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quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Guiné 63/74 - P28411: In Memoriam (592): Joaquim Ganhão, natural de Moura (1942-2026), ex-1º cabo at cav, CCAV 489 / BCAV 490, cruz de guerra de 3ª classe (1965)



Joaquim José Moita Ganhão, natural de Moura  (1942-2026), ex-1º cabo at cav, CCAV 489 / BCAV 490, cruz de guerra de 3ª classe (1965). Faleceu na sua terra natal, em 23/1/2026, aos 83 anos. 


Crachá do CAV 489 / BCAV 490 (restaurado digitalmente com recurso á  IA | Gemini Google AI)



1. Ao procurar o seu nome na Net, tive a triste supresa de ficar  a saber que já havia falecido, ainda recentemente, em 23 de  janeiro passado, aos 83 anos, em Moura, sua terra natal (*). (Fonte: Página do Facebook QuemMorreuMoura, 23/1/2026, 16:53)

Não o conhecia pessoalmente, nem ele pertencia à Tabanca Grande. No entanto, foi um dos primeiros camaradas da Guiné ser aqui evocado, ainda  na I Série do nosso blogue (**), em poste de 17 de novembro de 2005.  

No ano anterior tinha sido entrevistado pelo "Diário do Alentejo". Infelizmente a publicação, de 23 de abril de 2004, já não está disponível "on line", desde ha muito. Nem eu consegui recuperá-la através do Arquivo.pt (nem do Internet  Archive). O link já foi descontinuado:

Voltamos a publicar a sua pequena / grande história de vida. É também a nossa forma de afirmar que o Joaquim Gamhão não  vai ficar inumado na "vala comum do esquecimento". Pelo menos, deixa aqui, aos seus camaradas, o essencial das suas memórias de guerra. 

 Para a família, vai também  a nossa solidariedade na dor por esta perda.
 


por Alberto Franco

"Diário do Alentejo", de 23 de Abril de 2004 
( Com a devida vénia...)



O alentejano Joaquim Ganhão foi um dos milhares de portugueses que lutaram em África, nos anos da Guerra Colonial. Nas dificuldades e sustos que viveu em terras da Guiné – participou na célebre Operação Tridente, em 1964 – certamente muitos outros ex-militares se reconhecem. Quando passam 30 anos sobre o 25 de Abril, é oportuno recordar a longa guerra, unanimemente considerada uma das principais causas da revolução.

Quando o Niassa zarpou de Lisboa, em 17 de Julho de 1963, não se pode dizer que os rapazes do Batalhão de Cavalaria 490 estivessem inquietos. Afinal, iam para Moçambique, onde a guerra que lavrava noutras colónias portuguesas não tinha ainda chegado. Mas a meio da viagem o programa sofreu alterações. O agravamento da situação militar na Guiné obriga ao reforço do contingente naquele território. O Niassa recebe ordem de rumar a Bissau, e aí desembarcar as tropas que transportava.

 – Foi um balde de água fria para todos nós – recorda Joaquim Moita Ganhão, 61 anos, nado e criado em Moura, um dos muitos alentejanos que integravam o Batalhão Quatro Noventa.

A guerra na Guiné começara há escassos meses, mas o território gozava já de má reputação entre os militares portugueses. À ameaça que a guerrilha do PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde) representava, combinava-se com uma geografia inóspita e um clima duríssimo, quente e húmido, favorável ao paludismo e a outras doenças tropicais. 

Quem esperava passar dois anos em Moçambique, no sossego de Vila Pery, e se vê inesperadamente atirado para a Guiné, não podia ter outra reacção que não fosse o alarme. Mesmo que se tivesse 20 anos, muito sangue na guelra e se pertencesse a um batalhão cujo lema era Sempre em Frente.

Em casa de Joaquim Ganhão eram nove irmãos, que o curto salário do pai, caiador de profissão, não chegava para sustentar:

– Eu ficava em casa a cuidar dos meus irmãos mais novos, enquanto a minha mãe trabalhava a dias. Essa a razão porque só entrei para a escola com nove anos.

Aos 12, Joaquim perde o pai. Com o amparo reduzido, vê-se forçado a trabalhar antes do tempo. Aprende o ofício de pedreiro, que exerce até aos 20 anos, idade em que é mobilizado para a tropa.

O soldado 328 estaciona três meses em Beja e dali segue para Estremoz, onde o BCAV 490 está a ser formado. No Quatro Noventa, os alentejanos estavam em maioria:

 – Havia gente de Elvas, Estremoz, Messejana, Aljustrel, Salvada. Só os cozinheiros eram do Norte… – assinala Joaquim Ganhão.  – A instrução em Estremoz foi dura. Preparam-nos para combater, segundo os modelos da época.

Vendo os conflitos que deflagravam nos territórios coloniais de outros países europeus, o exército português tinha-se preparado para enfrentar o fenómeno a que uns chamavam guerra subversiva e outros guerra de libertação. Oficiais portugueses estagiaram junto do exército francês na Argélia e especialistas estrangeiros ministraram em Portugal acções de formação. Mas uma coisa era a guerra teórica, outra a guerrilha nos pântanos da Guiné, as bolanhas, nas matas de Angola e Moçambique. Pela sua parte, Joaquim Ganhão fez pela vida e frequentou em Estremoz o curso de cabos:

– Fui o segundo melhor classificado. Quando embarquei para África, em Julho de 1963, já era 1º cabo da minha Companhia, a CCAV 489.


Baptismo de fogo no Oio-Morés

Até àquela data, o pedreiro de Moura não tinha posto os pés num navio, e em matéria de cursos de água só conhecia os mansos rios Ardila e Guadiana. Mesmo assim não se deu mal na jornada a bordo do Niassa:

– Tive a sorte de não enjoar, ao contrário de muitos companheiros.

 Os seis dias de viagem passou-os a dormitar nas baleeiras do Niassa, a espantar as saudades com cartas para a família e em camaradagem com o seu amigo de infância Henrique Pinto, outro militar mourense em trânsito para a Guiné.

Chegados a Bissau em plena estação das chuvas, são alojados no quartel da Amura, um antigo entreposto de escravos. O clima doentio surpreende-os desde logo:

–  Era diferente de tudo o que conhecíamos. Com a humidade, a roupa colava-se-nos ao corpo. Só estávamos bem debaixo do chuveiro. De vez em quando, caíam trovoadas que metiam medo.

Outro motivo de espanto é a pobreza do território. Com poucos ou nenhuns recursos naturais, sem núcleos urbanos desenvolvidos, a Guiné era a peça menos valiosa do império português e, como tal, a mais desprezada por Lisboa. Ganhão sublinha “a miséria das populações, as filas de mulheres e crianças com latas, à espera que lhes dessem alguma comida”.

A guerra aberta na Guiné principiou em 23 de Janeiro de 1963, com o ataque ao quartel de Tite, embora desde 1961 se registassem actos de sabotagem levados a cabo pelo PAIGC de Amílcar Cabral. Bem armada, apoiada por países fronteiriços como a Guiné-Conacri e o Senegal, a guerrilha alastra pelo território guineense como um regueiro de pólvora. A companhia do 1º cabo Joaquim Ganhão recebe o baptismo de fogo no Norte da colónia:

–  Fomos render uma companhia que se encontrava em Mansabá. Aí sofremos uma emboscada nocturna, na zona do Oio-Morés, que por ser muito pantanosa e de acesso difícil era um bom refúgio para os guerrilheiros.

Joaquim Ganhão lembra-se que a noite estava escura e a mata era cerrada:

– Ia à frente da minha companhia, quando senti o encosto de uma arma. O guia deu o alarme, eu comecei a disparar no escuro e a correr pelo capim, como um doido. Quando as coisas acalmaram e a companhia se reorganizou, deparo com um guerrilheiro a apontar-me uma pistola-metralhadora. Tentou atirar, mas, felizmente para mim, a arma estava encravada.

O soldado 328 captura o homem, apreende-lhe a metralhadora e três carregadores de munições:

–  O guerrilheiro chamava-se Albino Sampa. Mais tarde cheguei a ir visitá-lo à cadeia, em Bissau.

O melhor desta aventura acabou por ser o prémio de um mês de licença na Metrópole  [Prémio Governador da Guiné].

– Quando me deram a notícia, ia ficando maluco de alegria. O pior foi que a minha família, quando soube que eu estava em Lisboa, pensou que estava todo partido... Só descansaram quando a minha irmã me foi buscar a Estremoz e viram que estava bem de saúde.



Tridente da morte


Mas a emboscada no Oio-Morés foi uma brincadeira, comparada com o que veio a seguir. O Batalhão de Cavalaria 490, e com ele Joaquim Ganhão, foi um dos participantes na operação Tridente, uma das mais aparatosas ofensivas portuguesas na Guerra Colonial. 

Denominada Tridente porque envolvia a marinha, o exército e a força aérea, a operação visava ocupar as ilhas do Como, Caiar e Catunco, no Sul da Guiné, onde os combatentes do PAIGC dispunham de importantes bases. Ali se movimentava o astuto comandante 'Nino' Vieira, formado nas técnicas da guerrilha pela Academia Militar de Pequim, que teria no Como cerca de 300 homens, incluindo militares da Guiné-Conacri.

Um dos objectivos da missão consistia em conquistar o apoio da população das ilhas, que os guerrilheiros controlavam:

– Em todas as tabancas (aldeias tradicionais) do Como, se viam retratos de Amílcar Cabral  – observa Joaquim Ganhão.

A operação Tridente iniciou-se em 15 de Janeiro de 1964. O 1º cabo Ganhão só soube o que o esperava quando se viu a bordo de uma lancha LDM, dos fuzileiros. Através das bolanhas, ladeadas por uma vegetação densa e asfixiante, o tarrafo, a CCAV 489, comandada pelo capitão Pato Anselmo, avançou até à ilha de Catunco. Ganhão permaneceu ali mais de dois meses, “entrincheirado num buraco, juntamente com dois companheiros, agarrados às G3, com as balas do inimigo a passarem-nos rente”. Quem disparava?

– Nenhum de nós sabia. Os tiros vinham da mata, onde os guerrilheiros estavam bem escondidos . 

Por isso, sair do buraco só em último caso:

– Tínhamos o exemplo de um companheiro que se levantou para beber uma pinga de água e foi atingido por um tiro no queixo.

Quando se iniciou a segunda fase da operação, foi necessário deixar os abrigos e patrulhar as ilhas:

– Saíamos aos ziguezagues, em grupos de três. Depois deitávamo-nos ao chão e saíam outros três. E isto sempre aos tiros. 

Foi numa destas acções que Joaquim Ganhão perdeu o seu amigo Henrique Pinto, o primeiro militar de Moura a tombar na guerra [em 24 de Janeiro de 1964].


– O Henrique, que pertencia à CCAV 487, seguia numa patrulha, formada em leque. Ele, que estava numa das pontas, avançou demais e foi capturado, às três da tarde do dia 24 de Janeiro. [de 1964].

Ganhão e outros tinham ido buscar mantimentos à base logística da operação, instalada numa praia. Aí viu chegar um helicóptero com o cadáver de Henrique, resgatado pelos fuzileiros. O choque foi terrível. Quarenta anos passados, ainda hoje a voz de Ganhão se embarga quando fala do caso:

– Podia ter sido eu. Tive sorte, não calhou.

Os aviões F-86 e T-6 flagelavam as matas do Como com napalm, as granadas explodiam a toda a hora, mas os resultados práticos da operação tardavam em ver-se. A única evidência era o sofrimento dos militares portugueses:

–Bebia-se qualquer água e a alimentação resumia-se a rações de combate – conta o 1º cabo Ganhão –.  Comemos carne fresca uma única vez, quando os fuzileiros abateram algumas vacas. 

Não admira que durante a operação Tridente 193 militares tenham sido retirados do teatro de guerra, por motivo de doença.

Setenta e um dias depois, a missão é considerada finda. As estatísticas apontavam 76 guerrilheiros mortos, 15 feridos e 9  detidos. Do lado português contaram-se 9 mortes e ferimentos em 47 soldados. Foram disparadas 124 mil balas, 1200 granadas de artilharia e 550 granadas de morteiro. 

Os militares aliviaram a tensão consumindo 15 500 garrafas de cerveja e fumando 10 100 maços de tabaco. Números que não maquilham o insucesso da operação. A última palavra pertenceu à guerrilha, que continuou a servir-se do Como, só abandonando a região quando os seus interesses se transferiram para outros locais.




Moura > Placa toponímica > Rua Henrique José Pinto > 10 de Abril de 2010 > Natural da freguesia de Santo Agostinho, o 1º Cabo At Henrique José Pinto, da CCav 487 / BCav 490, morreu em combate, na ilha do Como, em  24 de Janeiro de 1964, no decurso da Op Tridente. Os seus restos mortais repousam no cemitério de Bissau.

Foto (e legenda): © Luís Graça (2010). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (Gemini / Google AI)]


Cruz de Guerra no 10 de Junho [de 1966]


Depois de intervir na Tridente, a CCAV 489 é destacada para o Norte:

 – Fomos para junto da fronteira com o Senegal, com o objectivo de dificultar as entradas e saídas dos guerrilheiros e das forças que os apoiavam.

Joaquim Ganhão andou por Cuntima, Farim, Bula, Bafatá, Mansoa. Porém, antes de pensar em fiscalizar o que quer que fosse, era preciso construir as bases necessárias ao estacionamento de tropas. Na Guiné, como na generalidade das vastas colónias portuguesas, faltavam aquartelamentos, vias de comunicação e demais infra-estruturas.

Por outro lado, no caso específico do Norte da Guiné, tornava-se necessário atrair e organizar a população que tinha cruzado a fronteira do Senegal, fugindo à guerra. Os soldados da 489 ajudavam à reconstrução de tabancas, construíam abrigos, “à mão, sem a ajuda de quaisquer máquinas”, de valas em redor dos quartéis e outras infra-estruturas defensivas, muitas vezes debaixo de fogo. Quando empunhavam a G3, vigiavam a fronteira e montavam as suas emboscadas. A tropa “saía por volta da meia-noite. Então víamo-los passar, a pé, outras vezes de bicicleta”. Nessas alturas, “a fuzilaria era tanta que nem os raios das bicicletas se aproveitavam.”

As normas da altura determinavam que o tempo de serviço militar era de 24 meses. Todavia, muitos militares excediam, contra vontade, este período. Às vezes morriam em África, quando, segundo a lei, já deviam estar em Portugal. Joaquim Ganhão lembra um episódio ocorrido em Bula, com uma companhia de caçadores que já tinha atingido os 27 meses de comissão:

–  Por sermos mais novos, a nossa companhia seguia atrás deles, numa deslocação pelo mato. De repente, caem numa emboscada. Recordo-me que os guerrilheiros tinham cortiços de abelhas em cima de árvores; cortavam as cordas e os cortiços caíam em cima dos soldados. Com este truque e com o tiroteio, morreram dois ou três caçadores. Que já não deviam estar na Guiné, porque já tinham cumprido o seu tempo.

Ganhão teve mais sorte. Regressou a Moura em Setembro de 1965, são e salvo. Um ano depois, já casado, recebeu em Évora, nas cerimónias do 10 de Junho de 1966, a Cruz de Guerra de terceira classe, pelo seu desempenho na Guiné. Quarenta anos depois, Joaquim Ganhão, mestre de construção civil, pai de duas filhas, olha para trás com serenidade:

- É bom que se diga que fui para a Guiné obrigado. Tínhamos que livrar o corpo, para não morrer. Foi o que eu fiz. Estimo muito a Cruz de Guerra, mas lamento que além da medalha ninguém me tenha compensado pelos dois anos de vida que perdi.


Manhas de soldado

Nem sempre o soldado 328 estava disposto a dar o corpo ao manifesto. Um enfermeiro amigo livrou­-o de uma ou outra incursão, atestando que Joaquim Ganhão não se encontrava a cem por cento. “Eram manhas típicas da guerra”, recorda. O truque nem sempre resultava:

– Aconteceu quando tive que substituir um furriel, que tinha cegado com o rebentamento de uma granada. Uma noite em que me chamaram para uma operação, pedi ao Fernando, o enfermeiro, que me desse uma ou duas injecções. Ele assim fez. Passei a estar doente, incapacitado para qualquer missão. Mas o alferes que devia chefiar a missão não engoliu o truque. Chega ao pé de mim e diz-me: ‘Tu está tão doente como eu! Levanta-te da cama, que o pessoal está todo à tua espera’. E lá fui, mesmo com duas injecções.


A Guerra Colonial e o 25 de Abril

O desgaste que a guerra provocou nas forças armadas portuguesas e a ausência de soluções pacíficas para a questão colonial, contam-se entre as principais motivações do 25 de Abril. Treze anos de confrontos exigiram o destacamento de 70 mil homens para Angola, 42 mil para a Guiné e 57 mil para Moçambique.

Segundo a Resenha Histórico-Militar das Campanhas de de África (1961-1974), registou-se um total de 8 290 mortos, nas três frentes de batalha. A este número há a juntar 112 000 feridos, dos quais 30 mil terão sofrido deficiências para toda a vida, e perto de 100 mil vítimas do stresse de guerra.

Este factor conjugou-se com uma série de transformações na instituição militar, ditadas pelo esforço de guerra. A falta de capitães para o comando de companhias levou o Governo a recorrer a oficiais milicianos, para postos normalmente ocupados por militares de carreira. Facilitou-lhes o ingresso na Academia Militar, reduziu a duração dos cursos e criou um “quadro especial de oficiais”. Por um lado, esta situação refrescou as fileiras das forças armadas, mas gerou tensões e conflitos entre milicianos e oficiais oriundos de cadetes da Academia Militar.

A gota de água acabou por ser o famoso Decreto 353/73, de 13 de Julho, que introduziu diversas alterações ao nível da antiguidade na carreira das armas. Os protestos levam o Governo a recuar, publicando um outro diploma que protege os interesses dos oficiais superiores e põe em causa os dos capitães. O avolumar da contestação, a que se junta, naturalmente, a oposição ideológica entre militares e governantes, e as aspirações de liberdade dos primeiros, está na génese do Movimento dos Capitães, que desencadeou o 25 de Abril.

(Seçeção, revisão / fixação de texto, links, negritos: LG)

(Os subtítulos são da responsabilidade do jornalista)

2. Cruz de Guerra de 3º Classe

1.° Cabo de Cavalaria, nº 328/63
JOAQUIM JOSÉ MOITA GANHÃO
CCav 489/BCav 490 - RC 3

GUINÉ

3ª  CLASSE

Transcriçâo da Portaria publicada na O.E. Nº 16 - 3ª série,de 1964.
Por Portaria de 05 de Maio de 1964:

Manda o Governo da República Portuguesa, pelo Ministro do Exército, condecorar com a Cruz de Guerra de 3ª classe, o militar a seguir designado, ao abrigo dos artigos 9´º  e 10º  do Regulamento da Medalha Militar, de 28 de Maio de 1946, por serviços prestados em acções de combate na Província
da Guiné Portuguesa:

O Primeiro-Cabo, Joaquim José Moita Ganhão, nº 328/63, da Companhia de Cavalaria nº 489 / Batalhão de Cavalaria nº 490 - Regimento de Cavalaria nº 3.

Transcrição do louvor que originou a condecoração.
(Publicado na OS n.o 3, de 07 de Janeiro de 1964, do CTIO):

Louvado, o 1º Cabo nº 328/63, Joaquim Moita Ganhão, da CCav 489, porque,  além das boas qualidades militares do antecedente reveladas no serviço e que fazem com que se distinga como graduado dentro do seu Pelotão, na operação levada a cabo pela Companhia na região de Morés, teve ocasião de demonstrar grande espírito de disciplina e serenidade perante o perigo que, junto da povoação de Cai, culminou na prontidão e sangue frio como encarou de noite, indo à frente, um grupo de onze terroristas fortemente armados, dos quais pôs um fora de combate com a apreensão de uma
pistola-metralhadora e três carregadores cheios de munições que a este pertenciam.

Fonte: Excertos de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 5.° volume: Condecorações Militares Atribuídas, Tomo VI: Cruz de Guerra (1962-1965). Lisboa, 1991, pág. 332.
 
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sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27574: Notas de leitura (1878): Uma publicação guineense de consulta obrigatória: O Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné (6) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 30 de Outubro de 2025:

Queridos amigos,
Com a maior discrição, a verve reivindicativa que temos notado do Boletim quase que se apagou, conquanto o responsável do Boletim avise solenemente os associados que se estava num quadro de grandes mudanças. A participação guineense do Boletim reduziu-se drasticamente, vamos ter artigos do Comandante Teixeira da Mota de cariz histórico, publicam-se as intervenções do deputado James Pinto Bull, há noticiário económico, verbera-se uma Biblioteca associativa que está vazia, chama-se a atenção dos associados para o que a Associação tem a dar, desde um fundo de assistência, apoio médico, um curso para tenistas, sucedem-se os artigos históricos tendo inclusivamente um artigo sobre o Líbano e a sua história. Conforme já informei o leitor, temos Boletim até 1966, escrevi para a Biblioteca Nacional, ali nada existe. E é tudo.

Um abraço do
Mário



Uma publicação guineense de consulta obrigatória:
O Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné – 6


Mário Beja Santos

O que posso dizer ao leitor sobre o ano de 1963 é que se alterou profundamente a natureza da escrita, é de admitir que a eclosão da guerra de guerrilhas tenha levado os associados à contenção, fruto das incertezas produzidas pelas alterações demográficas na região Sul, nas margens do Corubal, nas florestas do Morés. São convocados deputados e investigadores, chega-se mesmo a apresentar escritos de Brito Camacho e Paiva Couceiro. Logo no número de janeiro aparece um apontamento assinado pelo deputado da Guiné James Pinto Bull, sublinhando toda a conveniência em se incrementar a concessão de bolsas de estudo aos estudantes autóctones do nosso Ultramar, dizendo mesmo:
“A Guiné Portuguesa, com uma população de cerca de 530 mil habitantes, tem apenas treze indivíduos habilitados com um curso superior, o que corresponde a um formado por cada 41 mil habitantes, e onze indivíduos habilitados com um curso médio, isto é, um diplomado por cada 48 mil habitantes; encontram-se presentemente cursando escolas superiores e médias na Metrópole 36 bolseiros que terminaram os seus estudos na Província.”

É certo que se mantém o cuidado em apresentar os dados económicos sobre a exportação do amendoim, arroz, borracha, cera, coconote, couros, madeiras, óleo de palma. Está em curso na Associação um Fundo de Assistência para associados em estado de precariedade; há um clínico avençado na Associação que presta assistência médica.

Num outro número do Boletim reproduz-se a intervenção do deputado Pinto Bull na Assembleia Nacional, em 6 de fevereiro desse ano, lembra a quem está no hemiciclo que é preciso encarar mais objetivamente as aspirações da população quanto ao ensino geral, as bolsas de estudo em particular, a assistência sanitária fixa e móvel, a assistência social e os seus mais diversos aspetos; e de novo enfatiza que é muito baixo o número de guineenses com formação superior, estão praticamente ausentes de cargos diretivos no escalão médio-superior nas organizações. Fará uma desenvolvida exposição sobre o sistema educativo e apela ao crescimento das bolsas de estudo. Na sua esteira, temos uma extensa exposição do deputado José Fernando Nunes Barata sobre o estado atual do desenvolvimento da Guiné e as suas potencialidades. Outra questão marcante em diferentes números passa pela enumeração das vantagens da Unidade Económica Nacional, a política do Estado Novo demarcara até então os regimes pautais entre a Metrópole e as colónias, procurava-se a todo o transe sossegar os investidores e os proprietários e os agentes económicos em geral com alívios aduaneiros.

Chegou o momento de saudar o novo Comandante-chefe das Forças Armadas da Guiné, o ainda Coronel Tirocinado Fernando Louro de Sousa. Surge o primeiro artigo do Comandante Teixeira da Mota dedicado a Honório Pereira Barreto, este falecera em 26 de abril de 1851, portanto há 104 anos. A Associação criou uma escola de ténis. Sucedem-se os artigos sobre a história da Guiné. Faz-se um abate exaustivo das comemorações do 46.º aniversário da Associação. Reapareceu a secção “Atentos à Legislação”. Faz-se o obituário do escritor Aquilino Ribeiro. Segundo artigo de Teixeira da Mota desta vez sobre a morte de dois franciscanos martirizados em 1742. Publica-se a notícia sobre a criação da Liga dos Amigos da Guiné Portuguesa, na Metrópole. Há um número completo dedicado ao obituário de Presidente da Associação, António José Osório Flamengo. Seguramente a pensar-se na comunidade sírio-libanesa publica-se um artigo intitulado O Líbano na História.

Fica-se com a sensação de que a vida associativa deu uma reviravolta e o diretor do Boletim dedica um texto aos perigos do individualismo, texto esse que termina com uma séria advertência:
“A Guiné prestou-se idealmente aos propósitos e manejos do individualismo mais desaforado, e, tendo sido alfobre de ganhunças, houve para si apenas as migalhas do lauto festim.
Chegados ao termo de uma época particularmente favorável há reprodução de cifras em progressão geométrica, em que as preocupações eram nenhumas, as oportunidades timbravam pela constância e os problemas financeiros quase não se punham porque o crédito era fácil, temos que reconhecer a superioridade, a argúcia, a inteligência dos indivíduos para melhor manobrarem. Os factos deram-lhes razão.
Doravante, porém…
A recente e inopinada reviravolta no tradicional sistema ‘quem tem olho é rei’ e o consequente estendal de complicações e vicissitudes, supomos venha a transformar, apesar de inveterados, os hábitos anti fraternos, se é que já não destroçou a até agora solidíssima razão do cisma isolacionista – ‘chacun s’arrête’. E ninguém nos convence que do colapso ao ‘debacle’ do individualismo medeie ainda muito tempo.”


Queixa do diretor do Boletim, a Biblioteca devia estar permanentemente às moscas…
Falando por mim, tive um estremeção quando vi esta imagem, instantaneamente me ocorreu a minha vida numa enxovia, alimentação rudimentar, sempre sujeitos a faltas de toda a ordem, com a agravante de que na época das chuvas transportávamos à cabeça e às costas, cheguei mesmo a meter pacotes de esparguete nos bolsos das calças, o vinho era uma zurrapa, mas a água era Perrier ou Evian, questionei sempre, sem resposta, havendo aqui água de Carvalhelhos, do Luso, e muito mais, a que título bebíamos obrigatoriamente Perrier ou Evian.
Eram outros tempos, o tabaco dava estatuto, era prestigiante, nas décadas seguintes vieram em catadupa as doenças cancerosas, os AVC, e tudo o mais que se sabe.
Raparigas Bijagós
Mulher Nalú
Pesca à linha no rio de Sonaco

Estas três últimas imagens foram retiradas de diferentes números do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, 1963

(continua)

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Notas do editor:

Vd. post de 19 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27548: Notas de leitura (1875): Uma publicação guineense de consulta obrigatória: O Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné (5) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 22 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27562: Notas de leitura (1877): A Polícia Militar na Guiné (1959-1974) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 26 de setembro de 2025

Guiné 61/74 - P27256: Júlio Vieira Marques, violonista, ex-sold corneteiro, CCAÇ 1418 / BCAÇ 1856 (Bula, Buruntuma e Fá Mandinga, 1965/67): senta-se à sombra do nosso poilão, no lugar nº 907



Júlio Vieira Marques, ex-sold corneteiro, CCAÇ 1418 (1418 (1965/67)

Natural de Paços de Gaiolo, Marco de Canaveses, criado em Santa Leocádia (já no cocnelho de Baião), vive hoje em Matosinhos. Membro da Tabanca de Candoz, da Tabanca de Matosinhos e agora da Tabanca Grande (nº 907)



1. Júlio Vieira Marques: faz parte há muito da Tabanca de Candoz e da Tabanca de Matosinhos. Foi sold corneteiro da CCAÇ 1418, "Os Facas" (Bula, Buruntuma e Fá Mandinga, 1965/67). Mora em Matosinhos. É marceneiro, de profissão. Tem página no Facebook (Júlio Marques).

O Júlio faz parte do grupo musical Os Baiões, e é um entusiástico representante da tradição das tunas rurais que tiveram, nomeadamente na região do Marão (e do Alvão, acrescente -se) o seu apogeu nos anos 50. Temos muitos vídeos dele, em ensaios e atuações ao vivo, incluindo na Tuna Rural de Candoz. 

Até por volta dos seus 40 anos, o Júlio  também era um excelente tocador de violão. Um acidente com uma máquina de cortar madeira,  levou-lhe a falange do indicador da mão direita. Acabou  por  trocar o violão pelo violino. (Repare-se na mão que segura o arco do violino,  no vídeo que aqui pode ser visualizado )... 

O Júlio é um exemplo extraordinário de força de vontade, talento, sensibilidade, coragem, disciplina e persistência. É, além disso, um homem afável e amigo do seu amigo. A morte, há largos anos,  de um companheiro e amigo, tocador de violão, levou-o a fazer um prolongado processo de luto em que deixou pura e simplesmente de tocar. Um luto de bastantes anos. 

Para felicidade dele e nossa, acabou o luto, e hoje é capaz de estar um dia ou uma noite a tocar violino, sozinho ou acompanhado. 

O seu reportório é impressionante. Animou inúmeros bailes na sua região. Autodidata, também é construtor de violinos. Tem afinidades com a família de Candoz, é cunhado do Quim e da Rosa, a irmã mais velha da Alice, a "chef" Alice, também nossa tabanqueira.

 Tem  tocado diversas vezes  na Quinta de Candoz, em festas de família. 

A sua atuação em Candoz, em 20/10/2012, juntamente com outros músicos (tudo prata da casa, tudo "tios" e  "primos": além do Júlio, o João, o Tiago, o Luís Filipe, o Miguel, o Nelo, o Joãozinho, violas, violões, bandolins, cavaquinhos, etc.), foi no âmbito das Bodas de Ouro de Casamento da Rosa & do Quim (que é também, ele, um excelente "mandador de baile mandado", como se comprova neste outro vídeo disponível na nossa conta You Tube).

Ao fim destes anos todos, o meu/nosso amigo e camarada Júlio acabou por aceitar  o convite para integrar formalmente a Tabanca Grande, a mãe de todas as tabancas.

Ficamos seguramente mais ricos com a sua presença humana e o seu talento musical.  Ele tem página no Facebook mas lida mal com o email e os blogues.  Vai precisar da ajuda do filho. E nossa.

 Passa a ser o grão-tabanqueiro nº  907. E o primeiro representante da CCAÇ 1418 / BCAÇ 1856. Já lhe demos as boas vindas pelo telemóvel. 


2. Ficha de unidade:CCAÇ 1148 / BCAÇ 1856 

2.1. BCAÇ: 1856 

Unidade Mob: RI 1 - Amadora
Cmdt:  ten cor  inf António da Anunciação Marques Lopes
2º Cmdt: Maj Inf Manuel João Fajardo
OfInfOp/Adj: Cap Inf José Olavo Correia Ramos

Cmdts Comp:
CCS: Cap SGE Júlio Augusto Esteves Grilo
CCaç 1416: Cap Mil Inf Jorge Monteiro
CCaç 1417: Cap Inf José Casimiro Gomes Gonçalves Aranha
CCaç 1418: Cap Inf António Fernando Pinto de Oliveira

Divisa: -

Partida: embarque em 31ju165; desembarque em 06ag065 | Regresso: Embarque em 15abr67

Síntese da atividade operacional

(i) Inicialmente, ficou instalado em Bissau (Brá), com a missão de reserva, à ordem do Comando-Chefe e orientado para a Zona Leste, tendo as suas subunidades actuado em diversas operações nas zonas Oeste e Leste da Guiné, atribuídas em reforço a outros batalhões.

(ii)  Em 02mar66, o comando foi deslocado para Nova Lamego, enquanto a CCS se instalou em Piche, até 23abr66, com vista à próxima rendição do BCav 705. 

(iii) Em 01mai66, o batalhão assumiu a responsabilidade do Sector L3, com sede em Nova Lamego e abrangendo os subsectores de Bajocunda, Canquelifá, Piche, Buruntuma, Madina do Boé e Nova Lamego.

(iv) Nesta situação desenvolveu intensa atividade operacional, principalmente na execução de patrulhamentos, reconhecimentos ofensivos, ações de interceção e de defesa dos aquartelamentos e das populações, com vista a evitar o alastramento da luta armada na região do Gabú; pela duração, importância das áreas batidas e esforço desenvolvido, destacam-se as operações "Lagos" e "Lenço", entre outras.

(v) Dentre o material capturado mais significativo, destaca-se: 
  • 2 espingardas,
  • 1 pistola-metralhadora, 
  • 50 granadas de armas pesadas, 
  • 1332 munições de armas
  • ligeiras 
  • e a deteção e levantamento de 50 minas.

(vi) Em 15abr67, foi rendido no sector de Nova Lamego pelo BCav 1915, recolhendo a Bissau para embarque.
Brasão da CCAÇ 
1418,
recuperado
 do poste P26794

 
2.2. CCAÇ 1418, "Os Facas" (Bula, Buruntuma e Fá Mandinga, 1965/67):  

Síntese da atividade operacional: 
  • após o seu desembarque, a CCAÇ 1418 ficou colocada em Bissau durante quinze dias como subunidade de intervenção e reserva do Comando-Chefe;
  • tendo seguido, em 21ago65 para Bula, a fim de realizar uma instrução de adaptação operacional sob a orientação do BCAV 790 [ 28Abr65-08Fev67; do  ten cor cav Henrique Alves Calado], e seguidamente reforçar este Batalhão em ações realizadas nas regiões de Naga, Inquida e Choquemone, entre outras;
  • até 20out65, continuou depois a ser atribuída em reforço de outros batalhões, com vista à realização de diversas ações na região do Jol, em reforço do BCAÇ 1858 [24ago65-03mai67; do ten cor inf Manuel Ferreira Nobre Silva], de 05 a 18Nov65; na região de Gussará-Manhau, em reforço do BART 645, de 16 a 23dez65;
  • nas regiões de Naga e Biambe, em reforço do BCAV 790, de 2 a 16jan66 e novamente de 12 a 26mar66; na região do Morés, em reforço do BCAÇ 1857 [06ago65-03mai67; do ten cor inf José Manuel Ferreira de Lemos], de 13 a 23fev66, onde tomou parte na Op Castor [em 20fev66], um golpe-de-mão à base central do Morés bem-sucedido, já que foi capturada elevada quantidade de armamento e outro material;
  • deslocada seguidamente para Buruntuma, assumiu, em 08mai66, a responsabilidade do respetivo subsector, em substituição da CCav 703, ficando integrada no dispositivo e manobra do seu batalhão , tendo destacado uma secção para Camajabá e a partir de 21 set66, um pelotão para a ponte do rio Caium;
  • em 03abr67, foi rendida no subsector de Buruntuma pela CCaç 1588 e seguiu para Fá Mandinga, onde substituiu, temporariamente, a CCaç 1589 na função de reserva do Agr 1980;
  • em 09abr67, seguiu para Bissau, a fim de aguardar o embarque de regresso.
Fonte: Excerto de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 7.º volume: Fichas das Unidades. Tomo II: Guiné. Lisboa: 2002, pp. 63/65.

(Seleção, revisão / fixação de texto: LG)


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Nota do editor LG:

Último poste da série > 14 de junho de 2025 > Guiné 61/74 - P26919: Tabanca Grande (576): Jacinto Rodrigues, ex-Alf Mil Art, CMDT do Pel Caç Nat 57 (Cutia e Mansabá, 1969/71), que se senta à sombra do nosso poilão no lugar 906

segunda-feira, 19 de maio de 2025

Guiné 61/74 - P26817: Notas de leitura (1798): "Pára-quedistas em Combate 1961-1975", por Nuno Mira Vaz; Fronteira do Caos Editores, 2019 (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 3 de Maio de 2024:

Queridos amigos,
Importa exaltar o meritório de trabalho do Coronel Nuno Mira Vaz, dá-nos um amplo enquadramento do desempenho dos paraquedistas nos três teatros de operações, no caso que mais nos toca, a Guiné, oferece-nos uma visão do que mais relevante esta tropa de elite ali praticou, entre 1963 e 1974. O autor deve ser leitor atento do nosso blogue, nele foi colher diferentes testemunhos daqueles momentos cruciais, como o de Gandembel, o nosso confrade Idálio Reis invoca o papel determinante que eles tiveram, designadamente nos ataques do PAIGC em dezembro de 1968; tropa que andou nos trilhos mais difíceis, no Morés e no Sul, esteve nos palcos de Guidage e de Gadamael, nos terríveis meses de maio e junho de 1973; e convém não esquecer que o BCP 12 infligiu ao PAIGC duros golpes no decurso da Operação Grande Empresa, na reocupação do Cantanhez. Um livro para ler e guardar.

Um abraço do
Mário



Paraquedistas em combate na Guiné (2)

Mário Beja Santos

A obra intitula-se "Pára-quedistas em Combate 1961-1975", por Nuno Mira Vaz, Fronteira do Caos Editores, 2019, abarca o histórico da participação dos paraquedistas nos teatros de Angola, Guiné e Moçambique, e não esquece a extremosa e indispensável intervenção das enfermeiras no decurso da guerra. Houve um grupo de trabalho que desafiou o autor a coligir a obra destinada a guardar a memória desta tropa de elite.

No texto anterior, procedeu-se a uma síntese dos acontecimentos ocorridos em Angola em 1961, partiram a 16 de março com destino à Base Aérea n.º 9, em Luanda, era o primeiro contingente, o autor dá nota do desempenho da força paraquedista, refere as operações com salto em paraquedas, onde foi possível praticar tais iniciativas, não deixando de mencionar aquela que foi a mais emblemática e temerária mas que não se concretizou, e que tinha a ver com a reunião em Cap Skirring onde decorreu uma reunião entre o General Spínola e o Presidente Senghor. Como necessário, o leitor acompanha a atividade operacional dos paraquedistas em Angola.

Reportando-nos à Guiné, deu-se a visão da intervenção dos paraquedistas desde 1963 até à sua presença em Gandembel, em dezembro de 1968. O autor cita algumas expressões que o nosso confrade Idálio Reis, presença marcante em Gandembel, deixa no blogue:
“Os paraquedistas eram, inquestionavelmente, a tropa de elite melhor preparada para este tipo de guerra de guerrilhas, na busca perseverante ao agressor (…) a sua ação foi de uma extraordinária valia, revelou-se fundamental para o futuro dos homens da minha Companhia, muito em especial no aspeto anímico, e inclusive conseguiu também criar um clima de muito maior segurança para as demais tropas fixas e imóveis que estavam de algum modo envolvidas com Gandembel (…) Indubitavelmente, foi capaz de incutir uma outra serenidade a estes desalentados homens, renovar estados de espírito abalados, sobrepujar contrariedades inúmeras, remoçar réstias de esperança, que se revelaram cruciais no aumento da autoestima. E esta extraordinária proeza, este feito inigualável, ninguém lhe consegue dar a devida dimensão, tão-só o peso e o testemunho da gratidão dos que a sentiram.”

Estamos agora na era de Spínola, a reformulação da atividade operacional também atingiu as forças paraquedistas: foram criados Comandos Operacionais, Comandos de Agrupamentos de Operacionais e Comandos Operacionais Temporários. Deu-se seguimento ao projeto “Por Uma Guiné Melhor”, as populações das zonas mais disputadas eram transferidas para aldeamentos em locais estrategicamente escolhidos. Um coronel paraquedista foi escolhido para comandar o Comando de Agrupamento Operacional n.º 1, em Teixeira Pinto, em 1969, os paraquedistas alcançaram resultados assinaláveis. Eles também estiveram presentes na Operação Titão, a 24 de abril de 1969, na região do Morés, houve guerrilheiros capturados, bem como muito material de guerra. Em 13 de junho de 1969, eles irão intervir na Operação Orfeu, assalto à base de Choquemone, nos resultados, um número assinalável de material capturável.

A Operação Jove, executada nos dias 17 e 18 de novembro de 1969, no corredor de Guileje, deu como resultado a captura do capitão cubano Pedro Rodriguez Peralta. Irão realizar-se outras operações no corredor de Guileje. Em território bem distante, na região de Pirada, estamos em julho de 1970, decorrerá a Operação Elefante Roxo, o PAIGC tinha lançado um violento ataque ao aquartelamento, com fogos de canhão sem recuo, lança-granadas foguete, metralhadoras e armas ligeiras, procurava-se infiltrar elementos na povoação, a guerrilha tentou assaltar as instalações da DGS, uma secção de paraquedistas impediu que o assalto se concretizasse, contra-atacando e perseguindo os guerrilheiros.

Em janeiro de 1972, os paraquedistas voltam ao Morés em vários agrupamentos, batem o terreno, capturam material e provocam baixas à guerrilha. Por essa altura, o Comando-Chefe decidiu realizar entre a fronteira com a Guiné-Conacri e Salancaur Jate, perto do corredor de Guileje, a Operação Muralha Quimérica, entrou-se em acampamentos e apreendeu-se material. As forças paraquedistas tiveram um papel determinante na reocupação do Cantanhez, este local, severamente fustigado em 1968, dava sinais de que o PAIGC voltara a ocupá-lo. A Operação Grande Empresa envolveu forças de intervenção, entre elas três Companhias de Caçadores Paraquedistas, forças de quadrícula, várias companhias de caçadores e um pelotão de artilharia, forças de apoio, a Marinha e Força Aérea. Os páras participaram na implantação de aquartelamentos em Cadique, Caboxanque, Cafal Balanta, etc. Observa o autor que em maio de 1973, apesar de todos os progressos alcançados ninguém podia afirmar que se vivia em paz no Cantanhez. Todo este esforço se acabou por diluir com as ofensivas do PAIGC na região de Guileje e Gadamael e no norte, em Guidage, nesta altura a guerrilha já operava com os mísseis terra-ar Strela.

Mais uma vez os paraquedistas vão intervir em pontos convulsivos. Depois da retirada de Guileje, em 22 de maio, o PAIGC cerca Gadamael, vêm os paraquedistas, chegam a 3 de junho, desembarcam debaixo de uma concentração de artilharia e morteiros, os paraquedistas vão encontrar Gadamael em estado de grande devastação, o PAIGC pressiona, uma companhia de paraquedistas patrulha. Em 23 de junho, vários grupos de combate de paraquedistas saem de Gadamael e vão rumo a Cacoca, é a Operação Cobra Ondulante, vão desarticular um “quartel” do PAIGC. Os combates a norte foram igualmente ferozes, o PAIGC preparou o cerco de Guidage com um efetivo de 650 homens, provoca o inferno, quase que destrói o aquartelamento, faz repelir as colunas de reabastecimento. Os paraquedistas irão apoiar a Operação Ametista Real, a missão é estabelecer e garantir a segurança de um corredor por onde se fará a recolha do Batalhão de Comandos Africanos, na sequência do assalto a Cumbamori, e partem depois para Guidage, pelo caminho serão emboscados, a resposta é rápida, a guerrilha provoca baixas aos paraquedistas. A 30 de maio, uma companhia de paraquedistas, os destacamentos de Fuzileiros e o remanescente do Batalhão de Comandos Africanos deslocam-se para Binta, a companhia de paraquedistas saíra 17 dias antes para apoiar a Operação Ametista Real, trazia vestida a mesma roupa e menos quatro dos seus homens.

O autor chama a atenção que o empenhamento operacional no Cantanhez tinha exigido aos paraquedistas um esforço enorme. Os homens regressaram a Bissalanca mais magros, fisicamente cansados pelas consecutivas ações de combate e psicologicamente afetados pelos bombardeamentos suportados em noites insones. Mas voltaram às operações em junho. A última ação de combate com expressão relevante ocorreu em 30 de janeiro de 1974, na região de Bissum, os paraquedistas procederam a uma batida, encontraram uma canoa com armas, capturaram elementos do PAIGC e abateram outro. Em 10 de abril de 1968 foi concedida a medalha de Cruz de Guerra de 1.ª Classe ao Batalhão de Caçadores de Paraquedistas n.º 12, o diploma legal destaca as reais qualidades desta tropa de elite: “O Batalhão tem-se destacado, através dos seus oficiais, sargentos e praças, que formam um grupo equilibrado e homogéneo, exemplo da tropa de intervenção como uma verdadeira unidade de elite, contribuindo, de maneira decisiva para a viragem da situação no sul da província, honrando, assim, as Forças Paraquedistas e tendo a sua atuação na província considerada brilhante e altamente honrosa, resultando prestígio para a Força Aérea e admiração e reconhecimento das outras Forças Armadas.”

Cumpre dizer que o autor dedica um amplo capítulo à presença dos paraquedistas em Moçambique e um tocante capítulo às enfermeiras de camuflado.

Uma importante investigação que traz luz à performance dos paraquedistas nos três teatros da guerra colonial.

Coronel de Cavalaria Paraquedista Nuno Mira Vaz
Fez uma comissão em Angola, duas comissões na Guiné e uma em Moçambique. Condecorado com a Cruz de Guerra, de 1.ª classe
Testemunho de paraquedista recolhido do jornal Correio da Manhã, não consta o nome, fez comissão na Guiné de 1966 a 1968 no 1.º pelotão da Companhia de Caçadores Paraquedistas 122:

“Faltavam oito dias para regressarmos a Lisboa com a nossa missão cumprida. Entre nós já ninguém pensava na guerra, os dias eram contados a cada instante. Mas o inesperado aconteceu. O nosso Comandante Coronel Sigfredo Ventura da Costa Campos mandou formar a companhia de caçadores paraquedistas 122 e disse o que passo a citar: "Meus senhores, nós vamos embora daqui a oito dias, mas os camaradas que nos veem substitui, vão precisar de um mês para ficarem 100% operacionais. O problema é que os rapazes de Tite estão constantemente a ser atacados. Eu sei onde estão as armas pesadas com que eles os flagelam... Vocês querem ir lá buscá-las?" - E aqueles 120 rapazes responderam em uníssono, "Queremos!".


Fomos de novo cumprir com o nosso dever e trouxemos os canhões sem recuo, os morteiros 82 e armas ligeiras; e para além de algumas baixas infligidas, ainda trouxemos ferido o irmão do chefe do grupo que ali atuava. E assim aliviámos os nossos irmãos, pelo menos por algum tempo. No final fomos condecorados com a medalha de Cruz de guerra de primeira classe coletiva. Mas se me perguntassem se faltou alguma coisa... Bem, diria que faltou alguém com bom senso dizer: Obrigado, Pá! A Pátria está-te agradecida!”

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Notas do editor:
Post anterior de 12 de maio de 2025 > Guiné 61/74 - P26793: Notas de leitura (1796): "Pára-quedistas em Combate 1961-1975", por Nuno Mira Vaz; Fronteira do Caos Editores, 2019 (1) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 16 de maio de 2025 > Guiné 61/74 - P26806: Notas de leitura (1797): "As Raças Humanas", de Louis Figuier, editado em Lisboa em 1881, no tempo em que se acreditava nas raças superiores e inferiores… (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 5 de agosto de 2024

Guiné 61/74 - P25810: Notas de leitura (1715): Aqueles anos horríveis do ajustamento estrutural, fim do sonho coletivista: Dois ensaios de cientistas sociais suecos, um documento importante de Lars Rudebeck, amigo da Guiné (3) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 20 de Fevereiro de 2023:

Queridos amigos,
Quando se lêem as implicações que o ajustamento estrutural teve em Kandjadja, uma comunidade a 100 quilómetros de Bissau e a 30 de Farim, parece que estamos a ver todas as comunidades rurais da Guiné-Bissau, o desalento, as expetativas frustradas, a diluição da presença do PAIGC, a manutenção da multiplicidade cultural que permitia uma vida em apaziguamento entre Mandingas, Fulas e Balantas, a desagregação do sistema escolar criado pelo PAIGC e encarado pelo sistema tradicional como a "escola dos brancos" e também sob a forte alegação de que os pais não encontravam razão para enviar os filhos à escola, preferiam que os filhos trabalhassem ali ou no Senegal; a dissolução atingiu também a saúde pública. Em finais de 1988, escreve Lars Rudebeck, ofereceu-se forte resistência ao aumento de impostos, e não se aceitou em perder a tradição do povo fazer queimadas para conseguir novas terras cultiváveis. As populações também voltavam as costas às exigências do Governo de não trocar o peso guineense no mercado negro pelo franco CFA. Este trabalho de campo do eminente investigador sueco anda muito próximo de um outro que já aqui analisámos, da autoria de Joshua Forrest, sobre a influência gradual que o sistema de linhagens foi tendo na vida das comunidades rurais a partir de um momento em que a via da democracia participativa se foi apagando.

Um abraço do
Mário



Aqueles anos horríveis do ajustamento estrutural, fim do sonho coletivista: Dois ensaios de cientistas sociais suecos, um documento importante de Lars Rudebeck, amigo da Guiné (3)

Mário Beja Santos

Entro numa loja de comércio justo ligada ao CIDAC, à procura de uma publicação sobre Cabo Verde e encontro a tradução portuguesa de um documento de que há muito ando no encalço: o que representou o ajustamento estrutural em três países africanos de língua portuguesa que foram insurgentes (esclarecedor documento de Kenneth Hermele) e a profunda análise que Lars Rudebeck faz do que significou o ajustamento estrutural numa aldeia a cerca de 100 quilómetros de Bissau, foi matéria de um seminário que decorreu na Universidade de Uppsala em maio de 1989, organizado por AKUT.

Nos dois textos anteriores, fizeram-se apontamentos, um sobre o ensaio de Kenneth Hermele intitulado Ajustamento Estrutural e Alianças Políticas em Angola, Guiné-Bissau e Moçambique, o segundo da autoria de Lars Rudebeck sobre o ajustamento estrutural em Kandjadja, vamos hoje concluir o ensaio deste renomado investigador abordando as implicações políticas e socioculturais do ajustamento estrutural na referida povoação.

Rudebeck visitara Kandjadja no início de 1986, tomou em consideração a própria análise dos habitantes, queixavam-se da falta de apoio, da ausência do Estado, isto a despeito de formalmente a população estar politicamente organizada, ter comité de base, o chefe da aldeia era o Presidente da secção do Partido. Este chefe da aldeia era militante do PAIGC durante a guerra da libertação, mas a maior parte da sua autoridade tem raízes locais nas tradições culturais e na estrutura do poder da comunidade Mandinga, ou seja, ele funcionava como mediador entre um Estado que apregoava a modernização e a força da tradição e das lutas pela sobrevivência. Como o investigador sueco observa: “Quanto menos o Estado cumprir as suas promessas de desenvolvimento mais dependente Kaba fica da sua autoridade derivada das raízes locais, e consequentemente menos capacidade tem para mobilizar a população local para atividades que ela não aceita espontaneamente – tais como pagar impostos ou mandar os seus filhos à escola estatal.” Houve uma deterioração da legitimidade original do partido, antes de Kaba houve outros representantes, mas eram sempre considerados como estranhos. Enfim, muito pouco da autoridade política de Kaba em Kandjadja parece derivar do Partido e do Estado.

Rudebeck reflete sobre a multiplicidade cultural do país, há a Kandjadja-Mandinga, a três quilómetros de distância fica Kandjadja-Fula e a cerca de um quilómetro Kandjadja-Balanta, há problemas religiosos, de estrutura social e de modos de produção distintos que o autor abreviadamente analisa. Refere, igualmente, que, por volta de 1984, surgiu uma espécie de movimento revivalista, primeiramente no sul entre o povo Balanta, criticando a ignorância, a corrupção, o despotismo dos velhos, a feitiçaria. Este movimento é chamado Yanque Yanque, iniciado por uma mulher profeta e mobilizando especialmente gente jovem. Apesar da crítica feita pelo movimento se dirigir especialmente à sociedade Balanta em si mesma, ele foi alvo de grande suspeita por parte do Governo e mesmo acusado de ter relações com uma tentativa de golpe de Estado em que teria estado envolvido o vice-presidente Paulo Correia, tal acusação é pura especulação, assim como muitos aspetos da alegada tentativa de golpe de Estado. Devido à grande influência Mandiga em Kandjada, este movimento Yanque Yanque não foi muito ativo.

E fala do funcionamento da escola. “Em 1976, quando visitei Kandjadja pela primeira vez, a escola era provavelmente a instituição mais revolucionária da aldeia, apesar de ser mais no sentido ideológico. Três professores, jovens e muito motivados, dois dos quais tinham vivido com a guerrilha desde a infância, ensinavam cerca de duzentos alunos, o ensino era uma combinação de disciplinas convencionais e de ensino político sobre a História e o significado da luta de libertação nacional.” A comunidade não reagiu bem, sentiu que havia uma rivalidade com a escola corânica. “O professor era um jovem de cerca de vinte anos, da mesma idade que os seus colegas na escola estatal, na qual estava ao mesmo tempo matriculado no segundo ano. A população de Kandjadja chamava à escola estatal, exatamente como ainda o faz catorze anos depois, ‘a escola dos europeus’ ou ‘dos brancos’ porque é aí que as coisas ‘modernas’ ou ‘europeias’ são ensinadas. Desde então, tem havido um declínio constante da extensão das atividades e do nível de autoridade da escola oficial na comunidade. Em 1976, havia quatro classes na escola primária (mais um grupo preparatório), nos anos seguintes, só três classes e em 1988, o único professor que restava afirmou que só iria ensinar duas classes em 1989.”

Igualmente Rudebeck observa que há consenso entre os observadores e estudiosos da Guiné-Bissau que o sistema escolar oficial da Guiné-Bissau sofreu durante toda a década de 1980 uma situação de crise e degradação incapaz de dar resposta às expetativas da população ou aquilo a que se poderá chamar as necessidades de desenvolvimento do país. Rudebeck tomou nota de que a escola da aldeia vai reduzida a uma pequena palhota, tinha somente dezasseis alunos (dez eram de Kandjadja-Fula, um de Kandjadja-Balanta e somente cinco da aldeia Mandinga, onde a própria escola se situa). O professor tinha sérios problemas em convencer os pais de origem Mandinga a mandarem os filhos à escola, aumentara a desconfiança em relação à “escola dos brancos”. O professor confessou que a escola estava num estado desastroso, já propusera às autoridades educacionais o encerramento da escola por falta de apoio da comunidade, mas recebeu ordem para continuar. O chefe da aldeia, Kaba, apoia os esforços feitos pelo professor, mas está muito pressionado pelos velhos que não têm nenhuma confiança na escola nova. O professor analisa a situação da seguinte maneira:

“Os pais não encontram razão para enviar os seus filhos à escola, visto que lá eles não aprendem nada que possa melhorar a situação da família, pelo menos a curto prazo. A escola constitui um obstáculo ao trabalho em casa e nos campos. Nos primeiros anos após a independência ainda se acreditava que a escola levaria a melhoramentos, que as crianças iriam aprender coisas úteis a ganhar dinheiro. Mas agora eles compreendem que não é assim, por isso, eles preferem que os filhos trabalhem aqui ou no Senegal".

O olhar do investigador dirige-se agora para a saúde pública. Em 1976 existia na povoação um embrião de um sistema de saúde pública que funcionava, havia uma enfermeira que três vezes por semana, de manhã, atendia doentes a quem dava cloroquina ou aspirina ou que administrava tratamentos gerais. Os casos sérios podiam ser mandados, a pé, para os dois pequenos hospitais em Morés ou Mansabá. Durante os anos seguintes, o sistema foi-se desintegrando manualmente, substituído pela medicina tradicional, ruiu o posto médico. No início de 1988 apareceu um programa de “saúde base” apoiado pela UNICEF, fora decidido que a população construiria e pagaria um posto de saúde. A ideia do programa de “saúde base” é criar uma rede de agente de saúde base locais, as pessoas iriam pagar 50 pesos por cada consulta e esse dinheiro ficaria em Kandjadja para ser utilizado na compra de medicamentos. Em dezembro desse ano chegou uma brigada de saúde para vacinar mulheres e crianças. Este programa de “saúde base” não recebe financiamento do Estado guineense, tem financiamento que vem diretamente do estrangeiro. Com as medidas do ajustamento estrutural acreditava-se que as agências estrangeiras de assistência iriam passar a ficar como encarregadas das funções de assistência social.

Por último, Rudebeck analisa o povo de Kandjadja em face do Estado, detalha longamente as conversas havidas acerca do aumento de impostos, como estes foram inicialmente contestados e, por último, suavizados pela Assembleia Nacional Popular. A contestação das tentativas de controlo por parte do Governo eram enormes. Existe uma resistência em relação ao pagamento de impostos porque aqueles que os pagam não reconhecem que recebem algo de volta. Aos olhos dos camponeses, a floresta tem de ser queimada enquanto não houver uma alternativa de método acessível para cultivar a terra. Em suma, o ajustamento estrutural era encarado pela população que tinham impressão que o Estado e a nação não ofereciam nenhuma alternativa real para os indivíduos e para o desenvolvimento, não trouxe razões concretas para se ter esperança num futuro melhor em Kandjadja. O que há de francamente novo é que os homens jovens da aldeia vajam mais livremente do que à volta de 1980. O poder do Estado estava à perder a sua legitimidade. “O povo regressa às suas raízes históricas e às experiências já vividas e demonstradas para sobreviver e para encontrar consolo. Mas o que encontra não chega para preencher o vazio do momento presente. Estão a surgir novas fendas. Através delas, novas alianças, novas bases de legitimidade, até agora só vagamente pressentidas.”


Kenneth Hermele
Lars Rudebeck
O antigo hospital militar n.º 241, imagem do Triplov, com a devida vénia
A casa comercial Taufick-Saad, imagem do Triplov, com a devida vénia
Fevereiro de 1965, o governador Arnaldo Schulz passa revista a uma unidade da Mocidade Portuguesa, no ato inaugural de uma escola, Arquivos da RTP, com a devida vénia
Nino Vieira e Luís Cabral na Suécia, 1973, imagem retirada do blogue Herdeiro de Aécio, com a devida vénia
Nota de 100 Pesos da Guiné-Bissau, emissão de 1975, reverso da nota na face está a efígie de Domingos Ramos
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Notas do editor:

Post anterior de 29 de julho de 2024 > Guiné 61/74 - P25789: Notas de leitura (1713): Aqueles anos horríveis do ajustamento estrutural, fim do sonho coletivista: Dois ensaios de cientistas sociais suecos, um documento importante de Lars Rudebeck, amigo da Guiné (2) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 2 de agosto de 2024 > Guiné 61/74 - P25803: Notas de leitura (1714): Factos passados na Costa da Guiné em meados do século XIX (e referidos no Boletim Official do Governo Geral de Cabo Verde, ano de 1869) (14) (Mário Beja Santos)

quinta-feira, 11 de julho de 2024

Guiné 61/74 - P25735: A minha ida à guerra (João Moreira, ex-Fur Mil At Cav MA da CCAV 2721, Olossato e Nhacra, 1970/72) (51): Operação Jaguar Vermelho - I: dia 26 de Maio de 1970



"A MINHA IDA À GUERRA"

João Moreira


OPERAÇÃO JAGUAR VERMELHO - I

Para quem não sabe, informo que a Operação Jaguar Vermelho1 foi uma grande operação na zona do MORÉS, que ficava a cerca de 5 ou 6 Km, em linha recta, dos nossos quartéis do OLOSSATO, onde estava a minha CCAV 2721 e de MANSABÁ, onde estava a CART 2732, do Carlos Vinhal.

Durante um mês, aproximadamente, os nossos aviões Fiats e T-6 iam lá várias vezes largar as bombas.
E eram bombas de "pouca potência".
Eram tão "fraquinhas" que quando rebentavam, até as casas do Olossato tremiam e muita população que vivia sob controle do PAIGC se ia entregar nos nossos quartéis.
E assim chegou o dia 26 de Maio de 1970.
Localização do MORÉS - Região do Oio - no triângulo formado pelos itinerários Mansoa-Bissorã-Mansabá-Mansoa
Infografia: © Luís Graça & Camaradas da Guiné


1970/MAIO/26 ÀS 09H00M

Às 9H00M o meu grupo de combate (4.º GComb), reforçado com 15 milícias, saiu para a região de BISSANCAGE, onde encontrou um trilho muito recente e batido, de MORÉS para MADINA MANDIGA.
O alferes Silva decidiu emboscar neste local.
Enquanto o alferes Silva estava a instalar os primeiros elementos do 4.º grupo de combate, que eram milícias, surgiram 2 elementos inimigos armados.
Deste contacto resultou o ferimento e captura de 1 elemento inimigo e a fuga do outro.
Neste contacto também resultou a morte de um soldado milícia nosso, que foi morto pela rajada dum soldado nosso (FR) que, por precipitação ou por medo fez fogo para o local onde estava o alferes e os soldados milícias e só parou o fogo quando o alferes e os soldados da milícia gritaram para parar o fogo.
Não sei se o alferes tinha avisado o que se estava a passar, mas o soldado "tinha" que saber que estavam ali os nossos militares.

Quando a situação estava controlada e trouxeram o guerrilheiro para o local onde estava o resto do grupo de combate, os outros milícias queriam matá-lo à pancada. Tive que intervir para acabar com esta cena de vingança. Mas há uma frase dum soldado milícia nosso que não esqueci, nem esquecerei e que é a seguinte:
- "Furriel, se turra apanha nós (e fez um gesto com o dedo indicador no pescoço = corta-nos o pescoço OU mata-nos) mas se apanhar pessoal branco trata-o bem".

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 4 DE JULHO DE 2024 > Guiné 61/74 - P25715: A minha ida à guerra (João Moreira, ex-Fur Mil At Cav MA da CCAV 2721, Olossato e Nhacra, 1970/72) (50): Ataque ao quartel no dia 12 de Maio de 1970