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segunda-feira, 15 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28102: Notas de leitura (1928): "Coragem, Altruísmo e Fé", por Rosalina Coelho Vaqueiro; Chiado Books, 2025 (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 5 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
Temos agora o percurso desta solícita paraquedista em toda a luta armada, percorre os diferentes teatros de operações e haverá a reforma, sempre bondosa e ativa, a sua biógrafa dedica-lhe páginas esplendentes, Eugénia do Espírito Santo deixa um rasto de grande discrição, espírito magnânimo, uma paraquedista da primeira hora tão pouco referida.

Um abraço do
Mário



Capitão Paraquedista Eugénia do Espírito Santo Sousa, de Santo Antão para as guerras de África: esteve na Guiné em 1962, 1969, 1972 e 1973, temos aqui uma biografia tocante - 2

Mário Beja Santos

Há parágrafos luminosos nesta biografia que Rosalina Vaqueiro dedicou à enfermeira paraquedista Eugénia do Espírito Santo Sousa, nomeadamente o capítulo dedicado à infância e juventude em que ela viveu na ilha de Santo Antão, em Cabo Verde. Nascida em 1935, tendo feito os estudos no arquipélago, continuou a sua formação primeiro no Porto e depois em Lisboa. Tirou o curso de paraquedismo em Tancos, em 1962, ano em que faz a sua primeira estadia na Guiné, relata algumas das peripécias que viveu, uma delas merece aqui realce: “Um doente da Marinha, que trouxe em evacuação para Lisboa, queria-lhe dar 100$00, porque Eugénia lhe deu uma aspirina. A enfermeira não aceitou e recorda à sua biógrafa que ainda se lembra da mão dele estendida com os 100$00.” Era sua colega na época a Arminda Lopes Pereira.

Depois da Guiné, Angola, Rosalina Vaqueiro dá-nos o quadro em que se desenvolveu a luta armada, a partir de 1961 e as tarefas árduas que couberam a estes primeiros combatentes, um chão de mato cerrado, sem estradas, a tormentosa tarefa de desbastar árvores e o capim, abrindo caminhos rudimentares, tudo dificultado pela guerrilha que atravessava troncos de embondeiro ou abriam valas fundas que impediam a circulação de veículos militares. Eugénia estava alojada com as suas colegas enfermeiras em Luanda, no edifício da Força Aérea. Não deixava de ser extenuante a missão de evacuação dos feridos.

Seguiu-se Moçambique, a autora dá-nos agora uma sinopse dos acontecimentos nesta região, vai tomando nota das observações de Eugénia. Esta conta-lhe que um dia em Nampula perguntou a um criado de mesa se já tinha almoçado, este respondeu que os criados tinham de esperar que todos comessem pelo que só podiam comer o que sobrava das mesas. Eugénia a partir daí passou a ter o cuidado de não sujar o prato todo e dizia discretamente ao criado, apontando, que só tinha usado metade do prato. Desta sua estadia guardou a recordação de um acidente de dois homens brancos que tinham ficado tão queimados que ela pensou que eram negros.

Está de regresso a Angola em 1965, no mesmo ano foi indicada para uma comissão no Hospital da Força Aérea, em Terra Chã, ilha Terceira, para dar aulas de enfermagem; a autora aproveita para nos falar da religiosidade açoriana, dizendo que em 1967 Eugénia será novamente destacada para este Hospital. Esse ano será um ano aziago na vida dela, teve um acidente num salto de paraquedas em Tancos, onde partiu os ossos da bacia. Ficou a recuperar em Lisboa e só voltou a Moçambique em 1968.

Temo-la novamente na Guiné em 1969. Dirá que as mulheres dos militares eram um ninho de víboras. Fala das evacuações. Não sei a que título e a que nível de informação Rosalina Vaqueiro escreve que nos anos de 1970 ainda havia canibalismo no interior da Guiné. E adiante escreve uns parágrafos sobre a operação Mar Verde.

Volta a Angola, irá a Santo Antão despedir-se de Rosáia, uma das três manas Sequeiras, aquela que ela mais amava, e estará presente na Guiné de 1972 a 1973. Também não sei a que nível de informação a autora escreve que o PAIGC declarou independência em Guilege. Eugénia, não é demais insistir, fala permanentemente da sua convicção religiosa, da fé que vem do berço, nesta fase da guerra, como ela declara, o trabalho das enfermeiras e de toda a equipa era demasiado intenso e sentia-se o constante perigo de vida da morte da colega Celeste Costa que ao correr para um avião em vez de contornar a cauda passou por baixo da zona do motor e veio a ser atingida pelas pás. Não esconde o sofrimento que esta morte lhe provocou. Fará referências detalhadas à chegada dos mísseis terra-ar, ao cerco de Guidaje e aos acontecimentos que ocorreram no sul. O livro está repleto de fotografias desta época.

E chegámos ao tempo de paz. De 1974 a 1983 não passou à vida civil como poderia imaginar-se com o fim da guerra. Fez fisioterapia e recuperação devido aos seus problemas ortopédicos, continuou o seu trabalho como enfermeira no Hospital da Força Aérea. Será depois professora de enfermagem, pediu autorização para fazer o curso de ensino. Tinha então casa em Santo António dos Cavaleiros. Reforma-se em 1983, reforma extraordinária vitalícia. Recebe a visita de Maria de Lourdes Sequeira, as outras Sequeiras já tinham falecido. Fala-se também das peripécias da herança das Sequeiras.

Eugénia instala-se em Sesimbra, muito do seu viver é para ajudar, humanos e animais. Procura manter atividade física, desloca-se sempre com a sua canadiana. A autora transcreve uma carta que Eugénia envia à mulher do coronel Morais da Silva, ex-chefe da Força Aérea, não resiste a contar-lhe algumas das suas reminiscências:
“As irmãs Sequeiras tinham orgulho de usar o seu dinheiro ajudando. Quando só estavam as três, eu sabia que iam poupar nas despesas para recuperar o dinheiro gasto. Era o seu orgulho. Eu era criança e sabia. Na época da fome, em 1950, elas cozinhavam um panelão, uma caldeira de cachupa e cada pessoa pobre ia lá a casa com um prato. Na rua faziam fila e eu ajudava a levar a cada pessoa um prato cheio de comida (…) O meu estado de saúde pirou depois de perder amigos. Tenho 50% de surdez e ando ansiosa. Não há grandes facilidades de consulta para mim, mesmo quando o psiquiatra recomendou consulta urgente. Não dormia. Agora com os comprimidos durmo, não quero tomá-los sempre, senão fico dependente ou drogada.”

A carta data janeiro 2016, a autora vai juntando recordações avulsas pelos anos seguintes. Anda sempre indisposta com a desarrumação das duas casas, a de Santo António dos Cavaleiros e a de Sesimbra. As suas recordações de enfermeira paraquedista persistem, como diz à autora: “Trabalhei muitas vezes sem poder ir à cama, e fiz diretas sem dormir, porque era preciso. Também durante todo o dia não tinha tempo de comer, porque as urgências me chamavam. Subestimávamos o sono e a comida. Dávamos o nosso tempo para tentar salvar vidas.” E permanentemente relembra à autora as pessoas de quem guarda uma eterna gratidão. Vai a reuniões das enfermeiras paraquedistas. O livro termina em janeiro de 2024, relata mais recordações da vida, tem então 88 anos.

Eugénia foi de facto uma mulher de coragem, altruísmo e fé.


Autora da biografia, Rosalina Vaqueiro
Eugénia do Espírito Santo Sousa, Cap. Enf. Pqdt. (Ribeira Grande, Santo Antão, Cabo Verde, 1935 - Sesimbra, 2025)
A Eugénia do Espírito Santo Sousa um bonito sorriso na sua idade maior, imagem retirada da Associação Portuguesa de Enfermagem Militar, com a devida vénia.
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Notas do editor:

Vd. post de 8 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28080: Notas de leitura (1926): "Coragem, Altruísmo e Fé", por Rosalina Coelho Vaqueiro; Chiado Books, 2025 (1) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 12 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28093: Notas de leitura (1927): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (3): V - Depois do Cuor, seguiu-se a intervenção em Bambadinca e VI - O primeiro regresso à Guiné, 1990/1991, o início da escrita (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28080: Notas de leitura (1926): "Coragem, Altruísmo e Fé", por Rosalina Coelho Vaqueiro; Chiado Books, 2025 (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 4 de Dezembro de 2025:

Queridos amigos,
É uma tocante biografia, a Eugénia do Espírito Santo Sousa, falecida este ano, com 89 anos, possuía um poder memorial incomum que seguramente facilitou a vida da biógrafa, que nos dá um quadro vivacissimo do viver na ilha de Santo Antão naquelas décadas de 1930, 1940 e 1950. Estudante aplicada, preparou-se no Porto e em Lisboa, em 1961 predispôs-se a ir ajudar quem sofria na guerra. Percorrerá os três teatros de operações, estará presente na Guiné em três momentos diferentes. Foi uma vida de serviço. Eu só lamento que a Rosalina Vaqueiro não tenha pedido auxílio para a revisão, há por ali alguns dislates e incorreções que facilmente se supriam, oxalá que haja segunda edição e humildade da escritora para pôr tudo num brinco.

Um abraço do
Mário



Capitão Paraquedista Eugénia do Espírito Santo, de Santo Antão para as guerras de África: esteve na Guiné em 1962, 1969, 1972 e 1973, temos aqui uma biografia tocante - 1

Mário Beja Santos

O que a biógrafa Rosalina Coelho Vaqueiro aqui nos apresenta, e seguramente surpreendendo toda a gente, é a infância e a juventude de uma menina em Santo Antão, primeiro, a narrativa arrebatadora, pois a memória daquela octogenária guardara tudo ao pormenor; temos depois a paraquedista que vemos na capa, esbelta, de farta cabeleira, com olhos castanho-verdes, em pose informal para o fotógrafo, não disfarçando cansaço. Como todos os anjos do céu, assim passámos a designar aquelas enfermeiras que confortavam os combatentes sinistrados, sabe-se lá a tristeza com que ela vinha daquela missão e que a imagem não revela. Uma biografia que releva a imagem de uma rapariga crente, crente ficará toda a vida, fez-se enfermeira, preparou-se em Tancos, tem a sua primeira missão em 1961, percorrerá todos os teatros de operações, manter-se-á firme e proativa na reforma, abala-nos, desperta-nos para a exemplaridade daquele altruísmo que era o timbre de todas estas mulheres, sempre solícitas, a recuperar militares e civis em situação crítica. Falamos de "Coragem, Altruísmo e Fé", por Rosalina Coelho Vaqueiro, Chiado Books, 2025.

Tive o privilégio de visitar a ilha de Santo Antão, embrenhei-me prontamente na terra natal da enfermeira Eugénia, e entender perfeitamente o que aqui se escreve sobre a fé que nos salva, a vida duríssima dessa ilha escarpada, onde também se espera a chuva e se teme a seca. “Tanto ano sem pingo de água, queira Deus que, quando essas nuvens enganadoras descarregarem não seja desgraça maior, inundando tudo o que é chão, com enxurradas que derramam e arrastam à sua frente qual lava de vulcão da ilha do fogo – árvores, casas, bicho e até gente, por todo o nosso Santo Antão, numa fúria desaustinada.” E também: “Sempre que as águas secam e a fome aperta, acabam-se os pastoreios e os homens dos rebanhos de cabras, os pastores de ovelhas mortas e a gente de côdea incerta, esgueiram-se, sorrateiramente, morro abaixo, esfomeados, cobertos de lã de cordeiro ou de pele de cabra, na calada da noite e, num ultimo rasgo de força, saltam muros e assaltam quintais onde adivinham reservas de milho ou feijão, algo que possam levar à boca para aplacar a agonia dos ventos ocos e, varando capoeiras como um bicho bravo, tiram o pão que resta da boca de outros esfomeados.”

A mãe de Eugénia chamava-se Cristina, haverá uma primeira filha, Maria de Fátima, com quem Eugénia se relacionará até ao fim da sua vida. Cristina era bordadeira, morrerá de tuberculose quando Eugénia tem dois anos. Nada se sabe do pai de Eugénia, dizia-se que era um tenente que se apaixonou pela jovem Cristina. Mergulhamos na vida da Ribeira Grande de Santo Antão, a tia Nininha tomará conta de Maria de Fátima, as meninas Sequeiras educaram Eugénia. É uma ternura o que ela vai contar das três mães, o seu dia-a-dia, a preferência pela mãe Rosáia, a vivacidade da descrição da vida daa criadagem, o trabalho dos homens e o trabalho das criadas, a vida agrícola, o papel crucial dos animais, o universo das crianças, as traquinices, o trapiche, o alambique onde faz a aguardente, o grogue. Eugénia recorda aquela cana-de-açúcar plantada nas encostas íngremes da ilha, o transporte pelos bois, as canas a prensar entre os ferros do engenho.

A menina vai à escola em Ponta do Sol, dez quilómetros ida e volta, mas Eugénia ficava em casa da professora e a criada Antónia ia lá todos os dias fazer cachupa guisada com ovo estrelado para pequeno-almoço. Eugénia foi educada por três irmãs muito tementes a Deus, muitas rezas e muitos santinhos, pede-se socorro nas horas de aflição, a fé é uma dádiva do céu, impossível não acompanhar toda esta memória da sua juventude em Santo Antão sem comoção, o sentimento genuíno de quem tudo recorda com lufadas de gratidão, o que nos conta de bruxaria e superstições, aquelas crenças com dedos em cruz atrás das costas, as figas, à noite não passar perto de uma pocilga de porcos, as almas penadas.

A menina cresce, interessava-se por tudo o que tinha a ver com feridas, ligaduras, queixas disto ou daquilo, gostava de ajudar. Entre os 10 e os 15 anos, Santo Antão enfrentou anos de seca extrema, anos de dor e morte. Eugénia vai a São Vicente para fazer o exame do segundo ano, joga-se então o seu futuro, vai para um curso de enfermagem numa escola no Porto, lembra-se muito bem da sua passagem por Lisboa. É no Porto que é admitida no Curso Geral de Enfermagem, na escola D. Ana Guedes da Costa, começa pelo Curso de Auxiliar de Enfermagem, tem 21 anos quando acabou a primeira fase do estudo. Foi colocada no Hospital de S. António para estagiar. Fim do curso, inscreveu-se no Curso Geral de Enfermagem, no Hospital de Santa Maria. Fez o curso prático na Propedêutica Cirúrgica. Lembra a todo o momento as pessoas a quem deve atenções.

E assim chegamos a 1961. Eugénia candidata-se no serviço de saúde no Estado-Maior da Força Aérea. Fará parte do curso de paraquedismo, em Tancos, conta ao detalhe a sua preparação. A biógrafa não perde oportunidade de recordar que no decorrer dos vários cursos, entre 1961 e 1974, viriam a ser formadas 47 enfermeiras paraquedistas, elencam-se as perdas e diz-se que a última missão delas viria a ser na evacuação de civis de Timor para Lisboa, via Honalulu e Bali, em 1975. Em 1962 está na Guiné, formalmente a guerra de guerrilhas ainda não começou. Eugénia acabara o segundo curso de paraquedistas em junho e foi colocada na Guiné em setembro, já lá estava a Maria Arminda. O seu posto é de tenente, tem 28 anos. Jamais esqueceu as experiências dolorosas que viver na Guiné.

Uma história que ela conta à biógrafa:
“Quando transportava feridos para o Hospital Militar de Bissau aconteceu ter de socorrer dois feridos ao mesmo tempo, um soldado guineense e um furriel branco, estavam a sofrer devido à explosão de uma mina. Enquanto preparava a injeção para ajudá-los, dentro do helicóptero, sentia que nenhum deles podia esperar pelo outro.
O soldado guineense puxava-me pelo camuflado, o furriel era mais paciente olhava-me com sofrimento e suplica. Senti-me tão preocupada com a expressão angustiante de ambos que, pela primeira e última vez na minha vida de enfermeira, usei a mesma seringa e a mesma agulha para lhes injetar a droga que os iria aliviar daquele sofrimento tão intenso. Infelizmente o furriel não suportou a anestesia:
‘Ainda me vem ao pensamento a visão daquele furriel a olhar para mim, sem um lamento, que no dia seguinte fui visitar ao hospital e já lá não estava. Isso ainda hoje me faz vir as lágrimas aos olhos’.”


Autora da biografia, Rosalina Vaqueiro
Eugénia do Espírito Santo Sousa, Cap. Enf. Pqdt. (Ribeira Grande, Santo Antão, Cabo Verde, 1935 - Sesimbra, 2025)
A Eugénia do Espírito Santo Sousa um bonito sorriso na sua idade maior, imagem retirada da Associação Portuguesa de Enfermagem Militar, com a devida vénia.

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 18 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28035: Notas de leitura (1925): "Estranha Guerra de Uso Comum" de Paulo Faria; Ítaca, 2016 (Mário Beja Santos)

terça-feira, 28 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27965: Em busca de ... (333): José Serafim Gonçalves procura camaradas da CCAÇ 417 que esteve em Empada, Bissau e Cabo Verde nos anos de 1963 e 1964

1. Mensagem de José Serafim Gonçalves, da CCAÇ 417, chegada até nós no dia 26 de Abril de 2026 através do Formulário de Contacto do Blogger:

Boa noite
Pertenci à CCAÇ 417. É possível o contacto de colegas meus que tenham pertencido a minha companhia?

Obrigado
Um abraço
Cumprimentos,
José Serafim Gonçalves

2. Já respondemos ao nosso camarada dando-lhe conta da impossibilidade de encontramos algum dos seus camaradas, uma vez que as referências à CCAÇ 417, no nosso Blogue, são poucas ou nenhumas. Por outro lado, já em 14 de maio de 2012, no Post Guiné 63/74 - P9901: Em busca de... (188): Pessoal da CCAÇ 417 (Empada, 1963/65) (Jorge Soares Branco) houve um pedido idêntico sem resultado.

Deixamos aqui, com a devida vénia à Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961/1974), a reprodução da pág.317 - Companhia de Caçadores n.º 417 - da Ficha das Unidades - 7.º Volume - Tomo II - Guiné.
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Nota do editor

Último post da série de 6 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27799: Em busca de ... (332): ex-alf mil médico Luís Tierno Bagulho (Artur Sousa, CCAÇ 2782 / BCAÇ 2927, Encheia e Bissorã, 1970/72)

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27909: Notas de leitura (1912): Um manjar para filatelistas acérrimos: "Os Selos Coroa da Guiné" (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 11 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
Como o meu interesse filatélico é praticamente nulo, os aficionados que tiverem a paciência de ler esta narrativa me perdoem se nela houver alguma besteira. Encontrei este livro no alfarrabista, era irresistível a sua aquisição, creio que nunca falámos da filatelia guineense, nomeadamente deste período de transição da dependência da Cabo Verde até ao estado de Província autónoma. Os primeiros governadores, impossibilitados de terem selos próprios emitidos pela Casa da Moeda ou pela Imprensa de Bolama, recorreram aos selos Coroa de Cabo Verde sobrecarregando-os do termo Guiné em minúsculas e em maiúsculas, Guiné pequena e Guiné grande. O General Oliveira Pinto, autor da obra, faz um resumo histórico entre 1879 e 1897, estudou a fundo toda a documentação atinente que encontrou no Arquivo Histórico Ultramarino, dá-nos conta das discussões havidas entre filatelistas e tira as suas conclusões. Estou ciente que trouxe a público um assunto que interessa a poucos, mas a Guiné aqui é estudada sem pensar em maiorias ou minorias.

Um abraço do
Mário



Um manjar para filatelistas acérrimos:
Os Selos Coroa da Guiné


Mário Beja Santos

Este livro intitulado "Os Selos Coroa da Guiné", muito provavelmente só terá interesse para os filatelistas, sobretudo aqueles que colecionam selos das antigas colónias portuguesas, mas creio que as informações que se dão sobre a história destes selos poderão interessar a muitos mais. 

Diz-se no prefácio da obra que se vai procurar provar que as raras “Guinés” pequenas terem sido as primeiras a aparecer sobre os selos Coroa de Cabo Verde, que tradicionalmente circulavam na Guiné sem sobrecarga, isto em primeiro lugar. Mas o autor, o General Oliveira Pinto, deixa uma síntese histórica do território e revela aspetos interessantes da História Postal; o livro inclui a documentação que o autor pesquisou no Arquivo Histórico Ultramarino sobre o assunto.

Logo nas generalidades, o General Oliveira Pinto recorda que até junho de 1941 todos os catálogos, nacionais e estrangeiros, sem exceção, mencionavam os selos da emissão Coroa com a sobrecarga Guiné pequena como os primeiros selos a circular na Guiné depois da sua autonomia em relação a Cabo Verde, e só depois os de sobrecarga Guiné da Casa da Moeda, sobrecarga vulgarmente conhecida como Guiné grande. 

Como sou ignorante no tema, fui bater à porta de uma loja filatélica para saber o significado do que são selos Coroa, Guiné grande e Guiné pequena e sobrecarga. Os selos Coroa é um termo para todo o selo que incorpora no espaço central a Coroa régia, Guiné pequena, como se pode ver na capa da obra, inclui a impressão de Guiné em letras pequenas e Guiné grande em letras maiores, sobrecarga é o significado da impressão sobre um selo já existente, tanto em Guiné pequena como em Guiné grande.

Ficamos a saber que o 2.º Governador da Guiné, Pedro Inácio de Gouveia foi quem, em meados de 1882, por faltar em Bolama selos de várias taxas, das de sobrecarga Guiné, em grandes caracteres, mandara sobrecarregar com a mesma palavra, em caracteres mais pequenos e na Imprensa do Governo da Província uma certa quantidade de selos de Cabo Verde, que existiam em cofre, ainda do tempo em que a Guiné não era Província autónoma.

A discussão entre filatelistas sobre o aparecimento dos primeiros selos com a sobrecarga Guiné tem em consideração depoimentos da época. Vivia nessa altura na Guiné um inglês de nome John Marsden, que era da opinião que os Guiné pequena tinham sido os primeiros, portanto os Guiné pequena apareceram em 1879 e os Guiné grande circularam entre 1881 e 1884. Sabe-se igualmente que foram dadas ordens à Casa da Moeda para providenciar selos com a legenda Guiné Portugueza.

Passando adiante ao resumo histórico sobre a Província da Guiné, o autor dá-nos a relação das casas comerciais aí existentes em 1881, as empresas francesas com destaque, temos depois um acervo de imagens de documentação que o autor analisou no Arquivo Histórico Ultramarino, aparece depois a Imprensa na Guiné, a sua principal responsabilidade era tipográfica, a publicação regular do Boletim Oficial da Província da Guiné. 

Temos depois o elenco das remessas de selos, a partir de 1879 onde podemos ver claramente a sobrecarga de Guine pequena. A partir de 1884 os selos vão ter a efigie de D. Luís I, mas durante um bom lapso de tempo a Casa da Moeda foi satisfazendo as requisições da Guiné com os selos tipo Coroa, terá sido uma situação que se arrastou até 1886 ou mesmo 1887.

O autor discreteia sobre os correios na Guiné, como os selos e postais existiram em Bissau, Cacheu, Bula, Geba e Farim. Havia diretor dos correios nomeado em 1879, tinha a designação de Superintendente dos Negócios Postais da Guiné; tecem-se breve considerações sobre os serviços dos correios, fica-se a saber que o correio estava instalando no mesmo edifício da alfândega e assim o autor chega às conclusões: 

“Os selos Coroa, que começaram a sua circulação na Guiné em 1879, deviam ter terminado em 1886, quando começaram a circular os selos com a efigie do monarca.” 

Tinham sido proibidos todos os selos Coroa para Lisboa. Acontece que as contas da Alfândega de Cacheu, na listagem dos selos existentes em 1891, eram referidas estampilhas antigas de 40 e 100 reis, o que é o mesmo que o tipo Coroa.

O autor dá-nos algumas notas sobre John Marsden (1857-1939) como filatelista. Ele viveu em Bissau na época em que ainda circulavam os selos Coroa. Era um filatelista de fama mundial, quando vendeu a sua coleção de selos de Portugal e colónias ela foi considerada a maior do mundo naquela época. Podemos ver na imagem um seu retrato publicado no Boletim Oficial n.º 27, de 4 de julho de 1885. Esteve na Guiné um pouco mais de um ano, teria então 28 anos. Elaborou catálogos e colaborou com revistas de renome. Os seus artigos publicados em jornais e revistas da especialidade eram tidos como fundamentais. No jornal Le Timbre Poste deu conta dos selos existentes na Guiné:

“Quando cheguei a Bissau e depois a Bolama, eu procurei saber nos Correios e em toda a parte e verifiquei para minha surpresa que ninguém tinha visto ou ouvido falar destas sobrecargas pequenas. Até o Governador da Província, cuja esposa era colecionadora de selos, não tinha ouvido falar neles.

Considerei aquela compra um mau negócio e cheguei à conclusão de que eram falsos, até que numa manhã cedo, meses depois, quando saí com a minha arma, passeando ao longo da praia em Bissau, eu vi um pequeno envelope enrolado nas ondas, e para minha satisfação vi que ele tinha no verso um selo de 20 reis e outro de 5 reis, ambos com a sobrecarga pequena e o envelope era dirigido ao padre de Bissau. Eu conhecia-o muito bem e tinha-o ajudado a tratar-se durante um par de dias quando ele estava a sofrer um forte ataque de febre.

Quando lhe mostrei o envelope e lhe disse o que queria, respondeu: ‘a carta era do meu amigo Cleto da Costa, o Chefe dos Correios de Cacheu’. Não perdi tempo a enviar a Cacheu mensageiro, três dias de jornada, pedindo-lhe para me enviar um selo de cada taxa que ele tivesse no correio. Quando em abril de 1881, o Governo recebeu o primeiro fornecimento de selos com a sobrecarga grande, todos os outros existentes em Bissau e Bolama sem sobrecarga, foram sobrecarregados em pequenos caracteres na Imprensa do Governo e enviá-los para Cacheu onde ficaram esquecidos até eu os descobrir.”


Outro filatelista contesta as afirmações de Marsden, não me sinto habilitado a saber qual o rigor dos argumentos de uns e outros, mas o autor nas conclusões volta a falar de Marsden dizendo que este chegou à Guiné em 1884, portanto cinco anos depois de terem feito as sobrecargas que estavam em circulação. 

No fundo, as autoridades da Guiné pretendiam tornar os selos diferentes dos de Cabo Verde, para poderem fiscalizar as receitas, logo sobrecarregando-os. Diz o autor que desconhece com que fundamentos Marsden, que começou por considerar a emissão dos Guiné pequena em 1881 veio depois a alterar, e bem, essa data para 1889.

O autor procede a um resumo dos pontos de vista de alguns filatelistas que já escreveram sobre a ordem cronológica das emissões, caso de Faustino António Martins, Carlos Trincão, Carlos George, Pires de Figueiredo, Vitorino Godinho. E assim se chega às conclusões finais quanto à cronologia das emissões dos selos da Guiné com as sobre cargas Guiné pequena e Guiné grande. Conclui o autor que a primeira emissão com selos da Guiné como Província autónoma foi a emissão com sobrecarga pequena.

Peço desculpa ao autor se acaso o estou a enfastiar com as considerações feitas pelo General Oliveira Pinto neste seu livro editado em junho de 2003 e que deve ser uma preciosidade para quem sente a devoção filatélica.

Página de bilhetes postais inseridos no livro Os Selos Coroa da Guiné
Folha completa dos 100 reis Guiné pequena
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Nota do editor

Último post da série de 6 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27894: Notas de leitura (1911): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (2) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 23 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27850: Notas de leitura (1907): "Os Descobrimentos Portugueses, Viagens e aventuras", I volume, por Luís de Albuquerque, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, Editorial Caminho, 1991 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 13 de Novembro de 2025:

Queridos amigos,
Não resisti a fazer uma recensão ao volume I do bem-sucedido projeto em que estiveram envolvidos o eminente historiador Luís de Albuquerque e duas escritoras consagradas principalmente na chamada literatura infantojuvenil, mas que também atingem outras camadas jovens. 

Será o caso deste livro aliciante na escrita, bem ilustrado por Emílio Vilar, descreve acontecimento históricos numa linguagem altamente acessível, com boas tábuas cronológicas e ilustrações de navios e instrumentos de navegação, mostrando igualmente os primeiro navios portugueses, as armas e as armaduras que se usaram na conquista de Ceuta, etc. 

É evidente que possuímos boas histórias dos Descobrimentos Portugueses, mas nada se compara com este projeto que aponta para as camadas mais jovens, não foi por acaso que esteve incluído no Plano Nacional de Leitura. Leitura oportuna para os nossos netos, digo-vos eu.

Um abraço do
Mário



O grande talento de saber contar a jovens a saga dos Descobrimentos Portugueses

Mário Beja Santos

Um eminente historiador, o Professor Luís de Albuquerque, duas notabilíssimas escritoras do infantojuvenil, e muito mais, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, um ilustrador altamente qualificado, Emílio Vilar, entraram numa aventura que comportava tremendos riscos de insucesso: fazer uma História dos Descobrimentos Portugueses sugestiva para as camadas mais jovens. Assim surgiu "Os Descobrimentos Portugueses, Viagens e aventuras", I volume, Editorial Caminho, 1991.

“Concebemos uma estrutura simples e incluímos alguns aspetos geralmente omissos como, por exemplo, armas e instrumentos musicais utilizados na conquista de Ceuta, povos que habitavam no Norte de África, peripécias curiosas que por um motivo ou por outro não passaram à História. E pusemos de lado certos mitos que falseiam a verdade. Decidimos ainda escrever para cada período aquilo a que chamamos ‘Uma história possível’. Essas histórias, embora enquadradas nos parâmetros da época, são pura ficção. Destinam-se a permitir ao leitor um contacto mais direto com outras maneiras de viver, sentir, de pensar. Fizemo-las porque entendemos que o relato de conquistas, viagens e aventuras proporciona uma ‘visão exterior’ e as ‘histórias possíveis’ de uma ‘visão interior’ dos Descobrimentos Portugueses.”

O renomado historiador e as duas grandes escritoras ganharam a aposta, é um livro invulgar em termos didático-pedagógicos, assim até apetece aprender. E vamos ao essencial das suas mensagens.

Primeiro, o que era o mundo antes dos Descobrimentos, para se sair do lugar onde se vivia era preciso navegar no mar alto. 

“E o mar era um grande desconhecido. Ninguém lhe sabia os limites. Ninguém lhe sabia os segredos. E quando assim é torna-se fácil inventar. As histórias que circulavam enchiam as pessoas de pavor e de espanto. O desafio começava para além da linha do horizonte, onde se imaginava existir a boca do Inferno, ondas gigantescas de água a ferver, remoinhos borbulhantes, monstros terríveis, sereias e tritões. Todas as estas coisas assustavam a faziam sonhar, de modo que uns se agarravam cada vez mais ao lugar onde viviam enquanto outros ansiavam partir ao encontro de tais maravilhas. Só no século XV começou a grande aventura que permitiu desvendar o mundo. A iniciativa coube aos portugueses.”

Segundo, enquadra-se Portugal nas vésperas da aventura, as supostas razões dadas para conquistar Ceuta, seguem-se desenhos sugestivos com as armas e armaduras no tempo da conquista de Ceuta, as bandeiras e os instrumentos musicais usados na guerra, conta-se como foram as primeiras viagens dos portugueses, como fomos às Canárias, Madeira e Porto Santo, como se processou o povoamento destas duas ilhas, seguiu-se o povoamento dos Açores, entremeiam-se histórias maravilhosas para prender a atenção dos jovens.

Terceiro, como se pensava e como se representava a Terra, em planisférios e livros de geografia e viagens, como foram as primeiras viagens ao longo da costa ocidental africana, como foi fundamental a passagem do Cabo Bojador; como, depois do desastre de Tânger, se avançou para o Sul. 

Em 1441, o Infante D. Henrique mandou armar um navio capitaneado por Antão Gonçalves, ele levava a incumbência de capturar lobos-marinhos, aproveitaram a circunstância para tentar capturar gente. Foi Antão Gonçalves quem fez os primeiros cativos na costa ocidental africana. Prosseguem as viagens, chega-se ao Golfo de Arguim, Lançarote de Lagos capturou 235 homens, mulheres e crianças. No seu regresso, fez-se a partilha em lotes equivalentes, o cronista Zurara dá-nos um relato dilacerante.

Quarto, o quadro das viagens abria as portas ao Novo Mundo, seguem-se as expedições à procura de novas terras e novas gentes, morreu Gonçalo de Sintra, comandava uma nova expedição ao golfo de Arguim, Dinis Dias atingiu o Cabo Verde, Nuno Tristão chegou ao rio Senegal; e tem lugar a primeira viagem pelo interior africano, no rio do Ouro, João Fernandes pôs-se ao caminho, regressou sete meses depois, trazia muitas histórias para contar.

Um veneziano, de nome Cadamosto, contacta o Infante, e partiu rumo ao Sul, visitou a Madeira, as Canárias, o Golfo de Arguim, a zona do Cabo Branco, o Senegal, o reino de Budomel, Cabo Verde continental, o rio de Barbacins, visita o reino de Budomel, irão ser achadas as ilhas de Cabo Verde. E faz-se um balanço dos Descobrimentos henriquinos. 

Enquanto isto se passa há mais conquistas no norte de África. Entra-se numa nova época no reinado de D. Afonso V, faz-se um contrato com Fernão Gomes, ele pode comerciar por aquela costa africana, mas foi comprometido a descobrir pelo menos 100 léguas de costa por ano. Os seus navios descobriram a faixa de terra desde a Serra Leoa até ao Cabo de Santa Catarina, incluindo as ilhas de São Tomé e Príncipe e Fernão do Pó. Edifica-se o Castelo da Mina.

Quinto, é época dos Descobrimentos joaninos, as viagens de Diogo Cão, os contactos com o Reino do Congo, a Viagem de Bartolomeu Dias e a descoberta da passagem para o Índico. Inevitavelmente que se fala do gigante Adamastor e vamos saber um pouco mais quem eram Diogo Cão, Diogo de Azambuja e Bartolomeu Dias, não é esquecida a viagem venturosa de Pêro da Covilhã.

Neste tempo já há outros intervenientes à procura de comércio e riqueza pelo mar fora. Cristóvão Colombo, ao serviço dos Reis Católicos, atingiu em 1492 as ilhas da América Central e convenceu-se de que chegara à Índia. Surgiram delicados problemas político-diplomáticos entre D. João II e os Reis Católicos. O desfecho para resolver todas as tensões foi o Tratado de Tordesilhas, em 1494, Portugal e Espanha dividiram o mundo ao meio, ficando metade para cada um. 

No século XV, os monarcas ibéricos sentiam-se no direito de proceder assim e não reconheciam a nenhum outro país a autoridade para lhes disputar o Novo Mundo: todas as terras descobertas a oriente pertenceriam a Portugal, e as terras descobertas ao ocidente pertenceriam a Castela. 

“No Tratado ficou escrito também que astrólogos e pilotos se deviam deslocar à zona de demarcação, viajando os espanhóis em navios portugueses e os portugueses em navios espanhóis. Se por acaso lá houvesse alguma ilha ou ‘ponta de terra firme’, construía-se uma torre ou muralha que marcasse o limite de forma bem visível. Incluiu-se também uma cláusula autorizando os navios espanhóis a circularem pelo mar português para se dirigirem À zona que lhes coubera.”

Finda este belíssimo livro que pertenceu ao Plano Nacional de Leitura referenciando navios e instrumentos de navegação e fazendo-se um balanço dos Descobrimentos joaninos e temos ainda uma cronologia que vai do reinado de D. Dinis ao reinado de D. João II. O II volume deste belo empreendimento foi também publicado na Editorial Caminho em 1996, inevitavelmente começa com a viagem de Vasco da Gama.

Doutor Luís Albuquerque
Isabel Alçada
Ana Maria Magalhães
O Castelo da Mina
Os primeiros contactos
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Nota do editor

Último post da série de 20 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27840: Notas de leitura (1906): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (7) (Mário Beja Santos)

quinta-feira, 19 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27836: Antologia (101): "Guiné, Bilhete de Identidade, Tomo II, Da Pequena Senegâmbia à Guiné Portuguesa", a publicar brevemente (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Março de 2026, trazendo em anexo um texto intitulado "Agradecimentos e Dedicatória", no qual reproduz as razões curriculares que o conduziram ao lançamento do seu próximo livro "Guiné, Bilhete de Identidade, Tomo II, Da Pequena Senegâmbia à Guiné Portuguesa", cuja data de lançamento será anunciada oportunamente.


Agradecimentos e dedicatória

Permita-me o leitor que reproduza no Tomo II as razões curriculares que me conduziram a este empreendimento, tal como as escrevi na obra anterior:

O país que é hoje a Guiné-Bissau foi o local onde combati entre 1968 e 1970, matéria que tratei em dois volumes diarísticos, agradecendo penhoradamente as lições recebidas do povo amável com quem convivi, nomeadamente nos regulados do Cuor e Bambadinca; motivado por conhecer melhor os antecedentes deste território em décadas anteriores, meti mãos a um outro empreendimento, uma digressão um tanto romanesca à volta das memórias de uma nonagenária que casou com um administrador colonial, nos alvores da década de 1950 e conheceu os primeiros sinais da insurreição, assim escrevi A Mulher Grande; participante regular naquele que é, sem margem para dúvida, o blogue mais influente para antigos combatentes na então Guiné Portuguesa, Luís Graça & Camaradas da Guiné, senti impulso de ali regressar para me despedir dos meus soldados guineenses, e assim urdi A Viagem do Tangomau; ao longo desses anos de íntima relação com a realidade guineense, fui também procurando ler tudo quanto era literatura da guerra colonial, fundamentalmente do lado português – assim nasceu Adeus, Até ao Meu Regresso.

Os anos passavam, a Guiné continuava sempre presente, no coração, na memória, no desejo de melhor compreender o seu passado e até os seus tempos atuais. Em parceria, enveredei numa tentativa de fazer o arco cronológico entre dados fundamentais da Guiné Portuguesa até à Guiné-Bissau, assim nasceu o livro Da Guiné Portuguesa à Guiné-Bissau: Um Roteiro. Estava dado o balanço para intensificar as pesquisas, nos anos seguintes apareceram as História(s) da Guiné Portuguesa e História(s) da Guiné-Bissau.

Quis um feliz acaso que batesse à porta do então Arquivo Histórico do Banco Nacional Ultramarino (de saudosa memória) em busca de um livro ricamente ilustrado, fui não só compensado por o ter folheado demoradamente como surgiu a oportunidade de ter acesso a documentação inédita, e assim escrevi Os Cronistas Desconhecidos do Canal de Geba: O BNU da Guiné. A saga teve uma nova deriva, encontrei num alfarrabista o livro de um poeta popular, antigo combatente na Guiné, ali fez comissão entre 1963 e 1965, o seu poema galvanizou-me e deu-me a ideia de escrever um livro em que ia respondendo taco a taco às suas itinerâncias desde a recruta à passagem à disponibilidade, de novo aproveitei referências da imensa literatura produzida sobre aquela guerra, desde romance, conto, novela, poesia, memórias, e nesta parceria foi dada à estampa Nunca Digas Adeus às Armas.

Mais recentemente, novo surto para a deriva romanesca, desta feita na cidade de Bruxelas dois cinquentões apaixonam-se, ele vai regularmente a esta sede europeia, ela é intérprete e aceita o repto de passar a escrito as memórias de guerra, cronista amorosa num romance feito fundamentalmente de cartas, Rua do Eclipse, a Guiné atravessa-se nas suas vidas, do princípio ao fim.

Quando tudo levava a crer que estavam esgotados os filões sobre a Guiné, apareceu de rompante um projeto um tanto ambicioso: elaborar, por seriação do século XV ao século XX, um género de antologia com peças umas determinantes outras possuidoras de vigor testemunhal, sobre a presença portuguesa desde o tempo em que os navegadores e cartógrafos denominavam a região por nomes inconclusivos e até bizarros como Etiópia Menor, Rios da Guiné de Cabo Verde, Terra dos Negros ou Senegâmbia, termo que curiosamente foi usado e abusado até ao século XIX, sobretudo para referir uma costa ocidental africana entre o Cabo Verde e a Serra Leoa. Devo advertir o leitor que muitos outros textos aqui poderiam caber, mas creio não ter omitido intencionalmente nenhum que me tenha parecido essencial para a natureza desta obra de divulgação.

Esta antologia decorre de um processo laborioso, escrevi bastantes textos, de forma avulsa e um tanto ao corroer da pena no blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, recebi sugestões de mãos amigas, caso dos investigadores António Duarte Silva e Eduardo Costa Dias, um sem número de sugestões; jamais poderia esquecer as ajudas ou propostas de leitura que recebi da Helena Teotónio Pereira, então à frente da biblioteca do CIDAC, um espaço onde há relevante documentação histórica, e o mesmo podia dizer dos incentivos que tive no Arquivo Histórico do Banco Nacional Ultramarino (de saudosa memória); não esqueci a estimulante parceria que tive a felicidade de encontrar para escrever Da Guiné Portuguesa à Guiné-Bissau: Um Roteiro e também naquele outro livro a quatro mãos Nunca Digas Adeus às Armas.

Sendo eu um infoexcluído, tive a dita de receber uma admirável prestação na colaboração de Linda Sioga, vai para mais de três anos que andamos em belíssima colaboração intermediada pelo Skype/Teams. Naturalmente que agradeço e a junto a esta dedicatória.

Este livro, tal como o anterior, é dedicado a todos aqueles que se iniciam num estudo das relações luso-guineenses, seja em que local for; bem gostaria de lhes ser útil, porventura abrindo-lhes portas, dando-lhes dicas, o que aqui aparece ordenado pela cronologia de há muito foi investigado, ou nunca obteve tratamento público, caso dos documentos que consultei nos Reservados da Biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa. Dedico, igualmente, o livro a duas figuras da Biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa, Helena Grego e José Carlos Silva; ao longo de todos estes anos em que frequento tais instalações históricas, possuidoras de fascinante documentação, eles tudo têm feito para ter acesso a livros, revistas, relatórios, e, fundamentalmente, a papelada que consta dos Reservados, aqui encontrei textos fervilhantes ou esclarecedores, que o leitor agora vai encontrar deste período histórico em análise dos séculos XIX e XX.

A minha dívida com estes bibliotecários é impagável. Tanto mais que quando disse à Dr.ª Helena Grego que chegara ao fim da linha, nada mais havia para remexer nos arquivos, depois deste tomo II, ela desenganou-me: “Nem pense, agora vai começar a ler o Boletim Oficial do Governo Geral de Cabo Verde e depois o Boletim Oficial da Guiné, Colónia e Província, tem ali trabalho para os próximos anos.”
É o que presentemente está a acontecer, pelas minhas contas será o adeus neste vasculhar que levo à presença portuguesa na Guiné entre meados do século XV e primeiro quartel do século XXI.

"Guiné, Bilhete de Identidade, Tomo I, A Presença Portuguesa na Senegâmbia", de Mário Beja Santos, lançado em Setembro de 2024(*)
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Nota do editor

(*) Vd. post de 10 de janeiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26371: Agenda cultural (876): Apresentação do livro "Guiné, Bilhete de Identidade", de Mário Beja Santos, dia 13 de Janeiro de 2025, pelas 14h30, na Livraria Municipal Verney, Rua Cândido dos Reis, 90 - Oeiras

Último post da série de 20 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27652: Antologia (100): Uma caçada ao elefante em... Canjambari há mais de 100 anos (Conto publicado em "O Mundo Português", em 1936, da autoria de Artur Augusto Silva, 1912-1983)

Guiné 61/74 - P27835: Os 50 anos da independência de Cabo Verde (24): "Catchupa é fidju di tera,/ku midju, fexon, tchouriçu,/ batata, karni na panela, / amor ki ta brilha na luz"... Cachupa é em Lisboa, na Kasa Crioula, restaurante, em Carnide


Cachupa ... Um dos ícones de Cabo Verde. Com a morna, a coladera, a Cesária Évora... E o mar, azul, claro: "O retângulo azul da bandeira simboliza o espaço infinito do mar e céu que envolve as ilhas. As faixas, o caminho da construção do país. O branco, a paz que se quer. O vermelho, o nosso esforço. As estrelas, as dez ilhas que compõem o arquipélago"

Há anos que eu não comia uma "cachupa" de Cabo Verde... Rica. Fui à Kasa Crioula, ali em Carnide, Lisboa, com  a malta da tertúlia da "chef" Alice... Colegas dela. E até arrisquei (!) fazer uns versinhos, em crioulo, de homenagem à cachupa e aos presentes... Chamei-lhe a "Catucha di Tabanka Grandi"... Espero que os meus amigos cabo-verdianos me desculpem este crioulo aportuguesado (destilado, depois de meia dúzia de versões)... Não é "armar ao pingarelho"... Há aqui apenas amor, afeto, ternura pela terra e gentes de Cabo Verde. E a sua cultura. E a sua história. E tudo os que nos liga. Há morabeza. Há morna. Há coladera. Há lusofonia. Há saudade. 

Isso já é meio pedido de desculpa pelo atrevimento. Conheço uns rudimentos de crioulo. Estou a aprendser. Gostaria de poder falar. Claro que tive uma ajuda da IA (ou de várias ferramentas de IA). Mas o que importa é a intenção. 

Esta tertúlia é de malta, reformada, do Ministério da Agricultura e Pescas (que eu não sei se ainda existe com o desmantelamento progressivo do "aparelho de Estado" português, em todos os sectores, da saúde ao ambiente). São sobretudo mulheres, os homens estão em minoria. Encontram-se de mês a mês, num restaurante, popular, da cidade. E têm sempre um tema "literário" ou "filosófico" para servir, no fim da refeição, como "sobremesa cultural"... Procuram manter-se ativos, proativos, vivos e saudáveis. Gostam de conviver. Conhecem África. Alguns nasceram lá, outros viveram e trabalharam lá:  são quase todos quadros médios e superiores... Um parte foram retornados,. Há gente de Cabo Verde, Guiné-Bissau, Angola, Moçambique, e até de Goa, do tempo em que Portugal ia do Minho a Timor. Eu às vezes apareço. Tiro umas fotos. Faço uns versos. Participo.  


Catchupa di Tabanka Grandi

Bô ma, fidju di Guiné,
Casada ku Manel di Angola,
Piedade di Moçambique,
Marília, Fernanda, nha kriola.

Bia di Portugal, Emília, Alice,
Gentis di Ministério, retornadu,
Na tabanka grandi, mesa sta posta,
Catchupa kenti, tudu misturadu.

Catchupa é fidju di tera,
Ku midju, fexon, tchouriçu,
Batata, karni na panela,
Amor ki ta brilha na lus.

É vida inteiru na pratu,
É luta, é fé, é kruz,
É memória di nos povu,
É speransa ki ta benha ku lus.


Teixeira da Cruz, nos amigu,
Africanista sabi sabi,
Tabanka txora bu partida,
Ma bu lugar sta li, na nos kabesa i na nos sabi.

Tabanka, ô Tabanka,
Tera di amor i união,
Catchupa ta fervê na panela,
É nos revoluson!

(LG + IA generativa)

Página do Facebook >  Kasa Crioula - Cozinha by Chef Fátima Moreno ; "um projeto que celebra a rica tradição lusófona, com especial foco nas cozinhas cabo-verdiana e portuguesa". Fica em Carnide, R Guiomar Torresão 128, 1500-425 Lisboa (junto ao Metro de Carnide).

O restaurante funciona na sede da Associação dos Antigos Alunos do Ensino Secundário de Cabo Verde, muitos dos quais passaram pelo antigo liceu nacional Infante Dom Henrique e depois Liceu Gil Eanes, na época colonial, e por onde passou a elite crioula (incluindo o Amílcar Cabral).


Lisboa > Carnide > Restaurante Cabo Verde > Decoração (excerto) > Réplica em papel de parede, "Ronca Baxon, 2018. Autor: Luís Levy Lima. Técnica: acrílico sobre tela, 90 x  90 cm. Propriedade: Manuel Gomes dos Anjos & Filhos, SA, Praia, Santiago, Cabo Verde.   

Em relação a Cabo Verde, eu também gosto de lembrar que Portugal foi, no passado, Pai Tirano e Madastra, hoje felizmente Irmão, mais velho. Carlos Filipe Gonçalves,  Kalu Nhô Roque, explica lá à gente de Lisboa o que é o "Ronca Baxon"... Batuque, penso eu, a dança mais antiga das ilhas,o ADN de África...


Cabo Verde > Mindelo, Baía Grande e Monte Cara. 
Foto (pormenor) de quadro disponível nas paredes da Kasa Crioulo


Cabo Verde > Mindelo > Liceu Gil Eanes.
Foto (pormenor) de quadro disponível nas paredes da Kasa Crioulo


Cabo Verde > Mindelo > Retrato do senador Augusto Pereira Vera Cruz (1862-1933).
Foto (pormenor) de quadro disponível nas paredes da Kasa Crioulo

(...) A sua maior vitória política foi a Lei n.º 701, que criou o Liceu Nacional de Cabo Verde, com o nome, Infante D. Henrique.  que, mais tarde, tomou o nome de Gil Eanes. Durante quatro anos, Vera-Cruz lutou contra o desinteresse da metrópole. Por saber o que era a falta de estudos na pele, ele não descansou até ver a lei aprovada em 1917. E o seu gesto de desprendimento foi total: cedeu o seu próprio palacete no Mindelo para que as aulas pudessem começar. Sem o seu "Senador", Cabo Verde teria demorado décadas a formar a sua elite intelectual. (...).

Fotos e legendas : Luís Graça  (2026)
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Nota do editor LG:

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27769: Historiografia da presença portuguesa em África (518): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1962 (76) (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 12 de Setembro de 2025:

Queridos amigos,
Recorda-se ao leitor que surgiu, já no ano anterior, e agora às catadupas, extensa legislação, sobretudo emanada do Ministério do Ultramar. O investigador António Duarte Silva, em "O Império e a Constituição Colonial Portuguesa (1914-1974)", imprensa de história contemporânea, 2019, dá conta deste conjunto de reformas de 1961, sob a égide de Adriano Moreira (Páginas 208 a 214). O reflexo desta legislação na Guiné não se fez esperar. Como o leitor verificará, tomam-se medidas como os julgados municipais de trabalho ou as comissões municipais. Não há guerra de guerrilhas declarada, mas o Boletim Oficial não esconde em louvores ações que por vezes terminam com a morte de guineenses, membros da Polícia Administrativa e são igualmente retirados de funções pessoas "por práticas de atividades contrárias ao interesse nacional". Peixoto Correia deixa a Guiné em outubro, dentro em breve será Ministro do Ultramar; a escolha do novo governador recai de novo na Armada, trata-se do Capitão-de-Fragata (aviador) Vasco António Martins Rodrigues, que chega a Bissau em 21 de dezembro de 1962. Viverá, obviamente, as primeiras ações de guerrilha, a desarticulação do Sul. Num quadro que é historicamente turvo, entrará em desavença com o comandante-chefe, Brigadeiro Lourdes Sousa, têm abordagens estratégicas diferentes, as quezílias ganharão notoriedade, em abril de 1964 serão os dois removidos e entra na Guiné o Brigadeiro Arnaldo Schulz, dirá que resolverá a guerra em poucos meses.

Um abraço do
Mário



Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Guiné, 1962 (76)


Mário Beja Santos

A apresentação do Boletim Oficial mudou profundamente, não de look, mas de natureza. Já lá vão os tempos em que a esmagadora legislação era nada e criada na Guiné, já não falo dos relatórios de campanhas e expedições, reporto-me exclusivamente às informações que eram dadas tantas vezes com carácter não oficioso, matéria viva para análise do estudioso. Os acontecimentos de Angola, no ano anterior, despoletaram uma nova política ultramarina, com Adriano Moreira o acervo legislativo emanado do Governo central passa a aparecer no Boletim Oficial das Províncias. Fica, pois, muito diluída a informação local, esta ganhou formalidade e monotonia: questões avulsas, nomeações, reforço de verbas para as forças aéreas ultramarinas em vigor na Guiné, propostas de fornecimento… é óbvio que vão avultar os acontecimentos da guerra, será o caso de como se regularizam as condições em que os militares da Armada prestam serviço nos comandos navais e de defesa marítima do ultramar ou a restruturação das normas que devem regular nas províncias ultramarinas as organizações de voluntários em caso de necessidade de prestar colaboração às Forças Armadas; isto para sublinhar que é importante esmiuçar com atenção o rame-rame de medidas como as licenças para tratamento, as disposições do Conselho Superior de Disciplina do Ultramar, os anúncios de concursos, das medidas que revelam a emergência da guerra, como é o caso das instruções para o abono da alimentação por conta do Estado e da subvenção de campanha. São estas redações, mesmo orientadas para um espaço superior ao da Guiné que nos convocam para a sabermos o que está a mudar, veja-se este exemplo:
“Os militares e os civis militarizados que, nas províncias ultramarinas, façam parte das forças com a missão de restabelecer a ordem nas zonas onde a ação terrorista ponha em perigo as condições normais da existência da população, têm direito a: vencimentos normais que lhes competem quando em serviço na província; alimentação por conta do Estado; subvenção de campanha.” Mas também medidas como a atualização do regime de ajudas de custo de embarque e subsídio de interrupção de viagem relativos às forças terrestres ultramarinas. Ganhou premência a abertura de créditos a inscrever em adicionamento à tabela de despesas extraordinárias do orçamento.

Enfim, a guerra está a mudar o decisor político. Veja-se o Decreto-Lei n.º 44356, da Presidência do Conselho, no Boletim Oficial n.º 22, de 2 de junho:
“É gratuita a admissão e instrução em todos os estabelecimentos de ensino do Estado dos filhos dos indivíduos falecidos, mutilados, estropiados ou por qualquer forma incapacitados ao serviço da Pátria. O internamento em estabelecimentos de ensino do Estado poderá ser gratuito ou beneficiar de redução quando as condições materiais dos estudantes abrangidos pelo presente diploma o justifiquem.”

É claro que a vida continua, tomam-se medidas compatíveis com as regras do comércio, é o caso do regime respeitante à determinação, prova e verificação de origem nacional das mercadorias transacionadas entre territórios nacionais; ou institucional como a organização da Guarda Fiscal. O Ministério do Ultramar não para, pelo Decreto n.º 44310, a revogação do Estatuto dos Indígenas e mais recentemente do Código do Trabalho Indígena implica a revisão da estrutura dos Tribunais de Trabalho, respetiva competência e processo aplicável; e aquela necessidade que mais se evidencia com a publicação do Código do Trabalho Rural (relações jurídicas de trabalho emergentes de qualquer convenção em virtude da qual uma pessoa, mediante remuneração, preste serviços a outra, sob direção desta); e há medidas fiscais que abrangem as províncias ultramarinas, caso do imposto sobre os proventos de cargos públicos; temos também a autorização que se dá aos governadores das províncias de Cabo Verde e da Guiné para abrir créditos, com contrapartida no saldo das contas de exercícios findos.

Há quem diga que a guerra de guerrilhas na Guiné começou em janeiro de 1963, o que não é rigorosamente verdade, basta ler-se o louvor a um 1.º Cabo do Corpo da Polícia de Segurança Pública pelo zelo, dedicação, valentia e patriotismo evidenciado numa ação efetuada pelas forças da ordem, concorrendo decisivamente para a captura de um indivíduo que pretendia praticar atos de subversão na Província. Há também referência à organização de autodefesa por parte das empresas consideradas como indispensáveis à vida regular da Província, é o caso de: António Silva Gouveia; Sociedade Comercial Ultramarina; Mobil Oil; SACOR; Shell e B.P. Sim, há guerra, veja-se o louvor dado ao cipaio Cofai Turé, da Administração do Concelho de Farim, pelo zelo, dedicação, valentia e patriotismo com que desempenhava várias missões de segurança, qualidades que especialmente evidenciou ao participar na madrugada de 24 de agosto na povoação de Cã Quelu, área de Mansabá, numa ação efetuada pelas forças da ordem da qual resultou a sua morte ao serviço da Pátria.

Mas há muito mais: foi aprovado o Código do Trabalho Rural, prosseguem os anúncios de concursos, autoriza-se a instituição de julgados municipais de trabalho nas sedes das comarcas. Ainda não há guerra de guerrilhas, mas há seguramente subversão: foram demitidos dos cargos de regedores de Caió e Churo e de alferes de 2.ª linha Francisco Mango e Luís Belencante Rodrigues dos cargos de encarregados do regulado de Indafe e Ocante Agebane por práticas de atividades contrárias ao interesse nacional. Há notícias da PIDE, partidas e chegadas de elementos. Foi publicado o Regulamento sobre o movimento migratório na Província: “É proibida a fixação na Província de quaisquer pessoas cuja presença seja inconveniente, mormente os que pela sua presença possam causar alteração da ordem pública ou outros graves inconvenientes, quer de ordem interna quer de ordem internacional.”

Peixoto Correia segue para a metrópole em 30 de outubro, assume funções de Encarregado de Governo o Coronel João Augusto da Silva Bessa. O novo governador, Capitão-de-Fragata (Aviador) Vasco António Martins Rodrigues chega a Bissau em 21 de dezembro.

Retém-se da mensagem de despedida de Peixoto Correia:
“A melhor e mais sã colaboração que podem dar ao meu substituto é de amarem constantemente Portugal, repudiando qualquer aliciamento no sentido deste território alinha com os países onde se notam já evidentes sinais de perturbação social e económica, devido à saída dos europeus.” E acena com o caos das lutas tribais que sem a presença dos portugueses não podiam ser facilmente dominadas.

Família Fula
Dança da “banda” Nalu
Penteado Saracolé
Regedor de Jugudul, de etnia Balanta, concelho de Mansoa

Estas quatro imagens foram reproduzidas do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, ano de 1962

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 18 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27747: Historiografia da presença portuguesa em África (517): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1961 (75) (Mário Beja Santos)