E pagavam-se promessas, camaradas!... Algumas antigas, camaradas!... Agora que a família tem carro, em segunda mão, comprado às prestações...
Se há coisa nossa, bem portuguesa, era a promessa!... A "cunha" metida aos santos e às santas. Que a gente tinha pejo ou vergonha em ir diretamente a Deus, sem intermediários, desbarretados... (Mas, atenção, "quando Deus não quer, os santos não rogam", ou seja, não adianta meter cunhas ao céu...)
Durante a guerra colonial, a promessa ganhou uma dimensão extraordinária. Um mancebo ia às sortes, ficava apurado, "graças a Deus" (sinal de que não era nenhum aleijadinho), para todo o serviço militar (mesmo que tivesse os pés chatos e fosse lingruinhas, meia-f*da, meia-leca!...), era chamado pela Pátria, para defender o Ultramar, embarcava para Angola, Guiné ou Moçambique...
E logo o mulherio (a mãe, a mulher, a namorada, a noiva, as irmãs, até as madrinhas de guerra!.) que ficavam a rezar por ele, faziam uma promessa:
"Se o mê Zé vier inteirinho, são e salvo, hei de ir à Senhora...do Castelinho, dos Remédios, da Agonia, do Sameiro, da Nazaré, da Graça, do Cabo Espichel, da Lapa, do Almortão..."
E depois havia que pagar a dívida. Podia ser ir descalço, de joelhos, carregar uma vela, oferecer dinheiro, levar um ex-voto (um braço ou uma perna em cera), mandar celebrar missas, etc..
A promessa estabelecia uma relação quase pessoal e de cumplicidade com a santa: “Eu peço-te isto, senhora; se me concederes a graça, eu faço-te aquilo.” Era senhora e não "priga" (rapariga), que entre o céu e a terra vai alguma distância e o respeitinho é(era, antigamente) muito bonito.
Era uma religião pouco ou nada sofisticada profundamente popular, corporal e contratual, interesseira, descarada, franca, comercial, baseada na contabilidade simples, de merceeiro, do "deve-e-haver" e da lista dos fiados.
E isso ajuda-nos a compreender melhor a mentalidade dos "tugas" de 1961-74 que alombaram com a guerra de África. A guerra não se travava longe de casa, a 4 mil, 8 mil, 12 mil quilómetros de distância.
Qual quê?!... A guerra entrava na capela da aldeia, no adro da igreja, na escola, na casa de família, na casa dos vizinhos, na taberna, na vinha, no campo, nos montes, no terço, na promessa, na lareira, no altar de Nossa Senhora de Fátima, erguido lá em casa, alumiado dia e noite por uma lata de azeite!
O soldado estava em África; a guerra estava também em Portugal ( que era a metrópole). E a Nossa Senhora, mais do que Deus, estava em toda a parte, de Gadamael a Buruntuma, de Madina do Boé a Varela, do Minho a Timor...
2. O culto mariano tem raízes muito profundas em Portugal, e são inúmeros os santuários e festas dedicados a Nossa Senhora. Por isso há que distinguir Fátima e os demais santuários do Portugal "sacroprofano".
Fátima é uma coisa... do "outro mundo", uma coisa de outra escala: fenómeno nacional e internacional, peregrinação organizada, turismo religioso, "máquina caça-níqueis", infraestrutura, hotelaria, comércio, negócio, comunicação social, calendário e liturgia próprias...
Fátima é uma “indústria da fé”, sem ofensa para os crentes, e sem que isso implique negar a fé genuína de quem lá vai.
A santa da aldeia é outra coisa, a outra escala, liliputiana. É a santinha da terrinha.
Aquela imagem concreta que está no alto do monte , ou no cima da falésia, á entrada do porto de abrigo, ou na capelinha; que pertence à memória da freguesia; que guia os pescadores como um farol; que viu partir os rapazes para a guerra; que recebeu as promessas das mães; que todos os anos desce ou sai em procissão (por terra ou por mar); que conhece, por assim dizer, a biografia sentimental da comunidade... Essa é que é a santa de verdade.
É aqui que o sacro e o profano se juntam, misturam, fundem...
A primeira vez que fui à Senhora do Castelinho, em 1975, no Marco de Canaveses, é que tive esse vivência (e evidência) das festas e romarias nortenhas (coisa que não havia verdadeiramente nas terras estremenhas, ou pelo menos, na minha vilória da Lourinhã).
O mesmo homem que eu cumprimentei e que o meu futuro sogro me apresentou, "ramadeiro", e que fazia parte da sua equipa de construção de "ramadas", podia:
- companhar a procissão de vela na mão;
- ajoelhar-se diante do andor;
- cumprir uma promessa;
- emborcar três canecas de verdasco depois da missa;
- dançar até às três da manhã;
- discutir futebol (ou até política, já se discutia política acaloradamente em 1975, no verão quente de 1975, e que "a Senhora do Castelinho" nos livrasse dos homens com barba e gadelha comprida);
- catrapiscar uma solteira ou mandar um piropo a uma casada;
- comprar uma fartura;
- e no dia seguinte, depois de dar uma "trancada na velhota",
- estar fresco para pegar no trabalho, no suplício de Sísifo de todos os dias...
Não havia necessariamente contradição. Era assim que funcionava a cultura popular. O sagrado não estava num compartimento estanque. Ruy Belo, que não era antropologo mas poeta compreendeu isso melhor do que nongyem ...
A cultura popular misturava-se com o quotidiano. O ano era regido pelos solstícios do inverno e do verão. A vida era simples, a preto e branco.
De resto, havia romarias em que elementos aparentemente profanos eram tão antigos e estruturantes como os religiosos.
3. E eu aí é que percebi que o Portugal tradicional era muito mais do que um simples país estatisticamente de “católicos apostólicos romanos", praticantes.
Qual quê!.. Era anticlerical, se fosse preciso andava á porrada com o padre da freguesia, para logo a seguir fazer o compasso no Páscoa e angariar umas coroas valentes spara o sustenho do passal, da casa e da horta do padre...
Era tudo muito mais complexo (e fascinante) do que eu imaginacva ou tinha apreendido ingenuamente nos livros.
Havia fé, superstição, ritual, tradição familiar, medo, Deus e o Diabo, esperança, sociabilidade, festa, foguetes, bombos, cabeçudos .., tudo misturado como num "cocktail".
E os "emigrantes" (externos e internos) trouxeram outros ingredientes (da França, da Alemanha, do Luxemburgo, da Suiça..., mas também, do Porto e de Lisboa, sem esquecer a tropa que regressava do ultramar...).
Mas, antes destes todos, tinha havido os brasileiros de torna-viagem.
Agosto era, nos anos 70, 80, 90, o mês do regresso à terra.
O emigrante chegava de Renault, Peugeot ou Mercedes; trazia presentes, bebidas, charutos, cigarrilhas, chocolates, dinheiro e novas maneiras de vestir, de viver, de falar, de consumir, de comprar e ate de pensar.. E encontrava a aldeia engalanada para a festa do padroeiro ou padroeira
Havia ali uma pequena ironia histórica, deliciosa: o emigrante que partira pobre, pobretana ou até miserável (cabaneiro, rendeiro, camponês sem terras, jornaleiro, ganhão, pescador, operário, marçano, sapateiro, moleiro, alfaiate, ferrador, trolha da construção civil, criada de servir, doméstica, etc.) voltava à aldeia precisamente para participar na festa que os seus pais e avós celebravam quando ele ainda era pobre, pobretana ou até miserável.
E muitas vezes era ele quem agora pagava a banda, o foguetório, o andor, a ornamentação ou a comissão de festas, o padre de fora que vinha fazer o sermao... Ou seja: a emigração, que despovoara o interior, também financiava uns anos depois (e mantinha viva) uma parte importante da sua cultura festiva.
O “querido mês de agosto” português era então, há 50, 40, 30, 20 ano atrás, dificil de definir:
mês das férias + mês dos emigrantes + mês das festas e romarias + mês dos reencontros e casamentos + mês das promessas + mês da memória...
Uma frase talvez pudesse resumir tudo isso: em agosto, no nosso querido mês de agosto, Portugal regressava temporariamente às suas aldeias, e as aldeias regressavam temporariamente a si próprias. Isso era mais evidente no Norte e Centro do país.
Eu ainda apanhei esse Portugal "sacroprofano" (ou sacro-profano, como escrevia o Ruy Belo)... Em terras de Entre-Douro-e-Minho. Casei-me lá em agosto de 1976.
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Nota do editor LG:
Último poste da série > 15 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28261: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (15): Os nossos provérbios pouco ou nada populares - Parte IV: Ainda o "Amor com amor se paga". E o ódio, camaradas?!