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quarta-feira, 8 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27902: Manuscrito(s) (Luís Graça) (287): Foi você quem pediu uma Kalashnikov ?


Lisboa > Rio Tejo > 5/11/2011 > Pôr do sol no Atlântico, visto do estuário do Tejo, em Belém, junto ao Museu do Combatente (Forte do Bom Sucesso). Uma feliz coincidência, um porta-contentores apanhado pela objectiva do fotógrafo "just in time".

Foto (e legenda): © Luís Graça (2011). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]





Guiné > Zona Oeste > Região do Oio > Mansoa > BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) > O capelão e a "bela Kalash".. Foto do álbum do Padre José Torres Neves, antigo capelão militar.


Foto (e legenda): © José Torres Neves (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]O capelão e a "bela" Kalash...



1. Tenho um poema de 2015 em que ironizo a "kalashnikovmania" ... Declaração de interesse: nunca a usei nem desejei... 



 Foi você quem pediu uma Kalash ?

por Luís Graça


Há uma luz difusa,
mistura de ternura e de saudade,
quando o sol se põe em Lisboa,
e tudo à volta é a humanidade que arde.

Impensável o fado da idiossincrasia lusa
sob o céu de chumbo de Atenas ou o smog londrino.
Impensável, ou improvável apenas,
oh poeta cretino!

Porque de pias intenções, maus pensamentos
e piores ações está o inferno da história cheio,
as praças, do Comércio ao Rossio,
e os marcos do correio onde apodrecem aerogramas de guerra.

Ah!, o bravo Ulisses, o grego,
o que ele andou p’ra aqui chegar,
depois de transpostas as colunas de Hércules,
até fundar a mítica cidade atlântica de Olissipo.

Ah!, a Lisboa, que os poetas  amaram
e onde afinal nunca foram amados,
do Cesário Verde ao Álvaro de Campos,
do Camões ao O'Neil.

Ah!, Lisboa, Lisboa,
com as tuas casas de muitas cores, caiadas de branco.

Chora, e não é de medo, o judeu sefardita,
a sua desdita, cristão novo, marrano,
a caminho do degredo:

─ Ai!, a doce luz de Lisboa,
filtrada pelo espelho de água do Tejo,
mais o pôr do sol sobre o Atlântico Norte
que começa no Bugio.
Não sei se estarei cá, p’ró ano,
que a vida e a morte
são jogos de azar e de sorte.
Só sei que o que sinto, é já saudade,
porque… é arrepio!


No tempo em que a terra era plana,
antes das viagens de circum-navegação,
não podias tu imaginar o novo mundo
e Copacabana, 
lá ao fundo, 
mais as cataratas de Iguassu,
Darwin e a teoria da evolução,
e o tu-cá-tu-lá de deus com a ciência.

Muito menos a crioula e o seu cretcheu,
o tango, o flamengo, o fado,
o dundum, a coladera,
o samba, a morna,
o lançado, o tangomau,
o escravo do Cacheu,
e a santa paciência
com que a gente vive, morre e não retorna.

Chama-lhe o que quiseres,
mas tens uma dívida de gratidão à Grécia antiga,
ao Homero, ao Platão,
à bela e pérfida Helena de Troia,
ao ateniense e ao espartano,
aos deuses e deusas, estas tão mundanas, do Olimpo…
Que serias tu, sem o Ícaro,
mas também sem a boia nem o  colete de salvação ?!

Que importa, afinal, 
de um povo a nobreza,
grego, judeu ou lusitano,
se a espada do sacro imperador romano
está suspensa por um fio sobre a tua cabeça ?!

Em Lisboa, a norte, no caminho do São Tiago,
o apóstolo de Cristo, decapitado,
guiando os feros exércitos da Reconquista,
no seu constante vaivém do ir e vir,
à volta da Europa e dos seus picos de civilização.

E a sul, a autoestrada da globalização
onde cada turista tem direito ao seu recuerdo,
um postal ilustrado do futuro
que seguirá dentro de momentos,
agora sem  o SPM nº tal…
(que foi de Gandembel, de Guidaje, de Guileje, de Gadamael). 

Allah Akbar!, ainda ecoa o último grito
da batalha de Alcácer Quibir.

Mais a sul,
as febres palúdicas do Geba e do Corubal,
grau 35 do frio polar, esmagando os teus ossos,
grau 42 do fogo infernal, implodindo a tua cabeça.

Viras na curva do rio,
para desceres ao fundo da terra,
verde e vermelha, dos pesadelos da guerra.

Dos miradouros dos grandes cruzeiros
que demandam o Tejo
não se vê a solidão dos velhos combatentes, à beira rio,
tentando em vão reacender o pavio do desejo.

Muito menos os mariscadores do mar da Palha
onde apodrece a última nau
do caminho marítimo para a Índia.

Ou ainda os moços, imberbes. que partem na frota branca
para os bancos de pesca do bacalhau, na Terra Nova,
verdes, maçaricos, periquitos, checas,
sete vidas, sete safras,
servindo a velha pátria
em alternativa à guerra de África.

Lisboa, forrada a talha dourada, estremece,
sob o peso da carruagem do senhor dom João Quinto,
desenhada a lápis-lazúli.
Dizes adeus a Fernão Mendes Pinto
que parte em viagem, por sua conta e risco,
para o império do sol nascente,
levando consigo os botões, as armas de fogo
e as emoções dos bárbaros do sul.

─ Canta-lhe, Mísia, aquele fado, que diz: 
“Arrefece
a última lava do vulcão
do teu corpo, amor,
mas ainda estremece,
ou não foras tu, velha Lisboa,
sempre (e)terna,
menina e moça, bajuda, mulher”.


Entardece, ensandece a cidade,
todas as sextas-feiras treze do novo milénio.
Valha-nos as cruzes, canhoto,
contra o mau olhado,
e vade retro, Cronos,
que, depois de devorares os teus filhos,
hás de devorar-te a ti próprio!

E quem bula tem,  come carne,
não precisa de engenho e arte,
diz o cristão, velho e relho.
Mas é amarga a ostra, e mortal a ameijoa
com que os pobres matam a sua fome.

Afogas-te em absinto,
bebida antiga de poeta,
depois de teres mandado cortar
as copas dos pinheiros bravos
por te taparem a linha perdida do horizonte.

Mas já não há horizonte, querida,
nem rosas nem espinhos nem cravos,
quebrada que foi a linha da vida.

Sem ajuda do Google Earth,
à vista desarmada,
encontras aqui o teu lugar,
definitivamente provisório,
provisoriamente definitivo,
porque sabes que é 
tão irrisório partir como absurdo ficar,
para quem da vida é fugitivo.

Sentas-te numa esplanada
na doca de Belém, com vista de estuário e de mar:

─ Foi você quem pediu uma Kalash ? ─
pergunta-te um dos sem-abrigo,
da classe dos antigos marinheiros e pescadores,
estivadores e fragateiros,
agora tristes desempregados de mesa,
predadores à espera de presa.
Estão ali simplesmente à coca do turista.

─ Não, obrigado, amigo,
mas não me faltava, às vezes, a vontade...


─ Temos as melhores Kalash da cidade,
da original e à contrafeita…
É só puxar a culatra
e meter uma bala na câmara,
e ficar à espreita...

─ Não, não  insista!...
Para que haveria eu de querer uma arma,
essa é boa!,
se já não tenho licença… p'ra matar?!


Mal por mal,
protestas contra o autocrata do autarca,
metes uma baixa psiquiátrica,
e pedes uns peanuts, uma azeitona, um tremoço ou uma tâmara
e um copo… de cicuta,
enquanto o sol se põe em Lisboa!...


Lisboa, beira Tejo, fev 2015. Revisto, 8 abr 2026.


2. Análise literária do poema, pedida pelo autor a uma ferramenta de IA (Le Chat / Mistral);

Luís, o teu poema é um "mix" de ironia, melancolia e crítica social, onde a "kalashnikovmania" surge como metáfora de algo muito maior: a desilusão com a história, a guerra, a globalização e até a própria identidade portuguesa. 

Vamos desmontar alguns das ideias mais nfortes, com especial atenção ao final, onde a Kalashnikov se torna símbolo de um absurdo existencial.

(i) A Kalashnikov como metáfora: entre o desejo e o absurdo

O poema termina com um diálogo surreal entre o eu lírico e um sem-abrigo em Belém, que oferece "as melhores Kalash da cidade". A pergunta ("Foi você quem pediu uma Kalash?") é brutal na sua ironia:
  • desejo reprimido: a resposta ("Não, obrigado, amigo, / mas não me faltava, às vezes,  a vontade…") revela uma atração pelo símbolo da violência e da resistência, mas também a consciência de que, já sem a "licença p'ra matar" (a "legitimidade da guerra"), a arma é inútil ou perde todo o sentido; é como se a Kalashnikov representasse a vontade de agir num mundo onde a ação é impossível ou proibida, se não mesnmo inútil;
  • crítica à passividade: o eu lírico prefere, em vez da arma, uma "baixa psiquiátrica" ou um "copo de cicuta",  gestos de rendição poética (se não mesmo de "autoaniquilação" perante um sistema que esmaga a individualidade; a Kalashnikov, aqui, é o que não se usa, mas cuja presença denuncia a falta de alternativas.
(ii) Lisboa, palco do teatro do absurdo

O poema constrói Lisboa como um espaço de contradições históricas e sociais:

  • glória e decadência: desde Ulisses até aos "mariscadores do mar da Palha", a cidade é um palimpsesto de impérios falidos (o sonho colonial, a Reconquista, as viagens de circum-navegação) e de vidas esmagadas (os velhos sozinhos, os pescadores desempregados, os turistas que compram "recuerdos" vazios);
  • globalização/banalização  vs. memória: a "autoestrada da globalização" contrasta com a solidão dos que ficaram para trás; a Kalashnikov, arma de guerra colonial, é agora vendida como "souvenir" aos turistas, o passado violento transformado em mercadoria;
  • ironia histórica: o grito "Allah Akbar!" que ecoa desde Alcácer Quibir,  lembra que Portugal já foi um império, mas também uma vítima da sua própria ambição desmedida; a Kalashnikov, arma outrora do PAIGC, é agora um objeto de consumo num país que já não tem guerras para travar.
(ii) A guerra colonial como fantasma

A referência à Guiné é subtil, mas devastadora:

  • "as febres palúdicas do Geba e do Corubal" evocam a memória traumática da guerra, onde a natureza e o inimigo se confundiam numa luta sem sentido;
  • a AK 47, que na Guiné era símbolo de resistência anticolonial mas "fétiche" para os "rambos", aparece agora em Lisboa como objeto de um comércio grotesco, vendido por " antigos marinheiros e pescadores, / estivadores e fragateiros, /agora tristes desempregados de mesa", os mesmos que, outrora, teriam sido enviados para África.;
  • o ciclo da violência: a arma, "made in Russia" ou "made in China",  que outrora matou jovens portugueses e guineenses nas picadas, matas e bolanhas da Guiné, é agora oferecida a turistas, a preços de saldo, como se a história fosse uma farsa repetida.

(iv)  O Eu lírico, oscilando entre a saudade e o ceticismo

  • saudade: "é já saudade, / porque… é arrepio!" — um sentimento que antecipa a perda, como se Lisboa (e a vida) já fossem memória antes de acabarem;
  • ceticismo: "que importa, afinal, a nobreza de um povo, / grego, judeu ou lusitano, / se a espada do sacro imperador romano / está suspensa por um fio / sobre a tua cabeça?" — uma pergunta que desmonta mitos nacionais e revela a fragilidade da identidade;
  • humildade perante o "non-sense": "tão irrisório partir como absurdo ficar", sendo a Kalashnikov, no final, o símbolo dessa impossibilidade de escolher: não se quer a arma, mas também não se tem alternativa.
(v) A Kalashnikov como fetiche e  objeto poético
  • fetiche: desejada, mas não possuída; simboliza o que não se pode ter (a ação, a revolta, a mudança);
  • ironia: vendida por quem já não tem nada (os "deserdados", os "antigos combatentes"), comprada por quem não precisa dela ("turistas")
  • metáfora da história portuguesa: uma arma que veio de fora (com o colonialismo, com a globalização) e que agora pertence a todo o mundo e a ninguém; uma arma que se "democratiza" e "banaliza" e, portanto, se "dessacraliza".
Conclusão (definitivamente provisória):

Luís, este poema parece fechar um ciclo,  o da guerra colonial, da descolonização, da  identidade portuguesa, mas também o da tua própria relação com a violência e a memória. E, quiça, a tua própria história de vida.

 A Kalashnikov, a Kalash, a AK 47, no final, é quase uma piada trágica: o que resta de uma guerra são armas vendidas como souvenirs, e o que resta de uma vida são "azeitonas, tremoços, ou tâmaras", enfim,  "peanuts",  enquanto o sol se põe.

Será que a ironia é a única forma de lidar com o absurdo da história? (A história não tem sentido, não tem que ter...). Ou há, neste poema, um gesto de resistência escondido na recusa da arma ("Não insista…") e da "violência" dita "revolucionária" ?

(Pesquisa: LG + IA / Le Chat Mistral)

(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, itálicos: LG)

___________________

Nota do editor LG:

Guiné 61/74 - P27899: Álbum fotográfico do Padre José Torres Neves, ex-alf graduado capelão, CCS/BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) - Parte XXXIII: da "cobiçada" Kalash do IN ao nosso obus 14


Foto nº 1 > O alferes Pires (à esquerda), com o oficial de dia (em segundo plano) e o alf graduado capelão José Torres Neves (examinando a "cobiçada" Kalash dos "turras")


Foto nº 2 > 28º Pel Art (obus 14 cm)


Foto nº 3 > A ponte nova



Foto nº 4 > Pòr do sol na ponte nova



Foto nº 5 > Passeio de domingo, paragem perto da ponte nova


Foto nº 6 > A antig ponte, em ruínas


Foto nº 7 > Messe de oficiais

Guiné > Zona Oeste > Região do Oio > Mansoa > BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) >


Fotos do álbum do Padre José Torres Neves, antigo capelão militar.


Fotos (e legendas): © José Torres Neves (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Mais um conjunto de fotos sobre Mansoa, enviadas no passado dia 21 de janeiro pelo nosso camarada e amigo Ernestino Caniço.

Como é sabido,. tem sido o guardião, solicito, zeloso, dedicado, entusiasta, do álbum fotográfico da Guiné, do padre missionário da Consolata, José Torres Neves, natural de Meimoa, Penamacor.

O Padre José Torres Neves, antigo capelão do BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) reformou-se recentemente de uma vida inteira, generosa, abnegada, dedicada às missões católicas, nomeadamente em África.

Entrou para a Tabanca Grande, em 22/2/2022, pela mão do Ernestino Caniço, que é médico. É o nosso grão-tabanqueiro nº 859. Tem cerca de meia centena de referências no nosso blogue.

Segundo o Ernestino Caniço, seu amigo de longa data, deste os tempos de Mansoa, o álbum deve conter cerca de 400 fotos (obtidas a partir de "slides"), dos quais já teremos publicado mais de metade.

Em geral as fotos trazem sumárias legendas (ou títulos). Sem data. E não vêm numeradas.  

(Revisão / fixação de texto: LG)

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terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

Guiné 61/74 - P24107: "Una rivoluzione...fotogenica" (9): Roel Coutinho, médico neerlandês, de origem portuguesa sefardita, cooperante, que esteve ao lado do PAIGC, em 1973/74 - Parte VII: A vida em Ziguinchor, Senegal

Senegal > Ziguinchor > PAIGC > 1973 >  Organizando um coluna logística que vai kevar armas até à base de Hermacono ou Hermancono, na fronteira / Foto: ASC Leiden - Coutinho Collection - G 23 - Life in Ziguinchor, Senegal - Carrying weapons to Hermangono, Guinea-Bissau - 1973


Senegal > Ziguinchor > PAIGC > 1973 >  Kalashnikovs AK-47 para Hermacono / Foto: ASC Leiden - Coutinho Collection - G 24 - Life in Ziguinchor, Senegal - Carrying weapons to Hermangono, Guinea-Bissau - 1973



Senegal > Ziguinchor > PAIGC > 1973 >   Vacinação contra o cólera. O dr. Roel Coutinh segurador um injetor de jato  / Foto: 
ASC Leiden - Coutinho Collection - G 02 - Ziguinchor, Senegal - Vaccinations - 1973


Senegal > Ziguinchor > Hospital > PAIGC > Primavera de 1973 >  Uma enfermeira / Foto:  ASC Leiden - Coutinho Collection - 2 25 - Ziguinchor hospital - Senegal - Nurse - 1973



Senegal > Ziguinchor > Hospital > PAIGC > 1973 > Enfermeira > ASC Leiden - Coutinho Collection - 8 05 - Nurse in Ziguinchor hospital - 1973


Senegal > Ziguinchor > Hospital > PAIGC > 1973 > A enfermeira francesa Nicole Dicop,   administradora do hospital do PAIGC  em Ziguinchor, desde 1971 até a primavera 1973; aqui com  o enfermeiro da Guiné-Conacri, Sekou Touré  / Foto: ASC  Leiden - Coutinho Collection - G 19 - Life in Ziguinchor, Senegal - French nurse Nicole with PAIGC male nurse Sekou Touré (in Ziguinchor) - 1973


Senegal > Ziguinchor > Hospital > PAIGC > 1973 > Anneke Coutinho-Wiggelendam no Hospital do PAIGC de Ziguinchor / Foto: ASC Leiden - Coutinho Collection - 11 04 - Ziguinchor hospital, Senegal - 1973




Fonte: Wikimedia Commons > Guinea-Bissau and Senegal_1973-1974 (Coutinho Collection) (Com a devida vénia...) . Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2023)

1. Da coleção fotográfica de Roel Coutinho, relativa à sua estadia junto do  PAIGC na Guiné e no Senegal, entre março de 1973 e abril de 1974, apresentamos hoje mais uma seleção de imagens, editadas por nós, relativas  à base logística de Ziguinchor, Senegal. 

Aqui funcionava um hospital (onde durate muito tempo o único médico residente era o português, nascido em Angola, o dr. Mário Moutinho de Pádua) e daqui seguiam também, no final da guerra, colunas logísticas com armamento que era descarregado e levado para a base de Hermangono (ou Hermacono, segundo as autoridades militares portuguesas da época), na linha de fronteira.

Ainda não conseguimos localizar onde ficava Hermacono, talvez no corredor de Sambuiá (?). Segundo a instituição a quem foi doada a coleção de mais de um milhar de fotos e "slides", o African Studies Centre (ASC), Leiden, Hermangono (ou Hermacono)  seria "uma pequena aldeia na Guiné-Bissau, a um dia de distância da fronteira senegalesa", mas não se indica a sua exata localização...(Temos dúvidas se era dentro do território português, se era já no Senegal.)

Também não encontrámos este topónimo, nem na "Crónica da Libertação", do Luís Cabral (Lisboa, O Jornal, 1984) (que, cronologicamente, termina na data do assassinato de Amílcar Cabral, ou seja, em janeiro de 1972), nem no Arquivo Amílcar Cabral / Casa Comum, nem muito menos nas nossas antigas cartas militares.

Como fotógrafo (amador), Coutinho não se deixou deslumbrar pelas armas nem pela guerra... Não são muitas as fotos dos combatentes e do seu armamento, privilegiou antes outros aspectos da vida no "mato" (para usar um termo caro às NT): a prestação de cuidados de saúde, a educação, a população, as crianças, o quotidiano,  etc.

Com a esposa, Anneke Coutinho, escreveu um artigo, Report from Guinea-Bissau, publicado nº 2 da revista Kroniek van Africa, 1974, pp. 210-219.

Resumo do artigo (originalmente em inglês): 

"Os autores em 1973/74 integraram as actividades do Partido para a Independência da Guiné e Cabo Verde na Guiné-Bissau (ex-Guiné Portuguesa). Nestas impressões de observadores participantes,  descrevem, a partir de um esboço da criação do PAIGC (em 1956 sob a direção de Amílcar Cabral) e da sua luta armada pela libertação do país do regime colonial português, vários aspectos da política do PAIGC nas áreas liberadas, por ex. assistência médica (postos médicos, hospitais, instalações, fornecimento de medicamentos), solução democrática de conflitos, organização da educação escolar, provisão de necessidades essenciais através de lojas populares, mobilização da consciência política e motivação da população, da elite política e seu futuro. A conclusão dos autores é que as perspectivas futuras da Guiné-Bissau são mais promissoras do que naqueles outros países do Terceiro Mundo que não conheceram nenhuma luta armada".


2. São fotos de um  jovem  médico,   Roel Coutinho,  hoje um prestigiado médico, epidemiologista e professor,jubilado, de epidemiologia e prevenção de doenças transmissíveis: esteve no Senegal e na Guiné-Bissau, em missão sanitária que não excluia a simpatia política (não sabemos se durante um ou mais períodos, entre março de 1973 e abril de 1974).

Tinha acabado de se licenciar  em medicina (em 1972). Especializar-se-ia depois em microbiologia médica. Doutorou-se em 1984, em doenças sexualmente transmissíveis. É um especialista mundial em HIV/Sida, com mais de 600 artigos publicados em revistas científicas.

Recorde-se que Roel Coutinhyo nasceu  em 1946, nos Países Baixos, em Laren, perto de Amesterdão, província da Holanda do Norte.  

Tem ascendência luso-judaica, sefardita: os antepassados, marranos ou cristãos-novos, devem ter saído de Portugal para a Holanda no séc. XVII. Os portugueses, cristãos novos, e de novo reconvertidos ao judaísmo, constituíam uma comunidade prestigiada e influente, pela cultura, o dinheiro e o poder. Sempre usaram os seus apelidos portugueses até à II Guerra Mundial. 

Prova da importância da comunidade luso-judaica de Amesterdão (onde nasceu o grande filósofo Espinosa, 1632-1677),   é a "Esnoga", a monumental Sinagoga Portuguesa,   inaugurada em 1675, e chegou a ter 3 a 4 mil fiéis.

Hoje  a comunidade está reduzida a umas escassas centenas de pessoas: espantosamente o edifício da "Esnoga Portuguesa",  minumento nacional, escapou à destruição da II Guerra Mundial e à ocupação nazi; é visita obrigatória para os portugueses que forem a Amesterdão.

sexta-feira, 22 de julho de 2022

Guiné 61/74 - P23450: A nossa guerra em números (18): o consumo de munições e granadas pelo exército

A granada defensiva M26A1
m/63 (
Luís Dias, 2010) (**)
 

1. Quantos milhares de toneladas de munições,  granadas, minas, bombas e outros engenhos mortíferos consumiu a guerra do ultramar / guerra de África / guerra colonial (1961/74) ? (*)

Ninguém saberá responder a essa pergunta, nem do nosso lado nem muito menos do lado do IN de outrora...  

Quando muito,  há dados  parciais das NT, para alguns anos e teatros de operações (nomeadamente, Moçambique, 1970, 1971 e 1972), no que respeita ao número e tipo de munições e granadas consumidas por (e/ou fornecidas a) o exército.

Lá teremos que recorrer, mais uma vez, a um estudioso como o ten cor na reserva, Pedro Marquês de Sousa, doutorado em história pela FCSH / Universidade NOVA de Lisboa (2014), autor do livro "Os números da Guerra de África"(Lisboa, Guerra & Paz Editores, 2021, 381 pp.).  Escreve o Pedro Marquês de Sousa (op. cit., pág. 300): 

" O fornecimento de munições às tropas era um dos grandes desafios para a logística militar, pelo elevado peso e volume deste tipo de cargas, cujo transporte exigia ainda medidas especiais de segurança." 

Sabe-se, por outro lado, que "os depósitos de armazenamento em cada uma das frentes tinham de manter os níveis adequados em face do consumo elevado (sic) pelas unidades de combate".  Só em Moçambique, por exemplo, existiam oito complexos logísticos (Lourenço Marques, Beira, Tete.Vila Cabral, Mocuba, Nampula, Porto Amélia e Mueda), cada um deles devendo ter um "stock" crítico de material de guerra (munições, granadas e minas) (Op cit., pág. 302).

Ignora-se, por exemplo, quantos complexos logísticos deste tipo (ou depósitos de munições) existiam no TO da Guiné e onde estavam localizados... Pelo menos, deveria haver um ou mais em Bissau...

2. Ficamos com uma ideia aproximada dos consumos médios de munições e granadas, também por via dos  fornecimentos. 

Veja-se, por exemplo, para o caso de Moçambique, e para o ano de 1972, um resumo das quantidades das principais munições e granadas fornecidas, em milhares de unidades (por arredondamento por excesso ou defeito) (Adaptado por nós, op cit, pág.301):
  • Munições 7,62 mm > 2152,3
  • Granadas de mão defensivas > 4,2 
  • Granadas de mão ofensivas > 41,8
  • Granadas de morteiro 60 mm > 6,3
  • Granada de morteiro 81 mm > 5,7
  • Minas A/P (antipessoais) > 43,2 
No entanto, o consumo em operações era muito superior a estas quantidades (Vd. Quadro 1)_




Com base nestes números (Moçambique, em 1970 e 1971), o autor faz (indevidamente, quanto a nós, já que a média estatística pode ser altamente enganadora) uma estimativa do consumo médio anual de munições e granadas de uma "companhia operacional do Exército" (tipo "companhia de caçadores") (Op cit., pág. 302):

  • Munições 7,62 mm > 34000
  • Granadas de mão > 260
  • Granadas de morteiro > 200
  • Granadas foguete bazuca 8,9 > 30
Embora o autor ressalve que estes "valores médios" (sic)  "variavam naturalmente conforme a zona e a (...)  condição"  da unidade ou subunidade operacional  (companhia de intervenção, companhia de quadrícula, etc.), achamos que são valores que tanto podem pecar  por excesso como por defeito...  Não nos parece, todavia,  que se possam extrapolar, facilmente  para um teatro de operações na Guiné, com as suas especificidades... 


3. O consumo de munições podia variar conforme o tipo de acção  do IN e a sua duração, o treino, a disciplina de fogo das NT,  o armamento, a missão, etc.

Por exemplo, numa emboscada de vinte minutos, no mato, numa picada ou numa estrada, uma companhia ou destacamento (em geral, três grupos de combate), 60/70 (e nunca 90) G3 podiam despejar no máximo 4 carregadores de 20 cartuchos cada uma, o que daria uma média de 4800/5600 cartuchos...  

Depois havia, por cada grupo de combate (estou a pensar numa companhia de intervenção como a minha, a "africana" CCAÇ 12),  mais as seguintes armas com os respetivos apontadores e municiadores (estes também equipados, em geral, com a G3, enquanto o apontador levava uma pistola Walther 9mm):

  • 3 apontadores de dilagrama (um por secção de 9 ou 10 elementos);
  • 1 apontador + 1 municiadores de metr lig HK 21 (de fita);
  • 1 apontador + 1  municiador de LGFog 8,9;
  • 1 apontador + 1 municiador de LGFog 3,7;
  • 1 apontador + 1 municiador de morteiro 60...

Em resumo, três Grupos de Combate (mesmo completos) nunca queriam dizer 80 ou 90 espingardas automáticas G3, uma arma poderosa e fiável, melhor que a AK47, na opinião do antigo sargento 'comando', com 4 comissões, na Guiné e em Angola, o nosso querido amigo e camarada, Mário Dias (***), e que tinha com uma cadência  (teórica) de 600/650 tiros por minuto (****).

Por sua vesz, e desde que não encravasse, a HK 21 (melhor só a MG42, mas muito mais pesada, c. 12 kg.) podia despejar  centenas de munições 7,62 mm na resposta a uma emboscada... Mas em geral a malta tinha que saber  gerir as munições, para poder chegar ao quartel com segurança...

Já na resposta aos ataques ao quartel, destacamento ou tabanca em autodefesa, de uma hora, cada G3 podia facilmente consumir 8 ou mais carregadores, de 20 munições cada... Milícias e civis em autodefesa tinham muito menos disciplina de fogo do que os miliatres... 

Por outro lado, nas flagelações à distância (com morteiro 82 e 120, canhão s/r,  foguetões 122 mm), era disparatado fazer tiro com a G3 (cujo alcance prático era de 300 metros)... Mas a verdade é que não havia cão nem gato (sem ofensa para nenhum camarada...)  que não aproveitasse para fazer o gosto ao dedo, entrincheirado nos abrigos ou valas...

No mato, nos golpes de mão ou ataques das NT a objetivos IN (acampamentos, bases, etc.), a história era outra, e a disciplina de fogo era fundamental.

E depois havia a instrução e o treino na carreira de tiro... Não me lembro de alguma vez ter sido feito tiro na carreira de tiro de Bambadinca, depois de nós termos vindo do Centro de Instrução Militar de Contuboel em 18 de julho de 1969... Nem me lembro, no meu tempo,  de haver restrições ao consumo de munições 7,62 mm... Tal como não me lembro quantas munições 7.62 mm levava (e quanto pesava) o respetivo cunhete de madeira... Pode ser que algum dos nossos quarteleiros se lembre... (e tenha fotos que nos possa facultar).

Pedro Marquês de Sousa cita, nas páginas 302/303 do seu livro, a Op Nó Górdio, que decorreu no Norte de Moçambique,  de 1 de julho e 6 de agosto de 1970, que terá envolvido mais de 8 mil militares, e uma complexa logística. Aponta para os seguintes consumos nessa operação:
  • Géneros alimentícios >  590 toneladas;
  • Rações de combate > 260 toneladas / 130 mil rações;
  • Gasolina > 340 mil litros;
  • Gasóleo > 460 mil litros;
  • Munições > 158 toneladas.

4. Sabe-se que uma companhia (160 homens, em média) precisava de cerca de 880 toneladas de abastecimentos ao fim de uma comissão de 22 meses (40 em média por mês), incluindo 15,4 toneladas de munições (0,7 t por mês), o que em termos relativos representava apenas 1,75% do total (*****).


 Enfim, ainda falando de consumos de munições, granadas, minas, etc., não temos números relativamente à artilharia no CTIG (no final da guerra, havia mais de uma centena de obuses 10,5e 14  e peças de artilharia 11,4, espelhados pelo território), nem relativamente à FAP e à Marinha...  

Pode ser que alguma camarada destas armas satisfaça a nossa curiosidade (que é meramente intelectual, ao fim destes anos todos)...

Falaremos, entretanto,  de alguns consumos parcelares  da FAP (bombas, cartuchos, foguetes, napalm...) num próximo poste desta série.

__________



(...) É muito vulgar e frequente tecerem-se comentários depreciativos à espingarda G3, quando comparada à AK47. Em minha opinião, nada mais errado. Analisemos, à luz das características de cada uma e da sua utilização prática, os prós e contras verificados durante a guerra em que estivemos empenhados em África:

Comprimento: G3 - 1020mm |  AK47 - 870mm;

Peso com o carregador municiado: G3 - 5,010Kg |  AK 47 – 4,8Kg;

Capacidade dos carregadores: G3 – 20 cartuchos | AK47 – 30 cartuchos;

Alcance máximo: G3 – 4.000m |  AK47 – 1.000m;

Alcance eficaz (distância em que pode pôr um homem fora de combate se for atingido):
G3 – 1.700m |  AK47 – 600m;

Alcance prático: G3 – 400m |  AK 47 – 400m

(...) Se, por um lado, temos mais tiros para dar sem mudar o carregador, por outro lado esse mesmo facto leva-nos facilmente, por uma questão psicológica, a desperdiçar munições. E todos sabemos como o desperdício de munições era vulgar da nossa parte apesar de os carregadores da G3 serem de 20 cartuchos.

O usual era, infelizmente, “despejar à balda” sem saber para onde nem contra que alvo. Sem pretender criticar a maneira de actuar de cada um perante situações concretas, eu, durante todas as acções de combate em que participei ao longo de 4 comissões, o máximo que gastei foi um carregador e meio (cerca de 30 cartuchos). Por tal facto, em minha opinião, a dotação e capacidade dos carregadores da G3 é mais que suficiente, além de que os próprios carregadores são mais maneirinhos e fáceis de transportar que os compridos e curvos carregadores da AK47. (...)

(****) Vd. poste de 23 de janeiro de 2010 > Guiné 63/74 – P5690: Armamento (2): Pistolas, Pistolas-Metralhadoras, Espingardas, Espingardas Automáticas e Metralhadoras Ligeiras (Luís Dias)

(*****) Vd. poste de 11 de novembro de 2021 > Guiné 61/74 - P22707: A nossa guerra em números (4): Cada militar necessitava em média, por mês, de 240 kg de abastecimentos (no essencial, víveres e artigos de cantina, mais de 70%)... O consumo "per capita" mensal de outros artigos era o seguinte: 50 kg de combustíveis; 4,4 kg de munições; 3,1 kg de medicamentos; 1,6 kg de correio... E, miséria das misérias, tínhamos direito a... 520 gramas de víveres frescos por dia!

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

Guiné 61/74 - P22979: Adeus, Fajonquito (Cherno Baldé): Parte III: O rabo de um macaco pode ser muito comprido mas não é por isso que deixa de sentir a dor quando picado

 

 


Mapa geral da antiga província  portuguesa da Guiné (1961) > Escala: 1/ 500 mil > Posição relativa de Fajonquito, Canhámina e Cambajú, setor de Contuboel, na fronteira norte com o Senegal.

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2022)



Cherno Baldé > Com cerca de 19/20 anos, em 1989, na Ucrânia, que então integrava a antiga URSS. Recorde-se que, ainda criança, a família de Canhámina para Fajonquito, em 1968, onde o pai era empregado da Casa Ultramarina.  Até à independênxia, passava os dias enfiado no quartel de Fajonquito. Aqui  aprendeu as primeiras letras. Sairá depois para Bafatá, onde fez o ensino secundário. Entre 1986 e 1989, foi estudante universitário, na antiga União Soviética, primeiro na Moldávia e depois na Ucrânia (1986-1989).


1. Adeus, Fajonquito (Cherno Baldé) - Parte III (*)



(vii) Um, dois, três!... Um, dois, Três!... À esquerda!... À esquerda!... Quem somos nós?! Somos pioneiros!...


Estamos no ano de 1975, alguns meses após a independência. Só agora começamos a compreender todo o tamanho do trama em que estamos metidos. Pessoalmente, estou na fase da readaptação de uma nova vida.

Não é fácil para mim, sobretudo, ter de voltar à comida de farinha de milho preto. De manhã vou à escola e à tarde cuido do nosso gado na companhia de outros miúdos. As dificuldades são de vária ordem mas, na memória da criança,  não há lugar para a saudade.

Não é fácil para os outros também. Os antigos serviçais do quartel  de Fajonquito  estão a morrer lentamente, inexoravelmente. O primeiro foi o Sadjo, coitado, com a sua enorme barriga e a gordura acumulada ao longo da sua vida de cozinheiro, debaixo do sol, não conseguia obter o mínimo para sustentar os filhos e as suas três mulheres. Resultado, morreu. Sem jeito para mendigar, sem forças para trabalhar a terra, passava dias a fio metido no mato, escondido, a cogitar milagres. Além do mais, sofria de diarreia constante devido a fome e a mudança do regime alimentar.

Depois, foi a vez do Mamadu, profissão, ex-cozinheiro. Depois foi o Samba, profissão, ex-padeiro. O Maudhô Uri, esse, conseguiu safar-se trabalhando como mecânico de velocípedes. Por pouco tempo.

Tcherno!... Tcherno Adulai!... Adulai shall!...

Ė a minha avó que me vem acordar. Todos os dias é a mesma coisa. Ela insiste de que a porta do meu quarto deve estar aberta de manhã cedo, antes da primeira oração do dia, altura em que a sorte nos bate à porta. Apesar de tudo, ela sabe que não pode entrar no meu quarto, pois o estatuto de circunciso me protege. Fica-se à porta a cacarejar. A contra-gosto levanto-me para ir lavar o rosto. Não é por causa dela, é que hoje temos um desafio de futebol contra a equipa de Canhámina. Tento encontrar, na confusão do quarto, a minha escova de dentes.

−  Menino, levante-se! Olha que os teus colegas já passaram na estrada e chamam por ti dizendo: Tchernó!... Tchernó…

Era inventiva a minha avó, os alunos em marcha para Canhámina, na verdade, clamavam: 

−  Um, dois, três!... Um, dois, Três!... À esquerda!... À esquerda!... Quem somos nós?! Somos pioneiros!... Quem somos nós?! Somos pioneiros!...

Rapidamente, meto os calções, meto as sapatilhas e agarro a camisa indo ao encalço dos colegas. Já estão longe e tenho que correr sem parar. Felizmente é um percurso já habitual e a minha vida é feita de corrida. Entro no pelotão pouco antes da última subida para a aldeia.


(viii) O rabo de um macaco pode ser muito comprido 
mas não é por isso que deixa de sentir a dor quando picado


Em Canhámina, esperava-nos um espectáculo desolador. Em pleno centro da aldeia e debaixo de um poilão gigante, estavam agrupadas algumas pessoas formando um círculo, ao meio se encontrava um homem relativamente jovem, amarrado por trás, com as cordas de nylon penetrando na carne dos braços inchados, o peito todo bombeado para a frente.

Era o chamado “peito de pomba”, método preferido dos Comissários do PAIGC. Tinha sido preso no posto de controlo da fronteira com o Senegal. Via-se, pelo aspecto do corpo e pelo sangue seco nas têmporas e no rosto,  que estava assim havia muito tempo e tinha levado porrada a valer. Da multidão, alguém lhe sussurrou na língua local:

−  Diga que tu és! Diga que tu és! Senão ainda te matam, palerma!

Como não reagia, o homem levou ainda com uma coronhada na cara ensanguentada que o derrubou ao chão. Levantou-se com dificuldade mas levantou-se pois, ele era um homem e devia continuar a sê-lo enquanto tivesse o mais leve sopro de vida no seu corpo, é o que lhe ensinaram desde a mais tenra idade. Olhando, desta vez, para os seus torcionários, falou com a boca a escorrer sangue, em língua Fula:

−  Eu sou!..


O Comissário perguntou-lhe:

− Tu és o quê?
−  Eu sou! − respondeu.
−  Tu és da FLING, não é? −  sugeriu o Comissário.
−  Eu sou, sim!.. sou isso mesmo. Isso que você disse.

Finalmente, ele tinha confessado o seu crime. Todos acabam por confessar. O Comissário, cuspiu para o chão o resto do tabaco que tinha na boca e, com desdém, ordenou que o levassem dali. Levaram-no para o acampamento dos guerrilheiros, ali, um pouco metido na mata que circundava a aldeia. Mesmo regressados a casa, estes, por força do hábito, ainda se sentiam melhor e mais seguros entre as árvores como os animais selvagens, com as suas inseparáveis Akas na mão.

Um grupo de curiosos, na maioria crianças, acompanhou o cortejo. Nós seguimos para o campo de futebol, situado ao lado do acampamento militar.





No terreno, frente a Canhámina, ganhamos o jogo sem grandes problemas mas, em vez da satisfação habitual,  estava invadido por uma tristeza vinda de não sei onde. O meu espírito ainda não se tinha libertado do choque do que tinha presenciado. Assaltavam-me a memória muitas coisas que não me permitiam acompanhar a alegria dos colegas. Estes, na corrida de regresso a casa, gritavam, transformando as palavras do prisioneiro em slogan de vitória:

−  Eu sou!... Eu sou aquilo!... Eu sou isso mesmo!... Eu sou o que você disse!... − .  E riam, desgraçadamente.

Ao chegar perto do cruzamento, procurei a sombra de um poilão e, com o rosto virado para a entrada principal de Canhámina, fiquei durante alguns minutos a olhar para a aldeia que, alguns anos antes, fora o símbolo da coragem e do poder de Sancorlã. 

Esta era a terra do meu pai, também, onde recebeu o baptismo e foi circuncidado. Alguma coisa me roía por dentro. A sabedoria popular nos ensinou que: "O rabo de um macaco pode ser muito comprido mas não é por isso que deixa de sentir a dor quando picado".

No contexto da vida de Fuladu, a história de Canhámina é invulgar e toca a todos os habitantes do antigo regulado, pequenos e grandes. Uma História breve, colorida de enigmas e que teve um fim trágico.

Cherno Baldé

Bissau, Junho de 2010  (**)


[Revisão, fixação de texto, adaptação, subtítulos, para efeitos de publicação neste poste: LG]

(Contimua)
___________

Notas do editor:

(*) Vd.postes anteriores da série


7 de fevereiro de 2022 > Guiné 61/74 - P22976: Adeus, Fajonquito (Cherno Baldé) - Parte II: A chegada dos guerrilheiros, outrora "bandidos", agora "heróis da libertação da Pátria"...A (mu)dança das bandeiras... Os meus novos amigos, balantas...

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Guiné 61/74 - P20470: Blogpoesia (651): A G3 e a ingratidão (Juvenal Amado, ex-1.º Cabo CAR do BCAÇ 3872)

1. Mensagem do nosso camarada Juvenal Amado (ex-1.º Cabo CAR da CCS/BCAÇ 3872, Galomaro, 1971/74), autor do livro "A Tropa Vai Fazer de ti um Homem", com data de 2 de Dezembro de 2019:



A G3 E A INGRATIDÃO

Caros camaradas,

Vieram há tempos notícias de finalmente a G3 ia ser substituída no Exército Português.

A notícia tem o valor que tem, uma vez que a nós que carregamos com ela quase três anos isso agora para além do valor sentimental já não nos afecta. Decerto as milhares de G3, que foram usadas por nós já devem ter sido vendidas há muito tempo para alguns conflito regional, onde lhes continuaram a dar uso. Se assim não fosse muito me admiraria.

Tive três: Uma na recruta, outra na especialidade novinha em folha, finalmente a última com que privei na Guiné e fez precisamente no dia 1 de Dezembro 47 anos, que a usei com intuito de me defender de um ataque ao arame.

Por estranho que pareça a que me foi dada no Cumeré e que usei em zona de conflito, era a mais velha de todas com coronha mais protector do cano em madeira, a tinta preta mate que compunha a camuflagem evitando brilhos incómodos que já tinham passado por melhores dias. Julgo que era uma arma de 1962 por isso, com dez anos quando me chegou às mãos. Ao que julgo as armas também não se querem velhas.

Mas pronto, isto tudo para dizer que quando a entreguei foi um alívio e que até hoje não senti saudades. Compreenderei que este meu desprendimento cause a impressão de que eu sou mal-agradecido a muitos camaradas, que por alguma razão a idolatram por serviços prestados aos mesmos, mas opiniões são opiniões e eu, nunca escondi que preferia ter tido uma arma mais pequena, mais leve e com maior cadência de tiro para as eventualidades.

Será quase como ter saudades da caneta de molhar no tinteiro da escola primária, quando já temos uma caneta de tinta permanente mal comparado mas é um bocado assim. Mete algum dó ver os nossos militares em zona de conflito a correr atrás dos insurgentes em África, armados com aquele artigo já na linhagem dos canhangulos com dezenas de anos e não tem comparação com o moderno e sofisticado equipamento do exército, que parecem ombrear com a Guerra da Estrelas “Star Wars em amaricano” onde só os manhosos dos Jedi usavam uma arma “espada” que parece mais antiga que a G3.

Assim para quê mentir e dizer que não me juntava aos que , com ar guloso, miravam as Kalashnikov com os seus carregadores curvos com mais doze munições que a G3, que de vez enquanto eram atavio de tropas de elite que nos visitavam em Galomaro? 

Quando fui entregar material de guerra a Bissau iam algumas na bagagem e, quando entrei no paiol onde eram guardadas, fiquei abismado com a quantidade delas reluzentes ao lado das PPSH e dos lança-roquetes, que eram para ali encaminhados depois de capturados.

Mas finalmente parece que é desta, tendo em conta que ainda lá estávamos e já se falava na sua substituição, se entretanto não for agora, será noutra altura, porque a esperança mesmo que legitima e a pressa não combinam.

Não verterei uma lágrima,
Não tenho saudades de ti,
Do desconforto do teu peso,
Da forma como me sacudias o corpo,
Do teu tamanho nada maneiro.
Não prometeram melhor, bem sei,
Mesmo assim dormi contigo na cama,
Levei-te ao Libanês e comi contigo à mesa,
Limpei-te e acariciei-te,
Nunca esperei grandes veleidades
Só desejava que ao menos não me falhasses;
Um dia meteste-me em trabalhos,
Disparei-te sem querer,
Surpreendias-me sempre com o teu estampido
Foi para o ar, mas mesmo assim imperdoável,
Qual cavaleiro justiceiro, o Castro empunhou a bengala
Um brado ecoo pelo terreiro - estás lixado, pá!,
Mas a bengala parou no ar;
Castigado com reforços lá estiveste ao meu lado,
Ingrato, entreguei-te para abate,
A partir daí pude andar com as mãos nos bolsos,
Nunca mais em ti pensei;
Mesmo com o carregador sem balas, 
Imagem que perdura vi-te dar flor,
Esta imagem que te reaproxima de mim.
No dia inicial e limpo. *
____________

*Excerto do poema de Sofia de Mello Andersen, "25 de Abril"

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'O Nome das Coisas'
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Nota do editor

Último poste da série de 15 de dezembro de 2019 > Guiné 61/74 - P20457: Blogpoesia (650): "Igreja Matriz", "Palavras perdidas" e "Diametralmente oposto", da autoria de J. L. Mendes Gomes, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 728

quinta-feira, 30 de maio de 2019

Guiné 61/74 - P19842: Os nossos seres, saberes e lazeres (328): Excertos do "meu diário secreto, ainda inédito, escrito na China, entre 1977 e 1983" (António Graça de Abreu) - Parte VII: o socialismo, a amizade entre os povos, o internacionalismo proletário, a beleza da mulher chinesa, a bruxa de Nanquim, o maldito e tão amado patacão do Tio SAM... e as"Kalash", "made in China", que matavam os meus camaradas de armas no CTIG...

Assim se faz a guerra e a paz... Dez anos depois, em 1982, o António Graça de Abreu, então a viver na China, vê, pela televisão, um general chinês a colocar, no Regimento de Comandos da Amadora, antigo RI 1,  "uma coroa de flores no monumento aos militares Comandos, homenageando os portugueses mortos, muito deles caídos diante das balas disparadas por estas armas, made in China"


1. Mensagem do António Graça de Abreu, com data de  29/05/2019 à(s) 02:24:

Meu caro Luís

Mais uns textos do meu inédito Diário (secreto) de Pequim, para eventual publicação no blogue.
Publica o que quiseres.

Forte abraço,
António Graça de Abreu



2. Excertos do "meu diário secreto, ainda inédito, escrito na China, entre 1977 e 1983" (António Graça de Abreu) 


Mais uns excertos do "diário chinês, secreto", ainda inédito, do nosso camarada António [José] Graça de Abreu. Recorde-se que ele viveu na China, em Pequim e en Xangai, entre 1977 e 1983; foi professor de Português em Pequim (Beijing) e tradutor nas Edições de Pequim em Línguas Estrangeiras.  Na altura, ainda era, segundo sabemos, simpatisante ou militante do Partido Comunista de Portugal  (marxista-leninista), o PC de P (m-l), fação Vilar (Eduímno Gomes), alegadamente o único recomhecido pela República Popular da China.

Ex-alf mil SGE, CAOP 1 (Teixeira Pinto, Mansoa e Cufar, 1972/74), é membro sénior da nossa Tabanca Grande, e ativo colaborador do nosso blogue com mais de 230 referências. Compulsivo  viajante, tem "morança"  em Cascais. É um cidadão do mundo, poeta, escritor e reputado sinólogo. Nasceu no Porto em 1947.] É casado com a médica chinesa Hai Yuan, natural de Xangai, e tem dois filhos, João e Pedro. (*)

Pequim, 20 de Maio de 1981

Agora veio à China uma delegação da Frelimo, encabeçada pelo moçambicano Marcelino dos Santos, ministro da Economia. Li Shunbao, o intérprete desta delegação, trabalha comigo na secção portuguesa das Edições de Pequim em Línguas Estrangeiras e contou-me, com algum desgosto, a visita dos camaradas de Moçambique ao Armazém da Amizade, a maior loja de Pequim reservada apenas a estrangeiros.

Chegaram às sete da tarde, os chineses fecharam a loja para servir apenas os distintos africanos e a comitiva por lá permaneceu durante duas horas. Compraram, compraram, compraram, as senhoras moçambicanas abasteceram-se, em quantidade, dos mais variados produtos, artesanato chinês de qualidade, jades, jóias e até colecções de casacos de peles. No fim, à saída, tiveram o privilégio de não gastar um tostão.

A conta, extraordinária e exorbitante, era para ser paga pelas autoridades chinesas, pelo
generoso e mais do que irmão Partido Comunista da China, tudo em nome do socialismo, da amizade entre os povos e do internacionalismo proletário.

Li Shunbao, humilde chinês, meu amigo e camarada, não gostou do que viu.


Pequim, 22 de Agosto de 1981

Mas quando é que eu ganho juízo? Hoje descubro outra mulher chinesa, quase a beldade perfeita, no lugar certo, passeando-se pelo Vale das Cerejeiras, por detrás do Wo Fo Si卧佛寺, o templo do Buda Deitado, na Colina Perfumada, arredores oeste de Pequim. Dela, pouco mais fiquei a saber do que o seu nome, Liu Xiaochun, sendo Liu刘 o apelido de família e Xiaochun小春, o nome próprio que significa "pequena Primavera, ou Primavera Breve." 

Fixei-lhe o rosto (como é possível uma mulher ser tão serenamente bonita!…), as formas do corpo, os seios perfeitos sob a blusa branca, justa, e as calças bem cintadas, azuis, arredondando o primor das nádegas. Não lhe toquei com um dedo sequer, mas apetecia-me tocar-lhe com todos os dedos, das mãos, dos pés, com todas as células do meu corpo, beijá-la até a polpa dos meus lábios sangrar de prazer e exaustão. Quatro anos na China, a olhar para as meninas chinesas e a não ter nenhuma. Xiaochun, em tempo de Verão, a "Primavera Breve." O avançar por dentro das estações do ano, o perpassar da natureza.


Pequim, 30 de Agosto de 1981

Dia de, no Yuanmingyuan圆明园, o Jardim da Perfeição e da Luz, antigo Palácio de Verão que data dos séculos XVIII e XIX, encontrar uma chinesinha que pega na minha mão, a pousa sobre o seu joelho bonito -- a palma da mão voltada para cima --, e que me lê a sina. Um portento, a mulher, Wu Mei 吴美de seu nome, nascida em Nanquim, 23 anos, aluna do Instituto de Cinema de Xangai. Bruxa. Com toda a aprendizagem e tiques de actriz, mais a percepção do essencial das coisas da vida.

Nunca me tinham lido a sina. Foi preciso viver em Pequim para encontrar uma "cigana de Nanquim" disposta a tal tarefa, cheia de saber e segurança.

Num excelente mandarim à mistura com um macarrónico inglês, a Wu Mei foi-me explicando o significado dos traços na palma da minha mão. Mais ou menos nestes termos:

"Tu és muito forte, na cabeça. Tens uma carreira importante que será interrompida aos cinquenta anos por um acidente grave, de que recuperarás, quanto ao teu trabalho. Tens três mulheres na tua vida, a primeira aconteceu há alguns anos, a segunda e a terceira vão seguir-se uma à outra. Não foste feliz com a mulher com quem casaste, gostas muito dos teus irmãos e da tua família."

Pedi à Wu Mei (Wu吴, apelido de família, associado ao antigo reino de Wu, actual província de Jiangsu cuja capital é Nanquim onde ela nasceu, e Mei美 que significa "bonita"), pedi à Wu Mei que dissesse a minha idade. Confessa que não está escrita na palma da mão, mas ela aponta para 29 anos. Face à minha negativa, corrige de imediato para o número certo, 34 anos. Voltou a insistir que eu era inteligente, mas mal aproveitado pelas outras pessoas, mesmo assim descobriu que eu tenho um futuro brilhante à minha frente. Quero acreditar que sim.

Wu Mei, a bruxa chinesa de Nanquim! Miguel de Cervantes, nas Novelas Exemplares, bem avisou: "Yo no creo en brujas, pero que las hay, hay".

Bruxas bonitas, até na China…

Pequim, 18 de Novembro de 1981

Esta manhã chego à embaixada da União Soviética e o tovarich de serviço na Intertourist recebe-me com as seguintes palavras:

"Good morning, do you have american dollars?"

Eu tinha porque já ia avisado que, depois de fazer a viagem no Transsiberiano, devia pagar a estadia das quatro noites em Moscovo nessa maldita (e tão amada!) moeda dos reacionários e capitalistas filhos do tio Sam. Logo depois segui para a embaixada da Mongólia para pedir outro visto no passaporte, para a passagem do comboio pela república mongol. A primeira coisa com que me deparei à entrada da porta foi o letreiro: "Visas must be paid in USA dollars or Swiss francs, only."

Na China, ao longo destes mais de quatro anos vi, "claramente visto", compreendi a "superioridade" do sistema socialista. Com os parceiros russos e o seu filhote mongol basta entrar nas respectivas embaixadas para entender que os dólares norte-americanos são excelentes para olear o socialismo e ajudá-lo a singrar.

Amadora, 15 de Abril de 1982

Comia sossegadamente o meu bife à hora do almoço quando vi, no pequeno écrã  da TV, um general chinês, de visita a Portugal, a depositar um ramo de flores no monumento aos soldados Comando mortos em combate em África, aqui ao lado no Regimento de Comandos da Amadora, o antigo RI 1 que tão bem conheci há dez anos atrás.

As voltas que o mundo dá, ou simplesmente o doce-amargo do fluir dos dias….

Quando em 1972 parti deste quartel para a guerra na Guiné levava o desgosto de, pequeno alferes miliciano, ir combater por uma causa em que não acreditava. Iria encontrar guerrilheiros que, melhor ou pior, lutavam pela independência das suas terras. Depois, em Teixeira Pinto e em Mansoa, no meu Comando de Operações, estive com as 35ª. e 38ª. Companhias de Comandos, impressionantes tropas de combate com quem fiz amigos e com quem cheguei a sair para o mato.[1] Unidos, camaradas, lutávamos pela sobrevivência, pela vida.

Na Guiné-Bissau, em Mansoa, em Junho de 1973, após uma missão da 38ª. Companhia de Comandos, na estrada Jugudul-Bambadinca, vi-os chegar com quatro espingardas Kalashnikov capturadas aos guerrilheiros mortos numa emboscada, duas delas ainda com sangue fresco. Tomei uma das armas na mão, culatra atrás, bala na câmara e apontei para o céu. Eram quatro Kalashs fabricadas na República Popular da China, oferecidas pelos comunistas de Mao Zedong para matar tropas portuguesas. 

Dez anos depois, um general chinês coloca uma coroa de flores no monumento aos militares Comandos, homenageando os portugueses mortos, muito deles caídos diante das balas disparadas por estas armas, made in China. (**).
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