sábado, 28 de dezembro de 2019

Guiné 61/74 - P20507: Os nossos seres, saberes e lazeres (370): Umas férias à sombra do Forte do Pessegueiro (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 18 de Junho de 2019:

Queridos amigos,
Os netos possuem essa poderosa faculdade de influenciar as opções estivais, aquela neta não esquece as ondas de Sines, bem se procurou acautelar o poiso do ano anterior, impossível, a casa do Paiol estava tomada durante meses, encontrou-se abrigo num aldeamento perto do Pessegueiro, procurando-se suprir as saudades com visitas regulares a Sines, correu tudo a contento, aquela costa escalvada, recortada, como se estivesse permanentemente a expulsar pedras ao oceano, é um fascínio permanente e a neta não se cansou de elogiar a água quentinha, as ondas e os regalos da mesa.
Eles são o nosso futuro, merecem o nosso melhor, a começar pela ternura.

Um abraço do
Mário


Umas férias à sombra do Forte do Pessegueiro

Beja Santos

Era uma vez um avô que tinha uma neta muito desempoeirada, de sorriso bonito, um rosto emoldurado por olhos de azul-marinho, conversadora e perguntadora, com uma grande paixão pelos banhos de mar e saltos nas ondas. No ano anterior, tinha ido com o avô para Sines, tinham ficado numa casinha num sítio chamado Paiol, era um regalo aqueles banhos da manhã numa praia de água quente, seguia-se uma almoçarada a contento de todos, sesta, brincadeiras e depois praia, todos felizes com aquela boa vida. No ano seguinte, foi impossível ir para o Paiol, casa alugada durante meses, andou-se à procura de outro sítio, acertou-se no Pessegueiro, bem perto do Forte, altaneiro e vigilante, em terra firme, a olhar a ilha do mesmo nome.




Na “Descrição do Reino de Portugal”, de Alexandre Massai, datado de 1621, escreve-se que a Ilha do Pessegueiro dista de Vila Nova de Mil Fontes duas léguas e da vila de Sines três, ninguém mora na ilha, aqui perto embarcou D. António Prior do Crato e foi à procura de outra guarida. No mesmo livro se faz o elogio do atum e da sardinha e que por ali há porto seguro, o problema eram as investidas inglesas, eram inimigos dos reis Áustrias. E por tal razão coube a Filipe Terzi a construção de um forte defronte da ilha, trabalho que envolveu uma cópia de gente e que só acabou em 1598, aqui se puseram 4 peças de artilharia, 6 mosquetes e 25 arcabuzes. Pensou-se igualmente na ilha fazer um fortezinho cujas obras acabaram também no final do ano de 1598. Hoje é uma recordação histórica, felizmente está preservado, ali perto começa a vilegiatura de muita gente, praias com muito cascalho até chegar ao areal, águas mansas, divertimentos vários, por ali se pedalam gaivotas e se contorna aquela ilha que nunca sai dos nossos olhos.





Foi uma semana de sonho, evidentemente que se visitaram as outras praias e mesmo Sines, tem-se amigos na Pensão Central, a Isabel e o Augusto, o Augusto, como sonha em ir trabalhar para a Guiné faz muitas perguntas ao avô enquanto a neta percorre a Pensão Central de alto a baixo, gralhando e com raio de felicidade. E aqui ficam imagens que recordam ditosos tempos, é de supor que há milhões de anos por aqui se deu uma fragmentação de grande tomo, todas estas toneladas de pedra se esfarelaram, entre a costa alentejana e a algarvia. Era uma vez uma neta perguntadora que não esqueceu nem esquecerá Sines, os saltos nas ondas, a boa mesa, o bom dormir, a ternura das histórias e as respostas a mil porquês. Passeou-se muito, entre Sines e Porto Covo. Qualquer dia aqui se volta, as vontades da neta merecem ser satisfeitas.






Em jeito de despedida, junto um bilhete-postal que a minha mãe recebeu de uns amigos na década de 1970, imagens da Praia Grande, Forte do Pessegueiro, Praia do Peixe e Jardim de Porto Covo, obviamente que houve grandes mudanças, foi irresistível não postar aqui esta relíquia.
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Nota do editor

Último poste da série de21 de dezembro de 2019 > Guiné 61/74 - P20478: Os nossos seres, saberes e lazeres (369): Elogio do Penedo do Granada, do Zêzere e do Cabril (2) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P20506: Pequeno dicionário da Tabanca Grande, de A a Z (7): edição, revista e aumentada, Letras F, G e H


Guiné > Bissalanca > BA 12 > 1973 > O helicanhão AL III, com a nova configuração de armamento. Créditos fotográficos: Grupo Operacional 1201 (comandamte : ten cor pilav Fernando Jesus Vasquez, hoje ten gen ref).

Foto do AL III 9377 na BA 12 em 1973 que é histórica e tem um certo interesse. Vemos o helicóptero armado com dois ninhos de foguetes SNEB de 37 mm e duas metralhadoras de 7.62 mm, tudo armamento que se usava no T-6G.  Na altura, por indicação do comandante do Grupo Operacional 1201 (ten cor pilav Vasquez) , foi testada esta configuração de armamento no AL III com vista a ser usada no TO, no caso de se verificar novos ataques em força contras os quartéis de fronteira.  O armamento foi testado em primeiro lugar acoplado a uma viatura na carreira de tiro da BA12 para ver se os suportes aguentavam a pressão das armas. Depois foi adaptado ao helicóptero e experimentado nos Bijagós.  Podemos também ver na imagem uma mira no lugar direito do helicóptero, que era a mira do Fiat calibrada para o AL III para pontaria das armas. Esta configuração nunca foi experimentada em combate, mas era uma possibilidade improvisada na BA12, que podia ter tido alguma utilização. 


Foto (e legenda): José Matos (2017) [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]






Guiné > Bissau > Bissalanca > BA 12 > Fiat G-91 R4: linha da frente da esquadra 121, "Os Tigres"

Foto (e legenda): © Mário Santos (2018). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné-Bissau > Região de Tombali > Parque Nacional de Cantanhez > Iemberém > 9 de dezembro de 2009 > 15h50 > Macaco fidalgo vermelho (ou fatango, em crioulo). Espécie, nome científico: Procolobus badius. Em inglês, western red colobus. É uma espécie ameaçada, fundamentalmemte devido à caça e à desflorestação.


Foto (e legenda): © João Graça (2009). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Pequeno Dicionário da Tabanca Grande, de A a Z 

[Em construção, desde 2007]





Letras F / H


1. Continuação da publicação do Pequeno Dicionário da Tabanca Grande (*), de A a Z, em construção desde 2007, com o contributo de todos os amigos e camaradas da Guiné que se sentam aqui à sombra do nosso poilão. Entradas das letras F, G e H:


F 86 Sabre  - Avião a jato, supersónico, que chegou a operar na Guiné, entre 1961 e 1965. Foi retirado por pressão dos norte-americanos. Foi substituído em 1966 pelo Fiat G-91.

Fala mantenha - Partir mantenha, cumprimentar, saudar (crioulo) 

Fanado - Festa da circuncisão, ritual de passagem da puberdade para a vida adulta (crioulo) 

Fanateca - Mulher que pratica a MGF – Mutilação Genital Feminina (crioulo)


FAP - (i) Forças Armadas Portuguesas; (ii) Força Aérea Portuguesa 

FARP - Forças Armadas Revolucionárias do Povo, a elite combatente do PAIGC 


Fatango - Macaco-fidalgo (crioulo). Colobus polykomos é uma espécie de macaco do Velho Mundo, que se pode encontrar, por ex., na floresta do Cantenhez.  

FBP - (i) Fábrica Braço de Prata; (ii) também nome dado a uma pistola metralhadora portuguesa, usada no início da guerra, feita na FBP 

Ferrugem - Serviço de Material; termo depreciativo, para o pessoal não-operacional, ligado ao SM) (gíria)

Festa, festival - Ataque aparatoso, ou flagelação, do PAIGC a aquartelamento ou destacamento das NT (gíria) 


Fiat G-91 - Caça-bombardeiro, com motor turbojato, monomotor monoplano, subsónico, de de fabrico italiano.
Fiju (lê-se: fidju) - Filho (crioulo)


Fiju di tuga - Filho de português (crioulo)(Há uma associação, em Bissau, com este nome)

Filhos do Vento - Filhos de militares portugueses, sem reconhecimento da paternidade nem da nacionalidade  


Firma - Estar, ficar, morar (crioulo)

Firminga - Formiga (crioulo)


FLING - Frente de Libertação e Independência Nacional da Guiné

Floresta-galeria - Floresta que forma um corredor ao longo dos rios e áreas húmidas e se projeta na paisagem, tornando-se esparsa em áreas de savana (por ex., floresta do Cantanhez, mata do Fiofioli)

Fogachal - Fogo intenso (em ataque ou emboscada)

Fogo de artifício - Flageações ou ataques, a aquartelamentos ou destacamentos vizinhos, vistos de longe (gíria)

Fornilho - Armadilha com cordão de tropeçar




Forte Apache - Destacamento do Cachil, feito com troncos de palmeira (cibe).
Guiné > Região de Tombali > Cachil > CCAÇ 557 (, Cachil, Bissau e Bafatá, 1963/65) > 

Foto falante..que não precisaria de legenda... Um dos piores lugares do inferno verde e vermelho que foi, para muitos de nós, a Guiné... Foto do álbum do José Colaço (ex-Soldado Trms da CCAÇ 557, Cachil, Bissau e Bafatá, 1963/65) (*)

Foto (e legenda): © José Colaço (2011). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Fotocine - Operador de imagem (fotografia e cinema); destacamento

Fur - Furriel

Fur Enf - Furriel Enfermeiro

Fur Mil - Furriel Miliciano

Fuzos - Fuzileiros especiais

FZE - Fuzileiro Especial (Marinha)


G3 - Espingarda Automática G-3

GAC 7 - Grupo de Artilharia de Campanha nº 7 (Bissau) (vd. BA7)

GA 7 - Grupo de Artilharia nº 7 (Bissau)

Gaita à bandoleira (Andar de) - Ter uma doença sexualmente transmissível, em geral blenorragia (ou 'esquentamento') (calão)

GB - Guiné-Bissau

Gen - General

Genti di mato - Turras, população sob controlo do IN (crioulo)

Gês - Força da gravidade (FAP)

Gila (lê-se djila) - Comerciante, vendedor ambulante, contrabandista (que circula pela Guiné e países vizinhos)

GMC - Viatura automóvel pesada, de rodado duplo atrás, de fabrico americano

GMD - Granada de Mão Defensiva

GMO - Granada de Mão Ofensiva


GO - Grupo Operacional (FAP)

Gorro Novo - Metralhadora Pesada Goryounov, Cal 7,62 mm M-943 SG (PAIGC, gíria)

Gosse, gosse - Depressa (vg, retirar no gosse, gosse) (crioulo)

Gouveia - Casa comercial ligada ao grupo CUF

Gr Comb - Grupo de Combate; pelotão

Gr Comb (-) - Grupo de Combate desfalcado

Gr Comb (+) - Grupo de Combate reforçado

Gr M Of - Granada de mão ofensiva

Grã-tabanqueiro - Membro da Tabanca Grande (blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)



Heli - Helicóptero

Helicanhão - Helicóptero armado com canhão de 20 mm (vd. Lobo Mau)(FAP)

HK 21 - Metralhadora Ligeira

HM 241 - Hospital Militar nº 241, Bissau

HMP - Hospital Militar Principal (Estrela, Lisboa)

Homem Grande - Chefe de Família (crioulo)



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Nota do editor:

Último poste da série > 3 de dezembro de 2019 > Guiné 61/74 - P20411: Pequeno dicionário da Tabanca Grande, de A a Z (6): edição, revista e aumentada, Letras D/E

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Guiné 61/74 - P20505: Feliz Natal de 2019 e Bom Novo Ano de 2020 (21): Fez-me bem passar por Runa. O coração voltou a sentir "aquela" emoção. Talvez por ser Natal (Armando Pires, ex-Fur Mil Enfermeiro)



1. Mensagem do nosso camarada Armando Pires (ex-Fur Mil Enfermeiro da CCS/BCAÇ 2861, Bula e Bissorã, 1969/70), com data de 26 de Dezembro de 2019:

Passei ontem por Runa e a memória levou-me de volta aos dias em que, no Hospital Militar, fui enfermeiro "acidental".[1]

Era no Serviço 5, Medicina Geral, no Anexo da Artilharia 1, em que estava colocado, que se prestava assistência aos veteranos da I Guerra Mundial, recolhidos no Lar Militar, em Runa, Torres Vedras.
Iam para consultas médicas, e internamentos se caso fosse. Reclamei para mim a exclusividade do seu acompanhamento.

Era eu que me certificava das horas certas para os medicamentos, que lhes dava as refeições, que lhes dava banho.
A hora do banho era sempre um grande momento.
Passava horas a conversar com eles, a ouvir-lhes histórias antigas, da família e da guerra, mas a hora do banho é que era.

- Ó ti Chico, este... já não serve para nada, vamos mas é cortá-lo que só está aqui a atrapalhar.

Eles morriam de riso e eu de felicidade por os ver sorrir assim. - Talvez por ver neles os meus avós maternos que tanto adorava.

Acontece que fui de férias.
E na volta, falou-me o 1.º Sargento-Enfermeiro que chefiava o Serviço.
- Você arranjou aqui um bonito serviço. Vieram dois homens de Runa, perguntaram por si, disseram-lhes que você tinha ido de férias e eles queriam ir embora, que só vinham quando você cá estivesse.

Fez-me bem passar por Runa.
O coração voltou a sentir "aquela" emoção.
Talvez por ser Natal.
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Notas do editor

[1] - Vd. poste de 5 de novembro de 2012 > Guiné 63/74 - P10622: Furriel enfermeiro, ribatejano e fadista (Armando Pires) (2): Enquanto não chegar a evacuação, ao meu lado ninguém morre! ... Promessa cumprida! (Parte I)

(...)
Eu nunca fui enfermeiro. A colocação de um penso rápido deve ter sido o que me deixou mais próximo dessa actividade. Quando o Luís Graça me sugeriu como titulo para esta série, “Furriel enfermeiro, ribatejano e fadista” (*), aceitei não por ser uma marca distintiva de mim mas, como escreveu o poeta, por as coisas andarem todas ligadas.
Ribatejano sim, nasci em Santarém. Fadista, aceito na medida em que, naquele tempo e sem modéstia nenhuma, não era nada mau a cantar. Enfermeiro, só o fui por ser ribatejano e fadista.

Quando chegou a hora de assentar praça, Janeiro de 67, o meu destino era a Escola Prática de Cavalaria, em Santarém. Mão invisível desviou-me a trajectória para o Regimento de Infantaria 5, nas Caldas da Rainha. Havia muita gente que não se conformava com a ideia de que a disciplina e as regras militares lhes roubasse “o artista”.

Assim, longe da vista, Caldas com ele. Foram três meses dedicados à tropa e à noite.
Finda a recruta, o comboio levou-me para Tavira, onde no CISMI seria preparado para a especialidade de atirador. As saudades das amigas e dos amigos, da noite e do fado, que estavam a 380 Kms de distância, tornaram devastadora aquela primeira semana ali metido.

Chega segunda-feira e entra um gajo a segredar-nos que conseguira uma cunha do caraças, que ia dar baixa ao hospital, que ia para Lisboa e etc., provocação suficiente para pôr em marcha toda a minha capacidade inventiva.

Acontece que numa certa tarde de domingo, na praça de touros da Figueira da Foz, a promessa de forcado que eu era, levou um encontrão de um touro que lhe deixou fortes mazelas nas 3.ª e 5.ª vértebras lombares. Morreu ali o forcado mas eu ganhara um motivo para, tempos depois, gritar ao alferes que comandava a marcha naquela manhã de segunda-feira, por entre gemidos e ais, que a minha coluna claudicara.

Vim nessa tarde para Lisboa, de ambulância, de baixa ao hospital militar. Deixemos de lado a parte da medicina e vamos à hora das decisões. Que fazer depois da alta? Para onde ir?
Se forem à minha “carta de apresentação” aqui na Tabanca, vão lá encontrar escrita esta parte da história que decidiu o meu futuro militar.

À entrada do Parque Mayer havia um bar (ainda lá se veem as ruínas) chamado Dominó, ponto de encontro e de partida para o que de melhor a noite tinha para nos oferecer. Numa dessas noites, foi ali que uma amiga me disse que tinha uma amiga que, por sua vez, tinha um amigo que trabalhava nos serviços mecanográficos do exército. Na noite seguinte, juntámo-nos os quatro à mesa e ele perguntou o que pretendia eu.
- Ficar em Lisboa, pá. Quero ficar aqui, vê lá o que se arranja. Trabalho na rádio, talvez possa ir para foto-cine.

Diz-me que em Lisboa só dava para enfermeiro.
- Que se lixe, pá. Eu quero é ficar aqui.

E foi assim, ficando as coisas todas ligadas, que nasceu o “furriel enfermeiro, ribatejano e fadista”. Três meses de displicentes presenças nas aulas teóricas de enfermagem a que se seguiram mais três meses de estágio, passados nas diversas enfermarias do Hospital Militar.
(...)

Último poste da série de 26 de dezembro de 2019 > Guiné 61/74 - P20500: Feliz Natal de 2019 e Bom Novo Ano de 2020 (20): Mesmo cansados da guerra..., votos de que possamos continuar a partilhar memórias (e afetos)... Ah!, e obrigado por tudo: confiança, lealdade, apoio, "fair play", tolerância, cumplicidade, amizade, camaradagem... (Os editores)

Guiné 61/74 - P20504: Notas de leitura (1250): Missão cumprida… e a que vamos cumprindo, história do BCAV 490 em verso, por Santos Andrade (38) (Mário Beja Santos)



1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 15 de Julho de 2019:

Queridos amigos,
Era dever elementar tentar uma contextualização da "média duração" do período embrionário do nacionalismo guineense até aos anos de arranque da luta armada, isto para melhor entender as atribulações em que vivia o BCAV 490 e as dores e atribulações que o bardo notifica no seu longo poema. É curioso o que Silva Cunha escreveu em "O Ultramar, a Nação e o 25 de Abril", em 1977, a propósito da sua visita à Guiné onde foi confrontado com a falta de resposta adequada a uma guerrilha que fora metodicamente planeada para irradiar entre a região Sul, o Corubal e o Morés, havia a expetativa de, com as populações em fuga e o desmoronamento económico, fosse impossível repulsar a guerrilha. Silva Cunha atribui a responsabilidade em parte ao diferendo entre o Governador e o Comandante-Chefe, julgava-se que Arnaldo Schulz, na unificação dos poderes político-militares, operasse um milagre. O que não aconteceu, mesmo passando os efetivos de 10 mil para 25 mil homens, por razões que todos nós hoje conhecemos, não era uma questão de fé nem de bravura nem de habilidade na liderança, não se suspeitava de que aquele adversário ia gradualmente ganhando consciência de que o seu armamento era muito mais sofisticado do que o português.
O tempo e a determinação fizeram o resto.

Um abraço do
Mário


Missão cumprida… e a que vamos cumprindo (38) 

Beja Santos 

“Nos fins da nossa comissão
continuamos a lutar.
Da 487, 3 companheiros
foram feridos ao retirar.

Todos os dias alinhamos
não conseguimos descansar.
Para a estrada patrulhar
grandes martírios passamos.
Emboscadas apanhamos
nesta nossa transição,
carregamos os géneros de alimentação
e bebida para se beber.
Mas continuamos sempre a sofrer
nos fins da nossa comissão.

Do Batalhão de Cavalaria
todos os homens são arrojados,
passam-se uns maus bocados,
mas temos sempre valentia.
O bando de rebeldia
armadilhas nos vem armar.
Os Sapadores a examinar
algumas vão levantando,
enquanto o tempo se vai passando
continuamos a lutar.

24 homens se emboscaram
perto da mata cerrada,
passaram lá a madrugada
até que os bandidos chegaram.
Grande ataque travaram
morrendo muitos bandoleiros.
O grupo de traiçoeiros
pensou em nos cercar,
e tiveram então azar
da 487 3 companheiros.

Um tiro no pulso apanhou
o amigo Augusto Ribeiro.
Foi perto de um carreiro
que o Amaro ferido ficou.
O António Francisco também levou
uns tiros ao regressar,
tiveram que o evacuar
junto aos seus camaradas.
Por haver muitas rajadas
foram feridos ao retirar.”

********************

Enquanto o bardo não pára de clamar os sinistros, as muitas canseiras, a expetativa do fim da comissão militar, voltamos à companhia de Leopoldo Amado, pedindo-lhe colaboração para o grande plano de fundo em que evoluiu a luta armada, talvez o exercício valha a pena para melhor se clarificar as atribulações em que viveram as gentes do BCAV 490 e companheiros próximos como a CCAÇ 675. Num extenso ensaio intitulado “Da embriologia nacionalista à guerra de libertação na Guiné-Bissau”, inserido no livro “Guineidade & Africanidade”, Edições Vieira da Silva, 2013, Leopoldo Amado vai até aos alvores do nacionalismo guineense na década de 1950, recorda as independências nos países limítrofes, a presença crucial de Amílcar Cabral a partir do outono de 1952 até 1955, quando regressou com a mulher, ambos bastante combalidos com paludismo, a criação do MING – Movimento para a Independência da Guiné, que será uma das alavancas do PAI (depois PAIGC), os acontecimentos de 3 de agosto de 1959 no Pidjiquiti, o processo sinuoso da fundação do MLG – Movimento de Libertação da Guiné, as decisões tomadas em Bissau em 1959, em que Rafael Barbosa é constituído como o dínamo da subversão, recrutando jovens para Conacri, a presença de Cabral em Conacri onde irá fundar a Escola Piloto, o envio, em 1960, de 25 elementos para a formação ideológica e militar na Checoslováquia e outros 30 para a China e 5 para a União Soviética, enquanto decorre a mobilização no mundo dos agricultores. Dentro desta trajetória, é desencadeada a partir de fevereiro de 1960 uma operação de difusão de panfletos e comunicados subscritos pelo Movimento de Libertação da Guiné, as autoridades locais informam Lisboa, a conta-gotas chegam unidades militares. É tido em consideração um histórico de aproximações e roturas entre grupos pró-independentistas, com um extenso corolário de lutas renhidas em território senegalês e da Guiné Conacri. 1962 é o ano da prisão de importantes quadros do PAIGC na Guiné enquanto se prepara a operação subversiva a partir da região Sul, certificado igualmente que na região do Morés há condições excecionais para desencadear e fazer irradiar a luta armada. A questão interminável dos diferendos entre grupos e grupúsculos acaba por pôr frente a frente a FLING e o PAIGC, no ano seguinte é o PAIGC que ganha o reconhecimento internacional inequívoco.

Resolvido um grave problema relacional entre as autoridades da República da Guiné e o PAIGC por causa de armamento que entrava à sorrelfa através do porto de Conacri, e que chegou mesmo a levar à detenção de responsáveis como Aristides Pereira, Luís Cabral e Vasco Cabral, questão que foi resolvida com o regresso de Amílcar Cabral, iniciava-se a mobilização da população no Sul.
Vale a pena dar a palavra a Leopoldo Amado:  
“A região ao Sul do rio Geba e a Oeste do rio Corubal tem o aspecto de uma gigantesca mão cujos dedos, apontados para o Atlântico, formam alongadas e sucessivas penínsulas separadas pelos rios Grande de Buba, Tombali, Cumbijã e Cacine, apresentando uma óptima configuração para a prática de guerrilha, na medida em que essas penínsulas são extraordinariamente recortadas por centenas de canais e de rios que quase as atravessam de um lado ao outro, não menosprezando, neste particular, a enorme amplitude das marés, quando as águas sobem, mesmo na época seca, em que as margens dos rios e dos braços ficam alagadas em enorme extensão, tanto mais que toda a terra é excepcionalmente plana e baixa.
Compreende-se assim a razão por que, na altura, as estradas eram poucas e más e porque todas elas dispunham de inúmeras pontes e pontões. A destruição destas obras, fácil de levar a cabo, determina o isolamento terrestre das povoações que passam a ficar dependentes da navegação fluvial ou das ligações aéreas. O PAIGC, conhecendo bem o terreno, escolheu justamente a região Sul para nela iniciar uma actuação que supunha poder levar a cabo com relativa rapidez e facilidade”.

Decorre o segundo semestre de 1962 num estado de agitação permanente que fragmenta a economia, apavora as populações, é-se obrigado a tomar partido, uns partem sobre a proteção do PAIGC, outros apelam às unidades militares mais próximas. Está dado o mote para a separação das águas.

Leopoldo Amado

Voltando ao texto de Leopoldo Amado, em julho foi criada a Frente Norte, na região de Mansoa – Mansabá – Farim. Isto não esquecendo que provocado o estilhaçamento no Sul se atravessou o Corubal, atacando a povoação do Xime, era nítido que o PAIGC procurava estender a sua atividade para mais longe. Mansoa é uma das portas da região do Oio, região de florestas densas e quase sem estradas.

E o historiador escreve:
“Em 30 de Junho de 1963, um grupo armado do PAIGC inutilizou a jangada de Barro, no rio Cacheu, a qual garantia a ligação entre aquela localidade e Bissorã, indiciando esta acção a intenção de atacar toda a região. Efectivamente, a 1 de Julho foram alvejadas viaturas entre Binta e Farim. Em 2, os grupos guerrilheiros do PAIGC tentaram destruir com explosivos diversas pontes e pontões nas estradas Olossato – Farim, Olossato – Mansabá e Mansoa – Nhacra. Montaram também uma emboscada na estrada Mansoa – Bissorã, fazendo cinco feridos às tropas do Exército português. Em 4 atacaram Binar, onze quilómetros a leste de Bula e Olossato, entre Bissorã e Farim. Em Binar mataram o régulo e raptaram o encarregado do Posto Administrativo. Em Olossato saquearam as casas comerciais. Em 6 de Julho, ao entardecer, os grupos guerrilheiros do PAIGC emboscaram uma força de Mansabá, quando esta regressava de um reconhecimento ao Morés. Na noite de 12 para 13, outros grupos destruíram vários pontões na estrada Olossato – Mansabá. E em 18 atacaram Encheia, onde não havia qualquer força militar. A situação deteriorou-se depois, o Exército português, apesar dos esforços esperados feitos para recorrer aos pontos atacados. Os efectivos militares eram, porém, muito escassos. Pelo contrário, o PAIGC dispunha de numerosos grupos, todos dotados de armamento relativamente aperfeiçoado e abundantes munições. A breve trecho, em grande parte da região do Oio, as populações nativas, aterrorizadas pelos contendores, ou faziam causa comum com eles ou eram expulsas das suas tabancas. Aquelas que resistiam ou que queriam manter-se neutrais, eram castigadas ou dizimadas e as suas tabancas incendiadas. Assim aconteceu em Bigene, Canfandá, Mamboncó, etc.”

Leopoldo Amado regista a evolução da luta armada na região Sul, com mais cortes de estradas, destruição de pontões, flagelações, colocação de abatises, lançando o pandemónio nos transportes, inclusive foi incendiado o barco a motor da carreira Bolama – Ponta Bambaiã. O fornecimento de armamento é cada vez maior, as autoridades portuguesas estão confusas quanto à dimensão da atuação do PAIGC. Por falta de efetivos, as unidades militares sentiam-se impotentes para fazer frente ao ataque metódico às infraestruturas rodoviárias.
Mais uma vez se dá a palavra a Leopoldo Amado:
“Além de criar um vácuo que lhe proporcionasse refúgio seguro em Morés, o PAIGC pretendeu também inutilizar os eixos rodoviários de interesse económico como sejam os de Mansoa – Mansabá – Bafatá, por onde se escoava boa parte da mancarra produzida pelo Leste da Guiné e alguma da madeira cortada na região do Oio. Aliás, Mansabá constituía um importante cruzamento de estradas, pois por ela passam, além do eixo Mansoa – Bafatá, os de Bissorã – Bafatá e Farim – Mansoa. Daí que, a certa altura, parecesse ser intenção do PAIGC de isolar Mansabá. Esta actuação fez diminuir o trânsito rodoviário para o Leste da Guiné com o que ficaram sobrecarregados os já congestionados transportes fluviais do rio Geba”.

As informações obtidas pela PIDE não eram suficientes para asfixiar ou repulsar o movimento subversivo. Havia enorme expetativa do que se iria passar a Norte, Senghor era ainda extremamente prudente com o tráfego das armas, via nesta fase com desconfiança o PAIGC, tinha um grave contencioso com Conacri. A situação vista do lado português é de acalmia na Península de Bissau e no Arquipélago dos Bijagós, o “chão manjaco” não aceita interferência do PAIGC e de Bafatá para o Gabú os Fulas asseguram fidelidade à soberania portuguesa. Silva Cunha visita a Guiné e constata a crispação existente entre o Governador Vasco Rodrigues e o Comandante-Chefe Louro de Sousa. Irá escrever, depois do 25 de Abril, que “Do nosso lado, não havia uma ideia de manobra bem definida e, o que era mais grave, não se acreditava que fosse possível resistir eficazmente ao adversário. As nossas guarnições estavam distribuídas pelo território numa quadrícula nem sempre bem concebida, mantendo-se nos aquartelamentos, numa posição de pura defensiva. Praticamente não havia forças de intervenção e se nessa altura não sofremos um revés sério foi mais por falta de força dos adversários do que em resultado da nossa acção”. Há, pois, neste período de 1963 a 1965 alguns “olhos do furacão”, o BCAV 490 está num deles, assim se compreende a aflição do bardo, registando pelos seus nomes os camaradas sinistrados.

(continua)
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Notas do editor

Poste anterior de 20 de dezembro de 2019 > Guiné 61/74 - P20474: Notas de leitura (1248): Missão cumprida… e a que vamos cumprindo, história do BCAV 490 em verso, por Santos Andrade (37) (Mário Beja Santos)

Último poste da série de 23 de dezembro de 2019 > Guiné 61/74 - P20490: Notas de leitura (1249): “Dias Sem Nome, Histórias soltas de um médico na guerra da Guiné”, por João Trindade; By the Book, edições especiais, 2019 (1) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P20503: FAP (114): O helicóptero Alouette II


Foto nº 1 > Guiné > Região de Tombali > Guileje > CCAÇ 726 (Out 64 / Jul 66) > O pessoal em operações militares: na foto, acima, transporte às costas de um ferido, evacuado para o HM 241, em Bissau, por um helicóptero Alouette II (versão anterior do Alouette III, que nos era mais familiar, sobretudo para aqueles que chegaram à Guiné a partir de 1968).


Foto nº 2 > Guiné > Região de Tombali > Guileje > CCAÇ 726 (Out 64 / Jul 66) > "O heli [, aqui a descolar,]  era o Alouette II (dois). O que está na foto nº 1 já tem rodas, os que conhecia eram todos com patins. Nesta altura, os feridos eram transportados no "caixão" que eu destaquei a amarelo. Podes imaginar como arrepiante seria viajar, amarrado e bem amarrado, naquele cubículo do lado de fora da carlinga" (Jorge Félix) (*)..

Foto (e legenda): © Alberto Pires (Teco) / Jorge Félix (2009). Todos os direitos reservados.[Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

Foto nº 3 > Guiné > Região do Oio > Jumbembem > CART 730 (1964/66) e CCAÇ 1565 (1966/68) > Domingo, 10 de julho de 1966 > Um dia trágico: pormenor da evacuação do cap mil inf Rui Romero, na foto a ser transferido para a maca do helicóptero Alouette II... A enfermeira paraquedista era a alf Maria Rosa Exposto.

Foto ( e legenda): © Artur Conceição (2007). Todos os direitos reservados.  [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Foto nº 4 > Guiné > Região de Quínara > Tite > Agosto/Setembro de 1965 > Alouette II. Foto do álbum de Santos Oliveira, ex-2.º Sarg Mil Armas Pesadas Inf do Pel Mort 912, Como, Cufar e Tite, 1964/66.

Foto (e legendas): © Santos Oliveira (2008). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Foto nº 5 > Guiné > Região do Oio > Porto Gole > Arnaldo Schulz ao lado do piloto do helicóptero;  Fevereiro de 1967 > A despedida: em segundo plano, no banco de trás, duas caixas de cerveja, Sagres e Cristal; em primeiro plano, à esquerda, um cabo especialista da FAP e, à direita, o fur mil Viegas, do Pel Caç Nat 54, com camuflado paraquedista trocado com um camarada numa operação no Morés em outubro de 1966. A aeronave parece ser um Alouette II.

Foto (e legenda) : © José António Viegas (2015). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Foto nº 6  > Guiné > Região de Tombali > Catió > CCAÇ 617 / BCAÇ 619 (Catió, Ilha do Como e Cachil, 1964/66) > Alouette II > "O meu batismo em heli"...

Fotos (e legendas): © João Sacôto (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Tancos > Base Aérea nº3 > 1967 > 1.º Curso de Pilotos de Helicópteros, onde pela 1.ª vez também foram incorporados milicianos, segundo informação do Jorge Félix, aqui, junto a um Allouette II, no meio dos seus camaradas, onde se inclui o Duarte Pio de Bragança [e não Duarte Nuno de Bragança, como por lapso escreveu o Jorge Félix]

Os primeiros pilotos milicianos de helicópetros da FAP > 14 de Março de 2008 > "Éramos oito milicianos (Eu, Antolin, Cavadas, Melo, Baeta, Pinto e Duarte) e três da Academia Militar (Braga, Afonso e Costa).

O Pinto faleceu em Outubro de 2007, em Lisboa, vítima de doença. O Oliveira faleceu no acidente de aviação em Tancos, em 72 ou 73. Estes dois companheiros estiveram comigo na Guiné. O Melo anda em sítio incerto na Venezuela (vou saber pormenores da 'chatice' que foi a vida dele por lhe terem roubado um Allouette III da FAP). O Baeta faleceu em Gago Coutinho, Angola, Março de 1969, num acidente, voo nocturno, Heli. O Cavadas também já faleceu em acidente de Heli, andava nas pulverizações, no Alentejo. O Antolin está de perfeita saúde, Comandante da TAP reformado, a viver em Lisboa. O Duarte é... Sua Alteza D. Duarte Pio de Bragança, esteve em Angola [... e não em Moçambique...] e vive em Lisboa. O Pinto, também reformado da TAP, faleceu há quatro meses. Do Braga, Afonso e Costa, sei muito pouco (...)..

Foto (e legenda): © Jorge Félix. Todos os direitos reservados [Cortesia de: Blogue do Victor Barata > Especialistas da BA 12, Guiné 1965/74.] (**)


Guiné > Algures > Jorge Félix, allf mil pil heli Al III (BA 12, BA 12, Bissalanca, 1968/70) e António Spínola (Com-Chefe e Governador Geral, CTIG, 1968/73)... O tratamento por "pilav" era reservado aos pilotos-aviadores que vinham da Academia Militar. Não sabemos exatamente em que data chegaram, à BA 12, Bissalanca, os Alouette III. A partir de 1969, o fabricante francês destaca para a BA 12 um técnico de manutenção, o Pierre Fargeas (nascido em 1932) e que se tornou um grande amigo de Portugal e do pessoal que passou pela BA 12 entre 1969 e 1974. A sua esposa, Ivette Fargeas, também o acompanhou. (***)

Foto (e legenda): © Jorge Félix (2010). Todos os direitos reservados.  [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. O que muito de nós não sabem (ou não sabiam) sobre o heli Alouette II, antecessor do Alouette III

(i) Maria Arminda Santos (****)

(...) "A partir daí a guerra na Guiné estava instalada e assim que foi possível fomos colocadas na Base de Bissalanca, para o início das evacuações aéreas com enfermeiras. Havia os aviões Auster e os helicópteros Alouette II; nestes não nos era possível acompanhar de perto os feridos, os quais eram transportados fora do helicóptero, numa espécie de caixas colocadas por cima dos patins do heli, uma de cada lado. Nos Auster a maca quase entrava pela cadeira ao lado do piloto e na cauda do avião. 

"Felizmente mais tarde chegaram os DO-27 e os Alouette III, onde passámos a fazer inúmeras evacuações, adaptando e modificando os meios sanitários e a nossa actuação, com a finalidade de uma mais eficaz prestação de cuidados aos feridos, os quais iam sendo cada vez em maior número. Infelizmente tivemos que chegar a fazer evacuações no Dakota, quando havia ao mesmo tempo muitos feridos e a pista era adequada para a sua aterragem." (...)  


(ii) Wikipedia > Aérospatiale Alouette II (em português)

(... ) O Alouette II é um helicóptero ligeiro, produzido, sob diversas versões, pelo construtor aeronáutico francês, SNCASE, que em 1957 deu origem à Sud Aviation, em 1970 à Aérospatiale, em 1992 à Eurocopter e que em 2000 passou a integrar a EADS (...)

Foi o primeiro helicóptero do mundo, motorizado com turbina a gás a ser certificado para voo.

As versões militares eram usadas essencialmente em, fotografia aérea, observação, salvamento marítimo. ligação e treino. Na parte civil era usado essencialmente na evacuação médica principalmente em grande altitude, tirando partido do seu motor de turbina. (...)

(...) O Alouette II foi o segundo modelo de helicóptero ao serviço da Força Aérea Portuguesa, a seguir ao único Sikorsky UH-19 operado desde 1954. Foram recebidas sete unidades em 1957, começando a ser operadas no ano seguinte, uma das quais seria destruída por acidente.

Com o início da Guerra do Ultramar, os seis helicópteros remanescentes foram enviados para Angola, de onde operaram a partir das bases aéreas do Negaje e de Luanda. Foram utilizados sobretudo para evacuações sanitárias e para ligações. A partir de abril de 1963, começaram a ser substituídos em Angola pelos recém adquiridos Alouette III, sendo enviados para a Guiné Portuguesa onde se tinha aberto uma nova frente. Também neste teatro de operações começaram a ser substituídos por Alouette III, sendo quatro transportados num DC-6 para a nova frente de Moçambique em 1966. Foram finalmente completamente substituídos operacionalmente pelos Alouette III e pelos Puma, sendo todas as unidades colocadas na Base Aérea de Tancos na função de instrução, onde serviram até 1976. (...)
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Notas do editor:


(***) Vd. poste de 1 de dezembro de 2013 > Guiné 63/74 - P12375: Roteiro de Bafatá, a doce, tranquila e bela princesa do Geba (Fernando Gouveia) (7): By air... (Vídeo de Jorge Félix / Pierre Fargeas)

Guiné 61/74 - P20502: Parabéns a você (1731): José Pedro Neves, ex-Fur Mil Op Esp da CCAÇ 4745 (Guiné, 1973/74)

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Nota do editor

Último poste da série de 25 de dezembro de 2019 Guiné 61/74 - P20498: Parabéns a você (1730): Ismael Augusto, ex-Alf Mil Manut do BCAÇ 2852 (Guiné, 1968/70)

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Guiné 61/74 - P20501: Álbum fotográfico de João Sacôto, ex-alf mil, CCAÇ 617 / BCAÇ 619 (Catió, Ilha do Como, Cachil, 1964/66) e cmdt da TAP, reformado - Parte XIII: Um heli Alouette II, oficiais do batalhão e outras fotos


Foto nº 1 > Guiné > Região de Tombali > Catió >  CCAÇ 617 / BCAÇ 619 (Catió, Ilha do Como e Cachil, 1964/66) > Alouette II > "O meu batismo em heli"... 


Foto nº 2 > Guiné > Região de Tombali > Catió >  CCAÇ 617 / BCAÇ 619 (Catió, Ilha do Como e Cachil, 1964/66) > Oficiais do batalhão



Foto nº 3 > Guiné > Região de Tombali > Catió >  CCAÇ 617 / BCAÇ 619 (Catió, Ilha do Como e Cachil, 1964/66) >  Comando do batalhão, mais oficiais da CCS,. CCAÇ 617 e CCç 619... E o inseparável e lendário Toby...



 Foto nº 4 > Guiné > Região de Tombali > Catió >  CCAÇ 617 / BCAÇ 619 (Catió, Ilha do Como e Cachil, 1964/66) >  O João Sacôto mais o cor inf Matias, cmdt do batalhão.



Foto nº 5 > Guiné > Região de Tombali > Catió >  CCAÇ 617 / BCAÇ 619 (Catió, Ilha do Como e Cachil, 1964/66) >  O João Sacôto numa viatura "bindada"


 Foto nº 6 > Guiné > Região de Tombali > Catió >  CCAÇ 617 / BCAÇ 619 (Catió, Ilha do Como e Cachil, 1964/66) >  A artilharia (obus 8,8) em ação


Foto nº 7 > Guiné > Região de Tombali > Catió >  CCAÇ 617 / BCAÇ 619 (Catió, Ilha do Como e Cachil, 1964/66) >  O João Sacôto no espaldão da Browning 12.7


Foto nº 8 > Guiné > Região de Tombali > Catió >  CCAÇ 617 / BCAÇ 619 (Catió, Ilha do Como e Cachil, 1964/66) > A matança da vaca.

Fotos (e legendas): © João Sacôto (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Continuação da publicação do álbum fotográfico do João Gabriel Sacôto Martins Fernandes:


(i) ex-alf mil, CCAÇ 617 / BCAÇ 619 (Catió, Ilha do Como e Cachil, 1964/66);

(ii) trabalhou depois como Oficial de Circulação Aérea (OCA) na DGAC (Direção Geral de Aeronáutica Civil);

(iii) foi piloto e comandante na TAP, tendo-se reformado em 1998.

(iv) estudou no Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (ISCEF, hoje, ISEG):

(v) andou no Liceu Camões em 1948 e antes no Liceu Gil Vicente; (vi) é natural de Lisboa; (vii) casado;

(viii) tem página no Facebook (a que aderiu em julho de 2009, sendo seguido por mais de 8 dezenas de pessoas);

(ix) é membro da nossa Tabanca Grande, desde 20/12/2011;

(x) já viajou por mais de 50 países.

2. Estas são mais algumas fotos do álbum... A do heli Alouette II é relativamente rara... 

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Nota do editor:

Último poste da série > 11 de dezembro de 2019 > Guiné 61/74 - P20441: Álbum fotográfico de João Sacôto, ex-alf mil, CCAÇ 617 / BCAÇ 619 (Catió, Ilha do Como, Cachil, 1964/66) e cmdt da TAP, reformado - Parte XII: Mais fotos da população de Catió, com destaque para as mulheres e bajudas

Guiné 61/74 - P20500: Feliz Natal de 2019 e Bom Novo Ano de 2020 (20): Mesmo cansados da guerra..., votos de que possamos continuar a partilhar memórias (e afetos)... Ah!, e obrigado por tudo: confiança, lealdade, apoio, "fair play", tolerância, cumplicidade, amizade, camaradagem... (Os editores)


O meu natal... pagão, em Alfragide. 

Foto: Luís Graça (2019)


Amigos e camaradas da Guiné, caros/as leitores/as

O Natal devia ser "manga de ronco", para  usar uma expressão dos meus antigos soldados fulas... Ontem desejei, aos crentes e aos não crentes, um Natal "manga de ronco" para todos/as... 

E acrescentei, sem ser anjo nem mensageiro de ninguém, "paz na terra aos homens de boa vontade"... 

Gosto da mensagem, que continua a ser uma mensagem poderosa, mesmo sem quaisquer efeitos práticos... O mundo continuava, ontem, a ser um lugar feio, injusto e perigoso para se viver... Mas é nele que temos de viver, nós, os nossos filhos, os nossos netos... Não temos nenhuma varinha mágica para o mudar... Mas a mudança começa em nós... Se ele ficar um pouco melhor para o ano, ótimo!... Não, desculpem lá, não pode ser "um pouco melhor", tem de ser "muito melhor"...Sejamos realistas a desejar, e ambiciosos a concretizar os nossos desejos.


E que, internamente, na nossa Tabanca Grande, em 2020 possamos continuar, aqui, a partilhar memórias e afetos... Mesmo "cansados da guerra"... 

Ah!, e obrigado por tudo: confiança, lealdade, apoio, "fair play", tolerância, cumplicidade, amizade, camaradagem... 

O editor, Luís Graça, em nome (ou julgando estar a traduzir também o pensamento e o sentimento) de os  demais coeditores e colaboradores permanentes do blogue.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

Guiné 61/74 - P20499: Historiografia da presença portuguesa em África (193): Relatório Anual do Governador da Guiné (1921-1922) - Velez Caroço e um relato incontornável para a história da Guiné (2) (Mário Beja Santos)



1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Janeiro de 2019:

Queridos amigos,
O Governador Velez Caroço encontrou a Guiné pacificada, ou quase (haverá operações na região Bijagó, ainda insurgente), traz carta branca para pôr cobro à moleza e à corrupção, encontra uma resistência feroz da classe mercantil de Bolama, o Governo de Lisboa está sem dinheiro, a crise financeira na Guiné é acentuada, Velez Caroço toma medidas, verga um antigo Secretário-Geral da Colónia, consegue ultrapassar a questão dos cambiais, caminha sempre em cima da lâmina, reorganiza serviços, lança-se no fomento em plena crise fiduciária.
É o nome sonante da governação republicana na Guiné, bem merecia um estudo mais aturado à sua obra.

Um abraço do
Mário


Velez Caroço e um relato incontornável para a história da Guiné (2)

Beja Santos

A I República não ofereceu grandes vultos governativos na Guiné. A figura excecional, que se irá projetar no trabalho dos governadores seguintes, como Leite Magalhães, Carvalho Viegas ou Ricardo Sá Monteiro, é Jorge Velez Caroço, teve dimensão político-cultural e entusiasmo para deixar obra. Apanhou a paz, tinha suficiente prestígio político (era Senador) para atacar interesses instalados de gente inescrupulosa. E o mais relevante deste relatório, correspondente ao seu primeiro ano de gerência, foi a dinâmica introduzida. Já se falou do saneamento das contas, do seu pensamento sobre a política indígena, vamos continuar. Reorganizou o seu gabinete e a secretaria do Governo.
É neste momento que ele vai afrontar um tabu, a questão cabo-verdiana, veja-se o que ele envia ao Ministro das Colónias:
“Sabido é por todos os funcionários que por aqui têm transitado, que, devido à falta de instrução nesta colónia, não podem os nativos preencher os lugares que vagam nas diferentes repartições, até mesmo os de simples amanuenses. A Província encontrava-se enxameada de empregados recrutados em Cabo Verde e que, com raras exceções, as suas habilitações e competências não iam além das manifestadas pelos nativos. São raros os cabo-verdianos que falam português. A linguagem por eles empregada, até mesmo no desempenho dos seus cargos oficiais, é esse estropiado dialeto que nos envergonha aos olhos dos estrangeiros. O português ouve-se falar em Bolama e Bissau por alguns funcionários e comerciantes portugueses. Os próprios estrangeiros que forçados pela sua vida comercial se vêm obrigados a aprender a língua da colónia aprendem e falam o crioulo, julgando falar o português! A obra de desnacionalização desta colónia era lenta, mas era contínua e persistente. É preciso que não se continue a dizer que a Guiné Portuguesa é uma colónia de Cabo Verde. Façamos do guineense um cidadão português com plena consciência dos seus direitos e correlativos deveres, e assim, prestando-lhe esse serviço, cumprimos ao mesmo tempo um dever patriótico ligando esta região pelo comunismo de ideias, pela conjugação de interesses e pelo amor e veneração à mesma bandeira, à terra onde nascemos e que para todos, europeus e coloniais, será sem distinções mãe extremosa”.

Velez Caroço estudara os dossiês à exaustão, daí a profundidade com que fala dos serviços da Fazenda, da política aduaneira, do movimento comercial e marítimo, dos serviços de fomento da Província, cuidando até ao pormenor do que se tinha feito nas obras públicas, satisfeito com os serviços novos, com a radiotelegrafia, registando o que se estava a fazer na saúde e nos serviços da Marinha, lembrando que se concluíra o edifício do Observatório Meteorológico em Bolama, bem como a modernização que puder imprimir aos serviços militares.
Dá igualmente conta das explorações agrícolas, é interessante o que ele nos diz:
“As explorações agrícolas mais importantes da Província são as existentes na região de Bambadinca-Bafatá. Entre elas destaca-se a dirigida pela Companhia de Fomento Nacional, que na sua exploração tem já empregado quantiosas somas. Todas estas explorações são dignas de protecção, pois do seu desenvolvimento resultarão fatalmente grandes benefícios para a Província, ensinamento para o indígena, familiarizando com os modernos engenhos, aperfeiçoadas alfaias agrícolas, emprego de tracção animal, aperfeiçoamento da pecuária, modernos processos de sementeira de arroz, cana-sacarina, milho, etc., serração de madeiras, construção de carros – tanto na parte referente a obra de carpintaria como na relativa a ferragens”.

Debruça-se sobre a pecuária, os correios e telégrafos, o orçamento colonial, exalta a honestidade de funcionários cumpridores, enumera o muito que há a fazer no setor da saúde; mais adiante, analisa os serviços da Marinha e os melhoramentos que prevê mandar executar.
E deixa um retrato duríssimo sobre os serviços militares:
“Encontrei as unidades militares da Província em condições de não poderem prestar qualquer serviço de valia, caso a elas tivéssemos de recorrer, quer para a manutenção da ordem nas populações urbanas, quer as tivéssemos de empregar para dominar qualquer revolta do gentio.
Os soldados não têm disciplina, não tinham instrução militar, nem mesmo sabiam fazer uso da arma que lhes estava distribuída. Mantinham-se as aparências, porque os indígenas são respeitadores da autoridade do branco e isto, para olhos profanos, podia dar a ilusão de haver disciplina militar. Afinal, eles distinguiam-se dos outros indígenas, simplesmente porque vestiam uma farda de caqui, em geral mal feita e deselegante.
Impunha-se uma nova organização acabando com a caótica composição das companhias mistas de infantaria e artilharia que ninguém sabe para que serviam, desdobravam-se em uma companhia de artilharia de guarnição com sede em Bissau, e em duas companhias de infantaria indígena, uma com sede em Bissau, outra em Bolama.
A instrução dos quadros tem sido lamentavelmente descurada. As exigências de competência e aptidão dos postos inferiores das tropas coloniais são mínimas, e assim chega-se a dar ingresso no quadro dos oficiais sem cultura correspondente às exigências do meio social em que vão viver e sem preparação militar para o desempenho das múltiplas obrigações hoje impostas a um oficial”.

É minucioso, daí a relevante importância que tem este documento para o estudo da Guiné no arranque da década de 1920: dá-nos conta do funcionamento da Imprensa Nacional, do municipalismo, do ensino, do fomento, até do pessoal administrativo das circunscrições. No final do seu relatório apensa documentos e dados estatísticos de grande importância. Junta-se uma imagem curiosa do croqui da Guiné Portuguesa em 1922, a ser verdade o que ali se escreve sobre etnias dominantes, os Fulas-Pretos, os Fulas-Forros e os Futa-Fulas ocupariam quase metade do território, Beafadas e Nalus a zona do Quinara e do Tombali, a norte temos Banhuns, Baiotes, Cassangas e depois os Mandingas, até chegar ao Oio, os Papel predominariam em Bissau. É um croqui interessante mas há sérias dúvidas que tenha validade para estudos etnológicos e até antropológicos.


Recomenda-se a todos os interessados por estudos desta natureza que releiam a obra “A Presença Portuguesa na Guiné, História política e militar, 1878-1926”, por Armando Tavares da Silva, Caminhos Romanos, 2016, a partir da páginas 762, estão ali dados extremamente úteis sobre a governação de Velez Caroço, o relato das hostilidades que encontrou, destaca-se este relatório, as operações militares empreendidas nos Bijagós, a ação de fomento por ele empreendida.
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Nota do editor

Último poste da série de 18 de dezembro de 2019 > Guiné 61/74 - P20467: Historiografia da presença portuguesa em África (192): Relatório Anual do Governador da Guiné (1921-1922) - Velez Caroço e um relato incontornável para a história da Guiné (1) (Mário Beja Santos)