sábado, 13 de setembro de 2008

Guiné 63/74 - P3203: História da CCAÇ 2679 (2): A caminho de Piche (José Manuel Dinis)


1. Mensagem com data de 8 de Setembro de 2008, do nosso camarada José M. Matos Dinis, ex-Fur Mil da CCAÇ 2679, (Bajocunda, 1970/71), com mais um pouco da história da sua Unidade (1).

Caro Carlos Vinhal

Anexo novo texto, desta feita sobre a chegada da 2679 a Piche.

Quanto a fotos é que andamos às avessas, enviarei proximamente. Mas tens em stock três fotografias, duas relativas à viagem no Uíge, outra reporta o meu primeiro serviço em Bissau.

Vou procurar ser cronologicamente fiel aos acontecimentos da Companhia, ou situações contemporâneas.

Um abraço para o pessoal da Tabanca Grande
José Dinis

2. A caminho do Xime
Por José Dinis

Do Xime para Nova Lamego e, seguidamente, até Piche, a CCAÇ 2679 deslocou-se em coluna auto com escolta de um Pelotão de Cavalaria de Bafatá, rotativamente deslocado em Piche, onde pontificava a velha Fox, que impressionava pelo barulho do motor, como pela metralhadora instalada na torre. Completava a escolta o Pel Caç Nat 65, domiciliado em Piche, comandado por um cromático alferes, pois durante as pausas na deslocação, deambulava por entre nós, de pistola à cinta e empunhando uma moca com um lenço amarelo atado na extremidade. Constituía uma verdadeira nota de cor na paisagem camuflada, embora contra todos os ensinamentos transmitidos na instrução.

Começava a pensar com os meus botões, que raio de guerra aquela onde tinha ido parar. Mas o registo iconográfico funcionava, apesar da maluqueira manifesta.

Dia 21 tomámos o caminho de Piche, já em picada, em boa parte do percurso com as margens capinadas e livres de vegetação. O nosso Capitão António Oliveira ter-se-á lembrado de usarmos lenços pretos, idênticos aos dos comandos, para nos identificarmos, ou para impressionarmos. Piriquitos nas fardas novas e com goma, servi-me do lenço para proteger a cara da poeira levantada pelas viaturas que precediam. E assim fez a maioria.

Chegados a Piche fui encarregado de instalar o pessoal na caserna, um antigo celeiro para a mancarra que aguardava a venda à Casa Gouveia. Entretanto, apareceu-me o Zé Tito, acompanhado por dois militares locais, referindo que tinha arranjado um quarto para nós, a suite 3, que partilhávamos com furriéis do BART, o Branco da Silva, o Águas e outro de quem não me lembro o nome.

Quando cheguei ao quarto, o Tito teria gratificado os militares, ambos a cumprir pena de detenção, que ali nos ofereceram os seus serviços no fornecimento de galinhas e cabritos, a dez ou vinte escudos, cinquenta ou cem escudos, respectivamente, não sei precisar. Indaguei onde arranjavam as preciosas mercadorias e obtive por resposta que controlavam a bicheza na tabanca. Era só querer.

O.K., mandei chamar o nosso padeiro, apresentei-os e referi que queria todas as noites dois cabritos na padaria, um para eles e cúmplices, outro assado com batatinhas, seria entregue na suite 3. E assim foi, noite após noite, e nunca paguei o que fosse, nem me lembro de ter voltado a falar com qualquer deles.

Comandava o BART um Major alcunhado de drácula, tal era o cagaço que infundia no pessoal, conhecido pelas porradas a torto e a direito, que passavam a ilustrar as importantes Cadernetas Militares. Dizia-se que o Caco Baldé o escolhera para impor alguma ordem num Batalhão onde teriam acontecido coisas inimagináveis e a generalidade dos comandos fora transferida.

Piche era uma grande tabanca e uma fortaleza com o perímetro aramado, dispondo de amplos postos defensivos na sua extensão, onde o pessoal da CCS garantia essa função e tinha os alojamentos. Nesse amplo espaço, para além da população, ficava a pista para aeronaves e um campo para futeboladas. A norte, também isolado por arame e com acesso por Porta de Armas, ficava a zona aquartelada, com modernas instalações, águas correntes e energia eléctrica quase permanentes, um campo de futebol de cinco e uma piscina. Vizinha era a casa Tufico, local de informalidades, onde havia matrecos, comércio diverso e bar com preços competitivos. Quatro escudos uma pequenina.

Bailinho da Madeira para Major ver

Homem de créditos, a pedir pedestal, o Major Comandante deve ter exigido um desfile.

Não sei por que carga de água, mas desfilámos. Com caixa, para marcar o passo. Na torreira do sol, sob a constante humidade que dificultava movimentos, lá fomos marchar para Sua Excelência. Pelo canto do olho, o que vi do Foxtrot foi um bailinho da Madeira mal ensaiado. No mínimo era displicente.

No final mandaram-me levar o Pelotão para as traseiras do refeitório, onde destroçariam. Antes perguntei se tinham desaprendido de marchar, como resposta, fizeram risos amarelos. Enfureci-me. Comuniquei que iam praticar Ordem Unida. Abriram fileiras relutantemente. Foram indolentes no exercício. A coisa começava a dizer-me respeito. Comuniquei que umas flexões iam ajudar à lembrança da disciplina exigida a um Grupo de Combate na iminência de o ser. Dirigi-me aos velhinhos que se juntavam para gozar o prato, que podiam ver, mas o primeiro a abrir o bico havia de ficar a conhecer-me.

Regressei ao Pelotão, junto do Ferdinando, o mais alto, e dei-lhe ordem para queda facial em frente. Olhou-me de soslaio. Apliquei-lhe uma tesoura, caíu e procurou a posição para pagar. Os restantes seguiram o movimento. Estava neste teimoso entretém de refrear a rebaldaria, quando chegou o Capitão a perguntar o que era aquilo, como que a justificar o pessoal.

Entreguei-lhe o Pelotão e virei-lhes as costas. No primeiro dia começava a experimentar dificuldades, mas tinha que considerar que o Foxtrot, pelas caracteristicas do alferes e minhas, de alguma indiferença pela disciplina militar, sendo o Pelotão onde o pessoal mais gostaria de estar, corria o risco de desgoverno e desagregação, sobretudo em ocasiões de maior tensão, se dele perdessemos o controle.

O futuro veio a revelar que o Foxtrot, sempre com características de irreverência no que respeita às formalidades militares, foi um grupo coeso, determinado, generoso e orgulhoso, onde a camaradagem não era vã.

Mais tarde no quarto, durante as apresentações, o Tubaco da Selva mostrou-me a área de arrumações e uma mala-biblioteca recheada de autores da moda, como Amado, Remarche, Lartégui, etc., mas acrescentou que estavam na fase das fotonovelas.

Pouco tempo depois,também eu me identificava com os personagens fotografados.

No final do dia fomos informados de que no dia seguinta faríamos uma patrulha a nível de Companhia, de reconhecimento e ambientação.
José Dinis

OBS:-Subtítulo da responsabilidade do co-editor
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Nota de CV

(1) - Vd. primeiro poste da série de 31 de Agosto de 2008 >
Guiné 63/74 - P3157: História da CCAÇ 2679 (1): Apresentação (José Manuel Dinis)

Guiné 63/74 - P3202: Estórias avulsas (5): Missão Católica ou Missão Heróica? (José Nunes)

1. Publicamos hoje uma estória enviada pelo nosso camarada José Nunes (1), ex-1.º Cabo Mec Elect de Centrais, do BENG 447, (1968/70), enviada no dia 7 de Setembro de 2008.

Missão Católica ou Missão Heróica?

Saía eu a Porta de Armas para ir à tabanca de Brá levar roupa à Fina Rosa, minha lavadeira, quando o sentinela me chama:

- Nosso Cabo, o frade anda a perguntar por um electricista.

Lá me dirigi ao Sto. António assim era o seu hábito, um jovem de vinte e poucos anos tal como eu, que precisava que um electricista fosse à Missão ver se era posssível fazer uma instalação eléctrica para pôr a Carpintaria Escola a funcionar.

Prontifiquei-me a ir e lá fomos, não sem antes comprar umas bazucas que o Frade me pediu, numa motorizada Peugeot, só com um assento, eu sentado e o frade de pé em cima dos pedais, picada fora, cai aqui, cai ali, lá fomos direitos a Prábis.

Chegados, fiquei boquiaberto ao ver tamanha beleza, uma pequena capela, mas a torre sineira deslumbrante entre duas altas palmeiras, lá estava a sineta com o seu campanário para chamar os fiéis.

Algumas construções de alvenaria e uma grande construção sem telhado. Lá fomos por meio de cajueiros, um pouco afastado da capela lá estava um pavilhão tosco, cheio de máquinas de carpintaria. O meu interlocutor lá ía esplanando as suas pretenções e eu anotava. Visitei a Missão, qual o meu espanto quando me leva para uma zona de Tabanca com muitas moranças e começo a ver gente com aspecto horrendo.

- São leprosos, disse-me.

Lá fui vendo aquela gente sofrida e verificando a falta de condições para assistir esta gente.

- Aquele edifício era para ser a enfermaria, mas não temos dinheiro para o telhado.

Senti uma revolta imensa, como era possivel?

Voltei ao quartel e falei com o meu chefe a quem fiz um relato do que tinha visto.
O Eng. Alf Mil José Alberto deu-me carta branca para dentro das disponibilidades dar todo o apoio possivel.

Lá fomos fazer a obra. Montámos a iluminação e a força motriz na carpintaria, com um camarada de São Pedro da Cova, cujo nome não me recordo. Almoçávamos na missão com os Frades.

Um dia ao almoço, após as orações, vem para a mesa uma travessa com aves, talvez pato e outra com uns bifinhos dos quais me servi. Começando a comer noto um sabor adocicado na carne e pensei:

- Estes italianos põem açucar na carne?

Quando o Padre no topo da mesa me diz num português meio italiano e crioulo:

- Desculpa, não sei se gosta de bife de macaco.

Mastiguei mais um pouco, mas desisti de comer alegando uma indesposição. Na missão comi a pasta mais gostosa da minha vida e receitas conventuais.

A minha admiração pela obra das missões em Africa, a forma desinteressada como estes homens se dedicam ao seu semelhante, sem meios, contra tudo, mas com uma Fé imensa e disponibilidade para ajudar.

Viviam sem luxo ou riqueza, do que a terra dava. O Cabi caçava para toda a comunidade, do cajú aproveitava a castanha para vender e do fruto faziam vinho. De Itália chegava muita coisa que eles distribuiam com a população.

Decerto o seu trabalho continua, será que em melhores condições? Oxalá pois o seu labor é sinónimo de cuidados de saúde para os leprosos da Guiné, que por lá devem continuar.

A minha admiração por estes frades, com quem tive o grato privilégio de privar e conhecer D. Sétimo Serrazeta, que teve um papel grandioso no conflito de 1999, na procura de soluções.

Este meu testemunho para dizer que apesar da guerra, havia outras lutas que era preciso vencer.

Se servir para publicar tudo bem, não quis deixar de vos relatar esta vivência em tempo de guerra.

Um abraço e saudações cordiais a todos os Camaradas.
José Nunes
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Nota de CV

Vd. poste de 22 de Janeiro de 2008 > Guiné 63/74 - P2469: Tabanca Grande (55): José Nunes, ex-1.º Cabo Mec Electricista de Centrais (BENG 447, 1968/70)

Guiné 63/74 - P3201: O Nosso Livro de Visitas (26): José Paracana, ex-Alf Mil, QG do CTIG, 1971/73

1. Mensagem com data de 6 de Setembro de 2008 do nosso camarada José Paracana, dirigida a Luís Graça

Ex. Luís Graça e camaradas da Guiné B

Por puro acaso encontrei um antigo camarada combatente da Guiné, enquanto estou a banhos no Algarve! E ele falou-me no blogue que já li parcialmente!

Fui alferes miliciano lá, de 4 de Setembro de 1971 a 4 de Setembro de 1973.

Prestei serviço no Quartel General e era Analista de Segurança das Transmissões. Por acaso guardo alguns documentos interessantes desse tempo conturbado. Que estão em minha casa, claro.

Conheço o Prof. Dr. Julião Sousa, é meu colega de naipe no coro dos antigos Orfeonistas da Universidade de Coimbra! É um bom homem, ao que me pareceu já.

Tenho as minhas histórias, como todos, claro. E muitos slides e fotos da Guiné da época.

Quando regressar a casa (Aveiro) contactarei de novo o camarada!

Até lá me despeço com amizade, solidário com a vossa obra de reconstrução de tudo e em prol de todos!

Conte comigo.
José Rafael Coelho Paracana
Aveiro

P.S. Se me quiser dar alguma palavra, fico esperando!

2. Mensagem de CV enviada a José Paracana, no dia 12 de Setembro de 2008

Caro José Paracana
Estamos gratos pelo teu contacto.

Vaidade à parte, o nosso Blogue é já um caso nacional. Agrega um numeroso grupo de ex-combatentes da Guiné, que com alguma regularidade vão colaborando com as suas estórias e fotografias, aumentando assim um espólio que queremos deixar, a quem daqui por uns anos, liberto de ideias deformadas pela falta de informação de que se revestiu, durante anos, a história da nossa Guerra Colonial, possa depaixonadamente escrever algo que perdure para além da nossa memória.

Se quiseres, poderás ser um membro activo do nosso Blogue, bastando para tal que nos envies uma foto do teu tempo de tropa e outra actual, tipo passe de prefência, e nos comeces a contar a tua experiência enquanto elemento do Exército, não operacional, pelos vistos, mas com missão não menos importante.

Terás visto a guerra doutro ângulo e por cá temos falta de estórias que não cheirem a pólvora, falando no sentido figurado.

Consulta o lado esquerdo da nossa página e se estiveres em sintonia com os nossos propósitos, junta-te a nós.

Deixo-te, em nome dos editores e da restante tertúlia, um abraço.
Carlos Vinhal
Co-editor

3. Mensagem de José Paracana, enviada ao nosso Blogue no mesmo dia.

Caro Carlos Vinhal!

Obrigado pelas tuas palavras. Posso dizer-te que já li a margem esquerda e concordo com os enunciados.

Logo que regressar de férias, a 16/17 do corrente, tratarei de enviar as fotos que me pedes. E com gosto participarei no blogue que - de facto - é uma grande morteirada intelectual e histórica no nosso panorama de guerra colonial! Fico contente por isso.

Não peguei em armas quando lá estive (felizmente para mim...); mas de mim dependiam informações/formações para as NT não sofrerem mais flagelos!

Depois contarei a minha comissão!

Um grande abraço do teu camarada
José Paracana

Guiné 63/74 - P3200: Tabanca Grande (86): António Carvalho, ex-Fur Mil Enf da CART 6250/72 (Mampatá, 1972/74)


1. Mensagem deAntónio Carvalho, ex-Fur Mil Enf da CART 6250/72, Mampatá, 1972/74, com data de 7 de Setembro de 2008, fazendo a sua apresentação ao Blogue:

Caro Luís Graça,

Sou o António Carvalho do Porto! Depois de já ter partilhado de memórias e momentos inigualáveis na Casa Teresa às quartas-feiras em Matosinhos e de com muita honra ter lido os vários testemunhos no blog Luís Graça & Camaradas da Guiné, venho agora também eu dar um bocadinho do meu testemunho e fazer a minha apresentação oficial....

Em anexo envio o documento com a minha apresentação e duas fotos, uma tirada no Quartel de Mampatá, outra mais recentemente!

Um grande abraço e obrigado.
António Carvalho
ex-Fur Mil Enf
CART 6250
Mampatá
1972/74


No Quartel de Mampatá

2. Estive lá...

Por António Carvalho

Estive lá, também fui soldado naquela Guiné onde o calor quase nos fundia o corpo e os incontáveis mosquitos disputavam o nosso sangue. A Guiné da mosca da bolanha, dos ramos que, soltos pelo da frente, nos chibatavam a cara. A Guiné dos rostos apreensivos e angustiosos, a Guiné dos que diariamente descontavam mais um dia, a Guiné dos que morreram ou viram morrer. A Guiné das lágrimas que corriam pelos rostos cobertos de sangue e pó. A Guiné do porquê e para quê. A Guiné do sacrifício inútil.

Ah! Também a Guiné das crianças iguais a todas as crianças do mundo: em correrias alegres por entre as moranças, despreocupadas com os problemas dos adultos. A Guiné das conversas com os autóctones, uma estória hoje, outra amanhã, para a compreensão da história de um povo etnicamente multifacetado. Mas sempre a Guiné de vinte e seis meses e meio que pareciam nunca mais acabar. Mesmo assim a Guiné de Mampatá que anseio profundamente rever.

Saímos do RAP2 em 27 de Junho de 1972 e chegamos no mesmo dia, de avião a Bissalanca. Daqui para os Adidos e destes para a LDG a caminho de Bolama. Um despassarado – o Zé Manel da Régua – ficou adormecido e esquecido nos Adidos. Durante a comissão forjamos uma sólida amizade que perdurará para além da morte pois, sem menosprezo para muitos outros amigos que felizmente tenho, o Zé Manel é um homem de uma grande lealdade, seriedade e generosidade e poucos terão desempenhado tão bem como ele a missão que nos incumbiram. Apareceu mais tarde em Bolama onde, infelizmente, chegou a tempo de assistir a um dos episódios mais trágicos da nossa comissão. No dia 10 de Julho, na fase do I.A.O, durante a instrução de tiro com dilagrama morreram-nos dois camaradas, um da nossa Companhia e outro do Batalhão 6520 (Batalhão de Tite). Não tenho palavras para descrever o quanto me abalou esta tragédia que guardo na minha memória com todos os contornos… aquelas imagens… aquelas vidas tão jovens ali perdidas, logo no início, como que a avisar-nos para o era aquele atoleiro.

Findo o I.A.O fomos para Buba de LDG onde chegamos no dia 28 de Julho. Primeiro nós, a sairmos da LDG e, os de Buba, para nos assustarem, passavam com Berliets acelerados transportando feridos simulados e, passadas algumas horas, após uma emboscada a sério, chegam Berliets transportando feridos a sério, um deles tão grave que acabou por falecer. Mais uma tragédia, antes ainda de chegarmos a Mampatá onde nos esperava a Companhia de açorianos CCAÇ 3326. Um mês em sobreposição, sem mosquiteiros, que só nos foram passados quando os velhinhos se foram embora.

Hoje não conto mais, não quero ser maçador. Quem quiser saber mais, vá à Casa Teresa, a Matosinhos, à quarta-feira, almoçar.

Um grande abraço onde caibam todos.

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3. Comentário de CV

Caro Carvalho
Estás apresentado formalmente, embora sejas da casa, pois militas há já algum tempo na Tabanca de Matosinhos.

Esperamos que o trabalho que nos mandaste, seja o primeiro de muitos. Não te esqueças que tens um concorrente muito sério, que é o teu camarada de Especialidade e de Mampatá, José Teixeira, que é um exímio contador de estórias, daquelas que de vez em quando nos fazem saltar uma lagrimazita mais atrevida.

Tenho o prazer de te conhecer pessoalmente, uma vez que te encontrei numa das raras visitas que faço à Casa Teresa.

Recebe um abraço dos editores e da restante tertúlia.

Teu camarada
Carlos Vinhal
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Nota do editor

Último poste da série de 7 de setembro de 2008 > Guiné 63/74 - P3183: Tabanca Grande (85): João Manuel Félix Dias, ex-Fur Mil SAM, CCAV 2539, 2540 e CCAÇ 3, Guiné 1969/71

Guiné 63/74 - P3199: Álbum fotográfico de Renato Monteiro (1): Contuboel (1968/69)

Guiné > Zona Leste > Contuboel > Tabanca dos arredores > CART 2479 (1968/69) > O Fur Mil Renato Monteiro com "um instruendo, mais alto ainda do que a fotografia revela. Quanto à localização da capela, terá sido em Contuboel?" - pergunta o Renato... Eu acho que sim, das memórias que ainda conservo de Contuboel (onde estive pouco mais de um mês e meio) (*).

Guiné > Zona Leste > Contuboel > Tabanca dos arredores > CART 2479 (1968/69) > O Fur Mil Renato Monteiro com crianças da aldeia.

Guiné > Zona Leste > Contuboel > Tabanca dos arredores > CART 2479 (1968/69) > Um instruendo, de etnia fula, cuja identificação se desconhece... A placa rodoviária assinala alguns das povoações, mais importantes, mais próximas: Ginani (17 km), Talicó (22 km), Canhamina (27 km), Fajonquito (30 km), Sare Bacar (39 km), Farim (96 km)...

Guiné > Zona Leste > Contuboel > Tabanca dos arredores > CART 2479 (1968/69) > Segundo reza a legenda manuscrita no original: Irmãos, Contuboel.


Guiné > Zona Leste > Contuboel > Tabanca dos arredores > CART 2479 (1968/69) > O Fur Mil Renato Monteiro com o seu guarda-costa o Malagueta, que na concorrência com vários candidatos ao lugar tirou partido, não do seu físico, mas do seu estatuto: era filho de um chefe de tabanca...

Guiné > Zona Leste > Contuboel > Tabanca dos arredores > CART 2479 (1968/69) > Aspecto parcila do aquartelamento. Na época, a região era um oásis de paz, razão por que foi escolhida para a centro de instrução militar de pessoal do recrutamento da província: foram lá que se foram os guineenses que integraram, nesta época, as futuras CCAÇ 11 e 12, além de um pelotão de mandingas, o 4º da CCAÇ 14 (o resto da unidade estava em Bolama, tal como a CCAÇ 13, em instrução de especialidade)... (A esse pelotão pertencia o nosso camarada, o Fur Mil António Bartolomeu).

Guiné > Zona Leste > Contuboel > Tabanca dos arredores > CART 2479 (1968/69) > Um outro aspecto da aldeia... Ao fundo, debaixo dos poilões frondosos, as tendas de campanha onde dormia (!) tanto os instrutores como os instruendos... "Com boa vontade - escreve o Renato - poder-se-á topar o conjunto de tendas de campanha que serviram para acomodar, em Contuboel, os instruendos africanos que incorporaram as duas nossas companhias [as futuras CCAÇ 11 e 12]"...

Recorde-se que a instrução (em Contuboel e em Bolama, os dois centros de instrução de então) foi dada em plena época das chuvas (de Junho a meados de Julho de 1969)... Por exemplo, as praças africanas, que fizeram a sua recruta e instrução de especialidade em Contuboel, foram aumentadas ao efectivo da CCAÇ 2590 em 20 de Junho de 1969, tendo sido transferidas da CART 2479 (a que pertenceu originalmente o meu querido amigo, Fur Mil Renato Monteiro, o homem da piroga)...

Fotos: © Renato Monteiro (2007). Direitos reservados (Legendas do autor e do editor).


1. Mensagem de 30 Novembro de 2007, do Renato Monteiro (já lhe pedi desculpa, pelo telefone, por este atraso de quase um ano, só desculpável entre amigos e camaradas...):


Amigo Luís Graça:

Aqui vai uma pequena colecção de fotografias, recém descobertas na despensa convertida em contentor de lembranças envelhecidas…

Como salta aos olhos, não são grandes espingardas embora, com um programa adequado e unhas que me faltam, fosse possível recuperar uma ou outra…

Sem querer sacudir a água do capote, por não ter concorrido para a preservação das fotos, a verdade é que a deterioração também fica a dever-se à falta de meios da época…

Embora sem datas, elas foram obtidas no decurso da minha expatriação temporária, nos anos 68/69 e, por curiosidade, uma boa parte, produzidas a partir de um improvisado laboratório instalado por um soldado no aquartelamento do Xime.

Sem querer apropriar-me abusivamente de feitos fotográficos alheios, deverei dizer que, em muitos casos, não sei precisar quem foi o fotografador: se eu próprio, o Cunha ou outro ignoto camarada…

Seja como for, um rol de fotos que o tempo não devorou de todo, legendadas ao correr instantâneo das memórias…

Com um grande abraço,

Renato Monteiro (**)

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Notas de L.G:


(*) Vd. postes relacionados com a CART 2479 e o meu amigo Renato Monteiro, com quem privei, durante um mês e meio, em Contuboel (Junho/Julho de 1969), e com quem de tempos a tempos ponho a conversa em dia... por telefone (é vizinho do meu local de trabalho)... Recordo aqui que a minha companhia, a CCAÇ 2590/ CCAÇ 12 esteve um meio e meio em Contuboel... Os nossos soldados africanos vieram da CART 2479, companhia que lhes deu a instrução de recruta...

A CCAÇ 11, por sua vez, foi formada a partir da CART 11/CART 2479.

Sobre Contuboel e as atribuladas andanças do Renato Monteiro pela Guiné (por motivos disciplinares foi parar à CART 2520, tendo estado no Xime e depois no Enxalé, aqui 4 meses, antes de regressar à Metrópole, por doença, faltavam ainda quatro o cinco meses para completar a comissão), vd. os seguintes postes:

23 de Junho de 2006 > Guiné 63/74 - P899: Diga se me ouve, escuto! (Renato Monteiro)

23 de Junho de 2006 > Guiné 63/74 - P898: Saudades do meu amigo Renato Monteiro (CART 2479/CART 11, Contuboel, Maio/Junho de 1969)

28 de Julho de 2006 > Guiné 63/74 - P1001: Estórias de Contuboel (i): recepção dos instruendos (Renato Monteiro, CART 2479 / CART 11, 1969)

30 de Julho de 2006 > Guiné 63/74 - P1005: Estórias de Contuboel (ii): segundo pelotão (Renato Monteiro, CART 2479 / CART 11, 1969)

2 de Agosto de 2006 > Guiné 63/74 - P1017: Estórias de Contuboel (iii): Paraíso, roncos e anjinhos (Renato Monteiro, CART 2479 / CART 11, 1969)

4 de Agosto de 2006 > Guiné 63/74 - P1026: Estórias de Contuboel (iv): Idades sem lembrança (Renato Monteiro, CART 2479 / CART 11, 1969)

4 de Agosto de 2006 > Guiné 63/74 - P1027: Estórias de Contuboel (V): Bajudas ou a imitação do paraíso celestial (Renato Monteiro, CART 2479 / CART 11, 1969)

6 de Janeiro de 2008 > Guiné 63/74 - P2412: História de vida (8): Renato Monteiro, um homem de múltiplos... fotografares (Luís Graça)

(**) Renato Monteiro, nascido no Porto em 1946, vive em Lisboa e é um fotógrafo já consagrado. Acabou, há 15 dias, de se reformar como professor do ensino secundário. E, como uma boa notícia, nunca vem só, o Renato confessou-me que há 25 dias deixou o tabaquinho... Anda por mim com uma enorme vontade d trepar pelas paredes acima, que é um dos clássicos sintomas da síndroma da abstinênica...

Embora desactualizada, a entrada na Wikipédia reza o seguinte a seu respeito:

(i) Licenciado pela Faculdade de Letras de Lisboa, em história;
(ii) Participou na Guerra Colonial Portuguesa na Guiné Portuguesa;
(iii) Obra fotográfica:

- Fotobiografia da Guerra Colonial (obra conjunta de Luís Farinha e Renato Monteiro) (Publicações Dom Quixote, 1990 e Círculo de Leitores, 1998).
- Metamorfose (Edição Comissariado da Exposição Mundial de Lisboa, 1998).
- Olhar a Obra (Livro Estação do Oriente, Edição Centralivro, 1998) (48 fotografias).
- Eram margens da minha cidade (Catálogo/Livro, Edição Câmara Municipal de Lisboa e Exposição nos Paços do Concelho, 2001).
- Lisboa Oeste e Vale do Tejo (Edição Comissão de Coordenação da Região de Lisboa e Vale do Tejo, 2002).
- Luz (álbum) (2002);
- Artes do Mar (álbum fotográfico e Exposição no Convento dos Capuchos, 2005).

Tem um blogue: o Fotografares, que faz parte do seu projecto de fazer o inventário do quotidiano e do imaginário do povo trabalhador e do trabalho no nosso país...

Tem, desde 24 de Junho e até ao dia 28 de Setembro de 2008 uma exposição fotográfica (cerca de 60 fotografias) sobre os "Ciganos do Sul", no Padrão dos Descobrimentos, Lisboa. Telefone: 213019032. Horário: De Terça a Domingo, das 10h00 a 19h00.

A exposição integrou-se num conjunto de iniciativas culturais sobre o povo cigano, o povo das estrelas, levadas a cabo pela Empresa de Gestão de Empreendimentos e Animação Cultural (EGEAC), ligada à Câmara Municipal de Lisboa. Eu ainda não fui lá, mas não a quero perder! Talvez lá passe no domingo de manhã... Fica aqui o convite (expresso) aos camaradas da Tabanca Grande, da área de Lisboa...

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Guiné 63/74 - P3198: Convívios (81): CCAÇ 2791, Convívio Nacional dos Antigos Combatentes da Guiné, CCAÇ 2797 e Pel Canhões S/R 2199


1. ENCONTRO DO PESSOAL DA CCAÇ 2791 - BULA e TEIXEIRA PINTO (1970 - 1972)

Mensagem do nosso camarada Jorge Fontinha, com data de 9 de Setembro de 2008, dando notícia da Festa/Convívio do pessoal da CCAÇ 2791.

Amigos Administradores do Blogue,
venho desta vez solicitar que seja divulgado o nosso encontro anual, da CCAÇ 2791.

É possível que alguém que o veja e desconheça a sua realização, possa participar, porventura pela primeira vez.

Um abraço.

Vai realizar-se, no próximo dia 27 de Setembro de 2008, o 7.º Convívio, da CCAÇ 2791

Este convívio é extensivo aos familiares e até a algum acompanhante que julgues conveniente convidar.

O encontro realizar-se-á no Restaurante Santiago, em EN 109 - Estarreja

Se estiveres interessado, deves contactar o ex-Furriel Miliciano Enfermeiro, Urbano Silva, para o telemóvel 969 070 299


Aparece, vai valer a pena.

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2. ALMOÇO/CONVÍVIO NACIONAL DOS ANTIGOS COMBATENTES DA GUINÉ




No dia 5 de Outubro de 2008 realiza-se o 27.º Almoço-Convívio Nacional dos Antigos Combatentes da Guiné, no Restaurante Litoral, Estrada Nacional N.º 1, Matos da Ranha, Pombal.

Os interessados (que podem inscrever familiares) devem contactar o organizador, o incansável Isaías Peralta (que tem assegurado as edições anteriores):

(i) Endereço postal:
27º. Almoço/Convívio - Guiné 2008
Apartado 42
3534 - 909 Mangualde

(ii) Tlm.
966 003 293 / Telef. 232 183 926

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3. ENCONTRO DO PESSOAL DA CCAÇ 2797 E PEL CANHÕES S/R 2199, NO DIA 5 DE OUTUBRO DE 2008, EM SACAVÉM (CARREGADO)

Mensagem do nosso camarada Luís de Sousa, com data de 11 de Setembro de 2008, dando notícia do próximo Encontro do pessoal da CCAÇ 2797.

Faz 36 anos no próximo dia 7 de Outubro que a minha Companhia, a CAÇ 2797, regressou e vamos reunir-nos como é habitual no dia 5 de Outubro aí pela hora de almoço, juntamente com o Pelotão de Canhões S/R 2199 como é também hábito.

Este ano vai ser na zona de Lisboa, (Sacavém, Carregado) e os camaradas interessados podem fazer marcação para:

Carlos Manuel, pelo telefona 219940481 ou
Sousa, telemóvel 962775324
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Guiné 63/74 - P3197: Os nossos regressos (16): Bendita hepatite...(Henrique Matos)


Ilustração de Joana Graça (2008), designer e filha do Luís Graça, para "Os nossos regressos". Com os nossos agradecimentos.



Um regresso... inesperado!!!


Nos finais de 1967 (isto de datas e outros pormenores varreram-se completamente da minha memória, vamos a ver se arranjo uma oportunidade para consultar o meu processo) estava colocado no Comando Chefe em Bissau, aquele edifício que ficava nas traseiras do Palácio do Governador.
Tinha como missão preparar as reuniões do então Governador Arnaldo Schultz com os comandantes dos 3 ramos, que se realizavam ao fim da tarde numa sala específica que tinha numa das paredes um grande mapa da Guiné.
O serviço, onde apenas entrava eu, um major e um coronel, consistia em receber os relatórios diários e transpôr para o mapa todos os dados (operações, mortos, feridos, capturas, acções IN, minas, bombardeamentos, etc..) de tal forma que ao fazer uma leitura do resumo no início da reunião fosse rapidamente perceptível a situação no terreno. No mesmo edifício havia ainda pelo menos outro departamento ligado à espionagem.


No jardim do Comando Chefe com um militar da Força Aérea ali colocado.


Já agora uma pequena historieta para desanuviar. Certo dia aparece-me o brigadeiro que comandava o exército com ar irritado e diz:
- Sr. Alferes, vá lá fora e ensine ao sentinela que deve apresentar armas a um oficial superior.
Fiquei admirado com a atitude até porque nem conhecia os elementos que faziam a guarda, mas havia que obedecer e lá fui. Deparei-me com um soldado com todo o aspecto de periquito acabado de desembarcar, tolhido de medo, pois tinha levado um raspanete do brigadeiro, que percebia pouco de manejo de armas e ainda menos de galões, sobretudo quando se tratatava da marinha. Lá lhe ensinei uns rudimentos, mas, como vi que cada vez se atrapalhava mais, disse-lhe:
- O melhor é apresentar armas a toda a gente porque aqui quase tudo é de coronel para cima.
Quando um dia de manhã me apresento, como era habitual, no gabinete do coronel, este fixa-se nos meus olhos e diz:
- Você está com uma bruta icterícia, vá mas é já para o hospital.
Assim mais uma vez entrei no célebre HM 241 e, após a consulta , fiquei logo internado no pavilhão de isolamento onde só havia hepatites. Passados poucos dias vem a notícia que ia ser transferido para Lisboa.


DC6 no aeroporto de Bissalanca. Foto retirada, com a devida vénia, do site Especialistas da Base Aérea 12, Guiné 65/74, criada pelo nosso camarada Victor Barata, a quem mandamos um abraço de parabéns pelo sucesso do seu blogue.


Levaram-me então para o aeroporto de Bissalanca onde já estava um DC6 da Força Aérea a carregar militares, quase tudo feridos graves, vários em macas. Dentro do avião respirava-se um ar pesado, cheirava muito a desinfectantes e lembro-me que quando levantou reparei que um dos motores da asa do meu lado deixava cair óleo e pensei:
- Será que esta traquitana chega mesmo a Lisboa?

E chegou, mas às tantas da noite, indo estacionar no Figo Maduro, longe de olhares. Ao fundo da escada de desembarque já havia ambulâncias e outras viaturas militares onde fomos metidos e conduzidos aos hospitais, a maioria para o da Estrela e no meu caso para o HMDIC (Hospital Militar de Doenças Infecto-Contagiosas). O internamento foi longo mas eficaz, chegando ao mês de Abril do ano seguinte [1968]. Então, como as análises apresentavam valores normais e já perfazia cerca de 20 meses de comissão, carimbaram um papel e mandaram-me à vida.

Henrique Matos
Pel Caç Nat 52 (Enxalé e Porto Gole, 1966/68).

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Guiné 63/74 - P3196: Em busca de...(39): Companhia Terminal (Bissau, 1973/74) (Daniel Vieira)

Guiné > Região de Tombali (Catió) > Cufar > Rio Cumbijã >1973 > Foto que documenta as brutais consequências do accionamento de uma mina, colocads pela guerrilha do PAIGC junto ao cais acostável de Cufar, onde havia um destacamento do PINT (Pelotão de Intendência) 9288 ... A mina, escondida no lodo, foi accionada por um barco, ao atracar ao cais. O barco, que levava carga da Intendência, pegou fogo e ficou destruído... Terão morrido quase duas dezenas de africanos. Este episódio também é descrito no libro do nosso camarada António Graça de Abreu, Guiário da Guiné: Sangue, Lama e Água Pura (2007). Na altura ele estava em Cufar, como Alf Mil, no CAOP1.

Às vezes esquecemo-nos destes valorosos camaradas da Intendência que também corriam riscos de vida nos seus destacamentos e nas viagens que faziam pelas rios e braços de mar da Guiné, ou acompanhando as colunas logísticas por terra... O 1º Cabo Enf António Baia, amigo do Fernando Franco, ambos membros da nossa Tabanca Grande, pertencia a este PINT e assistiu a esta tragédia (aliás, dupla, por que uma outra mina destruiu, no mesmo dia, um viatura militar e matou malta nossa).

O Fernando Franco, em Bissau, fez Guarda de Honra, até ao Hospital, ao cortejo fúnebre com os restos mortais dos dois soldados do PINT que morreram na explosão da mina anticarro.

Foto: © Fernando Franco (2006). Direitos reservados.


Telefonou-me o ex-Fur Mil Daniel Vieira, que fez parte da Companhia Terminal, sediada em Bissau, mais exactamente na antiga Fábrica da Cana de Açúcar, por detrás do Cemitério, em instalações que outrora terão pertencido à Casa Gouveia. Lembram-se ?

Eu nunca ouvira falar desta Companhia Terminal, cuja missão era fazer os reabastecimentos das unidades espalhadas pelo TO da Guiné, por ar, terra, rio e mar… Iam a todo lado, de Buba a Bambadinca...

Pois bem, pelo que o Daniel Vieira me contou ao telefone, e que eu aqui reproduzo, ele chegou à Guiné, em rendição individual, em Março de 1973 e foi um dos últimos militares a abandonar o território, em Outubro de 1974.

Pelo meio, aí por volta de 12 ou 13 de Março de 1974, foi ferido no Rio Geba, por ocasião de um ataque do PAIGC, no Geba Estreito, entre o Xime e Bambadinca, a um batelão carregado com 24 toneladas de munições. Morreu um cabo da Companhia Terminal, para além de 13 ou 14 africanos (civis ou militares, não faço ideia). Ele depois poderá contar mais pormenores: não sei se o batelão foi ao fundo, se houve explosões em cadeia, etc.


O Daniel Vieira (Fur Mil Vieira, como era conhecido) esteve três dias no HM241, em Bissau, e, depois da convalescença, terá sido colocado no aeroporto de Bissalanca.

Ele procurou-me por que nunca mais teve notícias dos seus camaradas da Companhia Terrminal. E anda à procura de pistas que o levem a reencontrar a malta dessa unidade, que não pertencia ao BIG – Batalhão de Intendência Geral (*) e que, estranhamente, não tinha número. Diz-me ele que era uma espécie de companhia ad hoc, formada nessa altura (1973), em Bissau, com malta de rendição individual…

Ele próprio era atirador de infantaria, tendo passado pelas Caldas da Rainha, Tavira e Castelo Branco (tal como eu...). Lembra-se que o comandante da Companhia Terminal era um capitão do quadro permanente, já entradote na idade, com os seus 50 e tal anos, natural da região de Viseu. Muitos anos depois do 25 de Abril, quando o tentou localizar, já tinha morrido.

Dos seus camaradas furriéis milicianos lembra-se do Barradas, que era alentejano, do Vilaça, que morava em Cascais, e do Mestre, que seria de Sacavém ou de Alhandra (já não pode precisar bem). Dos Alf Mil lembra-se do Tenrinho e do Morais. Do 1º cabo que morreu do Geba, tem o nome, em documentos que não tinha ali à mão.

Nunca mais encontrou esta malta, para grande desgosto seu… E gostaria ainda de ter essa alegria. Costuma ir aos almoços-convívios dos Antigos Combatentes da Guiné, que se realizam todos os anos a 5 de Outubro, e que são organizados pelo Isaías Peralta. A última edição, o 26º almoço-convívio, em 2007, foi em Viseu. E o próximo será em Pombal. Mas até à data ainda não conseguiu localizar ninguém da sua Companhia Terminal.

É por essa razão que se dirigiu ao nosso blogue. Foi a filha, psicóloga, que lhe falou em nós. E da possibilidade de, através da Internet, obter pistas sobre os seus antigos camaradas. O filho, por sua vez, que está a tirar um curso de informática, ajudou-o a fazer pesquisas no nosso blogue. E daí o contacto, telefónico, que estava a efectuar.

Ficou entusiasmado com o conteúdo do nosso blogue e a nossa vasta rede de contactos. Pediu-me se o ajudava. Naturalmente, respondi-lhe que sim: é essa a nossa missão (e vocação). Convidei-o a integrar a nossa Tabanca Grande. Aguardo o envio de algumas fotos digitalizadas, em formato jpg, que me vai enviar através do filho.

Entretanto, aqui vai o resto da sua história. Tendo sido ferido em serviço, em combate, no ataque acima referido, no Geba Estreito, acabou por lutar pelo seu direito à reintegração nas Forças Armadas. Há seis anos (se percebi bem…) foi reintegrado, no Exército, como 1º sargento. Passou os últimos quatros anos nos serviços de saúde militar, aqui em Lisboa, Campolide. É amigo do nosso camarada Manuel Rebocho, com que fez o curso para a Sargento-Mor. Está entretanto reformado como Sargento-Mor, DFA.

O Daniel Vieira, novo membro da nossa Tabanca Grande, vive em Porto de Mós, distrito de Leiria, e autorizou-me a divulgar os seus contactos: Telefone > 244 402 876 ; Telemóvel > 65 274 287.

Se alguém tiver alguma informação sobre a Companhia Terminal (Bissau, 1973/74), entre em contacto com o Daniel Vieira ou com os editores do blogue. Um por todos e todos por um, como no nosso tempo de Guiné.

Luís Graça, editor

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Nota de L.G.:

(*) Sobre o BIG, representado na nossa Tabamca Grande pelo Fernando Franco e pelo António Bais (cito de cor...), vd. os postes de:

20 de Janeiro de 2008 > Guiné 63/74 - P2462: Convívios (38): Minitertúlia da Intendência / Administração Militar, Belém, Lisboa, 18 de Janeiro de 2008 (Fernando Franco)

16 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1284: A Intendência também foi à guerra (Fernando Franco / António Baia)

16 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1283: Os nossos intendentes, os homens da bianda (Fernando Franco / António Baia)

20 de Outubro de 2006 > Guiné 63/74 - P1195: Ameira: O nosso encontro fez-me bem à alma (Fernando Franco)

Guiné > Bissau > Batalhão de Intendência Geral (BIG) > 1974 > O Fernando Franco, 1º cabo Caixeiro. Esteve em Bissau entre 1973 e 1974 numa CIAG (Companhia de Intendência de Apoio Directo). É muito provável que conhecesse a Companhia Terminal e o nosso Daniel Vieira.

Também temos outro camarada, o Diamantino Figueira, que pertenceu ao BIG, Bissau, 1971/73. Telefone de contacto: 214752070 (restaurante, na região de Cascais).

Foto: © Fernando Franco (2006)

Vd. último poste da série de 7 de Setembro de 2008 > Guiné 63/74 - P3182: Em busca de... (38): Causas da morte do Alf Mil Manuel Sobreiro (Mampatá, 1968) Parte II (José Martins)

Guiné 63/74 - P3195: Operação Macaréu à Vista - II Parte (Beja Santos) (43): Um grande ataque a Demba Taco


Texto de Beja Santos
ex-Alf Mil,
Comandante do Pel Caç Nat 52,
Missirá e Bambadinca,
1968/70

Fotos (e legendas): © Beja Santos (2008). Direitos reservados.


Operação Macaréu à vista

Episódio XLIII

UM GRANDE ATAQUE A DEMBA TACO
Beja Santos

Dois fantasmas, o regresso de um amigo, a última visita a Missirá


Deitado na minha cama, no quartel de Bambadinca, leio e releio o aerograma de Manuel Maria Pimentel Bastos, o primeiro comandante do BCaç 2852, o inesquecível Pimbas. Tem uma actividade modesta numa repartição do Exército, ali para as Escadinhas do Marquês de Ponte de Lima, junto do Martim Moniz. Está contente com o horário, é só a parte da tarde, voltou a praticar violoncelo, tem ainda recordações em carne viva, parece que ainda está a beber o vitríolo de todas as suas humilhações que o tornaram num militar sem futuro. Faz perguntas genéricas e no final despede-se com cumprimentos e agradece-me a lição de “Os Pastores da Noite”. Pareceu-me um agradecimento enigmático. À noite, enquanto passeava junto à porta de armas que abre para as estradas de Xime e Mansambo, subitamente a recordação reavivou-se, percebi a mensagem em código.



A Livraria Martins Editora, de São Paulo,deu à estampa uma edição de valor excepcional«Obras Ilustradas de Jorge Amado».Tratou-se de uma homenagem ao romancista no momento em ele comemorava 30 anos de actividade literária,tendo colaborado alguns dos maiores artistas brasileiros da época,tais como Carlos Scliar,Di Cavalcanti,Clóvis Graciano ou Darcy Penteado. As ilustrações de «Os Pastores da Noite» foram da responsabilidade de Aldemir Martins.Trata-se de uma obra que exalta o povo de Baía,são estórias para rir e chorar de gente humilde conduzida a feitos sublimes no amor e na amizade.Um dos clássicos inatacáveis de Jorge Amado,escapa à erosão do tempo.






O Pimbas soubera do grande desastre da jangada que se virara no Cheche em 6 de Fevereiro de 1969 (tinha havido quarenta e sete desaparecidos nas águas revoltas do Corubal) quando estava em convalescença de uma pequena cirurgia a uma fístula. No dia seguinte a este episódio dramático, vim a Bambadinca depois de Mato de Cão, ele estava deitado no seu quarto, recebeu-me com “Os Pastores da Noite”, de Jorge Amado, na mão, perguntou-me se conhecia a obra. E falámos da cidade de Salvador da Baía, as suas ladeiras, as rodas de capoeira e um elenco espantoso de personagens retirados do mundo popular: o cabo Martim, elegante, fino, a viver um dos casamentos mais turbulentos do mundo; Jesuíno Galo Doido, com a sua sabedoria de cabelos brancos, vagabundo e mestre da vida; Tibéria, mulata sessentona, dona de bordel afamado; mas falámos também das quatrocentas mulatas de Pé-de-Vento, do negro Massu, de Otália, a prostituta que tinha uma boneca e sonhava com o casamento, de Marialva, de Eduardo Ipicilone, e outros oriundos do fabulário baiano, dos feitiços e feiticeiros e sobretudo do amor que preside à arquitectura deste grande romance. Porém, tudo não passava de um devaneio, uma pura ocupação do tempo, eu vinha de Mato de Cão para comprar comida e levar munições, a notícia infausta de dezassete desaparecidos do nosso batalhão impunha um procedimento excepcional ao comandante de Bambadinca, eu via que ele conversava para ganhar coragem, para ter ânimo e partir para junto daqueles que estavam a viver uma tragédia. Olhei para o relógio, levantei-me e terei dito algo como isto: “O meu comandante tem coisas muito importantes a fazer imediatamente, tem soldados em grande tristeza que precisam de receber o seu estímulo. Sei que vai fazer um sacrifício, penso que está fisicamente incapaz para esta viagem, mas o seu lugar não é aqui. Deixo-o para se vestir, desejo-lhe muita coragem para os momentos que vai viver”. O Pimbas partiu e não esqueceu o empurrão que lhe dei, mais de um ano depois.

No dia seguinte, Cherno vem chamar-me ao meu quarto, o régulo Malã e Mussa Mané, o chefe de tabanca de Missirá, querem falar comigo. Estou a ser convidado a acompanhar o comandante da CCS, capitão Passos Marques, a Missirá, o gerador já está a funcionar. Hesito e depois digo que sim, é impossível recusar. Partiremos amanhã no Sintex até Gã Gémeos, hoje tenho expediente na secretaria, à noite emboscada no Bambadincazinho, a manhã será passada em Madina Bonco. E começo a tratar do expediente. Dauda Bari acaba de ser promovido a primeiro cabo, o pelotão vai receber a notícia com regozijo, é o primeiro cabo de etnia fula. Uma secção acompanha uma equipa de cinema que vai filmar nos Nhabijões; trabalho no processo da condecoração de Mamadu Camará, começo a amaldiçoar os questionários e exposições torrenciais, nisto bate-me à porta o Príncipe Samba, chegou ontem à noite de Bissau, ainda se apoia a uma bengala, tem fractura de calcâneo, cambaleia um pouco, disfarça com o seu andar elegante. Leio o parecer da Junta Médica, é um escândalo, é uma indignidade o que ali vejo escrito: deve permanecer ao serviço como favor do batalhão, já que os milícias não têm direito de passar aos serviços auxiliares. Sinto que me vou envolver numa nova luta, mais um labirinto burocrático, mas o Príncipe Samba merece, pela sua valentia e dedicação às milícias de Missirá que superintende como um dedicado chefe militar.

Da visita a Missirá, retiro de um aerograma as impressões que enviei à Cristina: “Chegámos ao princípio da tarde, e, embora na época das chuvas, estava um dia ensolarado. Ligou-se a moderníssima instalação eléctrica, a tarde tornou-se irreal, até me lembrei do céu transtornado pelos tornados quando ligaram os potentes holofotes nos postos de vigia. Valeu a pena a interminável correspondência para a engenharia de Bissau, durante mais de meio ano. À noite vimos cinema, um filme de Sarita Montiel, “La Violetera”, um sucesso que esteve meses a fio no Odeon, não sei há quantos anos. O régulo Malã, Quebá e Lânsana estavam na primeira fila, mirones gulosos. Nunca imaginei ver Sarita Montiel em Missirá, coleante e de ar fatal. Contive as minhas emoções, de manhã acompanhei o capitão de Bambadinca na visita às instalações do aquartelamento, regressámos logo, eu tinha o pretexto de partir para um patrulhamento entre Samba Silate e Amedalai. Apareceu-me Braima Mané, voltou a levar uma tareia do irmão, tive que ir à feira fazer as pazes entre os dois. No final, Malã, o irmão, coseu-me os calções a troco de uma lata de sardinhas. Não é a primeira vez. Não devia ter voltado a Missirá, já li várias vezes que o criminoso não deve voltar ao local do crime”.

Uma recordação inesquecível de “Literatura dos negros”

Tenho que devolver livros à D. Violete, é uma braçada de obras de valor desigual, apontei tudo no meu caderninho: “Guiné, Alvorada do Império”, 1952, Bolama; “Guiné: apontamento histórico”, por Amadeu Cunha, Lisboa, Litografia Nacional; “Guiné, minha terra”, por Armando de Aguiar, 1964, Agência Geral do Ultramar. Ainda folheei “A Guiné, suas características e alguns problemas”, por Fernando Simões da Cruz Menezes, nada me satisfez. Mas o último livro, “Literatura dos negros, contos, cantigas e parábolas”, pelo padre Marcelino Marques de Barros, publicado em 1900, aguçou-me a curiosidade, devorei e repeti. Li e tomei nota do seguinte extracto do conto “A noiva da serpente”:

“Havia nas terras dos mandingas uma bonita aldeia, a qual com o rumor e o bulício da sua numerosa população animava as clareiras de uma imensa floresta.

É, a diferentes títulos, uma obra de consulta obrigatória para conhecer o que se estava a passar na Guiné, após a implantação da República. Carlos Pereira era o Governador nomeado pela República, 2.º Tenente da Armada, omem entusiasmado e culto. O texto é uma exaltação das potencialidades económicas da colónia, como se quisesse afastar o fantasma de uma região sem qualquer futuro. O acervo fotográfico é insuperável: dinâmica em Bolama, Bissau, Buba, Cacheu, desvela-se as belezas naturais dos Bijagós, ilha após outra. Escolhi este par de Bijagós pela simples razão que me fascina a preocupação do fotógrafo , e que se mantém actual: um pano que funciona como um ecrã que esconde a vegetação circundante,não nos podemos distraír...

Ainda hoje, para as bandas do Sul e não muito longe desse lugar, encontra-se uma praia cujas areias reflectem o sol do meio dia como um grande incêndio: e uma fila de blocos de basalto partidos, tombados, ou suspensos no ar, cinge em hemiciclo essa estância povoada de espíritos encantados, de medos e de fantasmas.

Do outro lado, ao norte, onde os baobás, os cipós e as paudemas terminam com os seus maciços de verdura, desdobram-se, até onde a vista pode alcançar, extensas pradarias mosqueadas de garças brancas, de rebanhos, de mergulhões, de flamingos.

E a uma distância de cinquenta arremessos de lança, destaca-se no horizonte, como um gigantesco ramalhete, um bosque de tamareiras, de fetos arbóreos, e de festões de lianas, a cuja sombra umas nascentes de abundantes águas se ouvem cantarolar no meio de pedregulhos roliços e esverdeados”.

O que mais saboreio desta prosa é a verdadeira aculturação do padre Marcelino. É missionário e nasceu na Guiné, agora sente-se que está receptivo aos floreados literários da época, não sei se estou a ler Trindade Coelho ou Pinheiro Chagas, tenho dúvidas que ele se tenha deixado arrastar pelos odores autênticos da sua terra. Mas gostei muito e guardei regalado o que ele escreveu. É quando vou entregar à D. Violete estas leituras que ela me dá a notícia: “Senhor alferes, já sei mais alguma coisa sobre a Sociedade Agrícola do Gambiel, teve uma triste sorte. Encontrei num Boletim Cultural da Guiné Portuguesa de Outubro de 1948 a seguinte referência, isto num artigo sobre a nossa agricultura. Ora escute: “Ao longo do Geba estabeleceu-se em tempos uma exploração agrícola chamada Gambiel que nunca prosperou devido a erros de técnica na escolha do local para o fim em vista. Quando reconheceram tal erro já era tarde e impossível de remediar... Com esta empresa, da qual restam apenas umas dezenas de ares de cana sacarina, formaram-se núcleos indígenas (mandingas e fulas) que também cultivam cana que vendem à empresa, já próxima do último suspiro”. D. Violete justificava-se: “Não sou assim tão velha, a empresa do Gambiel já deve estar extinta há vinte anos. Mas vou falar com a gente do Cuor. Tenho ainda outras notícias para si...”. Interrompi-a, tinha o pelotão reagrupado, já devia ter partido para o patrulhamento de Samba Silate para Amedalai.

O Ministério das Colónias da 1.ª República pretendeu publicar anualmente um relato de tudo quanto se passava nas possessões do Ultramar. Falhou, mas 1916 teve direito a um bem elaborado anuário. O que tem muito interesse para nós é o mapa da época: os nomes das localidades, o posicionamento das etnias, a designação das diferentes regiões. Olhando o mapa à procura dos sítios onde combati, no Leste, não existe o Cuor, existe Gufie, fala-se em Sambel Nhanta (residência do régulo), mas aparecem em Badora nomes que nos eram familiares, como Fá e Bricama. Geba era muito mais importante que Bafatá. Curiosidades...

Um ataque aterrador a Demba Taco

De Nhabijão Cau a Samba Silate não são só os três quilómetros da carta. Em primeiro lugar, enveredamos pelos velhos arrozais, ora infecundos, vamos até ao tarrafe do Geba, à procura de canoas ou de outros indícios da presença da gente de Madina. Aparentemente, estes locais não estão a ser percorridos, todos os sulcos de ténues picadas estão votados ao abandono. Depois, rumámos para Samba Silate, aqui há indícios, são trilhos desencontrados, não abrem pistas. O sol declina, estugo o passo, incito a caminharmos rapidamente para Amedalai, uma secção da milícia local já terá picado até á ponte de Udunduma, a ver se regressamos a casa já com o lusco-fusco mas em segurança. É nisto que deflagram uns estampidos em cadência, é muito para lá de Amedalai. Chegados à tabanca, o fragor das explosões continua a aumentar, já identificámos dois canhões sem recuo e os morteiros 82 a flagelarem um qualquer aquartelamento. Converso com Mamadu Bari, ele confirma: “Naquela direcção só pode ser Demba Taco (ele acentua o “o” aberto, é capaz de ter razão, na carta escreve-se Demba Tacò), eles vieram com vontade de partir tudo”. Prontamente decido: não vamos regressar a Bambadinca, o Valente das transmissões vai informar o comando que partiremos de madrugada para Demba Taco, agora é impossível, não sei se há minas ou emboscada montada, com a primeira luz do amanhecer iremos ver o que se passou, peço viaturas até Amedalai, e que venha alguém da CCaç 12 ao romper da alva, entretanto, sairemos daqui com os militares e civis de Amedalai. Bambadinca responde afirmativo, estou autorizado a permanecer aqui, amanhã posso patrulhar e devo prontamente dar notícias depois. A mata estremece com as explosões ensurdecedoras, anoiteceu, ardem tabancas em Demba Taco, vê-se o fogo nos céus, daqui a um bocado vai sentir-se o fumo arrastado pela ligeira brisa. Nem parece a época das chuvas, agora está tudo seco, percebe-se a voragem do fogo lançado pelas balas incendiárias das costureirinhas. A hospitalidade de Amedalai surge com comida para todos, Mamadu Bari mandou preparar galinha com chabéu, está uma delícia, é pena ter de a acompanhar com água fresca, os soldados do Pel Caç Nat 52 agradecem oferecendo-se para fazer os turnos da noite, peço uma manta e vou dormitar, derreado, a olhar o céu estrelado, pedindo a Deus que poupe Demba Taco.

E com a primeira luz do dia partimos, ficam duas secções à espera do grupo de combate da CCaç 12. Sempre apreciei todo o itinerário entre a velha tabanca de Colicumbel e o palmar de Taibatá, há amplas lalas que sempre dissuadiram as gentes do Buruntoni, avista-se quem vai e quem vem à distância de vários quilómetros. Vamos velozes, em menos de duas horas, mesmo usando todas as cautelas, chegamos à tabanca em autodefesa de Taibatá onde fomos recebidos efusivamente por Cassamá Baldé, o comandante das milícias. Estão todos apreensivos, aguardavam uma coluna de auxílio, não esteja montada uma cilada à entrada de Demba Taco, aqui o mato é frondoso, ainda não se tinham capinado as bermas da picada. Levamos tudo quanto é padiola, estojo de maqueiro, os apontadores de dilagrama à frente, a flanquear os picadores. O odor a queimado é persistente, não há gente nas vizinhanças de Demba Taco. Já próximos, começamos a gritar a anunciar a chegada. Não somos recebidos em festa mas há contentamento no olhar de todos. Cherno Baldé, o comandante da milícia, é a máscara da exaustão e é com ele que percorremos os escombros do ataque devastador: sete moranças reduzidas a cinzas, caíram algumas fiadas de arame farpado, três adultos e cinco crianças estão estilhaçados com alguma gravidade, embora não haja perigo de vida.

Enquanto percorro esta terra calcinada, interrogo-me sobre a estratégia de terror montada entre povos africanos da Guiné. É verdade que neste regulado do Xime, desde a extinta Moricanhe até Amedalai, pontificam os beafadas que juraram resistir até ao fim, quem foi para o mato já decidiu há bem oito, nove anos, as escolhas estão feitas. Olhando aqueles semblantes cansados, eu tinha de me perguntar qual o perdão dos homens para estes cercos brutais, pilhagens e raptos, destruições imprevisíveis, os anos passam e vivo em agonia com este arremedo de guerra civil sob a caução das autoridades portuguesas. Com as padiolas aos ombros, regressamos a Amedalai onde as viaturas levam os sinistrados para Bambadinca. À tarde trouxemos cunhetes de munições, rolos de arame farpado, tesouras corta-arame, o indispensável para reinstalar alguma segurança. Ainda não sei, mas é a última vez que visito Demba Taco. Quando abraço Cherno Baldé é também pela última vez. Coisas que acontecem na paz e na guerra.

Um pequeno relatório de duas leituras muito importantes

Capa de João da Câmara Leme,Texto integral pela primeira vez publicado em Portugal,tradução de Cabral do Nascimento, Portugália Editora, 1962.Na prisão de Reading,condenado por «actos indecorosos»,Wlilde escreve uma longa carta a Lord Alfred Douglas, de quem fora amante.É um dos documentos mais confessionais e pungentes da melhor literatura.Wilde chamou à carta »In Carcere et Vinculis».É a última obra em prosa de Wilde escrita em inglês.È a história de uma relação que terminou no enxovalho de Wilde.Não falta à narrativa um tom amargo e de reprovação que irá culminar numa profunda reflexão sobre o amor cristão.Transcrevi em Bambadinca o final da carta:«Não temas o passado.Se te observarem que é irrevogável,não acredites.O passado, o presentee o futuro são apenas um instante aos olhos de Deus,perante quem diligenciamos viver.Tempo e espaço, sucessão e extensão:meras condições acidentais do pensamento».

De Profundis” é a última obra literária de Oscar Wilde em língua inglesa. É uma carta confessional dilacerante em torno de um amor impossível. Escrita na prisão Reading, fala dessa relação fatídica que destruiu a reputação de um dos maiores ficcionistas britânicos de todos os tempos. Descrevendo a amargura dessa relação insana que terminou no enxovalho e na condenação de Wilde, a narrativa confessional termina numa apoteose de esperança e sentida humildade “O que está à minha frente é o passado. Tenho de olhar para ele com diferentes olhos, fazer com que o mundo o observe com diferentes olhos e com que Deus o veja com diferentes olhos. Isto não o conseguirei se não o desconhecer, ou o menosprezar, ou enaltecer, ou o desmentir. Devo aceitá-lo todo inteiro, aceitando-o como parte inevitável da evolução da minha vida e do meu carácter; curvando a cabeça a tudo o que padeci”. A tradução de Cabral do Nascimento é insuperável.

Dos anos 50 para os anos 60, as Edições Bestseller, do Brasil, publicaram algum do melhor Simenon.Depois, a Bertrand revelou o humaníssimo Comissário,que fizera a tarimba nas esquadras,nos anos 60.Este Maigret não é bom,é fabuloso: um psicopata percorre o bairro de Montmartre matando mulheres como um verdadeiro serial killer.Após algumas diligências decorrentes de um cilada montada por Maigret,Marcel Moncin é detido.Maigret vai ao fundo de uma tragédia de fracasso e ódio pelas mulheres.A confissão do mulher do psicopata é um das páginas de ouro da literatura policial.

“Maigret arma uma cilada”, de Georges Simenon é também fascinante. Um serial killer aterroriza Montmartre, o comissário mais humano do mundo arma mesmo uma cilada e o resultado é mais digno de um filme de horror do que de um livro policial, é uma descida aos infernos de mentes doentias, duas mulheres que pretendem ter um psicopata nas mãos. O interrogatório final tem dignidade para constar nas páginas de ouro da melhor literatura policial de todos os tempos. Sim, foram boas leituras que me suavizaram os fantasmas e o ataque devastador a Demba Taco.

Agora, vou a correr a Bissau, serei ouvido no julgamento de Quebá Sissé, o nosso inesquecível “Doutor”. Depois volto para a rotina por pouco tempo. Aguarda-me o mês de Julho, todo o mês de Julho, na segurança ao alcatroamento da estrada Xime-Bambadinca. Foi uma nova rotina, mas cheia de surpresas. Como irei contar.
______________

Nota de CV:

(1) - Vd. último poste da série de 5 de Setembro de 2008 > Guiné 63/74 - P3172: Operação Macaréu à Vista - II Parte (Beja Santos) (42): Cartas de um militar de além-mar em África... (5)

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Guiné 63/74 - P3194: Historiografia da presença portuguesa em África (7): Alf Marques Geraldes, um homem de honra e de carácter (Beja Santos)

Um grande militar da Guiné: Alferes Francisco António Marques Geraldes

por Beja Santos (1)

Durante largos meses, ao longo dos dois últimos anos, frequentei regularmente a biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa que, a par da Biblioteca Nacional e do Arquivo Histórico Ultramarino, possui um valioso repositório de documentação sobre a nossa presença em África.

A Sociedade de Geografia tem uma particularidade: para além dos mapas, artigos museológicos, doações de investigadores, possui publicações próprias de uma importância inconfundível para se conhecer o nosso pensamento sobre as colónias.
A Instituição foi fundada no século XIX e ninguém ignora que teve uma grande importância na procura de fundamentação para a nossa presença no chamado Império Ultramarino. As primeiras décadas de sua actividade têm uma importância extrema e obrigatória para compreender a mentalidade do político, do militar, do colono e do investigador dessas partidas do mundo que pretendíamos ver associadas à História de Portugal e defendidas da cobiça das novas potências coloniais. É preciso lá ir e estudar. Atraído por essa dimensão das mentalidades da época, e para procurar contextualizar o que fazíamos bem como o que pensavam os portugueses da época da e sobre a Guiné, no último quartel do século XIX, procurei ler com a maior atenção o boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa.

Durante essas leituras deparei-me com um texto extraordinário, diria inconfundível, na dimensão da escrita, na consagração de um evento que moldou um herói. Não resisti a adaptar partes do documento ao livro O Tigre Vadio, simulei uma visita ao Centro de Estudos da Guiné Portuguesa, o que efectivamente aconteceu é que me emocionei com a estatura do militar, com a beleza do documento, os sentimentos genuínos e a pujança de valores que lhe estão subjacentes. Por tudo isso, não resisto a passar para o blogue o documento na sua íntegra. Ele está publicado no Boletim da Sociedade de Geografia, 3ª Série, 1882. Diz o seguinte:


Ilustríssimo e excelentíssimo senhor,

Em princípios de Março, os fulas pretos agrediram a pequena povoação de São Belchior, na margem direita do Geba, onde existiam alguns grumetes de Bissau, gente pacífica, que faziam algum comércio com os poucos recursos de que dispunham. Os fulas pretos, capitaneados por Deusá, queimaram as cubatas, levando prisioneiros, dez homens e duas mulheres, todos cristãos.

Este ponto fica sob a jurisdição imediata do presídio de Geba e no concelho de Bissau.

Depois deste ataque à povoação, foi Deusá com a sua corte para os lados de Geba, e parece que receando-se de algum agravo da parte do Governo Português, que ultimamente não tem poupado os díscolos, apresentou-se ao comandante do presídio de Geba, o alferes Francisco António Marques Geraldes, levando-lhe um presente de vacas e não lhe falando em nada do ocorrido.

Aquele oficial, sabendo então do procedimento do chefe em São Belchior, recusou-lhe e exigiu-lhe os prisioneiros que ele conservava em seu poder; o chefe intimidou-se e entregou os homens, pois as duas mulheres iam a caminho do Indornal, que fica a pouco mais de um dia proximamente ao SE de Gâmbia e dois dias proximamente ao NE de Selho.

Aquelas mulheres iam fazer naturalmente parte do serralho do régulo gentílico Dembel, potentado entre os fulas pretos, e a que todos o obedecem, e pai do agressor Deusa, ou então trocadas por vacas, conforme os usos do gentio.
Deusá desculpou-se com o chefe do presídio de Geba, por atacar aquela povoação, dizendo ignorar que São Belchior pertencia aos portugueses, entregando três dias depois os prisioneiros, explicando a impossibilidade da entrega das duas mulheres, aliás que lhe seriam também apresentadas.

Aqui principia a fase brilhante e digna do alferes Francisco António Marques Geraldes, comandante do presídio de Geba; participa o ocorrido para o seu imediato chefe, o comandante militar de Bissau, e dizendo que ia buscar as mulheres, estivessem onde estivessem, pedindo para ser relevado de não esperar autorização superior, pelo receio de que, esperando chegasse tarde, receio fundado, pois no dia seguinte à sua chegada ao Indornal já estariam trocadas por vacas, segundo os ajustes feitos.

Põe-se este oficial a caminho, acompanhado apenas de um enfermeiro ao serviço na praça, António Mendes Rebelo, de José Lopes, comerciante em Geba, e quatro grumetes para conduzir a pequena bagagem da expedição, levando fazendas, tabaco e cola na diminuta importância 35$000 reis, para lhe facilitar a passagem nos caminhos das diferentes povoações que tinha de atravessar.

Aí vai este oficial, convencido da sua nobre causa, em condições excepcionais, sem cómodos, sem força, levando consigo a ideia inabalável de que devia exigir e havia de trazer as duas mulheres cristãs, que abusiva e violentamente foram arrebatadas dos seus lares. Chegado à tabanca do régulo Umbucú, apresentou-se-lhe completamente uniformizado, dizendo quem era e qual era o seu destino. Este régulo, bastante poderoso e dominando o território vizinho de Geba, recebeu-o admiravelmente e ofereceu-lhe três cavalos para fazer a jornada e quatro fulas armados para o acompanharem, e seu filho para lhe servir de guia o obviar a algumas dificuldades de ocasião, que em seu trajecto lhe aparecessem.

Andando nove a dez horas por dia, percorreu aquele trajecto (cerca de 54 léguas) sob um sol ardente, bebendo má água, seguindo tranquilo e cônscio de que realizava a sua nobilíssima ideia. Atravessou o rio de Farim dia 15, dois dias a jusante desta praça, onde é estreitíssimo e obstruído de paus, de difícil navegação, e no dia seguinte o rio Casamansa, a maior distância de Selho, também a jusante, chegando no dia 16 às 8 horas da noite ao Indornal.

No dia seguinte, expôs ao régulo Dembel o fim da sua visita, declarando-lhe as boas relações que tem havido entre o Governo Português e os da sua raça; que não poderia acreditar que ele, régulo, permitisse as correrias dos seus, o que obrigava o Governo Português a usar de represálias, como já tinha procedido para com os fulas forros, beafadas e todos que praticassem violências com gente sossegada, que apenas trata do seu comércio, concluindo por exigir as duas mulheres e uma indemnização para aqueles que sofreram na agressão em São Belchior.

O régulo ouviu no mais profundo silêncio a peroração do oficial e considerou-a caso tão melindroso, que só depois de conferenciar com os seus “maiores” lhe poderia responder. No dia seguinte mandou-o chamar e disse-lhe que estava pronto a entregar as duas mulheres que o seu filho tinha mandado para ali; que a indemnização aos roubados não podia ser a que ele entendia dever satisfazer, pois havia pouco tinham sido devoradas pelas chamas duas povoações importantes, como o próprio oficial presenciou, e daí grandes despesas a fazer para abrigar os seus vassalos; que também ia mandar cavaleiros buscar seu filho para o repreender e proibir-lhe de fazer guerra sem ordem dele, e que nunca pudesse indispô-lo com o governo português.
Convidou-o a esperar pelo regresso do filho.

No dia 24 apareceu o filho Deusá e foi severamente repreendido pelo pai, entregando este as duas mulheres e 40$560 réis para distribuir pelos prejudicados de São Belchior.

O oficial saiu do Indornal sendo acompanhado por Mussá, sobrinho e sucessor do régulo Dembel e seu primeiro cabo-de-guerra, em quem deposita toda a confiança. A este ofereceu o alferes Geraldes uma espingarda de repetição que possuía, como presente dos seus bons serviços. Mussá declarou que em quaisquer circunstâncias que o governo português carecesse dos seus serviços, que podia contar com ele e com toda a sua gente, cuja força é superior a 6000 homens.

No dia 26 saiu às 3 horas da tarde do Indornal, seguindo o mesmo itinerário, tendo sido, tanto na ida como no regresso, admiravelmente recebido pelos povos onde passou.
Causou espanto no Indornal a aparição do oficial, pois ali nunca esteve um europeu, chegando a pedir-lhe para descalçar as botas, duvidando se também o corpo era branco.

Exmº Sr., um oficial que assim procede, nas condições e fim nobre como realizou esta expedição, parece-me merecedor de uma remuneração condigna, que à munificência régia lhe apraza conceder. Este oficial levou a sua abnegação a querer custear as despesas à sua custa, não obstante os seus pequenos vencimentos, e só instado é que se resolveu a mandar para a junta da fazenda a despesa feita, que importa apenas 70$000 réis.

Pedindo toda a atenção de V. Ex.ª para o serviço relevante que o alferes Francisco António Marques Geraldes acaba de prestar ao país, entendo cumprir o meu dever levando ao conhecimento de V. Ex.ª tão relevante serviço.

Deus guarde a V. Ex.ª Palácio do Governo em Bolama, 4 de Maio de 1883.

Pedro Ignacio de Gouveia, governador.

__________

Nota de BS:

Marques Geraldes continuou a prestar relevantes serviços à Guiné, foi um destemido combatente e responsável colonial. Limitei-me aqui a transcrever uma carta elaborada com primores literários e revelando um nobre carácter, de acordo com as pautas da época.

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Nota dos editores:

(1) Beja Santos (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70).

Guiné 63/74 - P3193: Blogpoesia (25): Hoje tenho pena de nunca ter escrito um aerograma a uma madrinha de guerra (Luís Graça)


"Que cada uma de nós se lembre que lá longe, nas províncias ultramarinas, há rapazes que deixaram tudo: mulheres, filhos, mães, noivas e o seu trabalho, o seu interesse, tudo enfim, para cumprirem o seu dever de soldados.

"É preciso que as mulheres portuguesas se compenetrem da sua missão, e assim como eles estão cumprindo o seu dever, lutando pela nossa querida Pátria, também vós tendes para cumprir o vosso, lutando pelo bem-estar dos nossos soldados- luta essa bem pequenina, pois uma só palavra, um pouco de conforto moral basta para levar alguma felicidade aos que estão contribuindo para a defesa da integridade do nosso Portugal.

"OFEREÇAM-SE PARA MADRINHAS DE GUERRA. MANDEM O VOSSO NOME E A VOSSA MORADA PARA A SEDE DO MOVIMENTO NACIONAL FEMININO".
"Madrinhas de guerra". In: Presença, nº 1, 1963, p. 36-37).



Com o atraso de décadas,
quiçá de séculos,
presto hoje o meu preito
às mulheres portuguesas
que se vestiam de luto
enquanto os maridos
ou noivos
ou namorados
ou irmãos
ou vizinhos
ou conterrâneos
ou simplesmente amigos
andavam na guerra do ultramar.
Ou guerra colonial, como se queira.
Já foi há tanto tempo
que eu perdi as contas aos contos,
às estórias,
às vidas,
às lendas,
às narrativas.

Venço, por fim, a minha relutância,
o meu preconceito,
o meu medo do irracional
e porventura o meu medo visceral do sagrado,
e presto a minha homenagem
às mulheres que rastejavam no chão de Fátima,
implorando à Virgem o regresso dos seus filhos,
sãos e salvos.
Só as mulheres, em bando, são capazes
de implorar a piedade dos deuses
e ao mesmo aplacar a sua ira,
quantas vezes sacrificando as suas próprias crias,
para logo a seguir imprecar contra eles,
se for caso disso.

Decididamente,
sem pejo nem pudor,
presto aqui a minha homenagem
às mulheres que continuavam,
mudas e caladas,
silenciosas e inquietas,
ao lado dos homens
nos campos,
nas fábricas
e nos escritórios.
Por que havia um silêncio
que não era cumplicidade,
que não era traição,
que era inquietação,
que não era resignação,
que era a raiva a crescer
dentro do peito,
que era porventura já
a emergência, a explosão
da revolta e da liberdade.

Descubro a cabeça,
tiro o chapéu,
ajoelho-me,
sinto-me prostrado
perante estas mulheres do meu país
que ficavam em casa,
rezando o terço à noite,
como a minha mãe
e as minhas irmãs
e até o meu pai,
a quem, de resto,
nunca agradeci este gesto de amor.
Nem em público nem em privado.
Nunca saberia, porventura, merecê-lo
nem muito menos agradecê-lo.

Mas também endosso
as minhas palavras de admiração
às que aguardavam com angústia,
pelo aerograma,
na hora matinal
(e às vezes mortal)
do correio,
vindo do SPM número tal.
SMP: que estranha sigla,
que misteriosos mensageiros
vindos do além,
do além-mar.
Sem esquecer as que,
muito poucas,
subscreviam abaixo-assinados
contra o regime e contra a guerra.
Às que, tão poucas que se contavam pelos dedos
nos ficheiros das polícias,
escreviam,
liam,
tiravam a stencil
e distribuíam
comunicados e folhetos clandestinos.

Às que, também raras,
sintonizavam altas horas da madrugada
as vozes da rádio que vinham de longe
e que falavam de resistência
em tempo de solidão
e de servidão.

Homenageio, sim, àquelas que, muitas,
tiravam carinhosamente
do fumeiro (e da barriga)
as chouriças
e os salpicões
e os nacos de presunto
e as morcelas
e as alheiras
e o pernil de porco
que iriam levar até junto dos seus filhos,
homens-toupeiras,
de Gandembel a Nambuangongo,
no outro lado do mundo,
no calor dos trópicos
e na humidade repelente dos abrigos e das matas,
um pouco do amor de mãe,
das saudades da terra,
dos cheiros da casa,
do campo,
do esterco e dos animais,
dos sabores da comida,
e da alegria da festa.

Mas também, e por que não,
às, muitas,
e em geral adolescentes, virgens,
e às jovens solteiras,
namoradeiras,
que se correspondiam com os soldados
mobilizados para o ultramar,
na qualidade de madrinhas de guerra.
E que alegria, tão primária, era essa
de receber um bate-estradas,
um corta-capim,
um aerograma,
uma carta
com uma madeixa de cabelo lá dentro,
lá no SPM mais desgraçado do mundo!
Que alegria, tão elementar,
e que eu nunca tive
de ver posar o teco-teco
na pista de terra-batida
com o tão desejado saco do correio.

Não tive, nunca quis ter,
madrinha de guerra,
por preconceito,
por orgulho e preconceito,
por achar que era uma instituição ou criação
do Estado Novo,
dos senhores da guerra,
e das senhoras que os geravam…

Hoje, confesso, tenho pena
de nunca ter escrito um aerograma
a uma madrinha de guerra.

Luís Graça

Lisboa, 1981/2008
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Notas de L.G.:

(1) Vd. alguns dos postes relacionados com esta temática:

10 de Fevereiro de 2008 > Guiné 63/74 - P2519: As Nossas Madrinhas de Guerra (1): Os aerogramas ou bate-estradas do nosso contentamento (Carlos Vinhal / Luís Graça)

16 de Fevereiro de 2008 > Guiné 63/74 - P2543: As Nossas Madrinhas de Guerra (2): Minha querida Madrinha de Guerra (José Teixeira)

20 de Fevereiro de 2008 > Guiné 63/74 - P2562: As Nossas Madrinhas de Guerra (3): Quem as não teve ? (Luís Graça / João Bonifácio / Paulo Salgado)

22 de Fevereiro de 2008 > Guiné 63/74 - P2572: As Nossas Madrinhas de Guerra (4): Madrinhas de Guerra (II) (José Teixeira)


(2) Vd postes anteriores desta série (que vão de 1 a 10 e de 22 a 24; houve um erro na numeração, que se entendeu não valer a pena corrigir):

6 de Setembro de 2008 > Guiné 63/74 - P3178: Blogpoesia (24): A minha pequenez é que era uma tristeza (Rui A. Ferreira)

4 de Setembro de 2008 > Guiné 63/74 - P3169: Blogpoesia (23): Amálgama de sentimentos e emoções...(Rui A. Ferreira)

6 de Agosto de 2008 > Guiné 63/74 - P3115: Blogpoesia (22): No mesmo navio, piscina e música em camarote de 1ª, suor nos porões...(José Belo).

30 de Março de 2008 > Guiné 63/74 - P2701: Blogpoesia (10): Olhando para uma foto minha, no Mato Cão, ao pôr do sol, com o Furriel Bonito... (Joaquim Mexia Alves)

27 de Fevereiro de 2008 > Guiné 63/74 - P2589: Blogpoesia (9): Sangue derramado (José Manuel, Mampatá, 1972/74)

27 de Fevereiro de 2008 >Guiné 63/74 - P2585: Blogpoesia (8): Viagem sem regresso (José Manuel, Fur Mil Op Esp, CART 6250, Mampatá, 1972/74)

12 de Novembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2259: Blogpoesia (7): Nas terras de Darsalam, no Cantanhez, adormeceste, para sempre, como herói, meu querido Sasso (J.L. Mendes Gomes)

7 de Novembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2248: Blogpoesia (6): África Raiz, de Fernanda de Castro

16 de Outubro de 2007 > Guiné 63774 - P2180: Blogpoesia (5): O vigésimo sexto aniversário de um gajo nada sério, Missirá, 6 de Novembro de 1970 (Jorge Cabral)

23 de Setembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2125: Blogpoesia (4) : A morte do pássaro de areia (Luís Graça)

30 de Julho de 2007 > Guiné 63/74 - P2009: Blogpoesia (3): Explorador ? Mineiro ? Não, um Soldado ! (Jorge Cabral)

18 de Julho de 2007 > Guine 63/74 - P1964: Blogpoesia (2): O Combatente (Magalhães Ribeiro)

17 de Julho de 2007 > Guiné 63/74 - P1963: Blogpoesia (1): O embondeiro do Cachil (J. L. Mendes Gomes)