sábado, 7 de maio de 2016

Guiné 63/74 - P16062: Convívios (740): VII Encontro de Os Ilustres TSF, ocorrido no passado dia 20 de Abril em Viseu (Hélder V. Sousa, ex-Fur Mil TRMS TSF)

Viseu - 20 de Abril de 2016 - VII Encontro de Os ilustres TSF

 
1. Mensagem do nosso camarada Hélder Valério de Sousa (ex-Fur Mil de TRMS TSF, Piche e Bissau, 1970/72), com data de 6 de Maio de 2016:

Meus caros amigos e camaradas
Já faz algum tempo que não tenho tido contribuição com textos ou notícias para o Blogue, limitando-me, aqui e ali, a enviar os parabéns aos aniversariantes, e um ou outro comentário. Tem sido assim, mais ou menos como 'prova de vida', mas pouco mais.

E tem passado por aqui muita coisa.
Com interesse, e susceptível de promover comentários mais desenvolvidos ou textos complementares ou de réplica. São caso disso, por exemplo e sem ser exaustivo, os artigos do Tony Borié, do Jorge Araújo, do José Teixeira, do Francisco Baptista, do António Tavares e também do José Dinis, com os seus textos subtilmente apolegéticos dos valores do '24 de Abril', da diabolização do MFA e sobre a 'decadência nacional', no entendimento que tal ocorre fruto da 'descolonização' e como corolário dos outros dois "pecados" referidos.

Mas o que me impulsionou agora a escrever, foi outra coisa. Foi a 'morte', ou melhor, a 'vida'!
Há alguns dias, um comentário do António Graça de Abreu, verberava o tom por vezes 'lamechas', de sofrimento, (no seu entender) que alguns camaradas impregnavam nas suas recordações e que melhor do que isso seria celebrarmos a vida, a alegria de estarmos vivos e podermos usufruir disso.
Ele tem razão!
Não tanto porque os sentimentos que perpassam pela esmagadora maioria dos que estiveram em "missão de soberania", em "policiamento de fronteiras", etc., e de suas famílias, não possa ser o da lembrança dos sacrifícios, das angústias, dos sofrimentos, dos desgostos, ao invés da extrema alegria por terem podido participar na defesa da integridade do solo pátrio, mas sim porque, de facto, com o (pouco) tempo que nos vai restando é a "Vida" que devemos celebrar.

Isto tudo, em conjunto, reforçado pela notícia do falecimento desse generoso e empenhado camarada José Eduardo Alves e também ainda 'tocado' pelo falecimento do meu cunhado ('jovem' de 72 anos e que fumou muito quando isso era corrente e socialmente bem aceite...), lembrei-me de vos enviar duas manifestações de "viver a Vida" com a alegria dos reencontros e do gosto e satisfação que isso sempre proporciona e que, nestes dois casos, se referem aos 6º e 7º Encontros dos "Ilustres TSF".

Não sei dizer como, quando e quem começou a chamar "Ilustres TSF" aos jovens que depois de fazerem o 1.º Ciclo do CSM no 3.º Turno de incorporação em 1969, lhes calhou em sorte essa especialidade (TSF), tirada a partir do final de Setembro desse ano no então BT à Graça/Sapadores, em Lisboa.

Isso agora não importa, o que para o caso deve ser notado é que esse grupo foi constituído por 15 'jovens mancebos', de locais muito dispersos do País e que hoje ainda persistem em manter os laços, fortes e indestrutíveis, que então os uniu e que os motiva a procurar materializar estes Encontros.

Acontece que os problemas de saúde também vêm atormentando os seus membros. Dos 15, tanto no 6.º Encontro no ano passado, no Porto, como no 7.º Encontro, este ano recentemente ocorrido em Viseu, foram 9 os presentes. Um já faleceu (vítima de doença 'incurável'...), um outro anda travando batalhas sucessivas com uns 'bichinhos' desse tipo, outro (meu padrinho) está incapaz de se juntar a nós com problemas originados pelo "senhor alemão", outros têm outros tipos de problemas, pelo que a consciência que temos vindo a tomar de que é imprescindível manter esta chama (da amizade, do convívio) viva tem conseguido vencer obstáculos.

No Porto, o ano passado em 27 de Maio, conseguiu-se com que, ao fim de décadas, nos reencontrássemos nessa cidade. Foi bastante bom, o dia estava quente, o 'Porto turístico' lá estava para nos mostrar o que evoluiu (com os ganhos e perdas que isso acarreta). Envio duas fotos ilustrativas desse evento, uma tirada na Ribeira, com Gaia ao fundo e a outra, clássica, no restaurante, que é afinal o local onde se reúnem as memórias.

Como tudo correu bem e como nos apercebemos de que este tipo de Encontros nos fazem bem, nos 'rejuvenescem', decidimos logo ali não deixar passar muito tempo para que novo Encontro ocorresse e desse modo ficou aprazado que este ano de 2016 seria em Viseu.

E assim foi. Lá estivemos novamente 9, sendo que esta ano o A. Calmeiro não teve possibilidade de participar por motivo dos tratamentos que anda a fazer mas no lugar da sua falta apareceu o J. Fanha, o que muito nos alegrou.

Como seria de esperar, correu bem. Muito bem. A alegria esteve presente, o rememorar episódios passados em comum (como o caso das "bolachas de m... e de que já relatei aqui no Blogue), outros passados entre as diferentes experiências dos diversos locais por onde se esteve.

O E. Pinto que nos recebeu e organizou os momentos do Encontro surpreendeu-nos com uma visita particular e irrepetível ao "Bar de Gelo" no "Palácio do Gelo", uma visita guiada à "Cava de Viriato", outra ao Clube Viseense visitar o espaço que esse Clube dedicou ao local da estreia de "Os Tubarões" e, para 'memória futura', ainda fomos contemplados com uma garrafa de vinho do Dão rotulada especialmente para o efeito.

Como seria de esperar, a alegria foi grande, a satisfação também e, não menos importante, manteve-se e consolidou-se a amizade entre nós.

Devemos, como diz o AGAbreu, celebrar a Vida e foi o que fizemos e pretendemos continuar a fazer.

Abraços
Hélder Sousa

As fotos:

Ribeira do Porto - 27 de Maio de 2015 - Em baixo o C. Lã. De pé, da esquerda para a direita: A. Calmeiro, M. Rodrigues, E. Pinto, J. Reis, H. Sousa, M. Martins, F. Cruz, e F. Marques.

Ribeira do Porto - 27 de Maio de 2015 - A mesma equipa num Restaurante local

Viseu - 20 de Abril de 2016 - À mesa

Viseu - 20 de Abril de 2016 - No "Bar de Gelo", por ser talvez mais difícil reconhecer as personagens, temos, da esquerda para a direita. M. Martins, E. Pinto, J. Reis, H. Sousa, M. Rodrigues, C. Lã, F. Cruz, J. Fanha e F. Marques.

A Garrafa comemorativa. Um presente inestimável.
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Nota do editor

Último poste da série de Guiné 63/74 - P16058: Convívios (739): XX Encontro do pessoal da CCAÇ 2660, dia 4 de Julho de 2016 em Paredes

Guiné 63/74 - P16061: Agenda cultural (479): Sessão de apresentação do livro "A Tropa Vai Fazer De Ti Um Homem - Guiné, 1971 - 1974", de Juvenal Amado, levado a efeito no passado dia 21 de Abril, no Auditório da Biblioteca Municipal da Covilhã

Em mensagem do dia 26 de Abril de 2016, o nosso camarada Juvenal Amado dá-nos conta da sessão de apresentação do seu livro "A Tropa Vai Fazer De Ti Um Homem - Guiné, 1971 - 1974", levado a efeito no passado dia 21 de Abril, no Auditório da Biblioteca Municipal da Covilhã. Esta sessão, promovida pelo Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes, inseriu-se nas comemorações do seu 90.º aniversário, conforme o convite que se publica.


1. Estas foram as palavras que o Juvenal Amado dirigiu aos presentes durante a sessão:

Meus amigos e camaradas.
Começo por agradecer o convite para estar aqui a apresentar o meu livro e falar do nosso passado comum.
Tanta importância tem as voltas que a vida dá, como as voltas que nós damos à vida. No fim, o caminho que nos estava guardado, ninguém o faz por nós. “Chamemos-lhe Destino talvez”.

 Sabíamos como partíamos mas não podíamos saber como voltávamos. Nós somos os felizardos que voltamos. Foi-nos dado a bênção da amizade e da partilha de recordações. Viemos de toda a parte. A comunhão de vivências ganhas nas várias frentes fez de nós seres especiais. Basta falar-se numa localidade africana, para que se troquem saudações e histórias, que são de todos os lugares, que percorremos na nossa juventude. 

Este livro fala dessas vivências e dessas amizades. Quantos ao lerem as suas páginas, não vão sentir que muitas das estórias podiam ser a sua história? Mas quando fui mobilizado, ainda que há muito esperado, o Céu pareceu-me cair em cima da cabeça. Ir para a Guiné, era como sair a sorte grande, das piores razões. O meu irmão mais novo tinha nessa altura 5 anos e confidenciou-me há dias, que se lembra após a minha partida, uma noite escura penetrou na casa onde ele morava com os meus pais e irmãos. Estas palavras dão talvez a dimensão da tragédia, que atingia as famílias durante os dois anos e tal, que tinham os filhos, os maridos a combater além-Mar. 

Quanto a mim, era pior para eles do que para nós, que lá estávamos. As mães viam os filhos permanentemente em perigos e nós, a maior parte do tempo, nem dávamos por ele. Situação repetida pelos 13 anos que durou a guerra que Portugal sustentou em três frentes com maior ou menor intensidade. 

Este livro não é de guerra, é de histórias, de vidas que estiveram na guerra. Essencialmente o que importou foi falar deles, das suas conversas no abrigo, no posto de sentinela, nas colunas e nos momentos de aperto. Também falo das suas mortes, porque falar delas é prestar-lhes homenagem, é prolongar as suas memórias e lembrar às pessoas que se morreu lá em combate, em minas, também em desastres, numa picada qualquer e também por falta de assistência médica. Também as doenças mataram muitos. 

Muitos que não foram lá pensarão que morrer de doença ou desastre, também cá se morria. Mas não era a mesma coisa. O paludismo, a hepatite, a alimentação onde imperavam os liofilizados, os enlatados, a falta de ovos, peixe e carne fresca, a água de duvidosa proveniência, a par de álcool ingerido em quantidades anormais, foram responsáveis por muitas vidas perdidas lá e que, se vieram a perder depois do regresso cá. 

Deram a suas vidas por razões certas ou erradas, não é isso que importa. O que importa será porventura, não deixar esquecer que morreram longe das suas famílias e alguns, ainda por lá estão em campa rasa. 

Algumas das figuras deste livro já morreram. Morreram lá, outros cá de doença e de acidentes. Já é longa a lista meus amigos e, é sempre com um aperto no peito, que ouço falar dos que estão doentes. Pode-se dizer como é uso “que a vida é dura e mais curta que comprida”.

Mas; 
“ Com a certeza que faz de nós seres únicos, teremos sempre direito a um lugar na memória dos que connosco privaram. Quando chegarmos a velhos, falaremos do tempo ou falaremos, de outros tempos”.

A Tropa Vai Fazer De Ti Um Homem é o titulo, mas também é um motivo de reflexão. 

Muitos dos que foram combater Além-Mar, começaram a trabalhar mal saíram da escola primária. A maioria já trabalhava há dez anos ou mais. Contribuíam para o orçamento familiar, alguns já casados, com filhos e responsabilidades de vária ordem. Terá sido a tropa que fez deles uns homens? Sinceramente penso que na grande maioria já eram homens feitos e que não embarcaram de ânimo leve. 

Num extrato do início de uma história, que relata a ansiedade com encarei o meu embarque e escrevo: 
“ Como proscritos quando quase todos dormiam, fomos transportados pela a calada da noite, o Mar cresceu à nossa volta, tornou-se denso, abraçou-nos e tornou-se imenso”.

Quem pode negar hoje que não foram momentos difíceis? 
Uma coisa teremos a certeza, é que fez de nós homens diferentes. 

A todos muito obrigado pelo carinho e amizade com que fui brindado na ocasião. 
A vida guarda muitas surpresas boas e esta, é sem dúvida uma delas.


2. Algumas fotos do evento:

Um aspecto da assistência

Na Mesa: João Cruz Azevedo, Presidente da Direcção do Núcleo da Covilhã da LC; Jorge Manuel Torrão Nunes, Vereador da Cultura da Câmara Municipal da Covilhã; Naná Gonçalves, poetisa e Juvenal Amado.

Juvenal Amado recebe um exemplar da Medalha comemorativa dos 90 anos do Núcleo da Covilhã da LC.


Juvenal Amado com o ex-Fur Mil Sap Fernandes e Romão Vieira da CCAÇ 2912

O 3872: Pereira, Dulombi; Alcains, CCS; Juvenal Amado; João Romano, Saltinho; Fernandes e Luciano, CCS

Jovens interessados

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3. A sessão de apresentação do livro do Juvenal Amado foi antecedida de um almoço de que se publicam duas fotos:

 Na foto o Ten-Cor Ley Garcia do Núcleo de Leiria da Liga dos Combatentes e a poetisa Naná Gonçalves

Nesta foto: Pereira Nina, do Núcleo da Covilhã da LC, que iniciou o processo que me possibilitou a apresentação do livro na Covilhã, também camarada do Carvalho em Aldeia Formosa; o Azevedo, combatente em Angola; eu; o meu camarada da CCS, António Fernandes e o Ten-Cor Levy Garcia, Presidente do Núcleo de Leiria da LC.
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Nota do editor

Último poste da série de 5 de maio de 2016 Guiné 63/74 - P16051: Agenda cultural (478): Lançamento do livro "Haikus do Japão e do Mundo", de António Graça de Abreu, 10 de Maio pelas 18h30, no Centro Científico e Cultural de Macau, Rua da Junqueira, 30 - Lisboa: "Gostava de ter lá alguns camaradas da Guiné, e de ler dois ou três haikus sobre a nossa guerra" (o autor)

Guiné 63/74 - P16060: Na festa dos 12 anos, "manga de tempo", do nosso blogue (9): De quantas tabancas é feita a Tabanca Grande ?... Relembrando o feliz acaso do reencontro, 40 anos depois, do Zé Manel Matos Dinis com "o senhor Rosales", na Quinta do Paul, Ortigosa, em 20 de junho de 2009, por ocasião do nosso IV Encontro Nacional, e que esteve na origem da criação da Magnífica Tabanca da Linha...


1. Comentário com quase 7 anos, do José Manuel Matos Dinis, participante do IV Encontro Nacional da Tabanca Grande, na Quinta do Paul, Ortigosa, freguesia de Monte Real, concelho de Leiria,  em 20 de junho de 2009...  (A partir do V Encontro Nacional, em 2010, e até hoje, os nossos encontros anuais passaram a ser no Palace Hotel Monte Real, ali ao lado, que a freguesia é a mesma, Monte Real).

Não é que colegas de colégio, que não se viam há muito, e para mais vizinhos, vão-se reencontrar mais de 40 anos depois, a 135 km a norte de Cascais ?... 

Falamos do Zé Manel Matos Dinis e do Jorge Rosales... Foi talvez nesse dia, já longínquo, de 20 de junho de 2009, num sábado, tórrido, que terá nascido a Tabanca da Linha... Pois que fique, para memória futura, e como documento para a nossa "pequeno história". este naco de prosa do Zé Dinis... Fomos recuperar este texto, servindo ao mesmo tempo para abrilhantar os festejos  dos 12 anos da Tabanca Grande (**), que é a mãe de todas as tabancas...  Curiosamente temos dificuldade em encontrar uma foto com eles dois juntos, o régulo da Tabanca da Linha, o 'comandante' Jorge Rosales e o seu 'adjunto' ou 'secretário' Zé Manel Matos Dinis... Pode ser qu o fotógrafo oficioso da Tabanca da Linha, o Manuel Resende, descubra uma, nos seus arquivos...

Recorde-se que o José Manuel Matos Dinis foi fur mil at inf, CCAÇ 2679 (Bajocunda, 1970/71). E que o Jorge Rosales Jorge Rosales,  membro da nossa Tabanca Grande, desde junho de 2009, foi alf mil da 1ª CCaç Indígena (Porto Gole1964/66).

E a propósito das tabancas da Tabanca Grande... Afinal, quantas são ? Ninguém sabe, ao certo. No nosso blogue, temos referida a existência de quase duas dezenas, a mais recente das quais a Tabanca do Algarve. Aqui vai uma lista dessas tabancas (umas mais efémeres, outras consolidadas, e outras até de um tabanqueiro só...):


Ainda recentemente surgiu mais uma tabanca, a do Algarve. Em boa hora.. Foi assim saudada pelo nosso editor LG (***):

Bolas, não é sem tempo que a Tabanca Grande se alarga para além do Tejo... e galga as praias algarvias!...  Já podemos, finalmente, acrescentar aos nossos reais títulos o de régulo mor da Tabanca Grande de Portugal e dos Algarves e da Além Mar na Guiné....

Ainda houve, em tempos, um tímido e inconsequente 'ameaço' de Tabanca de Setúbal, logo abortado á nascença... Afinal, o nosso camarada setubalense, candidato a régulo, não quis assumir o cargo (, que está historicamente conotado, é mal visto e pior remunerado,) de régulo... Bolas, 'régulo' cheira a império, ultramar, poligamia, Estado Novo, colonialismo!...

Valha-nos ao menos o José Viegas e o Henrique Matos que vêm dar a cara pela Tabanca do Algarve...Já o Estorninho, há anos, clamava pelo alargamento de fronteiras da Tabanca Grande!...

O nosso querido amigo e camarda Hélder Sousa vem a terreira defender os seus pergaminhos e, em última análsie, a honra da Tabanca de Setúbal (***)

O primeiro pela demora em saudar tal iniciativa. De facto esta 'coisa' das 'Tertúlias' ou 'Tabancas', podendo parecer que se trata de mais uma 'manifestação gastronómica', a verdade é que é algo mais profundo do que isso, é a manifestação prática da vontade de nos juntarmos (a 'manifestação gastronómica' é apenas o pretexto) e assim fazermos não só uma espécie de 'prova de vida' como também se aproveita para falar e relembrar assuntos que nos são comuns.

O segundo tem a ver com as 'explicações' para a (ainda) não desenvolvida 'Tabanca de Setúbal'... É que dá trabalho! É preciso tempo, é preciso disponibilidade para telefonemas, é preciso 'golpe de rins' para resolver as situações de 'última hora' quando os amigos os se 'esquecem' de marcar antecipadamente as suas decisões e/ou então alteram as já tomadas. Sem tempo e disponibilidade tudo se torna muito difícil. Mas a 'coisa' há-de singrar! (...).


Mas outras iniciativas estão em marcha: por exemplo, João Crisóstomo [, foto à direita,], futuro comendador (, que o palácio de Belém nos oiça!), quer organizar a Tabanca da Diáspora, a partir de Nova Iorque e do seu telemóvel.. 

Tem, desde já,  todo o nosso apoio: é preciso juntar os mil e um camaradas da Guiné espalhados pelos quatro cantos do mundo, do Brasil à Austrália, do Canadá à França, da Guiné à Holanda, da Suécia aos EUA, da Alemanha a Angola!...


Jorge Rosales.
Foto de Manuel Resende (2012)
2. Comentário de José Manuel Matos Dinis (*):

Camaradas, (de ambos os géneros, na medida em que já há muitas Senhoras a encostar as caras aos maridos em frente dos monitores).

Como refere o Luis, o blogue é grande!

Vejam só: frequentei um colégio [, os Salesianos,] que um camarada nosso, mais avançado que eu na idade, também
frequentou. Lembro-me dele, de casaco aperaltado e porte elegante.

O seu irmão Zé [ Rosales] era da minha turma. Depois, já eu era rapaz para 18/19 anos, ainda jogámos à bola. Ele era craque, tinha pontificado na mais simpática equipe daquele tempo, a Académica. Eu jogava a ponta, que era um sítio de que ninguém se lembrava. Se a bola passava por mim, chutava para onde estava virado. Se a parava e queria fazer um bonito, tropeçava, atrapalhava-me, e os companheiros tratavam-me do piorio.

O [Jorge] Rosales era um senhor. grande sentido estratégico, grandes aberturas, noção total do campo, era um doutor no E.P [Estoril Praia],  fino e muito respeitado, com um jogo tranquilo, de quem apreciava a bola e evitava pontapeá-la.

Moramos a dois passos, mas nunca mais o vi, julgo eu.

A Ortigosa proporcionou o encontro. Apesar de umas diferençazitas do ponto de vista estético, ficou combinado aparecermos a treino.(*).



Cascaios, Carcavelos> Hotel Riviera > Almoço-convívio da "Magnífica Tabanca da Linha" > 21/1/2016 > .Os manos Rosales, Jorge e José. Foto rara...

Foto (e legenda): © Manuel Resende (2016). Todos os direitos reservados. 

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(**) Último poste da série > 4 de maio de 2016  > Guiné 63/74 - P16049: Na festa dos 12 anos, "manga de tempo", do nosso blogue (8): A bonita e original capelinha de Buruntuma, de estética modernista (José Mota Tavares, ex-alferes mil capelão, CCS/BCAÇ 1856, Nova Lamego, 1965/67)

(***) Vd. poste de 2 de maio de 2016 >  Guiné 63/74 - P16041: Convívios (737): Em 16 de abril útimo realizou-se o 1º encontro de ex-combatentes de Faro, que estiveram no TO da Guiné... Nasceu, finalmente, a tão desejada, e já aqui falada, Tabanca do Algarve, com próximo encontro já marcado para 14/4/2017 (José Viegas, ex-fur mil, Pel Caç Nat 54, Enxalé e Ilha das Galinhas, 1966/68)

Guiné 63/74 – P16059: Estórias do Zé Teixeira (40): Estranho acidente com arma de fogo (José Teixeira)

1. Em mensagem do dia 3 de Maio de 2016 o nosso camarada José Teixeira (ex-1.º Cabo Aux. Enf.º da CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá e Empada, 1968/70), enviou-nos esta estória para a sua série Estórias do Zé Teixeira:


Estórias do Zé Teixeira

40 - Estranho acidente com arma de fogo

O Cascais sentiu-se perdido no alto mar. A amargura penetrava-lhe na alma. O ondular das ondas que faziam dançar a velha e desgastada carcaça do Niassa, recordavam-lhe que há muitas marés. Há marés baixas e marés altas. No circuito da sua vida passada, assim tinha acontecido, mas as nuvens que ao longe escondiam o azul dos céus, varriam-lhe a mente, escondendo-lhe o futuro. Sabia de onde vinha, não sabia para onde ia. Vagueava como um autómato no convés do barco.
Buscava uma sombra que não encontrava, para pousar o pensamento. Apenas um sol escaldante, tal como os fantasmas que lhe inundavam o espírito. Sentia a perda do sentido que queria dar à vida. Não vislumbrava o seu princípio nem avistava o seu fim. Só águas azuis, e transparentes; por vezes agitadas, tal como o seu espírito. Os olhos vagueavam à procura do norte que deixara fugir.
Perguntas e dúvidas, muitas; respostas, nenhumas. Apenas sabia que estava vivo. Queria viver a vida, que seus pais lhe ofereceram sem a ter pedido, amando. Amando perdidamente a Ana. Aquela boneca feiticeira que lhe enchia a alma e lhe transmitia imensa calma na vida.
Sonhava em chegar a Bissau, rapidamente. Pelo menos ia encontrar terra firme... Talvez uma carta da sua amada.
Os raios solares, afiados estiletes, um misto de prata e ouro, penetravam-lhe na cabeça rapada, provocando um sobreaquecimento doloroso e entorpecente. Tentou reagir positivamente deixando-se transportar para a sua terra natal, o Porto.
A saudade dominou-o mais uma vez. Nas silhuetas dos camaradas, seus subordinados, também eles absortos, com ares de assustados, a mirar o vazio do céu, viu a sua mãe, lacrimejante, tentando esconder as lágrimas num sorriso de esperança. Ouviu as suas últimas palavras:
- Vai com Deus. Que te acompanhe sempre e te proteja. A tua vida vai dar muitas voltas, mas tu vais voltar. É tua mãe que o diz. Acredita…

Desembarcou diretamente para uma LDG e logo se embrenhou pelo Rio Cacheu acima. A fome, que andara por longe, apertou quando a barcaça abicou em S. Vicente. E logo ali, descobriu que os tais “selvagens” pintados com as mais horríveis cores pelos “media” da metrópole, eram afinal tão humanos como ele, ou talvez mais…
Sentado à sombra de uma frondosa árvore desembrulhou a ração de combate. Ali em frente, três africanos aguardavam transporte para a tabanca de destino. Tirou o quadrado de marmelada, cruzou um olhar com um africano e não hesitou: ofereceu-lhe a marmelada. O espetáculo que se seguiu emocionou e fê-lo pensar – afinal são estes os “selvagens” que eu venho combater!
O africano beneficiado com o pitéu partiu cuidadosamente o quadrado de marmelada em três partes iguais e distribui-o pelos dois companheiros de jornada. O mesmo aconteceu com o resto da ração que foi parar inteiramente às suas mãos. O Cascais encheu a alma, matando deste modo a fome que o perturbava.

Nos tempos que se seguiram, deixou-se roer pelas saudades da Ana, mais que do medo da morte, com quem se cruzava amiúde.
Colocado com o grupo de combate que comandava, numa pequena tabanca no Sul, assumiu a responsabilidade de assegurar o bem-estar dos seus homens e da população de etnia Fula, que o cobria de atenções, mas a crueldade do tempo que teimava a não passar, roía-lhe a alma.
As notícias de Portugal não abundavam. A Ana parecer tê-lo esquecido, ou talvez não, mas porque não escreve? Interrogava-se.
Todas as manhãs o Destino presenteava-o com uma salada mista, de saudade e ciúme, temperada com desejos libidinosos, próprios da idade do fogo, à qual faltava um copo de calor de um corpo humano e um cálice de beijos. Sedento de afetos e esfomeado de amor, o Cascais percorria milhares de quilómetros através da mente para se encontrar com a Ana na Praia da Emília Barbosa em Matosinhos, rodeado dos seus homens, agora seus, inteiramente. Homens rudes, mas valentes, que se habituara a amar, e com os quais se comprometera a fazer tudo para os fazer regressar sãos e salvos à Mãe Pátria.

O Destino marca a hora e como já ouvira o Sérgio Godinho, na clandestinidade cantar “Se o mundo é composto de mudança, troquemos-lhe as voltas que ainda o dia é uma criança”, começou a dar voltas à cabeça.
Naquela manhã de Setembro, quando o sol radiosamente sorriu, o Cascais, ao sentir o Destino aproximar-se, com o prato envenenado que tanto o fazia sofrer, pegou no garrote, fez o laço envolvente, com toda a suavidade. De seguida tirou a Walther do coldre apontou cuidadosamente e pum!...
A tabanca acordou alvoraçada. As mães atentas procuraram com ansiedade novos sinais de perigo, que felizmente não surgiram. Os soldados apuraram o ouvido para localizar a origem do tiro. O silêncio que se seguiu acalmou-os. Ouviu-se, sim logo de seguida, um grito: Enfermeiro! Enfermeiro!
O enfermeiro pegou na sacola e correu para o local de onde surgiu o tiro. Depara então com o Alferes Cascais, sentado na sua cadeira. A pistola a descansar ali ao lado. Com as mãos agarrava a perna direita devidamente garrotada com um buraco de onde saía um ligeiro fio de sangue. A bala proveniente de um tiro devidamente calculado vazou-lhe a perna, passando por entre a tíbia e o perónio, deixando estes ossos à mostra, com algumas escoriações.
O Cascais arranjou, desta forma, uma viagem de emergência para o Hospital Militar de Bissau e de seguida uma passagem até à Metrópole e naturalmente uma oportunidade de matar as saudades que o corroíam.

Seguiu-se um rigoroso processo de averiguações. Era preciso descobrir se fora um tiro por acidente ou premeditado. Um jovem mancebo podia e devia dar a vida pela Pátria, mas não podia autoflagelar-se por amor. O Cascais não era senhor do seu destino, desde o momento que assentou praça em Mafra. Um crime de lesa pátria como este não podia ficar impune. A bala perdida tinha sido paga pelo erário público.
Do relatório final consta o seguinte: O Alferes Cascais, como diligente oficial do exército português em missão de soberania na Guiné, ordenou ao pessoal que lhe estava adstrito que naquela manhã procedesse à limpeza da arma distribuída, tendo ele dado o exemplo. Retirou o respetivo carregador e apesar de estar convencido que não tinha deixado uma bala na câmara deu o tiro de segurança atingindo-se a si próprio numa perna. Assunto encerrado.

Dois meses depois, já recuperado, fez uma visita relâmpago aos seus homens, aproveitando a deslocação de um helicóptero. Foi recebido em festa pelos seus homens e população. Do acidente com a arma, não se falou e mais nada se soube.

Passados estes anos, que já são muitos, ninguém se lembrará do acidente. Talvez nem o próprio, que continua vivo e espero que esteja de boa saúde.
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Nota do editor

Poste anterior de 3 de dezembro de 2010 Guiné 63/74 – P7373: Estórias do Zé Teixeira (39): O medo do terrífico telegrama (José Teixeira)

Guiné 63/74 - P16058: Convívios (739): XX Encontro do pessoal da CCAÇ 2660, dia 4 de Junho de 2016 em Paredes (Virgílio Pereira)

Mensagem do nosso camarada Virgílio Paulino Pereira, ex-Fur Mil da CCAÇ 2660 (Teixeira Pinto, 1970/71), com data de 6 de Maio de 2016 a pedir a divulgação do Convívio da sua Unidade.

Agradeço que, dentro das vossas possibilidades divulguem o convívio/almoço da CCAÇ 2660 que esteve na Guiné entre Fevereiro de 1970 e Dezembro de 1971 na região de Teixeira Pinto (agora Canchungo), integrando o BCAÇ 2905.
Comandou a nossa Companhia o Sr. Capitão Luciano Ferreira Duarte (agora Coronel), que este ano e após algumas ausências, vai honrar-nos com a a sua presença amiga. Tão amiga, quanto foi grande a amizade que sempre dedicou aos seus homens na comissão na Guiné, mas que nós, sempre retribuímos com lealdade, respeito, gratidão e estaremos sempre e eternamente gratos.
O Sr. Coronel Luciano Ferreira Duarte FOI SEMPRE UM DE NÓS, NUNCA UM ACIMA DE NÓS.
O nosso grande agradecimento.

Cumprimentos.
Virgílio Paulino Pereira
Ex-Furriel Miliciano

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CCAÇ 2660

GUINÉ / Teixeira Pinto e áreas circundantes – 1970/1971

20.º CONVÍVIO

Acontecerá no próximo dia 04 DE JUNHO DE 2016 (SÁBADO)

O Restaurante “TERRA MAR” (tel. 255 784 064), com sede em Paredes, irá servir o nosso convívio, que acontecerá na QUINTA DO CASTELLO, Rua Dr. José Alves Leão em PARADA, zona de Paredes.

“Quinta do Castello” ou “Casa do Castello”, quinta muito antiga, datada de 1699 (século XVII), recuperada, preservada e espectacularmente bela. Vista extraordinária sobre o vale onde corre o Rio Sousa.

Poderás chegar, além de outras, também desta forma:

- Do Sul, A1, saída em Grijó (antes dos Carvalhos) para a A41 e depois sair para A4.

- Do norte entrar na A4.

- Na A4, saída de Baltar; Sentido “Sobreira/Recarei”; Após o cruzamento para direita e depois de 200 mts.à esqª aparece a Rua Dr. José Alves Leão, com a quinta de imediato.

- Estacionamento no portão à esquerda, privado, seguro e com vigilância. Acesso directo ao interior da quinta.

- Coordenadas para GPS: LAT./LONG. 41.168323 // -8.381192

Com € 20,00 (vinte euros) apreciaremos a boa e variada gastronomia da região.

Atendendo à grande diversidade de alimentos que compõem o almoço, resolvemos anexar listagem para melhor avaliação.

MUITA ATENÇÃO
Vai estar presente no almoço/convívio o Nosso Capitão na Guiné, Senhor Coronel Luciano Ferreira Duarte.

ALOJAMENTO
Se necessitarem poderão comunicar com o Virgílio (966 007 841), que posteriormente informarei o ou os locais aconselháveis, com indicação prévia dos respectivos preços.

AGRADECEMOS A CONFIRMAÇÃO ATÉ 30 DE MAIO DE 2016 (2ª FEIRA).

BARBOSA - 919 310 457 ou 255 776 571 
MÁRIO RUI - 969 044 531 
SIMÕES DIAS - 968 710 005 
VIRGÍLIO - 966 007 841

Um grande abraço dos amigos:
Barbosa
Mário Rui
Simões Dias
Virgílio
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Nota do editor

Último poste da série de 5 de maio de 2016 Guiné 63/74 - P16053: Convívios (738): XXIII Encontro Anual do pessoal do Batalhão de Caçadores 2912 (Galomaro, 1970/72), a levar a efeito no dia 4 de Junho de 2016, em Guimarães (António Tavares, ex-Fur Mil SAM)

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Guiné 63/74 - P16057: In Memoriam (257): José Eduardo dos Santos Alves, o "Leça" (1950-2016), ex-sold cond auto, CART 6250, Mampatá (1972/74): homenagem da Tabanca Grande


José Eduardo dos Santos Alves, o "Leça" (1950-2016)
Sold Cond Auto, CART 6250/72, "Os Unidos de Mampatá", Mampatá, 1972/74 (*)


Leiria > Monte Real > Ortigosa > Quinta do Paul > IV Encontro Nacional da Tabanca Grande > 20 de junho de 2009 >  Aspeto parcial dos participantes no encontro que totalizou cerca de centena e meia de presenças


Leiria > Monte Real > Ortigosa > Quinta do Paul > IV Encontro Nacional da Tabanca Grande > 20 de junho de 2009 > A Maria da Conceição Alves, à esquerda, assinalada com um rectângulo a amarelo; a seu lado, a Isaura Resende (esposa do nosso camarada Manuel Resende) e a Lígia Guimarães (esposa do David Guimarães), e por detrás desta a Cyndia, a neta do Valentim Oliveira,


Leiria > Monte Real > Ortigosa > Quinta do Paul > IV Encontro Nacional da Tabanca Grande > 20 de junho de 2009 > Dois casais idos de Leça da Palmeira, da esquerda para a direita: o José Eduardo Alves, a esposa Maria da Conceição, e depois a Elisabete e o marido Ribeiro Agostinho.

Fotos (e legendas): © Blogue Luís Graça & Canaradas da Guiné  (2009). Todos os direitos reservados


Tabanca de Matosinhos > Almoço de 4ª feira > 23 de abril de 2009 > O casal Alves, a Conceição e José ("Leça") que ainda recentemente foram e voltaram à Guiné de carro; ao lado, à esquerda, o nosso autarca de serviço.. o Carvalho de Mampatá.

Foto (e legenda): © Blogue da Tabanca de Matosinhos  (2009). Todos os direitos reservados


1. Deixou, há dias, a "terra da alegria" (como diria o poeta Ruy Belo) o nosso camarada José Eduardo Alves (1950-2016), também conhecido pela sua alcunha da tropa, o "Leça". Nasceu em Cabeceiras de Basto e morreu em Leça da Palmeira, Matosinhos, para onde veio com 12 anos para marçano. Deixa viúva a nossa amiga Maria da Conceição. Tinha ainda um filho, que vive na Suíça.  

Deixou-nos a todos, tristes e inconsolados. Morreu cedo demais, já que, sendo um camarada e amigo da Guiné, ele merecia tudo, ou seja, muita saúde e longa vida. No momento da partida (derradeira), cabe-nos lembrar e honrar o homem bom, simples e solidário que ele foi, amigo do seu amigo, camarada do seu camarada. A Tabanca de Matosinhos, a nossa Tabanca Grande e os "Unidos de Mampatá", a antiga CART 6250, perdem um bravo soldado, um dos melhores de todos nós.

Na singela homenagem que lhe quisemos fazer, juntamos aqui alguns fotos mais antigas, alguns comentários de camaradas que o conhecerem melhor e ainda um pequeno texto que ele escreveu em tempos para o blogue, mostrando todo o seu amor à Guiné e ao seu povo.

O "Leça" ficará sempre connosco, na nossa memória, no nosso blogue, enquanto a gente por cá andar e tiver ganas de continuar a partilhar memórias e afetos, à sombra do nosso mágico e fraterno poilão, tendo por pano de fundo a Guiné que conhecemos entre 1961 e 1974, nas duras condições de uma guerra (*)...  LG


2. Viajar por (e sentir) a Guiné

por José Eduardo Alves (1950-2016)

Camaradas,

Depois de me ter remetido ao silêncio, mas sempre ativo nas leituras do blogue, hoje acho que está na hora de escrever sobre a viagem que fiz à Guiné este ano [de 2010], e vou fazê-lo porque há sempre alguém que gosta que se fale destas aventuras.

O ano passado também tinha ido à Guiné, mas apanhei a “caravana” nos últimos dias da sua preparação e, pelo caminho, em conversa com alguns dos Camaradas que já lá tinham ido mais vezes, ouvi dizer: “Vais ter uma desilusão,  pois quem lá conhecias já morreu tudo!”

Mas, felizmente, não foi assim e ainda encontrei bem viva muita gente do meu tempo. Fiquei então com vontade de lá voltar e voltei este ano, mais bem preparado e com mais coisas para dar aquelas crianças, que necessitam de tudo (, muito do que nós esbanjamos).

No ano passado tínhamos ido até Mampatá,  quatro homens da minha Companhia - a CART 6250: o [António] Carvalho, o Zé Manuel [Lopes], o Francisco Pereira Nina e eu. Todos ficamos surpreendidos pelo grau de abandono do nosso antigo quartel.

Este ano só fui eu. Como não podia deixar de ser, voltei ao velho quartel de Mampatá, e encontrei em curso obras de recuperação, vendo-se já diferente e renovada a sala do soldado (de pedra e cal), o paiol (que o ano passado nem se via) estava limpinho, a antiga enfermaria (que já não tinha telhado) está a ser recuperada para enfermaria local, os balneários dos soldados estão transformados numa escola, que eu apoiei no que pude e vou continuar a ajudar.

Mas não parei aí e,  como levava uma encomenda, e um pedido do nosso camarada e amigo Vasco da Gama,  para Cumbijã, segui viagem e visitei a Fonte de Iroel (que data de 1946) [, a 2 km de Mampatá, e de que não existe uma única imagem no nosso blogue!], Colibuia e Cumbijã.

Cumbijã, onde um dia encontramos a CCAÇ 18 e outras NT que lá estavam encurraladas. Quem conhece a zona entende o porquê deles estarem encurralados, é que a estrada Mampatá - Nhacobá  não tem saída para lado nenhum.

Depois visitei Guileje, Gadamael e Cacine, regressando a casa por Mampatá, Nhala, Buba, seguindo pelo Quebo, Bissau, S. Domingos, Casamança, Gâmbia, Senegal, Mauritânia, Marrocos, Espanha e, finalmente, Leça da Palmeira (onde vivo).

Vou continuar a trabalhar para levar mais alguma coisa àquelas crianças. Vou lá quando puder e penso que não é uma forma de neocolonialismo.

Vou dizer algumas palavras que ouvi a uma Guineense: "Ó Leça, só vieste agora, foste embora zangado e vieram estes (…), para o vosso lugar. Vocês entregaram isto a um (…) armado, que era uma minoria e cujos cabecilhas nem eram Guineenses, eram de outro país.”

Penso eu que, se calhar, o governo Português ainda um dia há-de pedir desculpas à parte daquele povo que ensinou a pegar e usar uma arma, depois tirou-lha e abandonou-a à mercê de uma sorte cobarde, traiçoeira e macabra.

Agora, quero levar luz eléctrica a Mampatá, especialmente para a dita enfermaria e posto de rádio, que foram inauguradas pelo sr. Pepito, no dia em que nós lá estivemos (...).

Se alguém quiser contribuir com objectos, equipamentos e medicamentos, tudo o que nos entregarem será bem aceite. Lembrem-se que muita coisa que para nós já não tem valor, nem aplicação faz falta àquele bom povo da Guiné. Nós, eu e a minha esposa [, Conceição,], pedimos mais precisamente roupas de criança e material escolar, assim como medicamentos (dentro do prazo de validade, como é evidente).

É a minha esposa que se ocupa da recolha, selecção e embalagem destas coisas, foi uma vez à Guiné e quer lá voltar. (...) (**)


3. Algumas das mensagens de camaradas que conheceram melhor o José Eduardo Alves (*):


(i)  António Carvalho [Carvalho de Mampatá]

Sempre optimista e esperançoso, a nada se vergava ele, José Eduardo, mesmo quando perdeu uma filha, há alguns anos, logo se reergueu com novo ânimo. Por sorte, também a esposa Conceição o acompanhava nas jornadas de solidariedade para com o povo da Guiné, especialmente da área de Aldeia Formosa e Mampatá, que visitava, todos os anos, desde 2009. Mas a morte não escolhe só os maus nem só os bons, leva-nos a todos, quando calhar. Cada vez ficamos mais reduzidos, até que o último morrerá também, inexoravelmente.

Para toda a família, a minha homenagem


(ii) Um seu conhecido e amigo [que, por lapso, não se identificou]

Não estive convosco na Guiné, estive em Angola e é fácil de entender o espírito de grande camaradagem entre vós. Há uns anos atrás criei um slogan que diz:

AS ARMAS TAMBÉM UNEM OS HOMENS

Neste momento, quero dizer que conheci o Eduardo há poucos anos, mas além de grande trabalhador, era um homem de carácter e amigo.

O seu grande coração dividia-se pela Guiné. Falava deste país com uma alegria e vaidade por bem conhecer.

Neste ano da Misericórdia que o Papa Francisco bem instituiu, o nosso amigo Eduardo e a sua esposa Conceição, muito bem lá cabem. Que Deus lhe dê coragem para enfrentar este desenlace, bem como a seu filho que os amigos tenham o discernimento adequado para os ajudar. Enfim, vamos dar as mãos para ultrapassar este momento tão difícil, mas a vida é isto e não para.


(iii)  Manuel Carvalho

Homem de carácter e de forte personalidade mas simples e amigo do seu amigo.Gostava de olhar olhos nos olhos e cumprimentos de mão bem apertados.Sempre preocupado com o seu semelhante e passou os últimos anos da sua vida a ajudar os seus amigos da Guiné.
Que Deus o tenha num bom lugar que bem merece.
Um dia nos encontraremos por aí.
Para a esposa e filho as minhas sentidas condolências.


(iv) José Manuel Matos Dinis

Tive oportunidade de conviver com o casal numa deslocação à Guiné, e eram de facto pessoas simpáticas e solicitas. Agora o Zé acabou a caminhada, como um dia vai acontecer-nos.
Aproveito para apresentar as minhas condolências pelo infeliz evento.
Um beijo para a D. Conceição com votos de coragem e resignação nesta hora, e para o Zé fica um abraço a aguardar agenda.


(v) António Murta

O José Eduardo Alves, o "Leça", foi meu contemporâneo em Mampatá, mas só o conheci verdadeiramente (e à sua esposa), no encontro da CArt 6250 em julho do ano passado. Era a simplicidade em pessoa mas de carácter firme.

À sua esposa e restante família, envio as minhas sentidas condolências. Aos seus amigos e camaradas, especialmente o Zé Manel e o Carvalho de Mampatá, envio um abraço solidário.

Guiné 63/74 - P16056: Nota de leitura (836): “Portuguese Africa, A handbook”, com coordenação de David M. Abshire e Michael A. Samuels, respetivamente doutorados nas universidades de Georgetown e Columbia, nos EUA (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 17 de Junho de 2015:

Querido amigos,
O objetivo é o de compendiar tudo o que se escreveu, de diferentes proveniências, sobre a guerra da Guiné.
Este levantamento foi feito por dois estudiosos norte-americanos, a edição em referência é de Londres, 1969. A obra já refere a substituição de Schulz por Spínola. É um levantamento sobre toda a África Portuguesa, abarca a história, o processo colonial, as etnias existentes, a natureza da administração colonial, as infraestruturas, a economia e comércio. A quarta parte prende-se com as questões políticas internacionais, é aqui que entram os conflitos armados e particularmente o que se passava na Guiné.
Não é nada de assombroso, curiosamente ficamos aqui com uma água-forte do período de Schulz e do móbil da sua atuação.

Um abraço do
Mário


Um manual sobre a África Portuguesa, 1969

Beja Santos

“Portuguese Africa, A handbook”, teve como coordenadores David M. Abshire e Michael A. Samuels, respetivamente doutorados nas universidades de Georgetown e Columbia, nos EUA. Apresentam o seu trabalho como o primeiro estudo interdisciplinar da África Portuguesa, uma obra que pode interessar a geógrafos, historiadores, cientistas políticos, sociólogos, economistas e estudantes de relações internacionais. Ao longo de mais de 400 páginas, diferentes colaboradores analisam o enquadramento da África Portuguesa, as formas de governação e as sociedades, a economia e as questões políticas internacionais. Os estudos mais relevantes centram-se em Angola e Moçambique mas há bastas referências à problemática guineense, são questões analisadas a propósito da ascensão dos partidos nacionalistas e dos conflitos existentes no nosso Império.

Vejamos o que os autores abordam sobre a Guiné Portuguesa. Referem a criação do PAIGC, o trabalho militante de Amílcar Cabral e de Rafael Barbosa e esboçam a política do PAIGC, a unidade da Guiné e Cabo Verde como Estado independente, dando como adquirido de que tal estratégia assenta no pouco significado económico da Guiné e no posicionamento das ilhas de Cabo Verde. Apresenta-se a atividade em todas as direções que o líder do PAIGC, as relações com Conacri e Dakar, a orgânica do PAIGC no território colonial, a natureza do armamento nos primeiros anos da insurgência e o confronto com a FLING – Frente para a Libertação e Independência da Guiné Portuguesa. São apresentadas as alianças do PAIGC e dá-se ênfase ao reconhecimento feito pela organização da Unidade Africana. Resume-se o histórico da guerrilha a partir dos atos de sabotagem efetuados a partir de 1962 e a efetivação da guerra com a nova orgânica militar aprovada no Congresso de Cassacá. Esse histórico inclui o relacionamento do PAIGC com o MPLA e a FRELIMO, bem como o Movimento de Libertação de S. Tomé. Contextualiza-se as atividades de todos os movimentos nacionalistas ativos entre os anos 1950 e 1960, quer no interior da colónia quer nos países limítrofes. Na altura em que este manual estava a ser concluído, segundo os coordenadores o PAIGC só possuía um rival modesto, a FLING, presidida por Benjamim Pinto Bull. Os autores sublinham que no caso guineense, ao contrário de outros movimentos revolucionários similares a ênfase era dada à organização política, a militar ficava-lhe subordinada. São referidos alguns líderes militares como Osvaldo Vieira (Ambrósio Djassi) e Nino.

Chegamos agora à guerra da libertação. Extraído o ensinamento de que era impossível a luta urbana, na reunião clandestina de Setembro de 1959 Amílcar Cabral propôs transferir a subversão para os campos e para a criação de uma organização militar flexível, que se aproveitasse dos locais de mais difícil acesso para a constituição de bases, montando-se um esquema de abastecimentos e comunicações em pontos fronteiriços da Guiné Conacri. Os autores revelam-se bem informados sobre a insurgência na sua fase inicial. Pequenos grupos de guerrilheiros atravessam a fronteira a partir do Sul e faziam meetings em diferentes pontos do interior, persuadiam as populações a rejeitar a presença portuguesa, quando necessário intimidavam os relutantes queimando as moranças e aliciam jovens para a guerra. O maior sucesso de recrutamento foi na etnia balanta. Graças à preparação militar adquirida na China, os ataques às posições portuguesas eram bem pensados. De 1963 para 1964, os rebeldes foram senhores de uma elevada porção de território graças ao pânico que se instalou depois das sabotagens, destruição de infraestruturas e intimidação, sobretudo na região Sul e no Leste Presume-se, que nesta fase inicial das hostilidades cerca de 50 mil autóctones deixaram as suas casas e refugiaram-se na Guiné Conacri e no Senegal. A segunda principal etnia guineense, os Fulas, mantiveram-se fiéis a Portugal, rejeitaram perentoriamente a guerrilha, puseram-se em autodefesa, constituíram o principal efetivo das milícias. O general Schulz aparece referido como um comandante militar que inverteu a ocupação do território que o PAIGC estava a praticar. Foram reocupadas povoações e sucessivamente disseminadas unidades militares por grande parte do território. Segundo os autores, em 1965 a situação dava sinais de estabilização, a despeito de um extraordinário poder de iniciativa da guerrilha. Schulz procurou refazer a economia, melhorar a assistência sanitária e o sistema educativo. Mas continuou a ser impossível a impedir a circulação dos guerrilheiros que se infiltravam a partir da Guiné Conacri. Schulz ter-se-á esforçado por pôr tropas em todas as regiões fronteiriças com o objetivo claro de proteger as populações e de encorajar aqueles que tinham fugido para outros países a regressar, criou mesmo programas de apoio à construção dentro das povoações.

A prova de que os autores estavam bem documentados sobre estes anos de luta na Guiné é a que eles explicam o modelo de quadrícula utilizado, a articulação das unidades em batalhões, o abastecimento dos destacamentos, a natureza dos patrulhamentos, etc. O PAIGC, apercebendo-se do sucesso da campanha de pacificação portuguesa respondeu como seu próprio programa de educação, serviços sociais e abastecimento alimentar dentro das áreas que controlava. Em 1966, o PAIGC registou avanços, o contingente português aumentou, a africanização da guerra passou a ser uma realidade, estimava-se entre 20 e 30 mil o número de militares africanos. O documento avança com informações por vezes surpreendentes. Diz que as forças do PAIGC recebiam formação, na fase inicial, na base situada em Kindia, perto de Conacri, com instrutores soviéticos mais tarde substituídos por argelinos. Os guerrilheiros recebiam as suas armas e equipamento provenientes da Europa Oriental e da China. A partir de 1965, os argelinos que forneciam equipamento aos movimentos de libertação foram substituídos pela União Soviética. Os abastecimentos chegavam à guerrilha por três vias: da Argélia via Conacri; por terra, da Argélia via Mali até Conacri e por mar, de Cuba até Conacri. A partir de 1967, o relacionamento entre o PAIGC e Dakar tornou-se amigável e as incursões do PAIGC a partir do Senegal intensificaram-se. Em Koldá, havia uma base do PAIGC e técnicos cubanos. Durante a visita que Américo Tomás fez colónia, em Fevereiro de 1968, discursou de um modo muito claro de que não haveria qualquer transigência com os guerrilheiros, todos os seus ataques seriam repelidos, Portugal não enjeitaria, qualquer que fosse as circunstâncias a defender a Guiné. Para os autores, a substituição de Schulz parecia anunciar, em alguns meios, que iria acontecer uma retirada da Guiné. Mas com Marcelo Caetano, quase de imediato avançaram para a Guiné cerca de 7 mil homens.

Nas conclusões deste imenso trabalho, os autores sublinham que tudo levava a prever que os conflitos na África Portuguesa iriam continuar por muito mais tempo.
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Nota do editor

Último poste da série de 2 de maio de 2016 Guiné 63/74 - P16042: Nota de leitura (835): Os navegadores que antecederam a nossa chegada à Guiné (Mário Beja Santos)

Guiné 63/74 - P16055: As minhas crónicas do tempo da Diamang, Lunda, Angola (1972-1974) (José Manuel Matos Dinis) - Parte I: de Cascais até à Portugália / Dundo...

1. Desafiámos o José Manuel Matos Dinis (ex-fur mil at inf,  CCAÇ 2679, Bajocunda, 1970/71), nosso grã-tabanqueiro e adjunto do régulo da Magnífica Tabanca da Linha, Jorge Rosales (que está de pedra e cal ), a falar da sua experiência de vida em Angola, mais exatamente na Diamang - Companhia de Diamantes de Angola, na Lunda, onde viveu e trabalhou durante dois anos e meio e onde nasceu o seu primeiro filho... Depois do regresso a casa, a Cascais, em janeiro de 1972, vindo a Guiné, rumou até Angola, em maio de 1972.  E foi feliz no Dundo. 

Carlos, Luís


A ver se é isto que se pretende. Seguir-se-ão episódios mais descritivos daquela sociedade. Como de costume,  fiz isto de embute e pode carecer de revisão.


Luís e Carlos, bom dia!

Respondo a um repto do Comandante-Mor para dar conta de algumas das minhas memórias angolanas, que ele acha que podem ter interesse para publicação, enquanto testemunho sobre a colónia que era o motor da economia portuguesa. 

O interesse é muito relativo e meramente histórico. Para quem se interessar pelas ligações portuguesas no mundo, pela forma como o "jardim" [, à beira-mar plantado,] dependia e controlava os imensos territórios e as gentes, e ainda tiver gosto em fazer avaliações sobre a relatividade da Nação no contexto das nações, pode ser que consiga espevitar a curiosidade, no sentido de, ainda mais do que eu, aprofundar esse conhecimento, pois não só há literatura, como muita informação na Net. 

Advirto, porém, de que são algumas das minhas memórias de há 40 anos, e a Angola de hoje nada tem a ver com a daquele tempo. Agora, regista-se um concentracionismo em más condições da população em redor da capital, das actividades sociais e económicas, enquanto o resto do país, de maneira muito abrangente, definha com as antigas e prósperas cidades abandonadas em estado de ruína, conforme legado da guerra que devastou aquela terra.

As minhas memórias, no entanto, são apenas de uma região situada nos confins do nordeste, fronteira com o Katanga, onde a Companhia de Diamantes de Angola [, Diamang,] (*) tinha as suas principais actividades, e era conhecida como um estado dentro do Estado, enquanto de Luanda apenas retenho escassas memórias de duas vezes em que lá passei e permaneci por 8 dias de cada vez.

Abraços fraternos
JD


2. As minhas crónicas do tempo da Diamang, Lunda, Angola (1972-1974) (José Manuel Matos Dinis) - Parte I

Em Janeiro de 1972 tinha saído da tropa, dava passeios e namorava pelo litoral de Cascais, onde outros casais nos faziam concorrência. Os meus amigos estavam na vida militar, acabavam os cursos, ou já tinham iniciado actividades profissionais. Já não era como antes, quando a malta se reunia como seita para a paródia, ou para entusiásticas futeboladas. Namorava com envolvimentos familiares, e tinha a obrigação de procurar definição de vida. Não queria trabalhar debaixo de um tecto, e por isso, ficava excluída uma preparação profissional que tinha iniciado antes da tropa. 

Afigurava-se-me interessante o garantido ingresso como comissário de bordo na TAP (nem tentaria piloto, pois tinha extraído dois dentes no regresso da Guiné e era impeditivo para a categoria), porque o salário era suficiente e os voos alternavam com dias de descanso em Portugal como nos diferentes destinos. Seria uma abertura para novos horizontes.

Porém, mordia-me um bichinho africano, e a minha namorada dava-me carta branca para decidir o futuro. Para não andar totalmente às escuras, informei-me sobre os trabalhos das minas de diamantes, e logo me entusiasmou essa ideia. 

Na minha candidatura em Lisboa aconteceu uma peripécia, porque o chefe de pessoal não me atendeu na manhã e na tarde de um dia, e preparava-se para não me atender no seguinte, sempre "ocupado" com tarefas superiores. Dei uma informação ao contínuo que me olhava com pena, e logo fui muito bem recebido pelos chefe e director do departamento de recursos humanos. Às informações que iam prestar-me durante uma conversa agora agradável, contrapus não ser necessário porque já tinha o conhecimento suficiente sobre a actividade que queria abraçar: mineiro. Assinei o contrato, dois dias antes de a TAP me chamar para as formalidades do curso.

Em Luanda procurei um amigo que trabalhava na Casa Pia. Com ele, ou com a família, passei os
dias em petisqueiras, e por isso, quase não conheci a cidade que, no entanto, afigurou-se-me cheia de contrastes entre o bom e o mau. 

De petiscos é que fiquei bastante satisfeito. Durante esse período nem me dirigi à delegação da Companhia, onde, por vezes, emprestavam um carro ao pessoal em trânsito ou davam informações e facilidades. No dia 21 de maio de 1972 apresentei-me no aeroporto. Ali travei conhecimento com um empregado que fora a Luanda tratar de alguma coisa. Estivemos à conversa informalmente, e em intercaladas apreciações sobre uma jovem, de barrete na cabeça, que se deslocava para o Lobito, onde, infelizmente, amarou o "Frienship" daquela linha (*). 

A seguir partimos para a Portugália (**) com escala em Malange. Ao sobrevoar as Pedras Negras tive a sorte de ver uma manada de palancas em corrida, assustadas pelos motores do avião. O Fortes deu-me algumas indicações pelo caminho e na chegada. Mais tarde, quando me deslocava ao Dundo, costumava procurá-lo para cumprimentos, e acabou por ser o meu padrinho de casamento, contra propostas de pessoas mais importantes, resultado da minha aversão às cunhas e situações de favorecimento.

Essa noite, depois de jantar, dormi na Casa do Pessoal, o que também aconteceu na noite seguinte. Dei uma volta pela localidade do Dundo, a sede administrativa da Companhia, com um urbanismo muito organizado que me sensibilizou favoravelmente. As casas,  de bonitos recortes e amplas varandas, sem muros ou vedações, mantinham boas distâncias até aos limites das ruas, que abrigavam espaços relvados, muito bem cuidados, e com fartura de árvores, arbustos e canteiros de flores, que transmitiam uma grande riqueza pictórica, frescura, e deleite para os olhos. Tudo alinhado e muito limpo. Parecia (e era) um paraíso na terra.

Entretanto fora informado de que ia trabalhar com o mais conceituado dos chefes de grupos mineiros, o engenheiro Marvanejo, um tipo simpático, mas duro, que reflectia os bons resultados pela exigência no desempenho das tarefas. Era coisa que não me assustava, só queria ter oportunidade para fazer a minha aprendizagem em boas condições de diversidade das circunstâncias. 

No Dundo ainda me propuseram trocar o mato pela permanência naquela localidade, a melhor, e a vida de mineiro pela de meteorologista. Delicadamente recusei, eu tinha mesmo uma grande atracção pelo mato. Ofereceram-me como prenda um chapéu colonial, mas era tão incómodo, e eu estava tão familiarizado com o sol africano, que também recusei. Assim, ao terceiro dia de manhã cedo, fiz as despedidas, e embarquei numa viatura Volkswagen de caixa-aberta com as "imbambas" que me tinham calhado em sorte, e incluíam panos para cortinados, lençóis, cobertores, e outras utilidades. 

trajecto para Cassanguidi era de cerca de hora e meia, em estrada alcatroada com passagem pela savana verde de vastos horizontes, por várias aldeias, e uma pequena localidade mineira, Fucaúma, que pertencia ao grupo para onde me deslocava. Cheguei durante a hora de almoço, e fui directo à Casa do Pessoal. "Bom dia meus senhores, chamo-me José Dinis, e sou um empregado novo". Levantaram-se os olhares e cumprimentaram-me de cada mesa com os talheres na mão. 

Depois de almoço, os visitantes que se ocupavam da construção de estradas e de uma ponte, abalaram às suas vidas, e eu apresentei-me no grupo. O Chefe já estava de saída, mas mandou-me ali voltar pelas 17h00, para conhecer o colega com quem faria estágio, e o sub-chefe Pereira da Silva, porque o "Benfica dele" era noutros azimutes onde pontificavam "cortes ricos", os que garantiam mais negócio.

Novas apresentações, a do subchefe e a do colega que passaria a acompanhar até me considerarem apto e autónomo. No dia seguinte, pelas 6h00 já estava pronto à porta da Casa do Pessoal, a minha nova morada, enquanto não tivesse residência própria. A bordo de Volkswagen percorremos as picadas, ornadas de belas árvores - com destaque para os jacarandás vermelhos ou roxos, alternando com nichos de plantas locais e capim, onde esvoaçavam aves de diferentes portes e coloridos. 

Acompanhámos um rio largo, de bom caudal e margens baixas à esquerda, sob um fundo verde, até flectirmos à direita com direcção à mina. Depois de passarmos uma galeria de grandes árvores, deparei-me com o refeitório à direita, bem pintado de branco, e com alinhamentos alternados de bananeiras-macaco e "mamões" (família da papaia), num espaço bem arranjado. No fim da rua despontava uma casa branca com um jardim de ananases plantados em semicírculo. Contornando o escritório, deparava-se a lavaria a uns vinte ou trinta metros. Um telhado alto para protecção das chuvas - ali chovia 9 a 10 meses por ano, onde se despejavam para as tremonhas as vagonetas que transportavam o cascalho. A linha entrava e saía pelo mesmo lado, em via dupla até à exploração depois de atravessar uma ponte sobre um canal a meio da colina, onde os ramais drenantes eram dispostos conforme os "cortes" em exploração, ou em limpeza da rocha base. 

A lavaria situava-se à direita de quem saía do escritório, e era alimentada por uma correia transportadora que, da tremonha,  levava o cascalho para as "pans" de centrifugação, de onde os materiais densos desciam para os depósitos de "concentrado" ou "gigas", enquanto o material rejeitado seguia por outra correia para uma acumulação de inertes. Do local desta acumulação, como da saída das linhas, tinha-se uma vista larga sobre a exploração rodeada por uma envolvência em anfiteatro de árvores imponentes, que acompanhavam a colina até ao nível do rio, onde desaguava o canal para onde se dirigiam os diferentes drenos de protecção. 

Os cortes, consistiam em espaços definidos pelo programa de exploração, de onde se removiam as terras para os cortes já explorados, cujas espessuras variavam conforme o nível da superfície natural, até se atingirem as camadas de cascalho, e seriam cobertos com a terra removida de novos cortes anexos. Definiam-se as linhas de drenagem, as mesas de assentamento de carris para o acesso das vagonetas, a localização das rodas de canto para as conduzir em diferentes direcções conforme a evolução dos trabalhos e o percurso até à lavaria. Havia uma ou duas bombas hidráulicas para secagem das partes inundadas aquando das mais intensas chuvadas que a drenagem não satisfizesse. 

No fim do dia de trabalho chegava a viatura do concentrado, que transportava as bilhas para uma estação de escolha, onde eram seleccionados e classificados os diamantes, depois de passarem por novos processos de centrifugação e escolha. O horário de trabalho de um único turno começava um pouco antes das 7h00 e terminava às 16h00, com uma hora para almoço, mas havia padejadores que saíam mais cedo conforme acabassem as tarefas. As folgas eram em regime de "semana inglesa".

Ao terceiro dia o Carlos partiu uma perna a jogar à bola, e fiquei sem instrutor. Tinha tido dois dias apenas de estágio, e faltava-me toda a experiência para a condução dos trabalhos em boa ordem. O engenheiro subchefe visitava-me por vezes, mas, apesar de ser um tipo porreiro, era espalha-brasas e não tinha cuidado no linguajar com os trabalhadores. Mal virava costas, eles desprezavam-no. De modo que fiz o estágio com os capatazes, com quem trocava impressões sobre o que era bem ou mal feito. Foi a escola possível, e o Muriandambo foi o capataz-geral que mais me ensinou. Essa aprendizagem, na teoria,  era complementada com conversas que mantinha com os colegas mais experientes. Entretanto, tinha agendado o casamento para o final do ano. Eu andava feliz, apesar das preocupações.

O ambiente, o pessoal e as famílias, era acolhedor. Passei a ocupar o tempo livre com convívios. A Casa do Pessoal era gerida pelo Tomás e a mulher, sendo ela uma boa cozinheira, e ele um apreciador da sua produção com bastante mais de cem quilos. Eu e o Maia éramos os únicos residentes, ambos solteiros. Quando estacionava o carro que herdara pelas 16h30, já havia malta a chamar-me para o petisco, pelo que me habituei a tomar banho pouco antes do jantar durante a digestão. Outras vezes, acabávamos de jantar e ficávamos à conversa, aparecia o Tomás com uma travessa de qualquer coisa para entretermos os discursos. Se não fosse a entrega à actividade física durante o horário laboral, teria ficado inchadíssimo, mas consegui permanecer nos 75 kg. 

Um dia desses falei em irmos ao Luchilo tomar café, que lá a Casa do Pessoal funcionava até mais tarde. Não podíamos. Na Companhia exigia-se autorização para tudo, principalmente as deslocações. No fim-de-semana propuseram-me deslocar-me ao Dundo, e não me dera conta desse constrangimento. No dia seguinte, à tarde, fui bater à porta do Chefe, que me recebeu com alegria descontraída. Disse-lhe ao que ia, e pedi licença definitiva para me ausentar para outro grupo, dado que não queria causar-lhe incómodos. Boa ideia, respondeu, e acrescentou que a partir daquele dia acabava as autorizações para deslocação, pelo que ficavam todos autorizados a fazer qualquer deslocação. Logo a notícia correu outros espaços, e a breve trecho essa diligência acabava. 

(continua)
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Notas do editor:

(*) A produção de diamantes em Angola data  de 1917, ano em que se constitui a Diamang - Companhia de Diamantes de Angola  , uma empresa de capitais mistos de vários grupos financeiros (Portugal, Bélgica, Estados Unidos, Inglaterra e África do Sul). Em 1981, o Estado angolano passa a ter o controlo total da produção diamantífera  no país, criando a Endiama -  Empresa Nacional de Diamantes.

Há um portal, na Net, fabuloso, dedicado à Diamang e à Lunda, com centenas de fotografias da época, permitindo "reconstituir" a vida, nomeadamente dos brancos, que trabalhavam na Diamong. São sobretudo memórias dos antigos trabalhadores da Diamang. Também há uma página (aberta) no Facebook, com mais de 750 membros, dedicada à Diamang Angola. Também a Universidade de Coimbra gere o sítio Diamang Digital, "um projeto de digitalização e disponibilização em linha de materiais documentais, fotográficos e fonográficos da ex-Diamang - Companhia de Diamantes de Angola, em arquivo na Universidade de Coimbra",

(**) Referência ao trágico acidente de aviação com um Fokker F-27 Friendship 200, no Lobito, em 21 de maio de 1972, e que fez 22 vítimas mortais. Era da DTA (criada em 1938), antecessoora dos TAAG - Transportes Aéreos de Angola (, partir de 1973).

(***) Hoje Dundo, capital da Lunda Norte. Diana Andringa, nossa amiga, grã-tabanqueira, nasceu no Dundo, em 1947, e fez um belíssimo documentário, em 2009, de 60', justamente sobre o "Dundo, memória colonial".

(...) Em 1947, ano em que nasci, trabalhavam na Diamang, na Lunda, cerca de quinze mil trabalhadores angolanos e umas duas centenas de imigrantes, entre europeus – portugueses, belgas, ingleses, suíços, luxemburgueses e russos – e africanos – cabo- verdianos, são tomenses, sul-africanos. O meu pai era um desses imigrantes. Nascido em Lisboa, filho de holandês e espanhola, fora para a Lunda como engenheiro de minas. Viúvo, casara em segundas núpcias com a minha mãe, nascida em Angola de imigrantes portugueses – e, logo, portuguesa de segunda.

O Dundo, na margem esquerda do Rio Luachimo, a 18 quilómetros da fronteira com o então Congo Belga, era o principal centro administrativo da Diamang na Lunda, onde detinha o exclusivo da exploração e pesquisa de diamantes numa área de cerca de 1.025.000 Km2.

Para se ter a ideia do que era o poder da Diamang bastará dizer que, no contrato de concessão celebrado em 1920 – três anos depois da sua criação – ficara acordado que oferecia a Angola 5% do seu capital social, já realizado ou que viesse a ser realizado; comprometia-se a pagar anualmente a Angola 40% dos lucros líquidos; emprestava a Angola 400.000 libras; podia efectuar a exploração dos jazigos descobertos, mediante simples comunicação à autoridade local; mantinha por um período de 30 anos – a prorrogar – a exclusividade da pesquisa de diamantes, em cerca de 90% do território de Angola.

Era bom ser criança no Dundo, quando se era branca e filha de engenheiro. Havia espaço para brincar, ruas para andar de bicicleta, animais, liberdade. E criados para nos acompanhar e satisfazer os nossos caprichos. Era bom ser criança e não notar como era artificial e injusto o mundo que nos cercava. Mas à medida que cresci, fui-me apercebendo de que não era igual para todos… (...)

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Guiné 63/74 - P16054: Outras memórias da minha guerra (José Ferreira da Silva) (23): Religiosos de primeira e pobres (crentes) de segunda (Recordações de infância)

1. Em mensagem do dia 26 de Abril de 2016, o nosso camarada José Ferreira da Silva (ex-Fur Mil Op Esp da CART 1689/BART 1913, , Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69), mandou-nos mais estes excelentes apontamentos para a sua série "Outras Memórias da Minha Guerra".


Outras memórias  da minha guerra

22 - Religiosos de primeira e pobres (crentes) de segunda 
(Recordações de infância) 

Corria mais uma manhã daqueles primeiros dias de Maio de 1950. O céu completamente limpo iria proporcionar, por certo, mais um belo dia, com temperaturas já elevadas para a época primaveril. A rua que atravessa a povoação é conhecida por Estrada Real. Foi a via principal que nos ligava a Roma: a sul, por Conimbriga ou Scallabis a Emerita Augusta e, pelo norte, através de Calem, Portucale, Bracara Augusta e Astúrica Augusta.


Por ela passaram militares, de soldados a generais, eremitas e peregrinos, padres e bispos, noviças e freiras, criados e fidalgos, reis e rainhas. Enfim, digamos que por ali passou todo o mundo. Tudo, nos outros tempos, porque no meu tempo, só passávamos nós, a pé e descalços, passavam outros de socos ou chancas e alguns em carros de bois. Também passava o gado para a Feira dos 10 e 28 e, em rebanhos, por altura do S. João do Porto.

Mais tarde, em 1970, conheci um empreiteiro em Angola que havia ido para lá há cerca de 40 anos e que nunca mais voltara à Metrópole, alegando que “não o fez porque lá não se esquecera de nada”. Este senhor, de nome Claudino, era muito crítico em relação à miséria que conhecia bem de a ter vivido no norte, lá para os lados da Beira Alta. Então, falava sempre com sarcasmo nos êxitos do Salazar. E dizia:
- É um dos homens mais inteligentes do mundo. O exemplo mais flagrante que conhecemos é o da criação e desenvolvimento da máquina “carro de bois”. Imaginem só, o emprego que dá a tantas pessoas.

E explicava:
- Na frente, vai a filha do empresário, de vara ao ombro, agarrada aos arreios que ligam os bois;
- Logo atrás, do lado direito, vai o empresário sentado junto ao cu do boi. Leva também uma vara para orientar a marcha da viatura;
- Do lado esquerdo vai o moço, para ajudar nas cargas e descargas e vigiar o garrafão e o cesto do apoio logístico;
- Atrás, de lata pendurada numa mão e pincel de trapos na outra, segue o aprendiz de moço, que vai untando o eixo das rodas;
- Mais atrás, segue uma mulher de giga à cabeça, acompanhada pela filha que, de pá na mão, vai aguardando que caia a bosta dos bois.

Pois eu também me recordava bem de ver essa “máquina”. E vi outras coisas nessa rua de Imperador Romano onde, como criança, vivi com as pessoas mais humildes que então conheci.

Apesar daquelas pedras enormes, solidamente assentes e agarradas entre si, não sei porquê, existiam clareiras de terra batida, onde jogávamos à bola de trapos, ao pião, à bogalhinha, ao pica-pau, à tocha do ar, à malha, ao eixo e à macaca. O pior era a conjugação da utilização desse parque de jogos. É que, quando as mães regressavam do monte, onde iam ao moliço (caruma de pinheiro) e à carqueja, precisavam de espaço para a seca desses combustíveis biológicos, a fim de os entregar bem secos nas padarias.




De viaturas, lembro-me de as ver passar por ocasião de dois casamentos: um, o da filha da Senhora Micas, que casou com um “venezuelano” e o outro, o do filho do Senhor Quintana, negociante de sucesso, com a fama de vender bem o gado doente, para os talhos da Malveira. Num e noutro caso, parávamos o jogo de futebol e, como os carros tinham que andar devagar, aproveitávamos para saltar para cima deles em andamento.

Também me lembro de um dia ter ficado aterrado de medo, quando passaram uns carros de combate, com o primo Neca, filho da tia Amélia Tabareda, dentro de um deles. Ele chorava ao ouvir a mãe desesperada, a gritar:
- Ai, o meu rico filho que vai para a guerra!
- Ai, o meu querido filho que vai morrer!

Eu ainda não tinha 5 anos, seguramente. Porém, dado o choque que senti, ainda hoje tenho fixadas na mente essas imagens. Penso que terá sido no Verão de 1947 e se tratava de manobras militares, ainda muito influenciadas pela II Grande Guerra.

************

Pois quando a manhã desse dia de Maio não ia além das 8h30, já toda a gente andava ocupada. Os homens tinham ido para as fábricas, os filhos para as escolas e as mulheres para o monte. Toda a rua estava deserta. A excepção surgiu, vinda do outro extremo da vila. Entraram pelo lado do caminho do Souto. Uma senhora, de chapéu de palha e de vestes claras, bem apresentável para os seus cinquenta e tal anos, de sombrinha fechada, que servia de bengala, bem ornada pela sua pega de prata, onde sobressaia uma pequena escultura de um crucifixo em forma estilizada. Também se lhe destacavam um vistoso terço ao pescoço com um medalhão da Senhora de Lourdes e uma concha de Santiago de Compostela e, ainda, um enorme broche ao peito, com a imagem da Virgem Maria. Logo atrás, seguia uma senhora de aspecto humilde, descalça, de giga à cabeça, aparentando cerca de sessenta e cinco anos. Naquela carga volumosa, apertada por uma escassa toalha, é bem visível um saco de batatas, panela, tacho, fogareiro a petróleo e ainda a asa de um garrafão. Com ela, a Felismina Estaca, vinha também um miúdo descalço, de cerca de 7 anos, com um saco de pano às costas. Era o seu neto Jeremias que vinha, para ficar em casa da sobrinha Conceição, durante esta sua deslocação a Fátima.

Bateu na porta dos Margaridos, com o referido cristo de prata, surgiu a Dona Juliana, que logo manifestou a sua relação afectiva com a visitante:
- Então, prima Joaquina, que andas por aqui a fazer? Bem dizias que ias a Fátima, outra vez.
- Sim, já te tinha dito que ia. Olha, com esta, é a vigésima sexta vez que lá vou. Já lá fui mais vezes do que tu. Enquanto Jesus Cristo quiser e a sua mãe Virgem Santíssima me ajudar, lá irei.

A Juliana interrompeu-a:
- Sabes lá o que custou ter criado um filho padre e aturar um marido fidalgo. Bem gostaria de te fazer companhia. Espero que Deus Nosso Senhor não se esqueça da minha penitência, quando chegada a hora de partir.

Voltou a Joaquina:
- É por isso que eu, apesar de não ter um filho padre, também espero que todas as minhas rezas e peregrinações contem para um bom lugar na vida eterna, à direita de Deus Nosso Senhor. Eu sei que me falta ir à Terra Santa, mas devo ir lá brevemente, custe o que custar. Mas, já disse, quando eu morrer, não quero que ponham nada na lápide no cemitério a lembrar as minhas peregrinações, como fizeram no jazigo da Baptistinha.

- Não queres entrar? A minha mãe já se levantou. Hoje quer ir à missa do meu Sebastião, que a vai celebrar na Capela da Senhora das Dores. Ela tem muito orgulho neste neto.
- Só a vou cumprimentar. Não posso demorar porque quero juntar-me ao primo da Mala-Posta que já deve estar à minha espera.

Então o Sebastião sempre vai para Roma?
- Nem me fales nisso. Se soubesses o que temos passado, a mexer os cordelinhos. Olha que não é por falta de devoção à Virgem Maria nem por falta de ódio ao comunismo. Sabes bem que além da devoção ao Santo Padre Pio XII e ao nosso Cardeal Cerejeira, temos muito respeito pelo nosso Salazar. O meu homem, que é da União Nacional, vai conseguir.

De volta, a Joaquina, vinha acompanhada da Juliana, que lhe pedia:
- Não te esqueças de vir cá pelas festas do Corpo de Cristo, para acertarmos a ida aos banhos.

************

Logo ali, mais acima, havia um pequeno largo, onde se agrupavam habitações, algumas delas adaptadas de celeiros e de outros barracões. Numa delas vivia o Serafim do Canto, viúvo de Lurdes do Estaca, com sua filha única, a Conceição. Ele era serrador e havia ficado bastante ferido de uma perna num acidente. Enviuvou cedo e ficou com esta filha a cuidar dele. Viviam praticamente de esmolas. A rapariga era bastante frágil e tinha dificuldade em fazer trabalhos remunerados. O pouco que ganhava era a fazer bilros. No entanto, dada a sua dedicação religiosa, acabou por se destacar a ensinar a doutrina para a Comunhão Solene. Por isso, era tratada por “Soramestra”. Era analfabeta mas os seus alunos apareciam nos exames como autênticos papagaios. Eram sempre os melhores. Todavia, dos seus alunos nunca algum foi escolhido para fazer discurso no dia da Comunhão Solene. Possivelmente porque essa vaidade estava mais reservada para os descendentes de famílias mais importantes.

Nunca se ouviu dizer que a Conceição teve qualquer namorico. Esquelética, escanzelada e pouco atraente, não parecia entusiasmar quem quer que fosse. Por outro lado, a obrigação de ajudar o pai, aliada à sua religiosidade, anularia, por certo, qualquer tentativa amorosa.

O Senhor Serafim também ajudava, através dos serviços que prestava como curandeiro. Para mim, que em criança vivia por perto, ele era um homem ponderado, muito experiente e muito respeitado. Dava gosto, ouvi-lo contar as suas histórias incríveis, mesmo quando nos faziam perder o sono. Com ele, ficávamos crentes em benzeduras, rezas, espíritos, maleitas e bruxedos.

Recordo, mais tarde, já moço, ter levado à letra uma regra sagrada:
- Quando aparecer uma “coisa ruim”, não se pode recuar e mudar de caminho, porque a “coisa ruim” volta a aparecer.

E sempre que eu passava a altas horas, por um dos dois caminhos que ligavam ao centro da vila, ambos interrompidos por locais escuros e medonhos, vinha-me à memória aquela história que ele contava, do caixão iluminado por velas, a atrancar o caminho de tal forma, que ele teve que passar por cima das silvas e que ficara todo arranhado.

Pois eu, um dia, ou melhor, numa noite, já depois de ter passado as Alminhas dos Três Caminhos, sempre iluminada por uma lamparina de azeite, quando entrei na zona escura, entre o pinhal do Monte de Souto, comecei a ouvir uma voz cavernosa que pausadamente repetia:
- Se veeennns porrrr beeemm,….aaannnda!!!

Instintivamente, quase fiquei estático. De repente, não sabia que fazer. Apetecia-me ir para trás e fugir pelo caminho da Carreira Funda mas, logo me veio à cabeça a profecia do velho Serafim. Não podia fugir.

As pernas pareciam andar por si e nem as sentia poisar o chão, os olhos arregalados sem verem nada, o couro cabeludo parecia encortiçado, o cabelo ficou encrespado e no cu não cabia um feijão fradinho. Parecia um autómato em direcção ao abismo. E a voz voltava:
- Se veeennns porrrr beeemm,…. aaannnda!!!

Já perto, esperava o pior. Ao passar de lado, noto os contornos de um indivíduo encostado a uma pequena ribanceira. Foi então que ouvi, agora em voz baixa e em jeito de resmungão:
- Pelo meeennos, a salvaçããoo,dááá-se!

Sem parar, e já uns passos à frente, respondi:
- Então, boa noite.

************

Pobres entre os mais pobres, beneficiavam da entreajuda dos vizinhos e também da caridade do senhorio.
Ao aproximar-se do pequeno largo, a Felismina disse:
- D. Joaquina, por favor, vá andando que eu vou levar o Jeremias à minha sobrinha e já sigo.

Momentos depois, ouvia-se a Conceição:
- Fique descansada, o Jeremias fica bem. Sabe que não precisava de me dar nada. Que Deus lhe pague, tia, porque você também bem precisa. Olhe que tem de se poupar porque isso de ir de carrego a Fátima tantas vezes no ano, não pode aguentar sempre.
- Eu sei, rapariga – respondeu a tia – logo que o Jeremias vá trabalhar, nunca mais faço isto. Que Deus me perdoe, mas já estou farta de Fátima até aos cabelos.

Poucos metros ao lado, entre umas divisórias de madeira, ouvia-se o martelar do sapateiro Neca da Fonte, ao mesmo tempo que esticava com a turquês o cabedal sobre a forma (molde) de madeira e o ia pregando progressivamente. Ele, vizinho de porta com porta, sabia tudo que se passava naquela “ilha”. Compreendia a devoção da Conceição, mas não deixava de exprimir a sua opinião de descrença nos exageros da religião ou nas suas acentuadas contradições. Apesar de analfabeto, dizia coisas que me pareciam sábias. Foi dele que ouvi dizer que Deus, para ser entendido por todos, somente precisava de nos ensinar a diferenciar a prática do bem ou do mal. E que isso era muito simples. Caso contrário, a prática do bem não pode estar condicionada a muitos estudos ou a opulências materiais. Também dizia que os simples ou pobres, sabiam bem distinguir o bem do mal e que os outros, os do poder e do saber, de tudo eram capazes para se valorizarem e inocentarem.
Ele gostava muito de se afirmar através dessas suas certezas.  Quase todos os dias, erguia a voz para que se ouvisse dizer este poema, de autor desconhecido:

Levando uma criança pela mão 
Entrava uma senhora na igreja 
Onde foi rezar com devoção 
Só o reino de Deus, ela deseja. 

Sentado à porta estava 
Um pobre cego que lhe pediu esmola p’ra comer. 
E ela respondeu com desprezo: 
- Perdoai-me Senhor, não pode ser. 

Depois de rezar se confessou 
E numa caixinha foi deitar 
Dinheiro que da bolsinha tirou. 

Ao ver o gesto dela, seu filhinho 
Dizia para a mãe em voz baixa: 
- Porque não deste esmola ao ceguinho, 
E foste deitá-la naquela caixa? 

É para azeite, filho, aqueles cobres 
Para iluminar nosso Senhor 
Antes dar a Deus, do que dar aos pobres 
Foi o que disse há pouco o bom prior.
 
- Mãezinha, no prior não acredito, 
Dizia o garotinho com desdém 
- Dar esmola ao ceguinho é mais bonito 
Porque o ceguinho tem fome, e Deus não tem.

Sempre mantive algum relacionamento com o Jeremias. Convivemos em criança quando vinha para casa da tia, a Soramestra e, mais tarde, através do grupo da JOC. Posteriormente, pouco tempo depois da chegada da Guiné, encontrei-o num velório. Falámos de várias coisas, especialmente da Guiné e dos tempos de criança. Da Guiné, salientava as Operações efectuadas na zona norte, onde sofrera várias emboscadas. Quase nos encontrámos naquela zona, porque veio pouco tempo antes de eu lá chegar.

Sobre os tempos de criança, passados comigo, lá na Estrada Real, ele valorizava imenso aqueles dias de brincadeira. Lembrou-me daquela história da D. Guidinha, mãe da D. Juliana e avó do Padre Sebastião, quando trouxe para junto do seu portão, uma giga de maçãs podres e nos chamou:
- Canalhada, vinde aqui às maçãs!

Corremos para ela, cheios de entusiasmo e quando estávamos ao seu redor, ela atirou as maças para o chão e desatou a rir às gargalhadas.
Os miúdos atropelavam-se a apanhar as maças. Algumas delas ficavam enfiadas nos dedos, todas esborrachadas.
E como me recusei àquele espectáculo, o Jeremias lembrou que, a partir dali, passámos a ir directa e perigosamente às árvores, “roubar” a melhor fruta dos Margaridos.

O Jeremias quase não se relacionava com a mãe. Nem sabia quem era o pai. Ele era fruto de um descuido profissional da mãe, prostituta. Ela perdera cedo a virgindade e cedo se dedicara a essa actividade. Fugiu para o Porto, onde era vista amiúde na zona do Cimo de Vila, precisamente onde chegavam os autocarros da aldeia. Aliás, ela fazia questão de ter muita “clientela” da sua terra natal.

Contrariamente ao que seria espectável, o Jeremias era rapaz humilde, cordato, crente e simpático. Logo que fez a 4.ª classe foi trabalhar para uma fábrica de calçado, onde se manteve fielmente até à reforma. Ajudou, exemplarmente, a avó que o criou, enquanto foi viva. Ela faleceu quando ele estava na Guiné.
Logo que chegou, casou com a namorada que o esperou durante esse tempo de guerra. Ambos, são fervorosos católicos praticantes. Todos os anos vão a Fátima, a pé, no cumprimento da promessa que fizeram juntos, antes de ele partir para a Guiné. Têm dois filhos e três netos a quem têm dedicado toda a sua vida.

Silva da Cart 1689
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Nota do editor

Último poste da série de 9 de março de 2016 Guiné 63/74 - P15836: Outras memórias da minha guerra (José Ferreira da Silva) (22): O “Galã de Nhacra” e “Conquistador de Guimarães”