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terça-feira, 28 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28220: Humor de caserna (283): "Arroz especial ... com mafé" (um conto magistral de Alberto Branquinho, "Cambança Final", 2013, pp. 85-89)


    Hoje há "Arroz especial... com mafé", anunciou o vagomestre


1. Não há ninguém como o Beja Santos para, de uma penada só , abrir um livro na página "x" e apresentá-lo ao leitor numa bandeja apetecível, como se tratasse do melhor manjar do mundo.  

Leitor voraz, compulsivo, desde criança, já deve ter lido centenas e centenas de milhares de páginas na sua vida. Não conheço ninguém como ele: bibliófilo e bibliófago... Metaforicamente falando, ele adora e devora livros... Confesso, nunca o vi beber (nem comer),  o que era raro entre a milicianagem de Bambadinca...

Tome-se como exemplo este excerto da sua nota de leitura  do livro de contos do Alberto Branquinho, ("Cambança Final", 2013), poste P12248 (*). 

Num livro de 222 páginas (na prática 160, com as folhas em branco) com cerca de  6 dezenas de contos ou microcontos (2 páginas e meia, em média, cada um), ele é um autêntico "garimpeiro", capaz de descobrir, com o seu olho clínico de lince, uma preciosidade, uma pérola, uma gema, uma obra-prima:

(...) "O confrade Alberto Branquinho reservou-me uma das mais agradáveis surpresas da primeira metade de 2013: 'Cambança Final', Edição Vírgula, deste ano, é mais do que um livro da maturidade da escrita, revela uma grande mestria na linha do conto e no saber dedilhar as teclas dos sentimentos humanos no contexto de uma guerra.

E aquela guerra foi a nossa, estamos todos lá, do atirador ao condutor, do cripto ao enfermeiro. (...)

Nada de pieguices quando há explosões onde os corpos se desfazem, até porque a natureza se encarrega de limpar a destruição, como escreve magistralmente no conto 'Despojos':

'Ia recomeçar a andar e olhou para o chão. Viu, junto ao tronco de uma árvore, três ou quatro formigas grandes, pretas que, com as pinças da cabeça cravadas, tentavam arrastar um pedaço de carne, ainda com um farrapo de farda camuflada agarrado.' (...)

Mata virgem e lama, água e o céu estrelado, chuvas diluvianas, frases em crioulo e a propósito, a linguagem de caserna na justa conta, o caminhar noturno, a solidão mesmo quando temos muita gente à volta. E uma enorme capacidade de trazer a pilhéria e o tom zombeteiro que obriga a uma boa gargalhada. (...).

Não é para todos esta capacidade de relevar o pícaro quando se marcha a arrastar o corpo, no auge do sofrimento. É um dom saber descrever um acontecimento corrente para um soldado branco que assusta o africano, tomando-o por feitiçaria, anda por ali o abismo cultural. 

Porque Alberto Branquinho, como na montanha russa, traça uma atmosfera de pânico, põe ali todos os traços da brutalidade e finaliza com um toque de facécia. 

O plausível diverte e comove. O furriel Melo vai tomar banho, avista uma cobra, foge espavorido a tapar as pudendas, não para de gritar e alguém comenta: 'Acho que a gaja deu uma dentada na picha do furriel cripto'.

O conto 'Arroz Especial'  é a profundidade do insólito, com nojo toda aquela gente vai descobrir que andou a comer (...) o impensável .

 O vagomestre e o cozinheiro têm uma enorme densidade que atravessa estes contos, são mal vistos, são detestados e, no entanto, são convocados para o prodígio de alimentar na mais extrema das monotonias, mesmo quando a cozinha é periodicamente escavacada e o brio profissional sobrepõe-se à virtude militar (...)".

Este conto, por ser de  antologia, merece ser partilhado e chegar a um público mais vasto, até por que a edição é já de 2013, e depois disso o autor já publicou mais outros oito livros, sendo o último uma espécie de autoantologia, "Inventarium Vitae" (**),  onde recupera alguns dos melhores contos do "Cambança Final", mas não este, o "Arroz Especial"...  

Alterámos ligeiramente o título, para efeitos de publicação nesta série ("Humor de Caserna") (***) e neste poste:

Arroz especial... com mafé

por Alberto Branquinho


Fonte: Excertos de Alberto Branquinho, "Cambança Final (Lisboa: Vírgula, 2013, pp.  85-89) (Com a devida vénia)
____________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 4 de novembro de 20130 > Guiné 63/74 - P12248: Notas de leitura (531): "Cambança Final", contos de Alberto Branquinho (Mário Beja Santos)

(**) Vd. poste de 21 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28203: Notas de leitura (1942): Alberto Branquinho, "Inventarium Vitae" (Lisboa, Sítio do Livro, 2026, 160 pp.) - Parte I: enquanto houver língua e dedo, não haverá leitor que nos meta medo...(Luís Graça)

(***) Último poste da série > 23 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28206: Humor de caserna (282): Todos com eles no sítio, todos aptos para o serviço militar (Jorge Cabral, 1943-2021)

terça-feira, 21 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28203: Notas de leitura (1942): Alberto Branquinho, "Inventarium Vitae" (Lisboa, Sítio do Livro, 2026, 160 pp.) - Parte I: enquanto houver língua e dedo, não haverá leitor que nos meta medo...(Luís Graça)

 



Alberto Branquinho - "Inventarium Vitae": Escritos, Memórias e Olvidos". Lisboa: Edições Partenon / Chancela Sítio do Livro, 2026, 160 pp. (ISBN: 978-989-9198-51-7) (Está à venda em: www.sitiodolivro.pt ) (Preçod e capa; 12,00 euros)

Sinopse:

"Este livro é um esboço de memórias e, simultaneamente, um inventário-amostra dos livros publicados pelo autor. É, além disso, uma biografia breve de um “baby-boomer” nascido em Portugal, que atravessa grande parte do Salazarismo e do Marcelismo, envolvido, também, na guerra colonial de 1961-1974."



Dedicatória ao nosso editor LG


1. O Alberto Branquinho acaba de publicar, em maio passado,  mais um livro, o 12º da sua bibliografia, se não erramos as contas. E diz-nos, "off record", que bem pode ser o último. Não acreditamos. Ou esperemos bem que não. Ainda é cedo para "arrumar a caneta e o bloco de notas". Deu-lhe um título sugestivo, "Inventarium Vitae: Escritos, Memórias e Olvidos".

"Inventário de Vida", em português, é uma espécie de antologia, pessoal, dos seus melhores textos., uma parte já publicados, outros inéditos. E é também um esboço autobiográfico que, esperemos, dê origem ao próximo livro, de maior fòlego.

"Não venho falar de mim...nem do meu umbigo" é o título de uma das séries de que ele é autor no nosso blogue. Desta vez, sim, vem falar dele, mas na exata medida em que tem de "enquadrar as situações vividas com outros" (como escreveu na dedicatória no exemplar que teve agentileza  de oferecer ao editor do blogue) ...

Situações que viveu, com os outros, como  é o caso da Guiné, das avenidas novas de Lisboa  (onde ele viveu a sua vida, desde a "peluda"), ou da sua terra natal, Vila Nova de Foz Coa (que ele agora revisita na parte III - Vida Cumprida). Terra de que, aliás,  tem muito orgulho: a capa que escolheu para este seu último livro é justamente a fachada da sua igreja matriz, de singela beleza, de estilo manuelino, monumento nacional desde 1910, e onde presumo o autor foi batizado...Outra foto, é a do museu de Foz Coa, que vem na contracapa.

2. Percebe-se, pelo índice, que a organização do material (em geral, pequenos textos, crónicas, micrcocontos...) é temática: I. Guiné, tempo de guerrilha (pp. 11-80); II - Outros lugares, outros tempos (pp. 81-129); e III - Vida cumprida, inventário breve (pp. 131-158).

Boa parte do livro baseia-se em textos inédito. Mas há excertos de livros anteriores, tais como (com destaque oara Cambança Final): 

  • Contos com encontros (2008) (contos)
  • Parições & Aparições (2012) (prosa)
  • Cambança Final (2013) (contos)
  • QuasOutono?! (2014) (poesia)
  • Filhos d'outrem ou d'algures (2015) (histórias sobre paternidades)
  • Por século e meio (2017) (romance)
  • Sobre/vivèncias (2017) (poesia)
  • Sótáo, rés-do-chão e outras vidas (2018) (contos)
  • Deixem a guerra em paz (2019) (novela)
  • Retratos da Avenida e outros (2023) (contos)
Parabéns, Branquinho: a tua paixão pela escrita (e em particular pelo conto)    já nos deu um "balaio" de livros, os quais  merecem maior e melhor divulgação no nosso blogue. Não vou seguir o teu "conselho": pelo que eu já li, o teu "inventário" (estático) e "balanço" (dinâmico) de uma vida (pou de várias vidas( merece mais umas tantas notas de leitura. 

Afinal, estás, estamos todos nós, irremediavelmente presos na teia do passado. Parafraseando um dos teus poemas, auto-irónico, "temos os bolsos cheios de passado / para o que der e (ainda) vier"... Ou por outras palavras: ainda estamos aqui, não nos fomos embora, nem nos hão de enterrar na "vala comum do esquecimento", ainda temos felizmente presente e futuro (próximo)... 

Enquanto houver língua e dedo..., não haverá leitor que nos meta medo. A vida é um "suplício de Sísifo"... Mas pior do que levar o "pedregulho" até ao cimo da montanha, é um gajo ficar "protésico, radioativo, parkinsónico e alzheimareado"... Enfim, que os bons irãs da Guiné nos protejam... (LG)

Fonte: Alberto Branquinho - "Inventarium Vitae", Lisboa, Sítio do Livro, 2026,  pág. 127

____________________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 20 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28198: Notas de leitura (1941): "Arte de Portugal no Mundo - África Ocidental", por Pedro Dias; Edição do Jornal Público, 2008 (Mário Beja Santos)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27697: Humor de caserna (238): Ai, minha mãezinha, que me cortaram a p*cha! (Alberto Branquinho, "Cambança", 2009. pp. 26-29)



Capa do livro de contos de Alberto Branquinho, "Cambança: Guiné. morte e vida em maré baixa", 2ª ed.. Lisboa: setecaminhos, 2009, 99 pp. (ISBN: 978-989-602-164-1)



1. Mais uma história de "cambança(s)"(*)  do nosso camarada Alberto Branquinho (ex-alf mil art,  CART 1689 / BART 1913, Fá, Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69; advogado, escritor, duriense de Foz Coa, a viver em Lisboa, depois de ter passado por Coimbra como estudante).

"Cambança", para ele, é mais do que  "passagem para o outro lado" do rio. É uma metáfora: "por vezes uma fuga ou uma mudança. Pode ser uma partida ou um regresso. Quase sempre com a vida em maré baixa" (pág. 6).

Qualquer semelhança com a realidade da Guiné é pura coincidência, avisa o autor. Mas quem não conheceu o cabo Tomé ? E que nunca apanhou uma "cardina" ?


Ai, minha mãezinha, que me cortaram a p*cha! 

por Alberto Branquinho



− Eh,  pá! Deu a “maluca” ao Tomé. Ele vem aí.

− Qual “maluca”… Ele está é com uma “cardina” que nem se endireita.

O cabo Tomé aproximava-se daquele espaço chamado “bar”, feito de tábuas e de chapas de zinco. Vinha em tronco nu, debaixo de uma chuva contínua e miudinha, que há um mês caía sem parar. Trazia um guarda-chuva aberto, quase sem pano, na mão esquerda e uma garrafa de cerveja na mão direita. Tinha as divisas de cabo penduradas das orelhas. E berrava:

−  Cá o filho da Marianinha é o maior. Não há pai p'ra ele.

Repetia e repetia o discurso. E cantava:

O cabo festejava, assim, os vinte e três anos.

Não entrou no bar e atravessava a parada, em chinelos, calções e tronco nu, pisando água e lama. Sentia-se grande, agigantado pelo álcool, com a água a correr por ele abaixo. Sentia a cabeça do tamanho do rebentamento de uma granada de obus, a ferver, a ferver e a pôr-lhe à frente dos olhos pataniscas de bichas-de-rabear.

Era um entardecer cor de chumbo, com pequenas pinceladas de amarelo-rosa no horizonte, por cima da cobertura de zinco da caserna.

−  "Ó rosa, ó linda rosa, ó rosa"… Anda uma mãe a criar um filho… p’ra… p’ra…

Tropeçou e caiu de joelhos na lama, apoiado no cotovelo direito. Tentou levantar-se, mas o pé direito fugiu-lhe muito lá para trás. Até pareceu que o pé lhe ia fugir do corpo. Agarrou o pé com a mão direita e fugiu a garrafa. Puxou o pé, puxou, puxou, perdeu o equilíbrio, caiu sobre o lado direito e, depois, ficou deitado de costas. Ouviram-se gargalhadas do pessoal que, em volta e debaixo dos telheiros, observava a cena.

O Tomé atirou o guarda-chuva. Tentou abrir a braguilha, não conseguiu e rebolou sobre si mesmo, rindo, rindo. Cheio de lama, voltou a tentar abrir a braguilha, mas não conseguia.

 
−  Quero mijar. Eh, pá, abram-me aqui isto, qu’eu quero mijar.

Dois ou três tentaram levantá-lo.

 
−  Eh,  pá, eu só quero mijar.

Com a ajuda conseguiu levantar-se. Os que o ajudaram,  correram para debaixo dos telheiros. Conseguiu abrir a braguilha e, com a mão direita, procurava, procurava dentro dos calções, em dificuldades de equilíbrio.

 
−  Perdi a picha. Perdi a picha.

Ajoelhou-se e desatou a chorar:

 
−  Perdi a picha. Perdi a picha. Ai, minha mãezinha…

Levantou-se, escorregou na lama e caiu de novo.

 
−  Sou um desgraçado! O filho da Marianinha… Mãe, mãe, cortaram-me a gaita!

Chorava, chorava. As lágrimas corriam pela cara, misturadas com chuva e ranho. Tossia, tossia, engasgou-se e desatou a vomitar. Acudiram-lhe de novo.

Vomitava aos arrancos e estremecia-lhe todo o corpo. Levaram-no, amparado pelos sovacos.

Colocaram-no debaixo da água do “chuveiro” que corria dos bidões, ao lado da caserna. Deitaram-no na cama, ainda molhado. Chorava,  abraçado aos mais próximos, entre risos de uns e críticas de outros.

 
−  Este gajo é sempre a mesma merda.

−  Sou uma merda. É, sou uma merda… Mas não vou mais p’ró mato. Nã é, Zé? A gente nã vai mais p’ró mato, nã é,  Zé?

O Zé abanou a cabeça, concordando. O Tomé agarrou-o pelo pescoço, puxou e deu-lhe um beijo na cara.

−  A gente nã vai mais p’ró mato. Que vá o capitão, que leve o comandante e os oficiais todos. Que se fodam. P’ra que é a guerra? P’ra ganhar a taça? Que se foda a taça. Andamos aos tiros p’rás árvores. Os cabrões dos turras pintam-se de verde. Nã é,  Zé? A gente nem os vê. Deixa vir o alferes:  “Ó Tomé, tu hoje levas a bazuca.” ... “Leve-a você”!

−  Vá pá, tem calma. Vou-te buscar uma Pérrier.

−  Água?! Arranja-me uma cerveja.

 
−  Não. Tu já bebeste muito.

−  Apetece-me apanhar chuva.

 −  Não, tens que dormir. Faz-te bem.

−  Dormir? Ah.  Zé, a gente nã vai mais p’ró mato. Que se fodam. Um gajo quase na “peluda” e ir p’rá Metrópole num sobretudo de pau.

Teve um vómito e sujou a almofada.

−  Deixa lá. Está na hora do jantar. Queres que te traga alguma coisa?

−  Nã. Não.

Ficava mais calmo. Adormecia. O outro foi jantar.

No telheiro grande, coberto de zinco, que servia de refeitório, amontoavam-se para o jantar, apupando o cozinheiro.

−  Ide-vos foder! 'Ó tempo que não há frescos…

No meio do barulho das conversas ouviram-se, lá longe, para norte o som das “saídas” de granadas de morteiro pesado e de canhão.

Num instante era uma barafunda. Corriam aos magotes em várias direções, para as armas pesadas, para os abrigos, em busca das G-3 e cartucheiras.  As primeiras granadas começaram a assobiar por cima das cabeças, seguidas dos rebentamentos e dos ruídos que parecem loiça a partir-se.

Gritos, ordens, cheiro intenso, excitante a explosivos, pó, fumo, mais rebentamentos, gritos e mais gritos. Duas ou três granadas caíram dentro do quartel, voaram coberturas de zinco em placas retorcidas, pedaços de tijolo e cimento, vidros partidos. Um barracão começou a arder.

Dois grupos saíram a correr, pelas portas norte e leste, para cortarem caminhos de acesso. Parecia que o pandemónio nunca mais parava.

Começou a diminuir o fogo. Só pequenas rajadas de arma ligeira e vozes que interpelavam ou berravam ordens. Vultos apagavam o fogo com baldes de água. A serenidade voltou aos poucos. Havia movimentações para o posto de socorros. Alguns comeram como puderam o que, frio, ficara a aguardar nos pratos. Outros não saíram tão depressa dos postos ou dos abrigos.

Quando os primeiros voltaram à caserna, viram o cabo Tomé mesmo à entrada, nu, deitado de costas, de olhos espantados, como que olhando o teto de zinco, retorcido, enquanto um fio de sangue lhe escorria do lado esquerdo da boca, passava pelo pescoço e fazia uma poça de sangue debaixo da cabeça.

(Revisão / fixação de texto, links, título: CV / LG)


2. Comentário do editor LG:


Com a devia vénia, ao meu amigo e camarada Alberto Branquinho, bem como ao Carlos Vinhal,  achei que  "Ai, minha mãezinha, que me cortaram a p*cha!" é um título mais forte:  daqueles que não deixam ninguém indiferente: tem a força do calão, a dor do Tomé e a ironia trágica que só a guerra sabe criar.

"Humor de caserna" ?, perguntarãoo alguns dos nossos leitores, eventialmente chocados Sim, é um dos melhores contos da guerra colonial, que eu já li, uma narrativa  portentosa de  humor trágico: mistura o grotesco, a desolação e a ironia amarga da guerra da Guiné, que eu, o Alberto e muitos de nós conhecemos. 

A "cardina" do cabo Tomé, no dia em que fazia 23 anos, é, entre o patético e o cómico, um espelho da desumanização e do absurdo que a guerra  nos impunha, a nós, seus protagonistas. 

O final, abrupto e brutal, em três linhas e meia, é um murro no estômago: reforça a tragédia por trás do riso até então forçado. 

Não, não é só para a gente passar o tempo. É também para a gente pensar. E nos ajudar a indignarmo-nos quando vemos a nossa bandeira e o nosso fato camuflado serem usados indevidamente, na praça pública, em ambientes comicieiros, por quem não tem nada a ver com este filme e, no fundo,só pensa no seu umbigo (o mesmo é dizer, no seu ego de todo o tamanho).

3. Zé Teixeira,  Mário Fitas e Luís Graça comentaram em devido tempo:

(...) Porra! Se eu não tivesse o azar de ter passado pela Guiné, diria este tipo está a "mangar" comigo.

Depois de começar a ler, revi-me no cabo Tomé, até ao ponto da reviravolta, quando eles, os nossos "amigos" entraram na festa e fiquei arrepiado.

Veio-me à memória o Conceição Caixeiro: era de Lisboa, não bebia em demasia, era pacato e pachorrento, mas passava o tempo a cantar e a cantar morreu... Sabes aonde ? Na cagadeira, simplesmente porque estava a cagar, cantando como sempre e não ouviu a saída da granada que o vinha matar, nem o grito de vários colegas - Aí estão eles!

Ficou-se, com a nuca desfeita de encontro à parede da rectaguarda e só meia hora depois, quando à porta da enfermaria eu gritava de contente "Filhos da puta ! Cabrões ! Não há feridos", aparece  o Pedro, que faleceu há dias, e me disse: "Teixeira, vem comigo" e eu fui, para ficarmos os dois agarrados um ao outro a chorar, de desespero.

Ainda bem que escreveste. quanto me ajudaste ! (...) 


(...)  São momentos destes, que fazem esta Tabanca muito Grande. São estes os momentos em que nos tresmalhamos, nos escorregadios carreiros e nas neblinas cobrindo as bolhanhas.

Regredi! 21h00 a Companhia estava formada, o Meco (da Nazaré) segredou-me: "O  furriel  G... acabou de foder a prisioneira maneta."

A Companhia saíu. Madruga dia seguinte 05h00: o furriel  G... , o único a usar capacete, ficou com a cabeça em duas e o capacete com dois furos.

Maldita mata de Cabolol! Estavam à nossa espera!

Escreve!... Escreve, Alberto Branquinho,  mostra aos incrédulos o que foi chafurdar na lama, no álcool e na morte.

Sempre do tamanho do Cumbijã, o velho abraço.

Mário Fitas

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009 às 23:44:00 WET 


(...) São estes momentos, Alberto, Zé, Mário, que nenhuma televisão do mundo (muito menos a nossa RTP) conseguiu filmar... É um quadro portentoso sobre as nossas misérias e grandezas. 

Obrigado, Alberto, pelo teu talento, delicadeza, ternura e compaixão com que falas, não de ti, mas de todos nós, camaradas da Guiné. E viva a nossa Tabanca Grande, que nunca será nem poderá ser política, social e literariamente correcta... Nem nunca precisará de pôr um bolinha vermelha ao canto superior direito... Que o nosso quotidiano também era feito de merda, umbigos, cus, caralhos, tomates, nervos, fel, coração, massa encefálica, medos e coragens, alegria e tristeza, vida e morte... E acima de tudo, camaradagem, o cimento que nos unia, para lá de todas as nossas diferenças, reais e imaginárias... Luís


domingo, 26 de outubro de 2025

Guiné 61/74 - P27354: Paz & Guerra: memórias de um Tigre do Cumbijã (Joaquim Costa, ex-Furriel mil arm pes inf, CCAV 8351, 1972/74) - Parte XXVIII: nem todas as histórias têm um final feliz: a fábula da cabra Joana de Nhacobá e do cão rafeiro Tigre do Cumbijã

Guiné > Zona Sul > Região de Cumbijã > Cumbijã > CCAV 8351/72, 1972/74) > O destacamento (ou melhor..."acampamento") do Cumbijã.
Guiné > Zona Sul > Região de Tombali > CCAV 8531/72  (Cumbijã, 1972/74) > Tabanca de Nhacobá, até então considerada "área libertada do PAIGC", ocupada num “golpe de mão” pela CCAV 8351 no dia 17 de maio 1973 no decurso da operação Balanço Final (17 a 23 maio 1973). Na foto, o Joaquim Costa. A cabra Joana era natural daqui, foi um dos "despojos de guerra", levados para o Cumbijã. A aldeia foi arrasada pelos "bulldozers" da engenharia militar e a população realojada num reordenamento.



Gondomar > Biblioteca Municipal > 9 de novembro de 2024 > Sessão de apresentação do livro "Crónicas de Paz e Guerra" ( Rio Tinto, Lugar da Palavra Editora, 2024, 221 pp.)

Três Tigres do Cumbijã: oo centro, o Joaquim Costa; à esquerda, o João Melo, ex-1º cabo cripto, das CCAV 8351 (Cumbijá, 1973/74); à direita, o Mendes (que veio de propósito da zona onde vive, na Serra da Estrela); um quarto Tigre, o Gouveia, não ficou nesta foto...


Fotos (e legendas) © Joaquim Costa (2025). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


*
O "Tigre" Joaquim Costa
1. O Joaquim Costa Joaquim Costa, minhoto de V. N. Famalicão, conterrâneo da nossa senhora enfermeira pqdt Rosa Serra,  vive em Fânzeres, Gondamar, perto da Tabanca dos Melros. É engenheiro técnico reformado.

 Foi também professor do ensino secundário (os últimos 20 anos em Gondomar, como diretor escolar). Na outra "incarnação" foi Fur Mil Armas Pesadas de Inf da CCAV 8351/72, "Tigres do Cumbijã" (Cumbijã, 1972/74). 

É autor da notável série "Paz & Guerra: memórias de um Tigre do Cumbijã" (que, em grande parte, já saiu em dois  livros com a suas memorias, um em 2022 e outro em 2024).

A história da cabra Joana já foi aqui publicada no nosso blogue. Deu origem até a vários "passatempos de verão", com o pessoal  escrever sobre esta "fábula" ( que, segundo o dicionário, é uma composição literária, em verso ou em prosa, geralmente com personagens de animais, com características humanas, e em que se narra um facto cuja verdade moral se oculta sob o véu da ficção).

A fábula da cabra Joana e do cão rafeiro Tigre do Cumbijá é afinal uma metáfora sobre aquela "drôle de guerre", uma expressão francessa intraduzível (a não ser com muitas explicações...), que a foi a nossa, que afinal não foi bem a nossa: 

  • Portugal não estava oficialmente em guerra contra nenhum outro Estado soberano ou potência estrangeira;
  • não cortou relações diplomáticas com ninguém (nem com Cuba que mandou cubanos poara a Guiné para dar uma "ajudinha internacionalista" ao senhor engenheiro!);
  • uns diziam que lutávamos contra o "terrorismo", outros proclamavam que estávamos ali a "defender a civilização cristã e ocidental";
  • outros ainda, mais cínicos e calculistas, desvalorizavam aquela "drôle de guerre", chamando-a "guerra de baixa intensidade...

 Para mim, que também a fiz, foi uma "merda de guerra", em que no fim todos perderam: voltando à fábula, não houve vencedores nem vencidos, mas perdedores, incluindo a cabra Joana e o cão rafeiro chamado Tigre do Cumbijã...

Saiu, entretanto, uma nova versão da história da cabra Joana, da autoria do Joaquim Costa, agora, inserida numa coletânea de poemas e contos "Anjos da Prosa e da Poesia: Volume V (Rio Tinto, Lugar da Palavra, 2025).

O autor mandou-ma em 4/10/2025, com a seguinte mensagem: "Porque hoje é dia do animal, resolvi lembrar a cabra Joana nascida e criada em Nhacobá e levada compulsivamente para Cumbijã. Este conto foi publicado numa coletânea sobre prosa e poesia."

Recorde-se o contexto: a cabra Joana de Nhacobá foi apanhada pelo pessoal da CCAV 8351, justamente em Nhacobá, tabanca até então controlada pelo PAIGC, no "corredor de Guileje", no decurso da Op Balanço Final (17-23 de maio de 1973). Nhacobá era um lugar de importância estratégica para ambos os contendores. Foi levada, a Joana, para Cumbijã, sendo obrigada a coexistir, pacificamente, com o cão rafeiro, o Tigre de Cumbijã, mascote do pessoal. 

Estive hesitante em publicar esta versão na série "Humor de Caserna", mas achei, por fim, que ficaria melhor  a dar continuidade  à série "Paz & Guerra: memórias de um Tigre do Cumbijã", do Joaquim Costa...



Guiné > Região de Tombali > Cumbijã > CCAV 8351/72 > O encontro, não muito amistoso, da cabra Joana que trouxemos de Nhacobá no dia da operação Balanço Final, com o “rei” do destacamento do Cumbijã,  o cão rafeiro Tigre... Com o tempo lá foram partilhando o protagonismo. Foto: cortesia do Carlos Machado.


Foto (e legenda): © Joaquim Costa (2021). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

A cabra Joana

por Joaquim Costa


Era uma vez duas famílias que viviam numa terra distante, de uma beleza que se entranhava no corpo e na alma como o pó vermelho das suas picadas.

Aqui viviam, desavindas, ao que parece, por causa de uma bandeira.

Uma era a família IN, que vivia numa bonita bolanha, nas margens de um bucólico rio, com grandes plantações de arroz e lindas palmeiras, de seu nome Nhacobá.

A outra era a família Tigre, que vivia todos os dias com os olhos e a alma bem longe dali, que habitava uma aldeia próxima, que ela própria construiu, de seu nome Cumbijã, que odiou e... quase amou.

Os arrufos entre estas duas famílias eram constantes, com investidas ousadas a casa uns do outros, tentando a sua expulsão da região.

Entretidos nestes arrufos, os senhores da guerra (especialistas do pionés no mapa), decidiram (sem consultar ninguém, ) que os Tigres investiriam em força sobre a família IN, impondo a sua lei.

Assim foi, mas com perdas irreparáveis e inocentes de um lado e do outro.

Como era habitual, nas operações de alto risco, quase todos os soldados beijavam, à saída, o seu amuleto da sorte (o seu Anjo da Guarda): a foto da namorada ou dos pais, da(s) madrinha(s) de guerra, um santo devoto, uma folha arrancada à revista inglesa Penthouse e outros o seu inseparável mapa (mapa operações pontos de artilharia), que guardavam num dos bolsos do camuflado mais perto do coração.

Como é comum, desde os primórdios, quem vence tem direito aos despojos, neste caso: arroz, cigarros, fósforos cubanos e livros escolares (impressos na Suécia) com mensagens estilo Estado Novo (mas cujos heróis eram outros) e... uma cabra que chamou a atenção pela coragem demonstrada na defesa da sua aldeia, levantando as suas patas aos invasores e  mostrando assim a sua indignação.

Esta irredutível cabra, como passou a fazer parte do despojos, acompanhou os Tigres de volta a casa.

Aqui quem reinava era o cão rafeiro Tigre, pelo que, no dia da chegada a cabra foi apresentada ao rei. Não foi um encontro fácil e só não se chegou a vias de facto dada a pronta atuação da guarda pretoriana.

Esta irredutível cabra, pela sua coragem e ousadia, ganhou a simpatia de toda a população, ou quase, já que em todo o rebanho há sempre a sua ovelha ronhosa!

Tinha esta irreverente cabra, a quem foi dado o nome de Joana, cinco predadores na aldeia:

  • o rei Tigre que nunca aceitou partilhar o protagonismo com este estranho animal, contudo, neste caso, não se sabia quem era o predador de quem;
  • o vagomestre, que tratava dos comes & bebes, que fitava a Joana com os olhos vermelhos de quem já a está a ver a ser esfolada e transformada em estilhaços de carne (coisa rara na aldeia) para o arroz;
  • os três agricultores improváveis do Cumbijã que, fartos de ração de combate, construíram hortinhas em pleno teatro de guerra. 

A cabra Joana, tal como a burra no Alentejo, não resistia às viçosas alfaces, saltando a cerca das três hortinhas, lambuzando-se com a frescura das mesmas, com a compreensível indignação dos proprietários das plantações.

Na defesa da Joana passou a haver, 24 sobre 24 horas, um guarda-costas, armado de G3 com bala na câmara.

Só assim é que a mesma resistiu até ao dia em que os Tigres abandonaram a sua casa, no Cumbijã, a caminho do Bissau, para apanhar o avião que os levaria finalmente à sua terra de origem. 

Todos, sem exceção, verteram uma lágrima, já com saudades da cabra Joana e do cão Tigre. Comove-me saber que uma e outro, provavelmente, também deixaram cair uma lágrima... salgada!

De um momento para o outro, sem que ninguém o decretasse, cessaram as hostilidades e as duas famílias promoverem festas conjuntas trocando prendas e abraços. Parecia que da noite para o dia o mundo tinha virado do avesso. Prova que a guerra não é solução para nada. Se quem a decreta fosse obrigado a combater nas linhas da frente, o mundo viveria eternamente em paz.

Estas maravilhosas criaturas, sempre que um grupo saía para o mato saltavam alegres e divertidas como desejando boa sorte. No regresso logo corriam para o cavalo de frisa (a porta de entrada) entusiasmadas com a sua chegada.

No dia em que definitivamente os Tigres abandonaram o Cumbijã, assistiram em silêncio a todo o seu frenesim e entusiasmo, como pressentindo o que estava para acontecer. Ao saírem do cavalo de frisa (agora porta de saída)  em grande algazarra, estas ficaram imóveis, com o cão Tigre produzindo um ruído que parecia de choro e a cabra Joana  levantando ligeiramente uma pata, vendo-nos desaparecer por entre a nuvem de pó vermelho da picada, como que dizendo: "E nós?"...

Não se sabe o que aconteceu depois, mas teme-se que esta história, pelos relatos que foram chegando, não teve um final feliz...

Ao que parece, nem os macacos se salvaram!..

In: Anjos da prosa e da poesia. Vol. V / Adelina Santos... [et al.] ; coord. Ana Maria Bessa, João Carlos Brito. - 1ª ed. - Rio Tinto : Lugar da Palavra, 2025. - 144 p. ; 23 cm. - ISBN 978-989-731-226-7, pág. 100.

(Revisão / fixação de texto: LG)





 Guiné-Bissau > Região de Tombali > Cumbijã > Maio de 2025 > Três vistas aéreas da atual tabanca 


Fotos (e legenda) © João de Melo  (2025). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Guiné 61/74 - P27322: "Nova Estrelinha", um conto de Manuel Barros Castro, ex-Fur Mil Enfermeiro


1. Mensagem do nosso camarada Manuel Barros Castro, ex-Fur Mil Enfermeiro da CCAÇ 414, Catió (1963/64) e Cabo Verde (1964/65), com data de 13 de Outubro de 2025:


NOVA ESTRELINHA

Há algum tempo, dezasseis anos, com o título “As Estrelinhas”, em memória de minha filha, escrevi seguinte texto:

Era uma noite muito fria, muito escura mas com um céu muito limpo, por isso sem nuvens.

Viam-se muitas estrelinhas que brilhavam com tanta intensidade que até apetecia estender a mão e pegar-lhes.

Algumas juntavam-se em grupos formando desenhos engraçados.

As duas irmãzinhas que à janela espreitavam o céu puseram-se a contá-las, mas eram tantas, tantas que, depois de muitas tentativas, não conseguindo chegar ao fim, desistiram e puseram-se a imaginá-las.

Continuaram a observá-las e notaram que uma brilhava com mais intensidade, dizia a mais nova: “olha esta aqui, mais pertinho de nós é a que vem pelo Natal poisar-se naquele grande pinheiro e depois chama as outras mais pequeninas, que devem ser as suas filhinhas, e se distribuem por todos os pinheirinhos que estão à janela das casas”.

A mais velhita olhando para tantas estrelas tentava era descobrir qual delas seria a mana que há pouco tempo as deixara convertendo-se numa estrelinha.

Seria provavelmente a maior porque brilhava mais, estava mais perto e até se parecia com ela. Repara, dizia, como ela nos pisca os olhos. Repara como está tão pertinho que nos vê. Vamos acenar-lhe. E as duas manas de mãos estendidas chamavam pela estrela “Mimi” que lá no alto as olhava sorrindo.”

Chegou a hora de ir para a cama e já deitadas a mais velhita antes de adormecer pediu para sonhar com as estrelas, e adormeceu.

Sonhou, então, que ela e a maninha eram, também, duas estrelinhas que passeavam pelo céu divertindo-se com todas as que encontravam, e eram muitas... muitas...

Havia estrelinhas grandes, pequenas e muito pequenas e eram com estas que elas mais se divertiam. Jogavam ao esconde-esconde, ao lencinho, à macaca, à corda, e uma até mais malandreca, esticou a corda quando outra saltava, fazendo-a cair e na queda espalhou luzinhas por todo o terraço. Todas riram às gargalhadas, mesmo a que caiu.

Depois de cansadas de tanto brincar e como já seria hora do lanche pensou que estivessem à sua espera, mas…, de repente lembrou-se que as estrelinhas não comem. Pegou na mão da irmã e sentaram-se lado a lado cansadas e sorridentes.

Acordaram com um lindo sol que entrando pela janela lhes lambia os cabelos. O sol era também uma estrela, mas parecia maior.

Depois do banho tomado, vestiram-se e enquanto tomavam o pequeno almoço, contaram à avó a noite que passaram. Olha avó: ontem quando nos deitámos vimos no céu muitas, muitas estrelinhas e a nossa mana era a que estava mais perto de nós e que nos piscava o olho. Era tão bonita. Sonhei toda a noite que nós também eramos estrelinhas e brincámos com as outras. Corremos, dançámos, fizemos muitas brincadeiras. Foi tão lindo... de manhã o Sol acordou-nos.

Óh avó, diz a mais pequenita, a mana diz que o sol também é uma estrela, mas ela é tão grande e não nos deixa olhar para ela!

A avó ficou um pouco pensativa e, então, explicou-lhe que o Sol é na verdade muito grande e as outras estrelas que parecem pequeninas podem até serem maiores, só que estão muito mais longe de nós e do sol e por isso à nossa vista parecem mais pequenas.

No céu, que também se chama firmamento há muitas, muitas estrelas. Não se sabe até quantas há. O firmamento não tem fim.

Como disse, o sol é o que está mais próximo de nós e é ele o centro da nossa vida, isto é, a Terra que é o planeta que nós habitamos pertence ao sistema solar, a Terra e mais planetas como o Mercúrio, o Vénus, o Marte, o Júpiter, o Saturno e antigamente dizia-se que também o Plutão, mas quanto a este há dúvidas e está muito, muito, mas mesmo muito longe de nós e do Sol.

Quero-vos explicar que o Sol é a nossa fonte de vida. Ele dá-nos luz e calor. Se por acaso ele desaparecesse, tudo na Terra desapareceria.

Todas estas explicações estavam a ser uma grande confusão nas cabeças das meninas. Então se as estrelinhas eram as pessoas que nos deixaram como podia ser que elas estivessem tão longe, dizia a mais velhita.

A avó, senhora já de muitos cabelos brancos, por isso de muito saber, lá começou novamente com as suas explicações:- Pois é, as pessoas nasceram há muitos milhares de anos, e há sempre meninos a nascer. Não caberíamos cá todos, então têm que ir para outros lados e transformam-se em estrelinhas.

Uma delas é a vossa mana
.

********************

Na última terça-feira, dia 7, outra estrela brilhou no céu, a minha extremosa mulher. Companheira ao longo de 58 anos, sempre bem disposta e de uma alegria contagiante. Amorosa, Carinhosa, Senhora de um Coração Enorme que criou dois filhos e com o mesmo amor e carinho, uma enteada e quatro cunhados.

Manuel Castro

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Comentário do editor CV:

A tertúlia, os editores e os colaboradores deste Blogue, associam-se à dor do nosso amigo Manuel Barros Castro que recentemente perdeu a sua esposa e companheira de vida.
Aqui deixamos o nosso abraço solidário.

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quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

Guiné 61/74 - P26416: Os 111 históricos do nosso blogue, que agora passam a "senadores" (2): a entrada do Virgínio Briote, em 17/10/2005, com a publicação de um conto tradicional, "Ansumane, o caçador de crocodilos"


Guiné > Região de Tombali > Catió > Ganjola > c. 1967/69 > Um crocodilo apanhado por militares no rio de Ganjola. O zebro devia ser dos fuzileiros. Poucos camaradas viram, ao  vivo os furtivos crocodilos, mas havia-os por todo o lado, do rio Cacheu ao rio Cumbijá... Alguns eram pequenos e  eram confundidos com jacarés (repteis que náo existiam na Guiné nem no resto da África.

Foto (e legenda): © Alcides Silva (2016). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]




1. Foi assim que o Virgínio entrou paara o nosso blogue, em 18 de outubro de 2005. Tratou-me cerimoniosamente por você (*): o que era natural, não nos conhecíamo-nos,  pessoalmente...  E contou-nos uma história, muito bonita, não de caça ao crocodilo, mas de amor, entre um caçador de crocodil0s, Ansumane, e a uma jovem, Cadi, que foi forçada a casar-se com outro homem...



Caro Luís Graça,

Descobri há pouco tempo o seu interessante blogue. Todos os dias à noite passo por ele e vou-me actualizando, lembrando aqueles tempos. Passei também por aquelas terras. Fui mobilizado, em rendição individual, para a Guiné em Janeiro de 65, para um batalhão que tinha participado na Op Tridente, na Ilha do Como e que mais tarde esteve em quadrícula, sediado em Farim.

Fui colocado em Cuntima, na fronteira norte. E, quando o Batalhão se preparava para regressar, ingressei nos comandos em Brá. Corri com o meu grupo a Guiné quase toda. Também fui a Satecuta, ao Galo Corubal e por lá andei 19 dias, na época das chuvas.

Tenho muita coisa escrita, coisas que guardei para mim, que fechei numa mala, quase durante 40 anos. Envio-lhe uma história que ouvi lá.

Um abraço,
V. Briote


2. Comentário do editor LG, com data de 19/10/2005:

(...) Como vês, Virgínio, a malta vai juntando peças para fazer o puzzle da memória da guerra (colonial ou do Ultramar, como queiras), sem sentimentos de culpa, sem acusações, sem vanglórias... Tem sído bonito, dizem-me,  e eu também sinto que sim. E talvez para o ano, a gente se possa juntar, conhecer pessoalmente e beber um copo. (...) (**)

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ANSUMANE, O CAÇADOR DE CROCODILOS

(conto tradicional guineense, 
recolhido por Virgínio Briote)


A agitação interior que eu sentia, miudinha, contrastava com a calma daquela noite de lua cheia nas margens do rio.

− Boa noite, patrão! 

O Braima, camisa a arrastar pelo chão, gorro de lã na cabeça, cachimbo há que tempos nos dentes. Braima Dafé, pés grandes, seco, resistência incomum, dia a dia a remar a canoa entre as margens, levando a mancarra que os nativos tinham para vender aos comerciantes.

 Patrão, tem canoa ali na margem, quer passar?

Rio acima, a brisa fresca e mansa a dar-lhes, o chlap chlap do remo. A agitação a dissipar-se, pouco e pouco a vida a ficar para trás até desaparecer, dobrada a curva do rio. E logo ali, entre os tufos das palmeiras, duas árvores despidas, encostadas uma à outra, ramos entrelaçados de tal forma que àquela distância, lhe pareciam duas pessoas abraçadas uma à outra, uma delas com um braço erguido como se pedisse auxílio ao céu.

− O que é aquilo, Braima?

 
− Eh, patrão, aquelas árvores são pessoas! Sim, patrão, há muito tempo. Nem tinha ainda nascido o avô do meu avô. Quando as mulheres adúlteras eram castigadas com o desprezo, às vezes até com a morte. No tempo em que havia respeito pela honra, não era como agora...

... Pois nesse tempo, uma bajuda chamada Cadi foi prometida ainda menina ao poderoso Bacar Seidi, um velho rabugento já com oito mulheres. Cadi a crescer, o coração fraco a palpitar, começou a inclinar-se para Ansumane, caçador de crocodilos, o mais famoso da região.

Ansumane correspondia, queria mesmo casar com ela, mas o pai já a tinha prometido a outro, mais dotado que o caçador, a coragem como único dote. Olhavam-se com aqueles olhos que toda a tabanca via, nos batuques Cadi a dançar, seios para cima e para baixo, as ancas fartas, os olhos de Ansumane. Ele bem gostava de satisfazer o seu corpo, ela de casar com ele, ai dela, tinha que cumprir a palavra de seu pai, casar com Bacar Seidi.

Passaram tempos, muitos mesmo até que um dia, com grande desgosto de Ansumane, Cadi foi entregue a Bacar Seidi, e outras luas passaram. Ansumane sem conseguir desviar-se para outra, rodeava a morança, procurava nem que fosse só vê-la, os dias a passarem-se, ele sempre a magicar como a havia de convencer a ser dele, a vontade de caçar crocodilos a passar. O homem dela, conhecedor da amizade que os unia, vigiava as redondezas, nunca se sabe.

Até que um dia as febres tomaram conta de Bacar Seidi. Ansumane, na sua ronda noturna como era costume, viu a adorada Cadi, ao ar fresco da noite na varanda.

Cadi, como um assobio baixo, ela a correr, o impulso do coração mais forte que o chamamento dele, para os braços do amado.

− Tens que ser minha!.

 
− Não posso, Ansumane, eu sou do Bacar, ele é o homem a quem Alá me entregou!

− Mas ele é velho e tu não gostas dele, tu gostas de mim, eu sei!

 É verdade, Ansumane, mas ele é o meu homem e eu a sua mulher.

Ansumane a apertá-la mais contra o seu peito, mãos nervosas nos redondos de Cadi, aquele corpo jovem, ela a estremecer, um delírio, ele a insistir:

− Cadi, vem comigo, fujamos, tenho a canoa na margem, se atravessarmos pela bolanha depressa chegamos! Vamos, Cadi, para um lugar que ninguém nos conheça, onde o teu homem nunca nos alcance. 

Cadi mesmo junto ao coração dele, a tentação mais forte, o corpo a palpitar:

− Ansumane sim, é um homem jovem, viçoso, meu homem é velho.

Mão na mão, a passos largos na estreita vereda, a serpentear pelas palhotas, a bolanha, a seguir a margem do rio. Junto à sebe da purgueira, o sussurrar da brisa agitou as ramagens do arbusto. Não contavam, estremeceram, abraçaram-se como se estivessem mais protegidos. Acharam que não podiam esperar mais. E no silêncio da noite, deram-se um ao outro, as estrelas a brilharem como testemunhas. Ficaram esquecidos, a onda de loucura passara, Cadi em si, o erro agora sem remédio, não podia voltar para o seu homem, tinha mesmo que fugir com Ansumane.

 
− Vamos depressa antes que Bacar dê pela minha falta, vamos!

Na morança, Bacar há muito que despertara a arder em febres, se tomasse um chá de 'buco'  (#) talvez ficasse melhor, diria a Cadi que lho preparasse.

−  Cadi, Cadi! 

A voz dele a voltar para trás. Ergueu-se um pouco para ver a esteira de Cadi, devia estar a repousar, não a viu, Cadi, outra e outra vez o eco sem resposta. Onde estaria Cadi a esta hora que ninguém está fora das moranças, obra de Ansumane, seria?

A cólera deu-lhe forças, levantou-se, a espada de gume curto na mão enrugada, correu para o rio, o que as pernas deixavam, um pressentimento estranho.

Não queria acreditar, as febres, Cadi mão na mão de Ansumane a caminho do rio a dois passos. Não conseguindo alcançá-los, "Caaadiii!!!", …um grito áspero de gelar a chegar até eles. Estacaram, tolhidos sem poder mexer-se!

Que Alá os livrasse da vingança no fio da espada, tão cortante como a voz que os fizera deter, incapazes de mais um passo que fosse!

Morrer! Não, ela não queria morrer às mãos de Bacar, os braços a rodear o corpo forte de Ansumane, mais protegida da fúria de Bacar.

Morrer! Não, ele não queria, nem a morte de Cadi que agora mais que nunca era sua. E,  erguendo-se para o céu, pediu a Alá que os protegesse.

A prece foi ouvida. Quando Bacar já a curta distância, a espada no ar prestes a abater-se sobre as cabeças, Alá livrou-os da morte, transformou-os em árvores! Foi assim que um pedaço de pau encontrou a espada de Bacar!

Dizem que hoje, tantas luas passadas, em noites de tempestade ainda escorrem gotas de sangue daquele lanho já seco pelos tempos!

... Quando Braima acabou a história, fixei melhor as estranhas árvores, a ver se via nelas a infeliz história de Ansumane, o caçador de crocodilos, a fantasia das palavras de Braima ainda no ar.

O silêncio daquela noite brilhante foi subitamente quebrado por um uivo, sinistro de um cão! Braima respondeu com um prolongado:

− Eh! eeeeh! 

E estalou repetidamente com a língua…

−  Quando os cães uivam é sinal que algum mal está para acontecer! Vamos embora, patrão, é melhor! 

Umas remadas fundas viraram a canoa em direcção à vida. (***)

Virgínio Briote

(Revisão / fixação de texto / nota: LG)


(#) Nota de LG: "Buco", do crioulo da Guiné-Bissau: planta medicinal de cujas folhas se faz um chá usado na prevenção do paludismo e no pós-parto. Fonte: Porto Editora – buco no Dicionário infopédia da Língua Portuguesa [em linha]. Porto: Porto Editora. [consult. 2025-01-22 18:13:25]. Disponível em https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/buco

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Notas de L.G.


(*) Vd. pposte de 17 de outubro de 2005 > Guiné 63/74 - P223: Tabanca Grande: Virgínio Briote (ex-Alf Mil Comando, Cuntima e Brá, 1965/67) e a história de Ansumane, caçador de crocodilhos (conto tradicional)

(**) Vd, poste de 19 de outubro de 2005 > Guiné 63/74 - P228: Virgínio Briote, velhinho de 65, comando, contador de estórias

(***) Último poste da série > 22 de janeiro de 2025 >
Guiné 61/74 - P26414: Os 111 históricos do nosso blogue, que agora passam a "senadores"  (1): Virgínio Briote e Rogério Freire, que hoje fazem anos

segunda-feira, 17 de junho de 2024

Guiné 61/74 - P25652: Humor de caserna (67): O Spínola teria-se-ia desmanchado a rir, se fosse vivo, e tivesse lido esta história do cabo Abel, contada aqui, em versão condensada, pelo nosso Alberto Branquinho

 
1. Ó Alberto Branquinho, o Spínola deveria ter gostado de ler esta história... Não sei se ele tinha sentido de humor e se chegou a aprender o crioulo tão bem como tu. O seu biógrafo é omisso sobre isso. Mas ter-se-ia desmanchado a rir, como eu me desmanchei,  ao ouvir a resposta da moça que ia para escola, ao cabo Abel, que, armado em dono da guerra, lhe queria barrar o caminho no cerco ao seu bairro... Mais: teria ficado imensamente satisteito e até orgulhoso com a "lata" da bajuda, vendo na sua atitude e comportamento o triunfo da sua política "Por uma Guiné Melhor"... Não achas ?!

[ Para quem não sabe, o Alberto Branquinho (n. 1944, Vila Foz Coa), advogado e escritor, a viver em Lisboa desde 1970, foi alf mil, CART 1689 / BART 1913, Fá, Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69). "Por Portugal, um por todos, todos por um", era a divisa do seu batalhão. Chegaram a Bissau a 1 de maio de 1967 e regressaram a casa em 2 de março de 1969. Portanto, ainda "trabalharam" com o Spínola nove meses... Tem 140 referências no nosso blogue, é autor das notáveis séries "Contraponto" e "Não venho falar de mim... nem do meu umbigo". ]


Noss’ cabo Abel bai na Bissau

por Alberto Branquinho


O cabo Abel nunca tinha estado em Bissau.

O batalhão a que pertencia chegou a Bissau no paquete que os transportava desde Lisboa, mas a sua companhia saiu do paquete sem pisar terra, passou, diretamente, para batelões rebocados e, assim, foram rio acima,deixando, ainda, a bordo as restantes companhias do batalhão. (…)

Nunca tinha saído de junto da companhia, nos vários aquartelamentos por onde tinha peregrinado. Nem sequer uns dias de férias em Bissau. Tinha-se afeiçoado ao periquito que tinha preso à barra da cama. (…)

Agora, passados vinte e três meses, em Bissau,à espera de embarcar para a Metrópole, também já com a cara verde-amarela azeitona que o impressionara nos velhinhos no dia da chegada, passeava o seu espanto pelo espaço urbano de Bissau. Pela primeira vez!  

Era um rio de vida que corria pelas ruas – tropa bem fardada, polícia militar, polícia naval, civis, muitos civis e, principalmente, mulheres, muitas mulheres! Todas bonitas. E, até, muitas mulheres brancas, que já não via há muito tempo. (…)

Em Bissau a companhia recebia, por vezes, instruções para fazer cerco aos bairros negros de Bissau. O bairro era cercado pelas quatro horas da manhã, com ordem para não deixarem sair ninguém. Completo o cerco, grupos de militares inspecionavam casa a casa, pedindo os documentos.

(...) Era já manhã. O pessoal que fazia o cerco sentava-se no chão, com a G-3 entalada entre os joelhos ou em cima das coxas, em atitude descontraída, que, em nada, se assemelhava às situações de tensão que, em circunstâncias idênticas, tinham sido vividas, em emboscadas ou cercos no interior da Guiné,

De entre as casas, caminhando por uma vereda que passava ao pé do grupo de militares em que estava o cabo Abel, surgiu uma rapariga negra, que vestia uma bata impecavelmente branca,trazendo consigo os livros escolares, agarrados contra o peito. O cabo Abel levantou-se e,  com a G-3 a tiracolo, segurou o cigarro com a mão esquerda e com a direita barrou-lhe o caminho:

Bajuda, bô cá pude passa!

A moça, que teria catorze ou quinze anos, parou por um momento, encarou o cabo Abel nos olhos e perguntou-lhe:


− Porque você não fala comigo português direito ?

E, contornando-o, continuou o seu caminho para Bissau. O cabo, apalermado, ficou com o braço levantado, a vê-la passar. 

Fonte: Excertos de Alberto Branquinho  - Cambança final: Guiné, guerra colonial:  contos. Vírgula, Lisboa, 2013, pp. 141/43

(Título, excertos,  revisão / fixação de texto, parênteses curvos, para efeitos de publicação deste poste, na série "Humor de caserna": LG)  (Com a devida vénia ao autor e à editora...)

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Nota do editor:

Último poste da série > 13 de junho de 2024 > Guiné 61/74 - P25636: Humor de caserna (66): Fidju di bó... ou a língua afiada das mulheres guineenses