
Fonte: Excerto da 1ª página do "Diário de Lisboa" | Número: 8409 | Ano: 26 | Data: Quinta, 25 de Abril de 1946 | Directores: Director: Joaquim Manso
(1946), "Diário de Lisboa", nº 8409, Ano 26, Quinta, 25 de Abril de 1946, Fundação Mário Soares / DRR - Documentos Ruella Ramos, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_22887 (2026-4-26)
1. Portugal, "graças a Salazar e a Nossa Senhora de Fátima", dizia-se na minha terra, quando eu era menino e moço, na catequese e na escola primária, escapara aos horrores da II Guerra Mundial...
O impacto da ocupação japonesa em Timor durante a II Guerra Mundial foi devastador, e infelizmente é ainda pouco conhecido dos portugueses, fora da historiografia especializada. (De resto, os portugueses não gostam de história.)
Recorde-se que durante a Segunda Guerra Mundial, a ilha de Timor (então dividida em duas partes, o Timor Português e o Timor Holandês) foi invadido pelo Império do Japão em no início de 1942.
Após a invasão, comandos australianos (a chamada “Sparrow Force”) conduziram uma guerra de guerrilha nas montanhas, com forte apoio dos timorenses. Essa colaboração teve consequências terríveis:
- os japoneses retaliaram brutalmente contra a população civil;
- armaram e protegeram as "famigeradas colunas negras";
- aldeias inteiras foram destruídas;
- houve execuções, trabalhos forçados e deslocações em massa;
- Dili (e o resto do território) ficou sem comunicações com Lisboa até ao fim da guerra.
As causas principais estão, direta ou indiretamente, relacionadas com a invasão e ocupação japonesas: violência direta (massacres e execuções); fome (colapso da agricultura e pecuária e requisições forçadas); doenças (e falta de cuidados médicos, agravada pela guerra).
Após a rendição do Japão em 1945, no seguimento dos bombardeamentos atómicos (Hiroshima e Nagasaqui) e da derrota total do Japão, Timor voltou ao controlo português.
Haveria, porém, uma exceção: o caso de Dom Aleixo Corte-Real, um dos episódios mais marcantes e também mais complexos dessa época. Foi glorificado pelo Estado Novo.
Timor Leste > s/d (c. 1936/40) > O "liurai" Dom Aleixo Corte-Real (1886-1943), régulo de Ainaro e Suro, um dos heróis luso-timorenses da resistência contra os ocupantes japoneses na II Guerra Mundial.
Dom Aleixo, de quem já aqui temos falado, era liurai (régulo, chefe tradicional) de Ainaro, em Timor-Leste. O "Diário de Lisboa" chama-lhe "príncipe".
Em 1943, após campanhas de repressão japonesa, Dom Aleixo foi capturado e foi executado, de forma brutal. Grande parte da sua família também foi morta.
Este tipo de represália não era incomum: os japoneses visavam destruir redes locais de apoio à resistência. Sem dó nem piedade.
Ou seja, ele foi apresentado como um chefe tradicional que morreu fiel à bandeira portuguesa. O que só em parte era verdade.
A historiografia mais recente tende a ver Dom Aleixo de forma mais autónoma: lutava contra uma ocupação estrangeira violenta, e não apenas “por Portugal"; a sua liderança baseava-se em estruturas locais timorenses; a resistência tinha motivações próprias (defesa da terra, da comunidade, da autonomia).
Além disso, sabe-se que muitos timorenses resistiram sem qualquer ligação direta ao poder colonial. Outros foram forçados a colaborar com os japoneses... Portanto, a realidade era muito mais complexa do que a narrativa oficial.
Não é errado dizer que houve uma “transformação em herói” por parte do Estado Novo... mas isso foi uma reinterpretação política de uma figura cuja importância histórica é real e anterior a essa propaganda.
3. A ideia de um “silenciamento cínico” não é totalmente descabida, mas convém enquadrá-la com algum cuidado histórico.
Durante o regime do Estado Novo, a informação era fortemente controlada e a narrativa oficial sobre o império tendia a ser seletiva. No caso de Timor, houve de facto pouca visibilidade pública do que aconteceu entre 1942 e 1945.
(i) neutralidade portuguesa na guerra: Portugal manteve-se, como é sabido, oficialmente neutro na Segunda Guerra Mundial, pelo que dar demasiado destaque à invasão japonesa de território português, e à presença prévia de tropas australianas sem autorização poderia expor fragilidades dessa neutralidade, e fazer perigar outras posições territoriais na Ásia (como Macau);
(iii) embaraço político e militar: a ocupação mostrou que Portugal não tinha, de facto, capacidade real de defender Timor (que ficava a 20 mil km de distância de Lisboa) e que perdeu totalmente o controlo do território durante esses anos (1942-1945), incluindo as telecomunicações; ora, isso colidia com a imagem de um “império forte e indivisível” que a propaganda do regime promovia;
(iv) narrativa colonial: o Estado Novo evitava dar protagonismo excessivo às populações coloniais e aos seus líderes tradicionais como agentes históricos; ora, em Timor os timorenses foram decisivos na resistência contra o ocupante nipónico, mas pagaram caro o seu amor à sua terra, á liberdade e à sua identidade; reconhecer isso plenamente implicaria admitir dependência e vulnerabilidade e... "pôr em risco a neutralidade";
(v) censura e prioridades internas; a imprensa portuguesa era fortemente censurada, e o foco estava sobretudo na Europa e nas ilhas atlântica s; Timor era um território, remoto e periférico; para a opinião pública metropolitana era apenas um local de desterro...
Não se pode, todavia, falar em "silêncio total": houve relatórios oficiais, correspondência e algum reconhecimento interno. Após a guerra, Portugal retomou a administração e fez esforços (limitados, embora) de reconstrução.
Mas não houve uma grande narrativa pública ou memorialização proporcional à dimensão da tragédia.
Hoje, muitos historiadores consideram que houve subvalorização e apagamento relativo da tragédia de Timor, mais por conveniência política e ideológicos de do regime do que por um plano deliberado de negar os factos.
Durante décadas, o sacrifício timorense ficou pouco conhecido em Portugal até ao 25 de Abril de 1974.
4. Qual o destino dos dois menores, órfãos, Benjamim Corte-Real e José Corte-Real, netos do Dom Aleixo Corte-Real, que vieram para Portugal, no navio Quanza, desembarcaram em Lisboa em 25/4/1946, e foram entregues à Casa Pia ?
O destino posterior dos dois netos de Dom Aleixo Corte-Real é muito menos claro e mal documentado. Não há um registo público amplamente divulgado ou consensual sobre o percurso completo das suas vidas adultas. Algumas investigações e relatos indicam que terão sido educados em Portugal continental, podendo ter sido integrados na sociedade portuguesa ou regressado à sua terra natal, quando atingiram a maioridade.
Mas os detalhes (profissões, regresso ou não a Timor, descendência, etc.) não estão bem estabelecidos na historiografia acessível.
(i) arquivos dispersos ou pouco estudados: registos da Casa Pia de Lisboa e da administração colonial nem sempre estão totalmente investigados ou cruzados;
(ii) invisibilidade social: ao contrário da figura de Dom Aleixo, os netos não foram figuras públicas, não entraram na narrativa oficial com o mesmo destaque, embora tivessem nomes portugueses;
(iii) descontinuidade histórica: o próprio passado colonial de Portugal só começou a ser mais profundamente estudado após o 25 de Abril, e muitos casos individuais ficaram por reconstruir.
Embora tenha feito os estudos superiores na Austrália (mestradoo e doutoramento), tem-se empenhado na "prossecução de uma política linguística que salvaguarde a cultura e identidade nacional timorense, através da promoção das duas línguas oficiais, português e tétum, contra correntes alienantes incentivadas por interesses estrangeiros".
Último poste da série > 11 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27724: Foi há... ( 9): 57 anos: a retirada de Madina do Boé, vista pelo fotógrafo Hélio Felgas, na altura, cor inf, cmdt da Op Mabecos Bravios e do Cmd Agrupamento 2957 (Bafatá, 1968/70) - II (e última) Parte




































