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segunda-feira, 23 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27850: Notas de leitura (1907): "Os Descobrimentos Portugueses, Viagens e aventuras", I volume, por Luís de Albuquerque, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, Editorial Caminho, 1991 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 13 de Novembro de 2025:

Queridos amigos,
Não resisti a fazer uma recensão ao volume I do bem-sucedido projeto em que estiveram envolvidos o eminente historiador Luís de Albuquerque e duas escritoras consagradas principalmente na chamada literatura infantojuvenil, mas que também atingem outras camadas jovens. 

Será o caso deste livro aliciante na escrita, bem ilustrado por Emílio Vilar, descreve acontecimento históricos numa linguagem altamente acessível, com boas tábuas cronológicas e ilustrações de navios e instrumentos de navegação, mostrando igualmente os primeiro navios portugueses, as armas e as armaduras que se usaram na conquista de Ceuta, etc. 

É evidente que possuímos boas histórias dos Descobrimentos Portugueses, mas nada se compara com este projeto que aponta para as camadas mais jovens, não foi por acaso que esteve incluído no Plano Nacional de Leitura. Leitura oportuna para os nossos netos, digo-vos eu.

Um abraço do
Mário



O grande talento de saber contar a jovens a saga dos Descobrimentos Portugueses

Mário Beja Santos

Um eminente historiador, o Professor Luís de Albuquerque, duas notabilíssimas escritoras do infantojuvenil, e muito mais, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, um ilustrador altamente qualificado, Emílio Vilar, entraram numa aventura que comportava tremendos riscos de insucesso: fazer uma História dos Descobrimentos Portugueses sugestiva para as camadas mais jovens. Assim surgiu "Os Descobrimentos Portugueses, Viagens e aventuras", I volume, Editorial Caminho, 1991.

“Concebemos uma estrutura simples e incluímos alguns aspetos geralmente omissos como, por exemplo, armas e instrumentos musicais utilizados na conquista de Ceuta, povos que habitavam no Norte de África, peripécias curiosas que por um motivo ou por outro não passaram à História. E pusemos de lado certos mitos que falseiam a verdade. Decidimos ainda escrever para cada período aquilo a que chamamos ‘Uma história possível’. Essas histórias, embora enquadradas nos parâmetros da época, são pura ficção. Destinam-se a permitir ao leitor um contacto mais direto com outras maneiras de viver, sentir, de pensar. Fizemo-las porque entendemos que o relato de conquistas, viagens e aventuras proporciona uma ‘visão exterior’ e as ‘histórias possíveis’ de uma ‘visão interior’ dos Descobrimentos Portugueses.”

O renomado historiador e as duas grandes escritoras ganharam a aposta, é um livro invulgar em termos didático-pedagógicos, assim até apetece aprender. E vamos ao essencial das suas mensagens.

Primeiro, o que era o mundo antes dos Descobrimentos, para se sair do lugar onde se vivia era preciso navegar no mar alto. 

“E o mar era um grande desconhecido. Ninguém lhe sabia os limites. Ninguém lhe sabia os segredos. E quando assim é torna-se fácil inventar. As histórias que circulavam enchiam as pessoas de pavor e de espanto. O desafio começava para além da linha do horizonte, onde se imaginava existir a boca do Inferno, ondas gigantescas de água a ferver, remoinhos borbulhantes, monstros terríveis, sereias e tritões. Todas as estas coisas assustavam a faziam sonhar, de modo que uns se agarravam cada vez mais ao lugar onde viviam enquanto outros ansiavam partir ao encontro de tais maravilhas. Só no século XV começou a grande aventura que permitiu desvendar o mundo. A iniciativa coube aos portugueses.”

Segundo, enquadra-se Portugal nas vésperas da aventura, as supostas razões dadas para conquistar Ceuta, seguem-se desenhos sugestivos com as armas e armaduras no tempo da conquista de Ceuta, as bandeiras e os instrumentos musicais usados na guerra, conta-se como foram as primeiras viagens dos portugueses, como fomos às Canárias, Madeira e Porto Santo, como se processou o povoamento destas duas ilhas, seguiu-se o povoamento dos Açores, entremeiam-se histórias maravilhosas para prender a atenção dos jovens.

Terceiro, como se pensava e como se representava a Terra, em planisférios e livros de geografia e viagens, como foram as primeiras viagens ao longo da costa ocidental africana, como foi fundamental a passagem do Cabo Bojador; como, depois do desastre de Tânger, se avançou para o Sul. 

Em 1441, o Infante D. Henrique mandou armar um navio capitaneado por Antão Gonçalves, ele levava a incumbência de capturar lobos-marinhos, aproveitaram a circunstância para tentar capturar gente. Foi Antão Gonçalves quem fez os primeiros cativos na costa ocidental africana. Prosseguem as viagens, chega-se ao Golfo de Arguim, Lançarote de Lagos capturou 235 homens, mulheres e crianças. No seu regresso, fez-se a partilha em lotes equivalentes, o cronista Zurara dá-nos um relato dilacerante.

Quarto, o quadro das viagens abria as portas ao Novo Mundo, seguem-se as expedições à procura de novas terras e novas gentes, morreu Gonçalo de Sintra, comandava uma nova expedição ao golfo de Arguim, Dinis Dias atingiu o Cabo Verde, Nuno Tristão chegou ao rio Senegal; e tem lugar a primeira viagem pelo interior africano, no rio do Ouro, João Fernandes pôs-se ao caminho, regressou sete meses depois, trazia muitas histórias para contar.

Um veneziano, de nome Cadamosto, contacta o Infante, e partiu rumo ao Sul, visitou a Madeira, as Canárias, o Golfo de Arguim, a zona do Cabo Branco, o Senegal, o reino de Budomel, Cabo Verde continental, o rio de Barbacins, visita o reino de Budomel, irão ser achadas as ilhas de Cabo Verde. E faz-se um balanço dos Descobrimentos henriquinos. 

Enquanto isto se passa há mais conquistas no norte de África. Entra-se numa nova época no reinado de D. Afonso V, faz-se um contrato com Fernão Gomes, ele pode comerciar por aquela costa africana, mas foi comprometido a descobrir pelo menos 100 léguas de costa por ano. Os seus navios descobriram a faixa de terra desde a Serra Leoa até ao Cabo de Santa Catarina, incluindo as ilhas de São Tomé e Príncipe e Fernão do Pó. Edifica-se o Castelo da Mina.

Quinto, é época dos Descobrimentos joaninos, as viagens de Diogo Cão, os contactos com o Reino do Congo, a Viagem de Bartolomeu Dias e a descoberta da passagem para o Índico. Inevitavelmente que se fala do gigante Adamastor e vamos saber um pouco mais quem eram Diogo Cão, Diogo de Azambuja e Bartolomeu Dias, não é esquecida a viagem venturosa de Pêro da Covilhã.

Neste tempo já há outros intervenientes à procura de comércio e riqueza pelo mar fora. Cristóvão Colombo, ao serviço dos Reis Católicos, atingiu em 1492 as ilhas da América Central e convenceu-se de que chegara à Índia. Surgiram delicados problemas político-diplomáticos entre D. João II e os Reis Católicos. O desfecho para resolver todas as tensões foi o Tratado de Tordesilhas, em 1494, Portugal e Espanha dividiram o mundo ao meio, ficando metade para cada um. 

No século XV, os monarcas ibéricos sentiam-se no direito de proceder assim e não reconheciam a nenhum outro país a autoridade para lhes disputar o Novo Mundo: todas as terras descobertas a oriente pertenceriam a Portugal, e as terras descobertas ao ocidente pertenceriam a Castela. 

“No Tratado ficou escrito também que astrólogos e pilotos se deviam deslocar à zona de demarcação, viajando os espanhóis em navios portugueses e os portugueses em navios espanhóis. Se por acaso lá houvesse alguma ilha ou ‘ponta de terra firme’, construía-se uma torre ou muralha que marcasse o limite de forma bem visível. Incluiu-se também uma cláusula autorizando os navios espanhóis a circularem pelo mar português para se dirigirem À zona que lhes coubera.”

Finda este belíssimo livro que pertenceu ao Plano Nacional de Leitura referenciando navios e instrumentos de navegação e fazendo-se um balanço dos Descobrimentos joaninos e temos ainda uma cronologia que vai do reinado de D. Dinis ao reinado de D. João II. O II volume deste belo empreendimento foi também publicado na Editorial Caminho em 1996, inevitavelmente começa com a viagem de Vasco da Gama.

Doutor Luís Albuquerque
Isabel Alçada
Ana Maria Magalhães
O Castelo da Mina
Os primeiros contactos
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Nota do editor

Último post da série de 20 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27840: Notas de leitura (1906): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (7) (Mário Beja Santos)

terça-feira, 26 de novembro de 2024

Guiné 61/74 - P26195: Manuscrito(s) (Luís Graça) (262): Porto Santo e a África aqui tão perto - Parte VI: Casa Colombo - Museu de Porto e dos Descobrimentos Portugueses



Região Autónoma da Madeira > Porto Santo > Vila Baleira > 4 de outubro de 2024 > Mural de Cristóvão Colombo, pintado a spray no edifício da Câmara Municipal do Porto Santo, da autoria de artista de arte urbana Mr. Dheo, natural do Porto e com obra espalhada por mais de dezena e meia de cidades de todo o mundo.



Região Autónoma da Madeira > Porto Santo > Vila Baleira > 4 de outubro de 2024 > Casa Colombo - Museu de Porto Santo e dos Descobrimentos Portugueses


Região Autónoma da Madeira > Porto Santo > Vila Baleira > 4 de outubro de 2024 > Casa Colombo - Museu de Porto Santo e dos Descobrimentos Portugueses






Madeira > Porto Santo > Vila Baleira > Casa Colombo - Museu da Madeira e dos Descobrimentos Portugueses > 4 de outubro de 2024 > A Odisseia dos Mares > Painel sobre o Tratado de Tordesilhas


Fotos (e legendas): © Luís Graça (2024). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Casa Colombo - Museu de Porto Santo e dos Descobrimentos Portugueses


1. Pois é... já lá vai o tempo em que os dois então poderosos vizinhos ibéricos pegavam no globo terrestre e, qual  "melancia", cortavam-no ao meio.. E toma lá, dá cá... A gente sabe como é que acabou a história: sobrou para nós, "os últimos soldados do império"... 

Foi isso que eu pensei quando em 4 de outubro me pus a ler estes painéis sobre a "Odisseia dos Mares", no Museu de Porto Santo, na Vila Baleira... Aliás, Casa Colombo - Museu de Porto Santo e dos Descobrimentos Portugueses...

Pois é, o Fernando Medina, o anterior presidente da Câmara Municipal de Lisboa,  queria criar na cidade um Museu dos Descobrimentos. É preciso distrair os turistas quando nos vêm "visitar" e deixar cá uns euritos... Que a cidade, em boa verdade, em matéria  de museus e monumentos nacionais e outras "atrações turísticas", não pode competir, nem de longe nem de perto com as rivais (Londres, Paris, Madrid, Roma, Amesterdão, Berlim....). (A culpa, dizem, foi do terramoto de 1755 que tudo levou, mais a beatice e a incultura  da maior parte dos nossos reis e rainhas que nunca foram grandes nem exigentes colecionadores de arte, muito menos profana.)

Caiu-lhe o Carmo e a Trindade em cima, ao pobre do Medina: "seu saudosista, seu imperialista, seu esclavagista, seu negreiro, seu colonialista, seu racista, seu filho daquele e daquela"... Enfim, quem tem ideias que não sejam "politicamente corretas", como esta pouco ortodoxa do "Museu dos Descobrimentos", está sujeito a levar  no "toutiço" dos historiadores, dos curadores de museus, dos dirigentes de associações de afro-descendentes, dos jornalistas, e por aí fora, sem esquecer os novos censores das redes sociais...

Mas os madeirenses (incluindo os porto-santenses) não deixaram cair a ideia em saco roto...e logo em 2023 decidiram, sem complexos,  remodelar e ampliar o museu local de Porto Santo, inaugurada em 1989 e reestruturado em 2004, passando a Casa-Museu Cristóvão Colombo,  a chamar-se Casa Colombo - Museu de Porto Santo e dos Descobrimentos Portugueses.

Afinal, foi aqui (e em Ceuta) que tudo começou...Para o bem e para o mal, para a glória e para a perdição...(Em boa verdade, o que seríamos nós, Luís Vaz de Camões, enquanto povo, se toda a gente tivesse dado ouvidos ao teu  "homem do Restelo" ?!...)

Pensando bem, até  já havia um núcleo museológico, baseado na casa onde, segundo a tradição,  o  descobridor do "Novo Mundo" viveu e casou com uma das filhas do capitão donatário da ilha, o Bartolomeu Perestrelo, filho de mercadores italianos. (Eu sempre o tratei, ao Colombo,  por idiota por  ter chamados "índios" aos desgraçados que foram "descobertos" para começarem logo a ser "dizimados"; e idiota por se ter enganado na leitura das cartas  de navegação e pensado que tinha chegado às "Índias"; se, calhar, mais do que idiota, mas isso é outra história, outra conversa,...).

A Casa Colombo - Museu do Porto Santo e dos Descobrimentos Portugueses apresenta uma nova museografia (nunca conheci a anterior), tendo  sido enriquecida com novos conteúdos e recheios, estes fruto da  doação mecenática de obras de oficinas nacionais e europeias (Alemanha, Espanha, Flandres, França), africanas, asiáticas e sul-americanas.

Do interessante espólio entretanto adquirido destacam-se peças que vão desde o século IV até ao século XVIII (tais como pratos, taças, travessas, terrinas, vasos, garrafa, bilha, azulejos, elmo, imagens devocionais em escultura e pintura, mobiliário, gravuras, mapas e moedas),  enfim, obras executadas nos mais diversos materiais com o porcelanas, faianças, cobres, marfins, madeiras exóticas, tartaruga, madrepérola, ferro, etc.. 

Em suma, é um pequeno grande espaço de cultura, de memória e de aprendizagem, que vale uma visita,e que aconselho  a quem, dos nossos amigos e camaradas, for passar uns dias à "Ilha Dourada". Os antigos combatentes têm acesso gratuito à Casa Colombo... 


PS - Contrariamente ao que aprendemos, nos anos 50, na escolinha primária do livro único, a ilha de Porto Santo não foi "descoberta" em 1420 pelos portugueses João Gonçalves Zarco, Tristão Vaz Teixeira e Bartolomeu Perestrelo, mas sim "reconhecida" por eles... Já vinha assinalada pela cartografia castelhana por volta de 1385. E em 1417 navegadores castelhanos tinham passado pela ilha (desabitada).... 

Vinte e seis anos depois, em 1446, os portugueses chegavam à Costa da Guiné... Podemos dizer, isso, sim, sem euforia (muito menos com arrogância) mas com orgulho, que foram os nossos antepassados quem abriu a grande autoestrada marítima que deu "novos mundos ao Mundo", unindo terras, ilhas,  mares, continentes, povos e civilizações... E tudo começou há mais de 600 anos... Porto Santo é, pois, uma referência emblemática, incontornável...

Como todas as odisseias humanas, reais ou míticas ou mitificadas (como a de Ulisses), a nossa "odisseia dos mares", os nossos "Descobrimentos", também tiveram efeitos perversos, é bom não esquecê-lo... Mas assumamos tudo isso, de maneira crítica, frontal  e...descomplexada!

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terça-feira, 5 de novembro de 2024

Guiné 61/74 - P26116: Manuscrito(s) (Luís Graça) (261): Porto Santo, e a África aqui tão perto - Parte V: o Pico da Ana Ferreitra e a magia da geologia

 












Porto Santo > Pico Ana Ferreira, geossítio nº 4  > 2 de outubro de 2024


Fotos (e legenda): © Luís Graça (2024). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. É o geossítio (PSt04) que vale o percurso de jipe (pela parte Norte da ilha,  4 pessoas, custando 40 euros por pessoa, num total de 3 horas com guia).

É o ponto mais alto da ilha, no lado ocidental (288 m). Fica-se estarrecido com o "piano", o conjunto de "colunas prismáticas", nascidas do "génio" do vulcão, ou,  em linguagem menos poética, resultante do fenómeno, que em geologia e geomorfologia se chama ... disjunção prismática.

Não há muitas, no nosso planeta, formações geológicas exibindo disjunções prismáticas como esta... Só não percebo por que é que ainda não foi classificada como "monumento natural", e não há maior cuidado com a sua proteção.

Cite-se mais algumas famosas a nível mundial:


Este geossítio no Pico Ana Ferreira durante anos foi uma pedreira. Extraía-se pedra para a construção e obras públicas.  Até que alguém deu conta desta obra-prima da natureza, que é um regalo para a fruição estética... e uma referência obrigatória para a educação ambiental e o turismo na ilha.

Lê-se no  "site" oficial da Geodiversidade da Região Autómoma da Madeira:

(...) "Nesta antiga pedreira do Pico de Ana Ferreira observa-se uma disjunção prismática com colunas quase perfeitas, de elevado valor estético. 

"Esta estrutura, de cor cinza clara, foi originada pelas tensões de contração que se geraram durante o arrefecimento do magma no interior de uma conduta vulcânica.

"A rocha resultante do magma consolidado - mugearito, por ser mais resistente do que as rochas encaixantes, sobreviveu à ação erosiva, enquanto o material à sua volta foi desaparecendo ao longo do tempo." (...)

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Nota do editor:

2 de novembro de 2024 > Guiné 61/74 - P26109: Manuscrito(s) (Luís Graça) (260): Ao fim da tarde, ao pôr do sol no Atlântico, lembramos neste dia todos os nossos mortos queridos

Vd. poste anterior > 29 de outubro de 2024 > Guiné 61/74 - P26092: Manuscrito(s) (Luís Graça) (259): Porto Santo, e a África aqui tão perto - Parte IV

terça-feira, 29 de outubro de 2024

Guiné 61/74 - P26092: Manuscrito(s) (Luís Graça) (259): Porto Santo, e a África aqui tão perto - Parte IV - Nem os "profetas" escaparam... à guerra colonial

 

Foto nº 30 > Porto Santo > 1 de outubro de 2024 > Ponta da Calheta e vista da cota norte


Foto nº 31 > Porto Santo > 1 de outubro de 2024 > Ponta da Calheta... e os sinais geológicos da origem vulcànica da ilha...



Foto nº 32 > Porto Santo > 1 de outubro de 2024 > Ponta da Calheta... A vida que náo desiste...


Foto nº 33 > Porto Santo > 3 de outubro de 2024 > Miradouro das Flores > O Ilhéu de Baixo ou da Cal


Foto nº 34 > Porto Santo > 3 de outubro de 2024 > Miradouro das Flores > Nove quilómetros de praia que precisam de proteção contra o lobi do cimento armado (a construção, o imobiliário, a hotelaria, o turismo... )


Foto nº 35 > Porto Santo > 3 de outubro de 2024 > Outubro de 2024  > Um pequeno bosque de pinheiros raquíticos no sítio dos Morenos, na costa  Norte


Foto nº 36 > Porto Santo > 3 de outubro de 2024 > Outubro de 2024  > O dragoeiro ou "sangue-de-dragã", uma espécie  A espécie é originária da região biogeográfica atlântica da Macaronésia (Madeira, Canárias e Açores). Este foi plantado por mão humana, numa praça da Vila Baleira. Está extinta em Porto Santo, como espécie selvagem.



Foto nº 37 > Porto Santo > 3 de outubro de 2024 > Outubro de 2024  > Adro da igreja de Na. Sra. da Piedade, a igreja matriz, cuja construção remonta a  1430/1446. Foi várias vezes pilhada e destruída pelos corsários. Reconstruída totalmente em 1667.


1. Não sei se houve algum concelho do país (continente e ilhas) sem mortos na guerra do ultramar / guerra colonial... Escapou, por certo,  a ilha das Berlengas, por que não tinham habitantes permanentes (na época, só faroleiro).

Nem o minúsculo território de Porto Santo (com pouco mais de 42 km2 e c. 3500 habitantes em 1960) escapou à fatalidade de uma guerra prolongada e distante para a qual foram mobilizados c. de 800 mil portugueses (sem contar com os africanos, c. de 200 mil). 

Pois dos naturais de Porto Santo (porto-santenses e não portos-santenes...) houve pelo menos um morto, se bem que por doença, o 2º srgt iuf, Tibúrcio Alencastre Pestana, em Moçambique, em 13/8/1970.

Na visita que eu fiz à ilha, como turista (a reboque de duas canadianas!), de 29 de setembro a 6 de outubro passado, não me dei conta de qualquer pedaço de memória dessa guerra.  Há referência ao início da nossa expansão marítima, a alguns dos seus principais atores e beneficiários (a começar pelos capitães-donatários das ilhas:  João Gonçalves Zarco, ficou com o Funchal,  o Tristão Vaz Teixeira, com o Machico, e o Bartolomeu Perestrelo, com o Porto Santo...). 

Não faço ideia quantos porto-santenses foram mobilizados, entre 1961 e 1974.. Mas a ilha tem o seu martirológio, a sua lista de vítimas, por ataques de piratas e corsários bem como de epidemias e fomes... 

No Museu de Porto, de acesso grátis para antigos combatentes (Casa Colombo -. Museu de Porto Santo e dos Descobrimentos Portugueses) fiquei a saber coisas que não sabia, a começar pela estranha alcunha, "Os Profestas", que foi dada aos seus habitantes, e que já vem do séc. XVI, ou seja, do início do império...

Também a fiquei a saber mais detalhes da brutal incursão de que a ilha foi vítima, em 1617, por parte de corsários argelinos... Com uma costa tão extensa e aberta, a sul, e localizada a uns escassos 500 km da costa ocidental africana, e a mil do sul da Europa, sofreu, nomeadamente até ao séc. XVII, as incursões, pilhagens, raptos e assassínios de piratas e corsários que agiam sob várias bandeiras... A mais trágica terá sido, de facto,  a de 1617.

Foi sempre uma ilha de extrema pobreza, sofrendo os efeitos de uma dupla colonização: até ao reinado de Dom José I, vigorou o miserável sistema de "colonia" na exploração da terra, em que os colonos eram os porto-santenses e os senhorios os madeirenses...A colonia foi extinta, em Porto Santo, pelo menos "de jure", por alvará régio de 13 de outubro de 1770.

Contrastando com a Madeira, é uma ilha paupérrima, em termos de recursos materia
is, a começar pela flora, são escassas as árvores (vi palmeiras,  pinheiros, alguns dragoeiros...),. Mas a ilha, mais antiga que a Madeira, é uma joia para os geólogos...e os amantes da natureza.

A ilha do Porto Santo começou a formar-se há 19 milhões de anos, tendo emergido  há  8 milhões de anos.      A Madeira, por sua vez,  data da mesma época (há 19 milhões de anos, no Mioceno) mas só emergiu durante a  transição do Mioceno para o Plioceno, há cerca de  5 milhões de anos. O que não é nada, sabendo que os dinossauros do Jurássico,  evoluíram entre 200 e 146 milhões de anos, passeando-se entre a Lourinhã e Nova Iorque. (Estás a ver, João Crisóstomo, irás fazer o mesmo percurso, não a pé, obviamente, mas de avião,  150 milhões de anos depois...).

Para saber mais sobre a Porto Santo e os porto-santenses:


(I) População (de alcunha, os "profetas"...)




(ii) Segurança...



(iii) Economia....




Fonte:  Casa Colombo -. Museu de Porto Santo e dos Descobrimentos Portugueses) ... (Seleção, sublinhados a vermelho: LG) (com a devida vénia..)

Fotos (e legendas): © Luís Graça (2024). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

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sexta-feira, 11 de outubro de 2024

Guiné 61/74 - P26034: Manuscrito(s) (Luís Graça) (258): Porto Santo, e a África aqui tão perto - Parte III: uma ilha... "fotogénica", mas com dupla "insularidade"

 


Foto nº 20 > Porto Santo >  Um dos icónicos moinhos de vento da ilha, no Campo de Cima. (O primeiro terá sido construído em finais dp séc. XVIII.) 


Foto nº 21 > Porto Santo > Anoitecer, na baía. Vista do porto de abrigo. É aqui que atratca todos os diuas o "ferryboat "Lobo Marinho", que faz a ligação diária com o Funcal.


Foto nº 22 > Porto Santo _ Miradoiro da Portela. Vista  da Vila Baleira e praia,


Foto nº 23 > Porto Santo > Serra de Fora > Terras que há dera,m cereal (1)...


Foto nº 24 > Porto Santo > Serra de Fora > Terras que lá deram cereal (2).... 


Foto nº 25 > Porto Santo > Resaurante  "Teodorico" > O bolo do caco


Foto nº 26 > Porto Santoo >Vila Baleira  > Caf+e Bar "O Rapaz" > A cerveja Coral (que vem da Madeira)


Foto nº 27 > Porto Santo > Serra de Fora > O "Teodorico", um dos restuarantes de referència da ilha


Foto nº 28 >  



Foto nº 29 Porto Santo > Vila Baleira > Casa Colombo (3)

Região Autónoma da Madeira, Porto Santo > 29 set - 6 out 2024

Fotos (e legendas): © Luís Graça (2024). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1.  A ilha é fotogénica: dá para tirar umas belas "chapas"... Maz lembrar o canto da sereia... Eu imaginei-me náufrago numa ilha como esta. Que não tem nada para um desgraçado de um ser humano poder sobreviver. Hoje vem tudo da Madeira. A sua dupla ou tripla insularidade assusta-me. 

Mas há gente que aqui nasce, estuda, trabalha, vive, se casa, faz filhos, envelhece, adoece e morre. Há gente que emigra, mal acabada a escolaridade obrigatória. Mas também há gente que vem para aqui trabalhar, como imigrante. Das mais diferentes partes do planeta: falei com "miúdos" da Argentima, do Brasil, de Marrocos, de Cabo Verde, da Guiné-Bissau, do Comgo0 Kinshasa, de São Tomé e Príncipe, de Angola, de Moçambique, do Nepal, do Banglasdesh, etc.  A qualidade do turismo foi afetada com a pandemia, a perda de recursos humanos e o inevitável recurso a mão-de-obra temporária estrangeira... 

Desde há mais de cinco séculos que é (ou foi) uma ilha sofrida e de sofrimento. O turista, que vem aqui passar as suas "férias de sonho", não quer saber nada do seu parto violento, a sua origem vulcânica, a sua desertificação, a sua secura, a sua terra estéril,  os dramas e tragédias mas também as lições de coragem da sua gente... (Confesso que só falei com meia dúzia de porto-santenses de origem, do homem do táxi, do jardineiro do hotel, ou  das funcionáras do museu...).

Merece ser conhecida, com mais detalhe, o rol de tragédias que marca a história dos desgraçados que colonizaram a ilha. Gente de coragem e tenacidade. É a ilha mais próxima da nossa plataforma continental e a primeira a ser "achada" e povoada...logo no início do séc. XV. 

Com a conquista de Ceuta (1415), inicia-se, para o mal e para o bem, o império colonial português, o primeiro império global da história... O passo seguinte foi Porto Santo (1418).

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