1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 12 de Fevereiro de 2026:
Queridos amigos,
Quando o Capitão Henri Brosselard saiu de Bolama em direção ao rio Nuno e daqui a Kandiafara, este itinerário não era inocente, conforme comprova a narrativa do chefe da missão francesa para a delimitação de fronteiras. Ele observa neste seu relato a importância do rio Nuno no contexto dos chamados Rios do Sul, e procurou habilmente sondar Mamadu Paté (que se revela leal à França) sobre a chamada relação de forças no Forreá e quem era quem na Península de Cacine. Era facto assente que a política francesa passava por criar uma barreira de acessos comerciais dos portugueses às rotas dos Futa-Djalon, entretanto havia que sondar as linhas de tráfego do Futa até Cacine. também ficou verificado que as comunicações entre o rio Nuno e o rio Compony eram extremamente difíceis, a acessibilidade só poderia ser garantida por pequenas embarcações. E o capitão Brosselard também deixa claro a luta pelo poder em que os Fulas do Forreá procuravam expulsar os Biafadas e os Nalus, nesta época (1888) já o próspero comércio da região do rio Grande do Bolala estava praticamente dizimado pelas sanguinárias guerras travadas no Forreá.
Um abraço do
Mário
A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 6
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette
Mário Beja Santos
A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".
Retomando o texto anterior, a coluna do Capitão Henri Brosselard chegou a Kandiafara, na véspera já tinha chegado a esta pequena povoação o Sr. Galibert. Na penúltima etapa deste percurso, Brosselard tinha atingido o rio Compony ou Cogon, aqui desfraldou a bandeira francesa, para ele ficava claro que tinha percorrido regiões completamente desconhecidas, deixadas em branco das cartas geográficas, confirmava-se ter chegado a um dos rios dos chamados Rios do Sul, cuja existência era contestada, negada pelos geógrafos que pensavam que o curso de água atravessado por alguns viajantes nas altas regiões do Futa-Djalon tinha a sua foz no estuário do rio Cacine, reconhecido em 1885 pelo tenente do navio Vallon, agora nau capitânia.
Para determinar a fronteira sul da Guiné, devíamos visitar regiões que não tínhamos assinaladas a não seu por vagas informações, todas erróneas, como pudemos verificar na continuação deste reconhecimento e que nós sabíamos estar num grande estado de desolação provocado pela invasão de hordas Fulas. Antes de começar o nosso trabalho e dar uma direção às operações, incumbia-me uma dupla missão que iria cumprir em Kandiafara: assegurar-me da boa vontade dos chefes do país e recolher informações genéricas sobre a geografia das regiões à volta.
Logo à minha chegada constatei haver uma grande emoção que reinava no país. Corria o rumor que um chefe francês vinha fazer a guerra; os Fulas do Forreá, que muito maltratavam os Nalus, invadindo diariamente o território e destruindo toda e qualquer povoação, não se sentiam sossegados, pois estavam em crer que a França tinha vindo em auxílio dos reis dos Nalus, seu aliado. A povoação Fula de Simbéli, edificada a alguns quilómetros de Kandiafara, fora abandonada pelos seus habitantes, e o rei do Forreá, Mamadu Paté, convocara o seu exército.
O primeiro dia foi consagrado à instalação; os oficiais ficaram numa casa de comércio abandonada e os restantes militares construíram abrigos confortáveis. O Sr. Galibert deu conta da sua navegação pelos braços de rio estreitos e lamacentos que permitem a navegação às pequenas embarcações para passar do rio Nuno para o Compony. Ele partira de Samiah com a maré, na noite de 10 de fevereiro, tinha descido com a embarcação do rei Dinah e uma outra embarcação ligeira no curso do rio Nuno até Victória. Costeando depois a margem direita do rio Nuno, andou em braço de rio até Kassagoua. A sete quilómetros de Boffa deixou Kassagoua e penetrou noutro braço do rio sinuoso que desagua no Compony, perto do Cabo Sin. A 12 chegou a Bassiah, pequena povoação de comerciantes situada na margem esquerda do rio, subiu o Compony com a maré e chegou a 13 a Kandiafara. Os braços de rio de Tankina e de Socotia estabelecem uma outra comunicação entre o rio Nuno e o Compony, mas a navegação só é possível por canoa. Esta região de cursos de rio é muito perigosa e insalubre, mesmo para quem lá vive. Encontram-se aqui alguns Nalus misturados com Bagas e Biafadas que fugiam da invasão Fula e procuravam aqui um refúgio seguro.
A 14 à noite, recebi uma mensagem do rei Mamadu Paté. O rio do Forreá anunciava que estaria no dia seguinte em Simbéli e solicitava uma entrevista com o chefe francês. A 15 fui ao encontro acompanhado de um intérprete, de cinco atiradores e de um certo número de atiradores; instalei-me provisoriamente na povoação, mandei montar uma tenda fora do recinto, num espaço descoberto.
Ao cabo de algumas horas ouviu-se o rumor longínquo dos tambores, acompanhados de cânticos, de gritos, de tiros, anunciando a aproximação do rei e do seu exército. Mamadu Paté apareceu montado num cavalo, precedido pelos griots (cantores e tocadores de Korá) que teciam louvores ao seu senhor. Atrás deste grupo vinha uma longa fila de guerreiros, armados de espingardas e de sabre, vestidos com uma curta túnica presa à cintura na qual pendia um grande corno com pólvora. Muitos deles traziam chapéus de abas lisas, tecidos com caniços tingidos com variadas cores; esta indumentária pitoresca era completada por um grande número de amuletos que pendiam no pescoço ou estavam fixados no vestuário ou nas armas.
Mamadu Paté apeou-se ao pé da tenda que estava destinada às conversações e sentou-se na companhia dos principais chefes que tinham vindo com ele. Os guerreiros sentaram-se no chão à volta da tenda. A reunião não podia ter lugar na povoação de Simbéli: o rei estava em guerra com os Biafadas e enquanto não regressasse dessa campanha os usos e costumes proibiam-no de se abrigar na povoação. Avancei, precedido dos meus atiradores, bem indumentado, tendo a arma na espádua e a baioneta no cano. O rei veio na minha direção e travámos os cumprimentos da praxe.
Já sentados, os carregadores depuseram os presentes que foram oferecidos ao rei. Este, homem prudente, fez saber antes, por um confidente, que precisava de deixar à guarda do chefe de Simbéli a maior parte dos presentes que lhe estavam destinados, com este subterfúgio não precisava de acompanhar os seus acompanhantes. Os presentes ficaram à vista de todos, aos pés do rei, estes estavam destinados a mostrar a sua generosidade.
Começaram as conversações. Exponho as razões que me traziam ao Forreá e Mamadu Paté protesta a sua simpatia pela França e por tudo o que é francês. Peço ao rei para me vender cavalos. Ele não pode satisfazer o meu pedido, só tinha três e em mau estado, Mody-Yaya tinha recentemente levado os que ele possuía. Antes de regressar a Kandiafara, e para satisfazer o pedido do meu hóspede, mostrei-lhe a potência das espingardas dos meus atiradores. Estes dispararam sobre troncos de árvores distantes a 300 metros. Os Fulas não puderam conter a sua surpresa e admiração.
Os Fulas do Forreá, que eu acabara de ver o seu exército quase completo de 600 a 800 homens, são antigos escravos dos Fulas. No seguimento de conflitos com a raça conquistadora, eles obtiveram uma certa autonomia; atualmente eles reconhecem a soberania do rei de Kadé, ele próprio é um dos grandes feudatários do Futa-Djalon.
Os Fula-Cundas, gente pobre e guerreira, só podem assegurar a sua independência conquistando território fora do Futa-Djalon, por isso se lançaram em 1852 sobre o Forreá, que estava nas mãos dos Biafadas, eram conduzidos pelo rei Bacar-Demba e expulsaram-nos para os pântanos da costa e para lá do rio Grande de Bolola; depois, sempre à procura de mais territórios, eles empurraram os Nalus para o Combidiah (será o rio Cumbidjã?). Também têm agora presença no Cogon em Kandiafara, sobre o Cacine na vizinhança das nascentes e sobre o Combidiah. A capital do reino está estabelecida em Bolola, a alguns quilómetros do posto português de Buba.
Inebriado pelos seus sucessos, Bacar-Demba quis tornar-se independente do Futa-Djalon, mas as suas pretensões fizeram sombra aos almamis, para estes o Forreá abre uma das melhores rotas da costa: também Alfa-Ibrahim enviou um exército no país e o rei, bem como o seu irmão Doura e todos os seus filhos foram assassinados por Mody-Yaya, rei de Kadé, que era o executor desta política bárbara. Este príncipe dirigiu-se em seguida para Buba junto dos portugueses e a pedido expresso destes últimos nomeou Mamadu Paté rei do Forreá.
(continua)
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Nota do editor
Último post da série de 29 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28226: Historiografia da presença portuguesa em África (537): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (5): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)





















































