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quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28392: Foi há... (13): Oitenta e um anos, o fim da II Guerra Mundial... Como foi vivido na Metrópole e no Ultramar - Parte II: Sobretudo os Açores (mas também a Madeira e Portugal continental) foram a "moeda de troca" de Salazar para entrar na NATO... que no entanto não conseguiu salvaguardar o império colonial

 



Foto (e legenda): "5. Desembarque de um Batalhão de Infantaria em Ponta Delgada - II Guerra Mundial. Col. R. Soares; Rezendes, 2019."


Fonte: Sérgio Rezendes: Receios, Privações e Misérias num Ambiente de Prevenção Armada: Ecos da II Guerra Mundial nos Açores. Portal de Defesa Nacional, 2023 (com a devida vénia...). cd,. artigo oroiginal: Rezendes, Sérgio – Receios, Privações e Miséria Num Ambiente de Prevenção Armada: Ecos da II Guerra Mundial nos Açores​. Revista Portuguesa de História Militar - Dossier: Portugal no Contexto da Segunda Guerra Mundial, 1939-1945. [Em linha] Ano III, nº 4 (2023).[Consultado em 30 de setembro de 2026.], https://doi.or​g/10.56092/FWBM1414​

Restauro, melhoria técnica e colorização: IA (ChatGPT/OpenAI), sob prompting e orientação editorial de LG.

Foto original a sépia, do famoso N/T Serpa Pinto (1914-1955), Construído em 1914 na Irlanda , foi adquirtida pela CCN - Companhia Colonial de Navegação em 1940. A duas hélices, tinha c. 142 metros de comprimento, e c. 8,27 mil toneladas de arqueação bruta. Capacidade: 160 tripulantes,m e 600 passageiros. Comhecido como o "Navio da Amizade" devido ao seu papel crucial durante a Segunda Guerra Mundial, com inúmeras viagens transatlânticas transportando milhares de refugiados de guerra, incluindo uma grande quantidade de judeus que fugiam do nazismo rumo às Américas. O seu casco exibia orgulhosamente o nome e a bandeira de Portugal em letras garrafais para evitar ataques de submarinos. Mas chegou a estar, em na noite de 26 de maio de 1944, ao largo das Bermudas, a caminho de Filadélfia, na mira de um U-boat para ser afundado, valeu-lhe o veredicto final do almirante Karl Dönitz (1891 - 1980), em Berlim.



Madeira > Funchal > Parque de Santa Catarina > Monumento aos gibraltinos (excerto da lápide, em português e em inglês) (Fonte: adapt de Tripadvisor)

Durante a 2ª Guerra Mundial, cerca de 2000 gibraltinos, na sua maioria mulheres e crianças, foram evacuados para o Funchal, ficando instalados em hotéis, pensões e casas particulares até ao fim do conflito. Muitos deles criaram raízes na Madeira, contribuindo para que a respetiva comunidade tenha, até hoje, uma estreita relação com a cidade.  Cerca de 7 dezenas também morreram durante esse período (1940-1945), a maioria devida a surto de tifo.

O pequeno monumento em mármore foi oferecido à RAM pela comunidade de Gibraltar e  inaugurado em 2008. A cidade do Funchal tem, desde 2009, um acordo de geminação com Gibraltar.

 

1. A II Guerra Mundial e o seu fim (1945) foram vividos de forma muito distinta em Portugal continental, nas ilhas adjacentes (Madeira e Açores) e nas colónias de África e Ásia, refletindo as tensões da neutralidade portuguesa, o impacto estratégico dos diferentes territórios (ilhas adjacentes e colónias)   e as consequências humanitárias, demográficas, sociais e económicas 

Aqui está uma síntese detalhada por região, baseada em fontes históricas e documentos da época, disponíveis em acesso livre:

Ilhas Adjacentes: Açores e Madeira


A importância das Ilhas Adjacentes (Açores e Madeira) no contexto da Segunda Guerra Mundial e no xadrez diplomático da "neutralidade colaborativa" de Salazar é um dos capítulos  da nossa história contemporânea que os portugueses não conhecem ou conhececm mal.

Falemos primeiro dos Açores. O arquipélago  teve um papel estratégico crucial na guerra, especialmente a partir de 1943, quando Portugal cedeu bases aos Aliados sob pressão britânica e americana.

Recorde-se que pelo Acordo de 17 de agosto de 1943, Salazar autorizou os britânicos a usar os portos de Horta (Faial) e Ponta Delgada (São Miguel), bem como os aeródromos de Campo das Lajes (Terceira) e Campo de Santana (São Miguel).

A 8 de outubro de 1943, os britânicos desembarcaram em Angra do Heroísmo e construíram a Base Aérea das Lajes, que se tornaria um ponto de viragem na Batalha do Atlântico.

Em 1942, os Aliados tinham perdido 5,48 milhões de toneladas de mercadorias no Atlântico Norte. No último trimestre de 1943, com as operações a partir das Lajes, as perdas caíram para apenas 146.000 toneladas. 53 submarinos alemães (U-Boats) foram afundados graças às operações dos Açores  

Em 1944, oss americanos construíram uma base em Santa Maria e, em 1945, uma nova base na Terceira (a atual Base das Lajes).

  • Açores: a Operação Alacrity e a mudança de rumo na Batalha do Atlântico

O papel dos Açores no conflito transcorreu entre a diplomacia cautelosa  e o realismo militar do Governo Português, mas também dos dois lados do conflito que nunca esconderam a importância do arquipélago.

Antes da cedência formal das instalações em 1943, os Açores estiveram sob ameaça constante de ocupação por ambos os blocos. Ou seja, viveu-se sob o fantasma da invasão (1940–1942).

Os britânicos planearam a Operação Stimson (e mais tarde a Operação Alacrity) para tomar o arquipélago "manu militari" se Portugal caísse sob influência do Eixo. Por seu turno, o Alto Comando alemão equacionou a Operação Félix e a ocupação dos Açores para fechar o Atlântico aos Aliados.

Face ao risco iminente de invasão estrangeira e da perceção de que o continente não conseguiria defender as ilhas à distância (são cerca de 1450 km a distância que separa Lisboa de Ponta Delgada), o governo reforçou massivamente as defesas insulares. 

Entre 1941 e 1943, cerca de 30 mil expedicionários portugueses (do Exército e da Armada) foram enviados para o arquipélago, transformando o quotidiano de ilhas pacatas como a Terceira, São Miguel e Faial. Teve grande impacto demográfico na altura (sxegundo o censo de 1940, os Açores contavan com 287 mil habitantes!). Por outro lado, esta expedição foi um desastre do ponto de vista do planeamento, do financiamento, da logística e da execução, segundo o  historiador açoriano Sérgio Rezendes (op. cit., 2023(.
.
Até meados de 1943, existia uma vasta zona no centro do Atlântico Norte fora do alcance da cobertura aérea baseada em terra. Era o chamado "Buraco do Atlântico" (Mid-Atlantic Gap). Era ali que os U-Boote, os submarions alemães,  atacavam os comboios de abastecimento com quase total  impunidade. A abertura da Base das Lajes fechou essa lacuna operacional, permitindo patrulhas antisubmarinas contínuas com aviões de longo alcance (como os B-24 Liberator).
 
Embora as facilidades tenham sido inicialmente concedidas à Grã-Bretanha, no âmbito da velha Aliança Luso-Britânica de 1373, a entrada em cena dos Estados Unidos (através da construção do aeródromo de Santa Maria pela US Army Air Forces em 1944) redefiniu a importância geopolítica dos Açores para o pós-guerra, inserindo Portugal na esfera de segurança atlântica das potências ocidentais.

 A presença militar trouxe dinamismo económico, mas também tensões com a população local, que via a ocupação estrangeira como uma violação da neutralidade.

A Base Aérea N.º 4, sediada na Ilha Terceira, nos Açores, celebrou,  no passado dai 12 de junho de 2021, oito décadas de existência

A importância geoestratégica do arquipélago dos Açores só por si justificou a necessidade de existir uma grande infraestrutura aeronáutica, sobretudo porque garantia uma superioridade aérea sobre a naval. Tal fator foi determinante para a chegada de meios aéreos aos Açores pela primeira vez.

Face à evolução da II Guerra Mundial, em 1941 o Governo Português destacou para os Açores um Corpo Expedicionário, formado por duas Esquadrilhas de Caça: a Esquadrilha n.º 1 com destino à Ilha de São Miguel e a n.º 2 para a Ilha Terceira.

Aquando da chegada da Esquadrilha da Caça n.º 2, a construção da pista nas Lajes já se encontrava quase concluída, tendo sido declarada como apta para operações em 11 de julho de 1941.

A presença das forças da aeronáutica nos Açores conduziu em 4 de agosto de 1942 à criação da Base Aérea n.º 4, na Ilha de S. Miguel, e da Base Aérea n.º 5, no Aeródromo das Lages, na Terceira.

  • Madeira: evacuação de Gibraltar e crise social

Embora a Madeira não tenha acolhido bases aéreas militares estrangeiras, desempenhou um papel importrante, no plano humanitário, logístico e estratégico:

(i) Operação de evacuação de Gibraltar (1940):  dada a sua proximidade com o Rochedo de Gibraltar (sob controlo dos britânicos), a Madeira serviu como ponto de apoio para os Aliados, especialmente após a evacuação de Gibraltar em 1940.

Antecipando potenciais ataques alemães ou espanhóis à fortaleza de Gibraltar, o Reino Unido evacuou a sua população civil. A Madeira acolheu cerca de 2 000 gibraltinos (sobretudo mulheres, crianças e idosos), que permaneceram na ilha até ao final do conflito. Estabeleceu-se uma forte ligação afetiva entre os evacuados e os madeirenses, mobilizando hotéis e quintas no Funchal para os alojar.

A ilha recebeu também outros refugiados (incluindo judeus e outros europeus em fuga do nazismo), embora em menor escala do que Macau ou Lisboa.

(ii) Guarnição militar: a Madeira contou com um contingente reforçado de cerca de 1 000 a 1 500 expedicionários continentais, encarregados da defesa da ilha, do controlo das comunicações por cabo submarino e da vigilância das rotas navais; a ilha não tinha um 
aeródromo.

(iii) Operação Ripper: foi o nome de código de uma operação militar que os britànicos planearam para capturar a Madeira, acção ponderada entre fevereiro de 1942 e meados de 1943.

(iv) Privações económicas e mercado negro: o bloqueio naval e a escassez de combustível paralisaram o comércio tradicional do vinho da Madeira e do bordado, além de dizimarem o turismo. A ilha viveu anos de  escassez de alimentos, inflação, racionamento severo, racionamento de eletricidade, surtos de fome pontuais e o florescimento da especulação e do mercado negro.  A população madeirense teve de enfrentar privações semelhantes ou até maiores do que as do continente

  • Reações insulares ao fim do conflito (maio–agosto de 1945)

A notícia da rendição da Alemanha (Maio de 1945 - Dia V-E) e do Japão (Agosto de 1945 - Dia V-J) provocou reações distintas, mas intensas, em ambos os arquipélagos

(i) Alívio social e desmobilização: a primeira reação da população e das tropas foi de enorme alívio; o fim do conflito significava o regresso progressivo dos milhares de jovens expedicionários ao continente e o restabelecimento das rotas marítimas civis e do abastecimento de bens essenciais;

(ii) Manifestações públicas e tensões políticas: nos Açores e na Madeira, o fim da guerra levou multidões às ruas em celebração da vitória dos Aliados; em Ponta Delgada, Angra do Heroísmo e no Funchal, os desfiles de celebração pró-Aliados transformaram-se por vezes em manifestações de aspiração democrática; setores da oposição ao Estado Novo viam a vitória das democracias ocidentais como o prenúncio da queda das ditaduras ibéricas; o governo de Salazar acompanhou atentamente estas celebrações, limitando ajuntamentos que pudessem derivar em contestação política ao regime;

(iii) O legado das infraestruturas: o fim da guerra deixou um património transformador, sobretudo nos Açores: as pistas, instalações e redes telefónicas construídas em Santa Maria e na Terceira converteram os Açores num nó central da aviação comercial transatlântica no pós-guerra.

A centralidade estratégica demonstrada pelas Ilhas Adjacentes (e sobretudo dos Aççores) durante o conflito foi a principal "moeda de troca diplomática que permitiu a uma ditadura como a de Salazar figurar como membro fundador da NATO em 1949.

Essa é uma das grandes contradições históricas da fundação da NATO / OTAN. . Portugal entrou na NATO em 4 de abril de 1949 como um dos 12 membros fundadores, apesar de o Estado Novo de Salazar ser um regime autoritário e não democrático (partido único "de facto", censura, polícia política, ausência de vredadeirias eleições livres, repressão da oposição). 

Como explicar ? O Tratado dizia, no preâmbulo, que os membros estavam determinados a defender uma civilização fundada na democracia, liberdades individuais e Estado de direito.

Mas o artigo 10.º, que regulava a entrada de novos membros, era muito mais pragmático: permitia convidar, por unanimidade, qualquer Estado europeu, independentemente do seu regime político,  capaz de contribuir para a segurança do Atlântico Norte e promover os princípios do Tratado.  

E a  azão fundamental era bipolarização do mundo no pós-guerra e o início da Guerra Fria.

Os Estados Unidos e o Reino Unido olhavam sobretudo para a geografia militar. A questão do carácter ditatorial do regime de Salazar foi metida debaixo do tapete. Portugal era então extraordinariamente importante:

  • Açores: posição a meio do Atlântico, fundamental para a ligação aérea e naval entre a América do Norte e a Europa;
  • Portugal continental: posição atlântica e controlo das aproximações marítimas;
  • Madeira: completava, juntamente com o continente e os Açores, o chamado triângulo estratégico português.

Salazar, político hábil,  percebeu perfeitamente o valor dos Açores, o porta-aviões "natural" do Atlântico Norte... Mas Salazar não deu os Açores e recebeu a NATO. Foi uma troca diplomático-estratégica muito mais complexa: Portugal oferecia uma posição atlântica de enorme valor militar e Salazar obtinha reconhecimento internacional e legitimidade para o seu regime.

Mas há aqui uma ironia histórica, que importa sublinhar:  Portugal tentou aproveitar a negociação para, "à boleia",  obter outras vantagens, nomeadamente a inclusão das colónias portuguesas na área do Tratado (que só abrangia o Atlàntico Norte)  e a entrada da Espanha franquista. Os aliados recusaram ambas as pretensões. Portugal entrou, mas não conseguiu transformar a NATO numa garantia da manutenção do império colonial.

 A própria história oficial da NATO hoje reconhece explicitamente que Portugal era, em 1949, uma ditadura sob Salazar,  e que a sua importância estratégica ajudou a ultrapassar essa questão.  Mais: a NATO  não ajudou a “democratizar” Portugal, como alguns esperavam (incluindo alguns setores da oposição democrática) em 1949. Pelo contrário: o regime de Salazar iria permanecer no poder durante mais 25 anos ! 

Mas a NATO também foi uma escola de valores e competências para muitos militares portugueses (de Humberto Delgado a Costa Gomes) que, direta ou indiretamente, acabaram por contribuir para a restauração da democracia e o fim da guerra colonial.

(Pesquisa: LG + Wikipedia + Revista Minerva + Diário de Notícias  (Funchal) + NATO +  Defesa Nacional + IA)

(Condensação, revisão / fixação detexto, negritos; LG)
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quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28336 Foi há... (12): Oitenta e um anos, o fim da II Guerra Mundial... Como foi vivido na Metrópole e no Ultarmar - Parte I: O mundo não seria mais como dantes...



Capa da "Vida Mundial Ilustrada, Lisboa, ano IV, nº 209, 17 de maio de 1945, preço avulso, 1$80...A imagem da capa não era das multidões a festejar o fim da guerra e a vitória dos Aiados ("Nações Unidas"), mas a visita... de Salazar ao embaixador de Inglaterra:

"O sr. Presidente do Conselho, como Ministro dos Negócios Estrangeiros, esteve na Embaixada da Inglaterra, para exprimir ao sr. Embaixador, 'Sir' Campbell, o quanto satisfazia ao seu Governo e aos portugueses a vitória das Nações Unidas"...



1. Salazar e a censura tinham horror às multidões... Jornais do "reviralho" (oposição) como o "Diário de Lisboa" ou a "República" não puderam publicar fotos como estas a seguir, que aparecem no interior da "Vida Mundial Ilustrada" ou do "Mundo Gráfico", com a população de Lisboa a vitoriar os Aliados... Por razões técnicas, mas também devido à censura. 

Os diários tinham 8 páginas, os semanários ilustrados, 24. E o momento político era a visita de Salazar ao embaixador de Inglaterra bem como o seu discurso na Asembleia Nacional (veja-se aqui a primeira página da 3ª edição do "Diário de Lisboa" desse dia histórico).


O 8 de maio de 1945 marca o Dia da Vitória na Europa (V-E Day), data oficial da rendição incondicional da Alemanha Nazi e o fim da Segunda Guerra Mundial no continente europeu. (Alguns de nós estávamos a nascer, e outros já mamavam ou até gatinhavam.)

No Pacífico, o conflito só terminaria formalmente a 2 de setembro de 1945, após a rendição do Japão na sequência do trágico lançamento da bomba atómica sobre Hiroshima (6 de agosto) e depois Nagasaki (9 de agosto). 

A partir daqui o mundo não seria mais como dantes.

Entretanto, só a 15 de setembro seria restaurada a soberania portuguesa sobre Timor-Leste, ocupada pelos japoneses desde 19 de fevereiro de 1942.



Lisboa > Na  Conde Redondo...


Lisboa > Na Av da Liberdade, junto ao Monumento aos Mortos da Grande Guerra... (pág, 15)



Lisboa > s/d > Foto tirada na Conde Beirão ...Excerto da legenda:

(...) "Portugal vibrou de entusiasmo, Lisboa marchou à frente dos mais entusiastas para exprimiro seu júbilo pela vitória dos Aliados na Europa. Por toda a parte a multidão, disciplinada, gritoua  sua alegria. No Conde Redomndo, por exemplo, a certa altura,  o entusiasmo atingiu oi auge que a foto presente revela. Diante das embaixadas, diante das legações, pelas ruas da Baixa, a cidade de todas as condições sociais espalhava-se e comprimia-se porque todas as ruas pareciam pequenas para exprimir o seu entusiasmo" (Fonte: "Vida Mundial Ilustrada", Lisboa, ano IV, nº 209, 17 de maio de 1945, pág. 24). 

 (Com a devida vénia...)


Cauteloso, anónimo,  e com "pinças", o jornalista da "Vida Mundial Ilustrada" remetia o júbilo do povo para uma página interior (pág. 15) que só podia ler quem tivesse comprado o semanário por 1$80 (com a carestia do papel, tinha aumentado 80% desde a data do seu lançamento em meados de 1941) (*)...

Escrevia-se assim naquela época, em estilo gongórico e cheio de subentendidos:

"Acabou a guerra! Todo o mundo aguardava ansioamente esta notícia que devia chegar de um momento para o outro.

"E porque era assim esperada e era certo o fim da guerra, ninguém sonhava que chegasse tão longe a ordeira alegria do povo português, dia-a-dia vivendo a dureza de um conflito que, nem por estar longe, podia ficar estranho à nossa consciência de homens e de europeus.

"Pode-se dizer que não houve ninguém que não empunhasse uma bandeira, que não gritasse a sua alegria, e não dissese como Salazar no seu discurso: 'Ainda bem que acabou a guerra! Ainda bem que sairam vitoriosas as Nações Unidas' " (pág. 15)...


E se tivessem ganho as "potências do Eixo" ? Parte da elite portuguesa da época, política, militar, e até económica e financeira, era germanófila, apesar da "neutralidade" do país... Spínola, com 35 anos, e ainda capitão, era germanófilo, como toda a arma de cavalaria... 

Salazar, por seu turno,  era um político pragmático, mais próximo política e ideologicamente do fascismo de Mussolini do que do nazismo do Hitler... Destestava os americanos e o regime capitalista e demoliberal, leia-se, parlamentar...

2. O fim da Segunda Guerra Mundial (1945) foi vivido de forma muito distinta em Portugal continental, nas ilhas adjacentes (Madeira e Açores) e nas colónias de África e Ásia, refletindo as tensões da neutralidade portuguesa, o impacto estratégico dos territórios ultramarinos e as consequências humanitárias e económicas da guerra. Aqui está uma síntese detalhada por região, baseada em fontes históricas e documentos da época:

Portugal, sob o regime do Estado Novo e a liderança de António de Oliveira Salazar, manteve uma neutralidade oficial durante a guerra, mas com uma postura pragmática que beneficiou economicamente o país.

Salazar justificou a neutralidade como uma defesa do "interesse nacional", afastando-se de alinhamentos ideológicos com o Eixo ou os Aliados ( incluindo a velha aliada Grã-Bretanha).

No entanto, o país vendeu volfrâmio (tungsténio, um mineral estratégico para a indústria bélica) a ambos os lados), gerando lucros recordes no comércio externo, apesar da pobreza (e em muitos casos,  miséria)  da população (mais de metade da população ativa vivia no setor primário).

Um dos mitos que a propaganda do Estado Novo criou foi o da "criação de riqueza", apesar da guerra... Veja o que se diz aqui, sobre esse período, de acordo peritos da Fundaão Manuel dos Santos

1939-1945 Guerra, volfrâmio, más colheitas e duas recessões

(...) "Em 1939 o mundo mergulhava num dos mais amplos e dramáticos conflitos da história da Humanidade. Com as operações militares sobretudo centradas no solo europeu e nos mares do Pacífico, a Segunda Guerra Mundial teve um impacto económico global.

Portugal manteve, desde o início, a neutralidade militar, o que contribuiu para um aparente paradoxo: o país cresceu fortemente durante a Segunda Guerra, com uma expansão do PIB real entre 19% e 30% entre 1940 e 1944, em parte impulsionada pelas exportações de volfrâmio para as potências beligerantes de ambos os lados. A venda deste metal ao exterior permitiu um excedente comercial histórico em 1942.

Mais tarde, em 1944, esta fonte de crescimento económico viria a esgotar-se com o fim das exportações deste minério, imposto ao país por uma forte pressão internacional.

 Este facto coincidiu com a mais longa seca de que há registo em Portugal continental, entre 1943 e 1946. 

É essencialmente do efeito conjugado destes dois choques que nasce a recessão de 1944-45.

O país continuava com uma matriz setorial de forte peso agrícola, sendo as colheitas determinantes para o ciclo económico. (...)


A 8 de maio de 1945, o fim da guerra na Europa foi assinalado na Assembleia Nacional (arremedo de parlamento) e nas ruas. Salazar proferiu um discurso histórico na sessão extraordinária, transmitido por alto-falantes para a multidão em frente ao edifício de São Bento.

O fim da guerra acelerou a contestação ao regime em Portugal. Muitos portugueses interpretaram a vitória aliada como um sinal de que era chegada a hora de acabar com os regimes autoritários na Europa. Surgiram movimentos de oposição como o  Movimento de Unidade Democrática (MUD), formado em outubro de 1945 por republicanos, socialistas e democratas para concorrer às eleições legislativas. 

No entanto, o MUD desistiu de participar nas eleições (novembro de 1945) devido à repressão e à falta de garantias de liberdade, e o regime manteve-se de pé..

3. As celebrações pelo fim da guerra em Portugal e no Ultramar foram ambivalentes. Houve manifestações espontâneas em várias regiões (Algarve, Trás-os-Montes, Lisboa) que misturaram alegria pela paz com protestos contra o regime.

A censura e a polícia política (que vai mudar de nome em 1945)  tentaram reprimir as manifestações. Houve detenções, mas muitos protestos escaparam ao controlo das autoridades.

Há, todavia,  uma distinção importante em relação ao que se passou em Portugal continental e nas colónias. O fim da guerra foi vivido no Ultramar português como uma mistura de alívio, festa, esperança e, sobretudo, expectativas políticas muito diferentes consoante a colónia e os grupos sociais.

Para a Metrópole,  era a vitória dos Aliados e o fim da ameaça militar; para sectores africanos politizados, a derrota do nazismo e do fascismo podia significar outra coisa: a promessa de um novo mundo em que o princípio da autodeterminação também deveria aplicar-se aos povos colonizados.

E há uma ironia histórica extraordinária: Portugal saiu da guerra formalmente neutro e com o império intacto (apesar da tragédia de Timor), mas o mundo que nascia em 1945 era precisamente o mundo que começava a pôr em causa os impérios coloniais. Recorde-se alguns dos primeiros territórios a tornar-se independentes, no pós-guerra (1945-1948):

  • Líbano (22 de novembro de 1943):
  • Indonésia (17 de agosto de 1945);
  • Vietname (2 de setembro de 1945);
  • Síria (17 de abril de 1946);
  • Jordânia (25 de maio de 1946);
  • Filipinas (4 de julho de 1946);
  • Índia e Paquistão (14-15de agosto de 1947);
  • Birmãnia (hoje, Mianmar) (4 de janeiro de 1948);
  • Ceilão (atual Shri Lanka) (4 de fevereiro de 1948).


Há, de facto, uma diferença essencial: o 8 de maio não significava exactamente o mesmo em todo o Ultramar. Nas colónias africanas portuguesas (com exceção de Timor), a guerra tinha sido sobretudo uma guerra à distância: não eram teatros de grandes operações militares, mas sofreram mobilização, restrições económicas, falta de bens, inflação, perturbações comerciais e a presença de tropas expedicionárias. 

Cabo Verde, pela sua posição estratégica, teve ainda uma experiência muito particular, a par dos Açores.

Pesquisa: LG

(Continua)

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 4 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28319: Foi há... (11): Sessenta anos que Artur Augusto Silva (Ilha da Brava, 1912 - Bissau, 1983) escreveu, na prisão política de Caxias, essa pequena obra-prima do conto guineense, que é "O Cativeiro dos Bichos"

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28319: Foi há... (11): Sessenta anos que Artur Augusto Silva (Ilha da Brava, 1912 - Bissau, 1983) escreveu, na prisão política de Caxias, essa pequena obra-prima do conto guineense, que é "O Cativeiro dos Bichos"



"Os animais mais fortes podem ser vencidos
pela audácia, coragem, inteligência e cooperação dos mais fracos" (Sabedoria da literatura oral africana)


Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: Artur Augusto Silva (2006)
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné


1. Trata-se uma "fabulosa fábula" (se nos é permitido o pleonasmo) do tempo em que os animais falavam. E é uma homenagem à literatura oral africana. E mais: é uma pequena obra-prima do conto guineense.

Recorde-se que na cultura dos mais diversos povos as fábulas (e demais contos populares) são também uma forma, indireta, de denunciar e criticar os abusos do poder dos mais fortes, incluindo as várias  formas de violência sobre os mais fracos.

Muitas destas narrativas incluindo as fábulas guineenses, encerram também lições segundo as quais os animais mais fortes, como o leão ou o "lobo" (hiena), podem ser vencidos pela "audácia", "coragem", "inteligência" e "cooperação" dos mais fracos.

Este conto foi escrito pelo advogado, defensor de presos políticos em Bissau, no início da década de 1960, Artur Augusto Silva (Ilha da Brava, Cabo Verde, 1912- Bissau, 1983), pai do nosso querido e saudoso amigo luso-guineense Pepito (Carlos Schwarz da Silva, Bissau, 1949- Lisboa, 2012) e marido da não menos querida e saudosa Clara Schwarz (Lisboa, 1915 - Oeiras, 2016), de origem judaica (pai polaco, e mãe russa, de Odessa) que consta de um livro de contos, escrito em 1966, na Prisão de Caxias, e editado a título póstumo pelos seus três filhos ("O Cativeiro dos Bichos", edição de autor, Bissau, 2006).

Era também uma contundente crítica, implícita, ao sistema colonial, à sua política, à sua justiça e à guerra. Mas quiçá, também, ao princípio da "luta armada de libertação", iniciada pelo PAIGC em 23 de janeiro de 1963. Artur Augusto Silva, tal como a esposa,  era um intelectual, anticolonialista, amigo do Amílcar Cabral. Podia ser um simpatizante do PAIGG, mas não um militante, nem necessariamente um defensor da "guerra justa", um partidário da "violência revolucionária" que degenerou em tragédia para aquela terra e aquele povo que ele tanto amava.

Recorde-se que na época era governador (e comandante-chefe) da Guiné o General Arnaldo Schulz, o mesmo que expulsou o autor da sua tão amada terra de adopção (onde vivia desde 1949), e que o mandou prender, à chegada ao aeroporto de  Lisboa,  em 26/8/1966,  através do longo braço armado da PIDE, "por  exercer atividade contra a segurança do Estado" (sic). (De resto, já era vigiado pela polícia política desde 1938.)  


O autor quando jovem,
em Lisboa...
Arnaldo Schulz  opôr-se-ia, depois,  ao seu regresso à Guiné: em ofício da subdelegação da PIDE de Bissau, de 19/12/1966, é transmitida ao Diretor-Geral da PIDE, em Lisboa,  a opinião do Governador de que "aquele Senhor não deve voltar à Guiné, pelo menos enquanto se mantiver o terrorismo" (sic).

Cidadão empenhado, africano nacionalista, jurista corajoso, jornalista e escritor de talento, cofundador do colégio-liceu de Bissau (em 1949),  membro do Centro de Estudos da Guiné, vogal do Conselho do Governo da Guiné (em 1964, já com o brigadeiro Arnaldo Schulz, como governador), amigo pessoal de Amílcar Cabral,  fez questão de defender presos políticos guineenses, muitos deles seus amigos "ou que passaram a sê-lo, acusados de sedição pela potência colonial"; mais concretamente, "foi defensor em 61 julgamentos, um deles com 23 réus, tendo tido apenas duas condenações".

Esteve preso 4 meses, em Caxia, às ordens da PIDE,  sem culpa formada. Em 23/12/1966, "por intervenção de Marcelo Caetano e de outros responsáveis políticos, que embora discordassem das suas ideias políticas,  o admiravam como homem de carácter, foi libertado". 

Proibido de regressar à Guiné, foi-lhe  fixada residência em Lisboa. (Pena que entretanto he será levantada, por decisão do Conselho de Ministros, em janeiro de 1970.)

Em 1967, Marcelo Caetano, seu professor, convidou-o para ir trabalhar "como advogado na Companhia de Seguros Bonança". 

Também Adriano Moreira o convidou para leccionar no Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina (ISCSPU) (herdeiro da Escola Colonial, criada em 1906), "o que ele recusou, fazendo ver ao portador do convite a incoerência de o terem prendido pelas suas ideias sobre o colonialismo português e depois o convidarem para leccionar matérias relacionadas com Africa".

Em 1977, de visita à nova República da Guiné-Bissau, foi convidado pelo então Presidente Luís Cabral para trabalhar como juiz no Supremo Tribunal de Justiça. Foi professor de Direito Consuetudinário na Escola de Direito de Bissau. Faleceu em Bissau em 1983, com 70 anos. (Para saber mais, clicar aqui...)

2. Sessenta anos depois, é mais do que justo republicar (*), no nosso blogue,  este conto,“O Cativeiro dos Bichos” que não é apenas   uma sábia fábula africana tradicional, é também uma finíssima sátira política, uma deliciosa paródia judicial e uma subtil alegoria do colonialismo... Podemos ainda ver nele, subliminarmente,  uma espécie de autobiografia cifrada do próprio autor.  

Não tendo  sido publicado em vida (segundo julgamos), mas já a título póstumo (em 2006),  este (e outros  contos) tem  a singularidade de ter sido escrito há sessenta anos, na prisão política de Caxias, entre  setembro e dezembro de 1966, por um homem que conhecia muito bem a Guiné, a advocacia, a repressão política e o aparelho colonial.

É essa circunstância histórica, além do mérito literário, que dá a esta  fábula uma dimensão documental e política extraordinária. É um conto que descreve, ao fim e ao cabo, uma dupla prisão: a dos bichos presos pelo “bicho homem” e a do próprio autor que é "desterrado" para a metrópole pelo governador da Guiné, como "personna non grata"... (**)

Julgamos que esta dimensão escapou a muitos leitores, numa primeira leitura, há 20 anos... O poste P775 (publicado ainda no velho "Blogue-Fora-Nada") teve menos de 200 visualizações e nem um único comentário (*).

A IA fez, a nossa pedido, a sua leitura própria deste conto, ilustrando-o com um bela banda desenhada.



Portugal > Alcobaça > São Martinho do Porto > Estrada do Facho > Casa do Cruzeiro > c. 1957 > O pai, Artur Augusto Silva (1912-1983), com os filhos, da esquerda para a direita, João, Iko (Henrique, já falecido) e Pepito (Carlos) (1949-2012). Cortesia de João Schwarz da Silva, que nos diz que a data deve ser "provavelmente 1957"... Teria então o Pepito (nascido em Bissau, em 1949) os seus oito anos... Esta casa será durante alguns anos, até à morte do Pepito, a sede da saudosa Tabanca de São Martinho do Porto...

Foto (e legenda): © João Schwarz da Silva (2015). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]




Guiné-Bissau > Bissau > Capa  do livro de contos, de Artur Augusto Silva, "O Cativeiro dos Bichos"  (edição de autor, Bissau, 2006 ). Na realidade, tratou-se de uma edição dos três filhos do autor, Henrique, João e Carlos Schwarz, em homenagem à memória, ao talento e ao exemplo cívico do seu pai, Artur Augusto Silva (1912-1983), que viveu na Guiné-Bissau, de 1949 a 1966, e depois, de 1976 até à data da sua morte. Trata-se de uma antologia. Um dos contos que estáo livros é justamente este, "O cativeiro dos bichos" (pp, 


Conto "O Cativeiro dos Bichos"

por Artur Augusto Silva 

(Ilha da Brava, Cabo Verde, 
1912- Bissau, 1983)



A história que ides ler foi-me contada na tabanca de Quebo, no sertão da terra dos fulas, por um homem chamado Umarú Só, velho para além de toda a idade e que por ser velho e sábio conhecia os segredos do mundo e as suas maravilhas.

Vou narrá-la por palavras minhas, porque sei que não me perdoariam o uso daquele estilo floreado, exuberante, por vezes difuso mas sempre poético, que os fulas usam para contar uma história.

Houve um tempo em que todos os seres viviam na mais foi perfeita harmonia e a paz reinava por toda a parte. Isto passou-se antes de ter nascido uma garça chamada Macute e que ficará para sempre como o anjo mau que perverteu o mundo.

Foi o caso que numa manhã de sol, quando as manadas de búfalos pastavam nas lalas verdejantes de Bambadinca, uma garça ainda nova e inexperiente, ao esburgar com o bico as carraças de um búfalo, picou-o profundamente, o que o levou a dar um sacão com a cauda, sacão que apanhou a garça e a fez cair !

As coisas teriam ficado por aqui se não fora a garça Macute que, de longe, presenciou o caso e,  porque queria tornar-se raínha das aves, logo engendrou um plano que a conduzisse à satisfação dos seus desejos.

Andou de terra em terra convocando uma grande reunião de todos os bichos que voam,  para tomarem conhecimento da maior afronta que jamais fora praticada sobre um ser vivente.

Chegado o dia da reunião, ali se encontrou toda a bicharada que povoa os ares, desde a águia-real, de peito branco e palavra e bico adunco, até ao colibri que é mais pequeno que a pequena flor.

Vieram os papagaios vestidos de cinzento e peitilho vermelho, vieram todos os patos, desde o marreco ao ferrão, vieram as galinhas, incluindo as perdizes e as galinhas da Guiné,  todas louçãs na sua vestimenta preta de bolas brancas, vieram os mergulhões de longo bico,  plumagem verde, azul, preta e branca, veio toda a casta de pardalada que enxameia os céus, vieram as abetardas no seu voo lento e majestoso e, por fim, chegaram as borboletas no seu voo saltitante e colorido.

Reunidos todos, a garça Macute declarou que era necessário escolher um presidente que dirigisse os trabalhos mas, quando esperava ser investida no cargo, teve a desilusão de ver que optavam pela águia-real.

A águia-real soltou três assobios e declarou aberta a assembleia. Logo a garça Macute levantou uma questão prévia:

– Vejo aqui as nossas boas amigas, as avestruzes, mas afigura-se-me que elas não são aves. Com efeito, desde que que o mundo é mundo, não há notícia de que uma avestruz tenha voado. Elas fazem parte dos bichos que andam e, por isso, não devem tomar parte da nossa reunião.

Todas as garças grasnaram em sinal de assentimento e estabeleceu-se um certo burburinho, prontamente reprimido pelo presidente que declarou ir pôr po caso à votação. 
A coruja, sábia reconhecida por todos, pediu a palavra e disse:

– O problema posto pela nossa companheira, a garça, não é novo e muitas têm sido as opiniões ventiladas sem que se chegue a qualquer conclusão. Se é verdade que a avestruz tem asas, não é menos certo que nunca se serve delas para voar. Em minha opinião, devem ser classificadas entre os bichos que andam e não entre os que voam.

Como, após tão sábio resumo, ninguém quisesse usar da palavra, a águia pôs o caso à votação, e por maioria esmagadora foi decidido que as avestruzes não eram aves, mas sim bichos que andam.

Então a águia convidou a garça a dizer do motivo da reunião, e Macute começou:

– As aves são neste mundo em que vivemos, os animais mais nobres e mais valentes. Nunca uma de nós sofreu qualquer vexame ou insulto sem que imediatamente respondesse. Ora, devo dizer-vos que é com o coração oprimido de indignação e raiva que vos vou contar que há dias, na bolanha de Bambadinca, uma de nós, precisamente uma garça, foi vítima de agressão por parte de um búfalo. Devo acrescentar que o caso não pode ficar assim e por isso proponho que se declare guerra sem quartel a todos os bichos que andam.

Uma vozearia infernal atroou os ares e os abutres eram, de entre todas as aves, quem mais grita fazia, apoiando tão dignos sentimentos.

Um pardalito que estava presente, voltou-se para um jagudi que deu mostras de grande contentamento e ainda disse:

– O que vocês querem é que haja guerra para poderem comer a carne dos que morrem.

Logo o jagudi, gritando traidor, deu-lhe uma sapatada em três tempos o engoliu.

– Calma! Calma! – gritava a águia-real, receosa de não ter mão na assembleia.

Serenados um pouco os espíritos, a águia deu a palavra ao primeiro orador inscrito, o periquito. Este começou por dizer que a afronta fora grave mas, em seu entender, deveria averiguar-se primeiro se as coisas se tinham passado conforme o relato da garça, porque não via razão para que um búfalo magoasse uma garça, sem qualquer razão. Propunha, pois, uma comissão de inquérito.

O papagaio, segundo orador, citou alguns precedentes em que o comportamento dos bichos que andavam, para com os bichos que voam, demonstrava crueldade e propôs que o caso fosse levado ao conhecimento do bicho homem que possui discernimento mais do que suficiente para resolver o conflito.

As corujas apoiaram e depois de muitos oradores terem falado, foi resolvido levar o caso ao bicho homem. Formada a comissão que se avistaria com o bicho homem, dissolveu-se a assembleia, no meio de grande excitação.

O papagaio, como falador de grandes conhecimentos, presidia à comissão de queixa, a qual se dirigiu ao bicho homem para fazer as suas lamúrias.

Ouviu o bicho homem as mágoas da passarada e ali jurou que iria investigar, para que se fizesse inteira e completa justiça. Voltassem daí a sete dias, para ouvir a sua resolução.

A passarada retirou-se em boa ordem e o bicho homem ficou a esfregar as mãos de contente porque em sua cabeça surgira um plano. Mandou o bicho homem chamar o rei dos bichos que andam e que é, contra o que se pensa, o elefante.

Veio este acompanhado de numeroso séquito do qual fazia parte o seu melhor conselheiro, o macaco. 
Exposto o motivo da convocação, logo ali declarou o elefante que as intenções da bicharada que anda,  eram pacíficas e que nunca, até aquele momento, qualquer dos seus súbditos fizera mal a outrem, facto que devia ser do conhecimento do bicho homem que tudo sabe.

– Na verdade, na verdade – retorquiu o homem. – Mas há uma queixa e é necessário saber quem tem razão. Parece-me que seria melhor que os bichos que andam, nomeassem um delegado e os que voam, outro, para trazerem a minha presença, as alegações de cada parte e as provas a produzir...

Todos concordaram e ficou estabelecido que daí a sete dias e se realizaria o julgamento do caso.

Sete dias passados e à hora marcada, reuniu-se a grande assembleia e o bicho homem, dizendo que ambas as partes lhe mereciam o maior respeito e consideração e que, assim, não podia dar a direita a um e a esquerda a outro, propôs que o representantre de cada parte ocupasse a direita durante meia hora e que a primeira posição fosse tirada à sorte.

Constituído o Tribunal, entraram o macaco como advogado, dos bichos que andam e mais vinte e sete testemunhas, logo seguido pelo papagaio, representante dos bichos que voam, com vinte e cinco testemunhas.

Historiou o homem o diferendo em poucas palavras e pediu ao papagaio, como advogado da parte acusadora, que dissesse da sua justiça.

Falou o papagaio com perfeita dicção e clareza, citando vários confrades seus e algumas palavras que ouvira aos homens, o que lhe valeu aplausos até dos bichos que andam.

Empertigou-se o macaco, abriu os braços como já vira em comícios do bicho homem e analisou, um por um, os argumentos do papagaio e a sua queixa. Falou no amor, na justiça, na piedade, em todos os sentimentos nobres e a tal ponto comoveu a bicharada que voa, fez chorar um pardal estouvado e brincalhão como todos os pardais.

Exposta a questão, iniciou o bicho homem a audição das testemunhas e quer as de acusação, quer as de defesa, declararam nada saber do assunto.

Concedida novamente a palavra aos advogados, estes excederam-se em citações: foram épicos, heróicos, patéticos, fizeram chorar a assembleia e, logo a seguir fizeram-na rir desabridamente e foi numa das suas tiradas mais sublimes que o macaco, demonstrando rara intuição científica, classificou o homem de seu primo. O chimpanzé que estava seguindo a peroração nos menores detalhes, comentou em à parte: primo, mas degenerado.

Depois desta afirmação solene do macaco, os jornais e revistas que o bicho homem publica, começaram-na citando obstinadamente, pelo que hoje é ponto assente a existência de tal parentesco.

O bicho homem suspendeu a sessão por uma hora, ao cabo da qual reentrou para ler a sentença. Era uma longa peça de considerandos e que começava por afirmar que "em virtude de se não ter provado a queixa dos bichos que voam, mas convindo fazer justiça, profiro a seguinte sentença: 

– Julgo a acusação improcedente mas, tendo em atenção que a paz é um dever indeclinável de todos os espíritos sãos, e para poder reservá-la, determino que me sejam entregues como reféns e para garantia da paz futura, um animal de cada uma das espécies que voam que e andam.

Eliminava magnanimamente custas, dada e manifesta pobreza das partes.

Todos animais, tanto os que voam como os que andam, aplaudiram delirantemente tão sagaz decisão e só o macaco, fiado no parentesco com o bicho homem, quis recorrer da decisão, alegando que "começara a escravatura".

Ninguém o quis ouvir, a decisão ficou sem recurso (recurso para quem? perguntava o papagaio) e o bicho homem começou encaminhando a bicharada para currais e capoeiras previamente instalados por sua indústria.

A verdade é que com o correr dos anos as palavras do macaco tiveram plena comprovação, pois o bicho homem nunca mais soltou nenhum dos reféns e porque estes se reproduziam e o bicho homem não tinha com que alimentá-los, passou a comer deles cada vez com mais apetite.

Se acontecia alguém perguntar ao homem a razão de tão prolongado cativeiro, respondia: 

– Como querem que eu os liberte se ainda ontem vi um milhafre pilhar um rato e comê-lo em três tempos? É com sacrifício, com muito grande sacrifício,  que dou de comer à bicharada, mas mesmo com sacrifício devo manter a minha palavra honrada e a minha justiça proverbial.

E prosseguindo:

– É certo que ensinei os bois a trabalhar para mim; é certo que como a carne dos bichos e uso das suas penas e da sua pele em utensílios que fabrico, mas não é menos verdade que todos devem conhecer a minha isenção. Estou esperando que os bichos consigam uma promoção social que os habilite a entrar no concerto dos seres civilizados para, então, lhes dar a liberdade que eu desejo mais do que eles.

Se a história é verdadeira, não posso assegurá-lo pois que os factos passaram-se há muitos anos e não conheci o bicho homem que fez tal justiça; mas, porque Umarú Só é pessoa séria, incapaz de inventar, estou em crer que eles se verificaram conforme a narrativa.

(Prisão de Caxias, 1966)

(Revisão / fixação de texto, notas: LG)
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Notas do editor LG:


(*) Vd. poste de  20 de maio de 2006 > Guiné 63/74 - P775: Antologia (38): O cativeiro dos 

bichos de Artur Augusto Silva (Luís Graça)


(**) Último poste da série : 26 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27955: Foi há... (10): 80 anos: teias que o império tecia: em 25 de abril de 1946, o N/M Quanza que "deu a volta ao mundo", regressou a Lisboa, trazendo tropas expedicionárias de Timor... e os dois netos, menores, órfãos, do heróico "liurai" Dom Aleixo Corte-Real (1886-1943), que foram entregues à Casa Pia

domingo, 26 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27955: Foi há... (10): 80 anos: teias que o império tecia: em 25 de abril de 1946, o N/M Quanza que "deu a volta ao mundo", regressou a Lisboa, trazendo tropas expedicionárias de Timor... e os dois netos, menores, órfãos, do heróico "liurai" Dom Aleixo Corte-Real (1886-1943), que foram entregues à Casa Pia

 








Fonte: Excerto da 1ª página do "Diário de Lisboa" | Número: 8409 | Ano: 26 | Data: Quinta, 25 de Abril de 1946 | Directores: Director: Joaquim Manso

(1946), "Diário de Lisboa", nº 8409, Ano 26, Quinta, 25 de Abril de 1946, Fundação Mário Soares / DRR - Documentos Ruella Ramos, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_22887 (2026-4-26)



1. Portugal, "graças a Salazar e a Nossa Senhora de Fátima", dizia-se na minha terra, quando eu era menino e moço, na catequese e na escola primária, escapara aos horrores da II Guerra Mundial... 

Só muito mais tarde é que vim a saber da imensa tragédia que se abateu sobre Timor-Leste nesse período hediondo da história da humanidade.

 Também ainda  sou do tempo em que Portugal ia do Minho...  a Timor. (Timor-Leste tem 155 referências no nosso blogue.)

O impacto da ocupação japonesa em Timor durante a II Guerra Mundial foi devastador, e infelizmente é ainda  pouco conhecido dos portugueses,  fora da historiografia especializada. (De resto, os portugueses não gostam de história.)

Recorde-se que durante a Segunda Guerra Mundial, a ilha de Timor (então dividida em duas partes, o Timor Português e o Timor Holandês) foi invadido pelo Império do Japão em no início de 1942. 

Curiosamente, antes disso, forças australianas e holandesas tinham desembarcado em Timor português, em finais de 1941, sem autorização formal de Portugal, temendo uma invasão japonesa, o que acabou por precipitar o ataque nipónico, dois meses depois,

Após a invasão, comandos australianos (a chamada “Sparrow Force”) conduziram uma guerra de guerrilha nas montanhas, com forte apoio dos timorenses. Essa colaboração teve consequências terríveis:
  • os japoneses retaliaram brutalmente contra a população civil;
  • armaram e protegeram as "famigeradas colunas negras";
  • aldeias inteiras foram destruídas;
  • houve execuções, trabalhos forçados e deslocações em massa;
  • Dili  (e o resto do território) ficou sem comunicações com Lisboa até ao fim da guerra.
As estimativas variam, mas são geralmente aceites números muito elevados: entre 40.000 e 70.000 timorenses morreram, numa população relativamente pequena. Isso representava  algo como 10% a 15% da população da época.

As causas principais estão, direta ou indiretamente, relacionadas com a invasão e ocupação japonesas: v
iolência direta (massacres e execuções); fome (colapso da agricultura e pecuária e requisições forçadas); doenças (e falta de cuidados médicos, agravada pela guerra).

A população timorense teve um papel ativo na luta contra o ocupante: muitos serviram como guias, carregadores e combatentes auxiliares; e esse apoio foi crucial para a resistência australiana, mas custou-lhes caro.

Após a rendição do Japão em 1945, no seguimento dos bombardeamentos atómicos (Hiroshima e Nagasaqui) e da derrota total do Japão,  Timor voltou ao controlo português.  

No entanto, as infraestruturas estavam devastadas; a cidade de Díli destruída; a  economia rural em colapso; a população profundamente traumatizada.

2. Memória histórica:  este episódio é hoje reconhecido como um dos maiores sacrifícios da população timorense; na Austrália, há um reconhecimento crescente da “dívida de sangue” para com Timor; em Timor-Leste, a memória da ocupação japonesa é parte integrante da identidade histórica nacional; em Portugal, houve quem acusasse o regime de Salazar de abandono dos portugueses e timorenses que lá ficaram, indefesos e incomunicáveis. E até de um "silenciamento cínico".

Haveria, porém,  uma exceção: o  caso de Dom Aleixo Corte-Real, um dos episódios mais marcantes e também mais complexos dessa época. Foi glorificado pelo Estado Novo.



Timor Leste > s/d (c. 1936/40) > O "liurai" Dom Aleixo Corte-Real (1886-1943), régulo de Ainaro e Suro, um dos heróis luso-timorenses da resistência contra os ocupantes japoneses na II Guerra Mundial.

Fotos do Arquivo de História Social > Álbum Fontoura. Imagens do domínio público, de acordo coma Wikimedia Commons.


2.1. Quem foi Dom Aleixo?

Dom Aleixo, de quem já aqui temos falado,  era liurai (régulo, chefe tradicional) de Ainaro, em Timor-Leste. O "Diário de Lisboa" chama-lhe "príncipe".

 Quando os japoneses invadiram o território durante a Segunda Guerra Mundial, ele tornou-se um dos principais líderes locais da resistência: apoiou as forças australianas na guerrilha contra o Império do Japão; mobilizou combatentes timorenses; recusou colaborar com os ocupantes.
 
Em 1943, após campanhas de repressão japonesa, Dom Aleixo foi capturado e foi executado,  de forma brutal. Grande parte da sua família também foi morta.

Este tipo de represália não era incomum: os japoneses visavam destruir redes locais de apoio à resistência. Sem dó nem piedade.

O regime português transformou Dom Aleixo numa figura heróica...  O Estado Novo apropriou-se da sua história para exaltar a lealdade dos “indígenas” ao império português, reforçar a ideia de unidade imperial, criar uma narrativa de fidelidade a Portugal.

Ou seja, ele foi apresentado como um chefe tradicional que morreu fiel à bandeira portuguesa. O que só em parte era verdade.

2.2. O outro lado da história

A historiografia mais recente tende a ver Dom Aleixo de forma mais autónoma: lutava contra uma ocupação estrangeira violenta, e não apenas “por Portugal"; a  sua liderança baseava-se em estruturas locais timorenses; a  resistência tinha motivações próprias (defesa da terra, da comunidade, da autonomia).

 O mesmo se passou, aliás, noutros territórios, já na guerra colonial:  caso dos fulas, dos manjacos, dos felupes e outros, na Guiné.

Além disso, sabe-se que muitos timorenses resistiram sem qualquer ligação direta ao poder colonial. Outros foram forçados a colaborar com os japoneses... Portan
to,  a realidade era muito mais complexa do que a narrativa oficial. 

Hoje, Dom Aleixo é lembrado como herói nacional em Timor-Leste, mas com um significado diferente: símbolo de resistência timorense; mártir da luta contra a ocupação estrangeira;  figura da identidade nacional, não apenas colonial. 
 
Não é errado dizer que houve uma  “transformação em herói” por parte do Estado Novo... mas isso foi uma reinterpretação política de uma figura cuja importância histórica é real e anterior a essa propaganda.

3. A ideia de um “silenciamento cínico” não é totalmente descabida, mas convém enquadrá-la com algum cuidado histórico.

Durante o regime do Estado Novo, a informação era fortemente controlada e a narrativa oficial sobre o império tendia a ser seletiva. No caso de Timor, houve de facto pouca visibilidade pública do que aconteceu entre 1942 e 1945.

Há várias razões, mais pragmáticas do que necessariamente conspirativas:

(i) neutralidade portuguesa na guerra:  Portugal manteve-se, como é sabido,  oficialmente neutro na Segunda Guerra Mundial, pelo que dar demasiado destaque à invasão japonesa de território português, e à presença prévia de tropas australianas sem autorização poderia expor fragilidades dessa neutralidade, e fazer perigar outras posições territoriais na Ásia (como Macau);

(ii) dois pesos, duas medidas:  Salazar é muito mais comedido na denúncia e protesto contra o ataque japonês do que contra a a invasão de holandeses e australianos;

(iii) embaraço político e militar: a  ocupação mostrou que Portugal não tinha, de facto, capacidade real de defender Timor (que ficava a 20 mil km de distância de Lisboa)  e que perdeu totalmente o controlo do território durante esses anos (1942-1945), incluindo as telecomunicações; ora, isso colidia com a imagem de um “império forte e indivisível” que a propaganda do  regime promovia;

(iv) narrativa colonial: o Estado Novo evitava dar protagonismo excessivo às populações coloniais e aos seus líderes tradicionais como agentes históricos; ora, em Timor os timorenses foram decisivos na resistência contra o ocupante nipónico, mas pagaram caro o seu amor à sua terra, á liberdade e à sua identidade; reconhecer isso plenamente implicaria admitir dependência e vulnerabilidade e... "pôr em risco a neutralidade";

(v) ce
nsura e prioridades internas; a  imprensa portuguesa era fortemente censurada, e o foco estava sobretudo na Europa e nas ilhas atlântica s; Timor era um território, remoto e periférico;   para a opinião pública metropolitana era apenas um local de desterro...

Não se pode, todavia,  falar em "silêncio total": houve relatórios oficiais, correspondência e algum reconhecimento interno. Após a guerra, Portugal retomou a administração e fez esforços (limitados, embora) de reconstrução.

Mas não houve uma grande narrativa pública ou memorialização proporcional à dimensão da tragédia.
 
Hoje, muitos historiadores consideram que houve subvalorização e apagamento relativo da tragédia de Timor, mais por conveniência política e ideológicos de do regime do que por um plano deliberado de negar os factos.

Durante décadas, o sacrifício timorense ficou pouco conhecido em Portugal até ao 25 de Abril de 1974.

4. Qual o destino dos  dois menores, órfãos, Benjamim Corte-Real e José Corte-Real, netos do Dom Aleixo Corte-Real, que  vieram para Portugal, no navio Quanza, desembarcaram em Lisboa em 25/4/1946, e foram entregues à Casa Pia ?  

O destino posterior dos dois netos de Dom Aleixo Corte-Real é muito menos claro e mal documentado. Não há um registo público amplamente divulgado ou consensual sobre o percurso completo das suas vidas adultas. Algumas investigações e relatos indicam que terão sido educados em Portugal continental,  podendo ter sido integrados na sociedade portuguesa ou regressado à sua terra natal, quando atingiram a maioridade.

Mas os detalhes (profissões, regresso ou não a Timor, descendência, etc.) não estão bem estabelecidos na historiografia acessível.

Por que é tão difícil saber mais? Há várias razões:

(i) arquivos dispersos ou pouco estudados: registos da Casa Pia de Lisboa e da administração colonial nem sempre estão totalmente investigados ou cruzados;

(ii) invisibilidade social: ao contrário da figura de Dom Aleixo, os netos não foram figuras públicas, não entraram na narrativa oficial com o mesmo destaque, embora tivessem nomes portugueses;

(iii) descontinuidade histórica: o próprio passado colonial de Portugal só começou a ser mais profundamente estudado após o 25 de Abril, e muitos casos individuais ficaram por reconstruir.

PS - Há um linguista, professor doutor Benjamim de Araújo e Corte-Real (mais conhecido como Benjamim Corte-Real),  nascido em 1961, que pode ser desta família. Mas não temos mais informação, a não ser a que vem na sua entrada na Wikipedia. Foi o primeiro reitor, eleito em 2001, da UNTL - Universidade Nacional de Timor Lorosa'e.

Embora tenha feito os estudos superiores na Austrália (mestradoo e doutoramento), tem-se empenhado na "prossecução de uma política linguística que salvaguarde a cultura e identidade nacional timorense, através da promoção das duas línguas oficiais, português e tétum, contra correntes alienantes incentivadas por interesses estrangeiros".

(Investigação: LG + ChatGPT)
(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos: LG)
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