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sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28441: Notas de leitura (1971): Artigo desassombrado sobre a Guiné, ao lado de outro de Zófimo Consiglieri Pedroso, sobre a guerra russo-japonesa na revista Brasil-Portugal, de 16 de novembro de 1905 (Mário Beja Santos)

Capa da revista Brasil-Portugal, edição de 16 de novembro de 1905. Aspeto curioso é a publicidade a uma água que foi famosa, Lombadas, tinha a sua nascente na ilha de São Miguel, Açores, quando prestei serviço militar como aspirante a oficial miliciano no Batalhão Independente de Infantaria nº 18, Arrifes, a escassos quilómetros de Ponta Delgada, descobri esta belíssima água de mesa.

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 27 de Julho de 2026:

Queridos amigos,
A Biblioteca da Sociedade de Geografia permite por vezes estes tesouros, eles surgem inesperadamente, anda-se à procura de trabalho sobre a cidade de Tomar, tinha havido uma excursão científica ao património tomarense, o Dr. José Vieira Guimarães, conceituado médico e historiador proferira palestra e andara como guia entre a cidade e o Convento de Cristo, e é a folhear os números da revista Brasil-Portugal,, publicação que é da sua existência entre 1899 e 1914, que aparece este trabalho sobre a Guiné, algumas destas imagens eram-me desconhecidas, outras não tanto.Porventura correspondente, o autor não está para vénias nem laudes, diz verdades como punhos, revela o estado da colónia, o domínio total do comércio por franceses e alemães, a permanente incúria num território com potencialidades agrícolas de indiscutível valor, falham estrondosamente os investimentos portugueses.

Um abraço do
Mário



Artigo desassombrado sobre a Guiné, ao lado de outro de Zófimo Consiglieri Pedroso, sobre a guerra russo-japonesa na revista Brasil-Portugal, de 16 de novembro de 1905

Mário Beja Santos

Brasil-Portugal era uma revista quinzenal ilustrada, editou-se entre 1899 e 1914. De algum modo concorria com a revista Ocidente, eventos sobre a família real, visitas a lugares com património, noticiário sociopolítico; no caso vertente da Brasil-Portugal havia o foco de procurar sensibilizar os leitores de ambos os países não só para os laços irmãos como mostrar, dito em linguagem de hoje, as potencialidades da cooperação, despertando os interessados também para as possibilidades de investimento.

Ora neste número de novembro de 1905, temos um desassombrado artigo sobre a Guiné, encavalitado com outro da autoria do escritor Zófimo Consiglieri Pedroso, que foi Presidente da Sociedade de Geografia de Lisboa, vai explanar sobre a guerra russo-japonesa que debilitou profundamente o regime czarista.

Indo ao que interessa, vejamos o que um autor anónimo, porventura correspondente da revista, veio dizer sobre o estado da Guiné:
“A enorme região da Guiné, tão descurada e quase desconhecida, é uma inesgotável mina de tesouros que ninguém pensou nunca em explorar, levando para ali capitais e elementos do trabalho. A nossa tradicional indolência e o receio do risco em matéria de empresas, tem deixado no abandono aqueles riquíssimos territórios em que há séculos dominamos dormindo. Todos os países coloniais tendem a desenvolver as suas possessões, e os que não as têm vão fixar-se nas alheia, explorando-as comercialmente e estabelecendo carreiras de navegação para os seus produtos que assim valorizam. Nós cruzamos os braços e assistimos impassíveis a essa invasão que pouco a pouco vai sugando o que poderia enriquecer-nos. É o que sucede na Guiné, em que a parte continental e a parte do arquipélago se medem por muitos milhares de quilómetros quadrados.

Hoje pode dizer-se que a Guiné é apenas uma grande feitoria comercial de alemães e de franceses que se limitam a importar mercadorias para a permuta sempre vantajosa com os produtos indígenas, numa luta contante de interesses e de competência. O negócio com os naturais no país está quase exclusivamente nas mãos desses concorrentes que auferem lucros fabulosos em prejuízo dos poucos portugueses que ali moirejam.

Nos séculos XVII e XVIII, Geba, Cacheu, Farim e Buba tiveram grande importância como depósitos de escravos, mas caíram em decadência, e estão reduzidos a pequenos povoados sem vida. Atualmente os verdadeiros centros comerciais são Bolama e Bissau. Na Guiné há comércio apenas, e esse acanhado, sempre o mesmo, sempre assente na troca de produtos e na exploração do trabalho do indígena.

Em agricultura não se pensa. A orientação sobre os modernos processos de plantação é nula. No entanto, os terrenos são feracíssimos, o clima e a humidade dos plainos os mais adaptados para todas as culturas intertropicais, e alguns dos seus portos naturais são amplas enseadas onde poderiam fundear navios das maiores lotações, a sua verdadeira riqueza seria a agricultura, que se mantém rudimentar. Começam a surgir tendências para um impulso agrícola. Mas não bastam esses movimentos isolados. Torna-se necessário que os governos coadjuvem essas iniciativas e que os capitais portugueses afluam corajosamente e concorram para o engrandecimento daquela província, hoje encravada em território francês. Poucos anos de cultura bastariam para se transformar a Guiné que, pela sua situação especial, pela sua flora, pelos seus jazigos mineiros, tem direito a sair da miséria em que se acha, e a deixar de ser, como é, um pedinte morrendo de fome sobre montanhas de ouro (…) A Guiné não tem défice. Vive com os recursos dos direitos aduaneiros e o imposto de palhota. Contém uma grande variedade de raças, sendo as menos atrasadas as dos Fulas e Mandingas, gente belicosa, mas submissa ao Governo e com ótimos marinheiros. Os Papéis, ainda asselvajados, são belos carregadores e os mais aproveitáveis para os trabalhos de campo.”


As gravuras que hoje publicamos foram-nos enviadas pelo nosso correspondente na Guiné e referem-se à viagem que o Governador, Senhor Carlos Pessanha fez há pouco tempo no interior, pelo rio Geba, e onde se reuniram 22 régulos com as suas comitivas compostas de Fulas e Mandingas, formando um grande exército de 20 mil homens a cavalo e a pé, e todos armados de espingardas e de espadas, estas fabricadas por eles próprios. Inesperadamente o texto muda para a guerra russo-japonesa, Zófimo Consiglieri Pedroso tinha a seu cargo a secção de política internacional, ela aparece dentro deste artigo da Guiné Portuguesa, todo o artigo que ele publica sobre o conflito russo-japonês está enxameado de fotografias da referida visita do governador Carlos Pessanha. Para que conste.


Fotografia do novo governador da Guiné (fevereiro de 1905 a agosto de 1906), publicada na Revista Brasil-Portugal, na sua edição de 16 de agosto de 1905
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Nota do editor

Último post da série de 12 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28430: Notas de leitura (1970): "Fado Alexandrino", por António Lobo Antunes; Publicações Dom Quixote (1) (Mário Beja Santos)

domingo, 11 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28426: Monografia de Fajonquito-Sancorla - Uma pequena contribuição (2): Sancorla no contexto das guerras entre fulas e mandingas...; Início da guerra e a deslocação das primeiras Unidades Militares para Fajonquito e Imagens de Fajonquito (1964-1974) (Cherno Baldé)

MONOGRAFIA DE FAJONQUITO-SANCORLA

“UMA PEQUENA CONTRIBUIÇÃO”


Natural de Fajonquito (Farimbali), nascido em meados de 1960 e baptizado em Sintchã Samagaia ou Luanda na margem direita de Berecolom.
Frequentou o Curso Geral dos Liceus em Bafata (1975/79) e o Complementar no Liceu Nacional Kuame N’krumah em Bissau.
De 1985 a 1990 fez estudos superiores de licenciatura e mestrado no Instituto Superior de Economia de Kiev que ostentava o nome do lider Soviético de origem ucraniana Demyan Serhiyovich Korotchenko (ex-URSS).
De 1993 a 1995 fez um Curso de Pós-graduação no Centro de Estudos Africanos do ISCTE-IUL de Lisboa e de 2001/2003 frequentou um curso de mestrado sobre a Cooperação Internacional e Desenvolvimento no ISEG/UT, Lisboa, Portugal.
Trabalhou sempre em Bissau com varias deslocações aos países da sub-região, primeiro como funcionário Publico do Ministério das Obras Públicas, Construções e Urbanismo, depois como Director Executivo da Associação Profissional das Instituições de Microfinanças (AP-SFD-GBissau) tendo, de seguida, trabalhado como Consultor/Gestor e Analista Financeiro em vários projetos de Desenvolvimento ligados a organizações internacionais, nomeadamente Banco Mundial, BAD, UE (FED-Célula de apoio ao MEF em Bissau) e no Sistema das NU/PNUD, de 2013 a 2026.



4. SANCORLA NO CONTEXTO DAS GUERRAS ENTRE FULAS E MANDINGAS DURANTE A ÉPOPEIA DE ALFA MOLO E DO SEU FILHO MUSSA MOLO, REIS DE FIRDU OU FULADU (Taryk Fuladu)

Quem terá sido o primeiro habitante de Canhámina? Uma pergunta difícil de responder porquanto, os actuais habitantes de Sancorlá seriam capazes de jurar, a pés juntos, que foram os seus antepassados e com provas provadas dentro do esquema mitológico habitual do tipo: “Era uma vez, a família de caçadores do grupo dos nossos antepassados que, após um longo percurso, em perseguição de um animal de caça, acabaram por desembocar neste local milagroso…” O que, porém, não deverá suscitar muita controvérsia, é o facto de que estas paragens já eram habitadas por populaçoes Banhuns, (Bainouks ou Soninkés?) quando os Fulbhé (fulas) chegaram com as suas manadas de gado, vindos de Macina (Mali), de Boundu (Senegal) ou Futa-Djalon (Guiné-Conacri). Conta-se que, no seu périplo pela região na primeira metade do século XIX, o Cheik El-Adj Omar, futuro imperador do Sudão ocidental, teria passado por aqui a caminho de Futa-Djalon acompanhado do seu djatigui (2) e futuro Silatigui, o rei de Firdu, Alfa Molo Baldé, a quem ele teria dado todas as terras situadas entre as bacias dos rios Gâmbia e Geba, mais concretamente até ao local designado Dandum (Dandum Cossará), à condição que as pudesse retirar aos “infiéis” reis Soninquês, claro. Despediram-se após ter recebido das mãos do grande homem de letras a promessa de que a sua aventura seria coroada de êxito.
De regresso a casa, Alfa Molo convocou os grandes de entre os Fulbhé [fulas,] e disse-lhes:
- Como todos sabem, desde que vivemos entre os Soninquês [, ou Saracolés, na gravura, 1890, cortesia de Wikipédia], não somos mais os donos das nossas vacas, das nossas ovelhas nem das nossas próprias mulheres, por isso, vamos combatê-los e acabar com os seus abusos de poder.


Os grandes de entre os Fulbhé após terem escutado e, cheios de medo, responderam:
- Nós não vamos combater os Soninquês e tão pouco iremos ajudar aquele que o irá fazer. Então o Alfa Molo levantou-se em toda a sua altura e, sacudindo o fundilho das calças, disse a frase que ficaria para sempre gravada nos anais da história épica do reino de Firdu: “Se não me ajudarem a combatê-los, então ajudar-me-ão a fugir”, teria ele dito. E foi assim que tudo começou, Alfa Molo e os seus apoiantes entrincheirados no seu campo de refúgio que apelidaram de M’ban Ulém ou seja recusa total, atacaram os Soninquês e, com o apoio decisivo dos Almamis de Futa-Djalon, acabariam por conquistar a região e instalar o reino de Firdu (Fuladu), repartido em pequenos regulados entre os quais o de Sancorla que, mais tarde sera confiado aos seus aliados locais (Dadina pai do Samba Sáhabu?) e que, vindos de Panambô e de kerewane (perto da actual localidade de Sare-Bacar) escolheriam, mais tarde, para capital a localidade de Canhámina.


Na lógica e sub-mundo do homem e da consciência tradicional africana, nada acontece por acaso, tudo se justifica e se fundamenta em fórmulas simples e ao mesmo tempo complexas, e neste caso concreto de Canhámina (Sancorla), conta-se que a origem da força e do poder local se devia à conjunção de determinados factores de ordem mística e que, por conseguinte, a perda daquela força e do poder, verificada mais tarde (1974),  se deveu a violação do princípio regulador do equilíbrio ou pacto inicial estabelecido, que começou com a penetração de elementos estranhos ao meio, entrando nesse leque tudo o que veio a ligar-se com o processo da dominação colonial, da submissão e da penetração do sistema mercantilista da produção e comercialização (borracha, coconote, pele de animais, amendoim etc.); de elementos novos de sujeição, de opressão e alienação cultural e espiritual que se lhe seguiram os passos, onde os impostos de capitação e a balança dos comerciantes eram os elementos mais nocivos dentro do sistema de exploração e empobrecimento das populações, terminando com a entrada silenciosa e criminosa dos guerrilheiros do PAIGC que transformaram o recinto dos poilões num campo de tortura e de exterminação dos próprios filhos de Sancorla.

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Conta-se que, antigamente, da mata de poilões situada no centro de Canhámina, descia uma linha de força para sul até a floresta de palmeiras (Surumael), situada nos limites do regulado e no meio da qual se encontrava uma nascente cujas águas abasteciam a população da aldeia, estando ligada, por sua vez, à bolanha de Suncudjuma (prolongamento da bacia hidrográfica do rio Farim-Canjambari). Surumael (mata húmida) representava o ângulo feminino do triângulo de Canhámina onde se praticavam não só a produção do arroz nas terras baixas mas também todos os rituais femininos ligados a educação e/ou reprodução social (cerimónias de casamento, fanados etc.). De Surumáel, seguindo sempre o percurso da bolanha a Oeste, até à distância de três km, estava situado o terceiro ângulo ou o complexo masculino, a lagoa de Djunkoré, formado, por uma extensa área alagada durante a estação das chuvas e no meio da qual se encontrava uma extensa lagoa de água doce, bem no centro da bolanha. As populações das aldeias mais próximas e as aves pescadoras vinham aqui encontrar os peixes que subiam com as águas do rio Farim/Canjambari. Também aqui davam de beber as grandes manadas de gado (vacas, ovelhas, cavalos) que faziam o prestigio económico da região, acompanhadas de crianças nuas e barulhentas, com as flautas numa mão e as varas noutra na vasta planicie da bolanha de Suncudjuma. Na margem esquerda do lago Djunkoré encontrava-se um poilão bem alto e que, durante o período nocturno, irradiava uma luz florescente provocando o efeito bômina (claridade), que era visível a uma grande distância. Djunkoré funcionava como o refúgio dos homens e das aves, onde se praticavam as cerimónias e rituais masculinos. Todas as gerações passadas fizeram-se homens neste espaço mítico e verdejante.

Deste ângulo subia outra linha de retorno à aldeia, formando assim uma espécie de triângulo, o triângulo de vida de Canhámina. O conjunto formava assim um ambiente natural propício para a vida animal, em particular das aves selvagens. Mas, também constituía o centro da vida económica, social e cultural da aldeia e seus arredores. E, numa escala maior, reproduzindo fielmente o triângulo de Canhámina, a organização social e política do regulado, também, se apoiava em três pilares ou áreas geográficas (diwé): A área de Canhámina (ângulo sudoeste) onde habitava o régulo, patriarca e irmão mais velho, Buran-Djame; a área de Lenkebémbe /Cambajú (ângulo noroeste) entregue a família de Demba Udé ou Dema-Duora e a área de Kerwane/ Panámbo (ângulo nordeste), entregue a família de Samba Udé; cada uma das quais gozando de uma certa autonomia. Esta divisão territorial e administrativa fomentava muitas rivalidades, algumas das quais ainda hoje subsistem, mas também era factor de concorrência e de dinâmica criativa que permitia manter a necessária coesão social e política assim como a chama guerreira do regulado que permitia fazer face aos ataques e investidas de grupos de resistência Soninkés e, mais tarde, poder aguentar os assaltos da guerrilha no início da guerra colonial ou luta da libertação nacional conduzida pelo movimento rebelde do PAIGC (1963/74) ao qual eles não quiseram aderir, preferindo continuar a antiga aliança com a administração colonial portuguesa, desconfiados pela adesão massiva dos mandingas a este movimento e que se assemelhava a uma tentativa de recuperação dos seus domínios recentemente conquistados pelos fulas e seus aliados de Futa-Djalon.

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Todavia, a sucessão de Alfa Molo na segunda metade do Séc. XIX, não viria a ser nem bem sucedida e muito menos pacífica, obrigando ao seu sucessor, o intrépido Mussa Molo, a disputar não somente o trono com outros pretendentes dentro da família, como fazer face a pretensões autonomistas dos pequenos regulados em que estava dividido o reino de Fuladu, com particular incidência naqueles cuja liderança era chefiada por Fula-Forros, antigos suseranos e pouco inclinados a aceitar a vassalagem vis-a-vis de Fula-pretos cujo poder representava Mussa-Molo, sob o olhar atento dos Almamis de Futa-Djalon e ainda com a presença cautelosa mas insidiosa das potências europeias (os Portugueses a partir de Farim e Geba, os Franceses a partir de Sédiô no Senegal e os Ingleses na foz e ao longo do rio Gâmbia) que cobiçavam a região meridional do novo império de Fuladu (Firdu) dirigido por Mussa Molo Baldé.

Nestas circunstâncias, os pequenos regulados Fulbhé do nordeste e leste Guineense tinham que escolher entre submeter-se às ordens e a tirania de Mussa-Molo, apoiado sub-repticiamente pelos Franceses, ou aliar-se aos Portugueses. Assim nasceu a aliança de interesses entre Fulas e Portugueses que, tudo somado, pareciam distantes e sem quaisquer interesses em comum. Porém, esta aliança fortuita não estava isenta de algumas contradições. Os pequenos regulados fulas, de um lado, precisavam dos Portugueses para se proteger das ameaças e razias constantes dos homens de Mussa-Molo mas, sendo muçulmanos, eram portadores de um inevitável “proselitismo religioso” que estava na base da sua libertação e do seu poder conquistado perante os Soninquês.

Os portugueses, por seu turno, precisavam de aliados no interior onde não conseguiam chegar para fazer valer as suas pretensões para lá do rio Geba mas, também, tinham na bagagem a Bíblia e o compromisso da salvação de almas perdidas para justificar as suas conquistas de além-mar. Mas tarde e, sempre que se sentiriam aflitos, os portugueses não hesitariam em recorrer aos seus aliados muçulmanos do interior (Fulas e Mandingas) para reprimir os povos guerreiros “animistas” do litoral Guineense mas, logo que se sentiam minimamente aliviados da pressão, se apressavam a afastá-los destas zonas para não espalhar a sua indesejada influência religiosa com a qual não compatuavam. Com Teixeira Pinto e seus auxiliares muçulmanos, especialmente Abdul Indjai, os portugueses fecharam o capítulo da conquista e pacificação (?) do território da Guiné no início do século XX, impondo de seguida, a todos os habitantes da Guiné, a obrigação do pagamento de impostos. Com estes, veio a necessidade de produzir excedentes comerciais abrindo, desta forma, uma porta de entrada a produção do amendoim que, juntando-se a colecta da borracha, se transformariam, durante muito tempo, nas actividades obrigatórias de todas as regioes do interior, incluindo Sancorla.


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Com o florescimento do comércio nos anos 40 e 50, houve a necessidade de abrir vias de acesso e de ligação com as zonas portuárias de Farim e Bafatá. As medições feitas determinaram que a estrada tinha que passar no meio da mata de poilões de Canhámina, que seria o ponto de convergência das três estradas (Cambaju ao norte, Bafata ao sul e Farim a Oeste,). Esta foi a primeira abertura (ferida) no triângulo de Canhámina, o primeiro sinal inquietante da mudança dos tempos, que abriu as portas para a penetração de elementos estranhos no círculo de vida de Sancorla.

Com o intuito de preservar Canhámina da invasão do novo mundo e das suas consequências inevitáveis, Fajonquito serviu de escoadouro e aldeia satélite para canalizar todos os elementos que não se enquadravam no pacto de equilíbrio do mundo antigo. Foi assim que as casas comerciais que queriam instalar-se em Canhámina, foram aconselahadas a se instalar mais a poente, a três quilómetros de distância, a fim de preservar o triângulo. E foi assim que, pelas mesmas razões, tanto a escola portuguesa (1958?) assim como a primeira companhia de tropas metropolitanas (1964) enviada para reforçar o regulado com o avanço da guerrilha, ficaram pouco tempo na aldeia, tendo sido, de seguida, transferidas para Fajonquito. Era preciso manter o equilíbrio do pacto, tanto assim que, pese a vontade de o fazer, os guerrilheiros do PAIGC nunca conseguiriam penetrar no triângulo e atacar Canhámina, o coração de Sancorla, mesmo desguarnecida de tropas. Acredita-se que eram desviados para longe por forças ocultas.


5. INÍCIO DA GUERRA E A DESLOCAÇÃO DAS PRIMEIRAS UNIDADES MILITARES PARA FAJONQUITO.

A partir de 1962/63, a guerra começou a alastrar-se em toda a região Norte e Nordeste da Guiné e, em 08 de Julho de 1964, a Companhia de Caçadores (CCAÇ) n.º 674, comandada pelo Capitão de Infantaria José Rosado Castela Rio, foi destacada para a regiao de Bafata e assumiu a responsabilidade do subsector de Fajonquito em 13 de Maio de 1964.

E na noite de 24 de Agosto de 1964, a partir das 21:00, as instalações militares de Fajonquito foram pela primeira vez flageladas pelo PAIGC. Durante a madrugada de 03 de Setembro de 1964, Fajonquito foi de novo flagelado e pelas 20:00 de 08 de Setembro de 1964, o PAIGC iniciou sobre Fajonquito a terceira flagelação, que se prolongou de forma intermitente até aos primeiros alvores.

Em 12 de Setembro de 1964, uma acção de patrulhamento da CCAÇ 674 foi alvo de violenta emboscada por parte dos guerrilheiros, que causou as primeiras baixas naquela sub-unidade, na zona de Cansonco (Gam-Sanco), na estrada para Canjambari, conta-nos o soldado Inacio Maria Góis, no seu Diário de Guerra. De seguida, apresentamos o resumo das companhias que passaram por Fajonquito de 1964 a 1974.



As Companhias do exército português que passaram por Fajonquito durante a guerra colonial 1963-1974 (José Martins)

1. Companhia de Caçadores n.º 674, comandada pelo Capitão de Infantaria José Rosado Castela Rio, unidade orgânica do Batalhão de Caçadores n.º (.....), Mobilizado pelo Regimento de Infantaria 16 (RI16 - Évora), assumiu a responsabilidade do subsector em 13 de Maio de 1964, vindo a ser substituída pela CCaç 1497 em 27 Abril de 1966.

2. Companhia de Caçadores n.º 1497, comandada pelo Capitão de Infantaria Carlos Alberto Coelho de Sousa, unidade orgânica do Batalhão de Caçadores n.º (....), mobilizada em (...) no Regimento de Infantaria n.º (...), assumiu a responsabilidade do subsector, rendendo a CCaç 674, em 27 de Abril de 1966, vindo a ser substituída pela CCaç 1501 em 26 de Janeiro de 1967.

3. Companhia de Caçadores n.º 1501, comandada pelo Capitão de Infantaria Rui Antunes Tomaz, unidade orgânica do Batalhão de Caçadores n.º 1877, mobilizada em Tomar no Regimento de Infantaria n.º 15, assumiu a responsabilidade do subsector, rendendo a CCaç 1497, em 26 de Janeiro de 1967, vindo a ser substituída pela CCaç 1685 em 19 de Setembro de 1967. Foi a companhia que construiu a capela em Fajonquito, uma mesquita em Canhamina e uma escola na localidade de Ginane assim como o primeiro mastro da bandeira encimado por uma grande cruz em betao armado junto ao quartel em Fajonquito.

4. Companhia de Caçadores n.º 1685, comandada pelo Capitão de Infantaria Alcino de Jesus Raiano, unidade orgânica do Batalhão de Caçadores n.º 1912, mobilizada em Évora no Regimento de Infantaria n.º 16, assumiu a responsabilidade do subsector, rendendo a CCaç 1501, em 19 de Setembro de 1967, vindo a ser substituída pela CCaç 2435 em 14 de Dezembro de 1968.

5. Companhia de Caçadores n.º 2435, comandada pelo Capitão de Infantaria José António Rodrigues de Carvalho e, posteriormente, pelo Capitão de Infantaria Raul Afonso Reis, unidade orgânica do Batalhão de Caçadores n.º 2856, mobilizada em Abrantes no Regimento de Infantaria n.º 2, assumiu a responsabilidade do subsector, rendendo a CCaç 1685, em 07 de Dezembro de 1968, vindo a ser substituída pela CCaç 2436 em 20 de Abril de 1970. Foi a companhia que construiu o dispositivo de defesa através da escavação de valas a volta do quartel, construçao de abrigos de defesa em betão armado e mudou o assentamento da população, transferindo-a para a zona Leste e libertando espaço de tiro na zona oeste de onde vinham os ataques. Teve problemas com o Gen. Spinola devido a forma como lidava com a população em geral e com os prisioneiros de guerra, obrigados a fazer trabalhos forçados na escavação e limpeza das valas a volta do aquartelamento, extorção e torturas físicas. Levou uma porrada e foi transferido para local incerto.

6. Companhia de Caçadores n.º 2436, comandada pelo Capitão de Infantaria José Rui Borges da Costa, unidade orgânica do Batalhão de Caçadores n.º 2856, mobilizada em Abrantes no Regimento de Infantaria n.º 2, assumiu a responsabilidade do subsector, rendendo a CCaç 2435, em 20 de Abril de 1970, vindo a ser substituída pela CArt 2742 em 13 de Agosto de 1970.

7. Companhia de Artilharia n.º 2742, comandada pelo Capitão de Artilharia Carlos Borges de Figueiredo e, posteriormente, pelo Alferes Miliciano de Artilharia Baltazar Gomes da Silva, unidade orgânica do Batalhão de Artilharia n.º 2920, mobilizada em Penafiel no Regimento de Artilharia Ligeira n.º 5, assumiu a responsabilidade do subsector, rendendo a CCaç 2436, em 13 de Agosto de 1970, vindo a ser substituída pela CCaç 3549 em 21 de Maio de 1972. Foi a companhia que melhor se relacionou com a população, extendeu a iluminação eléctrica a rua principal da vila, realizou várias actividades lúdicas de diversão e animação sócio-cultural e apoiou o funcionamento da escola local. O seu comandante, viria a perder a vida num rebentamento de granada defensiva perpetrado por um dos seus soldados no dia 2 de abril de 1972, em vésperas da celebração da Páscoa.

8. Companhia de Caçadores n.º 3549, comandada pelo Capitão Quadro Especial de Oficiais José Eduardo Marques Patrocínio e, posteriormente, pelo Capitão Miliciano Graduado de Infantaria Manuel Mendes São Pedro, unidade orgânica do Batalhão de Caçadores n.º 3884, mobilizada em Chaves no Batalhão de Caçadores n.º 10, assumiu a responsabilidade do subsector, rendendo a CArt 2742, em 27 de Maio de 1972, vindo a ser substituída pela 2.ª Companhia do BCaç 4514/72 em 15 de Junho de 1974. Tal como as duas companhias precedentes, passou toda a comissão em Fajonquito, de modo que, a parte alguns roubos de animais por ocasião das suas festas religiosas, de modo geral, tiveram um bom relacionamento com a população, facto que foi propício ao aprecimento de um fenómeno social novo e pouco conhecido, ou seja o nascimento de filhos mestiços de pais portugueses com mulheres locais, os chamados na gíria colonial, filhos do vento. Só na localidade de Fajonquito registaram-se, no mínino, 10 casos e que não foram reconhecidos pelos progenitores.

9. A 2.ª Companhia do BCaç 4514/72, comandada pelo Capitão Miliciano de Infantaria Ramiro Filipe Raposo Pedreiro Martins, unidade orgânica do Batalhão de Caçadores n.º 4514/72, mobilizada em Tomar no Regimento de Infantaria n.º 15, assumiu a responsabilidade do subsector, rendendo a CCaç 3549, em 15 de Junho de 1974, vindo a iniciar o deslocamento para Bissau a partir de 30 de Agosto de 1974, tendo um pelotão efectuado a desactivação e entrega, ao PAIGC, do aquartelamento em 01 de Setembro de 1974. (...). Esta companhia quando chegou estava desfalcada da maior parte dos seus grupos de combates destacados em outras frentes. Tinham vindo da zona Sul (Cadique e Cabomba, depois de passar por Guidage em 1973) e via-se que tinham sofrido muito com a guerra. Foram, do ponto do vista social, muito bons e bastante afáveis com as crianças que frequentavam o quartel marcando um notável contraste em relação às outras companhias. A guerra estava no fim, e vivia-se o período pós 25A74. Fizeram a entrega simbólica do aquartelamento ao PAIGC a fim de regressar às suas terras para um descanso bem merecido, mas com a marca da Guiné na alma e no coração para nunca mais esquecer.

(**) Vd. poste de 3 de Abril de 2009 > Guiné 63/74 - P4136: As Unidades que passaram por Fajonquito (José Martins)


6. IMAGENS DE FAJONQUITO (1964-1974)

Fajonquito, 1964/66 – Soldados da CCAÇ 674 e população, vendo-se à direita o Comandante da companhia, Capitão José Rosado Castela Rio.
Fajonquito, 1964/66 – Dança de batuque no espaço entre a porta d’armas e a casa Esteves (hoje mercado), na imagem vêm-se soldados da 674 (entre os quais Inácio Maria Góis, no meio e de bigode) e populares, entre os quais se vêm Djata/Zeca Mané (de tronco nu) e Munco Seidi (já falecidos) entre outrs residentes.
Fajonquito, 1966 – Um grupo de meninas vendedeiras, vendo-se em destaque a Djabu Embalo (falecida) de Gallé Djammê, Bairro situado dentro do Quartel na altura.
Fajonquito, 1964 –Soldados da CCAC 674 (Inácio Maria Góis, à direita) e meninas - Gallé Gumbo-Bairro situado dentro do Quartel nesse período.
Fajonquito 1968 - Aladje Tamba Baldé (pai do Cherno Baldé) e o Cabo Tintim (CCAÇ 2435- 1968/70), em frente da casa de Mário Lima, vendo-se na parede em cima o emblema deixado pela CCAÇ 1501 (1965/67)
Fajonquito 1971 – Carlos Bubacar Baldé (irmão mais velho de Cherno Baldé) da Mocidade Portuguesa, por ocasião do 10 de Junho, dia de Portugal e de Camões, na presença de oficiais da CART 2742 (dos quais Alferes José Félix que morreu no rebentamento da granada no dia 2/4/1972) comandada pelo Capitão Carlos Borges Figueiredo.
Fajonquito – Memorial da CART 2742 (1970-72)

1. Em primeiro plano, o Furriel das transmissões Farraia (CCAÇ 3549 – Deixós-Poisar, 1972/74), junto ao poste da bandeira e parada do quartel.
2. Na base do poste da bandeira vê-se uma lápide com a inscrição do nome do Cap. Carlos de Borges Figueiredo e os soldados mortos “no acidente” do caso Almeida na Páscoa de 1972, em Fajonquito.
3. Ao fundo estão as instalações onde funcionavam os Serviços de transmissões do quartel e junto a varanda da casa: da esquerda à direita, estão os Putos (rafeiros) Adama Sunto e o Cherno Baldé (Chico).
4. Neste local realizaram a cerimónia de entrega do aquartelamento ao PAIGC, simbolizando a passagem para a soberania nacional, em 1 de Setembro de 1974, com o hastear da bandeira nacional.
5. Fotografia cedida pelo ex-Furriel Miliciano José Cortes da CCAÇ 3549 - “Deixós-Poisar”, 1972/74.

Fajonquito, 1972/74

1. Foto em cima: Soldados da CCAÇ 3549 à civil, na rua principal da vila, ao fundo as casas comerciais de Costa Pinheiro (mais tarde Casa Gouveia) e dos Irmãos Casimiro (mais tarde Denane Sissé).
2. Foto ao meio: O falecido Furriel Cortes (José Augusto), junto a porta d’armas (entrada) do quartel de Fajonquito
3. Foto em baixo: Equipa Banda6 com o Capitao da CCAÇ 3549, Manuel Mendes São Pedro, primeiro à esquerda, de pé.


Fajonquito, 1972/74 – Soldados da CCAÇ 3549 (Furriéis José Cortes e Faraia) junto ao mercado. Ao fundo vê-se a imagem da oficina mecânica do Quartel
Fajonquito, Junho de 1972 – De esquerda para a direita, soldados condutores da CCAÇ 3549, Deixós-Poisar (1972/74): José Maria, João Vasconcelos, Carvalho, Fernando Silva, o Mandinga e seus jovens amigos: Jorge Suleimane Baldé, Mamadu Saido Candé (Barbosa), Braima Baldé (Banda6) e Cherno Abdulai Baldé (Francisco), junto da caserna da Ferrugem.

(continua)
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Nota do editor

Primeiro post de 10 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28424: Monografia de Fajonquito-Sancorla - Uma pequena contribuição (1): Localização geográfica e população; Origem e significado do nome Sancorla e Significado e origem do nome Fajonquito (Cherno Baldé)

sábado, 10 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28424: Monografia de Fajonquito-Sancorla - Uma pequena contribuição (1): Localização geográfica e população; Origem e significado do nome Sancorla e Significado e origem do nome Fajonquito (Cherno Baldé)

MONOGRAFIA DE FAJONQUITO-SANCORLA

“UMA PEQUENA CONTRIBUIÇÃO”


Natural de Fajonquito (Farimbali), nascido em meados de 1960 e baptizado em Sintchã Samagaia ou Luanda na margem direita de Berecolom.
Frequentou o Curso Geral dos Liceus em Bafata (1975/79) e o Complementar no Liceu Nacional Kuame N’krumah em Bissau.
De 1985 a 1990 fez estudos superiores de licenciatura e mestrado no Instituto Superior de Economia de Kiev que ostentava o nome do lider Soviético de origem ucraniana Demyan Serhiyovich Korotchenko (ex-URSS).
De 1993 a 1995 fez um Curso de Pós-graduação no Centro de Estudos Africanos do ISCTE-IUL de Lisboa e de 2001/2003 frequentou um curso de mestrado sobre a Cooperação Internacional e Desenvolvimento no ISEG/UT, Lisboa, Portugal.
Trabalhou sempre em Bissau com varias deslocações aos países da sub-região, primeiro como funcionário Publico do Ministério das Obras Públicas, Construções e Urbanismo, depois como Director Executivo da Associação Profissional das Instituições de Microfinanças (AP-SFD-GBissau) tendo, de seguida, trabalhado como Consultor/Gestor e Analista Financeiro em vários projetos de Desenvolvimento ligados a organizações internacionais, nomeadamente Banco Mundial, BAD, UE (FED-Célula de apoio ao MEF em Bissau) e no Sistema das NU/PNUD, de 2013 a 2026.



1. LOCALIZAÇÃO GEOGRAFICA E POPULAÇÃO

Fajonquito é uma localidade situada a norte da região de Bafatá, a meio caminho entre Contuboel, sede do Sector de mesmo nome, e a localidade de Cambaju, junto à fronteira com a República do Senegal. Em termos tradicionais e de acordo com a distribuição territorial, Fajonquito faz parte do Regulado de Sancorla (antiga província do império mandinga de Kaabu_sec. XII-XIX) que, por sua vez, faz fronteiras ao norte com a linha da fronteira com o Senegal através da Diwal (Sub-divisão territorial em língua Fula) de Cambaju, a Leste com o Regulado de Sama (região de Gabu) através da Diwal de Panambo/Kerwane, ao Sul e a Oeste com o Regulado de Mansona e a Oeste com os Regulados de Oio e de Kola-Caresse através da Diwal de Canhâmina (ver mapa em baixo).

Fajonquito e seus arredores têm uma população estimada em pouco mais de 5.000 habitantes, agrupados em cerca de 1.200 agregados familiares, dos quais, mais de 2/3 são do grupo etnolinguistico Fula e perto de 1/3 são mandingas. Ainda se contabilizam outros pequenos núcleos populacionais organizados em famílias tradicionais, como Balantas, Djacancas e Saracolés.

Durante o período da guerra colonial, com a concentração da população nos locais mais seguros, Fajonquito e arredores concentrava uma população superior a 7.000 habitantes (Gois 1964/66) que, com o fim da guerra retornaram às suas aldeias de origem.

Segundo Armando Tavares (historiador português), geograficamente, Fajonquito está situado no local que nos mapas portugueses anteriores a 1955 se designava por Gam-Sonco. Atualmente o topónimo "Gam-Sonco" (Cansonco em mandinga) como tal existe, tratando-se, provavelmente, da designação de uma antiga Província do império de Gabu (Kaabu), que mais tarde, teria sido incorporado no Regulado de Sancorla.

Gam-Sanco ou Cansonco tinha a sua antiga capital na localidade de Berécolom, situado a 2/3 kms a norte de Fajonquito. Este importante bastião do império mandinga foi destruído pela confederaçao dos exércitos Fulas dos Almames de Futa-Djalon e dos seus aliados Firdunkés de Alfa Molo Baldé em meados de 1848/50, no início da guerra que culminaria com a derrota definitiva dos Soninkés (mandingas animistas) na grande batalha de Cansala em 1867, segundo alguns historiadores.

Guiné > Carta Geral da Províncía (1961) > Escala 1 / 500 mil > Posição relativa de Fajonquito, a noroeste de Contuboel.
Cortesia do Prof. Armando Tavares da Silva, autor de “A Presença Portuguesa na Guiné, História Política e Militar (1878-1926)” (Porto: Caminhos Romanos, 2016, 972 pp.)


2. ORIGEM E SIGNIFICADO DO NOME SANCORLA

Tudo leva a pensar que o nome Sancorla vem da palavra Soncoya ou Sonkoya que significa terra dos Sonco ou Sonko. Segundo Djibril Tamsir Niane (Guiné-Conacri), investigador e especialista do império mandinga de Gabu, na origem, Sancorla podia ser Sonkolla, quer dizer, terra ou território pertencente à dinastia dos “Sonco/Sonko”, príncipes de origem diversa mas assimilados a cultura mandinga que governavam esta Província mestiça de Birassu/B’rassu (para mandingas e fulas), Brassá/Brazza (para os balantas e Djolas) no período áureo do império de Gabú ou Káabu. Ainda, segundo Djibril Tamsir Niane a Província de Sonkolla era o domínio do clã Sonko, oriundos de uma miscigenação (mistura étnica) de autóctones Banhuns e Padjadincas mandiguizados com grupos de fulas pastores vindos de Mali (Macina) e de Boundu (Senegal) que, em ligação com as províncias mandingas iniciais de Gabu–(províncias Nanthiôs de Pathiana/Propana, Djimara e Sama/Manna), formaram as províncias designadas pelo termo mandinga de Kôring (ou seja de origem não mandinga) de Birassu/Brassu (Farin-Ba) de que a região de Sonkolla seria parte integrante, se não mesmo o seu centro. Ainda, segundo Tamsir Niane (citando Sekéné Mody Cissoko), o nome de “Farinsangul” na historiografia portuguesa (reinado de D. Joao I da dinastia dos Avis-1385-1433), seria a deformação de Farin-Sonkolla, em referência ao poderoso governador de Soncolla em Berécolom.

No séc. XV, os chefes (Farins) de Sonkolla, província habitada por uma população mista e belicosa, se extenderam a Oeste e fundaram muitas aldeias entre as quais Salikénie (situado na fronteira entre o Senegal e a Guiné-Bissau perto de Cambaju), Solikoo (Solucocum na grafia portuguesa, também na linha da fronteira entre Cambaju e Sitatô no famoso corredor do mesmo durante a guerra colonial), Bantadjam (Bantandjan) e Kagnamina (Canhámina, actual capital do Regulado de Sancorla).**

A capital da província, Bérécolong (Berécolom), situada a norte da atual vila de Fajonquito), onde residiam os chefes da província (Farim) e que desempenhavam um papel preponderante nas relações entre o poder central do império de Mali e o reino de Portugal em meados dos séc. XIV/XV, é uma localidade tão antiga como a velha Kansala, capital do império mandinga de Kaabu, diz-nos Tamsir Niane.

Perto das ruínas de Berécolom ainda existe uma aldeia antiga, de nome Farimbali* ou Farim-Baló que na língua mandinga quereria dizer o mais velho ou o mais importante dentre os Farins locais. Provavelmente, aqui seria a residência ou uma parte das residências do chefe do poderoso clã Soninké dos Sonco, antes do seu desmembramento e fuga para o Sul e Oeste (regiões de Cuor no Oio), com a investida dos exércitos da Confederação muçulmana dos fulas de Firdu (Alfa Molo Baldé), dos Imames do Futa-Djalon (Alfa Ibrahima de Labe) e grupos de mandingas muçulmanos aliados (Moricundas) revoltados com os seus irmãos Soninqués. Assim, as numerosas famílias dos Sonko teriam fugido para sul, espalhando-se pelas vastas regiões de Djoladu, Oio, Cuor, Cossé, Corubal e Quinara, onde fundaram aldeias com os mesmos nomes da sua região de origem, tais como Bércolon, Saliquenhé, Cambaju, Fajonquito (Pejungunto?) e ocupar lugares importantes de chefia, como foi o caso de Infali Sonco, proclamado régulo de Cuor, após a morte do Régulo Beafada, Galona Mané em finais do séc. XIX ou do seu tio Calonandim Mané (?), régulo de Cossé, no inicio do séc. XX.

Farim queria dizer uma chefatura, diríamos hoje, Governador ou Chefe de uma ou várias províncias na língua mandinga de então. Quanto ao termo mandinga “Cansonco”, seria na mesma lógica, uma localidade ou região autónoma da Província de Birassu/Brassu ou então poderia designar a mesma entidade geográfica que seria Sonkolla ou Sancorla. Actualmente, os regulados vizinhos, são o Corla (com capital no planalto do norte ou Cuntima) e o Caresse a oeste/noroeste e os regulados de Mansonna e Oio a sul/sudoeste. Fajonquito teria sido, certamente, uma localidade fundada no auge da época dos Sonko e cuja designação, durante muito tempo, se confundia com o nome do regulado ou seja “Gam-sonco” como nos explica Armando Tavares da Silva. A grafia aportuguesada de Fajonquito, aparentemente sem significado e dificil de interpretar teria surgido mais tarde, nos mapas portugueses, provavelmente, a partir da palavra “Pejunguntô ou Pejunkuntô”. Para o historiador português Armando Tavares, nos mapas portugueses, o nome de Fajonquito é muito recente (depois de 1950), sendo que em seu lugar estaria grafado o nome de Gam-Sonco ou Gam-Sanco (ver mapa em anexo). Segundo este mesmo estudioso da história da Guiné, no Oio existe uma aldeia com o nome de Pejungunto que, conforme se pode notar, tem uma impressionante semelhança gráfica com Fajonquito e questiona-se se não seria a designação primitiva na língua mandinga.

**Djibril Tamsir Niane: Histoire des Mandingues d’Ouest, le Royaume du Gabou. Karthala, Assoc. ARSAN, Paris, 1989.

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NOTA AVULSA :

La propension de ces autorités prédatrices a être subverties sur le lieu même de leur pouvoir peut surprendre. Ces substitutions de commandement se trouvent favorisées par l’existence de conventions et de codes partagés par les parties contractantes, des conquérants et des autochtones. Les autochtones ne sont jamais démis par les conquérants, cela serait attentatoire à la cohésion du nouveau pouvoir. Cette cohésion est naturellement servie par des trahisons programmées, par l’obligation de compromis et par d’opportunes conversions (…).

Les mécanismes institutionnels fonctionnent à l’identique et se révèlent d’une grande efficacité dans le bassin du lac Tchad. Face à des institutions indéfiniment recyclables, leurs contenus humains s’avèrent en revanche, extrêmement changeants. Les anciens détenteurs de pouvoir sont invités à fournir le notable ou un collège de notables qui va introniser – et parfois démettre – le chef dans la nouvelle dynastie des « conquérants », que ce soit un bay, un bwi, un lamido21… Les précédents donneurs de roi ne sont pas écartés, mais rétrogradés à d’autres échelons de la notabilité. Le substrat social général reste souvent très labile, depuis les segments de lignages jusqu’aux grandes fractions de l’ethnie. Jamais ossifié, il se révèle capable d’encaisser des départs et d’enregistrer des arrivées, ce qui renvoie à des processus d’ethnogenèse sans véritable commencement, ni fin. Lorsque les Ful’be subjuguent les Zumaya, ces derniers peinent encore à imposer et leur langue et leurs rituels religieux au sein même de leurs zones de peupleme (…).


Outre à demeurer ce qu’il est, le pouvoir aspire à devenir plus puissant encore grâce aux nouveaux venus. Chaque refondation repose sur les mêmes principes guerriers, conditionnée qu’elle est par l’impératif de conserver et de faire fructifier les mêmes espaces de conquête. L’esclavage demeure le nervus rerum. C’est autour de lui que se construit l’histoire de ces principautés gigognes (…).

Les ethnonymes constituent un biais original pour remonter le temps. Ils servent une forme de connaissance indirecte et déductive. La multiplication de ces traces orales renvoie à des événements historiques qui n’échappent pas à leur caractère probabiliste. La question sur les ethnonymes hérités ou non crée néanmoins un ‘objet historique’ qui participe, pour le Nord du Cameroun, comme le dirait P. Ricoeur (2000 : 225) à un simple “allongement du questionnaire”. Leur utilisation se trouve pourtant limitée par le maillage encore trop lâche de nos connaissances historiques dans le circum tchadien.


Referência : Christian Seignobos, « Les ethnonymes peuls comme révélateurs d’histoire dans le bassin du lac Tchad », Journal des africanistes [En ligne], 79-2 | 2009, mis en ligne le 01 avril 2013, consulté le 25 octobre 2018. URL : http://journals.openedition.org/africanistes/3093.
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Em meados dos anos 30/40, com o fim das guerras de pacificação e o incremento do comércio no território da Guiné, aparecem na região de Sancorla os primeiros comerciantes portugueses e luso-africanos (Guineenses e Cabo-verdianos residentes), e as localidades de Fajonquito e Cambaju foram escolhidas pelos régulos de Sancorla, para funcionar como centros de instalação de casas comerciais (compra e venda de produtos agrosilvopastoris como a borracha, coconote, mancarra, peles de animais entre outros), e desta forma ganhar a primazia em detrimento de Cansonco que hoje representa somente a faixa mais a poente de Sancorla na fronteira com o Corla, administrativamente situada na região de Oio com capital em Farim que, no decurso dos séc. XVIII/XIX, representava simplesmente o maior centro comercial da região Nordeste. Todavia, no inicio dos anos 1950, data do primeiro recenseamento nacional no território da Guiné portuguesa, Canhamina, Farimbali, Bantandjan e Tendinto, seriam as localidades mais importantes do ponto de vista político, sócio-económico, religioso e demográfico.


3. SIGNIFICADO E ORIGEM DO NOME FAJONQUITO

"Caro Luís,
A tal aldeia de "Pejungunto" na região de Farim, bem poderia ser uma grafia alternativa à de 'Fajonquito',  isto antes da normalização com o Governador  Sarmento Rodrigues."

E o prof Armando Tavares da Silva comentava:

" E a aldeia de "Gam Sancó" que aparece no Atlas de João Soares (Sá da Costa, 1949) e que desapareceu na relação de nomes geográficos de 1948, e ausente nas cartas de 1/50 000, o que será? Poderá ser a actual 'Fajonquito'? E 'Gam Sancó',  o que foi/é?"

Mantenhas!...
Luís (***)

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Notas do editor:

(*) Vd. poste de  3 de janeiro de 2018 > Guiné 61/74 - P18170: Memórias do Chico, menino e moço (Cherno Baldé) (53): três balas de kalash para uma missão suicida: o trágico fim do ex-soldado 'comando', Cissé Candé, em abril de 1978

(**)  Vd. poste de 5 de outubro de 2017 > Guiné 61/74 - P17825: Historiografia da presença portuguesa em África (96): primeira relação de nomes geográficos da Guiné Portuguesa, em 1948, ao tempo do governador Sarmento Rodrigues (Parte II)

1. Mensagem do nosso amigo e grã-tabanqueiro Armando Tavares da Silva, com data de hoje:

Caro Luís Graça,

O Post P18170,  do Grã-Tabanqueiro Cherno Baldé (*), fez-me apressar o envio da carta da “Província da Guiné” inserta no Atlas Colonial Português da Comissão de Cartografia do Ministério das Colónias, de 1914. Esta carta, que tem 100 anos, ajuda a conhecer as mudanças que sofreu a toponímica da Guiné.(**)

Para além da imagem de toda a carta (ocupa 2 páginas e tem a dimensão de 43 x 32 cm), envio ainda a mesma carta mas dividida em quatro partes para melhor identificação das povoações.

Uma das povoações que nela figura é Gam Sancó, povoação que não figura nas cartas mais recentes. Esta povoação figurava também nas cartas da Comissão de Cartografia de 1889 e 1906, e ainda no atlas de João Soares, que teve várias edições nos anos 1940, e era utilizado no ensino liceal. Para melhor identificação da povoação segue ainda uma parte ampliada daquela mesma carta, com a região a norte de Bafatá.


Quando o Armando me perguntou sobre a aldeia de "Gam-Sanco" no Poste de 07/10/2017 (luisgraçaecamaradasdaguine), confesso que fiquei intrigado sem perceber a minha relação com o assunto. Agora a situação começou a ficar mais clara para mim. De facto, das duas uma:
(1.ª hipótese) Ou Gam-Sanco seria a actual vila de Fajonquito nos primeiros mapas (Atlas de 1914 e mapa de João Soares) ou
(2.ª hipótese) Gam-Sanco (Cansonco) seria a designação genérica de toda a área onde se localizará, mais tarde, a vila de Fajonquito e que os portugueses, devido às dificuldades de tradução e interpretação, confundiram com a própria aldeia.
Estou mais inclinado por esta segunda hipótese, pois olhando detalhadamente os três mapas em presença, constata-se que os dois primeiros eram ainda "rudimentares" e pouco precisos. Fajonquito (Gam-Sanco) e Sare Dico (S. Dico) estão quase juntos, quando na realidade, estão distantes uma da outra por mais de 20 Kms. Bangigara (actualmente no sector administrativo de Saré-Bacar) também está muito perto quando a distância real desta localidade é cerca de 40 Kms. Ou se calhar, o topónimo de Fajonquito nem sequer existia nessa altura (1914).
Capa do Atlas Colonial Português, 1914  > Mapa da Guiné > Posição relativa de Gam Sancó, entre Cambaju e Bafatá (Armando Tavares), Blogue luisgraçaecamaradasdaguiné.

FAJONQUITO NO REGULADO DE SANCORLA

Segundo o historiador Armando Tavares, durante muito tempo, na cartografia portuguesa, não existia o topónimo (Fajonquito) e em seu lugar a zona era conhecida como sendo Gam-Sonco ou Cansonco. Na nossa opinião, a designação desta localidade por Gam-Sonco terá a ver com o predomínio dos povos de origem autoctone Banhum, Jola, Pajadinca e de diferentes outras étnias, muito poderosas que estariam instaladas nessa região (ver Djibril tamsir Niane) na altura da invasão e da conquista mandinga desta zona e que estaria ligado à instalação da Província do Birassu/Brassu (Brassa dos balantas) assim como outras províncias vizinhas, tendo como Capital a localidade de Berécolom ou Bércolon ou então seriam duas entidades diferentes (Gam-sonco e Sancolla) respresentando o mesmo espaço territorial ou espaços diferentes. Esta localidade (Bércolon) seria posteriormente atacada e destruída em 1948/50 pela coligação dos Fulas encabeçados pelos Almames de Futa-Djalon no início da guerra entre Fulas e Mandingas que levaria à conquista do império de Gabu (Kaabu) na memoravel batalha de Cansala (1867). Sabe-se, através da história oral mandinga, que nesta guerra, os Sonco de Sancorla distinguiram-se através do seu grande lider Ghâlen Sonco que era o braço direito de Djanke Wali, último rei Soninké de Gabu nesta histórica e decisiva batalha, mais conhecida em língua mandinga por Durban/Turuban-Kélo (fim da semente).

(continua)

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domingo, 27 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P27380: Verso & reversos (6): A "fêmea", o "anjo mau", a "Eva", a graça Macute, do conto de Artur Augusto Silva (1912-1983), "O Cativeiro do Bichos" (escrito na Prisão de Caxias, 1966)...



Excerto da BD "O Cativeiro dos Bichos" (*)


1. Comentários so poste P22953 (**):

(i) Tabanca Grande Luís Graça

É interessante verificar que neste conto ou fábula da literatura oral fula, o "anjo mau" que introduziu o pecado, o mal, o conflito, a guerra no mundo seja também uma "Eva", uma "fêmea", a garça Macute (**)..

"Misoginia" das sociedades patriarcais, gerontráticas,  teocráticas, bíblicas ? Afinal da nossa comum cultura judaico-cristã ? ... Misoginia: o grego miseó ("ódio") e gyné ("mulher").

Por outro lado, o rei da selva não é o leão mas o elefante... 

Talvez o Cherno Baldé possa acrescentar algo mais ou contestar a minha "leitura". 

De resto este conto ou fábula, como toda a literatura oral tradicional,  não tem uma leitura "única"...

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022 às 10:11:00 WET 

Cherno Baldé,
Kiev, 1989

(ii) Cherno Baldé 

Caro Luis Graça, a tradição africana e fula em particular não menospreza a mulher nem a segrega como alguns estudiosos ocidentais apresentam em seus estudos. 

Os africanos, sobretudo, nas comunidades de cultura ou roupagem isláâmica, onde eu cresci e fui educado, protegem a mulher, poupando-a de muitos trabalhos físicos e da exposição exagerada ao público, ao mesmo tempo que fazem tudo para se proteger da inteligência superior e argúcia das mulheres. 

Mais tarde, ao ler a Bíblia (antigo testamento, livros poéticos e sapienciais) nos capítulos dos Salmos, provérbios, Eclesiástico, Cântico dos Cânticos, e sabedoria do Salomão, percebi a ligação com o fundo da cultura judio-cristã e asiática em geral.

No fanado (ritual de iniciação a vida adulta entre os africanos da região ocidental) a ferramenta mais importante consiste em dotar aos jovens rapazes a técnica de descobrir os malefícios e artimanhas inerentes ao sexo feminino e de capacidades de reconhecer as sementes da discórdia que as mulheres são capazes de semeiar entre irmãos da mesma familia. 

Diziam-nos (em letras musicais): 

"Se as fronteiras que nos dividem aparentam ser normais, são as mulheres que nos dividem, posto que, se todas as portas (da morança) são idênticas, cada uma limpa a porta da sua casa e cria a sua fronteira". 

Desta forma, a sociedade patriarcal tentava proteger-se da divisão, cada vez mais, em unidades menores das famílias extensas, que era um dos desafios maiores que as sociedade rurais africanas enfrentavam no limiar dos séculos XIX/XX, com recursos muito escassos do ponto do vista económico e com várias ameaças à coesão social a partir do exterior das comunidades.

A garça Macute do conto, com a ambição de se coroar em rainha da espécie,  representa a mulher pretensiosa que é uma ameaça à ordem estabelecida e à coesão familiar e  que alimenta a semente da discórdia e da divisão.

Em muitas comunidades e famílias africanas existem práticas e crenças, fundadas ou não, que atestam a "diabolização" da mulher, ligando-a a forças ocultas e/ou ao azar, má sorte para o homem em viagem ou que parte para a guerra.

Lembro-me que na nossa familia as mulheres se escondiam quando os homens partiam para uma viagem difícil ou para a guerra e ai de quem se atrevesse a cruzar-se de frente com o "bravo" à saida da morança e mesmo da aldeia, porque era um mau augúrio.

Infelizmente, por força destas vivências, mesmo não o impondo a ninguém, sou perseguido por estas crenças e não raras vezes sou confrontado com a opção difícil de acreditar ou não acreditar, de recuar ou avançar.  

A verdade é que, tenho constatado, o encontro com a mulher, em muitas ocasiões, sempre me deu azar, infelizmente. 

A minha "kontrada", pelos vistos, como dizem os guineenses,  é homem. Faz parte das pancadas ou taras que carreguei desde a infância. (***)

Quanto ao rei dos animais, de facto, é o elefante e não o leão.
É incrível como os contos encerram realidades vividas no passado. O elefante era sempre dotado de paciência, sabedoria e de capacidades extraordinárias de sobrevivência entre os animais em situações extremas de penúria e seca. 

Mais tarde, através de filmes, documentáros ocidentais, constatei a veracidade daquelas palavras dos antepassados, vendo como os elefantes conseguiam detectar a presença d'água e de a fazer aparecer à superfície salvando a manada e restantes animais de uma morte mais que certa.

Com um abraço amigo,

PS - Queria responder desde ontem, mas fui interrompido pelos acontecimentos lamentáveis que todos já sabem. (Alegada tentativa de golpe de Estado contra o Presidente Umaro Seco Embaló.)  



Vd. poste de 31 de janeiro de 2022 > Guiné 61/74 - P22951: Antologia (83): O Cativeiro dos Bichos, conto de Artur Augusto Silva (Cabo Verde, 1912 - Guiné-Bissau, 1983), escrito na Prisão de Caxias, em 1966, e que era uma fabulosa fábula que tinha também uma contundente crítica, implícita, à hipócrita política colonial do Governo Português da época

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28371: Historiografia da presença portuguesa em África (545): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (13): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 3 de Março de 2026:

Queridos amigos,
Confesso que por vezes me maravilham as descrições do Capitão Brosselard, é verdade que estamos num período cultural que deu pelo nome de naturalismo, com um uso na literatura e nas artes plásticas de um especial relevo a todos os elementos de natureza, privilegiando a parte sensorial, a observação cuidada sobre as pessoas no seu meio, etc. O relato, como o leitor se apercebeu, é quase um diário, tem um especial destinatário, as autoridades que virão ou não a aprovar as decisões tomadas pelas comissões lusa e francesa. O que há a destacar neste texto é o exame que ele faz da beleza das Fulas, da ruína em que se encontra todo o Forreá, devido às guerras inter-étnicas e não deixa de nos assombrar o elogio que ele faz à tropa portuguesa em Buba. Dentro em breve os delimitadores irão para norte, iremos assistir ao adeus do Casamansa em português.

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 13
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".

Recapitulando, a coluna francesa às ordens do Capitão Henri Brosselard desloca-se para a colónia portuguesa, estão definidas as fronteiras na região sul. Dotado de um grande espírito de observação, o oficial descreve travessias, riachos, florestas, populações. Veja-se o que ele nos diz dos Fulas em Kevel:
“No chão Fula, eles gozam, em geral, de pouca consideração. Têm o estatuto de rendeiros ou feitores dos chefes que lhes pagam em proteção. Os que temos encontrado não parecem mestiçados, como a maior parte dos seus congéneres, parece que preservam o seu tipo de origem. A sua cor é bronzeada (significa que se trata da sub-etnia Futa-Fula), cor do café ligeiramente queimado. As raparigas são graciosas, algumas são mesmo bonitas; os seus olhos grandes com longas pestanas pretas têm uma expressão de doçura incomparável; os seios têm uma forma notável; os seus membros são bem feitos, os seus braços têm as extremidades finas; as suas pernas são mais robustas que magras. As raparigas Fulas herdaram a beleza das suas ancestrais, mas elas são mais escuras; porém, conservam estes grandes olhos velados de negro que dão um delicado encanto à sua fisionomia.”

Continuando na primeira pessoa do singular:
Pelas nove horas, a vanguarda da coluna e os oficiais entram em Contabane. Esta povoação é a maior do Forreá, a sua povoação estima-se entre 1000 e 1500 habitantes, o povoado está situado na margem direita do rio Gounaba. Estamos nos últimos dias da época seca; os indígenas estão concentrados a fazer buracos para recolher uma água estagnada. Percorremos os dias seguintes para lá de Contabane, uma região coberta de povoados e bem arroteada (desbravada), infelizmente a situação política não permite ainda que se pratique o cultivo; pastavam por toda a parte manadas de bois e vacas. Os riachos são numerosos; correm em geral para o Combidiah (Cumbijã) que é um afluente entre o Cacine e o rio Grande de Buba, porque as suas nascentes (?), que fizemos o reconhecimento, são muito mais a leste que as do Cacine. Todos estes riachos estão rodeados de bosques impenetráveis com árvores de grande porte.

A 23, acampámos perto de um riacho vizinho de Guidali e esperávamos chegar a Buba no dia seguinte. O Sr. Oliveira seguia-nos com um dia de atraso, com a sua coluna.

Para retemperar as forças dos homens da nossa coluna, os cozinheiros estiveram ativos toda a noite e confecionaram uma pantagruélica refeição de arroz e cuscuz, a que se juntou carne de vaca. Come-se à luz das fogueiras e pelas cinco da manhã pomo-nos em marcha. Hoje o despertar teve lugar antes da hora, devido à invasão de formigas que queriam tomar conta de tudo.

Atravessámos uma povoação de nome Kolibouïa onde ficámos surpreendidos por encontrar casas construídas à europeia, mas que estavam em ruína. Foram outrora a residência de comerciantes que abandonaram a sua atividade no Cumbijã, como outros abandonaram Cacine e o rio Grande de Bolola.

Continuámos a nossa marcha na direção de Bolola. Esta povoação compõe-se de muitos grupos de casas; cada grupo está rodeado de uma dupla proteção de vimes entrançados numa malha apertada; cada grupo forma uma pequena cidadela e estas cidadelas têm entre elas posições de defesa. Estas cidadelas estão dispostas em terreno descoberto e circunscritas de um lado, ao alcance de tiro de espingarda, por uma curva de riacho que o mato denso torna intransponível. Outros pontos de defesa estendem-se pela floresta, desbravada e ao alcance do tiro de espingarda, mas dificilmente praticável para lá da orla. Só se pode chegar por campo aberto através do caminho de Buba ou o que vai para Kolibouïa.

Perto de Bolola encontramos o nosso amigo Mahmadou-Paté, no meio do exército que ele já exibira em Simbéli. Os guerreiros conversam em círculo, sentados no chão, a espingarda sobre as pernas. Apesar da insistência do rei, que queria que ficássemos mais tempo, continuámos para Buba e após uma marcha rápida facilitada pela natureza do caminho atingimos o rio Grande de Bolola.

Estava maré-alta, era imprudente, na ignorância dos lugares onde se podia passar a vau, atravessá-la. Do ponto onde nos encontrávamos apercebemo-nos que a 2Km a montante do rio estavam os telhados de Buba. Para se pedir uma embarcação era preciso chamar a atenção do comandante da Praça ou dos habitantes da outra margem. Fez-se uma grande fogueira, arderam à mistura árvores enormes e três atiradores deram tiros para o ar, regularmente espaçados para fazer saber que era um sinal europeu.

Inesperadamente, e para nossa total surpresa, vimos os negros de Buba acorrer da outra margem, armados de catanas e espingardas. Chegam pela margem a 200 metros onde nós descansávamos à sombra das árvores. Agrupam-se, falam entre si e precipitam-se sobre nós lançando gritos que parecem ameaçadores, vêm em direção dos nossos atiradores. Estes, um tanto embaraçados, preparam-se para ripostar a tiro; nós apressámo-nos a chamá-los, batem em retirada, gritando aos outros que não vínhamos fazer guerra, precisávamos simplesmente de uma embarcação. Enfim, os outros chegam e cercam-nos, parecem hostis. Para grande surpresa nossa vem o atirador Semba d’Yaye anunciar que tudo estava esclarecido.

Os Biafadas temiam tratar-se de um ataque dos Fula-Cundas, estavam agora esclarecidos da situação e os nossos inimigos do momento ofereceram-se para atravessarmos às suas cavalitas o rio e levar-nos a Buba. Aceitámos tal proposta como uma solicitude. Havia muita água no rio e a travessia fez-se com uma certa dificuldade. Depois da travessia examinámos a indumentária bizarra destes guerreiros, na sua maioria vestidos de calções de cores berrantes e camisas onde predominavam o vermelho, o amarelo e o verde.

Tendo mudado muitas vezes de carregadores, conservámos sobre as nossas calças brancas a marca de uma série de cores variadas, o que comprova a má qualidade do tingimento dos tecidos de que são feitas.

O comandante Buba, a que não se explicara o que se estava a passar, pusera a tropa de prevenção. Logo que se apercebeu da nossa chegada, veio até nós e introduziu-nos na Praça.

A postura irrepreensível deste oficial fazia um contraste singular com a nossa. Os soldados estavam no seu posto de combate, os artilheiros ao pé das peças, prontos a fazer fogo. Podemos apreciar a disciplina e a compostura das tropas portuguesa. Não me poupei a elogios.

Buba foi uma escala perfeita quando a mancarra estava plantada em toda a região. Hoje o comércio só existe para satisfazer as necessidades locais. Há algumas casas construídas ao modo europeu, mas estão abandonadas e em estado de ruína. O aldeamento indígena conta com 150 moranças e 600 habitantes.


Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Tipo Serere, desenho de Thiriat, segundo uma fotografia
Edição da Nova Geografia Universal, de Élisée Reclus, 1887, de onde se retiraram as imagens abaixo
Imagem da Guiné retirada da obra de Reclus
Imagem das populações à volta do rio Geba, retirada da obra de Reclus
Tipo Fula, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia da coleção Bayol

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 16 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28351: Historiografia da presença portuguesa em África (544): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (12): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)