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terça-feira, 21 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28201: S(C)em comentários (92): Eu, crente, me confesso... mas não pagador de promessas... (José Teixeira)

N. Sra. de Fátima de Guileje 
(2010)  | Foto: © António 
Camilo (2010). 
Todos os direitos reservados.
 [Edição e legendagem: 
Blogue Luís Graça
 & Camaradas  da Guiné]

1. Comentário de José Teixeira ao poste P17347 (*)

Poucos dias depois de chegar à Guiné; escrevi:

Prometi a minha mãe não me esquecer de Deus, mas confesso, que Ele se escapuliu, logo nos primeiros abalos do mar alto que me fizeram vomitar tudo quanto tinha e não tinha no estômago em alta sinfonia com centenas de camaradas alojados no porão do Niassa.

Singular fenómeno de religiosidade fui encontrar em Ingoré. Aí que tive o primeiro reencontro com Deus, após a saída de Portugal.

Logo no segundo dia da chegada, depois do jantar e, acabada a limpeza do refeitório, este enche-se de novo, agora sem pratos nem comida para o corpo. Seguia-se o momento de alimentar a alma. O grupo foi engrossando. Um estranho silêncio ou conversas em tom abaixo do normal, provocaram-me para ir averiguar o que se passava, com aquele grupo de camaradas de tez queimada por uns meses largos de sol na Guiné.

Um jovem soldado, lá na frente, começa a “votar” o terço em honra de Nossa Senhora, respondendo em coro o grupo de combatentes, onde se viam praças e um ou dois furriéis.

Foram vinte minutos de paragem, de reflexão, sobre o que me era exigido como seguidor do projeto de Jesus Cristo numa guerra para onde fui atirado, contra a vontade, pelos “senhores” do meu país.

Rezar, para mim, é mais um permanente estado de louvor a Deus pela vida, pela natureza que me disponibilizou para a minha felicidade. Corresponsabilizando-me com actos e acções de defesa de mim próprio no ambiente de guerra em que estou inserido, no respeito e serviço aos outros que me rodeiam pela missão que me foi atribuída - enfermeiro.

A oração não é para mim uma forma de negociar com Deus, com promessas a cumprir se... chegar ao fim da comissão escorreito, ou um pedir permanente a proteção, vendo Deus como que um guarda-chuva protetor, esquecendo que esse mesmo Deus também o é de tantos, quantos do outro lado da barricada nos atacam ou se defendem.

Os povos que ousam fazer-nos frente, possivelmente também tem a “sua Fé”, os seus santos a quem se agarrar nos momentos difíceis, os amuletos que lhes vemos à cintura são a prova evidente. Também tem avós, pais esposas, namoradas. Algumas, na frente de guerra, combatem lado a lado, outras, na retaguarda, sofrem como as nossas mães, os nossos familiares.


José Teixeira,
colaborador permanente do blogue

PS - Sobre o fenómeno de Fátima, onde gosto de ir no silêncio, já escrevi o poste nº 1873 um pouco baseado neste, que já estava escrito há muito tempo.

Creio que esta reflexão continua atual, pois muitas vezes deusifica-se a Virgem Maria e tenta-se "negociar" com ela a salvação na vida terrena com promessas de sacrifícios. Ouso colocar a questão: Quem é a mãe/pai que gosta de ver um filho a sofrer, mesmo que seja por "amor" ?!

sexta-feira, 12 de maio de 2017 às 14:23:00 WEST


2. Outro comentário do José Teixeira, agora ao poste P17350

Sem dúvida que não se pode "meter" a religião no blogue, sobretudo a discussão religiosa. 

Creio que muitos dos combatentes eram "marianos" por educação, por tradição e por devoção. Não podemos esquecer que a religião tinha um peso elevado na família, nas povoações e até na escola. Eu continuo a não ver mal nisso, mas não creio que consigas testemunhos das peregrinações que se fizeram sobretudo por parte da família, muito em especial as mães de todos nós. Não te esqueças que Maria, mãe de Jesus sempre nos foi apresentada como a mãe do céu e...quando a crise, a dor ou a insegurança aparece recorre-se sempre à mãe (antes do pai.

Assisti por missão a vários feridos e mesmo, apenas, debaixo de combate, muitos deles faziam preces a Nossa Senhora. E o contrário também, ou seja, culpar Maria mãe de Jesus, do infortúnio. (...)
 

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