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domingo, 23 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28284: Notas de leitura (1953): "Geração Afro: Os Últimos Guerrilheiros do Império" , de Caredo (volume I, 2026, 455 pp); análise feita pela Editora Clube de Autor


Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto e imagens: Angelino dos Santos Silva (2026)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.



1. Texto que nos foi enviado pelo nosso camarada Angelino Santos Silva (pseudónimo literário, Recaredo: ele é natural de Recarei, Paredes, distro do Porto; foi fur mil 'cmd', 26ª Cmds, CTIG, 1970/71)


Data - 29/7/2026, 18:44
Assunto - Análise crítcia

Boa tarde,  amigo e camarada Luís Graça.

Em anexo segue o parecer da Editora Clube do Autor.

Seleccionei alguma partes, mas claro, cada leitor fará a sua selecção de acordo com a sua sensibilidade. Esta, acho que vai de encontro à mensagem que pretendo passar nesta obra.

Um abraço.
Angelino





2. Análise crítica

“Geração Agro - Os Últimos Guerrilheiros do Império”
 (Volume I), da autoria dia Recaredo



(i) Estrutura e organização

A obra apresenta uma estrutura de romance histórico, organizada em 68 capítulos numerados, precedidos por uma introdução autoral, registos históricos e um posfácio dedicado aos pais do autor. 

A arquitectura narrativa é multiperspectiva, alternando entre dois núcleos principais de personagens: o par Martins da Costa / Morais Cardoso (chegados à Guiné em 1966) e o par António / Augusto (chegados em 1970), permitindo cobrir diferentes momentos da Guerra Colonial e diferentes especialidades militares (Cavalaria / Panhard e Comandos).

A organização temporal é maioritariamente linear, embora recorra frequentemente a analepses. sobretudo nas evocações da infância dos protagonistas e nos episódios da instrução em Lamego (Comandos) ou Estremoz (Cavalria) . 

O autor intercala capítulos em forma epistolar (as cartas de Martins da Costa à namorada) com diálogos extensos e passagens ensaísticas sobre a História de Portugal, criando um mosaico onde ficção, memória documental e reflexão política coabitam.

Contudo, a arquitectura ressente-se de alguma irregularidade rítmica: certos capítulos concentram acção militar intensa, enquanto outros se dilatam em digressões historiográficas (o Condado Portucalense, D. Dinis, a Encruzilhada) que, embora ricas, quebram o fluxo dramático. 

O anúncio de que a obra continuará num Livro II justifica alguns nós narrativos deixados em aberto, mas fragiliza a autonomia deste volume.


(ii) Temas e mensagens principais


O tema central é a Guerra Colonial Portuguesa na Guiné (1961-1974/75) e a homenagem ao milhão decombatentes da chamada "Geração Afro". 


Todavia, a obra transcende a mera crónica bélica para se constituir como uma *meditação sobre o fim de um império*  e sobre a complexidade étnica e política de um território onde "todos são família" — irmãos, meios-irmãos e primos combatendo em bandeiras opostas.

Emergem temas secundários de grande densidade
  • a pobreza estrutural do povo português apesar dos Descobrimentos;
  • a crítica ao Estado Novo e à PIDE/DGS; 
  • a admiração pela figura de Spínola e pela sua visão política; 
  • a solidão dos combatentes africanos ao lado da bandeira portuguesa;
  • o drama dos mutilados e "apanhados pelo clima"; 
  • a emigração clandestina; 
  • e a denúncia da desproporção entre o custo material da guerra e o valor da vida humana (o episódio da Panhard de 1500 contos) (mais de meio milhão de euros, a preços de hoje).

A mensagem última é de desencanto patriótico e reconciliação memorialista: os jovens que embarcaram convictos regressam céticos, mas o autor recusa o rancor, defendendo antes que "as páginas sobre a História da Guerra Colonial jamais se podem fechar enquanto houver um único combatente enterrado no meio de nada". 

É uma obra de testemunho e reparação simbólica.

(iii) Linguagem e estilo narrativo


O estilo é marcadamente oral e testemunhal, privilegiando o diálogo directo como motor narrativo.

Recaredo (assumidamente combatente na Guiné em 1970/71(  opta por uma linguagem pré-Acordo
Ortográfico de 1990, escolha que reforça a ancoragem temporal e a autenticidade documental. 

A prosa mistura registos: 
  • o coloquialismo cru dos soldados ("que se foda a guerra", "filhos da puta"); 
  • o lirismo pontual nas cartas de Martins da Costa; 
  • e a dicção ensaística nas digressões históricas.

Merece destaque a incorporação de :
  • crioulo da Guiné-Bissau;
  • expressões militares de época ("bazuca" para cerveja, "bajuda", "periquito", "velhinho", "peluda");
  • topónimos ancestrais;
  • e vocabulário etnográfico (embondeiro, bagabaga, bianda, mancarra, gindungo), que confere textura antropológica notável.
 As passagens epistolares tocam por vezes um registo poético comovente, sobretudo no poema "A Brisa da Incerteza" e na descrição da noite estrelada da selva.

Do lado menos conseguido, observa-se inconsistência revisora: gralhas ("conductor" por "condutor", "biber" por "viver" — este último talvez intencional para marcar o falar popular), oscilações de pontuação nos diálogos e alguma repetição de fórmulas ("cada um tem o seu pedaço"). 

O estilo é, no cômputo, funcional e emotivamente eficaz, mesmo quando tecnicamente rugoso.

(iv) Profundidade filosófica

A profundidade filosófica da obra manifesta-se 
em três eixos principais;
  • o primeiro é uma refiexão sobre a ética na guerra, articulada sobretudo pelo capitão Ombendi e pelo tenente Quínara: a rejeição do heroísmo gratuito, a distinção entre matar por necessidade e matar por vingança, e a substituição do binómio "certo/errado" pelo binómio "o que devemos ou não fazer"; esta é uma proposta ética situacionista de considerável maturidade;
  • o segundo eixo é uma filosofia da História desenvolvida através da figura do Dr. Fanon Mané, que percorre da Borgonha ao Condado Portucalense, de D. Dinis à "Encruzilhada" que separou governantes e governados; a tese — de que a pobreza estrutural portuguesa nasce da ausência de um projecto de instrução popular durante seiscentos anos — é discutível historiograficamente, mas oferece um enquadramento crítico substantivo;
  • o terceiro eixo é uma meditação sobre o acaso, a sorte e o destino, condensada no poema "Sorte" e no episódio autobiográfico do rebentamento da mina; o  autor recusa o determinismo fatalista, propondo uma visão em que a sorte "tem mãos" e a memória vence a morte. 
Há também uma reflexão poderosa sobre a impossibilidade histórica de ganhar a guerra, expressa na metáfora da selva como santuário renovável — uma ideia que dialoga com Camões e com os manuais de contra-insurgência.

(iv) Impacto emocional

O impacto emocional é intenso e cumulativo, construído menos pelo espectáculo bélico do que pela acumulação de pequenos gestos humanos. 

Cenas como:
  •  a do capelão Mário Gonçalves consolando Morais Cardoso pela morte do irmão sob um céu de estrelas em São Vicente;
  • a partilha do arroz manjaco na tabanca de Nassim Mané II;
  • ou o telegrama que devolve a paz a Martins da Costa a bordo do Alfredo da Silva, 
atingem uma comoção genuína.

Particularmente pungente é:
  •  a evocação das mães portuguesas ("ǫue Nossa Senhora da Boa Viagem vos~leve e traga vivos e sãos"):
  •  a figura do Toninho paraplégico da infância de Augusto;
  •  e a história do soldado emigrante repatriado que se lança ao mar antes de chegar a Bissau. 
O leitor sente o peso da injustiça social sobreposta à injustiça da guerra.

O epílogo autobiográfico, dedicado aos pais do autor, com o relato do rebentamento da mina e do zumbido que perdura há 55 anos, transforma toda a leitura anterior numa experiência de testemunho vivo. 

Esse gesto final — "até que eu adormeça para sempre" — é de rara comoção. A obra provoca no leitor um misto de indignação política, ternura pelos combatentes e melancolia histórica que perdura muito para além da última página.

(v) Originalidade e inovação

A grande originalidade de "Geração Afro" reside na valorização das personagens africanas que

combateram sob bandeira portuguesa — Mamadu Fodé, Domingos Djaló, Abna Besna, o capitão Ombendi Sábado, os tenentes João Quínara e Carlos Nhalon, e o fascinante Dr. Fanon Mané. 

Em vez de os tratar como figurantes, o autor confere-lhes densidade psicológica, projecto político próprio e uma voz articulada que problematiza a dicotomia tradicional colonizador/colonizado. Esta é uma contribuição inovadora dentro da literatura portuguesa sobre a Guerra Colonial.

Igualmente inovadora é a denúncia de uma "outra guerra" paralela — aquela que opunha Spínola, a PIDE e a cúpula do PAIGC em interesses divergentes — sugerindo que o "Massacre do Chão Manjaco" (a morte dos negociadores) foi um acto interno de sabotagem das negociações, tese heterodoxa que a obra sustenta pela boca das personagens africanas.

A mistura de géneros — romance polifónico, epistolário, memória autobiográfica, ensaio historiográfico, poesia — é ambiciosa. O uso do restaurante fadista de Theodoro Afonso Isaque, cantor negro rejeitado em Lisboa que canta fado em crioulo, é uma invenção poética memorável.

Menos original é a estrutura narrativa em pares de camaradas, tributária de uma tradição já estabelecida na literatura sobre a Guerra Colonial (Lobo Antunes, João de Melo, Álamo Oliveira).

(vi) Público-alvo ideal

O público-alvo natural da obra é constituído pelos antigos combatentes da Guerra Colonial e seus familiares — os cerca de 400 mil ex-combatentes ainda vivos e as suas famílias, para quem o livro funciona como espelho memorialista e reparação simbólica. 

Estes leitores encontrarão eco em cada topónimo, cada ração de combate, cada canção de Coimbra cantada no bar do quartel.

Um segundo público relevante são os estudiosos e interessados na História Contemporânea de Portugal, particularmente na fase final do Estado Novo, na descolonização e nas relações luso-africanas.

Historiadores amadores, jornalistas, professores de História e investigadores universitários encontrarão material documental valioso, sobretudo pela perspectiva pouco frequente dos combatentes africanos que lutaram do lado português.

Um terceiro público são os leitores lusófonos da Guiné-Bissau, Cabo Verde e diáspora africana, para uem a valorização das etnias manjaca, papel, balanta e mandinga, e o retrato de Bissau, Bula, Teixeira Pinto e Mansoa constituem património afectivo partilhado.

Recomenda-se para leitores maduros (a partir dos 40 anos, idealmente), pela densidade histórica e pela linguagem por vezes crua. Não é uma obra vocacionada para jovens leitores nem para quem procure ficção de entretenimento rápido: exige paciência, contexto histórico mínimo e disponibilidade emocional.

(vii)  Livros irmãos


Dentro do próprio catálogo do autor, o livro dialoga directamente com "Geração de 70 – Época das Chuvas"  (imnagem da capa, à direita) e "O Subinspector", ambos romances de Recaredo sobre a Guerra Colonial, formando com "Geração Afro" uma trilogia informal de testemunho.

Na literatura portuguesa sobre a Guerra Colonial, "Geração Afro" inscreve-se numa tradição rica que inclui: 
  • António Lobo Antunes ("Os Cus de Judas", "Fado Alexandrino") — com o qual partilha o desencanto patriótico, ainda que Recaredo opte por uma prosa muito menos experimental; 
  • João de Melo ("Autópsia de um Mar de Ruínas") — com quem comunga a dimensão coral; 
  • Álamo Oliveira ("Já não gosto de chocolates");
  •  Manuel Alegre ("Jornada de África"); 
  • e Lídia Jorge ("A Costa dos Murmúrios") — embora esta última numa chave feminina e moçambicana.

Pela valorização das personagens africanas e pela reflexão sobre a complexidade étnica da Guiné, o livro aproxima-se também de obras dos escritores guineenses Abdulai Silá ("Eterna Paixão") e Filinto de Barros ("Kikia Matcho"), bem como do angolano Pepetela ("Mayombe"), com o qual partilha a atenção à guerrilha no interior da selva.

Do ponto de vista memorialístico, remete para "Guiné 1963/1974" do general Spínola e para os testemunhos reunidos em "A Guerra" de Manuel Amaro Bernardo.

(viii) Faixa de preço

Trata-se de um romance histórico de nicho, com forte apelo ao mercado lusófono ex-combatente e à diáspora, mas com alcance internacional limitado pela especificidade temática e pela ausência (por enquanto) de tradução. 

O volume é substancial (Livro I de uma série), o que justifica um preço médio-alto no mercado português e brasileiro, e um preço mais elevado nos mercados europeus não-lusófonos, onde funcionará sobretudo como importação especializada.

Faixa de Preço Recomendada
  • Estados Unidos USD 22 - 32
  • Reino Unido GBP 18 - 26
  • lemanha EUR 20 - 28
  • Itália EUR 19 - 27
  • Espanha EUR 18 - 25
  • Portugal EUR 18 - 24
  • França EUR 20 - 28
  • Brasil BRL 65 - 95
  • Austrália AUD 32 - 45

(ix) Recomendações de divulgação

A estratégia de divulgação deve articular-se em torno de três eixos principais:

Em primeiro lugar, uma campanha dirigida às associações de ex-combatentes (Liga dos Combatentes, ADFA - Associação dos Deficientes das Forças Armadas, APVG - Associação Portuguesa dos Veteranos de Guerra), com sessões de apresentação em núcleos locais, feiras de veteranos e comemorações do 25 de Abril e do Dia do Combatente (9 de Abril); estas sessões devem incluir leituras dramatizadas de excertos e testemunhos vivos.

Em segundo lugar, uma abordagem académica e mediática: envio de exemplares a centros de investigação em História Contemporânea (IHC-UNL, CEIS20-Coimbra, CH-ULisboa), programas culturais da RTP2, Antena 2 e revistas especializadas ("História", "National Geographic Portugal"); a entrevista imaginada com João Paulo Diniz no PIFAS (referida na própria obra) sugere um filão de comunicação retro-radiofónica interessante.

Em terceiro lugar, uma projecção lusófona sistemática: contactos com livrarias e feiras do livro em Bissau, Praia, Luanda, Maputo, Rio de Janeiro e São Paulo, além das comunidades emigrantes em Paris, Toronto, Newark e Joanesburgo; as redes sociais dedicadas à Guerra Colonial no Facebook (grupos como "Combatentes da Guiné") são vias de divulgação de custo reduzido e alto impacto.

Sugere-se ainda a produção de um documentário complementar com o autor a percorrer os locais reais do romance, o que multiplicaria o interesse comercial e memorialístico.

(Revisão / fixação de texto, negritos: LG)
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 22 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28280: Notas de leitura (1952): "Geração Afro: Os Últimos Guerrilheiros do Império" (volume I, 2026, 455 pp sinopse feita pelo autor, Recaredo (pseudónimo literário de Angelino Santos Silva, ex-fur mil 'cmd', 26ª Cmds, CTIG, 1970/71)

Guiné 61/74 - P28283: Parabéns a você (2518): Fernando Cepa, ex-Fur Mil Art da CART 1689 / BART 1913 (Catió, Cabedú, Gandembel e Canquelifá, 1967/69)

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Nota do editor

Último post da série de 22 de Agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28279: Parabéns a você (2517): José Luís Vacas de Carvalho, ex-Alf Mil Cav, CMDT do Pel Rec Daimler 2206 (Bambadinca, 1969/71)