Setúbal > Parque Natural da Arrábida > Convento da Arrábida > 23 de julho de 2026 > Voltei lá 60 e tal anos depois
Fotos (e legenda): © Luís Graça (2025). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Garça & Camaradas da Guiné]
Os olhos meus dali dependurados,
Pergunto ao mar, às ondas, aos penedos
Como, quando, por quem foram criados?
Respondem-me em segredo, mil segredos,
Cujas letras primeiras vou cortando
Nos pés de outros mais verdes arvoredos.
Assi com cousas mudas conversando,
Com mais quietação delas aprendo,
Que de outras, que ensinar querem falando.
Se pelejo, se grito, se contendo
Com armas, com razões, com argumentos,
Elas só com calar ficam vencendo.
Ferido de tamanhos sentimentos,
Fico fora de mim, fico corrido
De ver sobre que fiz meus fundamentos.
Como, quando, por quem foram criados?
Respondem-me em segredo, mil segredos,
Cujas letras primeiras vou cortando
Nos pés de outros mais verdes arvoredos.
Assi com cousas mudas conversando,
Com mais quietação delas aprendo,
Que de outras, que ensinar querem falando.
Se pelejo, se grito, se contendo
Com armas, com razões, com argumentos,
Elas só com calar ficam vencendo.
Ferido de tamanhos sentimentos,
Fico fora de mim, fico corrido
De ver sobre que fiz meus fundamentos.
Frei Agostinho da Cruz, ou Agostinho Pimenta
(Ponte da Barca, 1540 - Setúbal, 1619)
1. Há sítios que não são apenas lugares, pontos no mapa. Fazem parte das nossas geografias emocionais. Da nossa história de vida. Acampei aqui pelo menos duas vezes no início dos anos 60. Descia a serra, ia até à praia. Como fazem hoje os javalis. Por caminhos ínvios. Quando se tem 15 anos e está-se à beira de perder a fé, todos os caminhos são ínvios.
Falo do convento do da Arrábida. Do conventinho. Por aqui é tudo liliputiano. A escala. Até o tempo. A escolha do sítio não poderia ter sido mais feliz. O que impressiona hoje o visitante é a perfeita integração do convento e da sua cerca de 25 hectares na encosta leste da Serra da Arrábida. Onde se não se vê o pôr do sol, só o nascer.
A construção que se prolongou durante mais de um século foi-se adaptando aos penhascos, aos socalcos, às rochas, ao declive, aos arbustos aos sobreiros, às urzes. É uma arquitetura religiosa única, que avançou sem "patos bravos" nem autarcas corruptos, só com a licença da natureza. Não há nada aqui imposto à serra, fica-se com a sensação de que o labiríntico conventinho nasceu dela, está ali desde sempre. H
Sinto-me aqui com o arrábido e poeta da solidão e do despojamento Frei Agostinho da Cruz, que aqui viveu década e meia antes de morrer. De facto, aqui um homem sente-se despojado de tudo o que não precisa de levar para a eternidade ou para o regresso à poeira cósmica donde nasceu. La mort c' est le vide.
Tenho pena de não ter revisitado o Convento Velho, mais austero, com pequenas ermidas escavadas ou encostadas à rocha. Fui ontem de canadianas, numa visita de grupo (máximo 40 pessoas) guiada ao Convento Novo, com a pequena igreja, o claustro e as dependências principais (incluindo as celas e o refeitório).
As celas dos frades menores franciscanos, que aqui viveram , eram minúsculas: pouco mais do que o espaço para uma enxerga e um banco. Procurava-se o isolamento absoluto, cultivava-se a pobreza absoluta: estava tudo nos regulamentos, havia dias da semana e do mês em que a alimentação era apenas pão e água. Noutros dias, alguns produtos da horta. Frei Bernardo da Cruz, nascido nas margens do rio Lima, descia a serra e às vezes lá trazia um peixinho, pescado no Portinho da Arrábida. Devia ser a sua única proteína animal.
É uma das minhas geografias emocionais que merece que eu fale dela num segundo poste, com mais tempo e vagar.
É uma das minhas geografias emocionais que merece que eu fale dela num segundo poste, com mais tempo e vagar.
Algumas fotos que publico acima dão de imediato a escala do conjunto e reforçam a sensação de labirinto. A mulher de vestido azul (a guia do Convento, Andreia Gomes) parece uma aparição discreta mas fantasmagórica naquele silêncio branco. quase perdida entre os muros. Sem ela, a imagem seria sobretudo de arquitetura pura e dura; com ela, ganha vida, narrativa, emoção. Como é que uma figura (para mais de uma mulher, um gineceu, a quem durante séculos seria interdita a entrada neste estéril androceu) pode humanizar esta arquitetura ascética!
De facto, não foi apenas o regresso a um lugar, foi sobretudo o regresso a um lugar da minha adolescência. E revisitei o Portinho da Ar rábida. Melancólico. Ao entardecer. Com os meus amigos Joaquim Pinto de Carvalho e Maria do Céu Pintéus, que me deram boleia.
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Nota do editor LG:
1 comentário:
Bom dia Luis Graça,
A minha insónia levou-me a, entre outras coisas, visitar o nosso blogue…
Tenho ouvido muitas vezes falar deste Convento da Arrábida, o “conventinho” como tu lhe chamas. E se não tivesse já uma idéia do que ele deve ser, agora ficaria a saber o que é, pela tua descrição, mais ainda com as fabulosas fotos que fizeste.
Ainda nunca lá fui, nem sequer ao "velho" que tu ainda conheceste, mas vontade não me falta, especialmente agora depois deste teu manuscrito. Fico esperando o teu prometido segundo poste.
Se um dia conseguir tempo e uma ocasião/possibilidade se apresentar quero mesmo ir, sentir também eu essa "emocional experiência" de que falas.
Pelo que dizes depreendo que o a emoção que o "conventinho" te proporciona deve ser mais ou menos o que sinto quando vou ao também vestuto convento de Varatojo. Onde passei e vivi um ano inteiro que me marcou para a vida. E de que maneira! Se "para bem” ou 'para mal” não sei. Foi parte da minha "educação de seminário” que me leva muitas vezes a perguntar-me a mim mesmo para que lado, benção ou maldição, o pêndulo aponta mais. Paradoxalmente muito fortemente em ambos os sentidos.
Obrigado pela partilha.
João
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