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quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28336 Foi há... (12): Oitenta e um anos, o fim da II Guerra Mundial... Como foi vivido na Metrópole e no Ultarmar - Parte I: O mundo não seria mais como dantes...



Capa da "Vida Mundial Ilustrada, Lisboa, ano IV, nº 209, 17 de maio de 1945, preço avulso, 1$80...A imagem da capa não era das multidões a festejar o fim da guerra e a vitória dos Aiados ("Nações Unidas"), mas a visita... de Salazar ao embaixador de Inglaterra:

"O sr. Presidente do Conselho, como Ministro dos Negócios Estrangeiros, esteve na Embaixada da Inglaterra, para exprimir ao sr. Embaixador, 'Sir' Campbell, o quanto satisfazia ao seu Governo e aos portugueses a vitória das Nações Unidas"...



1. Salazar e a censura tinham horror às multidões... Jornais do "reviralho" (oposição) como o "Diário de Lisboa" ou a "República" não puderam publicar fotos como estas a seguir, que aparecem no interior da "Vida Mundial Ilustrada" ou do "Mundo Gráfico", com a população de Lisboa a vitoriar os Aliados... Por razões técnicas, mas também devido à censura. 

Os diários tinham 8 páginas, os semanários ilustrados, 24. E o momento político era a visita de Salazar ao embaixador de Inglaterra bem como o seu discurso na Asembleia Nacional (veja-se aqui a primeira página da 3ª edição do "Diário de Lisboa" desse dia histórico).


O 8 de maio de 1945 marca o Dia da Vitória na Europa (V-E Day), data oficial da rendição incondicional da Alemanha Nazi e o fim da Segunda Guerra Mundial no continente europeu. (Alguns de nós estávamos a nascer, e outros já mamavam ou até gatinhavam.)

No Pacífico, o conflito só terminaria formalmente a 2 de setembro de 1945, após a rendição do Japão na sequência do trágico lançamento da bomba atómica sobre Hiroshima (6 de agosto) e depois Nagasaki (9 de agosto). 

A partir daqui o mundo não seria mais como dantes.

Entretanto, só a 15 de setembro seria restaurada a soberania portuguesa sobre Timor-Leste, ocupada pelos japoneses desde 19 de fevereiro de 1942.



Lisboa > Na  Conde Redondo...


Lisboa > Na Av da Liberdade, junto ao Monumento aos Mortos da Grande Guerra... (pág, 15)



Lisboa > s/d > Foto tirada na Conde Beirão ...Excerto da legenda:

(...) "Portugal vibrou de entusiasmo, Lisboa marchou à frente dos mais entusiastas para exprimiro seu júbilo pela vitória dos Aliados na Europa. Por toda a parte a multidão, disciplinada, gritoua  sua alegria. No Conde Redomndo, por exemplo, a certa altura,  o entusiasmo atingiu oi auge que a foto presente revela. Diante das embaixadas, diante das legações, pelas ruas da Baixa, a cidade de todas as condições sociais espalhava-se e comprimia-se porque todas as ruas pareciam pequenas para exprimir o seu entusiasmo" (Fonte: "Vida Mundial Ilustrada", Lisboa, ano IV, nº 209, 17 de maio de 1945, pág. 24). 

 (Com a devida vénia...)


Cauteloso, anónimo,  e com "pinças", o jornalista da "Vida Mundial Ilustrada" remetia o júbilo do povo para uma página interior (pág. 15) que só podia ler quem tivesse comprado o semanário por 1$80 (com a carestia do papel, tinha aumentado 80% desde a data do seu lançamento em meados de 1941) (*)...

Escrevia-se assim naquela época, em estilo gongórico e cheio de subentendidos:

"Acabou a guerra! Todo o mundo aguardava ansioamente esta notícia que devia chegar de um momento para o outro.

"E porque era assim esperada e era certo o fim da guerra, ninguém sonhava que chegasse tão longe a ordeira alegria do povo português, dia-a-dia vivendo a dureza de um conflito que, nem por estar longe, podia ficar estranho à nossa consciência de homens e de europeus.

"Pode-se dizer que não houve ninguém que não empunhasse uma bandeira, que não gritasse a sua alegria, e não dissese como Salazar no seu discurso: 'Ainda bem que acabou a guerra! Ainda bem que sairam vitoriosas as Nações Unidas' " (pág. 15)...


E se tivessem ganho as "potências do Eixo" ? Parte da elite portuguesa da época, política, militar, e até económica e financeira, era germanófila, apesar da "neutralidade" do país... Spínola, com 35 anos, e ainda capitão, era germanófilo, como toda a arma de cavalaria... 

Salazar, por seu turno,  era um político pragmático, mais próximo política e ideologicamente do fascismo de Mussolini do que do nazismo do Hitler... Destestava os americanos e o regime capitalista e demoliberal, leia-se, parlamentar...

2. O fim da Segunda Guerra Mundial (1945) foi vivido de forma muito distinta em Portugal continental, nas ilhas adjacentes (Madeira e Açores) e nas colónias de África e Ásia, refletindo as tensões da neutralidade portuguesa, o impacto estratégico dos territórios ultramarinos e as consequências humanitárias e económicas da guerra. Aqui está uma síntese detalhada por região, baseada em fontes históricas e documentos da época:

Portugal, sob o regime do Estado Novo e a liderança de António de Oliveira Salazar, manteve uma neutralidade oficial durante a guerra, mas com uma postura pragmática que beneficiou economicamente o país.

Salazar justificou a neutralidade como uma defesa do "interesse nacional", afastando-se de alinhamentos ideológicos com o Eixo ou os Aliados ( incluindo a velha aliada Grã-Bretanha).

No entanto, o país vendeu volfrâmio (tungsténio, um mineral estratégico para a indústria bélica) a ambos os lados), gerando lucros recordes no comércio externo, apesar da pobreza (e em muitos casos,  miséria)  da população (mais de metade da população ativa vivia no setor primário).

Um dos mitos que a propaganda do Estado Novo criou foi o da "criação de riqueza", apesar da guerra... Veja o que se diz aqui, sobre esse período, de acordo peritos da Fundaão Manuel dos Santos

1939-1945 Guerra, volfrâmio, más colheitas e duas recessões

(...) "Em 1939 o mundo mergulhava num dos mais amplos e dramáticos conflitos da história da Humanidade. Com as operações militares sobretudo centradas no solo europeu e nos mares do Pacífico, a Segunda Guerra Mundial teve um impacto económico global.

Portugal manteve, desde o início, a neutralidade militar, o que contribuiu para um aparente paradoxo: o país cresceu fortemente durante a Segunda Guerra, com uma expansão do PIB real entre 19% e 30% entre 1940 e 1944, em parte impulsionada pelas exportações de volfrâmio para as potências beligerantes de ambos os lados. A venda deste metal ao exterior permitiu um excedente comercial histórico em 1942.

Mais tarde, em 1944, esta fonte de crescimento económico viria a esgotar-se com o fim das exportações deste minério, imposto ao país por uma forte pressão internacional.

 Este facto coincidiu com a mais longa seca de que há registo em Portugal continental, entre 1943 e 1946. 

É essencialmente do efeito conjugado destes dois choques que nasce a recessão de 1944-45.

O país continuava com uma matriz setorial de forte peso agrícola, sendo as colheitas determinantes para o ciclo económico. (...)


A 8 de maio de 1945, o fim da guerra na Europa foi assinalado na Assembleia Nacional (arremedo de parlamento) e nas ruas. Salazar proferiu um discurso histórico na sessão extraordinária, transmitido por alto-falantes para a multidão em frente ao edifício de São Bento.

O fim da guerra acelerou a contestação ao regime em Portugal. Muitos portugueses interpretaram a vitória aliada como um sinal de que era chegada a hora de acabar com os regimes autoritários na Europa. Surgiram movimentos de oposição como o  Movimento de Unidade Democrática (MUD), formado em outubro de 1945 por republicanos, socialistas e democratas para concorrer às eleições legislativas. 

No entanto, o MUD desistiu de participar nas eleições (novembro de 1945) devido à repressão e à falta de garantias de liberdade, e o regime manteve-se de pé..

3. As celebrações pelo fim da guerra em Portugal e no Ultramar foram ambivalentes. Houve manifestações espontâneas em várias regiões (Algarve, Trás-os-Montes, Lisboa) que misturaram alegria pela paz com protestos contra o regime.

A censura e a polícia política (que vai mudar de nome em 1945)  tentaram reprimir as manifestações. Houve detenções, mas muitos protestos escaparam ao controlo das autoridades.

Há, todavia,  uma distinção importante em relação ao que se passou em Portugal continental e nas colónias. O fim da guerra foi vivido no Ultramar português como uma mistura de alívio, festa, esperança e, sobretudo, expectativas políticas muito diferentes consoante a colónia e os grupos sociais.

Para a Metrópole,  era a vitória dos Aliados e o fim da ameaça militar; para sectores africanos politizados, a derrota do nazismo e do fascismo podia significar outra coisa: a promessa de um novo mundo em que o princípio da autodeterminação também deveria aplicar-se aos povos colonizados.

E há uma ironia histórica extraordinária: Portugal saiu da guerra formalmente neutro e com o império intacto (apesar da tragédia de Timor), mas o mundo que nascia em 1945 era precisamente o mundo que começava a pôr em causa os impérios coloniais. Recorde-se alguns dos primeiros territórios a tornar-se independentes, no pós-guerra (1945-1948):

  • Líbano (22 de novembro de 1943):
  • Indonésia (17 de agosto de 1945);
  • Vietname (2 de setembro de 1945);
  • Síria (17 de abril de 1946);
  • Jordânia (25 de maio de 1946);
  • Filipinas (4 de julho de 1946);
  • Índia e Paquistão (14-15de agosto de 1947);
  • Birmãnia (hoje, Mianmar) (4 de janeiro de 1948);
  • Ceilão (atual Shri Lanka) (4 de fevereiro de 1948).


Há, de facto, uma diferença essencial: o 8 de maio não significava exactamente o mesmo em todo o Ultramar. Nas colónias africanas portuguesas (com exceção de Timor), a guerra tinha sido sobretudo uma guerra à distância: não eram teatros de grandes operações militares, mas sofreram mobilização, restrições económicas, falta de bens, inflação, perturbações comerciais e a presença de tropas expedicionárias. 

Cabo Verde, pela sua posição estratégica, teve ainda uma experiência muito particular, a par dos Açores.

Pesquisa: LG

(Continua)

__________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 4 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28319: Foi há... (11): Sessenta anos que Artur Augusto Silva (Ilha da Brava, 1912 - Bissau, 1983) escreveu, na prisão política de Caxias, essa pequena obra-prima do conto guineense, que é "O Cativeiro dos Bichos"

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28319: Foi há... (11): Sessenta anos que Artur Augusto Silva (Ilha da Brava, 1912 - Bissau, 1983) escreveu, na prisão política de Caxias, essa pequena obra-prima do conto guineense, que é "O Cativeiro dos Bichos"



"Os animais mais fortes podem ser vencidos
pela audácia, coragem, inteligência e cooperação dos mais fracos" (Sabedoria da literatura oral africana)


Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: Artur Augusto Silva (2006)
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné


1. Trata-se uma "fabulosa fábula" (se nos é permitido o pleonasmo) do tempo em que os animais falavam. E é uma homenagem à literatura oral africana. E mais: é uma pequena obra-prima do conto guineense.

Recorde-se que na cultura dos mais diversos povos as fábulas (e demais contos populares) são também uma forma, indireta, de denunciar e criticar os abusos do poder dos mais fortes, incluindo as várias  formas de violência sobre os mais fracos.

Muitas destas narrativas incluindo as fábulas guineenses, encerram também lições segundo as quais os animais mais fortes, como o leão ou o "lobo" (hiena), podem ser vencidos pela "audácia", "coragem", "inteligência" e "cooperação" dos mais fracos.

Este conto foi escrito pelo advogado, defensor de presos políticos em Bissau, no início da década de 1960, Artur Augusto Silva (Ilha da Brava, Cabo Verde, 1912- Bissau, 1983), pai do nosso querido e saudoso amigo luso-guineense Pepito (Carlos Schwarz da Silva, Bissau, 1949- Lisboa, 2012) e marido da não menos querida e saudosa Clara Schwarz (Lisboa, 1915 - Oeiras, 2016), de origem judaica (pai polaco, e mãe russa, de Odessa) que consta de um livro de contos, escrito em 1966, na Prisão de Caxias, e editado a título póstumo pelos seus três filhos ("O Cativeiro dos Bichos", edição de autor, Bissau, 2006).

Era também uma contundente crítica, implícita, ao sistema colonial, à sua política, à sua justiça e à guerra. Mas quiçá, também, ao princípio da "luta armada de libertação", iniciada pelo PAIGC em 23 de janeiro de 1963. Artur Augusto Silva, tal como a esposa,  era um intelectual, anticolonialista, amigo do Amílcar Cabral. Podia ser um simpatizante do PAIGG, mas não um militante, nem necessariamente um defensor da "guerra justa", um partidário da "violência revolucionária" que degenerou em tragédia para aquela terra e aquele povo que ele tanto amava.

Recorde-se que na época era governador (e comandante-chefe) da Guiné o General Arnaldo Schulz, o mesmo que expulsou o autor da sua tão amada terra de adopção (onde vivia desde 1949), e que o mandou prender, à chegada ao aeroporto de  Lisboa,  em 26/8/1966,  através do longo braço armado da PIDE, "por  exercer atividade contra a segurança do Estado" (sic). (De resto, já era vigiado pela polícia política desde 1938.)  


O autor quando jovem,
em Lisboa...
Arnaldo Schulz  opôr-se-ia, depois,  ao seu regresso à Guiné: em ofício da subdelegação da PIDE de Bissau, de 19/12/1966, é transmitida ao Diretor-Geral da PIDE, em Lisboa,  a opinião do Governador de que "aquele Senhor não deve voltar à Guiné, pelo menos enquanto se mantiver o terrorismo" (sic).

Cidadão empenhado, africano nacionalista, jurista corajoso, jornalista e escritor de talento, cofundador do colégio-liceu de Bissau (em 1949),  membro do Centro de Estudos da Guiné, vogal do Conselho do Governo da Guiné (em 1964, já com o brigadeiro Arnaldo Schulz, como governador), amigo pessoal de Amílcar Cabral,  fez questão de defender presos políticos guineenses, muitos deles seus amigos "ou que passaram a sê-lo, acusados de sedição pela potência colonial"; mais concretamente, "foi defensor em 61 julgamentos, um deles com 23 réus, tendo tido apenas duas condenações".

Esteve preso 4 meses, em Caxia, às ordens da PIDE,  sem culpa formada. Em 23/12/1966, "por intervenção de Marcelo Caetano e de outros responsáveis políticos, que embora discordassem das suas ideias políticas,  o admiravam como homem de carácter, foi libertado". 

Proibido de regressar à Guiné, foi-lhe  fixada residência em Lisboa. (Pena que entretanto he será levantada, por decisão do Conselho de Ministros, em janeiro de 1970.)

Em 1967, Marcelo Caetano, seu professor, convidou-o para ir trabalhar "como advogado na Companhia de Seguros Bonança". 

Também Adriano Moreira o convidou para leccionar no Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina (ISCSPU) (herdeiro da Escola Colonial, criada em 1906), "o que ele recusou, fazendo ver ao portador do convite a incoerência de o terem prendido pelas suas ideias sobre o colonialismo português e depois o convidarem para leccionar matérias relacionadas com Africa".

Em 1977, de visita à nova República da Guiné-Bissau, foi convidado pelo então Presidente Luís Cabral para trabalhar como juiz no Supremo Tribunal de Justiça. Foi professor de Direito Consuetudinário na Escola de Direito de Bissau. Faleceu em Bissau em 1983, com 70 anos. (Para saber mais, clicar aqui...)

2. Sessenta anos depois, é mais do que justo republicar (*), no nosso blogue,  este conto,“O Cativeiro dos Bichos” que não é apenas   uma sábia fábula africana tradicional, é também uma finíssima sátira política, uma deliciosa paródia judicial e uma subtil alegoria do colonialismo... Podemos ainda ver nele, subliminarmente,  uma espécie de autobiografia cifrada do próprio autor.  

Não tendo  sido publicado em vida (segundo julgamos), mas já a título póstumo (em 2006),  este (e outros  contos) tem  a singularidade de ter sido escrito há sessenta anos, na prisão política de Caxias, entre  setembro e dezembro de 1966, por um homem que conhecia muito bem a Guiné, a advocacia, a repressão política e o aparelho colonial.

É essa circunstância histórica, além do mérito literário, que dá a esta  fábula uma dimensão documental e política extraordinária. É um conto que descreve, ao fim e ao cabo, uma dupla prisão: a dos bichos presos pelo “bicho homem” e a do próprio autor que é "desterrado" para a metrópole pelo governador da Guiné, como "personna non grata"... (**)

Julgamos que esta dimensão escapou a muitos leitores, numa primeira leitura, há 20 anos... O poste P775 (publicado ainda no velho "Blogue-Fora-Nada") teve menos de 200 visualizações e nem um único comentário (*).

A IA fez, a nossa pedido, a sua leitura própria deste conto, ilustrando-o com um bela banda desenhada.



Portugal > Alcobaça > São Martinho do Porto > Estrada do Facho > Casa do Cruzeiro > c. 1957 > O pai, Artur Augusto Silva (1912-1983), com os filhos, da esquerda para a direita, João, Iko (Henrique, já falecido) e Pepito (Carlos) (1949-2012). Cortesia de João Schwarz da Silva, que nos diz que a data deve ser "provavelmente 1957"... Teria então o Pepito (nascido em Bissau, em 1949) os seus oito anos... Esta casa será durante alguns anos, até à morte do Pepito, a sede da saudosa Tabanca de São Martinho do Porto...

Foto (e legenda): © João Schwarz da Silva (2015). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]




Guiné-Bissau > Bissau > Capa  do livro de contos, de Artur Augusto Silva, "O Cativeiro dos Bichos"  (edição de autor, Bissau, 2006 ). Na realidade, tratou-se de uma edição dos três filhos do autor, Henrique, João e Carlos Schwarz, em homenagem à memória, ao talento e ao exemplo cívico do seu pai, Artur Augusto Silva (1912-1983), que viveu na Guiné-Bissau, de 1949 a 1966, e depois, de 1976 até à data da sua morte. Trata-se de uma antologia. Um dos contos que estáo livros é justamente este, "O cativeiro dos bichos" (pp, 


Conto "O Cativeiro dos Bichos"

por Artur Augusto Silva 

(Ilha da Brava, Cabo Verde, 
1912- Bissau, 1983)



A história que ides ler foi-me contada na tabanca de Quebo, no sertão da terra dos fulas, por um homem chamado Umarú Só, velho para além de toda a idade e que por ser velho e sábio conhecia os segredos do mundo e as suas maravilhas.

Vou narrá-la por palavras minhas, porque sei que não me perdoariam o uso daquele estilo floreado, exuberante, por vezes difuso mas sempre poético, que os fulas usam para contar uma história.

Houve um tempo em que todos os seres viviam na mais foi perfeita harmonia e a paz reinava por toda a parte. Isto passou-se antes de ter nascido uma garça chamada Macute e que ficará para sempre como o anjo mau que perverteu o mundo.

Foi o caso que numa manhã de sol, quando as manadas de búfalos pastavam nas lalas verdejantes de Bambadinca, uma garça ainda nova e inexperiente, ao esburgar com o bico as carraças de um búfalo, picou-o profundamente, o que o levou a dar um sacão com a cauda, sacão que apanhou a garça e a fez cair !

As coisas teriam ficado por aqui se não fora a garça Macute que, de longe, presenciou o caso e,  porque queria tornar-se raínha das aves, logo engendrou um plano que a conduzisse à satisfação dos seus desejos.

Andou de terra em terra convocando uma grande reunião de todos os bichos que voam,  para tomarem conhecimento da maior afronta que jamais fora praticada sobre um ser vivente.

Chegado o dia da reunião, ali se encontrou toda a bicharada que povoa os ares, desde a águia-real, de peito branco e palavra e bico adunco, até ao colibri que é mais pequeno que a pequena flor.

Vieram os papagaios vestidos de cinzento e peitilho vermelho, vieram todos os patos, desde o marreco ao ferrão, vieram as galinhas, incluindo as perdizes e as galinhas da Guiné,  todas louçãs na sua vestimenta preta de bolas brancas, vieram os mergulhões de longo bico,  plumagem verde, azul, preta e branca, veio toda a casta de pardalada que enxameia os céus, vieram as abetardas no seu voo lento e majestoso e, por fim, chegaram as borboletas no seu voo saltitante e colorido.

Reunidos todos, a garça Macute declarou que era necessário escolher um presidente que dirigisse os trabalhos mas, quando esperava ser investida no cargo, teve a desilusão de ver que optavam pela águia-real.

A águia-real soltou três assobios e declarou aberta a assembleia. Logo a garça Macute levantou uma questão prévia:

– Vejo aqui as nossas boas amigas, as avestruzes, mas afigura-se-me que elas não são aves. Com efeito, desde que que o mundo é mundo, não há notícia de que uma avestruz tenha voado. Elas fazem parte dos bichos que andam e, por isso, não devem tomar parte da nossa reunião.

Todas as garças grasnaram em sinal de assentimento e estabeleceu-se um certo burburinho, prontamente reprimido pelo presidente que declarou ir pôr po caso à votação. 
A coruja, sábia reconhecida por todos, pediu a palavra e disse:

– O problema posto pela nossa companheira, a garça, não é novo e muitas têm sido as opiniões ventiladas sem que se chegue a qualquer conclusão. Se é verdade que a avestruz tem asas, não é menos certo que nunca se serve delas para voar. Em minha opinião, devem ser classificadas entre os bichos que andam e não entre os que voam.

Como, após tão sábio resumo, ninguém quisesse usar da palavra, a águia pôs o caso à votação, e por maioria esmagadora foi decidido que as avestruzes não eram aves, mas sim bichos que andam.

Então a águia convidou a garça a dizer do motivo da reunião, e Macute começou:

– As aves são neste mundo em que vivemos, os animais mais nobres e mais valentes. Nunca uma de nós sofreu qualquer vexame ou insulto sem que imediatamente respondesse. Ora, devo dizer-vos que é com o coração oprimido de indignação e raiva que vos vou contar que há dias, na bolanha de Bambadinca, uma de nós, precisamente uma garça, foi vítima de agressão por parte de um búfalo. Devo acrescentar que o caso não pode ficar assim e por isso proponho que se declare guerra sem quartel a todos os bichos que andam.

Uma vozearia infernal atroou os ares e os abutres eram, de entre todas as aves, quem mais grita fazia, apoiando tão dignos sentimentos.

Um pardalito que estava presente, voltou-se para um jagudi que deu mostras de grande contentamento e ainda disse:

– O que vocês querem é que haja guerra para poderem comer a carne dos que morrem.

Logo o jagudi, gritando traidor, deu-lhe uma sapatada em três tempos o engoliu.

– Calma! Calma! – gritava a águia-real, receosa de não ter mão na assembleia.

Serenados um pouco os espíritos, a águia deu a palavra ao primeiro orador inscrito, o periquito. Este começou por dizer que a afronta fora grave mas, em seu entender, deveria averiguar-se primeiro se as coisas se tinham passado conforme o relato da garça, porque não via razão para que um búfalo magoasse uma garça, sem qualquer razão. Propunha, pois, uma comissão de inquérito.

O papagaio, segundo orador, citou alguns precedentes em que o comportamento dos bichos que andavam, para com os bichos que voam, demonstrava crueldade e propôs que o caso fosse levado ao conhecimento do bicho homem que possui discernimento mais do que suficiente para resolver o conflito.

As corujas apoiaram e depois de muitos oradores terem falado, foi resolvido levar o caso ao bicho homem. Formada a comissão que se avistaria com o bicho homem, dissolveu-se a assembleia, no meio de grande excitação.

O papagaio, como falador de grandes conhecimentos, presidia à comissão de queixa, a qual se dirigiu ao bicho homem para fazer as suas lamúrias.

Ouviu o bicho homem as mágoas da passarada e ali jurou que iria investigar, para que se fizesse inteira e completa justiça. Voltassem daí a sete dias, para ouvir a sua resolução.

A passarada retirou-se em boa ordem e o bicho homem ficou a esfregar as mãos de contente porque em sua cabeça surgira um plano. Mandou o bicho homem chamar o rei dos bichos que andam e que é, contra o que se pensa, o elefante.

Veio este acompanhado de numeroso séquito do qual fazia parte o seu melhor conselheiro, o macaco. 
Exposto o motivo da convocação, logo ali declarou o elefante que as intenções da bicharada que anda,  eram pacíficas e que nunca, até aquele momento, qualquer dos seus súbditos fizera mal a outrem, facto que devia ser do conhecimento do bicho homem que tudo sabe.

– Na verdade, na verdade – retorquiu o homem. – Mas há uma queixa e é necessário saber quem tem razão. Parece-me que seria melhor que os bichos que andam, nomeassem um delegado e os que voam, outro, para trazerem a minha presença, as alegações de cada parte e as provas a produzir...

Todos concordaram e ficou estabelecido que daí a sete dias e se realizaria o julgamento do caso.

Sete dias passados e à hora marcada, reuniu-se a grande assembleia e o bicho homem, dizendo que ambas as partes lhe mereciam o maior respeito e consideração e que, assim, não podia dar a direita a um e a esquerda a outro, propôs que o representantre de cada parte ocupasse a direita durante meia hora e que a primeira posição fosse tirada à sorte.

Constituído o Tribunal, entraram o macaco como advogado, dos bichos que andam e mais vinte e sete testemunhas, logo seguido pelo papagaio, representante dos bichos que voam, com vinte e cinco testemunhas.

Historiou o homem o diferendo em poucas palavras e pediu ao papagaio, como advogado da parte acusadora, que dissesse da sua justiça.

Falou o papagaio com perfeita dicção e clareza, citando vários confrades seus e algumas palavras que ouvira aos homens, o que lhe valeu aplausos até dos bichos que andam.

Empertigou-se o macaco, abriu os braços como já vira em comícios do bicho homem e analisou, um por um, os argumentos do papagaio e a sua queixa. Falou no amor, na justiça, na piedade, em todos os sentimentos nobres e a tal ponto comoveu a bicharada que voa, fez chorar um pardal estouvado e brincalhão como todos os pardais.

Exposta a questão, iniciou o bicho homem a audição das testemunhas e quer as de acusação, quer as de defesa, declararam nada saber do assunto.

Concedida novamente a palavra aos advogados, estes excederam-se em citações: foram épicos, heróicos, patéticos, fizeram chorar a assembleia e, logo a seguir fizeram-na rir desabridamente e foi numa das suas tiradas mais sublimes que o macaco, demonstrando rara intuição científica, classificou o homem de seu primo. O chimpanzé que estava seguindo a peroração nos menores detalhes, comentou em à parte: primo, mas degenerado.

Depois desta afirmação solene do macaco, os jornais e revistas que o bicho homem publica, começaram-na citando obstinadamente, pelo que hoje é ponto assente a existência de tal parentesco.

O bicho homem suspendeu a sessão por uma hora, ao cabo da qual reentrou para ler a sentença. Era uma longa peça de considerandos e que começava por afirmar que "em virtude de se não ter provado a queixa dos bichos que voam, mas convindo fazer justiça, profiro a seguinte sentença: 

– Julgo a acusação improcedente mas, tendo em atenção que a paz é um dever indeclinável de todos os espíritos sãos, e para poder reservá-la, determino que me sejam entregues como reféns e para garantia da paz futura, um animal de cada uma das espécies que voam que e andam.

Eliminava magnanimamente custas, dada e manifesta pobreza das partes.

Todos animais, tanto os que voam como os que andam, aplaudiram delirantemente tão sagaz decisão e só o macaco, fiado no parentesco com o bicho homem, quis recorrer da decisão, alegando que "começara a escravatura".

Ninguém o quis ouvir, a decisão ficou sem recurso (recurso para quem? perguntava o papagaio) e o bicho homem começou encaminhando a bicharada para currais e capoeiras previamente instalados por sua indústria.

A verdade é que com o correr dos anos as palavras do macaco tiveram plena comprovação, pois o bicho homem nunca mais soltou nenhum dos reféns e porque estes se reproduziam e o bicho homem não tinha com que alimentá-los, passou a comer deles cada vez com mais apetite.

Se acontecia alguém perguntar ao homem a razão de tão prolongado cativeiro, respondia: 

– Como querem que eu os liberte se ainda ontem vi um milhafre pilhar um rato e comê-lo em três tempos? É com sacrifício, com muito grande sacrifício,  que dou de comer à bicharada, mas mesmo com sacrifício devo manter a minha palavra honrada e a minha justiça proverbial.

E prosseguindo:

– É certo que ensinei os bois a trabalhar para mim; é certo que como a carne dos bichos e uso das suas penas e da sua pele em utensílios que fabrico, mas não é menos verdade que todos devem conhecer a minha isenção. Estou esperando que os bichos consigam uma promoção social que os habilite a entrar no concerto dos seres civilizados para, então, lhes dar a liberdade que eu desejo mais do que eles.

Se a história é verdadeira, não posso assegurá-lo pois que os factos passaram-se há muitos anos e não conheci o bicho homem que fez tal justiça; mas, porque Umarú Só é pessoa séria, incapaz de inventar, estou em crer que eles se verificaram conforme a narrativa.

(Prisão de Caxias, 1966)

(Revisão / fixação de texto, notas: LG)
___________________________

Notas do editor LG:


(*) Vd. poste de  20 de maio de 2006 > Guiné 63/74 - P775: Antologia (38): O cativeiro dos 

bichos de Artur Augusto Silva (Luís Graça)


(**) Último poste da série : 26 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27955: Foi há... (10): 80 anos: teias que o império tecia: em 25 de abril de 1946, o N/M Quanza que "deu a volta ao mundo", regressou a Lisboa, trazendo tropas expedicionárias de Timor... e os dois netos, menores, órfãos, do heróico "liurai" Dom Aleixo Corte-Real (1886-1943), que foram entregues à Casa Pia

domingo, 26 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27955: Foi há... (10): 80 anos: teias que o império tecia: em 25 de abril de 1946, o N/M Quanza que "deu a volta ao mundo", regressou a Lisboa, trazendo tropas expedicionárias de Timor... e os dois netos, menores, órfãos, do heróico "liurai" Dom Aleixo Corte-Real (1886-1943), que foram entregues à Casa Pia

 








Fonte: Excerto da 1ª página do "Diário de Lisboa" | Número: 8409 | Ano: 26 | Data: Quinta, 25 de Abril de 1946 | Directores: Director: Joaquim Manso

(1946), "Diário de Lisboa", nº 8409, Ano 26, Quinta, 25 de Abril de 1946, Fundação Mário Soares / DRR - Documentos Ruella Ramos, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_22887 (2026-4-26)



1. Portugal, "graças a Salazar e a Nossa Senhora de Fátima", dizia-se na minha terra, quando eu era menino e moço, na catequese e na escola primária, escapara aos horrores da II Guerra Mundial... 

Só muito mais tarde é que vim a saber da imensa tragédia que se abateu sobre Timor-Leste nesse período hediondo da história da humanidade.

 Também ainda  sou do tempo em que Portugal ia do Minho...  a Timor. (Timor-Leste tem 155 referências no nosso blogue.)

O impacto da ocupação japonesa em Timor durante a II Guerra Mundial foi devastador, e infelizmente é ainda  pouco conhecido dos portugueses,  fora da historiografia especializada. (De resto, os portugueses não gostam de história.)

Recorde-se que durante a Segunda Guerra Mundial, a ilha de Timor (então dividida em duas partes, o Timor Português e o Timor Holandês) foi invadido pelo Império do Japão em no início de 1942. 

Curiosamente, antes disso, forças australianas e holandesas tinham desembarcado em Timor português, em finais de 1941, sem autorização formal de Portugal, temendo uma invasão japonesa, o que acabou por precipitar o ataque nipónico, dois meses depois,

Após a invasão, comandos australianos (a chamada “Sparrow Force”) conduziram uma guerra de guerrilha nas montanhas, com forte apoio dos timorenses. Essa colaboração teve consequências terríveis:
  • os japoneses retaliaram brutalmente contra a população civil;
  • armaram e protegeram as "famigeradas colunas negras";
  • aldeias inteiras foram destruídas;
  • houve execuções, trabalhos forçados e deslocações em massa;
  • Dili  (e o resto do território) ficou sem comunicações com Lisboa até ao fim da guerra.
As estimativas variam, mas são geralmente aceites números muito elevados: entre 40.000 e 70.000 timorenses morreram, numa população relativamente pequena. Isso representava  algo como 10% a 15% da população da época.

As causas principais estão, direta ou indiretamente, relacionadas com a invasão e ocupação japonesas: v
iolência direta (massacres e execuções); fome (colapso da agricultura e pecuária e requisições forçadas); doenças (e falta de cuidados médicos, agravada pela guerra).

A população timorense teve um papel ativo na luta contra o ocupante: muitos serviram como guias, carregadores e combatentes auxiliares; e esse apoio foi crucial para a resistência australiana, mas custou-lhes caro.

Após a rendição do Japão em 1945, no seguimento dos bombardeamentos atómicos (Hiroshima e Nagasaqui) e da derrota total do Japão,  Timor voltou ao controlo português.  

No entanto, as infraestruturas estavam devastadas; a cidade de Díli destruída; a  economia rural em colapso; a população profundamente traumatizada.

2. Memória histórica:  este episódio é hoje reconhecido como um dos maiores sacrifícios da população timorense; na Austrália, há um reconhecimento crescente da “dívida de sangue” para com Timor; em Timor-Leste, a memória da ocupação japonesa é parte integrante da identidade histórica nacional; em Portugal, houve quem acusasse o regime de Salazar de abandono dos portugueses e timorenses que lá ficaram, indefesos e incomunicáveis. E até de um "silenciamento cínico".

Haveria, porém,  uma exceção: o  caso de Dom Aleixo Corte-Real, um dos episódios mais marcantes e também mais complexos dessa época. Foi glorificado pelo Estado Novo.



Timor Leste > s/d (c. 1936/40) > O "liurai" Dom Aleixo Corte-Real (1886-1943), régulo de Ainaro e Suro, um dos heróis luso-timorenses da resistência contra os ocupantes japoneses na II Guerra Mundial.

Fotos do Arquivo de História Social > Álbum Fontoura. Imagens do domínio público, de acordo coma Wikimedia Commons.


2.1. Quem foi Dom Aleixo?

Dom Aleixo, de quem já aqui temos falado,  era liurai (régulo, chefe tradicional) de Ainaro, em Timor-Leste. O "Diário de Lisboa" chama-lhe "príncipe".

 Quando os japoneses invadiram o território durante a Segunda Guerra Mundial, ele tornou-se um dos principais líderes locais da resistência: apoiou as forças australianas na guerrilha contra o Império do Japão; mobilizou combatentes timorenses; recusou colaborar com os ocupantes.
 
Em 1943, após campanhas de repressão japonesa, Dom Aleixo foi capturado e foi executado,  de forma brutal. Grande parte da sua família também foi morta.

Este tipo de represália não era incomum: os japoneses visavam destruir redes locais de apoio à resistência. Sem dó nem piedade.

O regime português transformou Dom Aleixo numa figura heróica...  O Estado Novo apropriou-se da sua história para exaltar a lealdade dos “indígenas” ao império português, reforçar a ideia de unidade imperial, criar uma narrativa de fidelidade a Portugal.

Ou seja, ele foi apresentado como um chefe tradicional que morreu fiel à bandeira portuguesa. O que só em parte era verdade.

2.2. O outro lado da história

A historiografia mais recente tende a ver Dom Aleixo de forma mais autónoma: lutava contra uma ocupação estrangeira violenta, e não apenas “por Portugal"; a  sua liderança baseava-se em estruturas locais timorenses; a  resistência tinha motivações próprias (defesa da terra, da comunidade, da autonomia).

 O mesmo se passou, aliás, noutros territórios, já na guerra colonial:  caso dos fulas, dos manjacos, dos felupes e outros, na Guiné.

Além disso, sabe-se que muitos timorenses resistiram sem qualquer ligação direta ao poder colonial. Outros foram forçados a colaborar com os japoneses... Portan
to,  a realidade era muito mais complexa do que a narrativa oficial. 

Hoje, Dom Aleixo é lembrado como herói nacional em Timor-Leste, mas com um significado diferente: símbolo de resistência timorense; mártir da luta contra a ocupação estrangeira;  figura da identidade nacional, não apenas colonial. 
 
Não é errado dizer que houve uma  “transformação em herói” por parte do Estado Novo... mas isso foi uma reinterpretação política de uma figura cuja importância histórica é real e anterior a essa propaganda.

3. A ideia de um “silenciamento cínico” não é totalmente descabida, mas convém enquadrá-la com algum cuidado histórico.

Durante o regime do Estado Novo, a informação era fortemente controlada e a narrativa oficial sobre o império tendia a ser seletiva. No caso de Timor, houve de facto pouca visibilidade pública do que aconteceu entre 1942 e 1945.

Há várias razões, mais pragmáticas do que necessariamente conspirativas:

(i) neutralidade portuguesa na guerra:  Portugal manteve-se, como é sabido,  oficialmente neutro na Segunda Guerra Mundial, pelo que dar demasiado destaque à invasão japonesa de território português, e à presença prévia de tropas australianas sem autorização poderia expor fragilidades dessa neutralidade, e fazer perigar outras posições territoriais na Ásia (como Macau);

(ii) dois pesos, duas medidas:  Salazar é muito mais comedido na denúncia e protesto contra o ataque japonês do que contra a a invasão de holandeses e australianos;

(iii) embaraço político e militar: a  ocupação mostrou que Portugal não tinha, de facto, capacidade real de defender Timor (que ficava a 20 mil km de distância de Lisboa)  e que perdeu totalmente o controlo do território durante esses anos (1942-1945), incluindo as telecomunicações; ora, isso colidia com a imagem de um “império forte e indivisível” que a propaganda do  regime promovia;

(iv) narrativa colonial: o Estado Novo evitava dar protagonismo excessivo às populações coloniais e aos seus líderes tradicionais como agentes históricos; ora, em Timor os timorenses foram decisivos na resistência contra o ocupante nipónico, mas pagaram caro o seu amor à sua terra, á liberdade e à sua identidade; reconhecer isso plenamente implicaria admitir dependência e vulnerabilidade e... "pôr em risco a neutralidade";

(v) ce
nsura e prioridades internas; a  imprensa portuguesa era fortemente censurada, e o foco estava sobretudo na Europa e nas ilhas atlântica s; Timor era um território, remoto e periférico;   para a opinião pública metropolitana era apenas um local de desterro...

Não se pode, todavia,  falar em "silêncio total": houve relatórios oficiais, correspondência e algum reconhecimento interno. Após a guerra, Portugal retomou a administração e fez esforços (limitados, embora) de reconstrução.

Mas não houve uma grande narrativa pública ou memorialização proporcional à dimensão da tragédia.
 
Hoje, muitos historiadores consideram que houve subvalorização e apagamento relativo da tragédia de Timor, mais por conveniência política e ideológicos de do regime do que por um plano deliberado de negar os factos.

Durante décadas, o sacrifício timorense ficou pouco conhecido em Portugal até ao 25 de Abril de 1974.

4. Qual o destino dos  dois menores, órfãos, Benjamim Corte-Real e José Corte-Real, netos do Dom Aleixo Corte-Real, que  vieram para Portugal, no navio Quanza, desembarcaram em Lisboa em 25/4/1946, e foram entregues à Casa Pia ?  

O destino posterior dos dois netos de Dom Aleixo Corte-Real é muito menos claro e mal documentado. Não há um registo público amplamente divulgado ou consensual sobre o percurso completo das suas vidas adultas. Algumas investigações e relatos indicam que terão sido educados em Portugal continental,  podendo ter sido integrados na sociedade portuguesa ou regressado à sua terra natal, quando atingiram a maioridade.

Mas os detalhes (profissões, regresso ou não a Timor, descendência, etc.) não estão bem estabelecidos na historiografia acessível.

Por que é tão difícil saber mais? Há várias razões:

(i) arquivos dispersos ou pouco estudados: registos da Casa Pia de Lisboa e da administração colonial nem sempre estão totalmente investigados ou cruzados;

(ii) invisibilidade social: ao contrário da figura de Dom Aleixo, os netos não foram figuras públicas, não entraram na narrativa oficial com o mesmo destaque, embora tivessem nomes portugueses;

(iii) descontinuidade histórica: o próprio passado colonial de Portugal só começou a ser mais profundamente estudado após o 25 de Abril, e muitos casos individuais ficaram por reconstruir.

PS - Há um linguista, professor doutor Benjamim de Araújo e Corte-Real (mais conhecido como Benjamim Corte-Real),  nascido em 1961, que pode ser desta família. Mas não temos mais informação, a não ser a que vem na sua entrada na Wikipedia. Foi o primeiro reitor, eleito em 2001, da UNTL - Universidade Nacional de Timor Lorosa'e.

Embora tenha feito os estudos superiores na Austrália (mestradoo e doutoramento), tem-se empenhado na "prossecução de uma política linguística que salvaguarde a cultura e identidade nacional timorense, através da promoção das duas línguas oficiais, português e tétum, contra correntes alienantes incentivadas por interesses estrangeiros".

(Investigação: LG + ChatGPT)
(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos: LG)
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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27724: Foi há... ( 9): 57 anos: a retirada de Madina do Boé, vista pelo fotógrafo Hélio Felgas, na altura, cor inf, cmdt da Op Mabecos Bravios e do Cmd Agrupamento 2957 (Bafatá, 1968/70) - II (e última) Parte


Foto nº 2 > Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Boé > Madina do Boé > c. 4/5 de fevereiro de 1969 >  Op Mabecos Bravios: apoio da FAP, na retirada do aquartelamento de Madina do Boé,  guarnecido pela CCAÇ 1790 (Madina do Boé, 1967/69) > Manobra de diversão, com os helis a simular a largada de tropas paraquedistas nas colinas que ladeavam o aquartelamento de Madina.

(...) "Fui para Madina na manhã da véspera do dia D. [ O dia D era 1 de fevereiro de 1969. ] Comigo foram 5 helicópteros pois eu queria executar com eles uma operação de diversão que consistia e, por duas ou três vezes, enviar os helis (vazios) para os locais de onde o PAIGC costumava bombardear o aquartelamento. Dava assim a ilusão de que estava colocando forças nesses locais, em emboscada.

A medida deve ter resultado pois nessa noite não houve bombardeamento a Madina.

Foi em completa calma que a complexa coluna auto se formou, com a parte dianteira já na estrada do Cheche.

Ao amanhecer iniciou-se o movimento com as viaturas e respectivos reboques completamente carregados e a grande maioria dos homens a pé.

Como era costume eu seguia à frente com o meu guarda-costas e o homem do posto-rádio. Só os picadores nos precediam, picando cuidadosamente a estrada com compridos ferros pontiagudos. E excelente trabalho fizeram pois nenhuma mina rebentou embora tenham sido levantadas 12 ou 14. (...)" (*)
 

Foto nº 3 > Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Boé > Madina do Boé > s/d      Não temos a certeza de a foto ter sido tirada na altura da retirada de Madina do Boé. Se sim, terá sido a última missa celebrada neste histórico aquartelamento.

No livro da CECA sobre a atividade operacional no período que vai de 1967 a 1970, pág.  353, a legendagem da foto, sem data, diz o seguinte: "CCaç 1790: missa em Madina do Boé celebrada pelo Capelão-Mor das FA, brig Reis Rodrigues"

Fonte: CECA - Comissão para Estudo das Campanhas de África: Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974) : 6.º Volume - Aspectos da Actividade Operacional: Tomo II - Guiné - Livro I (1.ª edição, Lisboa, Estado Maior do Exército, 2014), pág. 353.

O celebrante era, pois, António dos Reis Rodrigues (1918-2009), um dos homens mais influentes da hierarquia eclesiástica de então: 
  • assistente eclesiástico da Juventude Universitária Católica (JUC) (1947-1965);
  • capelão (desde 1947) e professor da Academia Militar (onde leccionava Deontologia Militar e Ética);
  • procurador da Câmara Corporativa, na VIII Legislatura (1961/65), como representante  da Igreja Católica;
  • responsável pelo programa religioso da RTP (até 1966);
  • nomeado em 1966 bispo auxiliar de Lisboa, sob o título de Bispo de Madarsuma, com as funções de Capelão-mor das Forças Armadas (1967-1975);
  • diretor da revista Flama;
  • temos uma foto com ele a dizer missa em Gandembel, no Natal de 1968.


Foto nº 4 > Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Boé > Madina do Boé > c. 5  de fevereiro de 1969 >  Op Mabecos Bravios: retirada do aquartelamento de Madina do Boé, guarnecido pela CCAÇ 1790 (Madina do Boé, 1967/69) > Homens e material prontos para deixar a mítica Madina do Boé, numa coluna de mais de meia centena de viaturas.


Foto nº 5 > Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Boé > Madina do Boé > s/d  >  A foto não deve ter sido tirada no decurso da Op Mabecos Bravios (retirada do aquartelamento de Madina do Boe, guarnecido pela CCAÇ 1790, Madina do Boé, 1967/69) > São momentos dramáticos depois da deflagração de uma mina A/C  na estrada Cheche - Madina do Boé... 

Pelo contrário, deve ter tirada em colunas anteriores. de abastecimento a Madina do Boé (e por mês, na época seca).  Não temos notícia de deflagração de minas, A/C ou A/O, no decurso da Op Mabecos Bravios (de 2 a 7 de fevereiro de 1969). O cor Hélio Felgas já visitara antes Madina do Boé, e pernoitara lá, inclusive. (*) 


1. São fotos, históricas, do  comandante da Op Mabecos Bravios,
 o então cor inf Hélio [Augusto Esteves ] Felgas (1920-2008) (foto à direita).

Reproduzidas com a devida vénia de Camões - Revista de Letras e Culturas Lusófonas, nº 5,  abril-junho 1999, pp- 8-15 (publicação editada pelo Instituto Camões; o nº 5, temático, foi dedicado ao "25 de Abril, revolução dos cravos").

Vêm inseridas num artigo do jornalista e escritor José Manuel Saraiva, "Excertos de Guerra", pp. 8-15, na citado número da revista Camões. (Seria mais tarde o autor do documentário, de longa metragem, que passou na SIC, em 2009, Madina do Boé - A retirada e em que, ainda antes de morrer, participou o Hélio Felgas)
 
Já publicámos anteriormente a primeira, nos pareceu merecer maior destaque (*P). Publicamos hoje as restantes fotos (4 das 5),  tiradas pelo então cor inf Hélio Felgas, comandante do Agrupamento 2957 (Bafatá, 1968/70)  e comandante da Op Mabecos Bravios (retirada de Madina do Boé, 2 a 7 de fevereiro de 1969).

Ficamos a saber que o  major-general Hélio Felgas era também um fotógrafo, amador,  de grande talento, sensibilidade e qualidade. 

Redescobri, há 10 anos atrás,  esta e outras fotos  num artigo do jornalista (antigo combatente no CTIG)  José Manuel Saraiva. A quem devemos estar  gratos por  ter sido um dos primeiros a atirar uma pedrada no charco do "silêncio" (e "silenciamento"...) a que foi votada a guerra colonial depois do 25 de Abril como tema de partilha de memórias e debate. Não foi o primeiro... Muito antes dele, uma década antes, o jornalista Afonso Praça levou a cabo uma iniciativa inédita, arrojada, contra a corrente e até contra os interesses do jornal onde trabalhava... 

Em boa verdade, foi o audoso jornalista e escritor Afonso Praça (Torre de Moncorvo, 1939 - Lisboa, 2011) (ele próprio antigo combatente em Angola) quem criou no iníco dos anos 80 uma secção semanal (ou um suplemento) que ocupava duas páginas, ilustradas, justamente intitulada "Memórias da Guerra Colonial", no extinto semanário "O Jornal", consideradpo próximo do Grupo dos Nove. Ainda existia o Conselho da Revolução (14 de março de 1975- 30 de setembro de 1982). 

Colaborei, entusiástica e regularmente, com o Afonso Praça, no desenvolvimento e manutenção desta iniciativa pioneira a que começaram a aderir diversos antigos combatentes.  Publicou-se uma dúzia de edições (durante perto de três meses, tenho que confirmar). 

Houve, entretanto,  pressões para acabar com a secção, confidencipou-me o Afonso Praça. Teriam vindo de alguém, com muito poder, do Conselho da Revolução ( nessa altura, o presidente deste órgão,k que tutelava a nossa democracia, era o gen Ramalho Eanes).

 Prometo voltar ao assunto, um dia destes. Mas foi aí, talvez, que começou o princípio da "democratização" da(s) memória(s) da guerra colonial... e que nasceu,  no meu caso, o "bichinho" da Guiné...

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domingo, 8 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27714: Foi há... ( 8): 57 anos: a retirada de Madina do Boé, vista pelo fotógrafo Hélio Felgas, na altura, cor inf, cmdt da Op Mabecos Bravios e do Cmd Agruupamento 2957 (Bafatá, 1968/70) - Parte I








Foto nº 1 > Guiné > Região do Boé > Rio Corubal > Cheche > 6 de fevereiro de 1969 > A famigerada jangada que servia para transporte de tropas e material, numa  das últimas travessias, aquando da retirada de Madina do Boé. A foto é de Hélio Felgas, cmdt da Op Mabecos Bravios (2-7 de fevereiro de 1967), que a deve ter cedido ao jornalista José Manuel Saraiva. Tomamos a liberdade de a voltar reproduzir, reeditada. É uma das imagens, tragicamente belas,  que ficam para a história.


1. A foto, histórica, é do  comandante da Op Mabecos Bravios, o então cor inf Hélio [Augusto Esteves ] Felgas (1920-2008). Reproduzida com a devida vénia de Camões - Revista de Letras e Culturas Lusófonas, nº 5,  abril-junho 1999, pág. 15 (publicação editada pelo Instituto Camões; o nº 5, temático, foi dedicado ao "25 de Abril, revolução dos cravos").

Esta e outras notáveis imagens vêm inseridas num artigo de José Manuel Saraiva, "Excertos de Guerra", pp. 8-15, na citado número da revista Camões.

O seu a seu dono...  Tem andado por aí, nas redes sociais, na Net, aos trambolhões, e até na comunicação social, sem a  atribuição dos devidos créditos fotográficos.

É umas das cinco fotos extraordinárias, tiradas pelo então cor inf Hélio Felgas, comandante do Agrupamento 2957 (Bafatá, 1968/70)  e comandante da Op Mabecos Bravios (retirada de Madina do Boé, 2 a 7 de fevereiro de 1969).

Ficamos a saber que o  major-general Hélio Felgas (cujo nome, infeliz,mente,  ficará para sempre associado ao desastre do Cheche) era também um fotógrafo de grande sensibilidade e qualidade. Redescobri, há 10 anos atrás,  esta e outras fotos  num artigo do jornalista José Manuel Saraivas (*). A quem agradeço o ter sido um dos primeiros  a insurgir-se contra o "silêncio" a que foi votada a guerra colonial depois do 25 de Abril., como se pode ler neste excerto:






Julgo que estas imagens fazem agora parte do Arquivo Histórico-Militar. O seu autor morreu em 2008 e a família deve ter doado o seu espólio fotográfico e documental ao AHM. No entanto, estas cinco fotos, que vamos reproduzir neste e em próximo poste, devem ter sido cedidas ao jornalista (e nosso camarada, foi combatente na Guiné) José Manuel Saraiva (n. 1946, Oliveira do Hospital; foi o autor de "Madina do Boé—A Retirada" e "De Guilege a Gadamael—O corredor da morte", documentários produzidos pela SIC sobre a guerra colonial no CTIG).

O major-general Hélio Felgas foi militar, escritor e professor da Academia Militar. As suas qualidades  como militar e português foram reconhecidas com as medalhas de ouro de Serviços Distintos com Palma, Cruz de Guerra (1ª e 3ª classes) e o grau de Cavaleiro da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito (atribuído em 1970).

É pena que não termos acesso às fotografias originais. As imagens que aqui reproduzimos, com a devida vénia, são da revista Camões, em formato pdf.  (Infelizmente, o pdf com aquele número temático já não está disponível "on line": mas o leitor mais curoioso, exigente e persistente poderá encontrá-lo,. em arquivo morto, no Arquivo.pt, basta carregar neste link.)

São também a nossa maneira, singela,  de relembrar aqui esse fatídico dia 6/2/1969, em que morreram 46 militares portugueses, nossos camaradas da CCAÇ 2405 e CCAÇ 1790, além de um civil guineense, na travessia do Rio Corubal, em Cheche, na retirada de Madina do Boé. (**)  (LG)
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Notas do editor LG:

(*) José Manuel Saraiva nasceu na aldeia de Santo António de Alva, Oliveira do Hopsital estudou em Coimbra e fez a guerra na Guiné. Dedicou a sua vida profissional ao jornalismo. É autor e produtor executivo de dois documentários televisos sobre a Guerra Colonial na Guiné.  E em 2001 publicou a sua primeira obra de ficção, "As Lágrimas de Aquiles". Seguiram-se os romances "Rosa Brava", "A Terra Toda", "A Última Carta de Carlota Joaquina", "O Bom Alemão" e "A Embaixada", que o consagraram como um dos mais conceituados autores portugueses.

(*) Último poste da série > 6 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27707: Foi há... (7): 57 anos, o desastre do Cheche, na retirada de Madina do Boé (Op Mabecos Bravios, 6/2/1969)... Só em 19 foi decidido realizar uma operação com fuzileiros especiais e mergulhadores-sapadores da Armada para resgatar os corpos... O brigadeiro António Spínola fez questão de estar presente pessoalmente, com um capelão e coroas de flores com a frase "A Pátria agradecida"