Notável foi o seu envolvimento com as populações: organizou consultas para crianças locais, inclusivamente aprendeu fula (algumas palavras e expressões em fula, imaginamos...), para comunicar diretamente com as famílias (desconfiava que os tradutores não transmitiam tudo), e confessou que enfrentou epidemias de sarampo com mortalidade elevadíssima.
Trabalhou, em Farim, com escassez de medicamentos, instalações inadequadas e recursos limitados, co.o qualquer outro médico. De resto. Tinha-se licenciado em 1962. A guerra ensinou-lhe a resiliência e a importância da empatia, lições que transportou para a pediatria: "A guerra deu-me uma preparação brutal para a vida" (sic).
A pediatria acabou por ser a sua paixão e missão. Uma paixão que nasceu da relação com Jácome Delfim (seu padrinho de casamento) e do sogro, também ele pediatra. Mas foi a experiência na Guiné que solidificou o seu compromisso com os direitos da criança e a abordagem holística e humanista.
Seria ele quem viria a introduzir, nos anos 80, em Portugal, a consulta pré-natal de pediatria, defendendo que o vínculo entre pais e bebé começa ainda no útero.
Criou também uma "via verde" no consultório para adolescentes, onde podiam falar de tudo (namoros, cursos, dúvidas existenciais).
Era um médico e um homem de primeira grandeza: sempre disponível, atendia chamadas a qualquer hora ("Doutor, parece que vai estar sol, acha que ponha um chapéu à menina logo de manhã?").
Criticava o stress da sociedade moderna e os índices altos de separação divórcio em Portugal, alertando para o impacto negativo nas crianças do disfuncionamento familiar. Defendia a igualdade parental e a importância do afeto na construção da resiliência.
Mesmo após a jubilação como professor catedrático, e diretor do Departamento da Criança e da Família da Unidade Local de Saúde de Santa Maria, continuava a trabalhar 10 horas por dia, e mantinha ligações afetivas com pessoas que acompanhava desde bebés (muitos já adultos, voltavam só para conversar).
Eis algumas frases que destacamos da sua entrevista de 2017 ao JN:
- "A guerra deu-me uma preparação brutal para a vida."
- "O pediatra tem de ser um detetive do comportamento, não só da doença."
- "O grande objetivo é a felicidade da criança."
- "Os pais são os grandes mestres da natureza do seu bebé."
2. Eis alguns excertos dessa entrevista ao Notícias Magazine, em 2017 (*)
(...) JN - Quando acabou o curso, em 1965, estava prestes a ser pai. Com a paternidade, passou a olhar para a pediatria de outra perspetiva?
JGP - O nascimento de um filho, ainda por cima quando o pai não é suficientemente maduro – só tinha 23 anos – é um marco decisivo e mudou essencialmente a minha sensibilidade.
Pouco meses depois de ser pai, fui para a Guiné, para a guerra colonial. Lembro-me de aterrar, sair do avião, sentir o bafo de calor e pensar «não consigo ficar aqui nem umas horas».
No mato não havia nada, mas eu organizei uma consulta específica para crianças e fiz questão de aprender a falar fula, porque desconfiava que o enfermeiro-tradutor não relatava tudo o que os pais me contavam. A mortalidade era elevadíssima, em dois anos «apanhei» duas epidemias de sarampo.
A guerra, à qual pensei fugir, deu-me uma preparação brutal para a vida. Desde logo pelas saudades que tinha do meu filho Tiago, sempre presente nas minhas descobertas.
JN - Porque não fugiu?
JGP - A razão essencial foi a de saber do desgosto que causaria à minha mãe, com quem tinha uma relação muito forte. O não poder regressar a Portugal era um imperativo a par da responsabilidade de já ter uma família. Percebi também que seria o fim de uma carreira de médico em Portugal. Uma carreira sonhada. Por isso, decidi assumir a guerra.
JN - Na Guiné viveu seguramente momentos terríveis.
JN - Pediatria, a carreira sonhada. Fale-me dos primeiros tempos dessa carreira. JGP - Tenho pensado nisso, agora que tenciono deixar a clínica, em 2018.
JGP - Lembro-me da minha primeira consulta privada. Vi a primeira criança, uma rapariga com 7 anos, numa clínica da Baixa, onde trabalhavam vários médicos à espera que alguém batesse à porta. Um dia, entrou uma senhora à procura de um pediatra. A miúda tinha umas manchas, talvez alergia. Vi-a mais uma ou duas vezes.
(O resto desta entrevista é obrigatório ler, aqui, para se perceber a importância que este nosso camarada da Guiné (, camarada, apesar da deferência com que tratávamos os alferes milicianos médicos.... ) teve na mudança de paradigma da pediatria em Portugal. Recomendo a sua leitura aos pais e avós... (Declaração de interesse: conheci-o pessoal mas circunstancialmente, há maais de vinte anos, na Faculdade de Medicina de Lisboa, já era uma sumidade, mas eu não sabia que tinha estado na Guiné.)
3. Segundo o testemunho do nosso camarada Domingos Gonçalves (ex-alf mil CCAÇ 1546/BCAÇ 1887, Nova Lamego, Fá Mandinga e Binta, 1966/68), o batalhão tinha três médicos, sendo João Gomes-Pedro um deles.
(...) "Na altura, era ainda clínico geral, mas já se destacava pela sua competência e humanismo, mesmo em condições extremamente precárias. Apesar das dificuldades, ele e os outros os médicos do batalhão conseguiam 'fazer milagres' e davam assistência não só aos militares, mas também às populações civis locais." (...)
O Domingos Gonçalves testemunha que o João Gomes-Pedro organizou consultas específicas para crianças na Guiné.
(...) As condições em que trabalhavam eram precárias, quer no que respeita a instalações, quer no que respeita a medicamentos, ou outro material médico. Regra geral, mesmo não sendo santos, às vezes conseguiam fazer milagres. Num relatório sobre diversas matérias, o comandante do batalhão a que pertenci, queixava-se.
" No Serviço de Saúde há grandes atrasos na recepção dos medicamentos, e o não fornecimento de vários produtos requisitados, o que perturba o fornecimento da assistência, que é ainda prejudicada pelas deficientes instalações dos postos de saúde." (...)
(Pesquisa, condensação, revisão / fixação de texto: LG)
(*) Último poste da série > 26 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27773: In Memoriam (571): Rui Manuel da Silva Felício (1944-2026), ex-alf mil at inf, CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852 (Dulombi e Galomaro, 1968/70): natural de Coimbra, vivia na Ericeira, Mafra; era um dos sobreviventes do desastre do Cheche (ia na trágica jangada, tendo perdido 11 homens do seu pelotão, em 6/2/1969)




















