sábado, 7 de maio de 2016

Guiné 63/74 - P16061: Agenda cultural (479): Sessão de apresentação do livro "A Tropa Vai Fazer De Ti Um Homem - Guiné, 1971 - 1974", de Juvenal Amado, levado a efeito no passado dia 21 de Abril, no Auditório da Biblioteca Municipal da Covilhã

Em mensagem do dia 26 de Abril de 2016, o nosso camarada Juvenal Amado dá-nos conta da sessão de apresentação do seu livro "A Tropa Vai Fazer De Ti Um Homem - Guiné, 1971 - 1974", levado a efeito no passado dia 21 de Abril, no Auditório da Biblioteca Municipal da Covilhã. Esta sessão, promovida pelo Núcleo da Covilhã da Liga dos Combatentes, inseriu-se nas comemorações do seu 90.º aniversário, conforme o convite que se publica.


1. Estas foram as palavras que o Juvenal Amado dirigiu aos presentes durante a sessão:

Meus amigos e camaradas.
Começo por agradecer o convite para estar aqui a apresentar o meu livro e falar do nosso passado comum.
Tanta importância tem as voltas que a vida dá, como as voltas que nós damos à vida. No fim, o caminho que nos estava guardado, ninguém o faz por nós. “Chamemos-lhe Destino talvez”.

 Sabíamos como partíamos mas não podíamos saber como voltávamos. Nós somos os felizardos que voltamos. Foi-nos dado a bênção da amizade e da partilha de recordações. Viemos de toda a parte. A comunhão de vivências ganhas nas várias frentes fez de nós seres especiais. Basta falar-se numa localidade africana, para que se troquem saudações e histórias, que são de todos os lugares, que percorremos na nossa juventude. 

Este livro fala dessas vivências e dessas amizades. Quantos ao lerem as suas páginas, não vão sentir que muitas das estórias podiam ser a sua história? Mas quando fui mobilizado, ainda que há muito esperado, o Céu pareceu-me cair em cima da cabeça. Ir para a Guiné, era como sair a sorte grande, das piores razões. O meu irmão mais novo tinha nessa altura 5 anos e confidenciou-me há dias, que se lembra após a minha partida, uma noite escura penetrou na casa onde ele morava com os meus pais e irmãos. Estas palavras dão talvez a dimensão da tragédia, que atingia as famílias durante os dois anos e tal, que tinham os filhos, os maridos a combater além-Mar. 

Quanto a mim, era pior para eles do que para nós, que lá estávamos. As mães viam os filhos permanentemente em perigos e nós, a maior parte do tempo, nem dávamos por ele. Situação repetida pelos 13 anos que durou a guerra que Portugal sustentou em três frentes com maior ou menor intensidade. 

Este livro não é de guerra, é de histórias, de vidas que estiveram na guerra. Essencialmente o que importou foi falar deles, das suas conversas no abrigo, no posto de sentinela, nas colunas e nos momentos de aperto. Também falo das suas mortes, porque falar delas é prestar-lhes homenagem, é prolongar as suas memórias e lembrar às pessoas que se morreu lá em combate, em minas, também em desastres, numa picada qualquer e também por falta de assistência médica. Também as doenças mataram muitos. 

Muitos que não foram lá pensarão que morrer de doença ou desastre, também cá se morria. Mas não era a mesma coisa. O paludismo, a hepatite, a alimentação onde imperavam os liofilizados, os enlatados, a falta de ovos, peixe e carne fresca, a água de duvidosa proveniência, a par de álcool ingerido em quantidades anormais, foram responsáveis por muitas vidas perdidas lá e que, se vieram a perder depois do regresso cá. 

Deram a suas vidas por razões certas ou erradas, não é isso que importa. O que importa será porventura, não deixar esquecer que morreram longe das suas famílias e alguns, ainda por lá estão em campa rasa. 

Algumas das figuras deste livro já morreram. Morreram lá, outros cá de doença e de acidentes. Já é longa a lista meus amigos e, é sempre com um aperto no peito, que ouço falar dos que estão doentes. Pode-se dizer como é uso “que a vida é dura e mais curta que comprida”.

Mas; 
“ Com a certeza que faz de nós seres únicos, teremos sempre direito a um lugar na memória dos que connosco privaram. Quando chegarmos a velhos, falaremos do tempo ou falaremos, de outros tempos”.

A Tropa Vai Fazer De Ti Um Homem é o titulo, mas também é um motivo de reflexão. 

Muitos dos que foram combater Além-Mar, começaram a trabalhar mal saíram da escola primária. A maioria já trabalhava há dez anos ou mais. Contribuíam para o orçamento familiar, alguns já casados, com filhos e responsabilidades de vária ordem. Terá sido a tropa que fez deles uns homens? Sinceramente penso que na grande maioria já eram homens feitos e que não embarcaram de ânimo leve. 

Num extrato do início de uma história, que relata a ansiedade com encarei o meu embarque e escrevo: 
“ Como proscritos quando quase todos dormiam, fomos transportados pela a calada da noite, o Mar cresceu à nossa volta, tornou-se denso, abraçou-nos e tornou-se imenso”.

Quem pode negar hoje que não foram momentos difíceis? 
Uma coisa teremos a certeza, é que fez de nós homens diferentes. 

A todos muito obrigado pelo carinho e amizade com que fui brindado na ocasião. 
A vida guarda muitas surpresas boas e esta, é sem dúvida uma delas.


2. Algumas fotos do evento:

Um aspecto da assistência

Na Mesa: João Cruz Azevedo, Presidente da Direcção do Núcleo da Covilhã da LC; Jorge Manuel Torrão Nunes, Vereador da Cultura da Câmara Municipal da Covilhã; Naná Gonçalves, poetisa e Juvenal Amado.

Juvenal Amado recebe um exemplar da Medalha comemorativa dos 90 anos do Núcleo da Covilhã da LC.


Juvenal Amado com o ex-Fur Mil Sap Fernandes e Romão Vieira da CCAÇ 2912

O 3872: Pereira, Dulombi; Alcains, CCS; Juvenal Amado; João Romano, Saltinho; Fernandes e Luciano, CCS

Jovens interessados

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3. A sessão de apresentação do livro do Juvenal Amado foi antecedida de um almoço de que se publicam duas fotos:

 Na foto o Ten-Cor Ley Garcia do Núcleo de Leiria da Liga dos Combatentes e a poetisa Naná Gonçalves

Nesta foto: Pereira Nina, do Núcleo da Covilhã da LC, que iniciou o processo que me possibilitou a apresentação do livro na Covilhã, também camarada do Carvalho em Aldeia Formosa; o Azevedo, combatente em Angola; eu; o meu camarada da CCS, António Fernandes e o Ten-Cor Levy Garcia, Presidente do Núcleo de Leiria da LC.
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Nota do editor

Último poste da série de 5 de maio de 2016 Guiné 63/74 - P16051: Agenda cultural (478): Lançamento do livro "Haikus do Japão e do Mundo", de António Graça de Abreu, 10 de Maio pelas 18h30, no Centro Científico e Cultural de Macau, Rua da Junqueira, 30 - Lisboa: "Gostava de ter lá alguns camaradas da Guiné, e de ler dois ou três haikus sobre a nossa guerra" (o autor)

3 comentários:

Tabanca Grande disse...

Parabéns, Juvenal, tens feito pela vida!... Boa promoção do teu livro!... E boa estadia pela Grande Lisboa, ao deixares Fátima, terra de fé. Vamos ficar vizinhos, tu na Reboleira, eu em Alfragide, terra de mouros... Ab. Luis

Anónimo disse...

Estive presente na apresentação do livro e adquiri-o.
Um livro interessante e escrito de uma forma simples e diferente.

António Branquinho

Tabanca Grande disse...

António Branquinho, meu camarada da zona leste, do setor L1 (Bambadinca), ex-fur mil Inf do Pel Caç Nat 63, ao tempo do "alfero Cabral!", 1969/71... Como vai essa bizarria ? Sei que vives na Covilhã. Fico contente por teres dado notícias... O "alfero" também tem andado arredio do blogue, por razões de saúde... Deixou de mandar as "estórias" que nos animavam!... Um abraço grande. Luis