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sábado, 3 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28398: O vinho... pró branco de 2ª e pró tinto de 1ª (5): o "uísque de Sacavém"

 


O "whisky" (em inglês, sem aspas) "preferido por quem sabe" (sic)...Anúncio do "Diário de Lisboa", no tempo em que se começou a fazer grande publicidade ao "Scotch Whisky", bebida até então seleta mas a partir daí cada vez mais popular entre os combatentes da guerra do Ultramar (e dos "colonos" de África)... Era um dos "presentes" mais cobiçados na época, entre amigos e familiares... Traziam-se caixotes de garrafas de uísque de Guiné, de Angola, de Moçambique, no regresso das comissões de serviço militar. Algumas, as últimas, vamo-las esvaziando ainda hoje nas efemérides mais importantes que celebramos: a partida do T/T Niassa ou do T/T Uíge, os cinquenta anos da "peluda", as bodas de ouro, os 75 ou 80  anos de vida, os almocos-convívio da Tabanca da Linha...

Nos bares de "alterne", da grande Lisboa, da Reboleira aos Cais do Sodré,  mas também seguramente na "noite do Porto" bebia-se muito uísque marado, "batizado",  que ficou popularmentre conhecido como "whisky de Sacavém"... Lembro-me ainda na tropa, nas Caldas da Rainha ou em Tavira, ter conhecido o "capitão Vat 69"... 


1. "Uísque de Sacavém" e "vinho a martelo" são duas das expressões mais castiças e conhecidas do calão português para designar bebidas alcoólicas falsificadas, adulteradas ou de péssima qualidade, muitas vezes associadas ao mercado negro e à vivência popular das décadas de 1960 e 1970.


A elas junta-se frequentemente a "água de Lisboa", uma expressão mais antiga, de que falaremos em próximo poste.

Há testemunhos de antigos combatentes recordando os soldados fulas (que eram abstémios, por imposição da sua cultura e religião)  a dizerem, com bastante graça, “água de Lisboa, manga de cabeça grande!”,  isto é, uma bebida que embriagava (como o vinho de palma, consumido pelos "cristãos" / grumetes e  "animistas" / balantas, papéis, etc....)  e que não era necessariamente de má qualidade ("água de Lisboa manga de sabi").

O que poucos sabem é a origem e o significado da expressão "uísque de Sacavém", apesar de ter estado muito em voga durante a guerra colonial em que os portugueses começaram a ter acesso, em África, ao bom uísque escocês, bebida até então só para ricos e estrangeirados.

2. E porque não "uísque do Beato" ?  

No Beato, Poço do Bispo, Marvila, na margem direita do estuário do rio Tejo, havia grandes armazéns de vinho, onde se dizia que o vinho era "batizado" com a água do Tejo, e daí talvez a origem da expressão "água de Lisboa", como chamavam os nossos camaradas guineenses ao vinho da Intendência... 

Mas a origem desta última expressão deve ser mais antiga, relacionada com o abastecimento de água a Lisboa, no início do séc. XVIII e com os impostos que eram cobrados sobre o vinho e os gnéneros alimentícios para financiar a construção e o funcionamento do Aqueduto das Águas Livres.

A verdade é que também se dizia,  em Portugal, nessa época (anos 60/70) que "da água também se fazia vinho"... A frase, injustamente, era atribuída ao grande agricultor e empresário Abel Pereira da Fonseca, com vinhas no Bombarral e armazéns no Beato

O Beato/Poço do Bispo/Marvila era efectivamente uma extensa zona ribeirinha de Lisboa, onde os grandes armazenistas e comerciantes de vinho a granel eram "reis". E o nome de Abel Pereira da Fonseca aparece inevitavelmente nesta história. Na memória popular ficou uma frase que provavelmente nunca saiu da boca do Abel Pereira da Fonseca, em versões diferentes: “Enquanto houver água no Tejo, nunca há-de faltar vinho a Lisboa.” Ou: “Lembrem-se, meus filhos, que até da água se faz vinho.”

Não encontrámos fonte histórica suficientemente sólida para afirmar que ele tenha realmente pronunciado essas palavras, e muito menos à hora da morte. Elas pertencem às "anedotas popular" criadas em torno dos grandes armazenistas de vinho de Lisboa.

Mas essa anedota ganhou uma segunda vida entre os militares que passaram pela guerra colonial / guerra do ultramar. No caso da Guiné, aparece documentada a expressão “água de Lisboa” para designar depreciativamente o vinho fornecido pela Intendência. Ou seja, como sinónimo de vinho "batizado" (e, pior ainda, a "saber a cânfora", que era para tirar a tusa aos combatentes do mato: excesso de testosterona afetava o moral da tropa, suspeitavam os senhores da guerra).
 
“Água de Lisboa” e “vinho de Sacavém” são duas alcunhas com geografias diferentes. 
Não é fácil, na ausência de investigação séria sobre estes tópicos, de encontrar o fio à meada...Há. contuda, uma  pequena histórias de 1966 que liga Sacavém ao uísque falsificado...

3. Uísque de Sacavém: a  falsificação lendária
De facto, o "produto" até tem certidão de nascimento. Ou melhor, a expressão. Terá nascido a 5 de fevereiro de 1966, quando o jornal Diário Popular noticiou o desmantelamento da primeira fábrica de uísque falsificado em Portugal, localizada justamente num armazém em Sacavém.
 Quando a guerra do Ultramar, já ia a meio, acrescentamos hoje nós (que sabemos que ela acabou em 1974, mas em 1966 todos já pensávamos que ia ser a guerra dos 100 anos, e que iria sobrar para toda a nossa geração).
O esquema era engenhoso: os falsificadores compravam garrafas vazias de marcas escocesas conceituadas (como Johnnie Walker ou Vat 69) e enchiam-nas com uma mistura bombástica de álcool etílico puro, um cheirinho de uísque verdadeiro e pastilhas corantes para imitar a cor original. O álcool puro era comprado, ao garrafão, dia sim dia não, numa farmácia próxima na "fábrica clandestina" onde se martelava a mistela...
O "Diário Popular" desse dia refere que "o caso despertou a maior curiosidade entre a população de Sacavém, interrogando-se então, apreensivamente, algumas pessoas acerca da verdadeira origem das garrafas de whisky que adquiriram em data mais ou menos recente» (Fonte: Diário Popular,  nº 8373, de 5 de fevereiro de 1966, 24º ano de publicação, pág. 17.)
O produto era vendido clandestinamente a bares, buates e cabarés de Lisboa e arredores. O caso gerou tanta troça popular que a gíria "uísque de Sacavém" passou a designar qualquer bebida alcoólica contrafeita, barata ou que causasse uma ressaca terrível no dia seguinte.
Portanto, o “uísque de Sacavém” tem uma origem histórica muito concreta e datável — a falsificação descoberta em 1966. Alguns apreciadores (?) desta bebida consideravam até ser difícil distinguir esta falsificação do produto original... O problema não era a cópia ser melhor do que o original, mas sim a inexistência de um tradiçáo de consumo de uísque escocês em Portugal.  

Este acontecimento teve grande repercussão, dando origem a muitas piadas. Havia quem pedisse, na brincadeira, um “whisky de Sacavém”, nome pelo qual ficou popularmente conhecida esta falsificação que apresentava rótulos de consagradas marcas escocesas.  

Já a “água de Lisboa” parece ser uma alcunha popular muito mais antiga e difusa, alimentada pelos impposto ssobre o vinho, pela fama dos grandes armazéns vinícolas lisboetas e pela proverbial suspeita de que o vinho destinado aosmercados africanos ("o vinho p'ró preto") (isto é, para o branco de 2ª, o colono, e o preto de 1ª, o assimilado) era de qualidade inferior.

E há ainda uma deliciosa inversão colonial: o soldado português ia para África e descobria o "Scotch whisky" genuino (importado exclusivamente para as Forças Armadas Portuguesas e fornecidas, sem impostos, pela Intendência aosl "heróis de Portugal" que combatiam pela Pátria em África, enquanto o guineense olhava para a garrafa de vinho que vinha de Lisboa e chamava-lhe, entre deliciado e desconfiado,  "água de Lisboa.”

Estas expressões ajudam-nos a reconstituir a história através de três bebidas: o “Scotch” genuíno,  o “uísque de Sacavém”, marado,  e a “água de Lisboa” / "vinho a martelo",  três expressões que dizem muito sobre a sociedade portuguesa dos anos 60/70 e sobre a experiência colonial / ultramarina / africanista de todos nós.  (vd.  Sons de Abril da RTP/Antena 1).
 
Acrescente-se que, na altura, nos famigerados anos 60/70 (em que já se avolumavam os sinais premonitórios do fim de uma época e do regime de Salazar), era frequente aparecer no mercado vinho de proveniência duvidosa, popularmente conhecido por "vinho a martelo". Porém, segundo as autoridades da época, parece ter sido a primeira vez que uma fábrica de whisky falsificado, como a de Sacavém em 1966,  foi descoberta em Portugal. 

E em 1972 rebenta o escândalo da adição de aguardentes não vínicas ao vinho do Porto, um dos mais sérios golpes na qualidade e na fama deste vinho generoso que chegou a constituir, até fiansi  do séc. XIX, o principal produto de exportaçáo do país. O "vinho a martelo"  feito no Oeste e no Ribatejo em muito contribuiu para essa prática fraudulenta.

4. Símbolo de "status" da classe média

Importa ainda acrescentar, para melhor contextualizar o problema, que o "Scotch" (por antonomásia, o nome para o uísque) vai tornar-se em Portugal nos anos 60/70 do séc. XX um símbolo de "status" e de ostentação, associado ao novo riquismo e à emergência de uma nova classe média na época marcelista e no pós-25 de Abril.
Este fenómeno sociocultural coincidiu com uma fase de transição económica e política no país, refletindo as mudanças profundas da sociedade portuguesa da época. Durante os anos 60 e princípios de 70, Portugal viveu um período de "boom", de crescimento económico industrial e o surgimento de uma nova burguesia (muitas vezes associada a fortunas rápidas feitas na metrópole ou em África). Beber "Scotch"  era "fino", era a forma perfeita de este grupo exibir o seu recém-adquirido poder de compra.
Num país como o nosso, sujeito a uma ditadura de  4 décadas, fechado, tradicionalista,   conservador,  consumir um produto importado e caro (devido às taxas alfandegárias e fiscais) como o "whisky" escocês funcionava como um passaporte de sofisticação, modernidade, cosmopolitismo e ligação à Europa (o novo o"eldorado", depois da poerda do império...). 
O vinho e o "bagaço", pelo contrário,  eram vistos como produtos da  taberna e das casas de comida de bairro, as bebidas das classes populares e do mundo rural. Quem queria distanciar-se dessas origens e afirmar-se na elite urbana adotava o "whisky".
Ter então um espaventoso "bar de sala" em casa, com  garrafas de "Scotch" bem visíveis (como o Johnnie Walker, J&B ou Vat 69), passou a ser obrigatório na nova classe média... Era chique servir um "whisky" às visitas!
Para estas mudanças operadas no consumo de bebidas alcoólicas muito contribuiu, como já o dissemos acima,  a nossa experiência de África (os 13/14 anos de guerra), sem esquecer o "regresso das caravelas",  fluxo de mais de meio milhão de retornados  vítimas da "descolonização".
Após o 25 de Abril, o prestígio do "Scotch" manteve-se, se bem o que perfil do consumo tenha mudado ligeiramente com a democratização do acesso a novos bens importados. Coincidindo com a adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia (CEE), em 1986, o panorama das superfícies comerciais no país sofreu uma revolução sem precedentes. O forte crescimento económico, as ajudas europeias, o investimento estrangeiro e o  aumento do poder de compra  ditaram a transição do comércio tradicional e pulverizado (a mercearias de bairro) para os formatos modernos de hipermercados, grandes centros comerciais, etc.
Em resumo, hoje provavelmente, passados 60 anos, já ninguém se lembra do "uísque de Sacavém".  

Confesso que não sei se chegou a haver, na Intendência, casos notórios de falsificação, em grande escala, do precioso líquido que vinha, da Escócia para a Guiné, "with love", para dessedentar a tropa portuguesa e  retemperar o  ânimo dos combatentes... 

Ainda bebi algum do bom na Guiné (para não dizer "manga de garrafas"...), com "auguinha" de Perrier. Hoje raramente bebo um "visquinho"... Tal como já não fumo há mais de 3 décadas e meia...Hábitos que trouxemos da guerra que nos calhou em sorte...
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Nota do  editor LG:

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28390: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (41): a "vinha de enforcado" ou "uveira"





Foto nº 1, 1A, 1B

Foto original, a preto e branco. In: Aguiar, P. M. Vieira de - Descrição Histórica, Corográfica e Folclórica de Marco de Canaveses. Porto: Esc Tip Oficina de S. José. 1947, pág. 375  (Com a devida vénia).

Restauro, melhoria técnica e colorização digital: Blogue Luis Graça & Camaradas da Guiné +  AI (Gemini / Google), 2026.



1. Já não é do meu tem
po a "vinha de enforcado", na Quinta de Candoz, Paredes de Viadores, Marco de Canaveses, onde comecei a ir a partir de 1975. E onde casei em 1976. Mas recordo-me, antes da modernização da nossa vinha (meados da década de 1980), já só existiam videiras nas bordaduras ("ramadas") e que o essencial da produção era o milho, algum centeio e erva para o gado, mais a policultura tradicional (produtos hortofrutícolas). 

Mas havia vizinhos que tinham "vinha de enforcado" e muitos pés de "produtores diretos", com o famigerado jaquê, uma casta de uvas da espécie híbrida de origem norte-americana (proibida em França e em Portugal, em 1935).

Alguns dos nossos leitores, e nomeadamente camaradas do nosso tempo, oriundos do Minho e de Entre-Douro-e-Minho, ainda se lembram, por certo, destas "uveiras"  e do cabo dos trabalhos que era a vindima nesse tempo...com recurso a escadas. que podiam "ter dezasseis degraus com cerca de doze metros de comprimento" (Aguiar, 1947, pág. 374).

Além disso, a realidade das décadas de 1940 a 1950, em que nascemos, no Portugal rural era de extrema pobreza e subsistência. E a vida era muito marcada pela dureza do trabalho agrícola, nomeadamente da região do Vinho Verde.  

O vestuário de trabalho masculino no campo, incluindo nas vindimas,  consistia em calças de panos grosseiros, riscados simples ou cotim já muito gastos, frequentemente repletos de remendos sobrepostos para prolongar a vida útil da única roupa que possuíam (Foto nº  1A). 

Não se trata de miserabilismo neorrealista, era a realidade pura e dura, para mais num concelho como o Marco de Canaveses. Muitos andavam descalços ou usavam socos. (**)

De acordo com os dados históricos e análises da estrutura fundiária da época (associados ao Inquérito Agrícola de 1952 e às estatísticas agrícolas publicadas ao longo da década de 1950), o concelho de Marco de Canaveses tinha mais de metade (50%) dos seus agricultores numa situação de rendeiros.

A região de Entre-Douro-e-Minho, onde o concelho se insere, caracterizava-se tradicionalmente pelo minifúndio e por uma elevadíssima taxa de exploração da terra sob regimes de arrendamento e parceria (agrícola e pecuária,  formas pré-capitalistas de produção). 

 Esta era uma das brutais realidades socioeconómicas dominantes neste concelho, antes da grande vaga de emigração das décadas seguintes. Terra, de resto, de gente ilustre, como a cantora Carmen Miranda (1909-1955),  o general Carlos de Azeredo (1930-2021) ou o empresário Belmiro de Azevedo (1938-2017).
 E olhando estas fotos antigas (agora restauradas...), pergunto-me: quanto pesavam estes cestos de vime, carregados de uvas ? 
Nas décadas de 1930, 1940 e 1950, estes cestos tradicionais de vime (frequentemente chamados de canastras ou gigas) carregados de uvas pesavam, em média, entre 40 kg e 60 kg quando totalmente cheios. O peso final variava consoante alguns fatores na época: 

(i)  estes cestos tinham habitualmente uma capacidade que variava entre os 40 e os 50 litros; como 1 litro de uvas compactadas equivale a pouco mais de 1 kg, o peso das uvas rondava essa mesma fasquia; (ii) feitos de vime denso ou ripas de castanheiro, os cestos vazios já eram pesados por si só, pesando entre 3 kg e 5 kg; se estivessem húmidos ou impregnados com o mosto de utilizações anteriores, ficavam ainda mais pesados: (iii)  importante notar que existiam cestos maiores, os chamados "cestos vindimos" (típicos de regiões como o Douro): eram carregados às costas maioritariamente por homens e podiam atingir uns impressionantes 70 kg a 100 kg.; para conseguir equilibrar e suportar estas cargas monumentais diretamente no topo da cabeça sem sofrer lesões imediatas, as mulheres utilizavam a "sogra" ou "rodilha"  (uma proteção de pano ou palha enrolada visível sob o cesto da camponesa à direita) (Foto nº 1B).



por Augusto Pinto Soares (Gusto) (2005)


(...) Era o tempo em que a data da vindima era marcada de acordo com as disponibilidades dos outros lavradores do lugar ou das proximidades, para que, os pais e os filhos (normalmente mais de seis por família) pudessem distribuir-se na ajuda a prestar uns aos outros. Era o sistema comunitário, a "serviçada", a funcionar.

Então era ver, manhã cedo, homens e rapazes com escadas de madeira (até 12 passos) às costas, com a cesta de vime com o cambito pendurado ao ombro, em romaria às várias propriedades onde a vindima se ia realizar.

Iniciado o corte das uvas, após um frugal mata-bicho – bagaço com açúcar e um naco de broa de milho e centeio –, as conversas, os ditos, as interjeições iam-se sucedendo entre os homens e as mulheres, procurando assim animar os espíritos e dar algum intervalo às dores de costas dos homens, que para além de constantemente terem de mudar as escadas pesadas entre as uveiras altas – as vides como que serpenteavam os choupos que serviam de armação: a tradicional vinha de "enforcado" – ainda tinham, quantas vezes, de se encarrapitar para fora da escada de forma a chegar a um cacho de uvas que teimava em ficar a amadurecer por mais algum tempo.

As mulheres, essas, no seu corrupio entre as leiras e a adega com os cestos de vime pesados à cabeça e com o sumo das uvas, de tão calcadas, a escorrer-lhes pela cara e costas abaixo,  chegavam afogueadas e com o suor adocicado.

Até as crianças e moçoilas, ainda sem idade para acartar cestos, tinham o seu quinhão na azáfama da vindima. Como diz o ditado, “o trabalho do menino só não o quer quem não tiver tino “, e então era vê-las, cada qual com o seu açafate, empenhadas na sua válida tarefa de apanhar todo e qualquer bago que caísse ao chão, pois desperdiçar era proibido e muitos bagos (envolvidos em terra ou sem ela) sempre davam mais uns quantos litros de vinho.

Aqui e ali ouviam-se os "cantaréus", ao despique, efectuados por 3 ou 4 moças que se juntavam junto às bordas, no intervalo de mais um carreto de cestos e que, ecoando vale abaixo, indicavam aos vizinhos que ali se vindimava e qual o seu estado de alma. (...)



2. A "vinha de enforcado" (também conhecida tradicionalmente como "uveira") é um sistema ancestral de condução da vinha típico do Minho e da região do Vinho Verde.

A ideia básica é simples e "economicista": em vez de postes de madeira, pedra, metal ou betão, a videira (até quatro) é plantada junto de uma árvore e conduzida pelo tronco até à copa. utiliza-se um tutor vivo. Em geral, árvores como choupos, ulmeiros, plátanos, carvalhos, nogueiras, etc.

A própria planta ajuda. A Vitis vinifera é uma trepadeira: as suas gavinhas permitem-lhe prender-se a suportes enquanto os lançamentos procuram espaço e luz. O agricultor aproveitou essa capacidade natural e transformou-a num sistema de produção racional: ganhava superfície útil para outras culturasA videira crescia até grande altura — muitas vezes entre os 3 e os 6 metros (ou mais) — e a folhagem e os cachos de uva ficavam pendurados nos ramos das árvores, daí a designação "enforcado".

Origem, ao que parece romana, da "vinha de enforcado":


(i) numa região de minifúndio (propriedades agrícolas pequenas e muito divididas, e muitas em terrenos em socaldo, roubados à floresta de castanheiro e de caravalho) e de economia de subsistência, a "vinha de enforcado" permitia rentabilizar a terra ao máximo: o solo por baixo das árvores ficava livre para as culturas de regadio do ciclo de verão (milho, feijão, hortaliças, cebolas, pasto para o gado, etc.;

(ii) o elevar as uvas bem acima do solo, protegiam-se os cachos da humidade excessiva do chão e de doenças fúngicas (como o míldio), além de permitir uma melhor exposição solar no topo das copas;

(iii) trata-se de uma técnica milenar de origem romana (arbustum), muito difundida no Noroeste Peninsular ao longo dos séculos, e nomeadamente a partir da Idade Média;

(iv) em cntrapartida, a colheita nestas vinhas era uma tarefa exigente e perigosa; os vindimadores subiam a altas escadas de madeira afuniladas no topo (as chamadas escadas de moinho ou "escadas de ponta") para colher os cachos pendurados na copa das árvores, transportando as uvas em pesados cestos de verga;

(v) a partir do anos 60/70, com a emigração, a modernização da viticultura, a lenta entrada de maquinaria, a reorganização da Região Demarcada do Vinho Verde, as exigênciasdo mercado, as preocupações com a segurança alimentar e o controlo de qualidade, etc.,  a "vinha de enforcado" foi sendo progressivamente substituída por sistemas de condução modernos, como o cordão simples, o cruzeta ou a ramada/pérgola.

Apesar de ser hoje rara e considerada um património etnográfico e de biodiversidade em risco de extinção, ainda é possível encontrar uveiras em algumas explorações tradicionais do Minho e de Entre-Douro-e-Minho, em concelhos como Lousada, Guimarães e  
Cabeceiras de Basto.



Legenda: "10- Vinha de enforcado Fotografia da vinha de enforcado. Este sistema consiste em guiar a vinha por árvores altas e deixar os terrenos agrícolas para outras culturas. Aqui vê-se homens empoleirados em altas escadas de madeira a tratar da vinha. Duas pessoas seguram numa das escadas e as outras duas limpam o terreno".

Foto (e legenda): Biblioteca Digital do Cávado // Câmara Municipal de Vila Verde (Com a devida vénia).
 

(Pesquisa: LG + Blogue A Nossa Quinta de Candoz + Guia Rural + IA)

(Condensação, revisão/ fixação de texto: LG)

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Notas do editor LG:

(**) Último poste da série > 14 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28345: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (40): A Venda de Medas, aliás, de "Emendadas" (segundo o António Carvalho, autor do romance "3 x 44: Abel e Caim em Contrapé", Porto, ed. Vida Económica, 2026, pp. 33/37)

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27514: Casos: a verdade sobre... (60): Não se faz a guerra sem álcool (nem tabaco)



Guiné < Região do Cacbeu > Jolmete > CCAÇ 3306/BCAÇ 3833 (Pelundo, Có e Jolmete, 1971/73)> . outubro / novembro de 1972 > O álcool é euforizante e socializante... O tabaco, ansiolítico... Foto do álbum do ex-fur mil Augusto Silva Santos (vive em Almada).


Foto (e legenda): © Augusto Silva Santos (2016). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné > Região de Quínara > Nova Sintra CCAV 2483 (1969/80) : Num mês, talvez atípico, com o de junho de 1970, a escassos, dois ou três meses de mudarem para Tite (sede do sector S1) onde foram acabar a comissão (setembro/dezembro de 1970), os camaradas desta subunidade gastaram 89,4 contos, na cantina (que era comum a oficiais, sargentos e praças). 46% desse valor foi em cerveja e uísque. 89,4 contos (=30,7 mil euros, a valores de hoje) era bastante dinheiro: a dividir por 160 militares, dava 560 escudos "per capita"  (=192 euros, a valores de hoje). (*)

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradasa da Guiné (2025)




I. Temos falado aqui aberta, desinibida e francamente sobre o consumo de cerveja, uísque, vinho  e outras bebidas alcoólicas pelos militares portugueses durante a guerra colonial na Guiné, entre 1961 e 1974...

 Tínhamos acesso a bebidas nacionais (cerveja, vinho, brandy, porto...) e importadas (uísque, gin, vodca, conhaque...). Claro que não havia bar aberto...

É difícil, se não impossível,  definir padrões e níveis de consumo, na ausência de estudos sobre o tema (que não os  há, ou são escassos, ou sofrem de limitações metodológicas). 

Quando muito , podemos socorrer-nos de alguns indicadores indiretos: compras nas cantinas, por exemplo. Ou testemunhos de antigos combatentes. Mas nem todas as compras são consumos imediatos de álcool: a maior parte das garrafas de uísque, sobretudo do uísque velho, bem como de conhaque, era para guardar e levar para a metrópole.E em muitos sítios, as cantinas estavam separadas; os oficiais e sargentos tinham as suas messes e o seus bares. Por outro lado, são  raros os registos dos consumos (ou das compras) nas cantinas (*).

Mas também reconhecemos que, do lado dos combatentes do PAIGC, essa prática está ainda pior  documentada. Ou é de todo ignorada. A maior parte parte dos historiógrafos, de um lado e do outro, não valoriza aspetos da vida quotidiana dos combatentes como os "comes & bebes".
 
Ora, o que sabemos da História é que nunca se fez a guerra sem álcool (ou outras drogas). Matar e morrer é a experiência-limite do ser humano. Não imagino o Inocêncio Cani (que eu não sabia que tinha sido catequista!) a matar o Amílcar Cabral, à porta de casa, a sangue frio. Tinha que estar com a "cabeça grande", sob o efeito do álcool. O mesmo para os matadores do Pelundo, os carrascos dos 3 majores e seus acompanhantes  em abril de 1970.

O consumo de álcool, de um e do outro lado da "barricada", na guerra da Guiné (1961/74) está mal documentado. Pelo menos do outro lado, do lado do PAIGC.

 A documentação é desigual, mas o padrão geral é claro: o álcool (e o tabaco)  fazia parte do quotidiano da guerra, com implicações sociais, psicológicas e logísticas. (**)

1. Militares portugueses na Guiné (1961–1974)

(i) Disponibilidade e tipos de bebidas

Cerveja era comum nas unidades portuguesas, especialmente marcas nacionais enviadas pela Manutenção Militar (Sagres e Cristal).  À Guiné não chegava a cerveja angolana nem moçambicana, nem convinha aos cervejeiros metropolitanos.

Aliás, a mobilização de centenas de milhares de homens ao longo do conflito (1961/75) nos 3 teatros de operações (mais o resto do império, de Cabo Verde a Timor), foi uma oportunidade de ouro para a indústria cervejeira nacional.

Uísque, aguardente, vinho e licores eram consumidos sobretudo por oficiais e sargentos, bem aqueles que tinham melhores possibilidades logísticas ou económicas. Por exemplo, bebi-se melhor em Bissau, Bambadinca e Bafatá. A Marinha, por sua vez, bebia (e comia) muito melhor que o Exército...E  também não ouvimos queixas da Força Aérea.

No que diz respeito à tropa do recrutamento local, grosso modo podemos dividi-la em muçulmanos, animistas e cristãos ou assimilados. 

 Regra geral, os nossos militares muçulmanos (nomeadamente fulas) eram "abstémios" por imperativo religioso. Mas o contacto com os "tugas", levou-os a apreciar a "água de Lisboa"... Não bebiam cerveja nem vinho à frente dos "homens grandes", até por que muitos (CCaç 12, CART 11, por exemplo, a quem demos instrução em Contuboel) ainda eram "meninos de sua mãe"!... A guerra fê-los crescer mais depressa, a eles e a nós. (De resto, o argumento para serem desarranchados era não poderem comer  carne de porco nem beber álcool.)

Os restantes (animistas, cristãos, e sobretudo os mais urbanos, de Bissau...) tanto consumiam as bebidas locais (como a aguardente de cana e o vinho de palma) como não desgostavam da "água de Lisboa". E faziam-no publicamente, confraternizando connosco.

(ii)  Funções do álcool
  • Lazer e coesão: beber em grupo ajudava a criar um sentimento de companheirismo (à mesa) e camaradagem (na caserna, no mato...)  em situações difíceis; bebia-se em grupo, os bebedores solitários seriam a exceção à regra.
  • Socialização, ritual social: celebrações, aniversários, outras efemérides (data da chegada à Guiné, por exemplo),  momentos de descompressão entre operações, e até o ritual do “comes & bebes" nos dias de folga, ou ao fim da tarde; ou nas idas a Bafatá...(a "civilização", o "oásis", para a malta do Leste).
  • Claustrofobia, mecanismo de escape: muitos ex-combatentes relatam que o álcool servia para "esquecer" (a guerra, a solidão, as saudades de casa...):  certamente para aliviar a exaustão física, o stress, o medo, as insónias e até o trauma, o que hoje se reconheceria como sintomas de stress pós-traumático; o ambiente nos aquartelamentos e destacamentos, cercados de arame farpado e com o perímetro exterior armadilhado, e vivendo muitos militares em "bunkers", e por vezes sem população,  era claustrofóbicos; um ambiente propenso à depressão, ao conflito, à violência interpessoal, e ao consumo de álcool; já relatámos aqui alguns  acidentes mortais com "arma de fogo", associados ao ao álcool.
  • Ambiente de caserna: o consumo era normalizado e raramente reprimido, exceto em casos de indisciplina evidente; cada uma das 3 "classes" em presença (nobreza, clero e povo,  com eu chamava aos oficiais, sargentos e praças) tinham os seus locais próprios de "libação": messes, bares, caserna, refeitório, escapes citadinos como Luanda, Bafatá, Safim, Nhacra, etc.

(Iv) Problemas derivados

Há relatos de alcoolismo em certas unidades, embora geralmente omitidos nos relatórios oficiais. Pode haver referências nos autos por acidentes de viação ou acidentes com   arma de fogo (suicídios, homicídios, automutilação, ameaças, e outras formas de violência). Mas todas estas situações são tratadas com pinças...

Alguns comandantes tentavam limitar o consumo antes de operações, mas o controlo era difícil e desigual. Aqui funcionava mais o autocontrolo e o controlo pelos pares ( a nível de secção e pelotão). Obviamente, ninguém podia ir "alcoolizado" para o mato ou para uma coluna. 

A verdade é que não havia ainda testes de alcoolémia na guerra, para nenhuma das 3 armas (Exército, Marinha e Força Aérea). Nem sequer os condutores ou  os pilotos sopravam no balão (uma invenção tardia).

O clima tropical, o desgaste físico, o cansaço agravavam os efeitos do álcool. Ao fim de alguns meses, dizia-que o militar "estava apanhado do clima" ou "cacimbado",

2.A tropa do PAIGC

A documentação sobre o consumo de álcool nas hostes do PAIGC é mais escassa. Não há números. A guerrilha valorizava a disciplina, e o controlo disciplinar e ideológico seria mais rígido. Ainda assim, há elementos que surgem por fontes orais e memórias.

(i) Consumo existia, mas era vigiado

Em várias regiões da Guiné era comum o fabrico e consumo de vinho de palma, aguardente de cana e outras bebidas tradicionais. Os "chefes" chegavam ter  os seus  "tiradores" privativos!

Guerrilheiros jovens, longe das aldeias, das famílias e em longas marchas, emboscadas, operações, etc., podiam recorrer,  ao álcool em momentos de pausa. (Isso também acontecia no nosso lado, era a ocasião em que se apanhavam os "pifos de caixão às cova").

Grande parte dos guerrilheiros do PAIGC eram balantas e de outras etnias animistas, grandes consumidores de álcool (aguardente de cana, vinho de palma...). Tal como não largaram os amuletos, também não romperam com os seus hábitos, a sua cultura, os seus rituais. Podia era haver era menos oferta de álcool, no mato.

(ii) Disciplina política

O PAIGC (ou  o seu  ideólogo, e comandante-chefe, Amílcar Cabral) desencorajava fortemente o consumo excessivo, associando-o à “fraqueza revolucionária”.

Alguns veteranos referem punições internas ou advertências para quem bebesse antes de ações militares. Mas não sabemos como funcionava o autocontrolo e o controlo  por pares. Rui Djassi, Osvaldo Vieira e outros "comandantes" tinham problemas de álcool..

(iii) Funções do álcool (semelhantes às das tropas portuguesas)

Alívio do stress, convivência, e momentos de pausa nos acampamentos. Afinal éramos todos de carne e osso, pesem embora as diferenças culturais.

Em certas áreas, o álcool fazia parte de cerimónias tradicionais que se mantiveram mesmo durante a luta armada ("choro", etc.)

(iv)  Subregisto histórico

A imagem oficial do PAIGC como movimento altamente disciplinado (cultivado por Amílcar Cabral, para efeitos  de "marketing político")  levou a que estes aspetos da vida quotidiana nas "áreas libertadas" ficassem menos documentados ou na obscuridade, 

Os santos não têm pecados. Os gajos eram moralmente superiores aos tugas, Durante algum tempo vendeu-se essa falsa imagem.

Investigadores da história social da guerra admitem que a dimensão humana e informal da guerrilha está ainda pouco estudada, incluindo "comportamentos desviantes" como  consumo de álcool, rituais, amuletos,  sexo, violência (contra crianças, bajudas, mulheres e velhos...), indisciplina, conflitos,  drogas locais,  relações tribais, etc.


3. Inquérito "on line"

Recorde-se aqui os resultados do inquérito "on line" que realizámos em 2016: "Nunca apanhei nenhum pifo de caixão à cova na tropa ou no TO da Guiné"

Votos apurados: 102
Sondagem fechada em 15/3/2016 | 18h04



(i) Nunca > 31 (30,4%)


(ii) Uma vez, por acaso > 25 (24,5%)


(iii) Duas vezes > 10 (9,8%)


(iv) Três vezes > 4 (3,9%)


(v) Mais vezes > 26 (25,5%)


(vi) Não me lembro > 5 (4,9%)


(vii) Não aplicável: não bebia > 1 (1,0%)


Total > 102 > (100,0%)


Em 102 respondentes só um  disse que não bebia.   Mais de 60% (n=65) respondeu que sim, que apanhou um pifo de caixão à cova, uma, duas, três ou mais vezes.  Só 5% respondeu que não se lembrava.

Tal como hoje,  teríamos basicamente três  perfis: (i) abstémios / não-bebedores  (subrepresentados na nossa amostra) (são hoje cerca de 1/4 da população, dos 15 aos 74 anos); (ii) os 3/4 já consumiram álcool na vida; 1/4 bebe diariamente e outros tantos serão bebedores sociais; (iii) bebedores excessivos ou de risco serão uns 3,5%... Claro que os homens bebem mais do que as mulheres...

Enfim,  não dá para comparar com a nossa pequena amostra de conveniência...





Marca de cigarros, de fabrico soviético, que eram distribuídos aos guerrilheiros do PAIGC, durante a guerra colonial / luta de libertação. "Nô pintcha", em crioulo, quer dizer "Avante!"... 


Foto (e legenda): © Eduardo Magalhães Ribeiro (2008). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



4. “Nunca se fez guerra sem álcool (nem tabaco)"

Esta frase, frequentemente citada por veteranos de ambos os lados, é bastante precisa. Não se faz a guerra, sem álcool nem tabaco... nem com o estômago vazio!

De facto, em praticamente todos os conflitos, o álcool ( e o tabaco) é um ansiolítico não oficial, uma espécie de  "lubrificante psicossocial" para a "máquina de guerra",  uma forma acessível de lidar com o medo, a violência, o risco, a morte...



O fornecimento de tabaco está mais bem documentado (no caso do PAIGC, à sua "tropa" era distribuido o maço de cigarros "Nô Pintcha", fornecido pelos "amigos soviéticos"; não sabemos em que quantidades nem com que frequência).

Na Guiné, com isolamento, clima adverso e desgaste físico e psicológico constante, tornava-se ainda mais evidente a importância do álcool e do cigarro, as duas "drogas legais".

 De um lado e do outro. Muitos de nós começaram a beber e a fumar na Guiné. Por outro lado, tínhamos acesso (generoso) a muito tipo de bebibas, que  não eram correntes na metrópole, incluindo a coca-cola. E o tabaco, não sendo de borla, era relativamente acessível. (O Porto era uma das marcas que mais se fumava, custava 3$00 cada maço.)

(Pesquisa: LG  + Net + IA (Gemini, ChaGPT)

(Condensação, revisão / fixação de texto: LG)

___________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 6 de dezembro de 2025 Guiné 61/74 - P27499: A nossa guerra em números (47): mais de 2/3 do consumo, do valor de vendas em junho de 1970 (n=89 contos), na cantina, da CCAV 2483, em Nova Sintra, foi em álcool e tabaco (Aníbal Silva / Luís Graça)

domingo, 30 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27479: Recortes de imprensa sobre o império colonial (1): Sociedade Agrícola do Gambiel, Lda, Aldeia do Cuor, Bambadinca: entrevista a um administrador ("Portugal Colonial", nºs 55-56. set/out 1935)

 














Fonte: Excertos de Portugal Colonial: Revista de Expansão e Propaganda Colonial (Diretor: Henrique Galvão, 1895 - 1970-), Lisboa, nºs 55-56, setembro / outubro de 1935, pp. 12-13 (Cortesia de Câmara Municipal de Lisboa / Hemeroteca Digital)

Veja-se aqui a excelente ficha história sobre a recvista mensal "Portugal Colonial", de 9 páginas,  de Rita Correia. Publicaram-se 72 números, de março de 1931 a fevereiro de 1937. 

(...) Entre todas as colónias, Angola foi a que mereceu maior atenção, sobretudo nos primeiros anos. O assunto era caro ao diretor da Portugal Colonial, que ali viveu uma curiosa experiência, entre 1927 e 1929, que o catapultou da condição de degredado à de governador da província de Huila. 

Mas sobretudo porque a crise económica de Angola, filiada numa não menos gravosa crise financeira, teve um impacto significativo na vida da metrópole. Desde logo porque significou uma quebra nas trocas comerciais entre ambas, mas que foi mais penalizadora para a produção nacional,  em particular para a indústria têxtil e o setor dos vinhos, repercutindo-se também na atividade da marinha mercante, nas receitas tributárias, e nas transferências bancárias. 

MoDepois, porque desencadeou uma sequência de episódios e decisões que contribuíram para a clarificação do quadro político da Ditadura Militar, instituída pela revolução de 28 de Maio de 1926. (...) 


1. Há muitas referências no nosso blogue a esta Sociedade Agrícola do Gambiel Lda, que foi um fiasco, bem como ao regulado do Cuor, à Aldeia do Cuor, e ao rio Gambiel... 

Estes eram domínios do "Tigre de Missirá", o nosso amigo e camarada Mário Beja Santos (cmdt, Pel Caç Nat 52, 1968/70). Ele ainda hoje fala do Cuor com emoção e paixão.

 E outros camaradas do nosso blogue, como o saudoso Jorge Cabral,  cmdt do Pel Caç Nat 63 (Fá Mandinga e Missirá, 1969/71) bem como a malta da CÇAÇ 12 (eu próprio, o Humberto Reis, etc.), temos recordações ainda muito vivas desses lugares, que palmilhámos muitas vezes, em patrulhamentos ou a caminho de operações mais a norte... 

Mas eu, pessoalmente, já não me recordo de ver os restos das instalações e das máquinas da Sociedade Agrícola do Gambiel Lda, se é que ainda existiam no nosso tempo... O Beja Santos julgo que sim, deve lá ter andado a vasculhar o sitio... 

Para quem ainda acredita, piamente, que o colonialismo  (português) nunca existiu, leia, com o devido distanciamento e espirito critico, este resumo de uma entrevista, que tem 90 anos, ao então administrador desta empresa agrícola, o ribatejano Sebastião Nunes de Abreu (que veio em 1930, de Angola, para se enterrar naquelas terras palúdicas do Cuor). 

Em 1935, ainda havia a distinção entre portugueses da metrópole, "assimilados" e "indígenas"... Mas uma empresa agrícola como aquela, onde foi enterrado bastante dinheiro em máquinas e equipamentos, não conseguia recrutar gente para nela trabalhar...

O entrevistador foi Armando de Landerset Simões, que  terá nascido em Moçambique, Caconda, em 1909. Além de funcionário da administração colonial, foi escritor e etnógrafo, tem 8 referências na Porbase. como Simões Landerset. Destaque para a sua obra, "Babel negra: etnografia, arte e cultura dos indígenas da Guiné" (Porto, Oficinas Gráficas de O Comércio do Porto, 1935) (prefácio de Norton de Matos).


2. Para melhor contextualizar a entrevista, acrescente-se que, em 1935, o diploma legal que regulava o trabalho indígena nas colónias portuguesas, incluindo a Guiné, era o Código do Trabalho dos Indígenas nas Colónias Portuguesas de África (sic), aprovado pelo Decreto n.º 16:199, de 6 de Dezembro de 1928.

Este Código estabelecia o regime jurídico do trabalho para os africanos considerados "indígenas" e tinha caráter obrigatório, embora a legislação colonial o apresentasse como uma forma de combater a "ociosidade" e promover a "civilização" (sic).

Todo o "indígena" á partida "não gostava de trabalhar": este era o preconceito básico do administrador, do chefe posto, do colono, do comerciante, de missionário e do soldado. Logo, "era preciso obrigá-lo". 

Principais aspetos do Código de 1928:

(i) Obrigatoriedade: impunha o trabalho obrigatório aos indígenas do sexo masculino, com exceções limitadas (como régulos, sobas e outros  chefes gentílicos, repatriados por seis meses, e homens alistados no exército);

(ii) Curador: criava a figura do "Curador dos Indígenas" e seus agentes (delegados, administradores), responsáveis pela "proteção, tutela e fiscalização" dos trabalhadores, mas também por distribuir os encargos de trabalho;

(iii) Contratos: regulava os contratos de trabalho, estabelecendo direitos e deveres para patrões e trabalhadores, mas com garantias que, na prática, permitiam o uso de métodos coercivos por parte dos patrões para manter a disciplina e evitar o abandono do trabalho (veja-se o drama dos "contratados" das roças de São Tomé);

(iv) Estatuto diferenciado: este Código integrava um sistema jurídico mais amplo que consagrava a inferioridade jurídica do indígena, afastando-o da legislação civil e penal aplicável aos cidadãos portugueses da metrópole (o chamado "Estatuto do Indigenato");

(v) a legislação sobre o trabalho indígena, depois de muitas críticas  (de instâncias internacionais como  a OIT - Organização Internacional do Trabalho, etc. ) foi posteriormente revista e alterada ao longo do período colonial, sendo o Código de 1928 substituído pelo Código do Trabalho Rural em 1962, através do Decreto n.º 44309.



Guiné > Região de Bafatá > Carta de Bambadinca (1955)   (Escala 1/50 mil) > Posição relativa de Aldeia do Cuor, Rio Gambiel (afluente do Rio Geba), Missirá, Fá Mandinga e Bambadinca, uma das regiões mais exuberantes da zona leste, pela sua vegetação e hidrografia... 

O rio Geba (Estreito) entre o Xime, Mato Cão, Bambadinca e Bafatá espraiava-se por aquelas terras baixas como uma autêntica cobra, e originava riquíssimas bolanhas e lalas. No tempo das chuvas, redesenhava-se o curso do rio.  Imaginem uma viagem, de  "barco turra" no Xaianga (ou Geba Estreito).

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2025)