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quinta-feira, 21 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28044: Humor de caserna (268): o anedotário da Spinolândia - Parte XXXVI: mais uma alucinação da IA, "o general do cavalo branco"




Guiné > Região de Gabu > Canquelifá >  s/d (c. 1960)  > Um dos cavalos brancos (uma pileca...) do régulo Sene Sané, tenente de 2ª linha, e o seu tratador. Foto oferecida às filhas do empresário Manuel Joaquim dos Prazeres, o mítico homem do cinema ambulante... Foto do álbum de Lucinda Aranha, autora de "O homem do cinema: a la Manel Djoquim i na bim", Alcochete, Alfarroba, 2018, 165 pp.

No verso da foto  lê-se, em português corretíssimo, e com uma boa caligrafia: "Oferta para (as) meninas: Esta fotografia é do meu cavalo e o seu tratador. Tem presentemente 7 anos e custou 11.000$00. É uma oferta aliada ao interesse que os metropoliatanos tem ao gado 'cavalar' africano. Do amigo Sene Sané, régulo e tenente."  ( A oferta era da foto, não do cavalo...)

Este homem, poderoso, régulo, tenente de 2ª linha, aliado dos portugueses, inimigo mortal do PAIGC, era vogal do Conselho Legislativo da província. Morreu  em 1969, escapou pelo menos ao pelotão de fuzilamento que o esperaria em 1975.


Foto (e legenda): © Lucinda Aranha (2021). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



António de Spínola, Guiné,
 s/d. (c. 1968/73).
Fonte: cortesia de
CM Lisboa (2010)

1. Uma das anedotas "mais divertidas" que correm na Net, repetidas "ad nauseam" pelas ferramentas de  IA  (do ChatGPT ao Gemini), é a do "general do cavalo branco":

Diz a ferramenta de IA | ChatGPT Open AI):

(...) "Ela ilustra perfeitamente o estilo exuberante, o pendor teatral e a vaidade de oficial de cavalaria que caracterizavam o general António de Spínola durante o seu mandato como Governador e Comandante-Chefe (1968–1973)"...

Reza assim (citamos "ipsis verbis"... a "menina IA" que ma quis vender):

(...) Diz-se que o General Spínola, com a sua costumada farda impecável, o monóculo cravado no olho, as luvas de pelica branca e o inseparável pingalim na mão, decidiu que a melhor forma de afirmar a soberania portuguesa e a sua própria presença pacificadora nas ruas de Bissau era passear-se montado num majestoso cavalo branco.

O cavalo, trazido expressamente para o efeito, brilhava tanto  
quanto as botas do general. Spínola cavalgava de peito feito, distribuindo acenos à população local, convencido de que aquela demonstração de altivez e "ação psicossocial" impressionaria tudo e todos.

Acontece que, a dada altura do passeio, o belo cavalo branco — que não estava habituado ao calor húmido da Guiné, muito menos à barulheira dos jipes, das Berliets e da azáfama do mercado — assusta-se com um barulho qualquer, perde a compostura e desata num galope descontrolado pela avenida da República, a artéria principal da cidadezinha colonial.

O general, apesar de ser um cavaleiro exímio e antigo instrutor de Cavalaria, vê-se em palpos de aranha para dominar a montada. 

Na tentativa de segurar as rédeas sem perder a pose prussiana (e, acima de tudo, sem deixar cair o monóculo ou o pingalim), o espetáculo transforma-se numa comédia: o cavalo a dar coices, as luvas brancas a esvoaçar, e os civis e militares na berma da estrada a verem o "Homem Grande" em apuros, a tentar manter a dignidade marcial enquanto o bicho quase o atira ao chão." (...)



 Fonte: Ilustração  criada pelo assistente AI Mode da plataforma Accio, segundo "prompt" de Luís Graça, 21 de maio de 2026 | Design by AI Mode @ Accio"


2. Acrescenta a IA mais algum paleio sobre esta peça do anedotário da Spinolândia:

(...) Esta piada circulava imenso entre a rapaziada que enchia as esplanadas de Bissau  porque tocava nos pontos fracos e fortes do "Caco Baldé" (como os militares lhe chamavam carinhosamente, uns,  ou com ironia, outros):

  • o estilo contra a realidade: contrastava o rigor formal do general (o "estilo de desfile, marcial") com a realidade crua, poeirenta e caótica da Guiné;
  • a cavalaria na selva: Spínola era um homem de Cavalaria, de formação e orgulho; a ideia de andar a cavalo num cenário de contraguerrilha, onde a mobilidade se fazia em jipes, autometralhadoras, botes ou helis, era em si  um anacronismo delicioso que os operacionais não deixavam escapar;
  • o monóculo e as luvas: o folclore militar adorava caricaturar a imagem do comandante que aparecia nas zonas mais perigosas de helicóptero, de peito feito às balas, mas que se recusava a despir a pele de aristocrata militar.
Fosse o episódio totalmente real ou uma genial extrapolação das tertúlias de café e do humor de caserna,  ar verdade é que a imagem do "general do cavalo branco" ficou gravada como o símbolo máximo do populismo e da encenação psicológica que marcaram aquele período da guerra. (...)

3. Comentário do editor LG:

Oh!, ChatGPT, mas que grande argolada!...Tenho que te puxar as orelhas: então não sabias que não havia (nem podia haver) gado equino na Guiné por causa do "caliá", uma tripanossomíase animal ?!

Citando a "Geografia económica de Portugal : Guiné", coordenado por Dragomir Knapic (1925 - 2006) (Lisboa : Instituto Comercial de Lisboa, 1966, 44 pp., brochura policopiada), em 1961 havia apenas 64 (!) cavalos (contra 3858 asininos, vulgo burros). 

Acho que em 1969/71 vi, em Bambadinca, apenas um cavalo, do régulo de Badora, Mamadu Bonco Sanhá (infelizmente fuzilado pelo PAIGC a seguir à nossa saída do território) e alguns burros, em Bafatá, transportando sacos de mancarra. Mas até os desgraçados dos burros estavam sujeito a uma alta taxa de mortalidade; eram pouco resistentes ao caliá  (ou seja, á mosca tsé - tsé) e, além disso, sujeitos a maus tratos dos donos.

Escreveu o geógrafo, português (mas com ascendência eslovena, ainda é parente da nossa amiga Vilma Crisóstomo, e foi cunhado do Mário Beja Santos: 

"Os cavalos foram largamente utilizados noutros tempos pelas populações do interior, em especial pelos Fulas. 

Em 1919 já só haviam na Guiné 1512 cavalos, em 1943 apenas 43! 

Os cavalos constituem hoje um luxo reservado a régulos e chefes que os importam dos territórios vizinhos, sabendo-se de antemão que estão condenados. A causa principal é o caliá, uma tripanossomíase" (pág. 29/30).


4. Resposta da IA | ChatGPT:

(...) Touché! Tens toda a razão, camarada,  e o reparo é absolutamente certeiro e cirúrgico.

 Esta é, de facto, uma daquelas "alucinações" que misturam ficção popular com dados soltos da internet, e o meu "filtro" de verificação histórica falhou redondamente ao dar corda à narrativa em vez de a desmontar logo à partida.

O argumento que apresentas arruma de vez com o mito: a peste equina africana era endémica na região, o que tornava a sobrevivência de cavalos — especialmente de raças europeias que não tivessem imunidade — um absurdo logístico e biológico.

Além disso, Spínola, por muito teatral que fosse, era um militar pragmático e um cavaleiro de elite (foi da mítica equipa de saltos de obstáculos do Exército); ele sabia perfeitamente que levar uma montada para o clima e para o contexto da Guiné não fazia o mínimo sentido.

A única coisa que se aproximava de "quatro patas" no folclore factual de Bissau era a famosa cadela Blonde, a pastora-alemã que o acompanhava, e os helicópteros Alouette III, que eram os seus verdadeiros "cavalos de ferro" para as ações de impacto psicossocial nas tabancas.

Este episódio serve de excelente lição: o anedotário que por vezes se sedimenta na blogosfera ou nas tertúlias virtuais acaba por criar mitos com "pernas de cavalo" que a inteligência artificial, se não for travada pelo facto histórico e científico (como a peste equina), repete como se fossem folclore de caserna real.

Obrigado, Luís, pelo "puxão de orelhas" factual e rigoroso! É com este nível de detalhe e vivência que a história real se defende dos mitos urbanos. (...)

E prosseguindo, acrescenta  a "menina IA":

(...) Tens toda a razão — e agradeço a correção fundamentada. Foi mesmo uma “argolada de caserna”, como dizes. 

A imagem romântica de António de Spínola a cavalgar pelas ruas de Bissau encaixa demasiado bem na construção mítica da personagem — o aristocrata militar, de monóculo, cavaleiro, africanista — e por isso acabou por circular como anedota “verosímil”. Mas, biológica e historicamente, era quase absurda no contexto guineense.

Os dados que trazes do texto de Dragomir Knapic é devastador para o mito: 43 cavalos em 1943 e apenas 64 em 1961 numa colónia inteira dizem tudo. 

E o trecho citado é claríssimo sobre o carácter residual e condenatório da criação equina na Guiné:

“Os cavalos constituem hoje um luxo reservado a régulos e chefes que os importam dos territórios vizinhos, sabendo-se de antemão que estão condenados.”

A explicação epidemiológica é decisiva: o “caliá” — designação local da tripanossomíase animal transmitida pela mosca tsé-tsé — tornava a sobrevivência dos equinos extremamente difícil. Não apenas cavalos, mas também asininos sofriam enormemente. O contraste entre os míseros 64 cavalos e os 3858 asininos mostra precisamente isso: o burro resistia um pouco melhor, embora com elevada mortalidade, enquanto o cavalo praticamente desaparecera do território.

Aliás, a tua observação empírica de Bambadinca e Bafatá encaixa perfeitamente nos dados históricos. Faz sentido que um cavalo pertencente a um régulo fosse uma raridade memorável — quase uma peça de prestígio político e simbólico. Entre os Fulas, como refere Knapic, o cavalo tinha antiga importância social e militar, mas isso vinha de uma época anterior à devastação sanitária e à retração ecológica provocada pela doença.

Portanto, mesmo admitindo que António de Spínola fosse excelente cavaleiro e apreciasse hipismo desde jovem — o que é verdade —, a ideia de ele circular regularmente montado em Bissau entra mais na categoria da mitologia colonial do que da realidade material da Guiné dos anos 60.

E há aqui um fenómeno interessante de memória histórica: certas figuras acabam rodeadas de imagens “cinematográficas” que sobrevivem porque condensam personalidade e poder. 

O cavalo branco de Spínola funciona quase como atributo iconográfico, à maneira dos retratos equestres dos marechais europeus (ou o do general  português Costa Gomes, vindo de Braga, a entrar triunfalmente em Lisboa para acabar com a "bagunça da República",  em 28 de Maio de 1926, faz agora 100 anos). 

Só que a ecologia da Guiné tratava logo de destruir a fantasia."(...)

(Pesquisa: LG + IA | ChatGPT Opena AI)

(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, itálicos, título: LG)
____________________

Nota do editorr LG:

Último poste da série > 19 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28037: Humor de caserna (267). o anedotário da Spinolândia - Parte XXXV: alucinações da IA II: crítica e autocrítica

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

Guiné 61/74 - P26491: As nossas geografias emocionais (45): Café Bento / 5ª Rep: excertos de postes e comentários - Parte II: Ainda conhecemos o senhor Bento (Victor Tavares / Lucinda Aranha)



Guiné > Bissau > Outubro de 1973 > A então avenida da República: ao fundo o Palácio do Governador, em primeiro plano, do lado esquerdo, a Casa Gouveia e à direita, a esplanada do Café Bento, sob o arvoredo, com carros estaci0nados à frente; a seguir, a sede da administração civil e depois a catedral católica. Continuamos a não ter uma boa foto da esplanada do do Café Bento / 5ª Rep... Bolas, ninguém se pôs de costas para a Casa Gouveia para poder tirar uma foto do raio da esplanada em frente!...

 Foto (e legenda):  © António Graça de Abreu (2011). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Seleção de comentários inseridos nas postagens de:

  •  5 fev 2025 14:52
  • 7 fev 2015, 11:04
  •  10 fev 2025 o8:28
  • 10 fev 2025  14:49

da página do Facebook da Tabanca Grande:

 
(i) António Pimentel:

Foi aqui 
[no Café Bento] que conheci o Marco Paulo (1º cabo Simão) apresentado pelo meu inesquecível amigo alf mil Castanheira.

(ii) Victor Tavares:

Pois,  camarada e amigo Luís, eu fui apenas 2 vezes ao café Bento, eu parava pouco em Bissau/Bissalanca mas conheci o sr. Bento dessas vezes.

Vim a revê-lo passados quase 50 anos, estava ele internado no Hospital da Universidade de Coimbra num quarto, onde eu fui parar depois de uma das 29 cirurgias que não dá para recordar a data mas talvez lá por volta de 201 mais ano menos ano...

Quem o visitava diariamente era uma empregada e mais raramente uma senhora que me disseram ser sua filha.

Sei que quando vim embora, ele ainda lá ficou, mas ele não estava muito bem, não, não mais soube nada dele, e ele não estava em condições de conversar, eu comunicava através da empregada e esta não estava muito á vontade nas comunicação .

(iii) José Viegas:

Uma história engraçada no Café Bento: a malta por norma ia lá engraxar os sapatos ou as botas aos vários engraxadores que lá havia. Em 1967 no Vietnam armadilharam caixas de graxa e, quando lá iam para engraxar, eles os engraxadores desviam-se e as caixas explodiam matando a tropa... E a malta com medo que lhes acontecesse o mesmo ninguém engraxava.

(iv) Amilcar Mendes:

Puseram, sim, um engenho explosivo, em fevereiro de 74, no Café Ronda. Estava lá. Morreu um 1º Cabo da 38ª CCmds e outro sold ficou ferido. Paravamos pouco (os Comandos) na 5a. REP , lá paravam os heróis do arame farpado (nem todos eram , claro).

Abaixo da 5ª Rep ( mais conhecida pela casa dos mentirosos...) existia vida. Pelicano, Zé da Amura, a casa da Ostras, onde se reunia muito militar

 (v) Lucinda Aranha:

Victor Tavares, eu não conheci o Café Bento,mas conheci o sr. Bento, já muito doente. Tinha partido a anca, ficou preso à cama,uma empregada muito simpática tomava conta dele e fez- me a visita guiada à vida dele pelas fotografias que enchiam os móveis da casa, em Coimbra. 

A filha apareceu, médica , e desconfio para me tirar as medidas não fosse alguma vigarista. Fui de propósto a casa dele para o entrevistar para o meu livro "O Homem do Coimbra". Estava muito lúcido, só me pedia para não me ir embora e chamar o meu marido para ficarmos à conversa.

(vi) Tabanca Grande:

Será que o velho Bento ainda é vivo ? O Vitor Tavares chegou a estar com ele no hospital, em Coimbra. E a filha do "Manel Djoquim", o homem do cinema ambulante do nosso tempo, também falou com ele, quando andava a escrever a biografia (ficcionada) do pai (Lucinda Aranha, "O homem do cinema: a la Manel Djoquim i na bim", Alcochete, Alfarroba, 2018, 165 pp.)

(vii) Lucinda Aranha

Tabanca Grande Luís Graça,  a mim a senhora que tomava conta dele disse- me que ele se deixou morrer, não queria comer porque estava acamado por ter partido a anca. Quando o entrevistei ele jâ não se levantava mas estava lúcido de cabeça.

(viii) A. Marques Lopes (1944-2024):

(...) De manhã, o Almeida Campos, um alferes que andava por lá, convidou-o para ir com ele ao Bento. Era onde se sabia de tudo, porque por lá passavam quase todos os que vinham ou ainda estavam no mato e contavam coisas, tudo, operações, ataques, mortos. Era o sítio das informações, por isso lhe chamavam a 5ª REP, que era a Repartição de Informações do QG. Todos ficavam a saber coisas, todos e também os miúdos e miúdas que entre eles andavam a vender camarão, caju e mancarra ou a engraxar as botas dos mais aprumados. Muita coisa o PAIGC devia saber também através deles.
Comeram uns camarões e beberam umas canecas. O Almeida Campos tinha sido apontador de obus lá para o sul e estava também à espera de embarque para ir embora.
– É pá, e se a gente fosse dar uma volta? (...)


(ix) Tabanca Grande:

É pena, camaradas, não haver mais pequenas "estórias" do Café Bento... Que a História, com H grande, essa não passou por lá... Pormenor interessante: devia haver  poucas senhoras, esposas dos nossos militares, que se "atravessem", nesse tempo, a sentar-se numa esplanada como esta... Ou havia ?


(x) César Dias:

Não estive muitas vezes na 5ª Rep, mas um dia assisti a um comerciante a querer comprar camarão a uma bajuda, mas queria pagar uma ninharia, fiquei tão impressionado com aquilo que comprei todo o camarão do balaio, ela até me deu o balaio. Com 300 pesos foi uma festa na messe de sargentos em Mansoa.

(xi) José Colaço:

Porque não há mais "estórias" do café Bento ?... Porque este era frequentado em grande parte por sargentos xicos e oficiais do quadro e se aparecesse por lá o Zé soldado aproveitavam logo para os chamar à atenção por qualquer coisa que não estava bem e ameaçar com uma "porrada". Eu próprio só me sentava na esplanada do café Bento quando tinha autorização para me fardar à civil.

(xii) Luis Filipe Nascimento

Fui abordado pela PM na 5ª REP por estar na esplanada com fardamento novo a brilhar depois de vir do mato, julgaram me pEriquito, mostrei lhe a insígnia da medalha e seguiram em marcha lenta.

(xiii) José Viegas

Outro sitio também era a D. Berta onde se comia a famosa bola de gelado com whisky.

(xiv)  Ernesto Pacheco Duarte

O café Bento ! 5ª. Repartição ! Pelo ano de 1966, andei por lá !

Tive o privilégio de vir... De vir inteiro ! E algumas pequenas coisas !

Naquele mundo tudo era pequeno... Ou muito grande ! Vim algumas vezes a Bissau !
E estive lá mesmo uns dias, tirando um curso de encarregado do correio da unidade !

Mas o café Bento para mim... Recordo dele a malta conhecida que lá consegui encontrar !
Para quem estava uns dias... Nesses dias aparecia sempre um fulano conhecido !

Havia muitos marinheiros da minha terra... Recordo como dias bons ! Depois voltei muitas vezes às compras... (...)

 (xv) Casimiro Fernandes:

No Café Bento bebi umas "cervejolas" mas também ouvi contar o muito que os nossos "camaradas" sofreram nos mais diversos setores. No passado dia 6 de fevereiro, recordei com muita saudade a famigerada travessia do rio Corubal, onde, por acidente, morreram cerca de 50 homens, 27 dos quais pertenciam a uma companhia do meu Batalhão. São estes e outros episódios semelhantes que devem fazer parte da História que a maioria dos "politiqueiros" de agora não conhecem (ou não querem conhecer) e muito menos gratificar.

(xvi) Liberal Farias Correia

Frequentei o café Bento em 1964 (tinha ficado com a ideia que era restaurante). Antes de irmos participar numa operação. Eu e o Rodrigues furriel de transmissões. Comiamos um bife com vinho dão

Abraço do Liberal Correia, furriel CART 67. Bissau em intervenção de maio a setembro 1964 depois Bajocunda Pirada Paunca, Maio 1964 a Abril 1966.


(xvii) Raul Castanha;


E verdade, o Bento era como uma central de informações onde tudo se sabia e tudo se comentava. Por lá passaram figuras incríveis como era o caso do pequeno Biafra, uma criança adorável na sua inocência e na deformidade que tinha, uma enorme escoliose, e que oferecia a mancarra numa malga de esmalte e se dispunha a encaixar os sapatos.

O que terá sido dele passados mais de 50 anos?

Também um outro, de caixa de encaixar mais velho e de olhos muito escuros e com uma pulseira de prata de bafatá, que diziam ser informador do PAIGC.

(xviii) Jorge Pedro:

Para além de ser um local em que possivelmente circulavam informações um pouco pela calada, quase silenciosamente, o Café Bento era onde os conterrâneos se encontravam. Sempre que passava pelo Bento, encontrava um conterrâneo. Ali púnhamos a “ escrita em dia” (...)

(xix) Amílcar Mendes:

75% do que o PAIGC apanhava no Bento, 5ª Rep, era contra- informação, as conversas que se ouviam na gritaria era treta...

(xx) Jose Carvalho


Creio que no QG/CCFAG (A,mura)  só existiam 4 Repartições. Dai terem dado o nome de 5ª Rep  ao Café Bento

(xxi) Tabanca Grande: 

Sim, há aqui um "lapso" do autor (da "Canbra Cega", o A. Marques Lopes)... Não havia a 5ª Rep, no QG/CCFAG, (Amura), a Rep das Informações... O QG/CTIG era em Santa Luzia...

(xxii) António Pimentel:

Deixou saudades, o Marques Lopes. Lembro-me de ele ter contado essa história.

(xxiii) Augusto Catroga;


Assisti ao rebentamento de um pneu na avenida, quando estava a beber um gin tónico no Bento. Numa mesa perto estava um paraquedista que,  segundos mais tarde,  estava debaixo dum camião estacionado perto. Tremia como varas verdes.

(xxiv) Acácio Correia:

Também tive conhecimento por essas bandas do buraco que me estava destinado (o Xime). Só uma correcção, a repartição de informações do QG era a 2ª  repartição ( 2 e 3 informações e operações).
 

Vd. postes anteriores;


5 de fevereiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26461: As nossas geografias emocionais (40): A Casa Gouveia e o Café Bento num conhecido postal da época, da coleção do Agostinho Gaspar (ex-1.º Cabo Mec Auto Rodas, 3.ª CCAÇ/BCAÇ 4612/72, Mansoa, 1972/74)

 4 de fevereiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26459: Bom dia desde Bissau (Patrício Ribeiro) (53): O antigo Café Bento já não é do meu tempo, e foi vítima do "bota-abaixo"...Foi remodelado e até 2023 estave lá instalada a delegação da RTP África

3 de fevereiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26454: Bom dia desde Bissau (Patrício Ribeiro) (52): A antiga Cervejaria Solmar, na Av Domingos Ramos, perto do mercado novo e da Segurança Social

sábado, 1 de fevereiro de 2025

Guiné 61/74 - P26446: Fotos à procura de... uma legenda (193): A foto de agosto de 1974, do Jorge Pinto, corresponderia a um dos três cafés-cervejarias existentes nas imediações da Praça Honório Barreto, o Internacional, o Portugal ou o Chave de Ouro ?



Guiné > Bissau > s/d [. c 1969/70] > "Praça Honório Barreto e Hotel Portugal"... Bilhete postal, nº 130, Edição "Foto Serra" (Coleção "Guiné Portuguesa") (Detalhe). Coleção: Agostinho Gaspar / Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2010)

Agora a Praça chama-se Che Guevara... e o antigo Hotel Portugal era, quando estive em Bissau em 2008, Hotel  Kalliste...



Guiné-Bissau > Bissau > Av Amílcar Cabral > 16 de novembro de 2023 > 50 anos da independência (proclamada unilateralmente em 24 de setembro de 1973) > Desfile militar... A parada começou por descer a avenida, seguindo para a marinha, dando a volta junto ao porto do Pidjiguiti e subindo depois de novo a artéria  nobre de Bissau... O palanque com as autoridades guineenses e os convidados estrangeiros estava montado em frente ao antigo cinema UDIB... Nesta foto, tirada pelo Patrício Ribeiro da varanda da Pensão Central (estabelecimento criado pela saudosa Dona Berta) estão assinalados, a vermelho, o antigo Hotel Portugal, e a amarelo a Casa Esteves (pintada de branco e com muitas janelas no 1º piso), segundo identificação do fotógrafo. (*)

Foto  (e legenda): © Patrício Ribeiro (2023). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné.]



Guiné-Bissau > Bissau > Casa Esteves > s/d > Av Domingos Ramos, nº 33 (?). Foto: cortesia da página do Facebook de Adilson Cardoso. nascido na Guiné-Bissau, a viver em Lisboa. 

O fundador, António Augusto Esteves, foi dos poucos velhos colonos portugueses que terá ficado por lá, depois da independência, tendo sido, ao que parece, simpatizante do PAIGC. Ou soube adaptar-se ao fim do "império". 

Antes da independência, a Casa Esteves era na Rua Administrador Gomes Pimentel, num r/c, havendo no piso superior 4 moradias para a família e para alugar... Em frente ficava a Tipografia das Missões onde se publicava "O Arauto" (a informação é da Lucinda Aranha Antunes. "O Homem do Cinema", Alcochete, Alfarroba, 2018, p. 112). (Este edifício não parece ser o mesmo da foto em questão, do Jorge Pinto, agosto de 1974, veja-se o gradeamento do primeiro andar, que seria a área de residência. Segundo o Patrício Ribeiro, é agora um banco,.  desde há uns anos.)




 
Guiné > Bissau > Agosto de 1974 > Uma das famosas esplanadas de Bissau, a um mês dos "tugas irem definitivamente para casa"... 

O fotógrafo não identifica o local, diz apenas: "A foto foi tirada em Bissau, um ou dois dias antes do nosso regresso, por volta de 23 de agosto de 1974. Quem não conhece esta esplanada?!!!"...

 O autor foi alf mil  art, 3ª C/BART 6520 / 72 (Fulacunda, 1972/74). Os dois militares que aparecem de costas, seriam do pelotáo do Jorge. (O Fernando Carolino tem uma foto igual, se calhar oferecida pelo Jorge; ele regressaria mais tarde à metrópole, já em setembro, por ser de rendição individual)... 

Tem-se especulado à volta do nome deste estabelecimento do tempo do fim da guerra: Café Bento ou Cervejaria Solmar ? Se calhar nem um nem outra...

Foto (e legenda): © Jorge Pinto (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar:  Blogue Luís Graça & Camaradas da Guine]


1. Será que vamos conseguimos esclarecer  o "mistério" da foto do Jorge Pinto, de agosto de 1974 ? (**)...

O edifício em questão ficaria entre os CTT e o antigo Hotel Portugal..., do lado direito de quem descia a Av da República (hoje Av Amílcar Cabral) mas também dava para a Rua Honório Barreto (hoje Domingos Ramos)... 

Esse edifício já foi aqui identificado como sendo a Casa Esteves, tanto pelo Patrício Ribeiro (*) como pela nossa amiga Lucinda Aranha (***)

O Carlos Pinheiro, o nosso melhor "guia turístico" de Bissau,  diz que no no seu tempo (1968/70) havia na Praça Honório Barreto  (ou imediações) os seguintes estabelecimentos: (i) o Internacional; (ii) o Portugal; e (iii) o Chave de Ouro, "tudo cafés-cervejarias mas também onde se comiam umas febras ou uns bifes, quando havia" (****)

Como se chamaria então  a esplanada da foto de agosto de 1974 ? Venham lá mais ajudas, caros leitores...

_____________


(***) Vd, poste de 1 de novembro de 2019 > Guiné 61/74 - P20297: (De)Caras (139): Quem foi António Augusto Esteves, colono desde 1922, comerciante, fundador da "Casa Esteves", simpatizante do PAIGC?

domingo, 16 de outubro de 2022

Guiné 61/74 - P23713: Recordando o Amadu Bailo Djaló (Bafatá, 1940 - Lisboa, 2015), um luso-guineense com duas pátrias amadas, um valoroso combatente, um homem sábio, um bom muçulmano - Parte III: Colocado em Farim, na 1ª CCAÇ, em junho de 1963, fica logo encantado com as beldades femininas locais e convida-as para ir a uma sessão de cinema do senhor Manuel Joaquim


Guiné > Região do Oio > Farim > Bairro de Nema > s/d > Cortesia de Carlos Silva, publicado, a preto e branco, no livro do Amadu Bailo Djaló, na pág. 61-


Guiné > Região do Oio > Carta de Farim  (1954) > Escala 1/50 mil > Posição relativa de Farim, Nema e K3


Guiné > Região do Oio > Carta de Jumbembem  (1954) > Escala 1/50 mil >  Posição relativa de Farincó e Fambantã, a norte de Farim, e junto à fronteira com o Senegal.

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2022)


1. Continuamos a reproduzir, aqui no nosso blogue, alguns excertos do livro de Amadu Bailo Djaló, "Guineense, Comando, Português" (Lisboa Associação de Comandos, 2010, 229 pp., capa a seguir, à esquerda). O livro está esquecido, a edição está há muito esgotada, mas o Amadu Djaló continua na nossa memória e nos nossos corações. (*)

Não é demais sublinhar que se trata de um documento autobiográfico, único (até à data nenhum dos antigos militares que integraram o Batalhão de Comandos da Guiné publicou as suas memórias), indispensável para quem quiser conhecer a guerra e a Guiné dos anos de 1961/74, sob o olhar de um grande combatente luso-guineense, que teve de fugir da Guiné depois da independência e que em Portugal se sentiu tratado como um português de 2ª classe.

Membro da Tabanca Grande desde , tem mais de 6 dezenas de referências no nosso blogue (onde foi sempre muito estimado e acarinhado em vida).

Em homenagem à memória do nosso camarada Amadu Djaló (futa-fula, nascido em Bafatá, em 1940 e falecido em Lisboa, no Hospital Militar, em 2015, com 74 anos), e com a devida vénia aos seus herdeiros, à Associação de Comandos (que oportunamente, ainda em vida do autor, editou o seu livro de memórias, entretanto há muito esgotado), e com um especial agradecimento ao Virgínio Briote que, na qualidade de "copydesk" (editor literário) e grande amigo do autor e coeditor jubilado do nosso blogue, nos facultou o "manuscrito" (em formato pdf), vamos reproduzir aqui mais umas páginas do seu livro. 

Depois da sua paisagem por Bedandam, nosul, na região de Tombali, onde esteve na 4ª CCAÇ como condutor, desde dezembro de 1962 a junho de 1963, e que não lhe deixou saudades, o Amadu Djaló conseguiu ser colocado na 1ª CCAÇ, em Farim, junto à fonteira com o Senegal. Este execrto é o relato dos seus primeiros dias por lá. 

 
Colocado em Farim, na 1.ª CCAÇ, em junho de 1963, fica logo encantado com as beldades femininas locais e convida-as para ir a uma sessão de cinema do senhor Manuel Joaquim  (pp. 58-64)

por Amadu Djaló 
 
Quando regressei a Bissau [, vindo de Bedanda] (**), apresentei-me no dia seguinte, pelas 7h00, na CCS do QG e a novidade que tive foi que a 1.ª CCaç já não se encontrava em Bissau [1]. Entreguei a guia de marcha ao comandante da companhia que ma devolveu por eu não pertencer à CCS. Como não via forma de ver a minha colocação resolvida, ainda me lembrei de ir à 4ª. Rep, outra vez ao major Simões, mas não chegou a ser preciso.

Na 1ª. Repartição entreguei a guia de marcha ao 1º. sargento, que depois de a ler, disse ao sargento Ribeiro que tinha aqui um homem. Mandaram-me apresentar no dia seguinte, com a minha bagagem. Ia para Farim, junto à fronteira norte com o Senegal. Esta conversa curta com o sargento Ribeiro, um bom homem, foi o início de uma amizade.

Então no dia e hora acertados, encontrei, junto ao portão do QG, uma camioneta coberta de lona e junto a ela, o 1º sargento Ribeiro, o condutor, um 1º cabo de etnia papel e um soldado balanta, militares que eu não conhecia. Coloquei a minha bagagem na camioneta, que ia com um carregamento de conservas de sardinha, atum, cavalas, leite condensado, manteiga, margarinas, óleo e azeite.

   Subam e acomodem-se o melhor possível    disse-nos o sargento.

Saímos de Bissau, pouco passava das 8h00 da manhã e chegámos a Farim por volta das 12h30. Para me prevenir precavi-me com um saco de conservas de sardinha e outro de leite condensado.

Com a bagagem na mão, dirigi-me para a caserna e coloquei-a em cima de uma cama que me disseram estar vazia. Depois fui tomar um banho que bem estava necessitado. Mudei de farda e fui dar uma volta pela tabanca.

Depois do jantar seguiu-se um jogo de bisca, para distrair um pouco. Como tínhamos de substituir companheiros que estavam de serviço, saí da caserna para respirar um pouco de ar puro, quando vi três oficiais a dirigirem-se na minha direcção.

    Onde estão os condutores?

   Eu sou condutor!

 –   Não dormimos no quartel e queremos ir dormir. E a viatura não pode ficar fora do quartel. Se arranjarmos um condutor para regressar com o jeep, já podemos entrar.

Ofereci-me. Um dos alferes pegou no volante e conduziu até aos quartos. Satisfeitos, agradeceram e entregaram-me o boletim da viatura devidamente assinado.

No dia seguinte, depois do pequeno-almoço, fui entregar o boletim da viatura e soube que a distribuição das viaturas já tinha sido feita pelo 2º sargento mecânico. Quando lhe entreguei o boletim, ele perguntou-me se eu era condutor.

   Claro que sou, meu sargento!

–  Então, quantos condutores temos cá? Aguentem, ninguém sai daqui!

Foi ao 1º sargento esclarecer-se e informaram-no de que tinha vindo um condutor de Bedanda, que era mais antigo e que, portanto, tinha direito a uma viatura.

Nova forma, um dos novos vai ter que esperar por viatura, até que haja alguma acabada de reparar. Era o António, o soldado condutor mais moderno, a quem lhe tinham entregue uma GMC e que veio para as minhas mãos. Distribuídas as viaturas, arrancámos para a minha 1ª saída rumo a Fambantam, com passagem por Farincó.

Eu nunca tinha conduzido uma GMC. Estranhei, com o acelerador a fundo, não passar dos 30 a 40 kms/hora. Quando cheguei a Fambantam, cheirava a queimado.

Um 1º cabo, negro, mais antigo na vida militar e na companhia, aproximou-se e disse:

   Parece que tens alguma coisa ligada, está a cheirar muito a queimado!

Subiu para ir verificar e descobriu que os redutores estavam ligados.

 – Faltou pouco para queimar o disco   arriscou ele.

Pois, no regresso andei bem, sem mais problemas, embora me tenha ficado a dúvida se teria sido alguém que tenha ligado os redutores, quem sabe para me comprometer.

No meu terceiro dia em Farim, fui dar uma volta pelos bairros. Ainda não conhecia o Adulai Djaló, que era familiar meu no bairro de Nema, muito perto do aquartelamento e que viria a ser meu companheiro.

No caminho encontrei uma moça, aí de 20 anos, e pus-me a falar com ela. Chamava-se Aissata Djaguete Djaló e tinha um bebé com menos de um ano. Era órfã de pai e mãe e divorciada do chefe do bairro de Sinchã, chamado Mode Sore Djare Djaló. Para além do bebé tinha a seu cargo três irmãos mais novos e era ela quem tomava conta deles. 

Era uma história triste e vi que precisava de ajuda. Eu era soldado, o meu vencimento rondava os 120 e poucos escudos [cerca de 50 euros, a preços atuais],  pouco podia fazer por ela. Convidei-a para minha lavadeira e continuei o meu passeio em direcção a Sinchã. Neste bairro noventa por cento da população era futa-fula.

Junto a uma casa vi duas raparigas, uma a fazer tranças no cabelo da outra. Nunca tinha visto uma cena com tanta beleza. Fiquei ali a fazer-lhes companhia.

Uma chamava-se Fatumata Bamba Djaló, a outra Mariama Juto Djaló. Fatumata estava casada com um homem de meia-idade. O pai tinha-a forçado a casar-se, apesar de não ser essa a vontade dela. A outra, a Mariama, ia casar-se no Senegal, dali a duas semanas.

Depois de termos passado a tarde inteira a conversar convidei a Fatumata a ir comigo ao cinema. Se não tinha dinheiro, como ela disse, eu pagava o bilhete. Combinámos encontrar-nos em casa de Aissata Djaguete, que a Fatumata disse ser sua conhecida.

Despedi-me delas por uma tarde tão bem passada e dirigi-me a casa de Aissata.

 – Conheces Fatumata Bamba? Convidei-a a ir comigo ao cinema e ela ficou de vir aqui encontrar-se comigo. E tu, Assumata, queres ir também?

Que sim, que gostava muito.


Guiné > s/l > s/d > Manuel Joaquim dos Prazeres, caçador e empresário do cinema ambulante, com a sua velha Ford de matrícula nº G 05, segundo informação do Amadu Djaló que, por volta de junho de 1963, assistiu, acompanahdo de duas bajudas, a uma sessão de cinema,

Foto (e legenda): © Lucinda Aranha (2014). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

Um senhor chamado Manuel Joaquim percorria todas as vilas e cidades num carro, o nº 5 [2] de matrícula da Guiné, a passar filmes e nesse dia encontrava-se em Farim.

No refeitório já estava todo o pessoal a jantar. Comi muito pouco, estava muito alvoroçado, ia encontrar-me com uma rapariga com uma beleza que eu nunca tinha visto. Quase a correr dirigi-me para casa de Aissata, mas a minha convidada de honra ainda não tinha chegado. Vi uns rapazitos por perto e pedi a um que fosse dizer a Fatumata que eu estava à espera dela, mas que fizesse tudo para que o marido dela não soubesse. O rapaz encontrou-a, ela vinha a correr na nossa direcção.

Juntos os três dirigimo-nos para o salão de cinema, comprei os bilhetes e cada uma sentou-se, comigo no meio delas. 

Do filme não guardo recordação, mas lembro-me que, no intervalo, quando as luzes se acenderam, reparei que o capitão, meu comandante de companhia, estava sentado atrás de nós. Com ele estava também o Alferes Almeida, do esquadrão de Bafatá[3], que estava destacado em Farim e que me fez um sinal. Mal o filme acabou,  peguei nelas e arranquei dali. Depois levei Fatumata a casa.

Demorei-me um pouco e, no regresso, encontrei na estrada de Nema para o quartel o jipe do capitão. O que vou fazer? Fugir, esconder-me? Decidi ficar onde estava, na berma da estrada, até o jipe parar um pouco à frente.

 – O que andas a fazer aqui, a esta hora?

 – Fui ao cinema, meu capitão.

 – O cinema já acabou há muito! Tem cuidado em andar sozinho a esta hora. Sobe!

Foi um fim-de-semana inesquecível. Mais tarde quis casar com ela, mas o pai não deu o consentimento, disse que me autorizava a casar com a irmã mais nova, chamada Mariama Bamba Djaló.
__________

Notas do autor ou do editor literário, Virgínio Briote ("copydesk")_

[1] Desde 1 Julho 1963 instalada em Farim.

[2] G-05

[3] EREC 385. Em 2ago62, rendeu o EREC 54, em Bafatá, ficando integrado no dispositivo do BCaç 238 e depois do BCaç 506. Teve um Pelotão destacado em Farim, na dependência, primeiro do BCaç 239, depois do BCaç 507 e finalmente do BCav 490. Tomou parte em diversas acções de patrulhamento e de contacto com as populações, tendo actuado, a partir de 18mar63, em diversas regiões, nomeadamente em Poidom-Ponta do Inglês 
[Xime], Aldeia Formosa, Cumbijã e Nhacobá, entre outras, e destacou diversos efectivos para guarnecer diversas localidades, como Xitole, Camamudo e Geba. Em 22jul64 foi substituído pelo EREC 693 e recolheu a Bissau a fim de efectuar o embarque de regresso. Fonte: História da Unidade.

[Seleção / revisão / fixação de texto / subtítulos / negritos, para efeitos de edição deste poste: LG. ]
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Notas do editor:

(*)  Vd. postes de:


22 de setemebro de 2022 > Guiné 61/74 - P23638: Recordando o Amadu Bailo Djaló (Bafatá, 1940 - Lisboa, 2015), um luso-guineense com duas pátrias amadas, um valoroso combatente, um homem sábio, um bom muçulmano - Parte I: Não fomos todos criminosos de guerra: Deus e a História nos julgarão

(**) Vd. poste de 14 de setembro de 2022 > Guiné 61/74 - P23615: Bedanda, região de Tombali, no início da guerra - Parte I: Testemunho de Amadu Djaló (1940-2015), relativo ao período de dezembro de 1962 a junho de 1963

quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Guiné 61/74 - P22831: Fotos à procura de...uma legenda (159): Cais de Alcântara ou Cais da Rocha Conde de Óbidos ? (Lucinda Aranha, escritora)

Lisboa > Agosto de 1960 > O Sene Sané, o meu pai, Manuel Joaquim Prazeres, na ponta direita e aminha mãe, ao maio. Vieram, com outras senhoras, depedir-se do Elísio (o segundo a contar da esquerda) que ia partir para Cabo Verde, por via marítima...

Foto (e legenda): © Lucinda Aranha (2021). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Três mensagens da Lucinda Aranha, com datas de 15 e 16 do corrente;

Lucinda Aranha, foto à esquerda: (i) escritora, filha do Manuel Joaquim dos Prazeres, o homem do cinema ambulante no nosso tempo, na Guiné, (ii) professora de história, nio ensino secundário, reformada; (iii( autora de uma biografia ficcionada do pai, a que chamou "romance": "O homem do cinema: a la Manel Djoquim i na bim", Alcochete, Alfarroba, 2018, 165 pp.; (iv) autora também dos livros "Melhor do que Cão é ser Cavaleiro" (Colibri, 2009) e "No Reino das Orelhas de Burro" (Colilibri, 2012), este último recheado de histórias e memórias dos tempos em que o seu pai viveu, em Cabo Verde e na Guiné, desde os anos 30 até 1972; (v) tem cerca de 3 dezenas de referências no nosso blogue; (vi) é membro da nossa Tabanca Grande desde 15/4/2014; (vii) tem página no Facebook, Lucinda Aranha - Andanças na Escrita; e (viii) vive em Santa Cruz, Torres Vedras.


(i) Segue foto do régulo Sene Sané com os meus pais e umas senhoras. Tu verás se vale a pena pô-la. São pessoas da Guiné, mas como te disse não sei quem são e só sei que a foto foi tirada em Lisboa durante as Comemorações Henriquinas.

(ii) O meu amigo cabo-verdiano que me ajudou a datar as fotografias é o rapaz que está na foto. Não o estva a reconhecer- Enviei-lhe a foto e espero qu ele tenha alguma ideia do que se passa. O Aranha diz que a foto foi tirada na Praça do Império ao pe da Doca do Bom Sucesso. Vamos a ver o que o Elísio Branco Vicente diz.

(iii) Afinal, Luís, mais uma vez me precipitei. Creio que que a fotografia não interessa. Além do Sene Sané, dos meus pais, da Maria Rosa, irmã do Elísio, que está ao lado da minha mãe, as outras semhoras são cabo-verdianas, e foram todas despedir-se ao Cais de Alcântara, do Elísio, que partia nesse dia para Cabo Verde. De certeza o Sene Sané foi levado em passeio pelos meus pais até porque conheceu o Elísio em nossa casa.

2. Comentário de Luís Graça:

Lucinda, adoro fotos antigas e das pequenas histórias da gente da nossa geração e da geração dos nossos pais. Não vai mal ao mundo se publicarmos a foto, até porque eu tenho outra pista para precisar o local em que foi tirada. Para mim, não se trata da Praça do Império, e Doca do Bom Sucesso, em Belém, nem sequer do Cais de Alcântara... Mas sim do Cais da Rocha Conde de Óbidos...

De facto, era de lá, do Cais da Rocha Conde de Óbidos, que partiam os navios da marinha mercante para as ilhas adjacentes, e para os territórios ultramarinos, incluindo Cabo Verde e Guiné... E os navios de transporte de tropas para a guerra do ultramar (Angola., Guiné, Moçambique)
...

A prova (insofismável) é o edício do palácio das Janelas Verdes (Museu Nacional de Arte Antiga que se vê em parte, ao fundo, do lado esquerdo (corpo principal), seguido do jardim (interior) e da fachada sul do palácio...O primeiro está está sinalizado com uma cercadura a amarelo, enquanto a fachada sul e o jardim estão sinalizados com cercadura a verde (Foto acima).

O Museu Nacional de Arte Antiga fica sobranceiro ao Cais da Rocha Conde de Óbidos. Do lado poente (entrada primcipal), há um jardim adjcente conhecido como o Jardim 9 de Abril, o Jardim das Albertas ou o Jardim da Rocha do Conde de Óbidos). Logo a seguir, a esse jardim, também do lado poente encontra-se o Palácio dos Condes de Óbidos onde está instalada a sede nacional da Cruz Vermelha. Mas esta parte na aparece na foto em questão...

Mas cabe aos nossos leitores decidir, sobretudo aos lisboetas, que conhecem bem a cidade... Veja-se isto como um simples passatempo natalício (**)...



Lisboa > Gare Marítima de Alcântara (arq. Pardal Monteiro), inaugurada em 1943 > 10 de maio de 2015 > O cais e a gare, vistos do navio-escola "Sagres".



Foto (e legenda): © Luís Graça (2015). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Lisboa > Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos > Arquiteto Pardal Monteiro, foi inaugurada em 1948... Foi daqui que partimos, muitos de nós, para a Guiné... Muitos confundem com o Cais de Alcântara, Nos últimos anos da guerra, a partir de 1972, o transporte já se fazia por via aérea, através dos TAM - Transportes Aéreos Militares. (LG)

Foto do domínio público. Cortesia de Wikipedia.

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Nota do editor:

Último poste da série > 19 de dezembro de 2021 > Guiné 61/74 - P22821: Fotos à procura de... uma legenda (158): Tão meninos que nós éramos!... (Valdemar Queiroz, ex-fur mil, CART 2479 / CART 11, Contuboel, Nova Lamego, Canquelifá, Paunca, Guiro Iero Bocari, 1969/70)

quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

Guiné 61/74 - P22812: (De)Caras (184): Sene Sané, régulo de Pachisse, com capital em Canquelifá, tenente de 2ª linha, vogal do Conselho Legislativo, falecido em 1969


Sené Sané, régulo de Canquelifá, eleito pelas autoridades tradicionais para o Conselho Legislativa da Província Portuguesa da Guiné. Sané Sané, régulo de Canquelifá, Tenente de 2ª linha, pertencia *a nobreza mandinga, sendo descendente do último rei do império do Gabu (morto na batalha de Cansalá, em 1867). Publicada em "O Arauto", diário da Guiné, edição de 14 de junho de 1964.

Foto (e legenda): © Lucinda Aranha (2021). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Capa do do livro de fotografia "Buruntuma: algum dia serás grande, Guiné, Gabu, 1961-63". (Edição de autor, Oeiras, 2016).] (*): o fotógrafo, em 1961, ao lado do então régulo Sené Sané, que era tenente de 2ª linha. junto ao marco fronteiriço ("República Portuguesa: Província da Guiné"), na fronteira com a República da Guiné. Cortesia do autor-

O autor, Jorge Ferreira, ex-alf mil da 3ª CCAÇ (Bolama, Nova Lamego, Buruntuma e Bolama, 1961/63), é membro da nossa Tabanca Grande, é um fotógrafo amador com mais de meio século de experiência, tem um página pessoal no Facebook, além de um sítio de fotografia, Jorge da Silva Ferreira; as suas fotos de Buruntuma inserem-se na categoria da etnofotografia.


1. O PAIGC teve vários militantes (e guerrilheiros), de apelido Sané, provavelmente aparentados com o Sené Sané (**), um dos mais poderosos régulos da Guiné, na época colonial, ao ponto de ter sido eleito para o Conselho Legislativo da Província (criado pela Portaria n.º 19921, Diário do Governo n n.º 150/1963, série I. 

Os outros dois eleitos foram o régulo de Badora, Mamadu Bonco Sanhã, e o régulo de Cachungo, Joaquim Baticã Ferreira, fuzilados pelo PAIGC a seguir à independência. O Conselho começou a funcionar em 1964 sob o "consulado" de Schulz. Sené Sané teve "a sorte" de morrer... em 1969. Mas a sua cabeça devia estar... "a prémio", a par do Bonco Sanhá e do Baticã Ferreira.  Para o PAIGC, era "um dos cães dos colonialistas". (***)

Ironia da história, o actual régulo de Pachisse (vd. carta de Canquelifá 1957, escala 1/50 mil) que abrange as aréas de Canquelifa, Camajaba e Buruntuma, é o José Bacar Sané, um dos filhos do velho régulo Sene Sané (imformação confirmada pelo Cherno Baldé e pelo Patrício Ribeiro).(*)

Em 27/11/2019, o Patrício Ribeiro escreveu-nos (*): 

"Falámos com filho mais velho, do antigo régulo Sene Sané, José Bacar Sané, telemóvel nº 00254...119, morador em Canquelifa, é o actual régulo de Canquelifa e Buruntuma, já com alguma idade. (Foi antigo militar português do grupo de Marcelino do Mata).

"Nomeou o seu irmão mais novo, Mama Sané ( telemovel nº 00 245...330), residente em Buruntuma, seu representante do seu regulado em Buruntuma."

E a propósito o Chermo Baldé comentou no poste P20384 (*):

(...) "Como se costuma dizer, pode-se facilmente conquistar um território pela violência, mas é extremamente difícil continuar a governar as pessoas na base na mentira e na propaganda. Começaram, logo após a independência, por destituir todos os Régulos e Regulados (quando não eram fuzilados) e nomeado seus Comitês de tabancas. Com o tempo constataram que nada funcionava como queriam e a população não reconhecia as autoridades impostas de cima para baixo. Com o golpe de estado de Nino Vieira, voltaram a reconhecer as antigas chefias da época colonial para melhor controlar e manipular as populações."

E esclarece o nosso colaborador permanente, que vieve em Bissau: "O Regulado que tutela a cidade de Pitche chama-se Manna e tem a sua sede em Dara, localidade a cerca de 15/17 Km de Gabu cidade na estrada para Pitche. Este Regulado confina com o de Chanha a sul e o Paquessi a Nordeste/Leste."

O nosso editor LG,  por sua vez,comentou:

"Era voz concorrente que os elementos do grupo "Os Vingadores", comandados por Marcelino da Mata, teriam sido todos fuzilados, a seguir à Independência, com uma ou duas exceções (a começar pelo Marcelino, oportunamente refugiado em Portugal)...

"Se o José Bacar Sané, filho do antigo régulo Sene Saná, da época colonial (e amigo do Jorge Ferreira), foi um antigo militar português, e esteve integrado no grupo de Marcelino do Mata, "Os Vingadores" (de acordo com a informação do Patrício Ribeiro), e está vivo, mora em Canquelifa, e é hoje o atual régulo de Canquelifá / Buruntuma... bom, só temos que nos congratular com esse facto... Espero que seja um sinal, sincero e irreversível, da reconciliação dos guineenses que outrora foram 'inimigos', combatendo uns sob a bandeira do PAIGC e outros sob o estandarte do exército português, naquilo que foi não apenas uma 'guerra pela independência' ou de "libertação' mas também uma 'guerra civil' "


Guiné > Região de Gabu > Canquelifá > s/d  > O régulo Sene  Sané, tenente de 2ª linha, com uma das filhas, e um militar português. Alguém é capaz de identificar este camarada e a subunidade a que pertencia? - Pergunta a Lucinda Aranha. O régulo morreu em 1969.

Foto (e legenda): © Lucinda Aranha (2021). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Guiné > Região de Gabu > Carta de Canquelifá (1957) > Escala 1/50 mil > Pormenor > Posição relativa de Canquelifá, capital do regulado de Pachisse.

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2021)


2. Reproduz-se  a seguir um documento, do Arquivo Amílcar Cabral, datado de Kundara, República da Guiné,  16 de janeiro de 1962, e onde é patente o temor que o régulo Sene Sané inspirava em Canquelifá: 

Em carta, datilografada a Amílcar Cabral, José Ferreira Crato faz o balanço das informações obtidas na sua sequência da sua viagem de  reconhecimento da região fronteiriça. Ele e o  seu companheiro, Alphouseni [Sané], natural do regulado de Pachisse,  não conseguiram transpor a fronteira e chegar ao coração da região de Gabu, como pretendiam, e conforme missão que lhes fora confiada pelo Secretário Geral do PAIGC. Todavia, terão recolhido informação relevante sobre Canquefilá.  Na povoação fronteiriça da Guiné-Conacri, que o remetente  não identifica, chama-lhe apenas "a última tabanca dos pajadincas", haveria já muitos "simpatisantes" do PAIGC... Repare-se, estamos o início do ano de 1962...

Pode ler-se: "Encontrámos muitos simpatisantes do nosso partido, porque quase todos os pajincas ali residentes são de Canquelifá, que fugiram por causa do régulo Sené Sané (sic)"... 

E arremata: "Eu não garanto, mas pelos vistos havemos de vencer o Sené Sané, sem dificuldades como muitos julgam".





Citação:
(s.d.), Sem Título, Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_37630 (2021-12-15)

Casa Comum | Instituição: Fundação Mário Soares |  Pasta: 04604.038.014 | Assunto: Informa que já se encontra em Koundara. Missão na fronteira com Alfosseine. Dificuldades na tabanca dos Pajadincas. Can-Quelifá. Declarações da população local. Régulo Sene Sané. | Remetente: José Ferreira Crato, Koundara | Destinatário: Secretário Geral do PAIGC [Amílcar Cabral] | Data: s.d. | Observações: Doc. Incluído no dossier intitulado Correspondência 1962 (...)  |  Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral.

  [Reproduzido com a devida vénia...]  

3. Comentário do Cherno Baldé, acabado de chegar,  ao poste P22808 (**)

A acentuação em alguns nomes não está correcta, assim escreve-se Sané e não Sené (nome próprio das etnias mandinga e fula); escreve-se também Alage e não Alagé (titulo honorifico de quem fez a peregrinaçao a cidade "santa" de Meca, transfigurado para nome próprio nos grupos muçulmanos).

O caso da família dos Sané, régulos de Pachisse com capital em Canquelifa e descendentes directos de Djanké Waly, o último rei de Gabu ou Kaabu, ilustra o facto de que, na realidade, nunca houve uma guerra entre fulas e mandingas, como sempre se propalou durante o regime colonial, pois se isso fosse o caso os Sané de Paqhisse (Canquelifa) não seriam régulos após a derrota dos mandingas. 

A história da África Ocidental está repleta de casos de guerras pelo poder em que os derrotados eram sempre obrigados a se submeter ao grupo maoritário de entre os vencedores e o surgimento de novas alianças estratégicas, facto que muitas vezes levava a mudanças radicais entre os vencidos, inclusive o abandono da sua língua e parte de práticas culturais e adopção de uma outra lingua, usos e costumes.

Neste caso concreto, os Sané de Canquelifa, para continuarem a fazer parte do poder foram obrigados a se converter a favor da língua fula, grupo maioritário e mais forte dentro do grupo que conquistou o poder, de tal maneira que as últimas gerações, vivendo no meio de uma maioria fula, já nao falavam a lingua mandinga e muitos nem se consideravam mandingas. 

Quem diz mandingas, diz também padjadincas, saracolés, landumas, bajaras, jacancas etc; da mesma forma que os fulas durante todo o periodo de mais de 6 séculos que estiveram sob o dominio mandinga de Mali, primeiro e Gabu, mais tarde, foram obrigados a falar a língua do dominador, apesar da resistência passiva em curso.

Era esta a realidade no terreno e em espaços humanos ainda em construção e em constantes mutações sócio-politicas e territoriais. Todavia, os novos acontecimentos no território após a independência (1974) tiveram o efeito e a tendência inversa ao curso dos anos anteriores, obrigando a novas situações e novos posicionamentos de adaptação ao novo contexto político e social.
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Notas  do editor:


(**) Vd. postes de: 


15 de dezembro de 2021 > Guiné 61/74 - P22808: Fotos à procura de... uma legenda (157): Os quatro membros da comitiva guineense (a saber Sené Sané, Sampulo Embaló, Duarte Embaló e Alagé Baldé, amigos do meu pai, Manuel Joaquim dos Prazeres,) às Comemorações do V Centenário da morte do Infante D. Henrique, agosto de 1960 (Lucinda Aranha, escritora) - II ( e última) Parte

(***) Último poste da série > 24 de novembro de  2021 > Guiné 61/74 - P22748: (De)Caras (183): Revivendo e partilhando (João Crisóstomo, Nova Iorque, de Visita a Portugal)