sábado, 10 de outubro de 2020

Guiné 61/74 - P21438: Os nossos seres, saberes e lazeres (415): No Alto Minho, lancei âncora na Ribeira Lima (10) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 23 de Abril de 2020:

Queridos amigos,
Vir a Viana e não visitar Santa Luzia é como ir a Roma e não ver o Papa. Os comentários sobre o templo gigantesco que o arquiteto Ventura Terra traçou naquele monte sacro que permite uma das mais deslumbrantes panorâmicas que a Natureza permite, nem sempre são lisonjeiros, e aqui se cita José Hermano Saraiva que acha que lhe falta alma. Daqui a um século falamos. Também se disse cobras e lagartos do neomanuelino e do neogótico e veja-se como o Palácio da Pena e a Quinta da Regaleira se transformaram em poderosíssimas atrações turísticas. O tempo urge, toma-se novamente o funicular, depois da lavagem de alma que aquela vista purificada propiciou, e desce-se, sem perda de tempo, para desfrutar o património da Misericórdia de Viana do Castelo, não há que enganar, a igreja, a sua riqueza azulejar, a decoração do teto, a aparato das talhas, as pinturas, o esplendor do órgão, é uma unidade que dá pelo termo da magnificência do Barroco, é incomparável, a sua visita é obrigatória. E depois aproveita-se o remanescente da luz do dia para ir à Viana moderna, a última etapa neste lugar onde a Ribeira Lima entra no Atlântico.

Um abraço do
Mário


No Alto Minho, lancei âncora na Ribeira Lima (10)

Mário Beja Santos

José Hermano Saraiva, no primeiro volume de O Tempo e a Alma, Círculo de Leitores, 1986, depois de se ter debruçado sobre os monumentos notáveis de Viana e antes de anotar o que era a Viana moderna, fala do Monte de Santa Luzia, dizendo o seguinte: “Ali, o mais notável é o miradouro, vista emocionante. Foi a vista que atraiu o santuário, o hotel, o elevador. O tema é inevitável perante estes monumentos modernos: gosta, não gosta, e a negativa é a resposta mais fácil. O projeto do santuário é do arquitecto Ventura Terra, e as obras foram realizadas entre 1890 e 1930, embora depois disso se tivesse ainda trabalhado muito. Anteriormente, tudo o que havia era uma capela, onde se chegava por uma tortuosa vereda entre mato cerrado. O arquitecto planeou conforme o gosto do seu tempo: uma igreja que combina elementos tradicionais numa mescla revivalista a que se chamava estilo românico-bizantino. As dimensões são impressionantes para a parcimónia portuguesa; as cúpulas e as rosáceas aspiram deliberadamente à escala monumental, mas o conjunto parece mais um grande jazigo do que uma alegre casa de Deus. Algo falta. Os arquitectos medievais dispunham de um ingrediente essencial para conferir autenticidade e emoção aos edifícios que planeavam: um forte sentimento religioso. A régua de cálculo não tem esse valor, e não sei se o computador o sabe encontrar. Em todo o caso, a importância relativa da basílica revela que Viana não parou e que não se envergonha da contemporaneidade”. É um texto um tanto agridoce, uma no cravo, outra na ferradura. Viajar no funicular é entusiasmante, com aquele cruzamento com a composição que desce, é também assim com os ascensores de Lisboa. Trepam-se os degraus e aguarda-nos um dos cenários mais desafogados com que a Natureza nos privilegiou.
Santa Luzia e o funicular fazem parte da proposta das visitas obrigatórias em Viana. O monumento dá pelo nome de Templo do Sagrado Coração de Jesus. Quem subir ao zimbório tem à sua disposição uma paisagem incomparável. No seu exterior podem ver-se várias peças graníticas da primitiva capela, pedras de um arco de 1694; capitéis e instrumentos usados na construção. Ninguém deve fugir à viagem pelo funicular, mesmo que se possa ir de carro facilmente. É a mais longa viagem de todos os funiculares do país, com os seus 650 metros. Quem já teve oportunidade de em Paris visitar o Sacré-Coeur, de onde aliás se tem uma vista soberba sobre a cidade, encontra similitude com este gigantismo, e até nas afinidades decorativas. Dizer-lhe que falta alma, como acima observou José Hermano Saraiva, é um tanto excessivo, é uma outra abordagem da espiritualidade, basta olhar atentamente para a pintura da cúpula e lembrar o que Almada Negreiros, numa dimensão mais modernista, deixou na Igreja de Nossa Senhora de Fátima em Lisboa.
De seguida, apresento uma sucessão de imagens captadas neste miradouro de Viana e no seu monte sagrado. Não há nada que se compare em panoramas de mar, de campo e cidade, de rio e de montanhas. Carlos Ferreira de Almeida, no seu livro sobre o Alto Minho, escreve: “Lá muito em baixo vêem-se os telhados cúbicos da cidade, as docas e o mar azul, contornando de espuma a praia longa. Lá no fundo há um rio adormecido entre veigas e ínsuas, e, ao lado, o anfiteatro das montanhas com os seus aldeamentos. Daqui podemos mirar grande parte das freguesias que o concelho de Viana tem”. Tempo houvesse, e metia-me ao caminho, para vasculhar estes arrabaldes de Viana: visitar Areosa e Carreço, e depois Afife, gostava de ver o antigo casino remodelado, e nunca fiquei indiferente aos aspetos agrestes da Serra d’Arga. Duvido ter condições quando se fizer o trajeto de Viana para Ponte de Lima poder parar nas freguesias, já não haverá com certeza luz do dia, quantas vezes, a ler a Carlos Miguel de Abreu de Lima de Araújo o Aurora do Lima se falava em Cardielos, Lanheses, São Romão de Neiva, que deu aso a que ele me explicasse o trabalho dos sargaceiros, do mesmo modo como ele me contava o que há de empolgante no Auto da Floripes. O que não se vê hoje, ficará para a próxima.
É a meditar nos trajes à vianesa, no ouro disposto nas ourivesarias, na magnificências das perspetivas que Santa Luzia oferece que regresso à cidade, saio do funicular e embrenho-me nas ruas até à Praça da República, vou visitar a Misericórdia e o seu conceituado anexo, uma igreja que é monumento nacional, uma Misericórdia, cuja confraria apareceu em 1520 e que nos legou um património fabuloso e que contrasta, pela exuberância, com a severidade da fachada tardo-medieval dos velhos Paços do Concelho.

(continua)
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Notas do editor

Vd poste de 3 de outubro de 2020 > Guiné 61/74 - P21412: Os nossos seres, saberes e lazeres (413): No Alto Minho, lancei âncora na Ribeira Lima (9) (Mário Beja Santos)

Último poste da série de 6 de outubro de 2020 > Guiné 61/74 - P21424: Os nossos seres, saberes e lazeres (414): Adão Cruz expõe as suas pinturas na Taberna do Doutor - Rua da Firmeza, Porto

Guiné 61/74 - P21437: Fotos à procura de... uma legenda (127): Levantamento de um campo de minas A/P: chão felupe, setembro de 1974, uma notável sequência fotográfica do António Inverno (ex-alf mil Op Esp / Ranger, 1º e 2ª CART / BART 6522 e Pel Caç Nat 60, São Domingos, 1972/74)



Foto nº 1


Foto nº 2


Foto nº 3


Foto nº 4



Foto nº 5


Foto nº 6



Foto nº 7

Guiné > Região do Cacheu > Chão felupe > 1974 > BART 6522/72 (1972/74)


Fotos (e legendas):  © António Inverno (2010). Todos os direitos reservados.[Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. A propósito do Poste P21435 (*), achámos oportuno voltar a reproduzir uma notável sequência fotográfica de uma "desminagem", feita pela nosso camarada António Inverno (ex-alf mil Op Esp/Ranger, 1.ª e 2.ª CART / BART 6522 e Pel Caç Nat 60 (S. Domingos, 1972/74). As imagens foram hoje reeditadas e melhoradas. Não sabemos quem foi o fotógrafo, que também correu riscos: talvez tenha sido o fur mil Ferreira, que integrava o pequeno grupo de sapadores...

O poste P7480 (**)  tem já quase dez anos, e na altura não se pode dizer que tenha passado despercebido, uma vez que tem até agora cerca de 370 visualizações, mas sem qualquer comentário. Esperamos que desta vez os nossos leitores sejam mais generosos...


(...) A seguir anexo uma sequência de fotos de uma desminagem, efectuada por mim num campo de minas anti-pessoal, que eu havia montado numa zona descampada e que servia de protecção estratégica contra eventuais infiltrações do IN, por aquela parcela de terreno entre S. Domingos e Susana.

A instalação do dispositivo foi concretizada seguindo os habituais ensinamentos assimilados na instrução prática e teórica do CIOE [, Centro de Instrução de Operações Especiais].  partindo de um ponto de referência seguro e obrigatoriamente de fácil identificação no terreno, para melhor permitir, em dias futuros, também de modo perfeitamente seguro, o posterior efeito de levantamento.

A selecção de um ponto de referência único e inequívoco, e o desenho de um preciso e claro croqui, foi sempre a minha principal preocupação, pois podia dar-se o facto de não ser eu, quando necessário fazê-lo, a efectuar a sua desinstalação ou levantamento, com queiram chamar-lhe.

A instalação do campo em apreço, decorreu normalmente, mina a mina, calculando e preservando sempre o perigoso risco que representava o cumprimento rigoroso de uma missão destas.

Este sistema havia sido montado aquando da nossa chegada a Susana, em fins de 1972, e teve que ser levantado antes da nossa retirada em Setembro de 1974.

Penso que não era preciso dizer aqui que,  se a montagem foi, de algum modo, facilmente implantado no terreno, já não posso dizer o mesmo quanto ao acto de levantamento.

Quem sabe e/ou viu os efeitos físicos e psíquicos,  num ser humano, do rebentamento de uma mina anti-pessoal,  sabe do que eu falo.

Assim, lá parti para o terreno ciente que não podia errar, pois o lema que aprendera em Lamego com o monitor de Minas e Armadilhas, dizia que, com os explosivos deste género, só se podiam falhar 3 vezes: a primeira, a única e a última!

Tomadas todas as precauções e apesar da adrenalina e dos suores frios que nos causavam estes “trabalhinhos”, tudo correu bem felizmente.

Na última foto [, nº 7] podem ver um buraco com as ossadas de um pequeno animal, que morrera ao fazer detonar umas das minas.

Legendagem das fotos [, reproduzidas acima]:

"Melhor que uma excelente picagem, e tínhamos homens altamente especializados nessa matéria, era ter um detector de minas (metais)" [Foto nº 1]

"Rapidamente começamos a decobrir (eu, o fur Mil Ferreira, o sold "Castiço" e o Mulata) a primeira das piores e mais traiçoeiras assassinas da guerra" [, Foto nº 2].

"Dá-me aí uma faca se faz favor" [Foto nº 3]

"Aqui está a gaja" [Foto nº 4]

"Com cuidado... muito cuidado! ]Foto nº 5]

"Aqui está ela fora da terra, vou retirar-lhe a espoleta e pronto, já não fará mal a ninguém" [Foto nº 6]

"Esta não preciso levantá-la. Só um buraco e uns ossitos, como último sinal de que aqui acontecera uma morte." [Foto nº 7]

Um abraço, António Inverno Alf Mil Op Esp/Ramger, BART 6522/72 e Pel Caç Nat 60 (1972/74)



O António Inverno,   com a sua "inseparável AK 47,  ao fim do dia, na magnífica e sempre bela Ponta Varela".



Emblema do Batalhão de Artilharia nº 6522/72. Cortesia de Carlos Coutinho

 
Sobre o BART 6522/72 (1972 - 1974), ver a ficha de unidade.

Resumindo:

(i) mobilizado pelo  RAL 5,  Penafiel;

(ii) divisa: " Por uma Guiné Melhor":

(iii) comandante: ten cor art João Corte-Real de Araújo Pereira;

(iv) embarcou em Lisboa em 6 de dezembro de 1972, tendo desembarcado em Bissau a 13 desse mesmo mês; a  3ª Companhia embarcou por fases, via aérea, entre 7 e 15 de dezembro de 1972;

(v) receber a IAO . Instrução de Aperfeiçoamento Operacional, em Bolama; 

(v) guarneceu os seguintes aquartelamentos e destacamentos:  Ingoré, São Domingos, Susana, Sedengal, Varela, Antotinha, Apilho, Gendem, Barro, Bigene, e Ganturé;

(vi) a 1ª companhia esteve em São Domingos; a 2ª em Susana e Varela; a 3ª em Ingoré e Sedengal; a CCS, em Ingoré e Antonina;

(viii) coube-lhes já na retração, a desativação e entrega de diversos aquartelamentos e destacamentos ao PAIGC;

(ix) regressaram para Bissau, de onde embarcaram a 30 de agosto e 3 de setembro de 1974

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Guiné 61/74 - P21436: Parabéns a você (1878): Manuel Resende, ex-Alf Mil Art da CCAÇ 2585 (Guiné, 1969/71)

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Nota do editor

Último poste da série de 9 de Outubro de 2020 > Guiné 61/74 - P21432: Parabéns a você (1877): José Carmino Azevedo, ex-Soldado CAR do BCAV 2868 (Guiné, 1969/71) e Manuel Barros Castro, ex-Fur Mil Enfermeiro da CCAÇ 414 (Guiné e Cabo Verde, 1963/65)

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Guiné 61/74 - P21435: Fotos à procura de... uma legenda (126): O sapador só se engana três vezes: a primeira, a única e a última (António J. Pereira da Costa)


Guiné > Região de Quínara > São João  > CCAÇ 423 (1963/65) > c. 1964 >  O fur mil Arménio Dias de Almeida a levantar uma mina A/C... Será morto, por ferimentos em combate (, não sabemos em que circunstâncias), na zona de São João- Nova Sintra, em 9 de janeiro de 1964. Estas podem ser das últimas fotos dele, na estrada Nova Sintra-Fulacunda.


Fotos (e legenda): © Gonçalo Inocentes (2020) Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

1. Comentário do nosso camarada António J- Pereira da Costa, cor art ref (*):

Isto é um bocado o jogo do gato e do rato. Só as minas metálicas , como é o caso da que figura nas fotos é detectável com o detector. Ouve-se um ruído constante nos ouvidos que aumenta logo que surja o campo magnético criado pela mina.

As minas de madeira de fabrico soviético ou as de plástico de fabrico na Itália ou nos "países de Leste" não são detectáveis pelo detector.

O método da "pica" passou a ser o único que funcionava quer fossem minas A/P ou A/C e era necessário que não se fizesse muita força ao carregar no solo. Ouvia-se também um som cavo e o terreno era "mais dura" uma vez que não permitia a penetração da ponta da pica.

Chamo a atenção para a utilização de uma pá  [4] para afastar a terra à volta da mina. É um erro técnico uma vez que algumas (todas as) minas [1] era armadilháveis e funcionariam logo que removidas - lembro o caso do Cap Guimarães (CArt 1690)- e podiam matar quem estivesse próximo.

Os ingleses sempre defenderam o princípio "uma mina, um homem" para evitar que a explosão atingisse mais de um combatente, pois nesse caso a mina não seria mais eficaz do que um simples tiro de espingarda...

Por fim, lembro que as minas A/C de madeira também podiam ser postas a funcionar como A/P, com umas pequenas alterações que qualquer sapador conhece.

Há mais dois erros técnicos na acção do sapador: tem as mangas para baixo [3]  e não parece estar numa posição estável [2]. 

As mangas bem arregaçadas destinam-se a sentir um eventual arame de tropeçar que o "insidioso" ali tenha colocado.

A posição do sapador tem de ser estável para que, inadvertidamente, não se desequilibre e faça um movimento errado para com a própria mina ou nas suas proximidades que também podem estar armadilhadas. Agachado, nunca! Magoou-se assim um M/A na CArt 1692.

Aconselha-se a trabalhar apoiado no quadrilátero definido pelos pés e joelhos.

O sapador só se engana 3 vezes: a primeira, a única e a última.

Claro que estamos a falar do início da guerra em que a malha das unidades era pouco densa e a nossa experiência no assunto não era grande. Estávamos a aprender por dedução e experiência e isso é sempre um período muito doloroso.

2. Comentário do editor LG:

Não sabemos se o fur mil Arménio Dias de Almeida era sapador, mas devia ter pelo menos o curso de MA [Minas e Armadilhas]. Acrescente-se às pertinentes observações do nosso Tó Zé, mais o seguinte: o quico em cima dos olhos [6] também não era boa ideia, tal como o cinturão com as cartucheiras [5].

Sempre vimos os nossos camaradas que levantavam minas, trabalhar com a faca de mato..., rentes ao chão,  deitados de bruços. Mas temos no nosso blogue outros especialistas, a começar pelo nosso coeditor Carlos Vinhal,  que podem comentar com autoridade estas fotos, e enriquecer a(s) legenda(s). (**)

(**) Último poste da série >  20 de setembro de 2020 > Guiné 61/74 - P21377: Fotos à procura de... uma legenda (125): a borboleta Almirante-vermelho europeu (Vanessa atalanta)...que, para fugir do frio, chega a percorrer distâncias até 2 mil quilómetros

Guiné 61/74 - P21434: Esboços para um romance - II (Mário Beja Santos): Rua do Eclipse (22): A funda que arremessa para o fundo da memória

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 5 de Outubro de 2020:

Queridos amigos,
Paulo Guilherme vai arrumando as suas memórias da Guiné, tem ainda fotografias, foi recolhendo ao longo dos anos correspondência avulsa, metodicamente envia a Annette episódios que ele classifica como mais relevantes, mês a mês, estamos em janeiro de 1969. Aqui e acolá, manda a efabulação dos acontecimentos, surgem lacunas, é o caso do Natal de Missirá de 1968, marcou-o profundamente aquela festa, irrepetível pelo que ele conseguiu arregimentar de ajudas, ninguém se negou enviar-lhe as vitualhas da Consoada, houve cabrito para a população, pão fresco, arroz feito à moda portuguesa, com base em cebola frita, alho e calda de tomate, um regalo. Mas Paulo quis contar pessoalmente a Annette as alegrias daqueles momentos, perdeu-se esse episódio o que ganhou a comunicação destes cinquentões arrulhados. O que é mais surpreendente é como Annette vai gravando na sua própria pele o passado remoto do seu amoroso, ela própria estuda a História de Portugal, vive eufórica à espera da chegada de Paulo, nunca o presente foi tão intenso à custa da descoberta de um passado, para ela totalmente improvável, um ano antes. Assim se vai fundamentando o milagre da Rua do Eclipse, para aqui converge uma clamorosa paixão, aqui aportam documentos de uma guerra que ocorreu num pequeno ponto da chamada Alta Guiné, aqui se configura e molda o futuro promissor de dois amantes que aproveitaram um acaso para ressuscitar as suas vidas.

Um abraço do
Mário


Esboços para um romance – II (Mário Beja Santos):
Rua do Eclipse (22): A funda que arremessa para o fundo da memória


Mário Beja Santos

Mon amoureux, Estou felicíssima porque tu chegas dentro de dois dias, felizmente que as minhas reuniões fora de Bruxelas coincidem com a tua vinda, terei reuniões em Lille, amanhã, e em Eindhoven logo a seguir, sigo diretamente de Lille para lá, a reunião acaba por volta das quatro horas, estarei em Zavantem à hora que indicas. Entretanto, vou conhecendo pormenores da tua família, quanto adorei a história da tua mãe, o falecimento da tua avó de sangue com bilharziose dois meses depois da tua mãe nascer, o teu avô entregou a sua custódia aos padrinhos de batismo. Tocou-me muito aquele pormenor de ele abrir um lenço e mostrar umas jóias que eram da tua avó Amália, seria um agradecimento, havia ainda outras duas filhas para que era preciso descobrir acolhimento e a tua nova avó respondeu-lhe: “Compadre, a partir de hoje a Gigi é nossa filha, a filha que eu não pude gerar e que vai ser a candeia dos meus olhos. Reparta essas jóias por quem vai receber a Fernanda e a Lídia, a Gigi terá a seu tempo todas as joias que os novos pais lhe puderem oferecer”. Mandaste muito mais fotografias da tua mãe, tu não sabes se estas imagens foram tiradas em Malanje, N’dalatando (Vila Salazar) ou mesmo Lucala, de que tu guardas uma bandeira em seda, datada de 13 de março de 1913 e referente à constituição da Coletividade Recreativa e Musical de Lucala, vi a fotografia, que pormenor de trabalhos na seda! Vi com a lupa que a primeira imagem é referente ao Natal de 1916, tem a tua mãe dois anos, sorridente, com um ar maroto abraçada pela sua nova mãe, por detrás da Dona Ângela, visivelmente mais velho, o Sr. Costa. Meu Deus, como era possível aquelas roupagens em clima tropical húmido! A segunda fotografia, tu não vais acreditar, pareceu-me um cenário de estúdio, como sabes melhor do que eu, os fotógrafos concebiam arranjos de estúdio espantosos com carros e aviões, cadeiras estofadas, imitações de fachadas de casas, mas estive a ver ao pormenor, acredito que a imagem foi tirada com paisagem natural, abraça a tua mãe a Tia Lucília, a irmã da tua Avó Ângela, que ternura, como a força do amor pode superar a voz do sangue. Obrigado pela lembrança, meu adorado Paulo, indo a este passado, e sabendo como tu respeitas tanto, posso perceber outras coisas que reforçam o meu sentimento por ti.

A propósito, tu perguntaste-me o que gostaria de visitar em Lisboa, nas férias do Natal. Imagina tu que fui encontrar numa das minhas estantes o catálogo de uma exposição que visitei em Antuérpia salvo erro em outubro de 1991, tinha o nome em português Feitorias, a Arte em Portugal no Tempo dos Grandes Descobrimentos (fins do século XIV até 1548), fiquei deslumbrada, até descobri elementos da História anterior à Bélgica que desconhecia completamente. Os portugueses instalaram-se primeiramente em Bruges e daqui partiram para a Antuérpia, precisavam de comerciar produtos portugueses e africanos e levar mercadorias para o comércio de escravos. Fiquei impressionada com o intercâmbio cultural que se realizou, feliz por saber que a pintura flamenga da mais alta qualidade estava nos vossos museus, como Gérard David, Hans Memling, Quentin Metsys e até o meu tão apreciado Albrecht Dürer, pois gostaria muito de ver o quadro dele alusivo a São Jerónimo. Uma noite destas, pude ler com cuidado o catálogo da sua edição francesa, vários historiadores debruçam-se sobre as condições excecionais que os portugueses encontraram para a sua aventura marítima quando a demais Europa vivia em permanente conflito, o vosso sistema de alianças que de vários ziguezagues encontrou o seu eixo nos Ingleses, e li apaixonadamente o mundo científico que fundamentou a vossa aventura náutica e até adormecer contemplei com profunda admiração todas aquelas obras de arte de várias proveniências adquiridas com o comércio euro-africano e euro-asiático. Nesta exposição das Feitorias não vieram duas obras-primas da Arte Portuguesa, os Painéis de Nuno Gonçalves e a Custódia de Belém, atribuída esta a um dos vossos maiores escritores, Gil Vicente. Pois gostaria muito, se formos ao Museu Nacional de Arte Antiga, de as visitar.

São Jerónimo, pintado por Albrecht Dürer, Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa

Chegaram os documentos e imagens referentes a janeiro de 1969, que acontecimentos tu descreves!
Primeiro, regressavam vocês a Missirá e apareceu na estrada um guineense com o pavor estampado no rosto, à cautela mandaste parar a coluna, não se tratasse de um expediente para uma emboscada, levaram o homem para Missirá e ele contou que houvera um ataque a embarcações civis à entrada do Geba estreito, tu não sabias de nada ainda, nesse dia enviaras um furriel a Mato de Cão, receberas instruções para ires a Bafatá falar com o Comandante do Agrupamento, ele queria a tua opinião quanto à eventualidade de se criar uma tabanca em autodefesa entre Missirá e Finete, em Canturé, apoiavas a ideia desde que entregassem um pelotão de milícia e dessem armas à população, reforçarias assim o sistema defensivo, mas em termos logísticos já não era possível, estava em marcha a criação de um novo aldeamento perto de Bambadinca, tu dizes chamar-se Nhabijões, não havia meios para Canturé. Este homem espavorido fora apanhado à mão quando se atirara à água, em desespero desatou a correr para dentro do mato e assim apanhou a estrada, todo esfarrapado e sempre a olhar para trás, com medo de possíveis seguidores.

Segundo, a tal viagem que fizeste de avioneta sobrevoando o Cuor e regulados limítrofes, a tua estupefação quando viste terrenos cultivados na região de Gambiel, a cerca de quatro quilómetros em linha reta de Missirá, nesta altura, e era essa a grande surpresa, tu já percorreras todas aquelas florestas, daí a tua surpresa quando lá do alto avistaste uma miríade de caminhos que saíam de Madina em direção a Belel e para mais longe e que derivavam para os tais terrenos cultivados no outro lado do rio Gambiel. Mal refeito do choque, fizeste um patrulhamento até Gambiel, que na carta que acabo de receber tu tratas como um dos locais mais belos do mundo, um verdadeiro Éden tropical, altíssimas palmeiras de Samatra como que vergadas sobre as bermas do rio, numa grande extensão, pensaste então que tinha sido obra do tal cartógrafo, Armando Cortesão, que por ali andara umas boas décadas antes. E vocês meteram-se pela mata para explorar do lado de cá onde é que havia terrenos lavrados. É nesse afã de quererem passar despercebidos, confiantes no sombreado da floresta impenetrável que, como trovões, ouviu-se o silvo de três morteiradas, um estrondo medonho, afinal vocês tinham sido avistados, os guerrilheiros procuravam intimidar. Tu ripostaste também com fogo de morteiro e dois destemidos bazuqueiros teus avançaram para terreno aberto, completamente destemidos, um verdadeiro combate nas duas margens do rio Gambiel. É nisto que uma morteirada estoira perto desses dois bazuqueiros, levantando rios de lama mas igualmente fazendo erguer aqueles dois homens, teme-se o pior, um deles levanta-se prontamente e pega no seu armamento, outro parece inanimado, geme baixinho, leva-se o ferido para dentro da segurança da mata, tem as pernas estilhaçadas, presume-se haver gravidade, findou a patrulha, regressa-se a Missirá, o bazuqueiro de nome Abdulai Djaló, conhecido entre vós pelo nome de Campino, e evacuado para Bissau, regressará uma semana depois, com as duas pernas entrapadas, tinham sido felizmente estilhaços superficiais, no mês seguinte, escreves nos teus apontamentos, este Campino viverá a teu lado, hora a hora, a agonia de uma operação que teve contornos horríveis, mesmo à entrada de Madina estoirou uma armadilha que matou e sinistrou e irá obrigar a uma retirada que teve aspetos catastróficos, onde não faltou um brutal ataque de abelhas, entre tanto sofrimento, tu prometes contar em breve o que aconteceu.

Terceiro, descobriste os efeitos do rancor, a canalhice de uma denúncia, um pequeno grupo de milícias de Finete, seguramente apoiado pelo comandante, o pedante Bazilo Soncó, que só vive para se pavonear, com a sua farda imaculada, que houve as tuas sarabandas, pois tu exiges-lhe que ande no mato ao lado dos seus homens, coisa que ele não faz, entregou uma carta ao comandante de Bambadinca falando nos teus maus-tratos, que só tens olhos para Missirá e desprezas Finete, a carta era tão mal engendrada que o comandante te chamou e te pediu para descobrires por onde começava calúnia tão ruim, enquanto conversavas com o comandante já uma comitiva de Finete estava à porta para denunciar o golpe baixo dos intriguistas, tu foste a Finete e tudo se resolveu num ápice, não era possível expulsar Bazilo nem os seus poucos sequazes, a intriga morreu no choco e a malandragem neutralizada. E tu concluíste que as insidias não têm fronteiras e os gestos miseráveis não escolhem a cor da pele.

Obrigado por estes documentos, meu adorado Paulo, contribuem para te conhecer melhor, para estar cada vez mais próxima de ti. Tenho uma surpresa à tua espera, uma surpreendente exposição do Palácio das Belas-Artes, prepara-te para ver peças de uma qualidade insuperável da cerâmica chinesa. Vem depressa, vem com a tua fogosidade, aquele ímpeto que me sacia a alma e a carne, sinto-me dona do mundo com este privilégio do teu amor. Bien à toi, Annette.

(continua)

O esplendor do Geba
Uma escultura Bijagó, entre a alegria da festa e a devoção animista
Aos aviadores italianos, falecidos num desastre aéreo, nos anos 1930, Bolama
Monumento ao presidente Ulysses Grant, Bolama (monumento desaparecido)
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Nota do editor

Último poste da série de 2 de outubro de 2020 > Guiné 61/74 - P21409: Esboços para um romance - II (Mário Beja Santos): Rua do Eclipse (21): A funda que arremessa para o fundo da memória

Guiné 61/74 - P21433 - Os nossos capelães (10): Frei José António Correia Pereira, OFM, natural de Ponte de Lima, ex-alf mil capelão, BCAÇ 3884 (Bafatá, 1972/74) (Manuel Oliveira Pereira, ex-fur mil, CCAÇ 3547, Contuboel, 1972/74)


Foto nº 1 > Ponte de Lima > 2019 > 50º aniversário da missa nova de  José António Correia Pereira, aqui sentado, na primeira fila: é o terceiro a contar da esquerda para a direita; o primeiro da ponta é o nosso camarada Manuel Oliveira Pereira. Os restantes são amigos, ex-colegas e ex-camaradas.


Foto nº 2 > Ponte de Lima > 2019 > 50º aniversário da missa nova de  José António Correia Pereira, aqui de costas à direita.   O nosso camarada Manuel Oliveira Pereira foi um dos membros da comissão organizadora do evento: aparece aqui na foto, junto ao altar, a dirigir-lhe a palavra.


Fotos (e legendas): © Manuel Oliveira Pereira (2020) Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

1. Mensagem do nosso amigo e camarada, de Ponte de Lima, o Manuel Oliveira Pereira, ex-fur mil, CCAÇ 3547 / BCAÇ 3884 (Contuboel, 1972//74), membro da nossa Tabanca Grande, da primeira hora;

Date: sexta, 9/10/2020 à(s) 03:46
Subject: Post 21432 - Capelães Militares 

Meu caro Luis, as minhas saudações.

Aqui vai uma achega, ao vosso pedido. (*)

José António Correia Pereira (nº 84 da lista publicada no poste P19023) (**),  meu ex-camarada, amigo e conterrâneo,  foi Capelão Militar  na Guiné, entre Março de 72 a Junho de 1974, integrado no BCAÇ 3884, sediado em Bafatá ( com companhias de quadrícula em Geba, Contuboel, Fajonquito, Sare Bacar). 

Regressado à metrópole, novas missões lhe são confiadas pela sua Ordem: professor, tutor e missionário, em  Moçambique. 

Novamente em Portugal, é nomeado responsável pela feitura de todas as publicações e livros da sua congregação  (OFM). 

Homem de grande cultura e intelectualidade, é autor de diversos livros e tradutor de várias obras de lingua alemã. Foi igualmente responsável das paróquias de Vila Real e Penafiel.

O Zé António, tal como eu, natural de Ponte de Lima, comemorou no ano transacto, o 50° aniversário de vida sacerdotal. Algumas centenas de pessoas da comunidade onde nasceu, aproveitaram o momento para o homenagear a que se juntaram muitos dos seus amigos, familiares, paroquianos, antigos e velhinhos professores, autoridades civis, religiosas e, também, uma mão cheia de ex-camaradas.

O Padre Zé António, continua o mesmo Homem. Um ser humano bom, calmo, ponderado e sempre com uma palavra de conforto e esperança.

Presentemente, é o responsável pela casa da Ordem Franciscana em Leça da Palmeira. Matosinhos.

Abraço
Manuel Oliveira Pereira
 
PS. Junto duas fotografias, cujos registos correspondem ao dia em se comemorou o 50° aniversário de "missa nova". Na primeira o Pe. Zé António é o terceiro, em primeiro plano,  a contar da esquerda. Os outros, somos nós os ex-camaradas.


2. Comentário do editor LG:

Informação adicional sobre o Frei José António Correia Pereira,  a quem desde já convidamos a sentar-se à sombra do fraterno poilão da Tabanca Grande, apadrinhado pelo Manuel Oliveira Pereira (, estando disponível o lugar nº 820):

(i) sacerdote franciscano, é natural de Gaifar, concelho de Ponte do Lima;

(ii) tirou a licenciatura em teologia pela Faculdade de Teologia de Paderborn, Alemanha, e em Filosofia pela Faculdade de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa, Braga;

(iii) viveu como missionário na Guiné-Bissau e em Moçambique onde lecionou filosofia no Seminário interdiocesano da Matola;

(iv) foi diretor do centro de Franciscanismo durante três anos e é diretor da Editorial Franciscana há mais de quinze anos.


(**) Vd. poste de 17 de setembro de 2018 > Guiné 61/74 - P19023: Os nossos capelães militares (9): segundo os dados disponíveis, serviram no CTIG 113 capelães, 90% pertenciam ao Exército, e eram na sua grande maioria oriundos do clero secular ou diocesano. Houve ainda 7 franciscanos, 3 jesuitas, 2 salesianos e 1 dominicano.

 Vd. postes anteriores:

17 de setembro de  2018 > Guiné 61/74 - P19021: Os nossos capelães (8): Adelino Apolinário da Silva Gouveia, do BCAÇ 506: "Os filhos da p... matam-me!"... (Alcídio Marinho, ex-fur mil, CCAÇ 412, Bafatá, 1963/65)

25 de outubro de 2016 > Guiné 63/74 - P16638: Os nossos capelães (6): Libório [Jacinto Cunha] Tavares, o meu Capelini, capelão dos "Gatos Negros", açoriano de São Miguel, vive hoje, reformado, em Brampton, AM Toronto, província de Ontario, Canadá (José Martins, ex-fur mil trms, CCAÇ 5, Canjadude, 1968/70)

25 de outubro de 2016 > Guiné 63/74 - P16636: Os nossos capelães (5): Relação, até à sua independência, dos Capelães Militares que prestaram serviço no Comando Territorial Independente da Guiné desde 1961 até 1974 (Mário Beja Santos)

17 de setembro de 2014 > Guiné 63/74 - P13616: Os nossos capelães (4): O bispo de Madarsuma, capelão-mor das Forças Armadas, em Gandembel, no natal de 1968 (Idálio Reis, ex-alf mil, CCAÇ 2317, Gandembel / Balana, 1968/69)

5 de setembro de 2014 > Guiné 63/74 - P13577: Os nossos capelães (3): O capelão do BCAÇ 619 ia, de Catió, ao Cachil dizer missa... Creio que era Pinho de apelido, e tinha a patente de capitão (José Colaço, ex-sold trms, CCAÇ 557, Cachil, Bissau e Bafatá, 1963/65)

5 de setembro de 2014 > Guiné 63/74 - P13576: Os nossos capelães (2): Convivi com o ten mil Gama, de alcunha, "pardal espantado"... Muitas vezes era incompreendido, até indesejado por alguns, pois tinha coragem para denunciar os abusos, quando os presenciava (Domingos Gonçalves, ex-allf mil, CCAÇ 1546 / BCAÇ 1887, Nova Lamego, Fá Mandinga e Binta, 1966/68)

5 de setembro de 2014 > Guiné 63/74 - P13575: Os nossos capelães (1): Conheci em Bedanda o ten mil Pinho... Ia visitar-nos uma vez por mês para dizer missa... E 'pirava-se' logo que podia (Rui Santos, ex-alf mil, 4.ª CCAÇ, Bedanda, 1963/65)

Guiné 61/74 - P21432: Parabéns a você (1877): José Carmino Azevedo, ex-Soldado CAR do BCAV 2868 (Guiné, 1969/71) e Manuel Barros Castro, ex-Fur Mil Enfermeiro da CCAÇ 414 (Guiné e Cabo Verde, 1963/65)


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Nota do editor

Último poste da série de 8 de Outubto de 2020 > Guiné 61/74 - P21428: Parabéns a você (1876): Luís Mourato Oliveira, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 4740 (Guiné, 1972/74)

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

Guiné 61/74 - P21431: FAP (121): Cor pilav Gualdino Moura Pinto, comandante da BA 12 (1971/73), já falecido: "um grande líder" (Victor Barata, fundador e editor do blogue Especialistas da Base Aérea 12, e membro sénior da nossa Tabanca Grande)


Guiné > Bissau > Bissalanca > B 12 > 1973 > Esta foto recorda um dia de aniversário do Clube de Especialistas, em Bissalanca, tendo sido convidado o comando da BA 12 (1971/73), o  cor pilav Gualdino Moura Pinto (à esqureda) e o ten cor pilav José Lemos Ferreira (à direita)

Foto (e legenda): © Victor Barata (2012). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]




Victor Barata: (i) foi especialista de Instrumentos de Bordo, 
esteve na BA 12, Bissalanca (1971/73), na linha da frente das DO 27"; 
(ii) terrou em tudo o que era bocado de pista;  
(iii) membro da Tabanca Grande desde maio de 2006.

1. Com a devida vénia, reproduzimos a seguir um excerto de um poste do blogue Especialistas da Base Aérea 12, Guiné 65/74, da autoria do nosso amigo e camarada Victor Barata, membro  da nossa Tabanca Grande da primeira hora (com mais de três dezenas de referências), fundador e editor daquele blogue:

Blogue Especialistas da Base Aérea 12, Guiné 65/74 > Quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012 > Voo 2730:  O Grande Comandante  Moura Pinto:


(...) Companheiros, há personagens na nossa vida que pela sua conduta, e pelas mais variadas acções, nos marcam para sempre.

(...) Pois bem, vou falar do Coronel Moura Pinto, como um verdadeiro líder, homem de poucas falas, alto, magro, com grandes qualidades humanas. (*)

Remonta ao ano de 1973, quando entre Março e Abril, a nossa Força Aérea perdeu Grandes Homens, companheiros do dia a dia dia que lutavam pela mesma causa que nós mas que o destino quis que partissem primeiro: ten cor pilav Brito, major pilav  Montovani, furriéis mil pil Baltazar e Ferreira. 

A instabilidade estava instalada, o receio, principalmente em quem operava com aeronaves de pequenas velocidades, apoderou-se, por se desconhecer o tipo de arma utilizada pelo PAIGC para abater os nossos aviões.

É nestas ocasiões que se distinguem os grandes Comandantes: o coronel Moura Pinto mandou reunir na sala de operações os 42 pilotos presentes na Base e, com a serenidade que lhe era virtude, foi dizendo:

"Havia garantia de que a arma utilizada pelos guerrilheiros para abater as nossas aeronaves era um míssil”.

Em seguida afirmou ter duas certezas, uma, fruto das suas convicções pessoais, outra, resultado da sua experiência de oficial: a primeira era muito subjectiva e resumia-se numa frase: Só é atingido pelo míssil quem tiver esse destino traçado. A segunda, também se dizia em poucas palavras: 

"Ninguém pode ter medo do míssil, porque o piloto que vai voar com medo está mais vulnerável e acaba por ser atingido."

Depois para reforçar a sua argumentação linear, recordou o ditado latino: "A sorte protege os audazes".

Estas afirmações no ambiente tenso que pairava na sala, tiveram um impacto extraordinário. Gerou-se uma descompressão colectiva, embora estivessem todos ainda apreensivos. Faltava na sala um único piloto, Furriel Santos, por se encontrar de serviço ás operações.

Nesse momento a porta do fundo da sala abriu-se e entrou o piloto em falta, pedindo licença para falar. Toda a assembleia virou a cabeça em sua direcção. O comandante Moura Pinto autorizou-o a falar. Com desenvoltura,o furriel Santos informou ter recebido um pedido de evacuação de feridos graves de um Batalhão do Exército que tinha sido atacado. Vinha pedir instruções. 

Diz-lhe o Coronel Moura Pinto:

"Responda que se vai fazer a evacuação. Mande preparar o helicóptero. Quem faz essa evacuação sou eu".

Voltou-se para a assistência e perguntou: 

"Meus senhores quem quer colocar alguma questão? "

Reinou o silêncio entre toda a gente; 

"Se não têm perguntas, eu já disse tudo, e, como há  coisas mais importantes a fazer, vou-me embora." (#)

Foi fazer a evacuação.

O desfecho desta reunião teve impacto fortíssimo no moral dos pilotos, o ânimo passou a falar mais alto, abafando os últimos resquícios do medo natural.

Descanse em paz, meu COMANDANTE! (**)
Victor Barata
Melec/Av Inst

(#) Nota: Esta passagem foi retirada do livro "A Força Aérea na Guerra de África: Angola, Guiné e Moçambique 1961-1974",  de autoria de Luís Alves de Fraga, ,Coronel da FAP na reserva (Editora Prefácio, 2004, 158 pp.).

Postado por Especialistas da BA 12 às 22:29:00

[Revisão / fixação de texto para efeitos de publicação no nosso blogue: LG]

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Guiné 61/74 - P21430: O nosso blogue como fonte de informação e conhecimento (75): procuro mais notas biográficas sobre o cor pilav Gualdino Moura Pinto, dado erradamente como morto no acidente do avião da TAP, TP425, no Funchal, em 19/11/1977 (Santiago Garrido, jornalista, "La Voz de Galicia")



Gualdino Moura Pinto, cor pilav, 
Comandante da Zona Aérea de Cabo Verde e Guiné, 
Comandante da Base Aérea nº 12, em 1973
(Fotografia de Arnaldo Sousa, quando se despediu da Guiné
 como Comandante da Zona Aérea e Piloto, junto de pessoal 
que compunha a linha da frente dos Fiat... Com a devida vénia...) (*)


1. Mensagem de Santiago Garrido Rial, jornalista de "La Voz de Galicia":


De: Santiago Garrido Rial <santiago.garrido@lavoz.es>
Date: terça, 22/09/2020 à(s) 18:34
Subject: Galicia 

Estimado Luís

Soy Santiago Garrido, periodista de La Voz de Galicia. Le escribo en castellano porque lamentablemente no sé hacerlo en portugués (sí en gallego, si le resulta más cómodo). En caso de no entender algunas palabras o frases, se las traduciré.

He llegado hasta su página buscando información sobre el comandante Gualdino Moura Pinto, del que leí un artículo sobre su fallecimiento en el accidente de la TAP en Funchal en 1977. Y muchos más de sus numerosos méritos.

Cuando era joven, con apenas 25 años, en 1950, tuvo que realizar un aterrizaje forzoso en una finca de labranza de Ponteceso (Provincia de A Coruña). Fue un hecho muy comentado, ya que no le pasó nada, ni a él, ni al avión. Había salido de Bragança y, por diversas circunstancias, llegó a este punto de Galicia.

Me gustaría reconstruír algún dato sobre él, tal vez hablando con su hijo, que veo que también es aviador en el Ejército del Aire. O alguna foto... No sé si usted podría ayudarme.

En todo caso, muchas gracias por su atención. (**)

Santiago Garrido Rial
La Voz de Galicia, Redacción Carballo
981704210, 606 968 683
@santiagogrial




Título de caixa alta do Diário de Lisboa, de 21 de novembro de 1977. Cortesia de Fundação Mário Soares, Casa Comum, Documentos Ruella Ramos.

Citação:
(1977), "Diário de Lisboa", nº 19511, Ano 57, Segunda, 21 de Novembro de 1977, Fundação Mário Soares / DRR - Documentos Ruella Ramos, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_22565 (2020-10-7)

2. Resposta do editor Luís Graça:

Sugerimos ao Santiago Garrido Rial que explore o blogue Especialistas da Base Aérea 12 Guiné 65/74 onde há mais informação sobre o cor pilav Gualdino Moura Pinto, que era Comandante da Zona Aérea de Cabo Verde e Guiné, e Comandante da Base Aérea nº 12, Bissalanca, em 1973.

No nosso blogue não temos muito mais informação sobre ele. Pode ser que algum dos nossos leitores possa ajudar. Boa sorte nas pesquisas e nos contactos. Sabemos que, em 2016, o filho, António Gualdino Ventura Moura Pinto, era Coronel de Infantaria, mas de quem, infelizmente, não temos o contacto.

3. Correção à nossa inf0rmação inicial:

O cor pilav Moura Pinto não morreu nesse acidente aéreo, mas sim de doença, em data, que não podemos precisar. 

Houve uma lamentável troca de identidades, numa notícica dada pela APTCA- Associação do Pessoal Tripulação e Cabine, ao referir a Homenagem aos Tripulantes e Passageiros vitimados no acidente da TAP, 30 anos após, por iniciativa do SNPVAC - Sindicato Nacional do Pessoal de Voo da Aviação Civil... Na lista dos tripulantes mortos vinha o "técnico de voo" Gualdino Maria Moura Pinto... Ora o técnico de voo (TV) que morreu no Funchal, era de apelido Encarnação. Este assunto está, de há muito,  esclarecido no blogue Especialistas da Base Aérea 12, Guiné 65/74.


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Notas do editor:


(**) Último poste da série > 9 de agosto de 2020 > Guiné 61/74 - P21242: O nosso blogue como fonte de informação e conhecimento (74): Canábis - II (e última) Parte : Efeitos psicoativos, imediatos e a longo prazo

Guiné 61/74 - P21429: Brunhoso há 50 anos (14): A Despensa - Adega do Zé (Francisco Baptista, ex-Alf Mil da CCAÇ 2616 e CART 2732)

Adega do Zé de Remondes

1. Mensagem do nosso camarada Francisco Baptista (ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 2616/BCAÇ 2892 (Buba, 1970/71) e CART 2732 (Mansabá, 1971/72), autor do livro "Brunhoso, Era o Tempo das Segadas - Na Guiné, o Capim Ardia", com data de 6 de Outubro de 2020 com mais uma memória de Brunhoso:

No tempo das candeias quase todos os bens alimentares se guardavam nas despensas que pela sua situação um pouco abaixo do rés-do-chão, tinham uma temperatura amena, quer no inverno quer no verão, propicia à sua conservação.

Lembro-me que os grandes pães de trigo e de centeio, cozidos no forno de lenha pela minha mãe, se conservavam por muito tempo, quinze dias. A maioria dos outros produtos conservavam-se durante um ano, o melhor prazo para os lavradores já que as colheitas eram anuais. 

O vinho guardado em pipas de carvalho durava um ano, por vezes começava a "atirar" ou envinagrar pois os lavradores não lhe punham conservantes ou por não os conhecerem ou porque bebendo-o todos os dias não se davam conta da acidez que aumentava gradualmente.

O presunto dos porcos caseiros, depois de curado, duraria muitos anos mas os porcos eram mortos à medida da necessidade anual de cada família. O presunto que combina bem com o vinho, tal como ele, guardado, numa boa adega, em condições ideais, durante alguns anos melhora a qualidade. 
 
O toucinho, a parte mais gorda e menos nobre do porco atingia o seu melhor paladar na transição do Verão para o Outono, no tempo das sementeiras. O azeite era lá guardado em grandes talhas de barro ou de cimento, para consumo da casa, o excedente era vendido, com mais de um ano ficava velho e podia ganhar ranço. 

Os salpicões e as linguiças, depois de passarem algum tempo no fumeiro, eram guardadas em talhas de barro com azeite.

Na despensa guardavam-se ainda as batatas e as cebolas, e guindas penduradas em cacho.  O queijo era guardado em armários de rede fina, por causa das moscas e mosquitos.  A "gradura",  casulas, feijões, o grão de bico, os "chicharros", ou feijão frade também tinham lá lugar pendurados em sacos ou dentro de arcas de madeira. 

As castanhas eram igualmente guardadas em talhas de barro e conservavam-se sãs até ao Verão.

Para alguns lavradores, a despensa era também um local de convívio ocasional para onde convidavam alguns amigos a beber um copo acompanhado com pão, azeitonas, cebola ou até mesmo presunto.

Até à instalação da eletricidade nessas aldeias, já tarde, no século anterior, as dispensas, também assim chamadas, eram indispensáveis, passe o pleonasmo, depois continuaram a ser utilizadas por muitos, pois sabiam que não havia melhor frigorífico, embora tenham adquirido também um eléctrico para alimentos mais frescos.

Em Brunhoso na adega ou despensa do Zé, tive convívios agradáveis com bons acepipes caseiros. Porém as fotografias que acompanham este texto, foram tiradas na adega do Zé de Remondes que tem também sempre bom vinho, presunto, e outros petiscos para os amigos.

Só quem já foi a uma adega destas, um pouco abaixo do nível do chão, e longe na idade e longe da cidade, beber dois copos de vinho e petiscar, sabe avaliar quanto é bom reviver o passado.

As fotos retratam em parte as despensas do passado, pois embora o espaço seja o mesmo, agora há uma miscelânea de coisas antigas e modernas. 

Antigamente não havia plásticos de qualquer feitio, para acondicionar os produtos havia recipientes de barro, madeira, vime e alguns de cimento.

A funcionar há dezenas de anos como adega-despensa, agora para o José é também um museu onde guarda objetos caseiros e ferramentas agrícolas que herdou dos pais e avós e um espaço para arrumar outros bens mais actuais.
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Nota do editor

Último poste da série de 7 de fevereiro de 2018 > Guiné 61/74 - P18294: Brunhoso há 50 anos (13): Viagens de comboio ao Porto (Francisco Baptista, ex-Alf Mil da CCAÇ 2616 e CART 2732)

Guiné 61/74 - P21428: Parabéns a você (1876): Luís Mourato Oliveira, ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 4740 (Guiné, 1972/74)

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Nota do editor

Último poste da série de 4 de Outubro de 2020 > Guiné 61/74 - P21413: Parabéns a você (1875): Artur Conceição, ex-Soldado TRMS da CART 730 (Guiné, 1965/67) e Inácio Silva, ex-1.º Cabo Apont Armas Pesadas da CART 2732 (Guiné, 1970/72)

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

Guiné 61/74 - P21427: Historiografia da presença portuguesa em África (234): “África Ocidental, notícias e considerações”, por Francisco Travassos Valdez; impressas por ordem do Ministério da Marinha e Ultramar, 1864 (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 17 de Julho de 2017:

Queridos amigos,
Dentre os relatos de viagem mais impressivos, ao longo do século XIX, avulta, pela qualidade de observação e o rigor de análise a narrativa deste viajante qualificado que conhecia algumas parcelas o império. Vem confirmar os preciosos documentos de Honório Pereira Barreto e o abandono a que tínhamos votado a Senegâmbia; fica um claro registo do pouco espaço ocupado, dos negócios efetuados e até das dificuldades previsíveis. Não se esqueça que o livro é dedicado ao rei D. Luís I, o funcionário pretende ir mais além e sensibilizar a Coroa para a triste situação da Senegâmbia, que só em 1879 será desafetada de Cabo Verde, e terá então governador e capital em Bolama.

Um abraço do
Mário


Francisco Travassos Valdez e a Senegâmbia (1)

Beja Santos

O
livro intitula-se “África Ocidental, notícias e considerações”, por Francisco Travassos Valdez, impressas por ordem do ministério da Marinha e Ultramar, 1864. Primeiramente, a publicação surgiu em Londres com o título "Six years of a traveller’s in western Africa, 1861". Francisco Travassos Valdez tem um curioso currículo: ex-árbitro das comissões mistas luso-britânicas e do Cabo da Boa Esperança; ex-Secretário da Comissão Especial de Colonização e Trabalho Indígena das Províncias Ultramarinas; Secretário do Governo da Província de Timor.

O volume é apresentado como 1.º, abarca as seguintes descrições: Porto Santo e Madeira; Canárias; Cabo Verde (ilhas de Barlavento), Cabo Verde (ilhas de Sotavento); Senegal e Senegâmbia (Guiné Portuguesa). Nesta recensão trata-se exclusivamente do que o viajante viu e sentiu na Senegâmbia, mais tarde reportaremos o que do Senegal tem interesse relevante para a Guiné do século XIX. Falando da extensão do território, faz um registo singular: “Desde o Cabo Roxo começa a notar-se diferença na cor das águas, passando de um azul carregado a um verde-claro ou amarelo turvo, que se conserva em todo o litoral. São estes mares junto à costa de difícil navegação pelos numerosos parcéis (escolhos recifes), por diversas correntes de sensível velocidade, pela sujeição das marés nas entradas dos canais e pela irregularidade dos ventos; apesar destas circunstâncias, há alguns práticos tão experimentados, que tendo vento ou maré, navegam a qualquer hora da noite, e por escuro que seja, e com o poderoso auxílio da sonda marcam precisamente a posição relativa do navio em um dado momento”.

É um viajante que não escamoteia o que lhe vai mexendo nos sentidos, o barco aproxima-se e nesta aproximação dá-se um maravilhamento que ele passa a escrito: “Quando principiamos a avistar as viçosas ilhas do arquipélago e a costa da Guiné, notamos quanto contraste há com as ilhas de Cabo Verde! Nestas, as massas basálticas, as montanhas enegrecidas pelas terras vulcânicas, quase todo o ano privado de vegetação, mostrando uma aridez e uma esterilidade que por fortuna não se dá nas aprazíveis e viçosas ribeiras do interior; na Guiné, pelo contrário, tudo denota ao viajante um país muito rico de produtos da natureza, terras baixas e extensas, literalmente cobertas de uma vegetação pomposa”. Feita a aproximação, entra-se no Ilhéu do Rei, e logo o autor observa que é opinião de muita gente que se deveria ter colocado o estabelecimento comercial que existe em Bissau aqui, em consequência do ilhéu ser mais saudável, ser arborizado e de bonita aparência. Mas informaram-no de uma dificuldade insuperável: “O busílis era haver ali uma proliferação de árvores sagradas, inclusivamente a china, que é a maior de quantas existem no território dos Papéis, aqui se dirigem anualmente milhares de negros na mais devota romaria, durante a lua cheia do mês de Março”. Fica impressionado com o que vê no ilhéu, a sua importância: “A feitoria do senhor Nazolini está no referido Ilhéu do Rei desde 1847, é o mais importante de todos os estabelecimentos portugueses na Senegâmbia: 300 escravos empregados em cultivar quase todo o ilhéu, nas oficinas e no carregamento da mancarra (…) A casa de habitação e da mais pitoresca aparência, bem edificada e muito cómoda, dando-lhe os alpendres de que se acha cercada um tipo próprio daquelas regiões, e proporcionando-lhe igualmente agradável frescura”.

Regista igualmente certas singularidades do clima: “As trovoadas começam em meados de Maio e duram até ao fim de Outubro; são imponentes e majestosas, principalmente para quem não está acostumado a presenciá-las. Primeiramente forma-se uma forte aglomeração de nuvens no horizonte, e segue-se logo o fuzilar ao longe com uma constância e frequência incríveis; em seguida, vem o tufão com tal violência que arranca árvores frondosas, desloca as telhas e faz tal barulho com o bater de todas as portas e janelas que levanta, que parece realmente a quem pela primeira vez presenceia este fenómeno que as casas vão ser destruídas. Muitos navios estando bem fundeados no porto têm feito da quilha portaló. A este tufão segue-se a trovoada que parece estalar sobre a cabeça, e depois a chuva, caindo os raios com frequência”.

Do Ilhéu do Rei passamos para Bissau, vejamos a opinião do viajante: “A sua perspectiva é agradável pelo arvoredo que a adorna e pelos seus arrabaldes atapetados de verdura, de modo que o viajante, para não perder a ilusão e a saúde, fica talvez melhor em limitar-se a ver a terra de bordo. Aceitou-se o obsequioso convite que nos fez o opulento Comendador Honório Pereira Barreto”. No ato do desembarque, fica muito mal impressionado com o grande número de tubarões que ali nadam à superfície das águas. Contrafeito e um tanto timorato atravessa uma ponte com sinais de pouca segurança até chegar a terra firme, informa-nos que o edifício da Alfândega fica no largo da Mãe Júlia, fronteiro à porta da Praça de Bissau. Registou o exótico da sua chegada: “O que mais atrai as vistas são as bajudas ou donzelas, que pelo seu estado são excessivamente modestas no vestuário, que se compõe unicamente de avental de dimensões microscópicas, avental que, como o pedacito de coiro ou o búzio que os mancebos usam adiante suspenso por um barbante nem sempre lhes oculta de todo o que a decência manda recatar!”. Faz depois a descrição do comércio na rua principal onde os vendedores estão enfileirados e acocorados ao longo da rua, ali se trocam objetos, fundamentalmente exerce-se ali uma economia de troca, mas há exceções: “Às vezes admitem também algum patacão, como chamam à nossa antiga e incómoda moeda de 40 reis, que aqueles negros reservam unicamente para a manufactura dos seus grosseiros artefactos”.

Desembarcou, percorreu interessado o comércio na rua principal, vai agora falar-nos de Bissau: “A Praça de S. José, com os seus poilões, árvores gigantescas que se erguem com majestade nos quatro baluartes, e que os abrigam com a sombra, está situada na foz do rio Geba, e foi construída no ano de 1756, no reinado de D. José I”. Tece comentários à sua construção, que terá custado a vida a mais de 2 mil portugueses e que ficou num estado miserável, dá-nos também a notícia de que ultimamente têm tido o incremento algumas obras militares. Diz igualmente que aquela Praça não passa de uma povoação mal alinhada, com algumas casas palhoças, outras de barro e bem poucas de sólida construção. Há por ali um problema elementar, a fonte que fornece a água de consumo à Praça fica no Pidjiquiti, a cerca de uma milha, quando há desacatos e cercam a Praça levanta-se um problema sério de abastecimento de água. É franco na descrição das condições hígio-sanitárias, são deploráveis. E daí entender-se a descrição que faz do hospital: “Para se fazer ideia da desgraça a que chegaram os enfermos na Guiné basta dizer que só há bem pouco, com melhoramento muito importante, se compraram 12 camas de ferro para o hospital, a fim de se armarem com cortinas para evitar o flagelo dos mosquitos!”.

(Continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 30 de setembro de 2020 > Guiné 61/74 - P21405: Historiografia da presença portuguesa em África (233): “Guiné, Alguns aspetos inéditos da atual situação da colónia”, por A. Loureiro da Fonseca; Sociedade de Geografia de Lisboa, 1915 (Mário Beja Santos)