1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 4 de Abril de 2025:Queridos amigos,
Procuro estar atento ao que foi e continua a ser publicado da banda de líderes e combatentes do PAIGC. Haverá um dia em que se tocará ao piano com quatro mãos, quer eu dizer que se irá sacudir a turvação das inverdades, das pesporrências e até das vaidades camufladas, de ambas as partes.
Manecas Santos deixa-nos uma narrativa que se lê agradavelmente pela fluidez e também pela incisão, conta-nos o ambiente em que nasceu, a sua vinda para Lisboa, a solidificação das suas opções políticas, o ingresso nas fileiras do PAIGC, onde fez a tarimba até se transformar em comandante na frente norte, e depois responsável pelo uso dos mísseis Strela.
Confesso que não entendo como é que é possível um homem chegar aos 80 anos e escrever que em 1968 o PAIGC administrava dois terços do território, que presume que houve a mão colonial por detrás do assassinato de Cabral, que revela uma total incapacidade para entender dados da história de longa duração, quando a administração colonial, a burocracia e múltiplos serviços estavam na mão de cabo-verdianos que funcionavam como verdadeiros agentes do colonialismo; deixa-nos um importante relato do desmoronamento do PAIGC, foi líder político, companheiro próximo de Nino Vieira, ministro da Economia e das Finanças, o seu relato deixa-nos o coração contrito mas também ficamos sem entender se teve ou não responsabilidades diretas nesse desmoronamento, descreve os acontecimentos com uma hábil distância, foi a maneira que encontrou para não admitir que colaborou, participou em quase todo o processo do desmoronamento.
Um abraço do
Mário
Um comandante do PAIGC, o homem dos mísseis Strela e de Guidaje, vem depor para a História
Mário Beja Santos
Tirando o acervo documental, felizmente e em grande parte conservado e tratado, de Amílcar Cabral, para além das suas obras de cariz ideológico na luta anticolonial e como líder revolucionário, restam-nos poucos depoimentos de responsáveis do PAIGC, tanto no que se refere ao período da luta armada como nos tempos posteriores.
O que Rosário Luz vem procurar neste trabalho biográfico (ou autobiográfico?) sobre Manecas Santos é procurar revisitar a viagem de uma sigla, revelada efémera, sobre a unidade Guiné-Cabo Verde, contando com um ator de eleição, o então jovem cabo-verdiano Manuel Maria Monteiro Santos, nascido na cidade de Mindelo, em ambiente burguês, tendo estudado em Lisboa e daqui partido para a luta, preparando-se em Cuba, e depois, degrau a degrau, galgando a hierarquia e assumindo responsabilidades nomeadamente no período histórico de 1973, quando o aparecimento dos mísseis Strela abanaram fortemente a última supremacia que restava às Forças Armadas na Guiné; viagem que se prolonga com o seu desempenho no poder do Estado, como chegou a ministro da Economia e das Finanças e vem agora depor sobre o colapso do Estado.
Fala-nos do Mindelo, da família e do meio; concluído o liceu em S. Vicente, vem para Lisboa, estuda na Faculdade de Ciências, refere-nos os estudantes africanos, em 1964 parte para Paris, daqui segue para Argel, depois Havana, confessa que a intensidade do treinamento físico foi implacável e que, fisicamente, a guerra na Guiné não foi mais do que um passeio. Descreve o Exército de Libertação e como ele foi concebido por Amílcar Cabral.
Menciona o recrutamento dos guerrilheiros, como o trabalho de mobilização foi encetado no Sul. Alude à organização tanto do Exército como o papel das milícias, o apoio dado pela União Soviética, observa a importância da medida tomada no I Congresso em que o poder miliar ficou subordinado ao poder político. E deixa-nos uma descrição detalhada de como se processou a guerrilha na Guiné, esta foi o palco das mais violentas das guerras coloniais. É neste preciso instante que Manecas Santos nos traz a primeira inverdade: em meados de 1968, cerca de dois terços do território já estavam sob a administração do PAIGC.
Há cerca de 18 anos à porfia no que concerne a História da Guiné Portuguesa e a História da Guiné-Bissau, tenho-me deparado com mitologias e mentiras cujos autores teimam em franco despudor reincidir.
Inevitavelmente, falará da operação de cerco a Guidaje e da resposta das tropas portuguesas enviando um batalhão de comandos africanos até uma base do PAIGC em Cumbamory. Dirá:
Reconheça-se a importância do seu depoimento na época do pós-Cabral, dá-nos um retrato da multiplicidade de contradições dentro do PAIGC e da sua ocupação do Estado, relata o definhamento ideológico, fala da sua atividade como ministro e quanto aos fuzilamentos praticados pelo PAIGC, dirá algo de surpreendente, que talvez por volta de 1976 Luís Cabral jantou com Ramalho Eanes em Belém, e este ter-lhe-á pedido que fossem devolvidos a Portugal antigos efetivos do exército colonial, Cabral terá concordado, convocou altos responsáveis, entre eles António Alcântara Buscardini, chefe dos Serviços de Segurança do Estado e este, com toda a desfaçatez informou Cabral que os soldados não podiam ser devolvidos porque já tinham sido executados, tinha tomado individualmente tal decisão, Cabral engoliu a afronta.
Um testemunho para juntar ao de outros líderes do PAIGC, impõe-se como um retrato fiel do desmoronamento do Estado, onde Manecas Santos foi elemento preponderante.
Rosário Luz e Manecas Santos na sessão de lançamento do livro no Grémio Literário, em 6 de dezembro de 2024
Nota do editor
Último post da série de 26 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27574: Notas de leitura (1878): Uma publicação guineense de consulta obrigatória: O Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné (6) (Mário Beja Santos)

















.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)


