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terça-feira, 8 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28330: III Viagem a Timor-Leste : 2019 (Rui Chamusco, ASTIL) - Parte XIV: semana de 5 a 11 de maio


Prompt e orientaçáo editorial: Luís Graça
Texto: "Luta de galos, euforia masculina e sofrimento dos animais", 
por Nicodemos do Espírito Santo (Diligente, 13 de outubro de 2023)
Ilustração em estilo banda desenhada
gerada por IA (Gemini / Google) (2026)

 

Gente linda da ASTIL: Rui Chamusco, João Crisóstomo, Eustáquio (irmão
do Gaspar Sobral, e em cuja casa, em  Ailok Laran, nos arredores de Díli, o Rui  costuma ficar alojado nas suas estadias em Timor-Leste)





1. Prosseguimos a publicação das crónicas de 2019 (III Viagem a Timor-Leste) do nosso amigo (e membro da Tabanca Grande), Rui Chamusco, professor de música reformado, natural da Malcata,  Sabugal, a viver na Lourinhã. 

Vai a Timor Leste todos os anos desde 2016 (exceto na pandemia, 2020, 21 e 22). Ele é um exemplo vivo de amor à lusofonia. Ele e a associação que ajudou a fundar (a ASTIL).

Essa história de dedicação às crianças das montanhas de Liquiçá (onde está funcionar, em  Manatti /Boebau, a Escola de  São Francisco de Assis) merece ser conhecido pelos nossos leitores, os amigos e camaradas da Guiné. Bem como outros aspetos da geografia, história e cultura de Timor-Leste, membro da CPLP, que as cronicas do Rui também ajudam a conhecer melhor.

E, a propósito,  é bom recordar a efeméride de 11 de setembro de 1945, data em  que o Japão se rendeu formalmente, em Timor-Leste, aos Aliados, depois de uma dolorosa ocupação do território desde a madrugada de 19 de fevereiro de 1942 (que terá custado muitas dezenas de milhares  de vidas, de timorenses, mas também  de portugueses, australianos, holandeses e outros: a estimativa aponta para 40 mil a 70 mil, vítimas diretas e indiretas da guerra, ou seja 10% a 15% da população que lá vivia, estimada em 450 mil no início da década de 1940.  Enfim, foi um dos capítulos mais trágicos e esquecidos na na guerra do Pacífico. 

Mas mais brutal ainda foi a invasão e a ocupação do território, em 1975-1992, pelos indonésios. Numa população que em 1975 rondava os 650 mil  a 680 mil habitantes, a perda de mais de 100 mil a 150 mil vidas entre 1975 e 1992 representou, uma vez mais na história de Timor-Leste, a perda de cerca de 20% da sua população em menos de duas décadas.



III Viagem a Timor-Leste : 2019 (Rui Chamusco, ASTIL) - Parte XIV: semana de 5 a 11  de maio (*)


06.05.2019, segunda feira- “ O gato e o rato ...”


É uma história sobejamente conhecida de todos nós: o gato que persegue o rato...e o rato que se esconde do gato. Um jogo da vida com aplicação em muitas situações reais.

O Amali e a Adobe são os dois irmãos mais novos do casal Aurora e Eustáquio (irmão do Gaspar Sobral, dirigente e cofundador da ASTIL, juntamente com o Rui Chamusco).

Várias vezes ao dia ouvimos os “berros” de um para o outro, as provocações, as corridas de um atrás do outro, o agarra, bate e foge, os choros da Adobe, os risos e as gargalhadas - uma panóplia de gestos e atitudes mais próprias do “ jogo do gato e dorato.” E não venham os “katuas” (os mais velhos)  repreender ou afligir-se com a situação, porque isto é “o pão nosso de cada dia”. Eu até ouso dizer que, dia em que isto não aconteça, algo vai mal cá na casa.

No entanto, a relação de irmãos, incluindo a Eza e o Zinon, é invejável. Faz lembraras famílias mais antigas em que cada irmão mais velho tinha o cuidado dos irmãos mais novos. A fratria está bem guardada. É impossível quebrar esta relação, esta união, este amor em família.

E nós a pensar em tantas crianças que, sendo filhos únicos, estão privados deste amor familiar: os manos. Por mais que nos justifiquemos, nunca saberemos dar o verdadeiro valor a este dom da vida partilhada entre irmãos. Pena é que depois, por imperativo da vida de cada um, a gente se separe. Muitas vezes até separações definitivas, por dá cá aquela palha, por questões de herança, ou por outras coisas inexplicáveis.

Por mim, quero continuar a ouvir esta algazarra, a presenciar este jogo, a ser testemunha desta verdadeira amizade. Adobe e Amali, continuai a brincar como bem sabeis fazer...


07.05.2019, terça feira  - “ As aparências ...iludem. “


Tantas vezes pensamos que a rama viçosa que cobre a sementeira é sinal de abundante colheita, e enganamo-nos. Quando abrimos o rêgo das batatas dsecobrimos que, afinal,nos enganamos. E poucas apanhamos. A ilusão seguida do seu contrário. Tantas vezes pensamos em projetos mirabolantes, capazes de revolucionarem o mundo, e nunca chegamos a vê-los realizados. Tantas vezes construímos “castelos no ar”,  e nunca essas construções foram habitáculos de reis, raínhas ou vassalos.

Vem tudo isto a propósito do que vemos e ouvimos neste recanto do mundo. É frequente encontrarmos crianças e jovens de telemóvel ne mão, servindo-se dele para diversos fins: telefonar, ouvir música, mandar mensagens, etc, como em qualquer parte do mundo. Uma interrogação ressalta logo à nossa mente: então esta gente que dizem ter tantas carências, sobretudo económicas, ostenta e utiliza estes objetos sofisticados tão caros? Donde lhes vem este poder de compra?

Pois é!... Felizmente que também os pobres têm acesso a alguns benefícios dos ricos. Enquanto que os ricos dispendem quatrocentos, quinhentos ou mais euros por um telemóvel, outros mais não gastam que dez a vinte dólares por um aparelho com as mesmas funções. Aqui pouco importa a marca, nem se é de primeira ou segunda mão.

O que interessa é que funcione bem. Graças a acordos bilaterais entre os governos da Coreia do Sul e de Timor-Leste, e porque a maioria destes utilizadores até nem são esquisitos, podem assim usufruir destes bens, destes meios de comunicação.

 A perícia com que eles manejam estes objetos é notável. Fazem inveja a quem, como eu, tem dificuldades em “mexer” em tais artificios, por falta de competência ou por pouca destreza.

Esta gente sabe muito. Nem sempre o “doutor” bem vestido e de pasta na mão sabe mais que um destes jovens ou crianças. Até porque porque parece que os meninos e asmeninas de de hoje já nascem ensinados.

09.05.2019, quinta feira  - Conversa de gagos


Mateus e Alula (Félix) são dois irmãos, os dois gagos, filhos do Álvaro Sobral. Por sinal, os dois são meus conhecidos - são sobrinhos do Gaspar e do Eustáquio - e, de vez em quando, veem visitar-nos a Ailok Laran.

Ontem o Eustáquio fez-nos rir à gargalhada, ao contar o que se passou entre os manos.

O “motor” de família teve um furo no pneu, e entre eles decidiram repará-lo. Já no processo de enchimento, enquanto um segurava a roda o outro dava à bomba. Foi quando o Alula sentiu que estava no ponto, e disse para o Mateus: “Pára!” Só que demorou tanto tempo a dizer “ra” que o mano continuou a dar à bomba até que o pneu rebentou. 

Isto contado por eles até tem mais graça. E fica mais ou menos assim: “pá pá pá pá pá pá pá... e PUM!...” Ou seja, em menos palavras que nós relatam o que aconteceu.

Este episódio faz-me questionar mais uma vez sobre a importância da linguagem não-verbal, ou pelo menos na economia das palavras. Para nós é caricato, faz-nos rir o que só nos faz bem, mas quem é privado ou tem deficiência em articular as palavras lá tem outros meios para se fazer entender. Mais pneu ou menos pneu pouco importa. O mais importante é fazer-se entender, comunicar, seja de que forma for.

Como todos nós sabemos, há uma excelente forma de não gaguejar: falar a cantar. Portanto, se for este o seu caso, cante. Cante porque, quem canta “seu mal espanta”...


09.05.2019 - Língua portuguesa e... religião


Há quem diga que Timor-Leste deve a sua independência à língua portuguesa e à religião. 

Dezasseis anos já passados, e damo-nos conta, aqui no terreno, que a religião (sobretudo a religião católica) continua a exercer a sua influência na mentalidade e modo de ser deste povo. 

O mesmo não direi da língua portuguesa pois, apesar de todos os esforços que se têm feito, não se vêm grandes resultados práticos. O tetum e o bahasa continuam de longe a dominar a língua falada desta gente. E ainda que a maioria dos timorenses manifestem a sua afeição pelo povo e pela língua portuguesa, a verdade é que têm grandes dificuldades em aprender e em falar o nosso idioma.

Dizem que a gramática é muito complicada. É mais fácil aprenderem as línguas mais simples, e que utilizam a mesma palavra e os símbolos para várias situações.

Mas vem isto a propósito de quê? É que, durante este mês de Maio, quase todas as noites ouço cantorias pela noite fora.

Quis saber o que se passava, e alguém me explicou: “ um grupo de pessoas foram pedir autorização ao pároco para irem de casa em casa, à noite, a fim de rezarem o terço.” 

Ora já sabemos que aqui em Timor, e particularmente na região de Dili, qualquer motivo serve para fazer festa pela noite fora, que envolve rezar, cantar, comer e beber, e até jogar as cartas. Do nascer ao morrer, vários são os momentos festivos. Parece-me que só o ato de nascer não é festejado tão abundantemente.

Então estão justificadas todas estas interrupções do sono noturno que ao longo da noite vão acontecendo. Às vezes até sabe bem acordar ao som de alegres melodias, normalmente muito bem cantadas porque esta gente tem uma queda natural para a música.

 É muito mais agradável ouvir cantar assim, do que acordar sarapantado pela algazarra dos grupos que, a partir das quatro horas da manhã locais, gritam desalmados quando o seu clube predileto marca golos ou constrói jogadas de perigo.

Estas cantorias noturnas fazem-me lembrar as serenatas ao som do acordeão que, enquanto menino, se faziam ouvir durante a madrugada pelos balcões e ruas da minha aldeia, Malcata. 

Por isso, se a língua portuguesa ou a religião puderem ajudar uma aldeia ou uma nação a crescer e a sermos nós próprios tornando-nos independentes por que não? Quem sabe se assim não seremos mais felizes!...

10.05.2019, sexta feira  - ”Ay flores del...” Aituri!...


Aituri é uma planta que aqui encontramos, a dois ou três metros do aposento onde estou instalado, e que se afirma entre o árvoredo pelas suas flores cor de púrpura com recetáculos e estames esbranquiçados. São de uma beleza invulgar.

A flor de Aituri é comestível em salada, a sós ou acompanhada de temperos. Sabebem ao paladar e à vista, e já não será a primeira vez que aqui a comemos.

Hoje de manhã prontifiquei-me para a apanha destas flores que, juntamente com a Adobe, recolhemos e desfolhamos, pois só as pétalas são comestíveis. A Eza e a mãe Aurora é que as vão preparar para logo ao jantar. Hum!...!...

Este aproveitamento faz-me pensar na mãe natureza, que tudo nos dá e governa. E, já que estamos em Timor Leste, quero recordar que a sobrevivência dos guerrilheiros (Xanana, Matan Ruah e companheiros) na guerra que durante anos travaram contra os invasores indonésios se deveu em grande parte ao conhecimento e utilização dos recursos naturais que a montanha lhes oferecia: raízes, flores e frutos.

Há tempos encontrei e publiquei no facebook uma notícia sobre “43 plantas que podemos utilizar na nossa alimentação.” Claro que haverá muitas mais. Importa por isso conhecê-las bem e, se for o caso, tirar proveito da sua utilização na nossa alimentação, sem ofender ou prejudicar o meio ambiente e agradecendo sempre à mãe natureza.

E já agora, em atalho de foice, congratular-me com o evento que a AMCF (Associação Malcata Com Futuro) irá organizar pela segunda vez em Malcata, no próximo dia 18 sobre “ Flores Comestíveis”.

Saibamos ser gratos à natureza que tanto nos dá.


11.05.2019, sábado  - As mulheres não se medem aos palmos


Pois então!.. A Umbelina. uma moça da montanha, franzina e de baixa estatura, mostrou esta tarde quanto vale. Qual Maria da Fonte, resgatou um senhor galo numabrir e fechar de olhos,

Então foi assim. A meio da tarde ouviu-se um grande burburinho aqui em casa. O Amali e a irmã Eza corriam desalmados pelo caminho que nos leva à mikrolete, ao mesmo tempo que chamavam por alguém. Eu, que estava no quarto e me dei conta do alvoroço, acudi também na intenção de saber o que se passava e de ajudar. 

Foi então que vimos a Umbelina a chegar, toda ofegante, com um lindo galo ao colo, e nos contou o que se tinha passado. Ela regressava da universidade, em mickrolete, e quando desceu avistou um rapaz que triunfante transportava o lindo bicho, roubado há instantes aqui na casa, ninguém sabe como, pois o galo estava preso e havia aqui bastantes pessoas. 

Diz a Umbelina que mal o viu reconheceu logo que era o galo do Painino (Eustáquio). O que disse ao ladrão pouco sabemos. Contou-nos sim o que fez: “dei-lhe um par de chapadas e tirei-lhe o animal.” Toma lá que já as levaste!..

Todos ficamos estupefatos pela coragem da rapariga. Em jeito de graça até diziamos: “a Umbe merece um prémio, pois salvou um atleta...” É que este galo está destinado para a luta de galos, que aqui também se pratica. Até já tem comprador. (**)

E quanto aos perseguidores do larápio,  o que dizer? Não lhe puseram a vista em cima, mas diz o Amali que, pelas características que lho descreveram, sabe quem ele é. Que se cuide!...

(Revisão / fixação de texto, negritos: LG)

_________________

Notas do editor LG:

(*) Ultimo pposte da série > 31 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28308: III Viagem a Timor-Leste : 2019 (Rui Chamusco, ASTIL) - Parte XIII: semana de 28 de abril a 1 de maio

(**) Vd. artigo de Nicodemos do Espírito Santo > Luta de galos, euforia masculina e sofrimento dos animais > Diligente, 13 de Outubro, 2023

Sinopse: Historicamente associada à resolução pacífica de conflitos, a rituais comunitários e à troca de informações durante a resistência, a luta de galos (Manu Futu) em Timor-Leste converteu-se, após a independência, num motor de entretenimento e apostas informais predominantemente masculino. O artigo analisa a transição desta tradição sociocultural para um negócio rentável, sublinhando o impacto da hegemonia patriarcal que afasta as mulheres e a crueldade imposta aos animais perante a ausência de proteção jurídica no país.

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28089: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (6): quando a cultura reforça a desigualdade de género e a violência (física, psicológica, simbólica) sobre as mulheres: neste caso o barlaque em Timor-Leste ou o alambamento em Angola ou o "pidi noiva" na Guiné-Bissau




Prompt original e composição editorial: Luís Graça.

Texto: LG + RC

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. Na sua última crónica, da viagem e estadia de 2019, em Timor-Leste, o nosso grão-tabanqueiro Rui Chamusco escreveu o seguinte apontamento sobre a tradição (cultural) do Barlaque (*):


31.03.2019, sábado - “Barlak” (ou barlaque) e cultura timorense...

Hoje o Eustáquio [irmão mais novo do Gaspar Sobral, o luso-timorense, casado com a Glória Sobral, cofundadores da ASTIL, juntamente com o Rui Chamusco] foi fazer de negociador no “barlak”  [termo já grafado em português como "barlaque"] de um sobrinho. 

Quando chegou a casa, contou-nos como se tinha passado. Já não é a primeira vez que o Eustáquio faz este trabalho. As famílias dos noivos confiam nele porque, para além de ser um homem sensato, é um grande conhecedor e praticante da cultura e da tradição timorense.

Então, o que é o barlaque ?

 O  barlaque é uma festa, uma cerimónia entre as famílias dos noivos em que o “manefon” (o homem que pede a mão da noiva,  passando assim a fazer parte desta família) e particularmente a sua família negoceia com a família da noiva  os "dotes” para que se realize o casamento. [Em tétum, "manefon" quer dizer homem (mane) novo (foun, fon), o que passa a fazer parte de uma nova família ].

Os "dotes” envolvem dinheiro e bens. 

Neste barlaque  foram 2.500 dólares em dinheiro que o pai do noivo tem de dar à família da noiva, sendo que: 

  • 500 dólares para a compra de um “krau” (boi ou vaca) e temperos; 
  • mais 15 caixas de cervejas, 
  • 10 caixas de coca cola e outras bebidas.  [Um timorense ganha em média 125 dólares por mês, para economizar 2500 dólares tem de trabalhar e poupar muito; pode ser ruinoso casar um filho.]

A família da noiva (creio que duas irmãs) serão as cozinheiras. 

Oferecerá também um porco e uma saca de arroz de 30kg, que serão partilhados pelas famílias e pelo negociador que terá direito a,  mais ou menos, 3kg do animal abatido. 

Uma semana antes do casamento reunir-se-ão de novo as famílias para fazerem o balanço de como estão as responsabilidades atribuídas, e para acertarem os pormenores da festa de casamento que será no próximo mês de Junho.

A par desta tradição cultural, está a preparação que os noivos fazem através de cursos e reuniões de preparação para o casamento que cada paróquia organiza. Estou a falar, claro está,  de casamentos católicos.(*)

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)


 2. Enquanto aguardamos, por parte do Rui Chamusco,  mais esclarecimento sobre a prática do Barlaque, hoje, em Timor-Leste, passados já sete anos sobre aquela crónica, fizemos uma rápida pesquisa sobre o tema através de uma ferramenta de IA (a francesa Vibe,  da Mistral AI).

 Eis o que apurámos, muito sumariamente:

O barlaque é, de facto, uma cerimónia tradicional timorense central no processo de casamento, onde as famílias dos noivos negoceiam os dotes, como parte do acordo pré -matrimonial. (É uma pratica que também se faz no Ocidente...)

A descrição que o Rui Chamusco faz parece estar muito alinhada com o que se sabe sobre esta prática, que é uma das mais importantes e simbólicas nas comunidades timorenses, especialmente nas zonas rurais.

(i) Significado e contexto cultural

  • o barlaque é uma negociação formal entre as famílias do noivo (representado pelo  manefon ou manu-foun) e da noiva, onde se discutem os termos do casamento, incluindo os dotes (dinheiro, adornos, outros bens, animais, comida, bebidas) que a família do noivo deve oferecer à família da noiva; 
  • não é apenas uma transação económica: é um rito de aliança entre famílias, que reforça laços sociais e comunitários; 
  • o  valor e a composição do dote variam conforme a região, a situação económica das famílias, o estatuto social, etc.:
  • em muitas comunidades, o barlaque é também uma forma de "compensar", de algum modo, a família da noiva pela "perda" de um membro (a filha) e pelo seu contributo para a nova família (em sociedades camponesas é, antes de mais, a perda de "dois preciosos braços").

(ii) Composição típica do dote (barlaque)

A descrição do Rui Chamusco é muito detalhada e reflete práticas comuns ainda em vigor na sociedade timorense, mais de 50 anos depois da descolonização e mais de duas décadas depois da independência (em 20 de maio de 2002) (e com mais 2 décadas de ocupação indonésia, entre 1975 e 1999):
  • dinheiro: o valor pode variar muito, mas 2.500 dólares (ou mais) não é invulgar em casamentos mais abastados ou em zonas urbanas; 
  • em áreas rurais, os valores podem ser menores, mas a estrutura e o significado são semelhantes;
  • animais: o búfalo, o boi ou a vaca (krau) é um elemento central, muitas vezes abatido para a festa de casamento; 
  • o seu valor simbólico é enorme: representa fertilidade, riqueza e status; em algumas regiões, o número de bois pode ser negociado (por exemplo, 1, 3 ou até 5, dependendo da importância da família);
  • comida e bebidas: (a) arroz: uma saca de 30 kg (ou mais) é comum, e é partilhada entre as famílias e os mediadores; (ii) bebidas: cerveja (15 caixas ou mais), refrigerantes (como Coca-Cola, 10 caixas), e por vezes tuak / tuaque (vinho de palma, tradicional em Timor); (c) porco: outro animal frequente, abatido e partilhado durante a cerimónia;
  • outros bens: podem incluir tecidos (tais), joias (adornos, com o balaque, o carbauque), ou até eletrodomésticos, dependendo da modernização da prática.

(iii) O papel do negociador (em nome do pretendente ou noivo, manefon, "homem novo"):

  • o manefon (ou manu-foun) é o vem de fora, de outra família, que para pedir a mão da noiva precisa de um intermediário, um mediador, em  geralmente um familiar próximo (em geral, o tio);
  • o negociador tem um papel-chave na discussão do dote e na mediação entre as famílias, como referido pelo Rui,  recebe uma parte simbólica dos bens (como os 3 kg do porco), como reconhecimento pelo seu trabalho.

(iv) Festa e partilha:

  • a família da noiva (geralmente as mulheres, como as irmãs) é responsável por cozinhar a comida para a cerimónia, que pode durar vários dias;
  • a partilha dos bens (carne, arroz, bebidas) é um momento de união entre as famílias e a comunidade; 
  • em algumas regiões, a carne do boi, da vaca  ou do porco é distribuída pelos vizinhos como gesto de generosidade e de alegria.

(v) Variações regionais e modernização:
  • na capital  Díli ou outras zonas urbanas, o barlaque  pode ser mais simplificado, com menos ênfase em animais e mais em dinheiro ou bens modernos (eletrodomésticos, etc.);
  • em áreas rurais (como Aileu, Manatuto, Baucau ou Same), a tradição mantém-se mais forte, com negociações longas e dotes mais elaborados;
  • nos últimos anos, tem havido  um debate sobre o custo elevado do barlaque, que pode ser um fardo para famílias mais pobres, e que ficam endividadas;
  • algumas comunidades tentam adaptar a prática para a tornar mais acessível.

(vi) Comparação com outras culturas lusófonas:

  • o barlaque lembra outras tradições de dote na África lusófona (como o lobolo em Moçambique ou o alembamento / alambamento em Angola), onde também se negociam bens e dinheiro entre famílias; na Guin~e-Bissau,. o equivalemnte é o "pidi noiva"  ( k'mari, entre os papéis)
  • em Cabo Verde, por exemplo, não há uma prática idêntica, mas a cachupa é muitas vezes servida em casamentos como prato de união, um paralelo interessante com a partilha de comida no barlaque (sobre o casamento tradicional nas ilhas, vd. aqui aqui).
(vii) Fontes e aprofundamento

Infelizmente, não encontrámos fontes académicas recentes em português ou tetum que detalhassem o barlaque com a profundidade que merece. 

Há, todavia, um artigo relativamente recente do jornal digital "Divergente" que merece ser analisado num próximo poste, à parte.

No entanto, o apontamento feito pelo Rui Chamusco (em 2019) está totalmente alinhado com relatos de antropólogos e missionários que estudaram os costumes timorenses, como Armando Pinto Corrêa (autor de Gentio de Timor, 1935) ou Ruy Cinatti (que documentou tradições timorenses durante a época colonial).

Talvez o Rui Chamusco (e o Cherno Baldé, no caso da Guiné-Bissau)  nos possa ajudar a:

  • procurar mais informação e conhecimento sobre o barlaque em fontes históricas ou etnográficas;
  • comparar esta prática com outras formas de casamento tradicional na Ásia ou em África, e em especial na Guiné-Bissau;
  • explorar o papel da mulher nestas negociações (por exemplo, como as irmãs da noiva participam);
  • e, por fim, as implicações que estes "usos & costumes" (tal como o casamento infantil e o casamento  forçado na Guiné-Bissau) têm na persistência das desigualdades de género e da violência (física, psicológica e simbólica) sobre as mulheres. (**)

PS - Mandámos ao Rui Chamusco, que está recuperar de uma operação cirúrgica na sua casa na Lourinhã, a seguinte mensagem (com conhecimento ao João Crisóstomo, em Nova Iorque, também ele membro da ASTIL - Associação dos Amigos Solidários Com Timor-Leste, com sede em Coimbra):

Luís Graça <luis.graca.prof@gmail.com>
10 jun 2026, 19:36
para Rui, Joao

Rui: como é que vão, anos depois, estes "usos & costumes"  ? O barlaque cheira-me a "casamento forçado", como na Guiné do meu tempo (e ainda hoje)...

Ainda há "casamentos forçados", hoje, em Timor-Leste ? Parece que o barlaque é cada vez mais contestado, sobretudo pelas mulheres. E percebe-se porquê.

Tem havido casos de infanticídio e abandono de crianças. Como de resto, noutros países, como a Guiné -Bissau, sem esquecer o nosso querido Portugal (que no passado criou a famigerada "roda dos expostos", á porta dos conventos e hospitais das misericórdias).

Sabe-se que a igreja católica timorense é bastante conservadora. Pelo menos, em matéria de educação sexual nas escolas, planeamento familiar, contracepção, etc.

E a propósito, um jornal que merece ser lido, ajudado, divulgado é o "Diligente"...Parece um projeto fantástico! (...)


(Pesquisa: LG + Diligente + IA (Vibe / Mistral AI | ChatGPT / Open AI)
(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, parênteses retos, título: LG)

sexta-feira, 2 de maio de 2025

Guiné 61/74 - P26753: VI Viagem a Timor Leste: 2025 (Rui Chamusco, ASTIL) - IV (e última) Parte: de 9 a 19 de abril de 2025: um país, de cultura riquíssima, onde algumas das suas melhores tradições, como o Fase Matan, correm o risco de perder



A foto e a legenda é da página do Facebook do Nunes José Nunes Martins, com data de 27 de março ·

"Imagem com história verdadeira:  Primeiro Ministro de Timor-Leste, Xanana Gusmão, visita surpresa e celebra com a comunidade o 7ºaniversário da Escola São Francisco de Assis "Paz e Bem". Rui Chamusco sorri ao ver Xanana com tanto interesse na concertina aos ombros da menina que alegremente o recebe.

A imagem vale por mil palavras! (Nota: trata-se uma das  imagens oficiais do Governo de Timor!)



Rui Chamusco

1. Mensagem do Rui Chamusco, ainda em Díli, Timor-Leste, mas que entretanto já regressou à sua casa, na Lourinhã, Portugal, a 20 mil km de distância 

Data - sábado, 19/04, 13:00 (há 12 dias)
Assunto - Crónicas de Tiumor-Leste

Estimados amigos,

Desde a Terra do Sol Nascente,  os meus votos de Boas Festas de Páscoa. 

Que a alegria de Jesus Ressuscitado seja a nossa força e esperança num mundo melhor.

Quase a chegar ao fim desta minha estadia, envio-vos um cheirinho das últimas crónicas que escrevi.

Um grande abraço,  Rui

 
2. O Rui  Chamusco é membro da nossa Tabanca Grande desde 10 de maio de 2024. Tem mais de 60 referências no nosso blogue.  Natural da Malcata, Sabugal, vive na Lourinhã onde durante cerca de 4 décadas foi professor de música no ensino secundário. É um dos cofundadores e dirigentes da ASTIL (Associação dos Amigos Solidários com Timor-Leste), criada em 2015, com sede em Coimbra, com outros amigos, o luso-timorense Gaspar Sobral e a  malcatense  Glória Sobral. A ASTIL fundou em Boebau, nas montanhas de Liquiçá, uma escola, a ESFA (Escola São Francisco de Assis), em 2018. Voltou a Timor-Leste, em 2025, pela sexta vez. 



VI Viagem a Timor Leste: 2025 (Rui Chamusco, ASTIL) - IV (e última) Parte: de 9 a 19 de abril de 2025: um país, de cultura riquíssima,  onde algumas das suas melhores tradições, como o Fase Matan, correm o risco de perder



 
09.04.2025, quarta – As promessas são para ser cumpridas…

A seguir ao VII aniversário da ESFA prometi que eu voltaria a passar mais uns dias em Boebau antes de regressar a Portugal. E assim fiz… No dia 9 deste mês eu mais o inseparável Eustáquio (o que é que eu aqui faria sem este precioso amigo?), lá vamos nós outra vez a caminho da Escola São Francisco de Assis. E, já sabemos, que cada vez que vamos ou vimos de Boebau, temos de contar com as dificuldades e os imprevistos do percurso.

Estes dias tem chovido muito por cá, e há que contar com os buracos mais acentuados, com os lamaçais, com as terras que deslizaram para os caminhos, cvom os montes de pedra e areia que depositaram à borda desses caminhos devido às obras em curso promovidas pelo programa de desenvolvimento rural que está a ser implementado pelo governo timorense. Apesar de alguns melhoramentos já verificados, o baloiço e a aflição dão sempre cabo deste corpo que está cada vez mais escangalhado e em que o Pdi (Porra da Idade) faz questão de se fazer notar. Mas pronto. 

Como disse a primeira vez que a professora Cristina visitou Boebau,  “ vale a pena tanto esforço porque estas paisagens enchem-nos a alma. Tudo vale a pena, quando a alma não é pequena”… 

Então cá estamos nós a dar apoio a esta comunidade escolar de alunos, professores e todos aqueles que de uma forma ou de outra estão envolvidos neste projeto solidário.


10.04.2025, quinta – Outra vez com as portas fechadas

A casa dos professores está cheia. Desta vez pernoitamos nela seis pessoas, umas a dormir nos colchões que são três, outras a dormir no chão. Eu sou sempre um privilegiado, talvez por consideração em ser velho ou por respeito ao abô Rui, destinam-me sempre um quarto com colchão. 

Até aqui tudo bem. O pior é quando acontece o imprevisto. Eu tenho o costume, quando estou em Boebau, de me levantar várias vezes durante a noite para passear, para ver as paisagens ao luar, para ouvir as ribeiras que passam de ambos os lados, ou até para outras coisas. Ontem já passava da meia noite quando, regressando desse passeio noturno, me preparava para entrar de novo em casa. Então não é que a porta, que eu deixei aberta quando saí, estava bem fechada à chave? 

Que grande “tampa” me deram. E eu a pensar quem foi, quem não foi e a ter de tomar uma decisão ad hoc. Cá fora está frio, lá para dentro não posso ir, que fazer? Seis ou sete horas ao relento dão cabo de mim. A chave da escola também está lá dentro. E o tempo ia passando enquanto maus pensamentos me atormentavam, até que tomei a decisão de dar a volta à casa, e bater suavemente na porta traseira procurando que alguém ouvisse e me abrisse a porta. 

Depois de algum tempo alguém perguntou: 

– Quem é?

– É o Rui!” – respondi eu.

E quando ouço a chave da porta a desandar, todo o meu ser se aliviou. Afinal o Eustáquio e o professor Alarico ainda estavam conversando na sala.

 Quem fechou a porta?– perguntei.

– Foi o Alarico. Ele não sabia que o Tiu estava fora  disse o Eustáquio. 

Depois, foi rir à gargalhada com os comentários que fazíamos. Mas aprendi bem a lição: nunca mais sair à noite sem levar a chave comigo.


11.04.2025, sexta – Histórias da História: o homem que viajou na ponta de canhão

De vez em quando aparecem histórias destas por aqui. Depois de chegarmos a Ailok Laran, e enquanto bebíamos um café, o Eustáquio chamou-me a atenção para o senhor que conversava lá fora com o irmão Mari (Mário). 

– Quem é o Senhor? – perguntei.

– É o Apeo (Pedro)   
– respondeu. 

Então é assim. O Apeo no tempo da invasão indonésia em Timor Leste, não sei se em luta pela resistência timorense ou noutra situação, foi ferido pelos invasores, que atacavam com carros de combate. Como não tinham outro meio de transporte, colocaram o homem ferido na ponta do canhão, e assim foi transportado para Dili a fim se ser assistido. 

Pois o homem que andou na ponta de um canhão, aqui está ainda bem vivo e fresquinho, a fazer visita e companhia a este amigo Mari. Grande Apeo!...

14.04.2025, segunda  – O que fazer, quando não há nada para fazer?



Sim, há dias assim. E então, quando estás em terra estrangeira, privado dos meios de locomoção a que está habituado, ou seja sem o teu carro, dependente de segundos, o tempo que estás parado parece uma eternidade e suscita talentos não habituais que frequentemente não utilizamos, sobretudo a leitura e a escrita. 

E é por isso que estou escrevendo: E é por isso que por ser escritor durante as minhas seis estadias neste país irmão Timor Leste que as minhas crónicas já estão a chegar às trezentas páginas. Não fora Timor Leste o e projeto de solidariedade em que estamos empenhados, nada destes escritos teriam vindo a lume. Até por isso, valeu e vale a pena ter estado em Timor. 

Hoje é Dia de Ramos. E, enquanto eu estou retido neste habitáculo onde escrevo, uma multidão de gente está-se movimentando para participar na celebração deste evento religioso, o primeiro da semana santa que na igreja católica hoje se inicia. Uma semana repleta de rituais, de celebrações que nos levam à festa mais importante do calendário litúrgico: a Páscoa, a Ressurreição, a vida nova.

 Para os que têm fé e acreditam esta é a grande notícia: Cristo venceu a morte. Ressuscitou!... A Ressurreição de Cristo é a garantia da nossa ressurreição. “Se com Ele morremos, com Ele vivemos, com Ele cantamos: Aleluia!”

16.04.2025, quarta – “Rapaziada da vida airada…” / Cerimónia do “Fase Pima”

Hoje foi o dia escolhido pelos construtores da campa da Aurora (a saudos esposa do Eustáquio) para fazer o “remate”. Embora eles já tenham terminado a obra há bastantes dias, só agora a deram por acabada. E eu perguntava ao Eustáquio: 

– Já terminaram ?

– Sim! – disse ele. 

– Então por que deixaram aqui os materiais (baldes, colheres, fios, etc…)? 

– Porque agora tem de haver o ritual da lavagem dos materiais e a celebração. Aqui, em Timor é assim, faz parte da nossa cultura. Temos de fazer a cerimónia do “Fase Pima” (que, traduzido do tétum quer dizer “lavagem das mãos).

Fiquei estupefato, e a pensar comigo: "mais comes e bebes, mais bebedeiras, mais cigarros, mais despesas para a família.” 

Então logo de manhã aparecem os três moços que construíram a campa, que mais não vi fazer do que ouvir músicas nos telemóveis, fumar cigarros e um pouco de conversa. Depois do almoço é que foi a festa. Começaram a juntar-se junto à campa a rapaziada da vida airada, alguns já bem nossos conhecidos pelos seus excessos alcoólicos e pelas figuras tristes que daí lhes advêm. E não foi certamente para rezarem pela alma da Aurora, mas sim para entre copos, alguma comida, música e muitos cigarros, se divertirem e fazerem a festa à sua maneira. 

Coitada da Aurora! O que dirá ela perante estes festejos?... Ela que me perdoe, mas não são nada ao meu gosto. Mas, por respeito aos mortos e aos vivos deste país, que tem a sua tradição e cultura identitária, tenho de respeitar e aceitar que façam assim.

18.04.2025, sexta feira santa – Da terra para o mar…

Há dias assim. Hoje, sexta feira santa, quando tudo fazia crer que não havia nada para fazer, surge um convite depois do almoço. O Fred (Frederico Sobral),  filho do Abeca, veio convidar-me para ir a Casait visitar o projeto de criação de tartarugas, que desde há três anos vem desenvolvendo um pequeno grupo de doze voluntários, em prole da preservação desta espécie marinha. 

Anui sem hesitação, e sem demoras pusemo-nos a caminho no jipe da família,  um Pajero Patrol, que mesmo a cair aos bocados, arrancou todo contente pelas ruas e estradas que nos conduzem de Ailok Laran ao local do destino. 

A título de memória, foi este carro que me(nos) levou a primeira vez a Boebau e que consta em descrições nas Primeiras Crónicas de 2016. Carregado com viajantes como eu, a Adobe, a Glória, o Afun e o condutor Fred, depressa galgou os quilómetros do percurso, deixando-nos mesmo á beira mar, junto às pequenas instalações onde os ovos e as pequenas tartarugas dão início às suas vidas. 

Este projeto que muitos já conhecem porque o visitaram ou viram reportagens televisivas sobre o mesmo, e que, sem qualquer apoio do Estado ou de outras entidades procuram manter apesar das muitas dificuldades, por exemplo muitas das tartarugas bebés morrem por falta de
alimento apropriado (gema de ovos), é um exemplo do empenho e dedicação destes doze jovens que, sem qualquer remuneração monetária, fazem este belo trabalho de procurarem os
ovos na praia, arranjar os tanques incubadores, alimentar os bebés e devolver estas novas criaturas ao seu habitat natural que é o mar. 

De vez em quando são anunciados os dias em que se vai fazer o lançamento no mar, E é então que as pessoas interessadas, e sobretudo as crianças das escolas, se deslocam para vivenciar este espetáculo único. Nós tivemos o privilégio de, orientados pelos amigos Frederico Sobral e N… Braz (dois dos fundadores deste movimento) conhecermos ao pormenor todas estas etapas. 

E confesso que tive uma emoção enorme quando eles apareceram com três pequenas tartarugas, cada uma dentro de uma metade de coco, a nadarem e nos disseram para dar o nome a cada uma. E eu adiantei: Glória, Adobe e Rui, e assim foram batizadas. Depois, cada um de nós com o seu bebé, entramos um pouco no mar e, ao sinal de contagem de três a zero, largamos as meninas carinhosamente, até vê-las desaparecer. 

Foi-nos dito que as fêmeas, porque já está gravado no seu ADN, vão voltar. Que mais não seja para pôr os seus ovos. À semelhança de São Francisco de Assis direi:

“Louvado sejas meu Senhor por todas as tuas criaturas, e especialmente pelas irmãs tartarugas
que são tão lindas e belas. De Ti,  Altíssimo nos fazem lembrar”.

19.04.2025, sábado – O “Fase Matan”

Logo de manhã, ao consultar as notícias no Facebook, deparo com uma publicação do jornal nacional  "Diligente” que me surpreendeu e passo a registar nesta crónicas.

Sendo eu ávido da cultura timorense, não poderia ficar insensível a tal publicação, mais a mais envolvendo rituais em que os protagonistas são as crianças.





"Cresce com dedicação ao trabalho. Aprende a limpar a tua casa, a preparar a terra e a plantar o teu próprio alimento"


Quando ver é mais do que olhar: a tradição do Fase Matan em Timor

Jornal “Diligente” |  Rilijanto Viana | 19 de abril de 2025 (reproduzido com a devida vénia)


Segundo a crença dos timorenses, a tradição do Fase Matan — que significa literalmente “lavar os olhos” — é realizada para garantir que, no futuro, a criança desenvolva uma visão clara e apurada. Além disso, marca simbolicamente a libertação da mãe, permitindo-lhe voltar a sair de casa e usar água fria. Contudo, esta prática começa a rarear na sociedade atual, levando os praticantes a apelar à preservação deste ritual ancestral.

O sol ainda mal iluminava as montanhas de Dare, aldeia situada a cerca de dois quilómetros de Díli. Eram seis da manhã. Crianças corriam e brincavam sob tendas improvisadas; mulheres mais velhas preparavam comida nas cozinhas; e os homens estendiam um tapete à entrada da casa. As famílias começavam a juntar-se para dar início à cerimónia.

Sobre o tapete, foram colocados dois pratos cheios de água, folhas, um anel e uma moeda de dez centavos. Ao lado, também estavam a noz de areca e cigarros tradicionais. Dentro da casa, a tia Rosa de Aleixo trazia às costas um cesto, uma alavanca e uma catana, enquanto o tio Virgílio Fátima carregava o bebé recém-nascido, segurando um caderno e um lápis nas mãos.

Pouco depois, saíram do quarto. Lá fora, todos os familiares se levantaram para os acompanhar, caminhando lentamente até à esteira, colocada a cerca de três metros de distância. Quando chegaram, tia Rosa começou a cortar as ervas com a catana e, com a alavanca, abriu um pequeno buraco na terra, dizendo em voz alta: 

“Cresce com dedicação ao trabalho. Aprende a limpar a tua casa, a preparar a terra e a plantar o teu próprio alimento.”

De seguida, o tio Virgílio sentou-se com o bebé na esteira e, com grande delicadeza, passou as folhas sobre os olhos da criança, dizendo: “Lavo os teus olhos para que no futuro vejas tudo claramente.” Depois, pegou no anel e repetiu o gesto, pronunciando:

“Lavo os teus olhos para que no futuro possas ver toda a tua família, sejas sábio e saibas observar o mundo à tua volta.”

Terminada esta fase, o tio abriu o caderno onde estavam escritos o nome completo e a
data de nascimento do bebé, e murmurou-lhe ao ouvido: “

"O teu nome é Queinaya Viana de Aleixo. Este caderno e este lápis são para tu segurares, escreveres e estudares, para que tenhas pensamentos brilhantes.”

Ergueu então o bebé em direção ao sol nascente, para que recebesse a luz e a energia do novo dia. Após este gesto, tanto o tio como a tia esfregaram os próprios olhos com as folhas, a Moeda e o anel, como sinal de proteção. Os restantes membros da família também repetiram o ritual, esfregando estes objetos nos olhos.


Os familiares presentes na cerimónia também devem lavar seus olhos para os proteger

Foto: Diligente


Um gesto ancestral para proteger e abençoar a criança


 
 A cerimónia do Fase Matan é realizada desde tempos ancestrais. Costuma acontecer três dias ou uma semana após o nascimento. De acordo com a tradição, lavar os olhos do bebé evita que a sua visão se torne “cinzenta” e também assinala o momento em ue a mãe pode voltar a usar água fria.

Além da cerimónia, a ocasião é também um momento de convívio comunitário. Familiares e vizinhos trazem ofertas práticas como sabonete, sabão em pó, fraldas e toalhas para dar as boas-vindas ao recém-nascido.

Afonso Aleixo Bareto, representante da família, explicou que o Fase Matan é uma prática para pedir matak malirin — a bênção natural — para que a criança cresça saudável. “Se não realizarmos esta prática, no futuro a criança poderá não compreender bem o mundo”, alertou.

A cerimónia deve ocorrer antes do nascer do sol, para que a criança aprenda a levantar-se cedo e desenvolver hábitos de responsabilidade. Afonso sublinhou ainda que todos os que assistiram ao parto — seja em casa ou no hospital — devem participar no ritual de lavar os olhos, como forma de proteger a própria visão.

Entre os materiais essenciais estão água retirada diretamente de uma nascente natural, para garantir frescura e pureza; folhas da planta ai lauk, conhecidas pela sua energia vitalizante; um anel ou uma moeda de dez centavos, símbolos de luz e roteção visual e materiais agrícolas e escolares, para orientar o bebé no trabalho e no estudo.

“O ai lauk cresce perto da nascente e é ele que dá vida à água, por isso consideramos
que ele transmite essa energia vital ao desenvolvimento da criança”, explicou.

As mulheres realizam o ritual dentro da casa, simbolizando o trabalho doméstico, enquanto os homens realizam-no no exterior, representando o trabalho agrícola.

O cesto, a catana e a alavanca representam a ligação da criança à agricultura, enquanto o caderno e o lápis incentivam a sabedoria e o estudo. “Se estes materiais não acompanharem o bebé, ele poderá crescer com preguiça de trabalhar e estudar”, afirmou Afonso.


As diferentes práticas do Fase Matan em Timor

Tomás Alves Madeira, de Letefoho, Ermera, explicou que na sua comunidade o Fase Matan é sempre feito de madrugada, para que o bebé receba a bênção da luz das estrelas e do sol. O ritual inclui medir o bebé dos pés à cabeça — gesto simbólico para que a criança cresça saudável e alta — e passar uma moeda de dez centavos nos olhos do bebé.

“É necessário realizar o Fase Matan para que a criança possa receber a luz das estrelas e  do sol, de modo a que os seus olhos fiquem claros e consigam ver tudo com nitidez”, destacou.

Tomás contou que, durante a cerimónia, os familiares colocam água num prato e adicionam uma moeda de dez centavos, que é depois colocada em frente à casa, juntamente com bua malus (noz de areca e betel, em português). 

“Pegamos numa moeda de 10 centavos para passar nos olhos do bebé, para que os seus olhos brilhem como a lua e as estrelas. E não é apenas para proteger os olhos do bebé, mas também para todos os familiares, para que ninguém fique com a visão cinzenta demasiado cedo”, explicou.

Disse ainda que, durante o processo, deve ser escolhida uma pessoa para realizar a medição do bebé, passando as mãos dos pés até à cabeça, com o objetivo de que, no futuro, a criança possa crescer com boa estatura. Após essa medição, a criança é levada para fora de casa para se realizar o ritual do Fase Matan, utilizando a água e a moeda que foram previamente colocadas no prato. “Depois, o bebé é erguido em direção ao nascer do sol, para que possa receber a força e a bênção da luz do dia”, explicou.

Tomás Madeira concordou que o Fase Matan é uma tradição feita para conceder atak malirin (bênção da natureza) ao bebé e que, ao mesmo tempo, serve como um ritual de libertação, permitindo que tanto o bebé como a mãe possam voltar a sair de casa e sentar-se ao ar livre.

João Rui Lemos, de Laclubar, Manatuto, descreveu o ritual como uma espécie de “batismo cultural”. Na sua tradição, além de lavar os olhos, a família entorna água sobre a moleira do bebé e anuncia-lhe oficialmente o nome, geralmente herdado dos avós. Caso o nome escolhido não seja o adequado (por exemplo, se o bebé chorar muito), a família procura outro nome dentro da linhagem familiar.

A pessoa que carrega o bebé: espelho do seu futuro

Os praticantes do Fase Matan acreditam que a pessoa que carrega o bebé durante o ritual influencia o seu caráter futuro. Por isso, a escolha é criteriosa. O homem torna- se o Aman Kous (“pai acolhido”) e a mulher, a Inan Kous (“mãe acolhida”).

Afonso explicou: “Se escolhermos alguém que não respeita os outros ou que tem maus
comportamentos, a criança poderá crescer com essas mesmas características.”

“Se escolhermos uma pessoa que gosta de causar problemas, que não respeita os outros e age com arrogância, esse comportamento refletir-se-á na criança”, disse Afonso. Mencionou que essa situação aconteceu na sua própria família. “A minha filha, agora, fala muito, tal como a tia que a acolheu durante o Fase Matan“, afirmou.

Tomás Madeira acrescentou que, mais tarde, realiza-se outra cerimónia chamada
Oidu (“trazer para fora”), na qual o bebé é levado para fora de casa com utensílios agrícolas
e materiais escolares, reforçando a ligação entre trabalho e estudo.

Disse que a pessoa escolhida para carregar o bebé para fora de casa deve ter boas atitudes e conhecimento, pois, no futuro, esses comportamentos refletir-se-ão na criança à medida que crescer.

“Quando uma criança é traquina e as pessoas comentam que ela não respeita ninguém, as famílias perguntam logo aos pais: ‘Quem levou a criança para fora de casa durante o Fase Matan?’ Se os pais indicarem uma pessoa conhecida por esse tipo de comportamento, então as famílias dizem: ‘É por isso que o comportamento do teu filho ou filha é igual ao dessa pessoa;”, explicou.

Um apelo urgente: preservar uma tradição em risco

Apesar da sua importância cultural, o Fase Matan está a desaparecer, sobretudo devido à modernização e às mudanças nos valores familiares. Afonso Aleixo explicou que, mesmo onde ainda se pratica o barlaque (casamento tradicional), a cerimónia já enfrenta dificuldades.

“Se a casa sagrada deixar de dar importância a estas práticas, a tradição poderá desaparecer. Podemos registá-las por escrito, mas a sua verdadeira força está na prática”, lamentou João Lemos.

Tomás Alves Madeira observou que, em Ermera, a tradição ainda resiste, mas nas famílias que se mudaram para Díli o ritual tem vindo a perder-se.

Todos apelam para que se continue a praticar e a investigar o Fase Matan, para que as gerações futuras possam conhecer e valorizar esta herança ancestral. “Precisamos que os estudantes pesquisem, registem e divulguem esta tradição, porque ela está seriamente ameaçada de desaparecer”, concluiu Tomás.

Entre a luz e a cegueira

Em Timor-Leste, a visão não é apenas física: é também um dom espiritual, um guia para a vida. O ritual do Fase Matan reflete esta conceção ancestral — lavar os olhos do recém-nascido para que ele possa ver o mundo com clareza, sabedoria e responsabilidade.

Este simbolismo ecoa também na literatura timorense, nomeadamente no romance Olhos de Coruja, Olhos de Gato Bravo, de Luís Cardoso. A protagonista, Beatriz, nasce com olhos enormes e mágicos, mas é vendada para ser protegida das dores do mundo e por julgarem que ela padece de uma doença. Paradoxalmente, é ela, cega para o exterior, quem melhor compreende as verdades escondidas, enquanto aqueles que mantêm os olhos abertos permanecem presos à ignorância e à ilusão.

Tal como em Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, Luís Cardoso mostra-nos que ver fisicamente não significa necessariamente compreender. A verdadeira cegueira é espiritual: é não querer ver, é não querer saber. Em Timor, nas tradições como o Fase Matan, preserva-se o valor de ensinar a ver para além do imediato — de formar crianças capazes de interpretar o mundo com lucidez e compaixão.

Num país onde a visão representa tanto uma bênção como uma responsabilidade, osrituais e as histórias lembram-nos que, mais importante do que abrir os olhos, é aprender a ver. Como diria José Saramago, no seu Ensaio sobre a Cegueira, “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”.

Texto e fotos:  Rilijanto Viana | Jornal “Diligente” |  19 de abril de 2025  

(Revisão / fixação de texto para publicação no blogue: LG)

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Nota do editor:

Postes anteriores da série ;

segunda-feira, 31 de março de 2025

Guiné 61/74 - P26631: Facebook...ando (71): Timor-Leste: 1º ministro Kay Rala Xanana Gusmão faz visita surpresa à ESFA - Escola São Francisco de Assis, nas montanhas de Liquiçá, em 22 de março - Parte II








Fotos nºs 11, 12, 13, 14 > O 1º ministro da República Democrática de Timor-Leste, Kay Rala Xanana Gusmão faz uma visita-surpresa â Escola de São Franscisco de Assis, em Boebau / Manati, município de Liquiçá, na festa da celebração do 7º aniversário. (No texto abaixo há um erro, dpo repórter,  na localização: a escola não fica na aldeia de Hatumasi, mas sim em  Boebau, Manati).


Imagens da Média - GPM / RDTL (República Democrática de Timor-Leste, com a devida vénia)... Fonte: Página do Facebook do 1º Ministro da RDTL, Kay Rala Xanana Gusmão




1. Com as preciosas"dicas" do nosso camarada Fernando Ribeiro, mais a ajuda do tradutor do Google e do Google Gemini IA, aqui vai a tradução possível, com correções nossas, da notícia da visita do 1º ministro de Timor-Leste, no passado sábado, dia 22, à Escola de São Francisco de Assis em Manati / Bobeau, Liquiçá, por ocasião do seu 7º aniversário. A notícia, em tétum, é reproduzida da página do Facebook do 1º Ministro da RDLT, Ray Kay Rala Xanana Gusmão.

O original em tétum vai em itáluco, e alinhado à esquerda. A tradução em português vai alinhado à direita.


Eskola São Francisco de Assis eziste tinan hitu, PM Xanana agradese
profesor nai'n-lima voluntáriu hanorin estudante

A Escola São Francisco de Assis existe há sete anos, o Primeiro Ministro Xanana vem agradecer a cinco professores que se voluntariam para ensinar os alunos

LIQUIÇÁ, 22 Marsu 2025

Primeiru-Ministru (PM), Kay Rala Xanana Gusmão agradese ba profesór foin-sa’e Timor-oan na’in lima (5) kompostu hosi feto tolu no mane rua ne’ebé ho de’it diploma sekundáriu voluntáriu tinan hitu ona fahe matenek ba estudante sira iha eskola São Francisco de Assis, Liquiça.


LIQUIÇÁ, 22 de março de 2025

O Primeiro-Ministro (PM), Kay Rala Xanana Gusmão,  agradeceu a cinco (5) jovens professores timorenses, três mulheres e dois homens, que, com apenas o diploma do ensino secundário, se voluntariam há sete anos para partilhar conhecimentos com os alunos da Escola de São Francisco de Assis, Liquiçá.


Apresiasaun ne’e Xefe Governu hato’o bainhira hala’o vizita supreza hodi partisipa selebrasaun aniversáriu Eskola São Francisco de Assis “PAZ E BEM” iha Aldeia Hatumasi, Suku Leotala, Postu Administrativu Liquiça, Munisípiu Liquiça, sábadu (22/03/2025).


Este agradecimento foi manifestado pelo Chefe do Governo  
durante uma visita surpresa que fez para participar na comemoração do aniversário 
da Escola São Francisco de Assis “PAZ E BEM” 
na aldeia de Hatumasi, suco de Leotala, posto administrativo de Liquiçá, município de Liquiçá, sábado, 22/03/2025.


Vizita supreza ne’e PM Xanana halo hafoin simu karta ne’ebé hakerek hosi Fundadór Eskola São Francisco de Assis, Rui Fernandes Manuel Chamusco dirije bá PM Xanana hodi relata prokupasaun ne’ebé estudante no inan-aman sira hasoru.


Esta visita surpresa foi feita pelo PM Xanana após receber uma carta escrita pelo Fundador da Escola São Francisco de Assis, Rui Fernandes Manuel Chamusco, dirigida ao chefe doo Governo para relatar as preocupações e dificuldades enfrentadas poro pais e alunos.

Eskola ne’e harii hosi Associação de Amigos Solidárioa com Timor Leste (ASTIL-Portugál), iha tinan 2019 ho sala aula tolu, haris-fatin ida, ne’ebé inaugura iha loron 10 fulan-Marsu hosi fundadór ASTIL, João Crisóstomo e Criança de Boebua, eskola ne’e harii ho intensaun ajuda estudante sira iha área rurál asesu ba edukasaun ho besik liután.


Esta escola foi construída pela Associação dos Amigos Solidários com Timor-Leste (ASTIL-Portugal), em 2019, com três salas de aula e uma casa de banho (e casa de professores,além de recinto murado), tendo sido inaugurada a 10 de março pelo fundador da ASTIL, João Crisóstomo, 
e por uma  criança de Boebau.
 A escola foi construída com a intenção de ajudar os estudantes das áreas rurais a acederem à educação de forma mais próxima.


“𝐇𝐚’𝐮 𝐦𝐚𝐢 𝐭𝐚𝐧𝐛𝐚 𝐢𝐦𝐢-𝐧𝐢𝐚 𝐞𝐬𝐤𝐨𝐥𝐚 𝐬𝐞𝐥𝐞𝐛𝐫𝐚 𝐭𝐢𝐧𝐚𝐧-𝐡𝐢𝐭𝐮, 𝐡𝐚’𝐮 𝐦𝐚𝐢 𝐚𝐭𝐮 𝐚𝐠𝐫𝐚𝐝𝐞𝐬𝐞 𝐛𝐚 𝐀𝐯ó 𝐑𝐮𝐢 𝐅𝐞𝐫𝐧𝐚𝐧𝐝𝐞𝐬 𝐌𝐚𝐧𝐮𝐞𝐥 𝐂𝐡𝐚𝐦u𝐬𝐜𝐨 𝐡𝐨 𝐧𝐢𝐚 𝐦𝐚𝐥𝐮𝐤 𝐬𝐢𝐫𝐚 𝐧𝐞’𝐞𝐛𝐞é 𝐡𝐨 𝐥𝐚𝐫𝐚𝐧 𝐛𝐨’𝐨𝐭, 𝐟𝐮𝐚𝐧 𝐛𝐨’𝐨𝐭 𝐡𝐨𝐝𝐢 𝐚𝐣𝐮𝐝𝐚 𝐦𝐨́𝐬 𝐠𝐨𝐯𝐞𝐫𝐧𝐮 𝐚𝐭𝐮 𝐡𝐚𝐝𝐢𝐚 𝐞𝐝𝐮𝐤𝐚𝐬𝐚𝐮𝐧 𝐧𝐨 𝐩𝐫𝐞𝐩𝐚𝐫𝐚 𝐢𝐭𝐚-𝐧𝐢𝐚 𝐨𝐚𝐧 𝐬𝐢𝐫𝐚 𝐧𝐢𝐚 𝐞𝐝𝐮𝐤𝐚𝐬𝐚𝐮𝐧. 𝐇𝐚’𝐮 𝐦ó𝐬 𝐡𝐚𝐤𝐚𝐫𝐚𝐤 𝐚𝐩𝐫𝐞𝐬𝐢𝐚 𝐦ó𝐬 𝐛𝐚 𝐏𝐚𝐢 𝐍𝐢𝐧𝐨 (𝐉𝐨ã𝐨 𝐝𝐞 𝐀𝐫𝐚ú𝐣𝐨) 𝐡𝐨 𝐩𝐫𝐨𝐟𝐞𝐬ór 𝐧𝐨 𝐩𝐫𝐨𝐟𝐞𝐬𝐨𝐫𝐚 𝐬𝐢𝐫𝐚 𝐥𝐚𝐫𝐚𝐧 𝐥𝐮𝐚𝐤 𝐡𝐨𝐝𝐢 𝐡𝐚𝐫𝐞𝐞 𝐛𝐚 𝐢𝐦𝐢-𝐨𝐚𝐧 𝐬𝐢𝐫𝐚 𝐧𝐢𝐚 𝐟𝐮𝐭𝐮𝐫𝐮. 𝐒𝐞́ 𝐡𝐨 𝐯𝐨𝐥𝐮𝐧𝐭á𝐫𝐢𝐮 𝐡𝐚𝐧𝐞𝐬𝐚𝐧 𝐧𝐞’𝐞 𝐦𝐚𝐤𝐚, 𝐩𝐫𝐨𝐟𝐞𝐬ó𝐫 𝐓𝐢𝐦𝐨𝐫-𝐨𝐚𝐧 𝐡𝐨𝐭𝐡𝐨𝐭𝐮 𝐛𝐞𝐥𝐞 𝐤𝐨𝐧𝐭𝐫𝐢𝐛𝐮𝐢 𝐚𝐭𝐮 𝐡𝐚𝐝𝐢’𝐚 𝐢𝐭𝐚-𝐧𝐢𝐚 𝐫𝐚𝐢𝐧,” PM Xanana hateten.

"Vim porque a vossa escola celebra sete anos, vim para agradecer ao Avô Rui Fernandes Manuel Chamusco e aos seus colegas que, com grande coração e generosidade, ajudam também o governo a melhorar a educação e a preparar a educação dos nossos filhos. 

"Quero também expressar a meu apreço ao Pai Nino (João de Araújo) e aos professores e professoras que, com grande dedicação, se preocupam com o futuro dos vossos filhos. É com voluntários como estes que todos os professores timorenses podem contribuir para melhorar a nossa nação," disse o Primeiro-Ministro Xanana.



Xefe Governu haktuir, Ministériu Edukasaun rezolve hela problema edukasaun no problema profesór sira. Maibé iha área rurál hanesan iha Aldeia Hatumasi profesór sira hanorin voluntáriu tinan hitu ona, nunka reklara sira-nia direitu más sakrifika a’an atu hanoin de’it oinsá mak fahe sira-nia matenek ba estudante sira nia futuru, no ida ne’e asaun fraternidade importante ida.

O Chefe do Governo referiu que o Ministério da Educação está a resolver os problemas desta escola, incluindo a situação dos professores. 
No entanto, em áreas rurais como a aldeia de Hatumasi, os professores têm ensinado voluntariamente há sete anos, nunca reivindicando os seus direitos, 
mas sacrificando-se para pensarem apenas em como partilhar o seu conhecimento para o futuro dos estudantes, e esta é uma ação de fraternidade importante.


PM Xanana ne’e apela ba estudante sira atu badinas estuda, mezmu sira iha área rurál hasoru dezafiu oin-oin.

O Primeiro-Ministro Xanana apelou aos estudantes para que estudem com afinco, mesmo que nas áreas rurais enfrentem muitos obstáculos e desafios.

Iha ámbitu ne’e, PM Xanana orienta estudante sira kanta múzika Hino Nasionál “Patri-Patria” no fahe livru ba estudante, dosi, bebida ba estudante inklui inan no aman sira.

Neste âmbito, o Primeiro-Ministro Xanana dirigiu os estudantes  que cantaram Hino Nacional “Pátria-Pátria” e distribuiu livros, doces e bebidas aos estudantes, incluindo aos pais.

Iha biban hanesan, Koordenadór Eskola São Francisco de Assis, João de Araújo Moniz Sobral agradese ba prezensa Xefe Governu ne’ebé hakat ona to’o sira-nia fatin hodi haree no rona rasik preokupasaun ne’ebé sira hasoru.


Na mesma ocasião, o coordenador da Escola São Francisco de Assis, João de Araújo Moniz Sobral, agradeceu a presença do Chefe do Governo, que se deslocou ao local para ver e ouvir pessoalmente as preocupações que enfrentam.


"𝐀𝐯ó X𝐚𝐧𝐚𝐧𝐚 𝐦𝐨𝐬𝐮 𝐦𝐚𝐢 𝐝𝐞𝐫𝐞𝐩𝐞𝐧𝐭𝐞 𝐡𝐚𝐧𝐞𝐬𝐚𝐧 𝐧𝐞’𝐞 𝐬𝐮𝐩𝐫𝐞𝐳𝐚 𝐛𝐨’𝐨𝐭 𝐛𝐚 𝐢𝐭𝐚 𝐩𝐨𝐯𝐮 𝐧𝐨 𝐞𝐬𝐭𝐮𝐝𝐚𝐧𝐭𝐞 𝐬𝐢𝐫𝐚 𝐧𝐞’𝐞𝐛é 𝐬𝐮𝐬𝐚𝐫 𝐛𝐚 𝐛𝐮𝐚𝐭 𝐡𝐨𝐭𝐮-𝐡𝐨𝐭𝐮. 𝐀𝐦𝐢 𝐧𝐚’𝐢𝐧-𝐥𝐢𝐦𝐚 𝐡𝐨 𝐝𝐢𝐩𝐥𝐨𝐦𝐚 𝐬𝐞𝐤𝐮𝐧𝐝á𝐫𝐢𝐮 𝐡𝐨 𝐟𝐮𝐚𝐧 𝐧𝐞’𝐞𝐛é 𝐡𝐚𝐤𝐚𝐫𝐚𝐤 𝐚𝐭𝐮 𝐝𝐞𝐳𝐞𝐧𝐯𝐨𝐥𝐯𝐞 𝐫𝐚𝐢 𝐢𝐝𝐚 𝐧𝐞’𝐞 𝐥𝐢𝐥𝐢𝐮 𝐩𝐫𝐞𝐩𝐚𝐫𝐚 𝐧𝐨 𝐞𝐝𝐮𝐤𝐚 𝐨𝐚𝐧 𝐬𝐢𝐫𝐚 𝐬𝐚𝐢 𝐦𝐚𝐭𝐞𝐧𝐞𝐤,” João de Araújo hateten.


"A visita surpresa do Avô Xanana foi uma grande surpresa para nós, o povo e os estudantes que enfrentam dificuldades em tudo. Nós, cinco diplomados do ensino secundário, com grande vontade de desenvolver esta terra, especialmente de preparar e educar as crianças para se tornarem sábias," disse João de Araújo.

Estudantes hamutuk na’in-102 kompostu hosi feto na’in-54 no mane 48 mak tuir aprendizajem iha tinan 2025. Estudante sira ne’e maioria hela ho distánsia dok, la’o de’it hosi ai-laran, hakur mota hodi ba to’o iha eskola.

Um total de 102 estudantes, dos quais 54 são raparigas e 48 são rapazes, frequentam o ensino em 2025. A maioria destes estudantes vive a longas distâncias, deslocando-se a pé por entre a mata e atravessando rios para chegar à escola.

Problema seluk ne’ebé eskola ne’e hasoru mak menus livru, kadeira no meja balun komesa aat, armari la iha atu tau livru no la iha biblioteka. Maski nune’e, eskola ne’e komesa harii ona moru haleu hodi proteje estudante sira bainhira tuir prosesu aprendizajem bele seguru no evita animal tama ba resintu eskola.

Outro problema que a escola enfrenta é a falta de livros, algumas cadeiras e mesas estão degradadas, não há armários para guardar os livros e não existe biblioteca.
Apesar disso, a escola já começou a construir um muro circundante para proteger os alunos durante o processo de aprendizagem, garantindo a sua segurança e evitando a entrada de animais no recinto escolar.

Prezensa PM Xanana nian apoia mós “𝐇𝐚’𝐮  Nia𝐓𝐚𝐬𝐢, 𝐇𝐚’𝐮  Nia𝐓𝐢𝐦𝐨𝐫” fahe fahe kamiza Fronteira Marrítima no apoia nesidade bázika ba estudante sira, atividade ne’e taka ho hasai foto hamutuk nu’udar rekordasaun.

A presença do Primeiro-Ministro Xanana também serviu  para divulgar o programa naciional  "Meu Mar, Meu Timor", distribuindo t-shirts do Gabinete das Fronteiras Terrestres e Marítimas e apoiando necessidades básicas dos estudantes. A atividade terminou com uma fotografia de grupo como recordação.

Akompaña PM Xanana iha eventu ne’e mak Administradór Postu Liquiça-Vila, Rogério dos Santos no reprezentante Komandu PNTL. (Média-GPM)

O Primeiro-Ministro Xanana foi acompanhado no evento pelo Administrador do Posto de Liquiçá-Vila, Rogério dos Santos, e por um representante do Comando da PNTL - Polícia Nacional de Timor-Leste  (Média-GPM)"

(Revisão / fixação de texto final, em português, para publicação deste poste: LG)


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Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 30 de março de 2025 > Guiné 61/74 - P26630: Facebook...ando (70): Timor-Leste: 1º ministro Kay Rala Xanana Gusmão faz visita surpresa à ESFA - Escola São Francisco de Assis, nas montanhas de Liquiçá, em 22 de março - Parte I

(**) "Ha'u-nia Tasi, Ha'u-nia Timor" é um livro fotográfico sobre Economia Azul, lançado pelo Primeiro-Ministro de Timor-Leste, Kay Rala Xanana Gusmão. O título significa,em portuguès, "O Meu Mar, O Meu Timor".. Produzido pelo Gabinete das Fronteiras Terrestres e Marítimas (GFTM), o livero foi lançado em Nova Iorque, no The Explorers Club, no dia 23 de setembro de 2024.


Vd. poste de 24 de outubro de 2024 > Guiné 61/74 - P26072: (In)citações (266): Será que é desta ?... Se Xanana Gusmão não vai à nossa Escola nas montanhas de Liquiçá, a nossa Escola vai ter com ele em... Nova Iorque (João Crisóstomo)