Toronto Welcome!
Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: João Bonifácio (2026)
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.
1. João Bonifácio foi furriel miliciano SAM (Serviço de Administração Militar), exercendo a difícil, ingrata mas impreescindível função de vagomestre, na CCAÇ 2402 (Có, Mansabá e Olossato, Guiné, 1968/70).
37 meses ao serviço do exército português (dos quais 21 no CTIG). Como muitos de nós.
É beirão, nascido em Castelo Branco. Quando passou à "peluda", foi viver com a esposa e o filho para Lisboa. Descontente com o rumo das coisas em Portugal (e mesmo sabendo ou suspeitando que iria em breve acontecer um golpe de estado, afinal o 25 de Abril de 1974), decidiu ir viver e trabalhar para o Canadá, onde tinha amigos. Quatro anos depois de ter passado à disponibilidade.
Já aqui contou, em breves mas sentidas palavras, o que foi a sua história de vida de emigrante, de 1974 até hoje (*)...
Achámos que isto merecia uma bonita e simpática BD em homenagem a este camarada da Tabanca da Diáspora Lusófona, membro da Tabanca Grande desde 1/12/2006, mas com escassas referências no blogue (cerca de 2 dezenas)...
A única foto que temos dele do tempo da Guiné (a fazer o "papel de repórter" na festa de Natal de 1968, em Có) é de muito má qualidade (cópia de uma fotocópia).
A única foto que temos dele do tempo da Guiné (a fazer o "papel de repórter" na festa de Natal de 1968, em Có) é de muito má qualidade (cópia de uma fotocópia).
Tem, todavia, uma grande força documental. Está ali o Bonifácio, o vagomestre dos "Linces de Có", a CCAÇ 2402, na"festa de Natal de 1968", a fazer de “repórter”, microfone em punho, e gravador ao ombro, talvez já com essa tendência para comunicar e participar que atravessou toda a sua vida (irá, de resto, trabalhar na rádio, em Toronto, e fundar, com mais alguns compatriotas, o Clube Português de Oshawa, Ontário, Canadá).
É, pois, uma fotografia com memória. E, para nós, aqui, vale muito. (Embira tenhamos pena de náo ter uam foto atual do nosso camarada.)
O texto do João Bonifácio, já aqui publicado (*) tem uma coisa que merece destaque: ele se não se arma em herói (nem em vítima), não se põe em bicos de pés perante a sua própria história. Conta-a com simplicidade, e sem rodeios.
O texto do João Bonifácio, já aqui publicado (*) tem uma coisa que merece destaque: ele se não se arma em herói (nem em vítima), não se põe em bicos de pés perante a sua própria história. Conta-a com simplicidade, e sem rodeios.
É, de resto, uma excelente história de vida, não muito diferente, por certo, da de muitos de nós, antigos combatentes, que decidiram não ficar em Portugal e tentar a sua sorte, noutras paragens, além Atlântico (EUA, Canadá, Brasil, Venezuela...) como sobretudo na Europa (França, Alemanha, Luxemburgo, Suiça...) mas também em África (Angola, Moçambique, África do Sul...). Infelizmente, não temos dados estatísticos sobre os antigos combatentes que, depois da "peluda", emigraram, quer os do Continente quer os da Madeira e Açores.
As circunstâncias em que o João G. Bonifácio sai de Portugal, em 15 de fevereiro de 1974 (4 anos depois de trer passado à disponibilidade, e a pouco mais de 2 meses do 25 de Abril) não deixam de ser "intrigantes": ele sabe ou suspeita (por via das suas ligações aos meios da "oposição democrática"; antes da tropa tinha trabalhado no escritório do advogado dr. Arlindo Vicente) que o país vai mudar, que o regime político vigente vai cair, e que a guerra em África vai ter que encontrar uma solução...
É uma dessas ironias da História que parecem escritas por um romancista: esteve quase a esperar pelo acontecimento, mas tomou a decisão de partir antes de ele chegar. O João não fica, pela simples razão de que já não acredita no futuro que o país lhe oferece, a ele e aos seus filhos.
Em contrapartida, no novo país que o acolhe, ele não vai ter uma história de vida linear, nem de sucesso imediato. Chegou ainda antes de perfazer os trinta anos de idade, no dia 16 de fevereiro de 1974, data do seu 29º. aniversário... Teve como prenda um grande nevão em Toronto.
Por outro lado, o Canadá estava a passar também pela grave crise económica de finais de 1973/ princípios de 1974 (Guerra do Yom Kippur, de 6 a 26 de outubro de 1973, embargo petrolífero da OPEP, primeiro grande choque petrolífero, subida de 400% do preço do barril de petróleo, de 3 para 12 dólares, em poucos meses, crise das economias capitalistas, etc.).
São três décadas de trabalho duro e de lenta mas bem conseguida adaptação a um novo país, completamente diferente da sua terra natal: fábrica de sofás, hospital de Oshawa, aprendizagem do inglês, Chrysler, biscates em pequenas empresas, agência de viagens, rádio portuguesa em Toronto, General Motors Canada, trinta anos de serviço, reforma, regresso a Portugal em 2011, tremenda desilusão e nova partida para o Canadá. (Não sabemos qual foi a rádio e TV portuguesa a que o João se refere: há varias, CHIN Radio TV, a Camões Rafio TV, etc.)
Ou seja: é toda uma vida construída aos poucos, a pulso, com trabalho, adaptação, inteligência, capacidade de aprender, resiliência... Mas também com vontade de ser ajudar os outros.
E deixa um recado a eventuais candidatos à emigração para o Canadá; "Com o tempo tudo fica bem. O Canadá não é Portugal". pou seja, o Canadá é um país fiável, e bom para se vivver (tirando o maldito frio...).
E deixa um recado a eventuais candidatos à emigração para o Canadá; "Com o tempo tudo fica bem. O Canadá não é Portugal". pou seja, o Canadá é um país fiável, e bom para se vivver (tirando o maldito frio...).
É uma frase muito mais sábia do que parece. Não diz “o Canadá é melhor”. Diz simplesmente: "o Canadá é diferente, eu já não me adaptaria a Portugal". Mas uma pátria nova não substitui a antiga; aprende-se a viver entre dois mundos. E, para mais, com o nosso blogue a fazer a ponte, nestes últimos vinte anos.
E depois há o Clube Português de Oshawa/Oshawa Portuguese Club, fundado em 1978. Isso acrescenta uma dimensão bonita à história: João não se limitou a emigrar. Levou consigo uma comunidade e ajudou a construí-la.
E depois há o Clube Português de Oshawa/Oshawa Portuguese Club, fundado em 1978. Isso acrescenta uma dimensão bonita à história: João não se limitou a emigrar. Levou consigo uma comunidade e ajudou a construí-la.
Hoje, quando fala português, inglês e francês e ajuda outros emigrantes a tratar de assuntos legais (impostos, desemprego, emigração, saúde, segurança social, etc.), vê-se que gosta de ajudar. Percebe-se, enfim, que aquela integração não significou apagar as raízes.
Voltando à fotografia do Natal de Có de 1968: é a fotografia de um camarada nosso antes de saber (ou sequer de imaginar) que, cinco anos depois, estaria a embarcar para o Canadá.
E isso dá-lhe uma força narrativa enorme. Daí o título que escolhemos para esta BD: “De Có para Oshawa: a longa viagem de João Bonifácio”, Mas também poderia ser outra, talvez até mais alinhada com o espírito do nosso blogue: “Quando a Pátria não foi Mátria, foi Madrasta: a história canadiana de João Bonifácio”.
Aliás, há uma continuidade com o meu comentário de 2006, de boas vindas. Na altura escrevi: “Eu sei que a Pátria não foi Mátria para ti, foi madrasta.” (***).
Claro que houve mágoa, e raiva. Hoje, vinte anos depois, é o próprio João que nos conta o que fez com essa mágoa e essa raiva. Não ficou parado, no meio da picada da vida a lamber as feridas. Construiu uma vida e uma família. Ficamos orgulhosos dele.
Essa é provavelmente a melhor homenagem que podemos fazer-lhe, aos 81 anos: não, não foi mais um antigo combatante da guerra do ultramar / guerra colonial que "virou costas" à sua Pátria ou que "cuspiu na sopa"... Pelo contrário, foi um homem que, depois de 37 meses no exército (e 21 meses e 4 dias na Guiné), teve a coragem de procurar noutro lugar do planeta a vida que entendia merecer, para ele e a família, sem nunca deixar de ser português e de falar português.
Essa é provavelmente a melhor homenagem que podemos fazer-lhe, aos 81 anos: não, não foi mais um antigo combatante da guerra do ultramar / guerra colonial que "virou costas" à sua Pátria ou que "cuspiu na sopa"... Pelo contrário, foi um homem que, depois de 37 meses no exército (e 21 meses e 4 dias na Guiné), teve a coragem de procurar noutro lugar do planeta a vida que entendia merecer, para ele e a família, sem nunca deixar de ser português e de falar português.
João, rápidas melhoras e volta sempre!... Serás bem vindo, à tua Pátria portuguesa (agora tens duas, a nossa e a canadiana, aproveita o melhor de cada uma delas).
E toma boa nota: a Pátria Portuguesa não é o 1º sargento ou o tenente SGE da secretaria do RI 1 da Amadora, a tua unidade mobilizadora, que te exigiu 1500 escudos em estampilhas fiscais, o custo exorbitante da taxa da licença militar que pediste para obter o "passaporte da liberdade" (1500 escudos em 1974 seriam equivalentes a 300 euros, a preços atuais).
Um alfabravo caloroso do Luís Graça.
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Notas do editor LG:
(*) Vd. postes de:
26 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28296: Tabanca da Diáspora Lusófona (44): A minha ida para o Canadá, em fevereiro de 1974 (João Bonifácio, ex-fur mil SAM, CCAÇ 2402, Có, Mansabá e Olossato, 1968/70)






















8 comentários:
Portugal não cuida da sua imagem no exterior...E daí alguma (às vezes muita) amargura nos nossos círculos de emigração... Sempre foi assim, mas não tem que ser assim...
A comunidade de portugueses e de lusocanadianos é estimada em meio milhão. A emigração portuguesa oficial para o Canadá teve início em 1953, na sequência do estabelecimento de relações diplomáticas formais entre os dois países, em 1952. Na área metropolitana deToronto, capital de Ontario (uma das dez províncias, situada no centro-leste), vive a maior comunidade lusófona.
Há cerca de 171 mil residentes na Área Metropolitana de Toronto,m de ascendência portuguesa.Total em Ontário: c. 289 mil pessoas. Origem principal: cerca de 60% dos açorianos e 10% dos madeirenses compõem esta comunidade, concentrada em bairros como o Little Portugal e Davenport.
Segundoo Censo de 2021, 3.085 pessoas se identificaram formalmente com origem étnica portuguesa na cidade de Oshawa. Entre eles está o nosso João G. Bonifácio. Longa vida para ele. LG
Luís,
Um pormenor que nada tem a ver com a história do João Bonifácio:
- Quem tenha feito a sua vida profissional na TAP fica "eriçado" ao ver o logotipo da TAP, na 10ª. gravura, pintado a azul, no avião.
É que o logotipo TAP foi evoluindo ao longo do tempo (sujeito, como é óbvio, a registo comercial feito pelos serviços jurídicos) e, ao tempo da viagem do João Bonifácio, as letras não eram em azul (nem nunca foram), mas sim todas em vermelho (igual ao da Bandeira Nacional).
Depois disso e com a chegada dos brasileiros, eles decidiram alterá-lo, tentando "abrasileirá-lo", passando o T e o A para verde claro/verde-alface (que, talvez pretendessem ser a "primeira fase" para, mais tarde, passarem para o "verdje-amarelo"...).
Obrigado, Alberto. Percebo que tenhas ficado "piurso" ao ver o logotipo da TAP, na vinheta nº 10 (a contar de cima). Fiz sempre (ou quase sempre) as minhas viagens profissionais pela TAP, empresa que sempre acarinhei. Fiz um trabalho de investigação empírica, no último ano do meu curso de sociologia, em 1979, no então departameneto de manutenção da TAP que era na época uma empresa dentro da empresa (com 2 mil tralhadores, se bem recordo, dos melhores técnicos de manutenção aeronáutica que havia na época).
Mas nem eu, autor do guião desta BD, nem a menina da IA do ChatGPB e muito menos o seu "ilustrador", sabíamos dessas subtilezas da evolução do logotipo da TAP. Sim, o "lettering" devia ser a vermelho, e não a azul...Posso tentar alterar, manualmente. Mais logo...
Estas "brincadeiras" consomem muito tempo, muitas horas que fazem falta para a edição de outros postes... Fiz esta BD porque achei que o nosso "vagomestre" (temos poucos na Tabanca Grande...), João Bonifácio, merecia.
Obrigado por estares atento. Luís
Luís
Não te preocupes com este desabafo "doméstico".
Grande parte do meu trabalho na TAP (pelo menos nos primeiros tempos) foi a dar apoio jurídico à contratação internacional da DGME (lembras-te da sigla), embora não só a ela.
Tenho ainda uma boa relação/contacto com muitos dos engenheiros da DGME, com quem saí muitas vezes para o estrangeiro durante as negociações. Se pretenderes saber de algum deles, diz, que lhes falarei de ti.
Bolas, era isso mesmo DGME...Já foi há tanto, tanto tempo...Fiquei depois com muitos contactos com o serviço de saúde ocupacional.Alguns médicos foram meus alunos. E conheci bem alguns diretores do serviço, Sá Leal, Sousa Uva...Foi em tempos um serviço de referência, a par do da medicina aeronáutica...
Um pouco tosco, mas já lá está o logotótipo da TAP de 1974...
O T do logotipo até está com a "perninha" inclinada para a esquerda e a "perninha" do P inclinada para a direita ! (É assim: Se não "reclamamos"...).
O Sá Leal saiu pouco tempo depois. O C.A. não o acompanhou no (grande) projecto que tinha em mente e que ultrapassava a própria empresa... Chegou a ir falar comigo, mas tinha mais que me ocupasse a cabeça. Aliás foi com ele que tivemos que transformar aquilo que eram os Serviços Médicos da TAP numa empresa com capital 100% TAP (a UCS que referiste), mas que prestava, também, serviços ao exterior. Como aconteceu com outros serviços.
Muita gente na DGME também o desejava, mas não conseguiram (embora prestassem (prestem) serviços a muitas outras companhias de aviação; o contrato mais importante (no meu tempo) foi com uma companhia americana, que envolveu dezenas de aviões para alterações estruturais e que implicou duas estadias demoradas para negociações em Memphis -Tenessee (além de outras em Lisboa).
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