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sexta-feira, 10 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27906: (De) Caras (248): Jorge Moisir Pires, ex-alf mil mec auto, CCS / BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) (Ernestino Caniço, ex-alf mil cav, Pel Rec Daimler 2208, Mansabá e Mansoa, e Rep ACAP, Bissau, 1970/1971)


Foto nº 1 > O Jorge Moisir Pires à esquerda,  em 2012.03.03 no convívio do BCaç 2885 em Cantanhede. Ao centro Jorge Picado.


Foto nº 2 > O alferes Pires (à esquerda), com o oficial de dia (em segundo plano) e o alf graduado capelão José Torres Neves (examinando a "cobiçada" Kalash dos "turras")


Foto nº 3 > O alf mil cav Ernestino Caniço examinando uma AK 47 capturada ao IN; será a mesma da foto nº 2 


Foto nº 3 >  O alf mil cav Ernestino Caniçoposando com uma AK 47 capturada ao IN; será a mesma  da foto nº 2 

Guiné > Região Oeste > Mansoa > BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71)

Foto nº 2 (e legenda): © José Torres Neves (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

Fotos nº 1, 3 e 4  (e legendas): © Ernestino Caniço (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Mensagem do Ernestino Caniço, ex-alf mil cav, cmdt  do Pel Rec Daimler 2208 (Mansabá e Mansoa) e Rep ACAP - Repartição de Assuntos Civis e Ação Psicológica, (Bissau) (1970/1971), hoje médico em Tomar:

Data - quinta, 9/04/2026, 19:49

Assunto - Kalashnikov   

Caros amigos Luís e Carlos

Que a saúde não vos falte.

Venho desta vez à liça para responder ao Luís sobre quem é o alferes Pires (*) (Foto nº 2). Trata-se de Jorge Moisir Pires,  engenheiro mecânico que integrava a CCaç 2589 / BCaç 2885 (Mansoa, 1969/71) e que era responsável pela manutenção auto (Foto nº 1) (**)
Referido nos P6005 (20
10.03.17) e P20622 (2022.02.04) (***) pelo Jorge Picado (ex-cap mil da CCAÇ 2589/BCAÇ 2885, Mansoa, CART 2732, Mansabá e CAOP 1, Teixeira Pinto, 1970/72),

A Kalasnhikov na foto com o Pe. Zé Neves (1971) (*) será a mesma que também consta nas fotos comigo que anexo (Fotos nºs 3 e 4).

Um abraço,
Ernestino Caniço



2. Comentário do editor LG:

Obrigado, Ernestino, o Jorge Picado, no poste P20622, diz que o Pires era alf mil mec auto (ou seja, cmdt do pelotão da "ferrugem") da CCS/BCAÇ 2885. O que faz sentido: só as CCS tinham um alf mil mec auto. Nas unidades de quadrícula, como a CCAÇ 2589, havia só um furriel da "ferrugem".

Ainda a propósito de material capturado ao IN: registe-se que,  segundo a CECA, o número de AK 47 capturadas de 1963 a 1970 foi de 78: mínimo 2 (1964) e máximo 23 (1970)... (no mesmo período, foram capturadas 16 G3 ao IN).

 Não temos dados para o período de 1971 a 1974. Parece-nos, em todo o caso,  que 78 Kalash é um valor irrisório para 8 anos de intensa atividade operacional. De qualquer modo, impõe-se uma ressalva: este número (78 AK 47 capturadas pelas NT) deve dizer apenas respeito ao Exército, não incluindo a Marinha e a FAP (tropas paraquedistas)...

E deve pecar por defeito... Julgamos que, depois da Op Mar Verde (invasão anfíbia de Conacri, em 22 de novembrod e 1970), terão passado a haver, disponíveis no TO da Guiné, mais umas centenas de AK 47 que foram compradas, no estrangeiro, para equipar a força invasora. 
__________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 8 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27899: Álbum fotográfico do Padre José Torres Neves, ex-alf graduado capelão, CCS/BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) - Parte XXXIII: da "cobiçada" Kalash do IN ao nosso obus 14

(**) Último poste da série > 9 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27904: (De)Caras (247): Memórias da ida para a Guerra da Guiné integrado na CART 3494 (Sousa de Castro, ex-1.º Cabo Radiotelegrafista)

(***) Vd. postes de:


sábado, 28 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27867: A Nossa Guerra em Números (49): BCAÇ 3872 (Galomaro, 1971/74): Flagelações e ataques aos quartéis e às tabancas; minas ativadas e detetadas; emboscadas e contactos (Luís Dias)


Guiné > Zona Leste > Sector de Galomaro > CCAÇ 3491 / BCAÇ 372 (1971/74)  (1971/74) >

  Luís Dias, alf mil op esp :  "Chegada a Galomaro da CCAÇ 3491,  no dia 9 de março de 1973. No jipe podemos ver eu, e  o fur mil Baptista, do 1º Gr Comb, e ao lado, a sorrir, um guerrilheiro do PAIGC que, no dia anterior, se tinha entregue a uma patrulha nossa na área do Dulombi. A arma é uma Shpagin PPSH 41, no calibre 7,62 mm Tokarev, mais conhecida por "costureirinha" e com a particularidade de ter um carregador curvo de 35 munições, em vez do habitual tambor de 71". 

(Foto do Luís Dias, reproduzida com a devida vénia, do seu blogue, Histórias da Guiné, 71-74: A CCAÇ 3491, Dulombi.


Comentários do Luís Dias ao poste P 27859 (*):


(i) Na história resumida do BCAÇ 3872, haveria mais para contar, quer em material apreendido ao IN, quer em número de mortos infligidos, mas está errada a data da partida da Guiné.

O Batalhão, em conjunto com 4 companhias independentes, embarcou no Niassa, não em 25 de março, mas em 28 de março de 1974, tendo chegado a Lisboa no dia 4 de abril de 1974. E são registo oficiais, dos quais se esperava melhor acerto nas datas.

Abraço.
sexta-feira, 27 de março de 2026 às 18:38:00 WET


(ii) Já agora publico mais elementos gerais 
do BCAÇ 3872 (**):


  • Flagelações e ataques aos nossos quartéis

CCAÇ 3489 - CANCOLIM

8 Flagelações em 1972 (1 delas c/ 3 mortos, 5 feridos graves e 5 feridos ligeiros)
2 Flagelações em 1973
2 Flagelações em 1974

CCAÇ 3490 – SALTINHO

Não sofreram quaisquer ataques ou flagelações durante a comissão

CCAÇ 3491 – DULOMBI

3 Flagelações em 1972
4 Flagelações em 1973
2 Flagelações em 1974

CCS - GALOMARO

1 Ataque/flagelação em 1972 c/1 IN morto confirmado e prováveis feridos IN

  • Minas ativadas e detetadas

Cancolim: 

- Mina A/P reforçada accionada c/1 morto e 1 ferido+mina A/C accionada c/12 feridos graves, 1 ferido ligeiro e 2 feridos pop.+2 minas A/P levantadas

Saltinho: 

- 3 minas A/C levantadas e 1 A/P levantada

Dulombi: 

- 2 minas A/C levantadas e 2 minas A/P levantadas e 1 A/P, rebentada por viatura nossa em Pirada.

Galomaro: 

- 1 mina A/P reforçada accionada c/1 morto+1 mina A/C reforçada accionada c/1 ferido grave

  • Emboscadas | Contactos | Flagelações auto 

CCAÇ 3489 

- 1 contacto com o IN, após flagelação ao quartel, em 1972
- 1 emboscada aos milícias em Anambé, em 1973 c/2 mortos e 1 ferido

CCAÇ 3490
 - 1 emboscada no Quirafo c/ 9 mortos+1 milícia e 2 civis+1 militar capturado. 1 emboscada c/feridos e mortos do IN+1 contacto do IN c/milícias de Cansamange

CCAÇ 3491 

- Flagelação numa operação no Fiofioli + 1 emboscada/contacto com 4 feridos ligeiros nossos e mortos do IN (s/confirmação de quantos, mas a rádio do PAIGC referiu que tínhamos tido 8 mortos e eles também tinha tido mortos 
- 1 emboscada/flagelação junto à recolha de águas no Dulombi 
- 2  flagelações a coluna de escolta e protecção na estrada Piche-Buruntuma.

CCS

- Contacto entre forças milícias e o IN, após ataque a Campata c/ elemento IN capturado.

  • Ataques a tabancas em autodefesa e tabancas indefesas

- Tabanca indefesa de Bambadinca/Cancolim, em 25/1/72;
- Tabanca indefesa de Mali Bula/Galomaro, em 1/2/72;
- Tabanca de Umaro Cossé/Galomaro, c/2 feridos civis, em 7/12/72;
- Tabanca de Campata/Galomaro, em 20/6/72;
- Tabanca indefesa de Sinchã Mamadu/Saltinho, na mesma data de 20/6/72;
- Tabancas indefesas de Sana Jau e Bonere/Saltinho, em 30/6/72;
- Tabanca de Cassamange/Saltinho, em 15/7/72;
- Tabanca indefesa de Guerleer/Galomaro, c/ morte de 3 prisioneiros civis e 1 ferido grave, em 27/7/72;
- Tabanca de Patê Gibele/Galomaro c/ 1 sarg. milícia morto+1 ferido grave e 2 feridos ligeiros da pop., em 11/8/72;
- Tabanca de Anambé/Cancolim c/1 morto (CCAÇ 3489)+3 feridos também da mesma CCAÇ, que ali estava de reforço, em 5/9/72;
- Tabanca de Sinchã Maunde Bucô/Saltinho, c/3 feridos IN confirmados, em 20/9/72;
- Tabanca de indefesa de Bujo Fulpe/Galomaro, em 26/9/72;
- Tabanca ainda indefesa de Bangacia/Galomaro, com 1 milícia e 2 civis mortos, no mesmo dia (26/9/72);
- Tabanca de Dulô Gengele/Galomaro, com 3 mortos IN confirmados e 3 mortos civis (que tinham sido feitos prisioneiros antes do ataque e que foram abatidos+1 ferido grave e 1 ferido ligeiro dos milícias e 4 feridos graves da pop e 5 feridos ligeiros da pop., em 17/10/72;
- Tabanca indefesa de Sarancho/Galomaro, com 2 mortos civis e 2 feridos civis;
- Tabanca indefesa de Samba Cumbera/Galomaro, c/1 ferido grave da pop., em 13/11/72;
- Tabanca de Cansamange/Saltinho, 17/12/72;
- Picada Saltinho-Galomaro c/16 elementos da pop. capturados e roubados dos seus haveres (dinheiro), em 18/1/73;
- Tabanca de Bangacia/Galomaro, c/2 mortos civis+2 feridos civis+2 feridos milícias, em 1/2/73;
- Tabanca de Campata/Galomaro, c/5 mortos do IN e 1 capturado+3 mortos milícias e 3 mortos civis, em 16/3/73;
- Tabanca de Sinchã Maunde Bucô/Saltinho, em 14/5/73;
- Tabanca de Bangacia/Galomaro, em 18/9/73;
- Tabanca de Madina Bucô, em 20/1/74


PS - Comentário do Paulo Santiago (*) em complemento do que escreveu o Luís Dias:

No comentário do Luís Dias, umas pequenas correções nas flagelações a tabancas/ Saltinho até Agosto/72,  mês em que regressei em fim de comissão:

Tabanca de Sinchã Maunde Bucô/Saltinho,em 14/5/73
Tabanca de Madina Bucô,em 20/1/74

É a mesma tabanca, o nome correto é o primeiro,mas era mais conhecida por Madina, era a tabanca antes de chegar ao Quirafo vindo do Saltinho.

Não consta da lista, mas esta tabanca foi flagelada numa data em que eu ainda estava no Saltinho,talvez Junho ou Julho.

Sana Jau e Bonere. não conheço, não ficavam na zona do Saltinho

segunda-feira, 16 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27826: Notas de leitura (1905): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (6) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 19 de Setembro de 2025:

Queridos amigos,
Faço juz ao intenso trabalho de pesquisa e leitura a que José Alvarez procedeu. A grandiosidade de Cabral supera o desastre que se seguiu, revela que aquela geração de políticos e guerrilheiros se revelou incapaz de pôr em prática um plano patriótico de desenvolvimento e de democracia participativa, mesmo quando esta, na ótica de Cabral, se aparentava a um tipo de democracia vigiada por uma elite dominante. 

Ele advertiu que a chegada a Bissau e o acomodamento da direção do PAIGC à atmosfera existente traria corrupção, vigarices, apadrinhamentos, uma completa adulteração das ajudas internacionais, como aconteceu. 

É expectável que este trabalho de José Alvarez suscite novos avanços na investigação e que esta não se confine exclusivamente tanto à luta nascionalista como aos acontecimentos da guerra colonial. Já passou o centenário de nascimento deste líder revolucionário, se podemos lamentar que poucas obras de estofo sobre Cabral foram editadas na efeméride, é de crer que este impulso dado por uma biografia romanceada abra caminho a novos olhares sobre o fundador da Guiné-Bissau.

Abraço do
Mário



O primeiro romance histórico sobre a vida e obra de Amílcar Cabral – 6

Mário Beja Santos

Salazar toma a decisão de escolher um militar prestigiado para substituir o Governador e Comandante-chefe Arnaldo Schulz que regressara em abril de 1968, visivelmente doente e desmotivado. 

Em 19 de fevereiro desse ano, um grupo armado do PAIGC, chefiado por André Pedro Gomes e Joaquim N’Com atravessou o rio Mansoa perto de Bula e alcançou a proteção de arame farpado do aeroporto de Bissalanca, abriu fogo e atingiu edifícios aeroportuários e pistas. 

A conversa havida entre Salazar e Spínola consta de numerosa documentação, José Alvarez releva algumas das alegadas tomadas de posição de Spínola, bem como a sua exposição de motivos numa reunião havida na Cova da Moura.

Entretanto Salazar sofre um traumatismo craniano que o irá incapacitar por completo, ocorre, entretanto, em Madina do Boé, um julgamento em que Honório Sanchez Vaz e Miguel Embaná serão condenados à morte por provado envolvimento numa tentativa de negociar a rendição de vários elementos do PAIGC, sob o seu comando, e conversações havidas com um dirigente da PIDE. 

Chegado à Guiné, Spínola inicia uma serie de remodelações que inclui a atividade das tropas especializadas, surge a consigna Por Uma Guiné Melhor, no fundo uma vasta campanha para a conquista social das populações. A PIDE vai informando Spínola que existem divisões no seio do PAIGC, e que ela própria os incrementa. A questão cabo-verdiana continua a ser uma dor de cabeça para Amílcar Cabral, os soviéticos davam apoio militar ao PAIGC, mas reconheciam a inviabilidade de guerrilha no arquipélago.

O autor também põe em destaque o descontentamento de guerrilheiros guineenses quanto ao tratamento que Cabral dava aos cabo-verdianos, refere uma reunião havida em Ziguinchor em que já se pede a morte de Cabral. 

Dentro da nova lógica de só haver destacamentos onde há população civil, abandona-se Madina do Boé, toda a região do Boé fica despovoada, abrindo novas oportunidades a incursões do PAIGC, que irão surgir em 1970, o desastre de uma jangada no Corubal vitimou na região de Cheche quarenta e sete homens. 

No secretariado do PAIGC analisa-se a política de Spínola, a libertação de presos políticos, com Rafael Barbosa à cabeça, o apoio do Governador aos régulos e o aparecimento de um lema perigosíssimo “A Guiné para os Guinéus”

O Comité Executivo de Luta reúne-se em Conacri para analisar os efeitos da política introduzida por Spínola, recorda-se os efeitos sempre devastadores da Força Aérea, Cabral fala nos mísseis e nas unidades de artilharia antiaérea, reclama-se a presença do líder do PAIGC no interior do território, ao que Cabral responde que não há ninguém que o possa substituir no relacionamento com o estrangeiro.

É o relato de uma reunião onde não faltam tensões: a colónia de refugiados no Senegal era um fator de destabilização para os combatentes do PAIGC; continuava-se a alcatroar estradas, com destaque para o Chão Manjaco, os fuzileiros especiais apreendiam embarcações do PAIGC na fronteira sul. 

O autor sublinha que é visível uma certa hostilidade de Osvaldo e Nino Vieira nas reuniões presididas por Cabral. Os foguetões do PAIGC marcam presença no ataque a Bolama em 3 de novembro de 1969, embora com estragos mínimos. 

Numa reunião no sul do Senegal presidida por Luís Cabral e em que estão presentes comandantes e comissários políticos também há muitas críticas desde falta de munições a falta de comida, é nisto que irrompe um ataque das tropas portuguesas àquela posição de Kumbamory que obriga a evacuar Luís Cabral e os comissários políticos da frente norte.

Cabral continua o seu imparável roteiro internacional; perante a tentativa portuguesa de negociar com bigrupos do PAIGC do Chão Manjaco, é decidida emboscar a força negociadora, supunha-se mesmo que viria Spínola em pessoa, massacraram-se três majores, um alferes e outros membros da comitiva, caía na água a operação de aliciamento de guerrilheiros do PAIGC. 

Cabral encontra-se com a sua filha mais velha em Moscovo por ocasião do centenário do nascimento de Lenine, a filha faz-lhe saber que se conspirava contra ele e contra os cabo-verdianos, o pai pede-lhe para ela não se preocupar com ele.

José Alvarez elenca eventos que dão conta ressentimentos dos guerrilheiros guineenses. A reunião em Roma dos três líderes dos movimentos de libertação com o Papa Paulo VI é uma vitória para os revolucionários e crispa as relações de Lisboa com a Santa Sé. Segue-se a Operação Mar Verde, um verdadeiro desaire diplomático para a política portuguesa, a repressão de Sékou Touré é sanguinária, com fuzilamentos e encarceramentos.

Entre 9 e 16 de agosto de 1971 ocorre em Boké uma reunião do Conselho Superior de Luta do PAIGC, reacendem-se as críticas e as reclamações: resistência dos pais em deixar sair as crianças para a escola, desaparecimento de equipamento hospitalar, a falta de médicos, a má gestão dos Armazéns do Povo, Cabral não esconde o exagero. Começam a ser tomadas medidas para efetuar em 1972 eleições gerais por sufrágio universal e secreto para a constituição da primeira Assembleia Nacional Popular. A PIDE/DGS obtém informações do que se passa nestas reuniões de Direção do PAIGC, a rede de infiltrados era fértil em informações.

O processo dos mísseis Strela fica concluído entre a URSS e o PAIGC, constituiu-se uma equipa que foi receber formação na URSS. Esse ano de 1972 foi de uma enorme azáfama para Cabral, o reconhecimento do PAIGC era cada vez maior, Portugal perdera aliados na ONU; independentemente de andar muito tempo no estrangeiro, Cabral estava notificado de atos de corrupção e negociações de guerrilheiros com as forças portuguesas.

E assim chegamos aos acontecimentos do assassinato de Cabral, Alvarez ficciona conversas de Cabral com Osvaldo Vieira e com outros protagonistas com quem conviveu ao longo do dia de 20 de janeiro de 1973. E há uma última palavra para as cerimónias fúnebres de Amílcar, a 31 de janeiro de 1973, em Conacri. Segue-se uma referência aos devastadores acontecimentos de Guidaje, Guileje e Gadamael.

Alvarez termina a sua biografia romanceada dizendo:

“Cabral foi, sem dúvida, uma das mais notáveis figuras nacionalistas de África e um incansável lutador pelas causas que acreditava. Era um ideólogo marxista, um carismático defensor dos negros, brilhante como estratega militar e genial na condução da política externa. Foi o pai da independência da Guiné, promovendo a integração social, o ensino e o respeito pela mulher, mas acabou traído pelos camaradas guineenses do partido, tendo sido assassinado na condição de cabo-verdiano.

Desconhece-se quem ordenou a sua morte, sabendo-se apenas que quem o assassinou e os seus cúmplices eram todos elementos da fação do PAIGC que pretendia afastar os cabo-verdianos da direção. Também se ignora o grau de responsabilidade da PIDE no homicídio, apesar de a sabermos interessada na divisão do PAIGC.”


Há que reconhecer o intenso trabalho em leituras e consultas que José Alvarez efetuou para nos dar a primeira biografia romanceada de Amílcar Cabral. Como é compreensível, não esgotou todas as temáticas do estratega, do líder revolucionário e até do visionário.

 Cabral terá sido demasiado complacente quanto ao relacionamento de guineenses e cabo-verdianos, tinha uma fé inabalável, digamos cega, de que as duas nações iriam entrelaçar-se para benefícios comuns, terá sido este sonho que o levou a uma vitória onde ele não pôde participar. E suficientemente visionário para saber que a entrada da direção do PAIGC em Bissau sem um rigoroso e ponderado projeto de regionalização e descentralização redundaria num desastre. Tal como aconteceu.
24 de setembro de 1973, o PAIGC declara unilateralmente a independência em local da região do Boé
Casa de Amílcar Cabral em Conacri
_____________

Notas do editor:

Vd. post de 9 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27807: Notas de leitura (1903): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (5) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 13 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27818: Notas de leitura (1904): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (6) (Mário Beja Santos)

quinta-feira, 12 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27814: O armamento do PAIGC (11): A mina anticarro russa TMD, reforçada com granadas de Pancerovka P27, um LGFog, de origem checa, a que o "Zé Turra" chamava "pau de pila" e só estorvava...


Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026): Transcrição e esquema técnico elaborados com apoio de ChatGPT, modelo de linguagem da OpenAI (11 de março de 2026)


Guiné > Região de Cacheu > CCS/BCAÇ 1933 (Nova Lamego e S. Domingos, 1967/69) > Estrada S. Domingos - Susana, a meio caminho para Nhambalã > 10 de agosto de 1968 > Mina soviética anticarro, reforçada com 2 granadas de Pancerovka P-27, um LGFog, de origem checa, uma arma antitanque desenhada em 1946-1949 e produzida pela Skoda. (Lapso do Eduardo: não é Pankerovsky mas Pancerovka que em checo quer "panzer", "tanque", "blindado").

Foto alojada em Aveiro e Cultura > Arquivo Digital (e aqui reproduzidas com a devida vénia). (*)

Foto (e legenda): © Eduardo Figueiredo (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


O LGFog Pancerovka P-27, de fabrico checo.
Cortesia de Wikimedia Commons.
Infografia: Blogue Luís Graça
& Camaradas da Guiné (2026)

1. Sobre este LGFog / RPG / bazuca, sabemos que equipou os exércitos da Checoslováquia e da Polónia nas décadas de 1950-60 até ser substituído pelo RPG-7 soviético e pelo RPG-75 checo.  Já "sucata", foi parar às matas da Guiné nos primeiros anos da guerra colonial (55 unidades, entre 1964 e 1968).


Não devia ser uma arma muito portátil e "maneirinha" (tal como a nossa bazuca)... No mato, não dava jeito, com aquele capim, aquelas lianas, aquele tarrafe... Mas a besta de carga do balanta  aguentava tudo....

Quando a longa metragem da guerra ia a meio, sem direito a intervalo para o cigarro e o chichi, o "Zé Turra" acabou por trocar a panzer" pelo RPG-2 e pelo RPG-7. E, pelos vistos, foi "semeando" granadas pelas picadas da Guiné, reforçando as minas TMD russas,
anticarro, de armação em madeira.

Ficha técnica:
  • Peso da arma: 6,4 kg (não carregada)
  • Peso da granada: 3,75 kg 
  • Calibre: 45 mm o tubo, 110 mm a granada;
  • Comprimento da arma: 1030 mm;
  • Comprimento da granada: 720 mm;
  • Alcance efetivo: 200 m
  • Operação: 2 homens (atirador e municiador):
  • Cadência de tiro: 4 tiros por minuto.
Em checo, Pancéřovky quer dizer "panzer", "tanque", "veículo blindado"... 

O Pancerovka P-27  foi uma arma antitanque checoslovaca utilizada nas décadas de 1950 e 1960, sendo posteriormente substituída pelo RPG-7 soviético (introduzido em 1963) e pelo RPG-75 checoslovaco  (a partir de 1975). 

2.  História da Pancerovka P27:

Após a Segunda Guerra Mundial, um grande número de armas antitanque alemãs foi capturado na Checoslováquia, especialmente o Panzerfaust 60 (no exército checoslovaco do pós-guerra, referido como Panzer N) e o Panzerschreck. 

Daí, e logicamente, a Checoslováquia ter  começado a desenvolver a sua própria arma antitanque, capaz de penetrar qualquer blindagem com espessura, na época, até 200 mm (20 cm).

O desenvolvimento deste LGFog foi encomendado em dezembro de 1947, com a designação de projeto PPZ. A condição era um peso de até 5 kg e um alcance efetivo de 100 metros, com possibilidade de disparos repetidos. A pólvora utilizada deveria sem fumo.

O desenvolvimento foi realizado pela Konstrukta Brno (Praga) e liderado por Ladislav Urban. A partir de 1950, este LGFog foi projetado como uma arma de cano liso e grosso calibre. Em maio de 1950, a comissão de armamento concordou em introduzir a arma sob a designação Pancerovka 75, sendo o número indicativo do alcance de tiro em alvos móveis.

A produção começou na fábrica Zbrojovka Vsetín. Diversas outras modificações se seguiram e a arma foi rebaixada como Pancerovka 27.

O preço da arma em 1955 era de 1.800 CZK. O Exército Popular Checoslovaco possuía um total de 18.400 unidades desta arma nos seus arsenais, em 1958.

(...) Entre 1951 e 1953, 2600 unidades foram exportadas para a Polónia. A Albânia encomendou 1000 unidades em 1954. 

No primeiro semestre de 1957, o Pancéřovky (em checo) foi exportado para o Iémen (1000 unidades). A Frente de Libertação Nacional da Argélia recebeu um total de 48 unidades entre 1957 e 1959, e outras 100 unidades em 1961. Outra ex-colónia francesa, a Guiné-Conacri, recebeu 150 unidades entre 1958 e 1960. Entre 1967 e 1970, o Pancéřovky 27 foi exportado também para a Nigéria e o Biafra.

O número exato exportado destas armas não é claro: por exemplo, em 1967, 75 unidades foram exportadas para a Nigéria. Em 1967, também foram aprovadas vendas de armas para o Egito e a Síria, e, no mesmo ano, 10 unidades foram entregues á Frelimo, Moçambique. Entre 1964 e 1968, 55 unidades foram entregues à Guiné Portuguesa (atual Guiné-Bissau).(...) (**)

Fonte: Wikipedia > Pancéřovka 27 (em checo) (traduzido do Google Tradutor, adapt. LG)


3. Comentário do editor LG:

Na gíria do PAIGC, as armas tinham alcunhas. Este Lança Granadas-Foguete Pancerovka P-27 , tinha várias, segundo o nosso saudoso A. Marques Lopes (1945-2025) (***);
  • Bazuca Bichan,
  • Lança Grande, 
  • Pau de Pila,
  • Bazuca Chinês.
Pau de Pila é uma alcunha bem pícara!... Mas Bazuca Chinês?!... Porque carga de água? O arsenal do Amílcar Cabral, que andava de mão estendida por todo o mundo, à cata de sucata militar para expulsar os "tugas", era uma verdadeira "Torre de Babel"... Um bico de obra para o pobre do quarteleiro das "barracas" do PAIGC, que tinha armas e munições de todos os fabricantes, modelos e calibres... 

Mas o "Zé Turra", balanta, biafada, mandinga, nalu...,  não sabia nada de geografia, é natural que confundisse a Checoslováquia e a China... Que importa, começavam os dois por C ou "Tch"...

Que merda de guerra, amigos e camaradas da Guiné!... As armas são como as p*tas, que não precisam de licença para f*der. 

(Pesquisa: LG | Condensação, revisão / fixação de texto: LG)

segunda-feira, 9 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27807: Notas de leitura (1903): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (5) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Setembro de 2025:

Queridos amigos,
Temos agora as consequências sociopolíticas e militares das deliberações do Congresso de Cassacá, dá-se formalmente a rotura na relação entre Maria Helena e Amílcar Cabral, entretanto num encontro em Praga, Amílcar e Ana Maria Voss perdem-se de amores, o ativismo de Cabral é imparável e em janeiro de 1966 terá a sua consagração após uma intervenção que deixou muita gente atónita na Tricontinental de Havana. 

Na guerra da Guiné, em 1967, está-se num delicado impasse, progressos diminutos de parte a parte, Cabral debate-se, no interior do PAIGC, com atos de grande negligência e furtos, os ressentimentos profundos de Inocêncio Cani terão tido aqui origem quando ele foi expulso de cargos políticos. Vamos agora viver o terceiro e último ato na frente dos combates e no que, de muito profundo, irá acontecer no PAIGC, após o assassinato de Cabral.

Um abraço do
Mário



O primeiro romance histórico sobre a vida e obra de Amílcar Cabral – 5

Mário Beja Santos

Em consequência das decisões tomadas no Congresso de Cassacá, dar-se-á a reorganização militar que levou à constituição das primeiras unidades do Exército Popular, as FARP. Uma reorganização que não esqueceu praxes institucionais como o juramento diante da bandeira do PAIGC. 

Cabral é um líder partidário que se confronta diariamente com atos de negligência, a falta de pontualidade, José Alvarez [foto à direita] recria alguns diálogos de um Cabral encolerizado, mesmo com Osvaldo Vieira, o comandante militar da zona norte.

Amores finados com Maria Helena, em 1965, na cidade de Praga, Cabral conhece Ana Maria Voss, dá-se rapidamente o coup de foudre, será a sua segunda mulher que assistirá na noite de 20 de janeiro de 1973 ao assassinato do marido. 

Haverá encontro em Rabat com Maria Helena, Alvarez recria uma discussão altamente tempestiva, assumem o divórcio, irá surgir Henrique Cerqueira na vida de Maria Helena. Em Conacri, ganha vida o projeto de uma escola-piloto no bairro de Ratoma, para o ensino dos jovens guineenses que se sentem atraídos pela Independência da Guiné, iremos conhecer as figuras preponderantes nesta escola de formação.

O autor chama a atenção para a propaganda bombástica e falseada de que Cabral não tinha pejo em manipular, veja-se a linguagem usada para cantar vitória sobre os acontecimentos da ilha do Como: 

“Três mil soldados portugueses que se tentaram apoderar da ilha do Como foram repelidos pelos guerrilheiros do PAIGC. Quinhentos ou seiscentos militares foram postos fora de combate e o comandante da operação morto. Dois aviões abatidos e uma dúzia de embarcações afundadas.”

Igualmente o autor recorda a preocupação de Cabral com a imagem do partido no exterior, convites a figuras gradas ao movimento revolucionário, como foi o caso de Gérard Chaliand (1934-2025) e também cineastas como Mario Marret.

Dentro das recriações que a trama romanesca permite, Alvarez pretende fazer sobressair um estado de ciúme de Sékou Touré, este considera que Cabral estava a roubar-lhe protagonismo, quer que os seus Serviços Secretos o tenham debaixo de olho. No secretariado do PAIGC, vemos Cabral a tecer considerações altamente críticas ao mau trabalho da Organização da Unidade Africana (OUA), reconhecendo a contradição que a guerra o obrigava a atacar lojas e a deitar por terra a economia guineense, o que iria levar, depois da Independência, a precisar de auxílio externo. Punha, no entanto, uma grande esperança nos Armazéns do Povo.

Esse ano de 1965 é pleno de atividade: a preparação da II Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas (CONCP); encontrou-se com Che Guevara em Conacri, o guerrilheiro cubano ficou bem impressionado com Cabral, prometeu e concretizou apoios; ciente de que continuam os problemas de negligência, elaborou um documento intitulado Palavras de Ordens Gerais do Secretário-Geral.

“Amílcar Cabral, apesar das adversidades com que se confrontava diariamente, podia considerar-se um homem realizado pois o PAIGC dominava uma considerável área do território a Leste e mantinha os seus santuários principais incólumes, Morés, Oio, Cafine, Cantanhez e Cufar e a Frente Norte ativa. 

"Em finais daquele ano, para colmatar as dificuldades nas frentes de luta (como, por exemplo, em Gabu, onde mais de 40% dos efetivos do PAIGC tinham abandonado as suas unidades para regressar às regiões de origem), os dirigentes do PAIGC viram-se obrigados a lançar incentivos aos jovens voluntários para combater. Mesmo assim, o problema não ficou resolvido. Amílcar viu-se na necessidade de organizar uma reunião com os guerrilheiros das zonas Sul e Leste para melhor definir a estratégia que se impunha.”

A II CONCP realizou-se na Tanzânia, em outubro. Assim estamos chegados a 1966, em janeiro, em Havana, durante a I Conferência de Solidariedade dos Povos de África, Ásia e América Latina, a intervenção de Cabral gera admiração dos participantes, põe em causa o proletariado de índole operária, disseca os fenómenos sociais africanos e revela que o segredo do êxito do que está a acontecer na Guiné-Bissau é a estreita aliança entre uma burguesia consciente do seu poder revolucionário e a massa camponesa que está pronta a quebrar as grilhetas do colonialismo. 

Fidel Castro dirá no seu discurso de encerramento que estes movimentos revolucionários em África tinham em Cabral um dos líderes mais lúcidos e brilhantes. No rescaldo da Conferência, Fidel assegura-lhe um total apoio em ajuda médica e instrutores militares.

Estamos de novo em Conacri em 1966, está reunido o Conselho de Guerra com Amílcar, Luís Cabral e Aristides Pereira e os comandos das frentes. É de novo recriado um diálogo, os líderes políticos conversam com chefes da guerrilha, com Nino e Osvaldo Vieira, Domingos Ramos, Francisco Mendes e Pedro Pires. Discute-se o Exército Nacional Popular que irá ajudar as Forças Armadas na proteção das povoações, mas também são postos em cima da mesa os desempenhos dos comités de tabancas e anunciada a chegada de navios fornecidos pela União Soviética.

Em abril, Amílcar e Osvaldo Vieira estão no Morés, questões disciplinares merecem a atenção dos dois, Amílcar pretende destituir Inocêncio Cani, outro guerrilheiro, de nome Hilário Rodrigues, fora alvo de um processo de inquirição em que se apurou ter vendido armas tomadas ao inimigo no Senegal e na República da Guiné, ia ser destituído de todas as funções. 

Tinha sido naquela atmosfera de decisões punitivas que Inocêncio Cani ganhou um ressentimento profundo a Cabral. Alvarez recria uma conversa na prisão de La Montagne entre Cabral e o sargento Lobato, este conseguira salvar-se num desastre aéreo que custou a vida ao outro piloto, era prisioneiro do PAIGC, Lobato mantém-se firme, recusa a proposta de Cabral.

Temos novamente Cabral em Havana um ano depois, foi assistir ao juramento de bandeira de trinta e um recrutas cabo-verdianos, comandados por Pedro Pires. De novo o líder do PAIGC é recebido por Fidel, ele reforça o apoio com o envio de medicamentos, de 3 camiões acompanhados dos respetivos mecânicos cubanos e de 10 especialistas de morteiros.

No teatro de operações da Guiné, Schulz marcara pontos com as tropas especiais e intensos bombardeamentos, mas não se saía do impasse. Cabral procurou a flexibilidade das suas forças, abandonou algumas bases militares. Temo-lo de novo em Argel, Cabral fez um discurso no Comité de Libertação da Unidade Africana. É neste ano que o PAIGC foi dotado de uma emissora. 

“Amílcar conseguira o avanço significativo na transmissão das suas mensagens políticas pela rádio. O líder, sempre que estava em Conacri, surgia à noite nos estúdios da rádio Libertação, por vezes acompanhado de Ana Maria Voss, com palavras encorajadoras par quem nela trabalhava".

E assim se chega nesse ano de 1968 à decisão política de Salazar de substituir Schulz por António Spínola. Vamos entrar no terceiro e último ato da guerra da Guiné.

Cabral e Fidel Castro depois da reunião da Tricontinental, a intervenção pública de Cabral marcou pontos, introduzia uma nota ideológica que se distinguia da cartilha soviética.
Amílcar Cabral. Fotografia retirada do Black Agenda Report, com a devida vénia

(continua)
_____________

Notas do editor:

Vd. post de 2 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27787: Notas de leitura (1901): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (4) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 6 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27800: Notas de leitura (1902): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (5) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P27806: Humor de caserna (243): uma história de partir o coco a rir, a de uma "amizade improvável": o piloto de AL III, Jorge Félix, e o prisioneiro Malan Mané (Rui Felício, 1944-2026)


Guiné > s/l > s/d (c. 1968/70) > Algures sob os céus da Guiné, aos comandos de um AL III, o nosso camarada Jorge Félix (ex-alf mil pil, AL III, Esq 122, BA 12, Bissalanca, 1968/70; frequentou o 1º curso de pilotos de helicóptero, em Tancos, em 1967, aberto a milicianos... Entre os colegas de curso,  estava o Duarte Nuno de Bragança.


Guiné > s/l > s/d (c. 1968/70) > O Com-chefe António Spínola, numa das viagens a bordo do helicóptero do Jorge Félix. Dizia-se que este era um dos pilotos preferidos do nosso comandante.


A caderneta de voo do Jorge Félix, onde consta a operação em que foi capturado o prisioneiro a que se refere esta história (Op Nada Consta, 18 de agosto de 1969)

Fotos (e legendas): © Jorge Félix (2008). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá  > Carta de Duas Fontes (Bengacia)  (1959) / Escala 1/50 mil > Posição relativa de  Galomaro, onde ocorreu a história  do  Malan Mané, capturado pelos páras (BCP 12)  (Op Nada Consta, 18 de agosto de 1969)... O PAIGC tinha uma "barraca" na mata próxima da bolanha do Rio Biesse (a vermelho).  O Jorge Félix sinalizou duas povoações,  a azul: Dulo Gengéle e Sinchã Lomá, a sudoeste de Galomaro.

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)



Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Sector L1 > Mansambo > 
CART 2339 (1968/69) > "Interrogatório" (que mais parece um exame oral da 3ª classe no Posto Escolar Militar...)  ao prisioneiro, Malan Mané (sentado, à esquerda). Quem preside ao ato é o nosso saudoso alf mil at art Torcato Mendonça (1944-2021) (à direita), visivelmente bem disposto tal como o militar guineense que faz de intérprete (de pé, ao centro). 

Assistem à cena 3 "viriatos" da CART 2339... O seu olhar é de espanto,  curiosidade e desconfiança... A  foto foi tirada pelo alf mil Cardoso, e chegou-nos à mão através do ex-fur mil Carlos Marques dos Santos, de Coimbra (1943-2019). "Pela disposição dos presentes é fácil imaginar a brutalidade do interrogatório. O militar das patilhas sou eu, na escrita, Torcato Mendonça"

Foto (e legenda): © Carlos Marques dos Santos (2006) 
Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Recuperamos e reeditamos uma mensagem e uma história do Rui Felício (1944-2026) (*), ex- alf mil at inf,  CCAÇ 2405 (Galomaro e Dulombi, 1968/70), autor da série "Estórias de Dulombi", e recentemente falecido:

Data - 12 de março de 2008:

Meu Caro Amigo Luís Graça,

Depois de vários anos sem notícias do Jorge Félix (**), tive a felicidade de o reencontrar há dias através de e-mail que ele me enviou.

Soube do meu endereço, por meio do nosso blogue,  que ele  tem lido...

Relembrou-me uma história curiosa que se passou em Galomaro numa operação militar em que ele esteve envolvido e da qual resultou um prisioneiro do PAIGC que pernoitou na sede da CCAÇ 2405.

É essa história que, no seguimento de outras anteriores te tenho enviado, que agora te peço que tenhas o incómodo de ler e decidir se lhe achas interesse para publicação no blogue.

Além da história propriamente dita, juntei-lhe algumas fotos cedidas pelo Jorge Felix, cuja publicação autorizou, bem como do endereço de um filme do YouTube.

Aceita os meus melhores cumprimentos, depois de tão longa ausência e os parabéns renovados pelo esforço que tens dedicado ao blogue que de muita utilidade tem sido para tantos de nós.


2. Série Humor de Caserna


O Piloto de Al III, Jorge Félix, e o prisioneiro Malan Mané  

por Rui Felício (1944-2026)

(i) Preâmbulo

Durante cerca de 3 semanas estacionou na sede da nossa CCAÇ 2405, em Galomaro / COP 7, uma companhia de paraquedistas (aliás, duas, CCP 122 e 123 / BCP 12), para fazer limpeza de alguns objectivos do PAIGC, que as informações militares detectaram nas imediações da zona operacional da CCAÇ 2405.

No apoio a essa Companhia de paraquedistas, incluía-se o helicóptero pilotado pelo meu grande amigo alferes mil piloto Jorge Félix.

O episódio que vou contar poderia ter resultado em catástrofe, como mais adiante se compreenderá, mas o que permanece na memória, é de facto a situação picaresca que, passado o perigo, a seguir se desenvolveu.

Antes do relato dos factos, é importante dar a conhecer a personalidade do Jorge Félix. Sem ela, esta história não teria o sal e a pimenta que a maneira de ser dele lhe conferem.

(ii) A personalidade do Jorge Félix

O Jorge Félix, a quem ainda hoje me ligam laços de grande amizade, foi piloto de helicópteros da Força Aérea em Bissalanca, BA 12,  nos anos de 1968 a 1970.

Para além do seu elevado profissionalismo, capacidade técnica e conhecimento do território, que o tornaram, na opinião generalizada, como um dos melhores, senão o melhor piloto de helicópteros que terão passado pela guerra da Guiné, reunia e ainda reúne, invulgares qualidades difíceis de encontrar todas concentradas numa mesma pessoa.

Aquelas que mais apreciei foram e ainda são, apesar dos anos passados;
  • um apurado sentido de humor;
  • uma jovial e permanente boa disposição que alastrava a quantos o rodeavam;
  • um permanente lenço de seda colorido em volta do pescoço que era a sua imagem de marca;
  • e uma aptidão especial para rapidamente aprender a dominar as técnicas das mais variadas especialidades.
Refiro-me ao domínio da fotografia e da imagem, da música e, sobretudo, dos corações femininos! Dizem que destroçou vários na sua passagem por Bissau, Bafatá, Galomaro e sei lá quantas mais terras da Guiné...

(iii) A Op Nada Consta (18 de agosto de 1969: destruir um acampamento nas matas do Rio Biesse)

Mas vamos à história de cuja parte final fui testemunha.

A parte inicial foi-me descrita pelo próprio Jorge Felix e confirmada pelos paraquedistas intervenientes.

Em 18 de agosto de 1969, às 09h30, o Jorge Félix transportou no seu helicóptero um grupo de paraquedistas que iam fazer um assalto, a uma base do PAIGC, identificada pelos serviços de informações militares da Guiné, como estando localizada na região de Galomaro.

Ao procurar local para a aterragem perto do objectivo, em plena mata, o Jorge Felix foi descendo o helicóptero e, a uns 5 metros do chão, a deslocação de ar provocada pelo movimento das pás do aparelho, afastou uma série de ramos de arbustos deixando a descoberto um guerrilheiro do PAIGC que ali se havia emboscado.

O homem estava armado com um RPG7, e a granada colocada, apontando para o helicóptero, o que naturalmente deixou em pânico o piloto e os tripulantes.

Na verdade, se o gatilho tivesse sido premido, era o destruição do helicóptero e de algumas vidas, senão todas, daqueles que o tripulavam.

O Jorge Félix que foi quem primeiro avistou o guerrilheiro, gritou aos paraquedistas que de imediato saltaram do heli e aprisionaram o homem sem necessidade de dispararem um único tiro, desarmando-o acto contínuo.

Pelos vistos, o susto e a surpresa dele foram tão grandes, ao avistar inesperadamente o helicóptero sobre a sua cabeça, que lhe devem ter paralisado os movimentos e o raciocínio... para sorte dos militares que enchiam o aparelho...

(iv) O regresso a Galomaro

E a partir daqui já fui testemunha ocular...

Regressados a Galomaro, o prisioneiro (4) foi fechado numa sala da casa onde funcionava a secretaria da CCAÇ 2405, aguardando ali que lhe fosse dado o destino que os altos comandos de Bissau lhe determinassem.

Como nunca antes na CCAÇ 2405 tivéssemos feito prisioneiros, aquele homem mais parecia uma ave rara enjaulada em jardim zoológico em dia de grande afluência de visitantes.

Todos queriam vê-lo e o seu aspecto era o de um animal acossado e aterrorizado, certamente porque a propaganda que lhe tinham enfiado no cérebro, lhe fixara a ideia de que os soldados colonialistas haviam de o torturar até à morte...

A verdade é que ninguém lhe fez mal... Pelo contrário, vendo-o assim aterrorizado, procurámos tranquilizá-lo e dar-lhe de comer, o que foi sempre recusando, possivelmente porque pensava que a comida estaria envenenada.

Assisti a dada altura, a um diálogo que jamais esquecerei e que não resisto a tentar reproduzir tanto quanto a memória mo permita, passados já tantos anos.

(v) A conversa do Jorge Félix com o prisioneiro

O Jorge Felix entrou na sala, onde eu me encontrava com o prisioneiro e com mais um ou dois soldados, com o lenço de seda esvoaçando, o habitual ar sorridente e descontraído, e dirigiu-se cordatamente ao prisioneiro:

 Então como vai, meu amigo? Está tudo bem consigo?

O prisioneiro, consciente de que aquele piloto tinha todas as razões do mundo para se sentir revoltado pelo sucedido uma ou duas horas antes, encolheu-se receoso e ficou, tenso e em silêncio, esperando a vingança...

O Jorge Félix, insistiu:

− O senhor é casado?

O homem fez um sinal de assentimento com a cabeça, e o Jorge Felix prosseguiu:

− Pois é, a sua esposa lá em casa a remendar-lhe as peúgas, coitada, e o senhor anda para aqui a brincar às guerras... E tem filhos?

Mais um movimento afirmativo do prisioneiro incentivou o Jorge Felix a prosseguir:

− Sabe, o senhor parece ser uma pessoa de bem, por isso devia estar em casa a ajudar a sua esposa, a acompanhar os estudos dos seus filhos... Em lugar disso, anda por aí com uma arma daquelas nas mãos, sujeito a que ela se dispare sem querer e ainda vir a magoar alguém, ou magoar-se a si próprio... Já viu em que situação a sua família ficaria se o senhor viesse a sofrer algum acidente? Quem iria depois cuidar deles? Já pensou nisso?

O homem cada vez entendia menos daquela conversa mansa, daqueles conselhos simpáticos vindos de um oficial português que se habituara a considerar como seres desumanos e cruéis.

Quanto mais o Félix falava, mais ele se encolhia, sentado a um canto contra a parede, se calhar a pensar em que momento lhe iriam fazer mal...

O Félix não desistia da sua prelecção, tentando que o prisioneiro se descontraísse e estabelecesse com ele algum diálogo.

− Ora diga-me lá, o senhor estava com aquela perigosa arma nas mãos, para quê? Se era para disparar uma bazucada contra nós, porque não o fez?

Finalmente o prisioneiro sentiu-se na obrigação de responder:

− Porqui tem medo! Helicóptero é suma mosca... quando olha a gente nunca mais despega di nós...

O Jorge Felix ripostou de imediato:

− Isso é verdade! Mas nunca faríamos mal a uma pessoa como o senhor, que tem família constituída, que aparenta ser uma pessoa de bem... E porque é que não quer comer?... Sabe que tem que se alimentar para poder dar assistência aos seus filhos... A menos que não lhe agrade a comida... Realmente esse esparquete que lhe deram, não tem grande aspecto... E os olhos também comem, não é? Quer vir jantar fora comigo? Um frango de churrasco e umas cervejolas? Eu pago!

Brincando ou não, a verdade é que com toda esta conversa o Félix conseguiu que a tensão do prisioneiro se distendesse e, inacreditavelmente, este aceitou o convite!

O Felix, saiu para pedir autorização aos paraquedistas para levar o homem a comer um franguinho no restaurante do Regala, o único aliás que existia em Galomaro. Estes autorizaram desde que o prisioneiro fosse acompanhado por um soldado, para se garantir que não fugiria...

E foi assim que o Jorge Felix, à falta de melhor companhia, saiu para a night de Galomaro com o novo amigo conquistado às hostes do PAIGC que poucas horas antes podia tê-lo mandado para os anjinhos...

E jantaram juntos... E trocaram confidências que só o Felix poderá revelar...

O Jorge Félix pagou o jantar, como prometera! Com exclusivo recurso aos seus capitais próprios.

É uma divida que, segundo me disse, gostaria de lhe cobrar se o homem ainda estiver vivo e se lhe for possível reencontrá-lo.

Anexo três fotos que o Félix me enviou.

Rui Felício
Ex-alf mil inf, CCAÇ 2405 (Galomaro e Dulombi, 1968/70)

Lisboa, 11 de Março de 2008

(Revisão / fixação de texto, título: LG)

3. Comentário do editor LG:

Meus amigos e camaradas:

É uma história a ler e reler. Uma daquelas de partir o coco a rir... Não me canso de a revisitar (***). E o mérito é tanto do narrador como do Jorge Félix e, de algum modo, do pobre Malan Mané que, três semanas depois, ia morrendo ao meu lado, um jovem a quem deram uma bandeira, um hino, um RPG 2, enfim, uma causa para lutar, viver e morrer. (Era biafada, da região de Quínara, tal como o seu comandante, o Mamadu Indjai, futuro carrasco de Amílcar Cabral, e que morrerá a seguir, em 1973, fuzilado sem honra nem glória, no ajuste de contas entre "cavalos" e "cavaleiros" do PAIGC).

O Malan Mané era apontador de RPG 2 (e não 7), se bem me lembro. Foi, de facto, capturado pelos paraquedistas do BCP 12, em operação conjunta do Sector L1 (BCAÇ 28252, Bambadinca, 1968/70) e COP 7 (Bafatá) (Op Nada Consta, 18 de Agoso de 1969) (em que também participei, tal como o Torcato Mendonça e o Carlos Marques dos Santos) (****) ...

As forças paraquedistas eram a CCP 123, a 2 Gr Comb, e a CCP 122, a 1 Gr Comb. Ambas as unidades estavam aquarteladas temporariamente em Galomaro. O Malan Mané, depois de Galomaro, foi levado para Bambadinca, para interrogatórios. Também esteve em Mansambo. Estava ao meu lado, no 2º Gr Comb, CCAÇ 2590 / CCAÇ 12, que gravemente ferido (Op Pato Rufia, no Xime, a 7 de Setembro de 1969, o "meu batismo de fogo").

Esta história, "escrita" a quatro mãos" (Rui Felício e Jorge Félix), é um tesouro de humanidade, sensibilidade, inteligência emocional e humor pícaro no meio daquela merda de guerra. Bem merecia mais comentários dos nossos leitores, cada vez mais cansados e distraídos. 

É uma história que nos honra e nos delicia, e que diz muito sobre a nossa maneira de ser e de estar, como portugueses, mesmo em situações-limite como a guerra... Voltaremos a ela num próximo poste da série "Nomadizações de um marginal-secante".
_______________

Notas do editor LG:

(*) O Rui Felício (1944-2026), juntamente com o Paulo Raposo, o Victor David (1944-2024) e o Jorge Rijo (de quem não sabemos nada há muito), fazia parte dos famosos baixinhos de Dulombi, os quatro alferes milicianos da CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852 (Galomaro e Dulombi, 1968/70), reunidos sob o poilão da Tabanca Grande...

Vd. poste de 8 de Dezembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1352: Estórias de Dulombi (7): Perigos vários, a divisa dos Baixinhos de Dulombi (Rui Felício)

(**) Vd. postes de:

28 de Fevereiro de 2008 > Guiné 63/74 - P2592: Voando sob os céus de Bambadinca, na Op Lança Afiada, em Março de 1969 (Jorge Félix, ex-Alf Pil Av Al III)

12 de Março de 2008 > Guiné 63/74 - P2627: Vídeos da Guerra (8): Nha Bolanha (Jorge Félix, ex-Alf Mil Piloto Aviador, 1968/70)

18 de Março de 2008 > Guiné 63/74 - P2660: Notas de leitura (10): Jorge Félix, o nosso piloto aviador, fala do livro do Beja Santos e evoca o Alf Mil Brandão (CCAÇ 2403)

(***) Último poste da série : 4 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27793: Humor de caserna (242): "Está a ver, meu alferes ? Era melhor ter limpado o sebo ao gajo" (Alberto Branquinho, "Cambança Final, 2013, pp. 77-79)

(****) Vd. postes de:

25 de Junho de 2006 > Guiné 63/74 - P906: CART 2339 e Malan Mané, duas estórias para duas fotos (Torcato Mendonça)
23 de setembro de 2016 > Guiné 63/74 - P16519: Manuscrito(s) (Luís Graça) (97): O 'prisioneiro' Malan Mané... a quem cedo, talvez demasiado cedo, deram um arma e uma bandeira e um hino

segunda-feira, 2 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27787: Notas de leitura (1901): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (4) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Setembro de 2025:

Queridos amigos,
Começo por dar uma explicação. Era bem possível fazer uma recensão num só texto da obra de José Alvarez. Irei fazê-lo posteriormente por outros canais. Tenho procurado no blogue incitar para a leitura das obras, seja qual for o seu nível de qualidade. Acontece que estamos perante o primeiro romance histórico de Amílcar Cabral, trata-se de um romance entremeado de muitíssimos factos já aqui versados, José Alvarez procede à ficção na construção de diálogos entre Amílcar Cabral e a sua primeira mulher e nas reuniões políticas, sobretudo ao nível do PAIGC, mas também conversas com diplomatas, jornalistas e outros. Entendi que prestaria melhor serviço aos confrades destacando aspetos relevantes da trama histórica, deixando-lhes a surpresa de lerem o enredo ficcional construído por José Alvarez. Cabral nessa fase, entre 1962 e 1964, é não só a figura preponderante e inultrapassável dentro do PAIGC, é ideólogo, estratega, diplomata, germina da sua ação ser o construtor da nação guineense, tal como aconteceu. Acho que valeu a pena dar-vos nota do que achei por bem na extensão destas recensões.

Um abraço do
Mário



O primeiro romance histórico sobre a vida e obra de Amílcar Cabral – 4

Mário Beja Santos

O romance histórico de José Alvarez remete-nos agora para a instalação de direção do PAIGC em Conacri, estamos em 1961, também Maria Helena chega à capital da Guiné-Conacri com a filha mais velha. Em casa de Hugo Azancot Meneses há uma reunião de amigos, estão presentes Viriato da Cruz e Mário Pinto Andrade, entre outros, temas como os outros partidos nacionalistas vêm à baila, Amílcar andava inquieto com as atividades do Movimento de Libertação da Guiné, maioritariamente constituído por Manjacos residentes no Senegal, tinham em julho cortado linhas telefónicas perto de S. Domingos, atacado o aquartelamento desta povoação, também Susana e Varela, procedido a vandalizações e roubos. 

O armamento chegava ao PAIGC a conta-gotas, Sékou Touré pouco facilitava, havia obsessão de que viessem armas para golpes de Estado internos. É nessa altura que se encontra o expediente de, a partir de Marrocos, vir armamento em caixotes com indicação de medicamentos.

Amílcar procede a um périplo internacional, primeiro Casablanca, aí vai decorrer a I Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas - CONCP, isto em abril, já em Conacri encontrara-se com um agente dos serviços secretos checos; em setembro, Amílcar volta a escrever ao Presidente da Assembleia Geral da ONU, toca sempre na tecla da liquidação pacífica do colonialismo português; Maria Helena é professora liceal em Conacri. A CONCP tem o seu secretariado em Rabat. A Conacri, chegam cada vez mais guineenses para se juntar em prol de lutar pela Independência, é criado O Lar dos Combatentes. Maria Helena vai adoecendo, Amílcar sugere que ela e a filha vão para Rabat, é uma conversa que decorre sob grande tensão.

Vamos agora conhecer a faceta do estratega militar, reunião de quadros em Conacri, repartição de responsabilidades envolvendo quem tinha frequentado a academia de Nanquim, caso de Rui Djassi, Osvaldo Vieira, Chico Té, Manuel Saturnino Costa, Constantino Teixeira, Vitorino Costa, entre outros. Já estavam mais de 25 quadros em formação na Checoslováquia e 5 na URSS. Maria Helena e a filha partem para Rabat, Rafael Barbosa e outros são presos em Bissau.

Amílcar falou na Comissão da ONU sobre os territórios ocupados por Portugal, nas reuniões vem sempre a referência à falta de armamento e começam as insinuações de que os cabo-verdianos preferem Conacri para fugir à luta armada. 

De 1962 para 1963 acontecem modificações políticas de tomo na Argélia, chegam políticos portugueses a Rabat, como Piteira Santos e Adolfo Ayala. Nasce a segunda filha de Maria Helena e Amílcar, a filha mais velha vai estudar para Moscovo.

Em 1963, a FLING – Frente de Libertação e Independência Nacional da Guiné estabeleceu contacto com o Governo português, procurava-se uma solução pacífica para o futuro da Guiné. Benjamim Pinto Bull será recebido por Salazar, transmite-lhe uma proposta de autonomia gradual que culminaria com a eventual independência, de forma a permitir a formação de quadros e a crescente ocupação dos lugares-chave da administração por naturais da Guiné. 

É nisto que se sucede um grave incidente com o desembarque das caixas com armamento disfarçado de medicamentos, uma das caixas desfaz-se em pleno porto, Sékou Touré não está para os ajustes, manda prender a direção do PAIGC, Amílcar andava pelo estrangeiro, competir-lhe-á sanar o incidente.

Em 23 de janeiro de 1963, um grupo de guerrilheiros comandado por Arafam Mané ataca o quartel de Tite, estava dado o sinal de que o PAIGC desencadeara as hostilidades, são emitidas notícias nas emissoras de Conacri, Dakar e Brazzaville, dois meses depois, na região de Catió, combatentes do PAIGC apoderaram-se de duas barcaças a motor, Arouca e Mirandela, pertencentes à Casa Gouveia e à Sociedade Policial Ultramarina. 

Amílcar desloca-se a Moscovo, os soviéticos pretendem conhecer o seu programa, fazem perguntas sobre Cabo Verde, as promessas de apoio ficam por enquanto no ar. Dá-se uma reunião de quadros em Dakar, a união de Guiné a Cabo Verde é um dos principais temas de discussão, Amílcar propõe que era absolutamente necessário avançar com a insubordinação de Cabo Verde, mas é reticente quanto a um quadro de violência, sugere a infiltração, cabe a Pedro Pires o recrutamento e preparação política dos combatentes, mas curiosamente pondera-se a escolha de um local de desembarque, confia-se muito na ajuda cubana.

Salazar, afinal, não dá qualquer prova de querer dialogar com a FLING; nas reuniões de quadros, Cabral é confrontado com sérias tensões entre os quadros militares e políticos nas diferentes frentes, é nessa altura que se pondera a criação da Lei da Justiça Militar, é mais do que tempo para preparar uma reunião em território da Guiné para apreciar o relacionamento entre as chefias militares e as políticas, que virá a ocorrer em Cassacá, exatamente no tempo em que decorre na ilha do Como a Operação Tridente. Surge o hino do PAIGC, os versos são de Cabral.

E estamos chegados à reunião de Cassacá que culminará em congresso. Meio ano depois daquele ataque a Tite, a presença do PAIGC era uma realidade, particularmente no sul. O general Venâncio Deslandes tinha observado ainda em 1963 que cerca de uma quinta parte do território mantinha-se em sublevação, e as populações na sua quase totalidade deslocadas. 

O Governador e Comandante-chefe, Vasco Rodrigues e o Brigadeiro Louro de Sousa, tinham opiniões divergentes quanto ao andamento de obstar a progressão da guerrilha, em Lisboa decidira-se reforçar os efetivos militares na Guiné de cinco para dez mil homens. Louro de Sousa delineou uma enorme operação militar, a Tridente, para recuperar a ilha do Como, operação de grande envergadura, um efetivo militar de cerca de setecentos homens, com o apoio da Força Aérea e da Marinha, operação duríssima, os guerrilheiros do PAIGC transferem-se taticamente para outro território, o comandante em terra, Fernando Cavaleiro, percorre a ilha a pé.

Em território continental, em Cassacá, começa a reunião a 13 de fevereiro. Amílcar anuncia várias medidas na mobilização e organização de forças na luta armada, são criadas as FARP – Forças Armadas Revolucionárias do Povo, bem como a formação de quadros militares especiais. Inevitavelmente, teria que ser discutida a deterioração da população devido a comportamentos prevaricadores de quadros militares, foram identificados e desarmados os prevaricadores, mais tarde julgados e alguns deles executados. 

Dois meses após o final da operação Tridente, ainda existe numa ponta da ilha do Como um destacamento de tropa portuguesa, em Cachil, mas o PAIGC voltou a manifestar-se, flagelando regularmente essa Unidade.

Também atendendo ao desentendimento entre o Governador e o Comandante-chefe, o Governo português toma a decisão de juntar os dois cargos de uma única pessoa, é escolhido o Brigadeiro Arnaldo Schultz, chega à Guiné em maio de 1964, e com a promessa que faz publicamente de acabar em meses com a guerrilha.

Amílcar Cabral numa das suas intervenções no Congresso de Cassacá, 13 a 17 de fevereiro de 1964
O Bureau Político do PAIGC eleito no Congresso de Cassacá. Da esquerda para a direita: Nino Vieira, Chico Té, Rui Djassi, Aristides Pereira, Chucho ou Constantino Teixeira, Amílcar Cabral, Domingos Ramos, Luís Cabral e Osvaldo Vieira.

(continua)

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Notas do editor:

Vd. post de 23 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27764: Notas de leitura (1899): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (3) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 27 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27778: Notas de leitura (1900): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (4) (Mário Beja Santos)