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quinta-feira, 19 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27836: Antologia (101): "Guiné, Bilhete de Identidade, Tomo II, Da Pequena Senegâmbia à Guiné Portuguesa", a publicar brevemente (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Março de 2026, trazendo em anexo um texto intitulado "Agradecimentos e Dedicatória", no qual reproduz as razões curriculares que o conduziram ao lançamento do seu próximo livro "Guiné, Bilhete de Identidade, Tomo II, Da Pequena Senegâmbia à Guiné Portuguesa", cuja data de lançamento será anunciada oportunamente.


Agradecimentos e dedicatória

Permita-me o leitor que reproduza no Tomo II as razões curriculares que me conduziram a este empreendimento, tal como as escrevi na obra anterior:

O país que é hoje a Guiné-Bissau foi o local onde combati entre 1968 e 1970, matéria que tratei em dois volumes diarísticos, agradecendo penhoradamente as lições recebidas do povo amável com quem convivi, nomeadamente nos regulados do Cuor e Bambadinca; motivado por conhecer melhor os antecedentes deste território em décadas anteriores, meti mãos a um outro empreendimento, uma digressão um tanto romanesca à volta das memórias de uma nonagenária que casou com um administrador colonial, nos alvores da década de 1950 e conheceu os primeiros sinais da insurreição, assim escrevi A Mulher Grande; participante regular naquele que é, sem margem para dúvida, o blogue mais influente para antigos combatentes na então Guiné Portuguesa, Luís Graça & Camaradas da Guiné, senti impulso de ali regressar para me despedir dos meus soldados guineenses, e assim urdi A Viagem do Tangomau; ao longo desses anos de íntima relação com a realidade guineense, fui também procurando ler tudo quanto era literatura da guerra colonial, fundamentalmente do lado português – assim nasceu Adeus, Até ao Meu Regresso.

Os anos passavam, a Guiné continuava sempre presente, no coração, na memória, no desejo de melhor compreender o seu passado e até os seus tempos atuais. Em parceria, enveredei numa tentativa de fazer o arco cronológico entre dados fundamentais da Guiné Portuguesa até à Guiné-Bissau, assim nasceu o livro Da Guiné Portuguesa à Guiné-Bissau: Um Roteiro. Estava dado o balanço para intensificar as pesquisas, nos anos seguintes apareceram as História(s) da Guiné Portuguesa e História(s) da Guiné-Bissau.

Quis um feliz acaso que batesse à porta do então Arquivo Histórico do Banco Nacional Ultramarino (de saudosa memória) em busca de um livro ricamente ilustrado, fui não só compensado por o ter folheado demoradamente como surgiu a oportunidade de ter acesso a documentação inédita, e assim escrevi Os Cronistas Desconhecidos do Canal de Geba: O BNU da Guiné. A saga teve uma nova deriva, encontrei num alfarrabista o livro de um poeta popular, antigo combatente na Guiné, ali fez comissão entre 1963 e 1965, o seu poema galvanizou-me e deu-me a ideia de escrever um livro em que ia respondendo taco a taco às suas itinerâncias desde a recruta à passagem à disponibilidade, de novo aproveitei referências da imensa literatura produzida sobre aquela guerra, desde romance, conto, novela, poesia, memórias, e nesta parceria foi dada à estampa Nunca Digas Adeus às Armas.

Mais recentemente, novo surto para a deriva romanesca, desta feita na cidade de Bruxelas dois cinquentões apaixonam-se, ele vai regularmente a esta sede europeia, ela é intérprete e aceita o repto de passar a escrito as memórias de guerra, cronista amorosa num romance feito fundamentalmente de cartas, Rua do Eclipse, a Guiné atravessa-se nas suas vidas, do princípio ao fim.

Quando tudo levava a crer que estavam esgotados os filões sobre a Guiné, apareceu de rompante um projeto um tanto ambicioso: elaborar, por seriação do século XV ao século XX, um género de antologia com peças umas determinantes outras possuidoras de vigor testemunhal, sobre a presença portuguesa desde o tempo em que os navegadores e cartógrafos denominavam a região por nomes inconclusivos e até bizarros como Etiópia Menor, Rios da Guiné de Cabo Verde, Terra dos Negros ou Senegâmbia, termo que curiosamente foi usado e abusado até ao século XIX, sobretudo para referir uma costa ocidental africana entre o Cabo Verde e a Serra Leoa. Devo advertir o leitor que muitos outros textos aqui poderiam caber, mas creio não ter omitido intencionalmente nenhum que me tenha parecido essencial para a natureza desta obra de divulgação.

Esta antologia decorre de um processo laborioso, escrevi bastantes textos, de forma avulsa e um tanto ao corroer da pena no blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, recebi sugestões de mãos amigas, caso dos investigadores António Duarte Silva e Eduardo Costa Dias, um sem número de sugestões; jamais poderia esquecer as ajudas ou propostas de leitura que recebi da Helena Teotónio Pereira, então à frente da biblioteca do CIDAC, um espaço onde há relevante documentação histórica, e o mesmo podia dizer dos incentivos que tive no Arquivo Histórico do Banco Nacional Ultramarino (de saudosa memória); não esqueci a estimulante parceria que tive a felicidade de encontrar para escrever Da Guiné Portuguesa à Guiné-Bissau: Um Roteiro e também naquele outro livro a quatro mãos Nunca Digas Adeus às Armas.

Sendo eu um infoexcluído, tive a dita de receber uma admirável prestação na colaboração de Linda Sioga, vai para mais de três anos que andamos em belíssima colaboração intermediada pelo Skype/Teams. Naturalmente que agradeço e a junto a esta dedicatória.

Este livro, tal como o anterior, é dedicado a todos aqueles que se iniciam num estudo das relações luso-guineenses, seja em que local for; bem gostaria de lhes ser útil, porventura abrindo-lhes portas, dando-lhes dicas, o que aqui aparece ordenado pela cronologia de há muito foi investigado, ou nunca obteve tratamento público, caso dos documentos que consultei nos Reservados da Biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa. Dedico, igualmente, o livro a duas figuras da Biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa, Helena Grego e José Carlos Silva; ao longo de todos estes anos em que frequento tais instalações históricas, possuidoras de fascinante documentação, eles tudo têm feito para ter acesso a livros, revistas, relatórios, e, fundamentalmente, a papelada que consta dos Reservados, aqui encontrei textos fervilhantes ou esclarecedores, que o leitor agora vai encontrar deste período histórico em análise dos séculos XIX e XX.

A minha dívida com estes bibliotecários é impagável. Tanto mais que quando disse à Dr.ª Helena Grego que chegara ao fim da linha, nada mais havia para remexer nos arquivos, depois deste tomo II, ela desenganou-me: “Nem pense, agora vai começar a ler o Boletim Oficial do Governo Geral de Cabo Verde e depois o Boletim Oficial da Guiné, Colónia e Província, tem ali trabalho para os próximos anos.”
É o que presentemente está a acontecer, pelas minhas contas será o adeus neste vasculhar que levo à presença portuguesa na Guiné entre meados do século XV e primeiro quartel do século XXI.

"Guiné, Bilhete de Identidade, Tomo I, A Presença Portuguesa na Senegâmbia", de Mário Beja Santos, lançado em Setembro de 2024(*)
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Nota do editor

(*) Vd. post de 10 de janeiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26371: Agenda cultural (876): Apresentação do livro "Guiné, Bilhete de Identidade", de Mário Beja Santos, dia 13 de Janeiro de 2025, pelas 14h30, na Livraria Municipal Verney, Rua Cândido dos Reis, 90 - Oeiras

Último post da série de 20 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27652: Antologia (100): Uma caçada ao elefante em... Canjambari há mais de 100 anos (Conto publicado em "O Mundo Português", em 1936, da autoria de Artur Augusto Silva, 1912-1983)

Guiné 61/74 - P27835: Os 50 anos da independência de Cabo Verde (24): "Catchupa é fidju di tera,/ku midju, fexon, tchouriçu,/ batata, karni na panela, / amor ki ta brilha na luz"... Cachupa é em Lisboa, na Kasa Crioula, restaurante, em Carnide



Cachupa ... Um dos ícones de Cabo Verde. Com a morna, a coladera, a Cesária Évora... E o mar, azul,m claro: "O retângulo azul da bandeira simboliza o espaço infinito do mar e céu que envolve as ilhas. As faixas, o caminho da construção do país. O branco, a paz que se quer. O vermelho, o nosso esforço. As estrelas, as dez ilhas que compõem o arquipélago"

Há anos que eu não comia uma "cachupa" de Cabo Verde... Rica. Fui à Kasa Crioula, ali em Carnide, Lisboa, com  a malta da tertúlia da "chef" Alice... Colegas dela. E até arrisquei (!) fazer uns versinhos, em crioulo, de homenagem à cachupa e aos presentes... Chamei-lhe a "Catucha di Tabanka Grandi"...Espero que os meus amigos cabo-verdianos me desculpem este crioulo aportuguesado (destilado, depois de meia dúzia de versões)... Não é "armar ao pingarelho"... Há aqui apenas amor, afeto, ternura pela terra e gentes de Cabo Verde. E a sua cultura. E a sua história. E tudo os que nos liga. Há morabeza. Há morna. Há coladera. Há lusofonia. Há saudade. 

Isso já é meio pedido de desculpa pelo atrevimento. Conheço uns rudimentos de crioulo. Estou a aprendser. Gostaria de poder falar. Claro que tive uma ajuda da IA (ou de várias ferramentas de IA). Mas o que importa é a intenção. 

Esta tertúlia é de malta, reformada, do Ministério da Agricultura e Pescas (que eu não sei se ainda existe com o desmantelamento progressivo do "aparelho de Estado" português, em todos os sectores, da saúde ao ambiente). São sobretudo mulheres, os homens estão em minoria. Encontram-se de mês a mês, num restaurante, popular, da cidade. E têm sempre um tema "literário" ou "filosófico" para servir, no fim da refeição, como "sobremesa cultural"... Procuram manter-se ativos, proativos, vivos e saudáveis. Gostam de conviver. Conhecem África. Alguns nasceram lá, outros viveram e trabalharam lá:  são quase todos quadros médios e superiores... Um parte foram retornados,. Há gente de Cabo Verde, Guiné-Bissau, Angola, Moçambique, e até de Goa, do tempo em que Portugal ia do Minho a Timor. Eu às vezes apareço. Tiro umas fotos. Faço uns versos. Participo.  


Catchupa di Tabanka Grandi

Bô ma, fidju di Guiné,
Casada ku Manel di Angola,
Piedade di Moçambique,
Marília, Fernanda, nha kriola.

Bia di Portugal, Emília, Alice,
Gentis di Ministério, retornadu,
Na tabanka grandi, mesa sta posta,
Catchupa kenti, tudu misturadu.

Catchupa é fidju di tera,
Ku midju, fexon, tchouriçu,
Batata, karni na panela,
Amor ki ta brilha na lus.

É vida inteiru na pratu,
É luta, é fé, é kruz,
É memória di nos povu,
É speransa ki ta benha ku lus.


Teixeira da Cruz, nos amigu,
Africanista sabi sabi,
Tabanka txora bu partida,
Ma bu lugar sta li, na nos kabesa i na nos sabi.

Tabanka, ô Tabanka,
Tera di amor i união,
Catchupa ta fervê na panela,
É nos revoluson!

(LG + IA generativa)


Página do Facebook >  Kasa Crioula - Cozinha by Chef Fátima Moreno ; "um projeto que celebra a rica tradição lusófona, com especial foco nas cozinhas cabo-verdiana e portuguesa". Fica em Carnide, R Guiomar Torresão 128, 1500-425 Lisboa (junto ao Metro de Carnide).

O restaurante funciona na sede da Associação dos Antigos Alunos do Ensino Secundário de Cabo Verde, muitos dos quais passaram pelo antigo liceu nacional Infante Dom Henrique e depois Liceu Gil Eanes, na época colonial, e por onde passou a elite crioula (incluindo o Amílcar Cabral).



Lisboa > Carnide > Restaurante Cabo Verde > Decoração (excerto) > Répica em papel de parede, "Ronca Baxon, 2018. Autor: Luís Levy Lima. Técnica: acrílico sobre tela, 90 x  90 cm. Propriedade: Manuel Gomes dos Anjos & Filhos, SA, Praia, Santiago, Cabo Verde.   

Em relação a Cabo Verde, eu também gosto de lembrar que Portugal foi, no passado, Pai Tirano e Madastra, hoje felizmente Irmão, mais velho. Carlos Filipe Gonçalves,  Kalu Nhô Roque, explica lá à gente de Lisboa o que é o "Ronca Baxon"... Batuque, penso eu, a dança mais antiga das ilhas,o ADN de África...


Cabo Verde > Mindelo, Baía Grande e Monte Cara. 
Foto (pormenor) de quadro disponível nas paredes da Kasa Crioulo


Cabo Verde > Mindelo > Liceu Gil Eanes.
Foto (pormenor) de quadro disponível nas paredes da Kasa Crioulo


Cabo Verde > Mindelo > Retrato do senador Augusto Pereira Vera Cruz (1862-1933).
Foto (pormenor) de quadro disponível nas paredes da Kasa Crioulo

(...) A sua maior vitória política foi a Lei n.º 701, que criou o Liceu Nacional de Cabo Verde, com o nome, Infante D. Henrique.  que, mais tarde, tomou o nome de Gil Eanes. Durante quatro anos, Vera-Cruz lutou contra o desinteresse da metrópole. Por saber o que era a falta de estudos na pele, ele não descansou até ver a lei aprovada em 1917. E o seu gesto de desprendimento foi total: cedeu o seu próprio palacete no Mindelo para que as aulas pudessem começar. Sem o seu "Senador", Cabo Verde teria demorado décadas a formar a sua elite intelectual. (...).

Fotos e legendas : Luís Graça  (2026)
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Nota do editor LG:

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27769: Historiografia da presença portuguesa em África (518): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1962 (76) (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 12 de Setembro de 2025:

Queridos amigos,
Recorda-se ao leitor que surgiu, já no ano anterior, e agora às catadupas, extensa legislação, sobretudo emanada do Ministério do Ultramar. O investigador António Duarte Silva, em "O Império e a Constituição Colonial Portuguesa (1914-1974)", imprensa de história contemporânea, 2019, dá conta deste conjunto de reformas de 1961, sob a égide de Adriano Moreira (Páginas 208 a 214). O reflexo desta legislação na Guiné não se fez esperar. Como o leitor verificará, tomam-se medidas como os julgados municipais de trabalho ou as comissões municipais. Não há guerra de guerrilhas declarada, mas o Boletim Oficial não esconde em louvores ações que por vezes terminam com a morte de guineenses, membros da Polícia Administrativa e são igualmente retirados de funções pessoas "por práticas de atividades contrárias ao interesse nacional". Peixoto Correia deixa a Guiné em outubro, dentro em breve será Ministro do Ultramar; a escolha do novo governador recai de novo na Armada, trata-se do Capitão-de-Fragata (aviador) Vasco António Martins Rodrigues, que chega a Bissau em 21 de dezembro de 1962. Viverá, obviamente, as primeiras ações de guerrilha, a desarticulação do Sul. Num quadro que é historicamente turvo, entrará em desavença com o comandante-chefe, Brigadeiro Lourdes Sousa, têm abordagens estratégicas diferentes, as quezílias ganharão notoriedade, em abril de 1964 serão os dois removidos e entra na Guiné o Brigadeiro Arnaldo Schulz, dirá que resolverá a guerra em poucos meses.

Um abraço do
Mário



Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Guiné, 1962 (76)


Mário Beja Santos

A apresentação do Boletim Oficial mudou profundamente, não de look, mas de natureza. Já lá vão os tempos em que a esmagadora legislação era nada e criada na Guiné, já não falo dos relatórios de campanhas e expedições, reporto-me exclusivamente às informações que eram dadas tantas vezes com carácter não oficioso, matéria viva para análise do estudioso. Os acontecimentos de Angola, no ano anterior, despoletaram uma nova política ultramarina, com Adriano Moreira o acervo legislativo emanado do Governo central passa a aparecer no Boletim Oficial das Províncias. Fica, pois, muito diluída a informação local, esta ganhou formalidade e monotonia: questões avulsas, nomeações, reforço de verbas para as forças aéreas ultramarinas em vigor na Guiné, propostas de fornecimento… é óbvio que vão avultar os acontecimentos da guerra, será o caso de como se regularizam as condições em que os militares da Armada prestam serviço nos comandos navais e de defesa marítima do ultramar ou a restruturação das normas que devem regular nas províncias ultramarinas as organizações de voluntários em caso de necessidade de prestar colaboração às Forças Armadas; isto para sublinhar que é importante esmiuçar com atenção o rame-rame de medidas como as licenças para tratamento, as disposições do Conselho Superior de Disciplina do Ultramar, os anúncios de concursos, das medidas que revelam a emergência da guerra, como é o caso das instruções para o abono da alimentação por conta do Estado e da subvenção de campanha. São estas redações, mesmo orientadas para um espaço superior ao da Guiné que nos convocam para a sabermos o que está a mudar, veja-se este exemplo:
“Os militares e os civis militarizados que, nas províncias ultramarinas, façam parte das forças com a missão de restabelecer a ordem nas zonas onde a ação terrorista ponha em perigo as condições normais da existência da população, têm direito a: vencimentos normais que lhes competem quando em serviço na província; alimentação por conta do Estado; subvenção de campanha.” Mas também medidas como a atualização do regime de ajudas de custo de embarque e subsídio de interrupção de viagem relativos às forças terrestres ultramarinas. Ganhou premência a abertura de créditos a inscrever em adicionamento à tabela de despesas extraordinárias do orçamento.

Enfim, a guerra está a mudar o decisor político. Veja-se o Decreto-Lei n.º 44356, da Presidência do Conselho, no Boletim Oficial n.º 22, de 2 de junho:
“É gratuita a admissão e instrução em todos os estabelecimentos de ensino do Estado dos filhos dos indivíduos falecidos, mutilados, estropiados ou por qualquer forma incapacitados ao serviço da Pátria. O internamento em estabelecimentos de ensino do Estado poderá ser gratuito ou beneficiar de redução quando as condições materiais dos estudantes abrangidos pelo presente diploma o justifiquem.”

É claro que a vida continua, tomam-se medidas compatíveis com as regras do comércio, é o caso do regime respeitante à determinação, prova e verificação de origem nacional das mercadorias transacionadas entre territórios nacionais; ou institucional como a organização da Guarda Fiscal. O Ministério do Ultramar não para, pelo Decreto n.º 44310, a revogação do Estatuto dos Indígenas e mais recentemente do Código do Trabalho Indígena implica a revisão da estrutura dos Tribunais de Trabalho, respetiva competência e processo aplicável; e aquela necessidade que mais se evidencia com a publicação do Código do Trabalho Rural (relações jurídicas de trabalho emergentes de qualquer convenção em virtude da qual uma pessoa, mediante remuneração, preste serviços a outra, sob direção desta); e há medidas fiscais que abrangem as províncias ultramarinas, caso do imposto sobre os proventos de cargos públicos; temos também a autorização que se dá aos governadores das províncias de Cabo Verde e da Guiné para abrir créditos, com contrapartida no saldo das contas de exercícios findos.

Há quem diga que a guerra de guerrilhas na Guiné começou em janeiro de 1963, o que não é rigorosamente verdade, basta ler-se o louvor a um 1.º Cabo do Corpo da Polícia de Segurança Pública pelo zelo, dedicação, valentia e patriotismo evidenciado numa ação efetuada pelas forças da ordem, concorrendo decisivamente para a captura de um indivíduo que pretendia praticar atos de subversão na Província. Há também referência à organização de autodefesa por parte das empresas consideradas como indispensáveis à vida regular da Província, é o caso de: António Silva Gouveia; Sociedade Comercial Ultramarina; Mobil Oil; SACOR; Shell e B.P. Sim, há guerra, veja-se o louvor dado ao cipaio Cofai Turé, da Administração do Concelho de Farim, pelo zelo, dedicação, valentia e patriotismo com que desempenhava várias missões de segurança, qualidades que especialmente evidenciou ao participar na madrugada de 24 de agosto na povoação de Cã Quelu, área de Mansabá, numa ação efetuada pelas forças da ordem da qual resultou a sua morte ao serviço da Pátria.

Mas há muito mais: foi aprovado o Código do Trabalho Rural, prosseguem os anúncios de concursos, autoriza-se a instituição de julgados municipais de trabalho nas sedes das comarcas. Ainda não há guerra de guerrilhas, mas há seguramente subversão: foram demitidos dos cargos de regedores de Caió e Churo e de alferes de 2.ª linha Francisco Mango e Luís Belencante Rodrigues dos cargos de encarregados do regulado de Indafe e Ocante Agebane por práticas de atividades contrárias ao interesse nacional. Há notícias da PIDE, partidas e chegadas de elementos. Foi publicado o Regulamento sobre o movimento migratório na Província: “É proibida a fixação na Província de quaisquer pessoas cuja presença seja inconveniente, mormente os que pela sua presença possam causar alteração da ordem pública ou outros graves inconvenientes, quer de ordem interna quer de ordem internacional.”

Peixoto Correia segue para a metrópole em 30 de outubro, assume funções de Encarregado de Governo o Coronel João Augusto da Silva Bessa. O novo governador, Capitão-de-Fragata (Aviador) Vasco António Martins Rodrigues chega a Bissau em 21 de dezembro.

Retém-se da mensagem de despedida de Peixoto Correia:
“A melhor e mais sã colaboração que podem dar ao meu substituto é de amarem constantemente Portugal, repudiando qualquer aliciamento no sentido deste território alinha com os países onde se notam já evidentes sinais de perturbação social e económica, devido à saída dos europeus.” E acena com o caos das lutas tribais que sem a presença dos portugueses não podiam ser facilmente dominadas.

Família Fula
Dança da “banda” Nalu
Penteado Saracolé
Regedor de Jugudul, de etnia Balanta, concelho de Mansoa

Estas quatro imagens foram reproduzidas do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, ano de 1962

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 18 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27747: Historiografia da presença portuguesa em África (517): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1961 (75) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27764: Notas de leitura (1899): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (3) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 5 de Setembro de 2025:

Queridos amigos,
O romance de José Alvarez destaca as atividades de Cabral entre a sua reunião em Bissau (nesta altura ele tem intensa atividade profissional em Angola) em setembro de 1959, reunião determinante para pôr o movimento político de que ele é o cérebro em marcha, já se fala numa direção no exílio (Conacri) e no trabalho clandestino no interior da Guiné liderado pelo Presidente Rafael Barbosa. Cabral revela-se um ideólogo de referência em reuniões africanas, sensibilizando os novos Estados para a luta pela independência das colónias portuguesas. 

A ida a Londres será muitíssimo importante, quer pelo documento que Cabral elabora e que irá situar na imprensa e nas redes diplomáticas quer pela amizade que fará com Basil Davidson. Será em Tunes que se ouvirá pela primeira vez falar no PAI, à escala internacional. No romance, o autor procura recriar situações de grande tensão no casal, Maria Helena tinha extrema dificuldade no escasso ambiente familiar decorrente das atividades de Cabral. Este conseguirá êxitos diplomáticos com a China e com a URSS. a China assegura um plano de apoio militar, com a formação de elementos do PAIGC em Nanquim, e oferecendo armas. A URSS irá recebê-lo em 1961 e começará por oferecer bolsas de estudo, mais adiante formação e armamento.

Um abraço do
Mário



O primeiro romance histórico sobre a vida e obra de Amílcar Cabral – 3

Mário Beja Santos

Estamos chegados à controversa reunião em Bissau de 18 de setembro de 1956, há quem tenha assegurado que Amílcar Cabral não estava nesse dia em Bissau. Reza a história oficial do PAIGC que ocorreu aqui a data fundacional do partido, estariam presentes Luís e Amílcar Cabral, Aristides Pereira, Fernando Fortes, Elisée Turpin e Júlio de Almeida. Amílcar teria dito que a hora era propícia para a formação de um novo partido, o PAI, teria havido acordo da pequena plateia, e Cabral teria dado o seu pseudónimo, Abel Djassi. Como estava apressado para seguir para Angola. A verdade é que só se falará do PAI em 1960, e é dado como seguro que Amílcar estará em Bissau pouco depois dos acontecimentos do Pidjiguiti, de 3 de agosto de 1959, reunião determinante para estabelecer o arranque da vida partidária.

Amílcar Cabral recebe na sua casa em Lisboa, na Avenida Infante Santo, n.º 8, o nacionalista angolano Viriato da Cruz, 1957. Viera da China, cometera a asneira de vir para Lisboa, a PIDE estava a persegui-lo, conseguira desorientá-los, vinha pedir ajuda, Amílcar pôs-se em contacto com Lúcio Lara, há conversas sobre o Partido Comunista Angolano. Amílcar estará ativo em Lisboa, já tem relatório na PIDE, na sua ficha assinala-se fazer parte de uma rede de articulações políticas e ligações com movimentos clandestinos. Luís Cabral e a mulher visitam Amílcar e a mulher em Lisboa, dão notícias do que se está a passar na Guiné, Amílcar explica o que vai fazer em Angola, fala-se igualmente das eleições presidenciais de 1958. Amílcar volta a África, pago pelo Estado português, mas comparece de 8 a 13 de dezembro em Accra como observador, à 1.ª Conferência dos Povos Africanos, a vaga anticolonialista continuava a alastrar em África, dera-se a independência da Guiné-Conacri, o exército português começa a reorganizar-se, não há ilusões quanto a futuros conflitos entre os nacionalistas e o Estado Novo.

Amílcar Cabral irá conhecer um crioulo natural da Martinica, Frantz Fanon, em abril de 1959, este líder revolucionário, à margem do II Congresso dos Escritores e Artistas Negros, propôs, em nome do Governo Provisório Revolucionário da Argélia a formação de onze jovens angolanos. As relações de Cabral com Fanon não foram das melhores, diferem claramente nas suas estratégias, Fanon andará próximo de Guevara quanto à teoria do Foco, para Cabral inaceitável, pretende a presença de guerrilheiros e tornar a vida impossível aos colonos, garantindo uma continuada guerra de guerrilhas que leve à independência nacional.

Nesse ano de 1959, Cabral ainda trabalhava em Angola, na Companhia Angolana de Agricultura, em setembro chega a Bissau, encontra-se sigilosamente com Fernando Fortes, Aristides Pereira e Rafael Barbosa. É delineada a linha estratégica, a direção irá instalar-se em Conacri, a mobilização no interior da Guiné passará pela mobilização e organização dos camponeses. Amílcar conversará longamente com o irmão sobre os acontecimentos de Pidjiguiti em 3 de agosto, Luís partirá também para a clandestinidade ficará instalado em Ziguinchor. Amílcar moldou do seu espírito que deverá haver a união de Cabo Verde com a Guiné. Regressa a Lisboa via Dakar.

Aqui escreverá a Lúcio Lara:

“Estive na minha terra durante uns dias. Apesar de todas as opressões, de todas as manhas, a luta continua, cada vez mais conscientemente, cada dia mais reforçada. De tal maneira que eu próprio fico admirado de tanta vontade espontânea, de tanto desejo consciente fazer alguma coisa de concreto e consequente em relação à terra. Dado que surgiram outros movimentos (organizações clandestinas) é objetivo fundamental do programa traçado, conseguir uma união sólida, a formação de uma só frente para lutar. A chacina feita pela polícia e civis portugueses teve este balanço: 24 mortos e 35 feridos, alguns deles muito graves. Chegaram a matar alguns africanos dentro de água, quando tentavam fugir à polícia e alcançar os barcos que estavam ancorados perto do cais de Pidjiguiti.”

No final do ano regista-se uma grande atividade da PIDE, há muitas prisões em Luanda. Procurando a maior descrição, em viagens ao serviço do Governo português, Cabral procura reunir-se com elementos do Movimento Anticolonialista. Quando regressa a Angola sabe da prisão dos guerrilheiros selecionados. Saiu precipitadamente de Luanda escolhendo um itinerário a partir do Gana e outros países antes de chegar a Bissau.

 As atividades de Amílcar em Lisboa são acompanhadas pela PIDE, avisado por um professor do Instituto Superior de Agronomia sobre a vinda de elementos da PIDE ali para obterem informações dele, parte apressadamente para Paris, Maria Helena irá ter com ele, terá havido uma grande discussão no casal. Ela regressará a Lisboa e ele parte para a conferência em Tunes e depois para Londres. 

Em Tunes, Amílcar estará muito ativo na Conferência dos Povos Africanos, houve a exigência de que os delegados deveriam obrigatoriamente representar movimentos políticos com formação nacional própria. Pela primeira vez, a nível internacional, surge o nome do PAI e o Movimento Anticolonial passa a designar-se por FRAIN – Frente Revolucionária Africana para a Independência Nacional das Colonias Portuguesas. Cabral pede a Hugo Azancot de Menezes que lhe dê auxílio na sua ida a Londres e se o ajudava nas diligências para ter autorização para a instalação de membros do Movimento Anticolonial na Guiné-Conacri.

Em Londres, Cabral encontra-se com o jornalista e escritor Basil Davidson, que se transformará numa grande amizade. Vai aparecer o primeiro documento saído do punho de Cabral que sensibilizará a opinião pública internacional: The Facts about Portugal African Colonies, assinado com o nome de Abel Djassi. 

Hugo Menezes escreve a Cabral dizendo-lhe que está autorizado a residir em Conacri com a família, irá trabalhar como técnico do Governo. Instalado em Conacri, Cabral encontra-se com diplomatas, o primeiro secretário da embaixada da China mostra-se particularmente recetivo, de contacto em contacto uma delegação de movimentos nacionalistas constituída por Viriato da Cruz, Eduardo M. dos Santos e Cabral recebem o convite para uma visita de estudo e amizade à China.

Em meados de 1960, a PIDE emite uma nota sobre Amílcar Cabral e as suas atividades, nota que inclui falsidades como lhe atribuir responsabilidade na revolta dos estivadores do porto de Bissau, em agosto de 1959. Luís Cabral foge para Conacri. Maria Helena e a filha abandonam Lisboa, vão primeiro a Paris e depois Conacri. Um grupo de jovens, parte para a China, entre eles Nino Vieira e Osvaldo Vieira.

A atividade de outros movimentos anticolonialistas guineenses preocupa Cabral são-lhe hostis, destacam o que eles consideram ser a exploração secular dos guineenses pelos cabo-verdianos. No final do ano de 1960, Cabral recebe o convite para visitar a URSS em março do ano seguinte, a primeira oferta dos soviéticos são bolsas de estudo nas instituições de ensino técnico e superior da URSS. Estimulado por estas ajudas, Cabral prepara uma escola de formação em Conacri e vai confrontar-se com outros movimentos independentistas guineenses.

Amílcar Cabral e Maria Helena, sua mulher, na Guiné, mota com sidecar
Coisa curiosa, a PIDE da Guiné em 1958, não apurou nada em desabono de Cabral, moral e politicamente, o que faz cair por terra, as demissões e expulsões, os impedimentos de visitar a família, etc., têm aparecido na hagiografia mitológica e martirológica de Cabral.
Cabral na China em 1960, delegações do MPLA e do PAIGC

(continua)
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Nota do editor

Post anterior de 16 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27738: Notas de leitura (1896): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (2) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 20 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27754: Notas de leitura (1898): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (3) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27754: Notas de leitura (1898): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (3) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 2 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
Para sermos justos não há verdadeiramente nada de novo na narrativa do Marquês do Lavradio quanto à questão de Bolama. O autor, detentor do arquivo dos marqueses do Lavradio, tendo vivido em Londres como aio do Rei D. Manuel II, teve seguramente acesso à documentação britânica para além de possuir os arquivos de seu pai, que fora representante de Portugal na primeira metade do século XIX, tendo-se relacionado com primeiros-ministros e ministros dos negócios estrangeiros britânicos que tudo fizeram para expulsar Portugal das franjas da Guiné, de Angola e Moçambique. Inequivocamente, o Reino Unido, como este livro revela pela documentação mostrada, tinha um plano imperial para África onde urgia reduzir drasticamente a presença portuguesa. E como o próprio Marquês do Lavradio aponta nas suas conclusões o Reino Unido preparava-se para negociar com a Alemanha, ainda no século XIX, a retirada de Portugal de Angola. Nas conclusões, para nosso espanto, o Marquês do Lavradio condiciona a existência do Império português em África ao beneplácito dos políticos de Londres, e dirá coisas que parecem ter uma carga premonitória, tais como: "Se um dia a China conseguisse apoderar-se de Hong Kong nós não poderíamos conservar Macau; se a Índia se revoltasse e, triunfante, expulsasse a Inglaterra, nós não necessitaríamos mais de um governador na Índia." Para que conste.

Um abraço do
Mário



Um livro assombroso, o Império Colonial Português no microscópio, na década de 1930, pelo punho do Marquês do Lavradio – 3

Mário Beja Santos

Portugal em África depois de 1851, subsídios para a História, pelo Marquês do Lavradio, foi editado pela Agência Geral das Colónias em 1936, trabalho que terá sido concluído em 1934. Goza da singularidade deste aio do Rei D. Manuel II ter tido acesso aos arquivos britânicos e possuir um repositório intitulado o Arquivo Lavradio, o seu pai, diplomata em Londres, correspondeu-se com diferentes governos britânicos, expediu notas para Lisboa e deixou relatórios da maior pertinência. O aspeto mais curioso deste seu trabalho é a franqueza que ele põe nas suas considerações da decadência imperial portuguesa, como se procurou mostrar nos dois textos anteriores revela como até ao século XIX a nossa presença circunscrevia-se praticamente à orla da costa de regiões que só no século XIX passaram a ser designadas ou até fronteiras, caso da Guiné, Angola e Moçambique (os arquipélagos de Cabo Verde e São Tomé e Príncipe). Dentro da franqueza que o Marquês usa na sua narrativa é patente a crítica por vezes brutal face ao imperialismo britânico; no entanto, dirá nas conclusões que o Império português só poderá sobreviver à sombra da proteção britânica.

Era inevitável que a Guiné aparecesse neste trabalho logo a questão de Bolama era uma das três questões importantes que tínhamos com os britânicos: em Bolama, em Lourenço Marques e em Angola. Vejamos a primeira, seguindo textualmente o que ele escreve.

A ilha de Bolama estava na posse de Portugal desde 1607 por uma doação que dela havia feito o Rei de Guinala, em recompensa do auxílio que os portugueses lhe haviam dado para o defenderem dos ataques dos Bijagós; em 4 de abril de 1753, Portugal havia tomado posse da ilha; em 1628, os Régulos que então dominavam a ilha haviam espontaneamente feito de novo cessão da ilha a Portugal, assinando um tratado e ajuste de posse, pelo qual era conferido à Corte Portuguesa o seu perpétuo domínio. A Inglaterra reclamou pela primeira vez em 1884 a ilha fundando-se em que em 1792 ela lhe fora cedida pelo Rei de Canhabaque e pedindo esclarecimentos sobre o fundamento que a nação portuguesa tinha para se julgar com direito ao domínio da ilha.

A verdade era que até 1792 nunca o domínio de Bolama fora contestado a Portugal, que em 1792 alguns ingleses fundando-se na tal venda haviam ali estabelecido, mas em 1793 haviam sido expulsos pelos naturais, só voltando em 1814; em 1827, Sir N. Campbell, tentara obter do Rei do Rio Grande uma ratificação da cessão ou venda feita em 1792; e em 1828 o Governador da Serra Leoa havia querido tomar violentamente posse daquela ilha o que lhe fora impedido pelas medidas adotadas pelo Governador e Capitão General de Cabo Verde, D. Duarte da Costa Sousa Macedo. Em 1830, o tenente da marinha A. Kellet comandando o brigue Bisk dirigira-se a Bolama, e com o fundamento de que ali se traficava em escravos, cortara o pau da bandeira, arrancara esta da mão de um soldado e chegara mesmo a cuspir-lhe.

Houve protesto em Londres. A nota ficou sem resposta até 22 de maio de 1840, dava razão a Kellet e declarava que não podia permitir que Bolama, reclamada pelo Governo inglês, servisse para mercados de escravos. Em 9 de junho de 1841, Lorde Palmerston declarava por escrito que a ilha de Bolama pertencia à Inglaterra, dizendo que os documentos apresentados por Portugal nada provavam a favor dos seus direitos e que os por ele apresentados provavam claramente os da Grã-Bretanha. Em 1842, o vapor de guerra inglês Pluton fundeava na ilha de Bolama, cometendo arbitrariedades. Em 15 de julho de 1842, o Governador de Bissau comunicava que o comandante do navio Pantaloon lhe participara em 23 de maio que por ordem superior ia tomar posse da ilha de Bolama, mas o Governador não mandou retirar o destacamento sem para isso receber ordem; a 6 de novembro de 1843, o Governador de Bissau mandava arriar a bandeira inglesa em Bolama, o que gerou protesto do Ministro de Inglaterra em Lisboa. Em 13 de janeiro de 1847, o comandante do brigue Rolla abusava da sua força em Bolama, com o fundamento de que a ilha era possessão inglesa. Nova queixa do Governador Militar de Bissau ao Governador Geral de Cabo Verde, este atribuiu o ato a embriaguez, ordenou ao Governador Militar de Bissau que repelisse a força quando o número de agressores não fosse tal que só causasse vítimas.

O autor elenca um corrupio de situações hostis, inclusive do Governador da Serra Leoa, sempre protestos das autoridades de Bissau e o Governo português sustentando que Bolama pertencia à coroa de Portugal. Em 1861, o Ministro dos negócios estrangeiros britânico propõe a decisão da contenda submetida a uma arbitragem. Havia mais de 20 anos que o Governo britânico disputava a Portugal o domínio de Bolama, fundando-se em documentos que o Governo português não podia reconhecer, por serem inválidos. O Ministro de Portugal em Londres, o 5.º Marquês do Lavradio conferenciou com o Ministro dos Negócios Estrangeiros e dele deixou o seu relato:
“Fiz a narração do que na ilha de Bolama havia praticado o Governador da Serra Leoa. Notei a insolência, a falta de princípios das duas cartas do Governador da Serra Leoa, a dignidade e prudência da resposta do honrado Governador da Guiné. Depois de fazer algumas poucas, posto que severas, observações sobre o procedimento do Governador da Serra Leoa, procedimento sem exemplo na história das nações civilizadas, concluí dizendo a sua excelência que fazia a devida justiça ao Governo de sua Majestade britânica e que por isso não podia, nem mesmo suspeitar que o Governador da Serra Leoa tivesse procedido em virtude ordens do seu Governo, e que igualmente estava certo que o Governo britânico, por sua própria honra se havia de apressar a corrigir o seu agente e a reparar as péssimas consequências do seu insólito e indiscutível procedimento.”

Encurtando razões, a arbitragem era o único meio que to Governo português tinha para poder assegurar não só as suas possessões na Guiné, mas também as das duas costas da África Meridional. O Governo britânico disputava o uso dos nossos direitos na costa ocidental ao norte de Ambriz; contra o nosso direito, e apesar dos nossos protestos, exercia direitos soberanos em uma parte das nossas possessões na África Oriental; na baía de Lourenço Marques pretendia usurpar-nos alguns pontos essenciais; por meios ostensivos e traiçoeiros procurava privar-nos do interior do Zambeze; procurava considerar-nos com os povos africanos. Cientes que a razão estava do lado português, o Governo britânico não quis aceitar a arbitragem proposta pelo Governo português quanto às questões relativas a Bolama.

O Conde de Ávila foi nomeado plenipotenciário em 28 de junho de 1864 para negociações quanto à posse da ilha de Bolama. E o Conde do Lavradio declarou a Lord Russell, Ministro dos Negócios Estrangeiros que tinha recebido ordem de propor novamente ao Governo britânico uma arbitragem. A arbitragem tornava-se absolutamente necessária porque o Governo inglês não reclamava já unicamente Bolama, queria apossar-se das ilhas adjacentes e do rio Grande até Bolola e o rio de Guinala. As hostilidades britânicas em Bolama mantiveram-se, os protestos portugueses redobraram. Finalmente, em 8 de julho de 1868, o Ministro britânico em Lisboa participava que o governo britânico estava disposto a aceitar a arbitragem e posteriormente propôs para árbitro o Presidente dos Estados Unidos da América. Em 21 de abril de 1870 o Presidente Ulysses Grant proferia a sua sentença dando completa satisfação aos direitos de Portugal. A teimosia britânica durara 28 anos, houve prepotências, a nossa bandeira arriada. E não será por acaso que em 1879, quando a Guiné se autonomizou de Cabo Verde, a capital da Província foi Bolama.

Iremos proximamente e em síntese falar da questão de Lourenço Marques e a do Zaire, assim chegamos à Conferência de Berlim, ponto de viragem da política imperial portuguesa.

Imagem de 1930
Bolama, a velha capital ao abandono
Imagem da inauguração da estátua do 18.º Presidente dos Estados Unidos da América, General Ulysses Grant, na Ilha de Bolama
D. José Maria do Espírito Santo de Almeida Correia de Sá, 6.º Marquês do Lavradio (1874-1945)

(continua)
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Notas do editor

Vd. post de 13 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27732: Notas de leitura (1895): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (2) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 19 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27749: Notas de leitura (1897): "Os Có Boys (Nos Trilhos da Memória)", de Luís da Cruz Ferreira, ex-1º cabo aux enf, 2ª C/BART 6521/72 (Có, 1972/74) - Parte IX: o batismo de fogo numa das primeiras colunas de Teixeira Pinto - Pelundo - Bissau (Luís Graça)

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27750: Os 50 anos da indepedência de Cabo Verde (23): Morreu a Amélia Sanches Araújo (1934-2026), a antiga locutora da "Rádio Libertação" (1964-1974), a famosa "Maria Turra", como era conhecida entre a malta do CTIG (Carlos Filipe Gonçalves, Praia, jornalista aposentado)


Foto nº 1


Foto nº 2

Amélia Sanches Araújo (Luanda, 1934 - Praia, 2026) (*)

Legendas: Foto nº 1 > s/l > c. 23/24 de setembro de 1973 > "Amélia Araújo gravando os trabalhos da I Assembleia Nacional Popular da Guiné-Bissau para a Rádio Libertação".

Fonte  (e legenda): Antena Um / Fundação Mário Soares / Casa Comum / Arquivo Amílcar Cabral (Com a devida vénia...)

Foto nº 2 > Amélia Araújo aos microfones da Rádio Libertação, a rádio do PAIGC, a emitir a partir de Conacri. Teve início em julho de 1967. Data da foto: c. 1967.

Amélia Araújo, a nossa "popular Maria Turra", que é "muito mintirosa" (dizia o Zé Tuga), vivia há anos  em Cabo Verde. Era angolana, de origem cabo-verdiana. A sua voz pode ser aqui recordada no ficheiro áudio (10' 18'') do portal DW - Deutsche Welle ("Rádio Libertação: Fala o PAIGC").

Fonte: Antena Um / Fundação Mário Soares / Casa Comum / Arquivo Amílcar Cabral (Com a devida vénia...)


1. Postagem, no nosso Facebook, do nosso camarada Carlos Filipe Gonçalves, ex-fur mil amanuense (Chefia dos Serviços de Intendência, QG/CTIG, Bissau, 1973/74), radialista, jornalista, escritor, natural do Mindelo, a viver na Praia, Cabo Verde:

Faleceu Amélia Araújo, locutora da Rádio Libertação 1964/1974 conhecida entre a tropa portuguesa na Guiné por «Maria Turra».

Faleceu hoje 19 de fevereiro de 2026, na Cidade da Praia, Amélia Sanches Araújo, de origem cabo-verdiana, nasceu em Angola em 1934. Conhecida e popular apresentadora da "Rádio Libertação",  desde a sua fundação em 1964 com programas através de emissoras de países (como o Senegal, Guiné-Conacri e outros) que apoiavam o PAIGC.  Ficou conhecida entre a tropa portuguesa  por "Maria Turra". 

Apresentou na rádio, muitos textos de Amílcar Cabral a denunciar "a política enganosa dos colonialistas portugueses". Era casada com o alto dirigente do PAIGC José Araújo, que mais tarde a partir de 1980 desempenhou em Cabo Verde os cargos de ministro da Educação e da Justiça.

Carlos Filipe Gonçalves – Recordação da Rádio Libertação/Rádio Bissau em Setembro/Outubro de 1974 – Extracto do livro “Recordações de Um Furriel Miliciano, Bissau 1973 – 1974/75:

Fui talvez o único militar português que ficou em Bissau, depois de 10 de setembro de 1974, quando saiu o último Governador português. Passei a tabalhar na Rádio Bissau, depois Radiodifusão Nacional da Guiné-Bissau. Regressei a Cabo Verde em 22 de agosto de 1975. O livro ainda não publicado, descreve o último ano de Guerra vivido em Bissau em 1973/74 e depois o período de setembro de 1974 a agosto de 1974 depois da chegada do PAIGC a Bissau. Eis um extracto:


(...) "E foi numa dessas visitas do 'camarada' José Araújo à rádio em Bissau, que ouço uma voz conhecida, timbre inconfundível, pronúncia impecável do português… É a voz da 'Maria Turra'! Desde que entrara na rádio, tinha ouvido gravações com essa voz, mas nunca tinha visto a pessoa! Agora, ouço ao vivo aquela voz e vejo esta senhora, que me cumprimenta, educadamente… Conhecia agora a 'camarada' Amélia, cuja voz, desde que a Rádio Libertação viera para Bissau, passava nas gravações de abertura e anúncios da estação, ou nos programas que tinham sido gravados em Conacri e que muitas vezes, eram agora repetidos, nomeadamente as palavras de ordem de Cabral. 

Desfez-se para mim a imagem que fazia da 'Maria Turra'… Vejo senhora educadíssima, de bons modos, bem falante… claro, pronúncia e timbre impecáveis no português. Como sempre discreto, não digo nada, não comento. Pelas conversas do pessoal operador de som (fardado e armado) que veio de Conacri, fico a saber que a 'camarada' Amélia Araújo, é a mãe da Terezinha, a cantora de voz estridente, cujas gravações vindas de Conacri, passam muitas vezes na rádio. 

Eu conhecia bem aquela bobine, com uma vozinha de criança, muito ao gosto desses 'camaradas' operadores de som, uma gravação da participação de uma delegação cultural do PAIGC no 'Festival Internacional da Juventude' em Berlim, RDA, em 1973. 

Depreendi, seria a menina, que eu já conhecia, pois muitas vezes acompanhava o pai, nas visitas à rádio. Mas…, 45 anso mais tarde, venho a saber, que afinal, ela era a irmã da Terezinha! 

Esta, continuou a carreira de cantora, que se destacou mais tarde, no panorama da música cabo-verdiana, com muitos sucessos e actuações, integrou o conjunto Simentera, conhecido internacionalmente. 

Um belo, dia, numa conversa comigo, sobre a rádio em Bissau, afirmou: “Não! Não era eu, que ia à rádio em Bissau! Naquela época, eu, estava a estudar na União Soviética! Quem estava em Bissau, e ia à rádio com meu pai, era a minha irmã." (**)

(Revisão / fixação de texto: LG)

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Notas do editor LG:


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27739: Os 50 anos da indepedência de Cabo Verde (22): os cubanos que o Amílcar Cabral (i) quis "esconder"; (ii) queria que fossem "escurinhos, como ele; e, mais difícil, (iii) que "não morressem nem se deixassem apanhar" como o Peralta - II Parte






Fotogramas do filme "Madina Boe" (Cuba, 1968, 38'), do realizador José Massip (1926-2014), obtidas a partir da função "print screening" do teclado do PC e da visualização de um resumo, em vídeo ("Amílcar Cabral", 28' 22'') , disponibilizado no You Tube, na conta "José Massip Isalgué".

O documentário foi carregado no You Tube no dia da morte do cineasta (ocorrida em Havana, em 9/2/2014): não tem som direto, é narrado em espanhol, tem subtítulos em espanhol, mas também pequenos diálogos em crioulo e em português (por ex., com o médico dr. Mário Pádua, angolano branco, oficial do exército português, de que desertou, tendo saído de Angola para se juntar mais tarde ao PAIGC). 

Há sequências de cenas que vão da preparação militar a saídas para atacar alegadamente o quartel de Madina do Boé,   do rital da caça à descontração das refeições, das jogatanas de futebol ao quotidiano do hospital de Boké, do outro lado da fronteira, na Guiné-Conacri... Enfim, até uma visita de Amílcar Cabral às "tropas em parada"... É impossível saber onde exatamemnte foram  obtidas as imagens. Parte delas são no Boé, outras em Boké, já na Guiné-Conacri,

Esta média metragem, "Madina Boé" (1968),  foi  financiado pelo Instituto Cubano de Arte e Industria Cinematográficas, de que o José Massip foi cofundador, e pela Organização de Solidariedade com os Povos da Ásia, África e América Latina. O documentário retrata a organização do  PAIGC na região do Boé, e o quotidiano dos seus guerrilheiros. O Boé
é considerado como "área libertada". 
 
O cineasta José Massip e o operador de câmara Dervis Pastor Espinosa  estiveram na zona do Boé em março e abril de 1967,  pelo que as imagens do  alegado ataque ao quartel de Madina do Boé em 10 de novembro de 1966 (trágico para o PAIGC, com a morte de Domingos Ramos e outros militantes) só podem ser de arquivo e, nessa medida, são (ou podem parecer) um embuste: a verdade sobre o que se passou nesse dia trágico foi pura e simplesmente ignorada ou escamoteada, como convinha.

Sabe-se que em março-abril de 1967,  a equipa cubana não filmou nenhuma cena de guerra, alegadamente por razões de segurança. As imagens de guerra que foram incorporadas no filme terão sido obtidas por outra equipa cubana, que estava no terreno em 10 de novembro de 1966, o que ainda está por esclarecer. (Já fizemos referência à operadora de câmara argentina Isabel Larguia, que estava ao lado do guineense Domingos Ramos e do cubano Ulises Estrada.)

De resto, tanto Cuba como  PAIGC mantiveram em segredo, mesmo depois da independência,  a "ajuda estrangeira" em conselheiros, instrutores, médicos e combatentes cubanos... No filme não aparecem combatentes estrangeiros, a não ser o médico Mário Pádua, de costas (que diz no filme: "eu sou um médico português antifascista e anticolonialista"... e acrescenta: a guerra que aqui se trava não é do povo guineense contra o povo português mas contra um regime político fascista...)

O filme do José Massip foi várias vezes premiado (nomeadamente em países do chamado bloco soviético), passou na televisão cubana mas não obteve grande entusiasmo  da crítica interna. Há cenas no filme que não terão agradado ao regime de Fidel Castro. Em contrapartida, foi muito útil à propaganda do PAIGC. Amílcar Cabral era hábil, a explorar, no plano mediático e diplomático, testemunhos como este que devem ter seduzido, por exemplo, os suecos do partido de Olof Palme.

Claro que em Portugal não passaria, antes do 25 de Abril. O filme, aliás, só foi estreado entre nós no doclisboa'16, em 24 de outubro de 2016, às  15h30, na Cinemateca Nacional, Sala M. F. Ribeiro.  Eis a sinopse que vinha no programa, e que não deixa de ser reveladora da santa ignorância ou ingenuidade (é o mínimo que me ocorre dizer) dos organizadores.

"Filmado nas áreas libertadas [sic] da Guiné-Bissau, durante a sua guerra de libertação de Portugal, o filme segue o Exército Popular para a Independência da Guiné-Bissau e Cabo Verde, documentando a educação política dos combatentes, as técnicas de guerrilha e o treino físico."  

Enfim, Cuba não mandou, para o PAIGC, apenas instrutores, conselheiros militares e médicos, mandou também cineastas com o talento de um José Massip. Até nisso Amílcar Cabral foi hábil, soube pôr o cinema e os cineastas de vários países ao seu lado, contrariamente aos políticos e generais portugueses do Estado Novo... que escondiam ao povo a guerra que se travava em África, nomeadamente na Guiné. 

Para vergonha nossa, o cinema português não tem um único filme com a assinatura de um cineasta de prestígo sobre a guerra na Guiné (1961/74), que possamos mostrar aos nossos filhos e netos. 

Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)



Guiné > Bissau > HM 241 > 1969 > O capitão cubano Pedro Rodriguez Peralta. Fotograma, sem indicação de fonte (RTP ?). Cortesia da página do Facebook de António José Vale, 26 de maio de 2018. Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2024), com a devida vénia...


1. O jornalista Júlio Montezinho publicou no "Expresso das Ilhas" (Praia, ilha de Santiago, Cabo Verde), edição nº 1260, de 21 de janeiro de 2026, um interessante  artigo sobre a participação dos cubanos, ao lado do PAIGC, na luta pela independência da Guiné e Cabo Verde... 

 Vamos fazer, em dois ou três postes,  uma síntese  (*) e análise crítica do  artigo cujo iriginal está disponível "on line", aqui: País: A outra face da luta na Guiné (I) - A presença cubana na Guiné-Bissau que o PAIGC quis esconder | Por Jorge Montezinho, | Expresso das Ilhas, 25 jan 2026 9:14

Temos  cerca de 3 dezenas de referências a Cuba, e cerca de 90 a cubanos

II. Análise crítica: entre a solidariedade e a realpolitik

O artigo é interessante sem ser original. Mas merece ser partilhado com os nossos leitores, e demais público lusófono. Apoia-se fortemente na investigação do historiador italiano Piero Gleijeses: o seu livro de 2002, "Conflicting Missions: Havana, Washington and Africa, 1959–1976",  é uma obra de referência,  uma reavaliação exaustiva do envolvimento cubano na descolonização de África.  

Piero Gleijeses nasceu em Veneza em 1944, foi  professor de política externa dos Estados Unidos  na Universidade Johns Hopkins. 

É considerada uma autoridade em matéria de estudos sobre a política externa cubana sob Fidel Castro. Gleijeses, dizem-me,  é o único investigador estrangeiro a quem foi permitido o acesso aos arquivos governamentais cubanos da era Fidel Castro.

Fez o seu  doutoramento em relações internacionais no Graduate Institute of International Studies, em Genebra, e domina várias línguas:  além do italiano e do inglês, o afrikaans, o francês, o alemão, o português, o russo e o  espanhol.

 "Visions of Freedom" (2013) dá continuidade a "Conflicting Missions", analisando o confronto entre Cuba, os Estados Unidos, a União Soviética e a África do Sul no sul de África entre 1976 e 1991.

Além de revistas académicas, Gleijeses colaborou em publicações como a "Foreign Affairs" e a "London Review of Books" (Fonte:  Wikipedia, em inglês).


(i) Cuba: um ator único, "sui generis", mas não desinteressado

  • Solidariedade vs. estratégia: a ajuda cubana aparentava ser "genuína e desinteressada" em termos económicos, mas não era isenta de cálculo geopolítico; afinal, também aqui não há "almoços grátis".
  • Em nome do chavão do "internacionalismo proletário", a pequena mas "heróica" Cuba procura expandir a sua influência e o seu prestigio em África, em competição com as gigantescas mas rivais URSS e  China.
  • Guiné(zinha) portuguesa parecia ser um bom laboratório para testar, validar, promover e "vender" o  modelo revolucionário cubano, também baseado nos "campesinato".
  • O legado de Guevara: a presença cubana estava profundamente ligada à visão de Guevara de "internacionalismo proletário"; no entanto, a decisão de manter o envolvimento em segredo  deixou de dar dividendos (e teve custos humanos, mortos e feridos, que o PAIGC e Cuba sempre silenciaram, embora em nada comparáveios com o envolvimento em Angola.
  •  Havana, em todo o caso, também quis  evitar conflitos desnecessários com Portugal (com quem mantinha relações diplomáticas e comnercais) bem como com o poderoso vizinho, os EUA, que já monitoravam a região.
  • A célebre frase de Ernesto "Che" Guevara, "Criar dois, três, muitos Vietnames" (Crear dos, tres, muchos Viet Nam), surgiu na sua "Mensagem à Tricontinental" em 1967, apelando à multiplicação de focos de resistência armada para dividir e enfraquecer o "imperialismo".
  • Contexto: a frase foi publicada na revista Tricontinental em abril de 1967, originária de uma mensagem enviada por Che à Organização de Solidariedade com os Povos da Ásia, África e América Latina (OSPAAAL).
  • Significado: Guevara defendia que, se a resistência vietnamita conseguisse dividir as forças dos EUA, outros focos revolucionários no mundo teriam o mesmo efeito, enfraquecendo a dominação global.
  • O objetivo era incitar a luta armada internacional e a solidariedade entre os povos oprimidos contra o imperialismo (e o colonialoismo tardio, como era o caso da África lusófona; e o "apartheid" na África Austral).
  • O Vietname representava o exemplo máximo de um povo pobre a enfrentar com sucesso um exército poderoso, servindo de inspiração para movimentos revolucionários globais.
  • A frase (panfletária) tornou-se um lema para a resistência ao colonialismo e a defesa da soberania, simbolizando a luta colectiva.
(ii) Cabral, um líder pragmático que não foi nos futebóis dos cabuanos
  • Equilíbrio entre autonomia e dependência: Cabral soube gerir a ajuda externa sem comprometer a liderança do PAIGC (ou a sua liderança, que de resto não era contestado nessa época).
  • Cabral defendia que a luta devia parecer genuinamente africana e não parte de um estratégia mais vasta, geopolítica.

  • Ao limitar o número de cubanos e recusar ofertas de mais homens, evitou que o movimento se tornasse um "proxy" de potências estrangeiras, um risco comum em "guerras de libertação".
  • O uso da imagem: a colaboração com o cinema cubano para construir a sua imagem como líder de guerra revela uma compreensão avançada da importância da narrativa, Cabral não era apenas um estratega militar, mas também um construtor de mitos, essencial para a coesão do movimento.
  • Náo se pode diaer que a imagem de Cabral saia diminuída. Mas é inegável que o cinema (e os amigos do PAIGC, e náo apenas os cubanos) deram um bom retique na imagem de Cabral: encenação da sua presença na frente de batalha; construção simbólica do líder revolucionário.  Cabral nunca foi um "cabra-matchu", muiti menos boçal a maioria doso comandantes do PAIGC, a começar por 'Nino' Vieira,  como nem sequer precisava de o ser, para ficar na história de África.

  • (iii) Portugal, aliás, o Portugal de Salazar / Caetano, "orgulhosamente só"

  • A captura de Peralta: Portugal usaou o vaso Peralta para tentar deslegitimar o PAIGC, mas a sua recusa em libertá-lo, mesmo com a oferta de troca de um refém ameriano,  mostra a rigidez do regime de Salazar-Caetano.
  • Lisboa parecia mais interessada em "provar" a interferência estrangeira do que em resolver o conflito da Guiné (que se tenderia a"eternizar").
  • Falta de adaptação: enquanto o PAIGC e Cuba inovavam em táticas e comunicação, Portugal manteve uma estratégia militar rígida e pouco adaptada à guerra de guerrilha, pelo menos até à chegada de Spínola ao território.
  • O 25 de Abril de 1974 veio demonstrar que a solução para a guerra colonial não era militar, mas política (coisa que os militares portugueses, a começar por Spínola, já defendiam há uns anos, contra os "falcões" do regime que, de resto, mal conheciam África, a começar por Salazar que lá pôs os pés).

(iv) Memória e esquecimento

  • O silenciamento cubano: por que é que Cuba manteve o seu papel em segredo, mesmo depois da independência da Guiné-Bissau? 
  • A explicação oficial  ("respeitar os desejos do PAIGC") é plausível, mas também pode refletir uma política de não-confrontação com os EUA ou com os novos governos africanos, muitos dos quais queriam evitar tensões com antigos aliados de Portugal.
  • O 'papel técnico-militar dos cubanos não deve ser subvalorizado mas também náo pode ser sobrevalorizado. Cuba terá mandando ao PAIGC 435 homens, alegadamente todos "voluntários". 9 ou 17 terão morrido, há fontes contraditórias.

  • A memória portuguesa: em Portugal, a guerra colonial ainda hoje, passado ,mais de meio século, é um tema sensível; a narrativa dominante tende a focar-se no "trauma" dos soldados portugueses e na "ingratidão" das ex-colónias, ignorando cpmpletamemnte o papel de atores como Cuba (pelo menos, no cvaso da Guiné e,depois, em Angola, na chamada "guerra da II independència).
  • No nosso blogue, temos dado também voz a uma pluralidade de perspectivas, incluindo a cubana, "naturalmente" mais esquecida e mais difícil de compreender e aceitar pelos antigos combatentes portugueses.

(Pesquisa, condensação, revisão / fixação de texto, negritos: LG)
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Nota do editor LG: