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sexta-feira, 22 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28042: Retratos humanos da Guiné-Bissau de hoje (4): Cadi, a jovem mãe muçulmana no final do Ramadão (João Melo, ex-1º cabo cripto, CCAV 8351/72, Cumbijã, 1972/74)

 

Guiné-Bissau > Bissau > 20 de março de 2026 > Fim do Ramadão: a jovem mãe Cadi, com os seus dois filhos.

Foto (e legenda): © João de Melo (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Postagem do João Melo , publicada no Facebook da Tabanca Grande, 21 de maio de 2026, 17:43 


 Encontrei a jovem Cadi e seus dois filhos, em traje de festa, pelo final do Ramadão em 20 de março 2026.

A tradição de usar roupas novas não ocorre durante o Ramadão (que é um mês de jejum e introspeção), mas sim no Eid al-Fitr,  a grande festa de três dias que celebra o fim do mês de jejum.

O uso de roupas novas e elegantes para esta ocasião simboliza a renovação espiritual após o mês de autodisciplina, sendo costume:

(i) acordar cedo e tomar banho purificador ("Ghusl");

(ii) vestir as melhores roupas disponíveis;

(iii) reunir com a família, vizinhos e amigos.

(Revisão / fixação de texto, itálicos, negritos, título: LG)


2. Comentário do editor LG

Obrigado, João, pela tua sensibilidade sociocultural, pelo teu ecumenismo português, e pelas belas fotos que fizestes na última visita à "nossa" Guiné-Bissau, terra abençoada pela biodiversidade, o multiculturalismo e a tolerância religiosa.

No nosso tempo, não tínhamos "nem tempo nem pachorra" para compreender o "outro" (que era diferente de nós: na língua, nos costumes, na religião, na gastronomia, etc.).

 Os meus soldados eram fulas e muçulmanos e não falavam português, mas, na "freima" (como se diz no Norte, em Candoz) da guerra, pouco sabíamos das diferenças que nos separavam...

Ora é importante saber distinguir  as duas grandes festas do calendário islâmico, e que se celebram na Guiné-BIssau: 

  • o Eid al-Fitr (o fim do Ramadão) ("Korité");
  •  e o Eid-al-Adha, a "festa do sacrifício", a "festa do carneiro" ("Tabaski")

Têm sentidos religiosos diferentes. Na Guiné-Bissau, onde cerca de metade da população é muçulmana (sobretudo fulas e mandingas, mas também outros grupos, biafadas, nalus, etc.), ambas têm também enorme importância social, económica, cultural e familiar.

  • Eid al-Fitr: o fim do Ramadão ("Korité")

Eid al-Fitr significa literalmente “Festa da Quebra do Jejum”.

Marca o fim do mês sagrado do Ramadão, o fim  do jejum diário, desde a alvorada até ao pôr do sol, é o tempo de reconciliação, esmola e convívio. Equivale á nossa Quaresma cristã, período de jejum e abstinência  (no nosso tempo de meninos e moços) (e só os ricos podiam comer carne, porque compravam a bula), ou a "burla").

É uma festa de alegria e agradecimento a Deus (Allah) depois do esforço espiritual do Ramadão, marcada pela oração, autocontrolo, disciplina, caridade, purificação moral.

Antes da oração festiva, os fiéis devem dar esmola aos pobres (zakat al-fitr), para que todos possam celebrar.

Em  Bissau e nas tabancas do interior, as famílias vestem roupa nova ou os melhores panos; há oração coletiva logo de manhã; visitam-se parentes, vizinhos e marabus; matam-se galinhas, cabras ou carneiros conforme as posses; prepara-se arroz, cuscuz, leite, chá forte e doces.

Nas famílias e comunidades, é também uma ocasião de perdão entre parentes, vizinhos e amigos; ofertas às crianças, ajuda aos mais pobres; e reforço dos laços de linhagem e comunidade.

Muitos bissau-guineenses chamam-lhe simplesmente “Korité” (forma usada na África Ocidental francófona, vinda do uolofe). 

Este ano o feriado (nacional) foi a 20 de março de 2026.

  • Eid al-Adha: a festa do sacrifício ou do "carneiro" ("Tabaski")

É a festa maior do Islão. Recorda o episódio bíblico/corânico em que Abraão (Ibrahim) aceita sacrificar o filho por obediência a Deus, antes de Deus substituir a vítima por um carneiro. Representa :obediência a Deus, fé,sacrifício, generosidade. Coincide com a peregrinação a Meca (Hajj).

Na Guiné-Bissau e em toa da região n África Ocidental chama-se   “Tabaski”.

É talvez a festa mais visível entre os muçulmanos guineenses: compra-se um carneiro dias antes; os mercados enchem-se de gado; há grande movimento económico; famílias emigradas enviam dinheiro para comprar animais. Este ano  será a 27 de maio de 2026 (feriado nacional).

O ritual central é: oração comunitária; sacrifício do carneiro; partilha da carne (uma parte para a família, outra para os parentes e outra ainda para os pobres).

Em Guiné-Bissau, como no Senegal ou na Guiné-Conacri, o Tabaski tem também forte dimensão social: visitas intermináveis, música, chá, roupa nova, fotografia familiar, exibição de prosperidade. 

Em resumo:

Eid al-Fitr = festa da conclusão espiritual;
Eid al-Adha = festa do sacrifício e da partilha.

Na Guiné-Bissau, estas festas têm ainda uma particularidade interessante: convivem lado a lado com práticas tradicionais africanas (animismo) e com o cristianismo. Não é raro ver-se famílias “mistas” (como é o caso do nosso amigo Cherno Baldé, futa-fula e muçulmano, casado com uma nalu, cristã) participarem umas nas festas das outras, sobretudo em contexto urbano (Bissau),

Essa convivência religiosa sempre foi um dos traços mais notáveis da sociedade guineense, já no tempo dos "tugas". E isto, não obstante náo obstante as tensões político-militares e as crises económicas do país.


Ano Novo - 1 de janeiro

Dia dos Heróis Nacionais - 20 de janeiro (aniversário da morte de Amílcar Cabral)

Terça feira de Carnaval - 17 de fevereiro 

Domingo de Páscoa - 5 de abril

 Dia do Trabalho - 1 de maio

Dia Nacional - 24 de setembro (dia da independència)

Dia de Natal - 25 de dezembro

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Nota do editor LG_

Último poste da série > 20 de maio de 2026 > Guiné 61774 - P28039: Retratos humanos da Guiné-Bissau de hoje (3): Vendedora de caju no Mercado Central de Bissau: foto de João Melo (2025)

sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

Guiné 61/74 - P23999: Notícias lusófonas (1): Extintos, na Guiné-Bissau, os feriados nacionais de 3 de agosto (revolta do Pijiguiti, em 1959) e 23 de janeiro (o início da luta pela independência, 1963) (VOA Português, 20/1/2023)

1. Com a devida vénia ao portal "VOA Português"

BISSAU — O Governo da Guiné-Bissau retirou da lista de feriados nacionais três dias com uma forte carga política: 23 de Janeiro, dia que marca o início da luta armada, 8 de Março, Dia Internacional da Mulher, e 3 de Agosto, que assinala a revolta e a repressão dos trabalhadores pelo exército colonial em Pindjiguiti.

A decisão é anunciada dois dis antes da celebração dos 50 anos do assassinato do líder da luta pela independência da Guiné-Bissau e Cabo Verde, Amílcar Cabral, nesta sexta-feira, 20.

No primeiro decreto do ano, publicado na quarta-feira, 18, o Executivo diz que a "crise financeira e alimentar que tem sacudido o mundo impõe uma nova dinâmica, abre novas perspectivas que assentam na cultura de produção e da produtividade, o que certamente “seria contraproducente com tantos feriados nacionais para um país em vias de desenvolvimento, como o nosso”.

Ainda, o Governo afirma que a nova realidade "obriga a Guiné-Bissau, enquanto membro de várias organizações internacionais, regionais e sub-regionais, à observância das obrigações daí decorrentes".

Nem o decreto, nem qualquer nota do Executivo adiantaram os motivos que levaram à escolha desses três feriados.

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segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Guiné 61/74 - P18045: Estórias do Juvenal Amado (58): os meus heróis do 1º de dezembro


Foto nº 1 >  Vários escriturários sendo o penúltimo,  do lado direito, o Silva


Foto nº 2 > Aqui o cap Pamplona a dar conhecimento básicos do morteiro 81 mm a dois escriturários entre eles o Fortes. (O outro camarada não é o Narciso, mas o Silva, 1º cabo escriturário, manda dizer o autor da foto, com pedido de correção da legenda...)


Foto nº 3 >  O André (Russo), maqueiro

Guiné > Região de Bafatá > Galomaro > CCS/BCAÇ 3872 (Galomaro, 1971/74)

Fotos: © Juvenal Amado (2017). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Texto enviado em 3 do corrente  pelo o nosso camarada Juvenal Amado (ex-1.º cabo condutor auto rodas, CCS/BCAÇ 3872, Galomaro, 1971/74),  a propósito da efeméride do 1º de dezembro (*)


HISTÓRIAS DO JUVENAL AMADO (**)

58 - Os meus heróis do 1º de dezembro 



A defenestração do Miguel de Vasconcelos
em 1/12/1640. Imagem de banda desenhada,
cuja autoria não  conseguimos apurar.(M. Gustavo?)
Durante a minha vida passei este dia em diferentes circunstâncias como toda a gente ou quase toda porque o que é importante para uns não é para outros.

Também para mim esta data teve grande importância numas alturas,  e noutras era só mais um feriado aproveitado para descansar .

Serviu de mote a discursos inflamados de nacionalismos, onde altos médios ou pequenos dignatários do pode  despejavam verborreia de palavras num português rebuscado e, muitas vezes ficávamos sem saber o que é que eles tinham dito na verdade. 

Não me lembro de ter retido nada do que se disse a não ser, que falavam da restauração da independência mais do conde de Andeiro e da famigerada Leonor Telles [, na crise de 1383-1385], mas lembro-me bem do frio que passava em calções, de bata branca, no largo junto ao Mosteiro de Alcobaça sob o olhar severo da nossa professora, que de maneira nenhuma aceitaria, que algum de nós faltasse na formatura . Mas o pânico dela seria de que nós fossemos sujeitos a reparo por falta de atenção e garbo infantil na parada onde estavam fardados os membros da Mocidade Portuguesa e da Legião Portuguesa, mais os bombeiros etc.

Juvenal Amado
As diferenças de opinião entre esta professora e minha mãe, que a conhecia de ginjeira por ter sido aluna dela, levou o meu pai agarrar nos parcos haveres mais família e vai dai fomos morar para a Vestiaria, terra onde a efeméride teve sempre pouco que contar. Acabei lá a 1ª  e fiz a 2ª e 3ª classes.

Só regressei à escola de Alcobaça para fazer a 4ª classe e aí tive como professor um já alto graduado da Mocidade Portuguesa, que ia fardado para a escola nos dias importantes e sempre aos sábados.

Como ele tinha já filhos da nossa idade, não percebia como que ele era da Mocidade Portuguesa, mas há uns anos apareceram as juventudes partidárias em que, são jovens militantes ou jotas até quase serem avós e aí estabeleci a comparação finalmente. 

Não merece a pena aqui exemplificar com nomes em que essa juventude partidária prolongada acabou com o dito feriado para desgosto de republicanos, monárquicos e do povo em geral, que passaram a lastimar o facto.

Mas lá diz o ditado, que não há bem que sempre dure e mal que nunca acabe e assim, como Portugal viu a sua independência restaurada no 1º de dezembro de 1640, a tão insigne data foi restaurada como feriado nacional em 2016, com a curiosidade de que até quem acabou ou ajudou a tirar o feriado, vir hoje a terreiro congratular-se com a reposição do mesmo e dizer Muito bem! Muito bem!! Muito bem!!!

E dizem em alto e bom som, como se a verdade os tivesse iluminado e viesse de como um raio só para eles; “Era um direito do povo português ver este dia começar ainda deitado, como num feriado que se preze”. Sim porque em pleno inverno, não se podendo ir fazer ski (ou sku) à Serra Nevada, resta-nos o prazer de ficar no quentinho mais uma ou duas horas.

Não há nada mais certinho e direitinho , que os direitos do povo … bem, nem sempre como se sabe.

Mas a data passou a ter para mim outro significado, há 45 anos, pois precisamente neste dia o meu destacamento foi violentamente atacado ao arame pelos guerrilheiros do PAIGC, felizmente só com algumas escoriações e muita valentia, que não tinha nenhum patriotismo mas sim vontade de sobreviver.

Ontem faltavam 10 minutos para as 22 horas, relembrei aquela noite em que estando tão perto da malvada, constatei de quanto é estreita a linha que nos separa da vida e da morte.

Veio-me à memória os nomes dos camaradas que estavam comigo e os que, mais prontamente, reagiram ao ataque bem como os que estavam no mato, que podiam ser atingidos quer por fogo inimigo como amigo .

Ao Lourenço,  1º cabo mecânico auto, que deu as rajadas que obrigou o inimigo a denunciar-se cedo de mais, ao André, maqueiro, mais o Silva, escriturário, que usaram o morteiro 81 de forma evitar o pior, mais os que, de uma forma ou outra o melhor que puderam, reagiram com G3 e puseram em fuga os guerrilheiros,  renovo com muito obrigado. Para mim, foram os heróis desse 1º de dezembro...

Mais tarde uma pessoa muito importante para mim, também faz da data um dia de comemoração bem mais agradável.

Um grande abraço para todos tabanqueiros

PS - Na CCS foi ministrado um frugal treino de manuseamento dos dois morteiros 81, bem com da MG 42, a cozinheiros e corneteiros e escriturários já que os pelotões operacionais saíam em colunas ou patrulhas ora uns, ora outros, e os seus abrigos eram longe das referidas armas. Possivelmente terá sido assim noutras CCS.
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Notas do editor:


(**) Último poste da série > 16 de outubro de 2017 >  Guiné 61/74 - P17866: Estórias do Juvenal Amado (57): A minha avó Deolinda Sacadura, uma mulher do 5 de Outubro