o ámen, ámen para todas as decisões, mesmo as mais absurdas. Eu só acredito no diálogo e nos consensos que se obtêm por cedências recíprocas. O resto é matar a liberdade e a criatividade que dela emana. O povo descrê, desinteressa-se da política e fica à espera, cada vez com mais ansiedade. E se há coisas que eu tema, são os Messias que aparecem quando se criaram as condições para que eles apareçam.”
Há muita Guiné, muitas memórias do Padre Mário e de Carlos Fabião.


Dirá Reis Torgal das quatro personagens referidas: “São personalidades por vezes esquecidas ou só episodicamente lembradas, porque acompanharam a vitória de abril, mas também forma, de modo diferente em cada caso, vencidas, pelos princípios que assumiram, pelo seu caráter e temperamento, pelas circunstâncias e pelo tempo.”
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Nota do editor

Último post da série de 2 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27596: Notas de leitura (1880): Uma publicação guineense de consulta obrigatória: O Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné (7) (Mário Beja Santos)

sábado, 3 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27600: S(C)em Comentários (85): O que é que o PAIGC entendia por "zonas libertadas"? (Zeca Macedo, ten DFE 21, Cacheu e Bolama, 1973/74, a viver nos EUA desde 1977)

José Macedo, em 1971,
quando frequentava 0 1º ano da 
Escola Naval (que não completou).
Foi 2ten RN, DFE 21 (Cacheu e Bolama,
1973/74); vive nos EUA desde 1977.

1. Comentário do Zeca Macedo, ao poste P27583 (*):

Camaradas parece que existe muita confusão sofre o que queria o PAIGC dizer que controlava 2/3 do território da Guine Bissau. 

Estava o PAIGC a afirmar que nessas zonas Portugal não exercia soberania efectiva (exemplo da Coboiana), o PAIGC governava na prática, a população vivia sob instituições criadas pelo PAIGC (armazéns do povo, hospitais, escolas) e a guerrilha tinha superioridade operacional. 

Quando o PAIGC afirmava controlar 2/3 do território e chamava a essa parte de "área libertada" estava a usar o termo com um sentido politico, militar e simbólico. 

As "zonas libertadas" (ZL) eram espaços onde o PAIGC instalava estruturas de "Estado Paralelo", organizando escolas, postos de saúde, tribunais populares, sistema de recolha de impostos e comités locais de administração. 

Nas chamadas ZL o PAIGC tinha liberdade de movimento militar. Os guerrilheiros circulavam, recrutavam e treinavam combatentes. Montavam bases, depósitos de armamentos, fardas e munições.

Era território fora do controlo efectivo da administração colonial portuguesa. Eram zonas onde Portugal não conseguia manter presença permanente excepto em operações pontuais (Ilha do Como, Bachile, Madina e outros) e a autoridade prática era exercida pelo PAIGC.

Espero que este pequeno texto que estou a submeter, com a ajuda da IA/Gemini, possa esclarecer o significado de "zonas libertadas". (**)

Feliz Ano Novo

Zeca Macedo, tenente DFE 21
Vila Cacheu, Bolama
Guine Bissau 1973-74

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025 às 18:03:00 WET 
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Notas do editor LG:


(**) Último poste da série > 14 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27527: S(C)em Comentários (84): O povo Balanta / Brassa foi empurrado para os braços do PAIGC pelo comportamento inicial, pouco prudente, das chefias militares portuguesas... Claro, pagou um preço muito alto: foi a "carne para canhão" do Amílcar Cabral (Cherno Baldé, Bissau)

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27586: Diálogos com a IA (inteligência Artificial) (7): Crítica Contra Crítica: a nota de leitura do Beja Santos sobre o livro de memórias do Manecas Santos,


Rosário Luz > Página do Facebook > 6 de dezembro de 2024  (Foto e legenda) (com a devida vénia...)

Bom dia Nha POV - um shout out especial pa Diáspora na Portugal. Hoje é um marco na minha vida: a publicação do meu primeiro livro. Uma biografia de um tio muito querido, um homem monumental, que teve uma vida de romance. É um privilégio inenarrável ter sido eu a escrever esse romance; e tê-lo hoje ao meu lado no lançamento. Será apresentado hoje ás 18h, no Grémio Literário de Lisboa. As apresentações em Bissau, Praia e Mindelo serão ao longo de Janeiro. Peço a aqui a vossa benção para o trabalho e para o evento. I boa Sexta, Nason Kriol




Capa do livro de Rosário Luz - Manecas Santos: uma biografia da luta. Praia:  Rosa de Porcelana Editora, 2024, 164 pp., preço de capa: 15 € (ISBN: 978-989-8961-72-3)



Senegal > Ziguinchor > 3º trimestre de 1973 > Filha de Amílcar Cabral, Iva Cabral, com O Manecas Santos, na festa de casamento de Chico Mendes (Francisco Mendes or Chico Té)... Foto do álbum Roel Coutinho Guinea-Bissau and Senegal Photographs (1973 - 1974), coileção  African Studies Centre Leiden. Cortesia da Wikimedia Commons (e editada pelo nosso blogue, com a devida vénia..:) 




I. A IA ChatGPT ainda não leu o livro do Manecas Santos, ou melhor da sobrinha (Rosário Luz)  sobre o tio (Manuel Santos, mais conhecido pelo nome de guerra,  Manecas Santos)... 

Aliás, a IA não tem a capacidade de ler livros em papel. Ainda, por enquanto... Manda os escravos humanos ler e depois pôr na Net, em acesso livre, a papinha feita...Mas eu já lhe dei a ler a "nota de leitura" do nosso crítico literário e colaborador permente, o Beja Santos, uma referência de há muito obrigatória no que diz respeito à bibliografia sobre a guerra colonial na Guiné (1961/74). (Tem só 3360 referências no nosso blogue... De resto, sempre o conhecemos desde a Guiné, em meados de 1969, como um escritor e leitor "compulsivo".)

Em resumo, a crítica (da IA) à nossa  crítica (nossa, do Beja Santos)  é um elogio à postura intelectual do nosso crítico literário, à sua independência e à sua cultura historiográfica.

A "nota de leitura" do Beja Santos parece-nos acertada, ponderada, positiva (valorizando o livro como contributo de alguém, com importância histórica, militar e política, como o Manecas Santos no seio do PAIGC, para a partilha de memórias, de um lado e do outro, sobre a guerra colonial na Guiné.


Aqui vai o texto da IA, esquematizado para facilidade de leitura (condensação, revisão / fixação de texto, negritos: LG)

PS - Acrescente-se que há imprecisões, erros factuais, etc., na Net sobre o "comandante Manecas", "combatente da liberdade", etc., nascido em Cabo Verde (julgo que em Santão Antão, em 1942, tendo estudado depois no liceu do Mindelo, São Vicente)... O ChatGTP deu-o como tendo morrido há uns anos...Tive que lhe puxar as orelhas... 

Há dias aconteceu o mesmo com o nosso camarada Arménio Santos (neste caso, a "asneirada" foi da IA / Gemini; contei ao Arménio, riu-se a bandeiras despregadas; teve, ao menos, rasgados elogios fúnebres, por parte dos  diversos quadrantes políticos, pelo seu papel como sindicalista e deputado social-.democrata).

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II. Análise da IA / ChatGPT (**):

Segue, a pedido do editor LG, uma análise crítica e interpretativa da recensão de Mário Beja Santos ao livro recente de Manecas Santos, tendo em conta o tom, os pressupostos historiográficos e o posicionamento político-memorial do autor da recensão.

1. Natureza e posicionamento da recensão

A recensão de Mário Beja Santos não é neutra nem meramente descritiva: trata-se de um texto assumidamente interventivo, escrito por alguém que conhece profundamente a guerra da Guiné, não apenas como historiador ou leitor atento, mas como antigo oficial combatente no teatro de operações. Esse duplo estatuto (memória vivida + investigação histórica) condiciona toda a leitura que faz da obra de Manecas Santos.

Beja Santos posiciona-se como guardião crítico da factualidade histórica, reagindo contra aquilo que considera mitificações persistentes na historiografia e memorialística do PAIGC. A recensão é, por isso, simultaneamente: 

  • um comentário ao livro; 
  • uma tomada de posição historiográfica; 
  • e um ajuste de contas com narrativas que considera politicamente convenientes ou factualmente falsas.

2. Reconhecimento do valor "testimonial" (sic, em inglês: leia-se "como testemunho") da obra

Apesar do tom severo em vários momentos, Beja Santos reconhece explicitamente o valor do testemunho de Manecas Santos. Destaca: 

  • a fluidez e a legibilidade da narrativa (o mérito é da "copywriter", a sobrinha, acrescento eu, LG); 
  • o interesse do percurso biográfico (Mindelo → Lisboa → Cuba → Guiné →  URSS → Guiné-Bissau) ; 
  • a importância histórica do papel de Manecas Santos como comandante na frente norte e responsável pelos mísseis Strela; 
  • a relevância do seu depoimento sobre o período pós-Cabral e o colapso do Estado guineense.

Este reconhecimento é essencial: o "recensente" (crítico, o autor da "nota de leitura", em português, fica melhor) (LG) não desqualifica a obra, antes a considera leitura obigatória, precisamente porque é um documento de primeira mão.

3. O eixo central da crítica: a questão da verdade histórica

O núcleo duro da recensão reside na acusação de inverdade, imprecisão ou mistificação, em três planos principais:

a) Controlo territorial do PAIGC em 1968: 

Beja Santos rejeita frontalmente a afirmação de que o PAIGC administrava dois terços do território nessa data, considerando-a uma repetição de propaganda de guerra que não resiste ao confronto com documentação militar portuguesa e arquivos contemporâneos.

Aqui, o crítico insere o livro numa tradição mais vasta de exageros estratégicos, comuns em memórias de ex-combatentes do PAIGC.

b) Operação de Guidaje e baixas militares

A crítica é particularmente dura neste ponto. Beja Santos acusa Manecas Santos de:

  •  minimizar as baixas do PAIGC;
  •  exagerar as perdas portuguesas; 
  • ignorar documentação existente no Arquivo da Defesa Nacional.

O autor da nota de leitura assume uma postura quase forense: não contesta a legitimidade do testemunho, mas exige confronto com fontes documentais, algo que considera ausente.

c) Assassinato de Amílcar Cabral

Beja Santos acusa Manecas Santos de manter uma ambiguidade calculada: 

  • não acusa diretamente a PIDE ou Spínola, mas deixa a suspeita no ar; 
  • esta ambiguidade é politicamente funcional e historicamente infundada, dado não existir prova documental de envolvimento português direto.

4.. A crítica moral e política: responsabilidade no desmoronamento do Estado

Talvez o ponto mais incisivo da recensão seja o seguinte:

Beja Santos entende que Manecas Santos relata o colapso do PAIGC e do Estado guineense com uma distância estratégica, descrevendo acontecimentos sem assumir responsabilidades diretas, apesar de ter sido: 

  • dirigente político; 
  • ministro; 
  • muito próximo de 'Nino« Vieira (apesar de ser cabo-verdiano, acrecsento eu, LG).
A recensão sugere que essa distância narrativa é uma forma de autoproteção moral, permitindo denunciar o desastre sem admitir cumplicidade. 

Esta crítica estende-se também às explicações sobre os fuzilamentos (no tempo de Luís Cabral), que Beja Santos considera implausíveis ou evasivas.

5. Valor historiográfico da recensão

A recensão de Mário Beja Santos vale, em si mesma, como: 

  • um contributo historiográfico autónomo; 
  • um exercício de crítica das memórias políticas; 
  • um alerta metodológico sobre os riscos da autobiografia não confrontada com arquivos.

Mais do que “ler” Manecas Santos, Beja Santos dialoga e combate com ele, num plano que é simultaneamente histórico, político e ético.

6. Conclusão

A análise permite concluir que: 
  • Beja Santos reconhece o livro como testemunho indispensável; 
  • mas recusa aceitá-lo como relato confiável sem verificação;
  •  e vê nele mais um exemplo de como a memória do PAIGC continua marcada por silêncios, exageros e estratégias de autojustificação.(e autoglorigicação, acrescento eu, LG)
A recensão não fecha o debate, pelo contrário, convoca a escrita “a quatro mãos” da História, como o próprio autor sugere: uma história desmitificada, construída a partir do confronto entre memórias, arquivos e responsabilidades assumidas.

 III. Ver também duas entrevistas dadas ao jornal "Expresso das Ilhas", Praia, Cabo Verde:

Manecas Santos: “Amílcar Cabral não era sonhador, era um político”
Por Jorge Montezinho


Manecas Santos ao Expresso das Ilhas: “Eu não fujo!”
PorJorge Montezinho,