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quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28301: Verso & reverso (3): quando era o pai que decidia o futuro dos filhos (e filhas): "tu vais para a Academia Militar, tu vais para o Seminário "... (Virgínio Briote)















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Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: Virgínio  (2026)
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.



Virgínio Briote: (i) nascido em Cascais: (ii) frequentou a Academia Militar, em 1962, que abandonou em seguida; (iii) foi Alf Mil em Cuntima, CCAV 489 / BCAV 490 (Jan-mai1965); (iv) 8ez o 2º curso de Comandos do CTIG; (v) comandou o Grupo Diabólicos (Set 1965 / set 1966); (vi) regressou em Jan 1967; (viii) casado com a Maria Irene, orfessora de liceu reformada;  (ix) foi quadro superior de uma empresa da indústria farmacêutica.



1. Comentário do Virgínio Briote, nosso coeditor jubilado, ao poste P28263 (*):


A propósito deste excelente texto saltou-me rapidamente à memória um caso que vi e vivi de perto, talvez demais. 

Anos 60. Um pai funcionário público, dois filhos com diferença de meia dúzia de anos. Pai extremoso, severo, homem honrado, justo, fiel adepto de Salazar e do Cardeal [Cerejeira, patriarca de Lisboa].

Segundo o seu desejo, expresso aos amigos e colegas, "um dos meus filhos vai para militar e o outro para padre" . 

Os filhos foram ouvindo esta ordem do pai enquanto estudavam, um num Liceu numa cidade do Norte e o outro na Escola Primária. 

Quando o mais velho concluíu o 5º ano,  foi para Ciências,  contrariado. 

− Como vais para Ciências se foste sempre um aluno de 10 / 11 e bom aluno, apesar de seres pouco aplicado, na área de Letras? 

− Eu gostava de ir  para Letras mas o meu pai matriculou-me em Ciências.

O mais velho lá foi tropeçando na Física, na Matemática, na Biologia, na Mineralogia... até que acabou o Liceu em 1962.

Papelada, concurso para a Academia Militar, Lisboa, e em meados do verão guia de marcha para a Gomes Freire. 

−  Para onde, Pai? 

−  Para a Academia Militar, para seres oficial do Exército. 

Sem mais história, concorreu e em outubro de 62 deu entrada na Academia Militar, Amadora. 

Na 1ª semana, na 1ª aula de equitação,  ministrada pelo capitão Marques Pereira, escolheu o cavalo mais alto, preto, irrequieto com o chicote no ar. E tentou montar. Tentou, porque,  quando tomou balanço, o cavalo levantou a garupa e atirou-o ao chão. Quando se ia a levantar,  apoiado pelos gritos do instrutor, levou um coice na zona do estômago. 

Saltando estes momentos, quase desmaiado,  viu-se em cima do cavalo, mãos bem amarradas às argolas. Chicote no ar, cavalos em disparada, uns por um lado,  outros em sentido contrário... E minutos depois estava na camarata, nos urinóis  a fazer chi-chi com sangue. Enfermaria, ambulância, Hospital da Estrela, três dias depois outra vez na Amadora. 

O interesse foi-se esvanecento, não era o que desejava, os meses e as aulas iam correndo, divertia-se na Educação Física, atletismo, corridas de obstáculos, manobras nos arredores da Amadora, na Carregueira, Sta Margarida...

A Deontologia Militar, as Físicas,as Matemáticas e outras teóricas passava-as a dormir. Em junho de 64, foi enviado para Mafra e um mês depois era aspirante miliciano. 

Alguns dias de férias, o pai,  de má cara,  não lhe falava e em setembro foi para os Açores. 

Quando saíu do BII , não sei se o 17 [Angra do Heroísmo],  se o 18 [Angra do Heroísmo], foi passar o Natal a casa com os pais, o irmão deve ter consoado no Seminário, certamente. 

Meados de janeiro estava a pôr os pés em Bissau e dias depois estava no mato, seguramente. Já no meio da comissão,  o pai escreveu-lhe dizendo que o irmão tinha fugido do Seminário!

Para finalizar esta história que fui seguindo de perto, ao regressar a Lisboa,  depois de uma comissão consecutiva de 24 meses,  os pais e o irmão esperaram-no no cais. E, para acabar a viagem, seguiram para o Norte, talvez com uma paragem nos Pedro dos Leitões  [na Mealhada], não sei.

A vida continuou. O mais velho empregou-se, o mais novo foi para Coimbra para Direito até ser chamado para Mafra, com o curso talvez a meio, não sei. 

O jovem foi mobilizado para Moçambique, veio de férias, lembro-me, ainda foi padrinho de uma sobrinha recém-nascida e regressou ao Chai, Macomia, julgo eu.

Alguns dias depois, o pai recebeu ao jantar um telegrama de uma entidade do Exército a informar que o seu filho havia sido gravemente ferido. (**)

(Seleção, revisão / fixação de texto, parênteses retos, links, título: LG)


2. Comentário do editor LG:

Agradeço ao Vb a oportuna partilha destas suas memórias já com sessenta e muitos anos... É um verdadeiro "conto mural ao fundo".., passado no fim do salazarismo, em que o paradigma de autoridade  dominante ainda era o da "santíssima trindade"...Deus, Pátria e Família,

Mas neste caso a realidade e a ficção fundem-se. Impossível saber onde acaba uma e começa outra...

Não tenho dúvidas que este caso, que "ele viu e viveu de perto, talvez até demais" (sic), é verídico. 

E, na época, não terá sido único.  Pessoalmente conheço mais casos, e até alguns mais recentes,  em que os pais, invocando a sua autoridade e experiência de vida, traça(va)m o caminho dos filhos (e das filhas)... O caminho que julga(va)m ser  "melhor" para eles  e elas (e para a família)... 

Estamos numa época em que os pais, "amando profundamente os seus filhos" (está fora de questão pôr isso em dúvida!), os infantilizavam e tomavam decisões (neste caso, "quase de vida ou de morte"!) por eles... 

Mas não era só a nível das opções escolares e das carreiras profissionais ("vais para o colégio de freiras, vais para o Magistério Primário, vais para o seminário, vais para a Academia Militar"...), era também até noutras matérias ainda mais sensíveis e delicadas, com o namoro, as amizades,  o casamento... 

Estamos a falar de pais de certos estratos sociais, correspondentes às classes alta, média-alta média, excluindo portanto as classes populares (média-baixa, baixa). Nestas, a que pertencia maior parte de nós, começava-se mais cedo (na família, na escola, na rua, no trabalho, na "moina", nas "tainadas", nos "bailaricos", na  noite, na tropa...) a experimentar e a conhecer os desafios, os riscos e os limites da aventura da liberdade. 

O Vb aparece aqui como um mero  narrador... E inclusive não chegou, por lapso, a assinar o comentário. Depois corrigiu, sob chamada de atenção minha.  Vi, logo desde o princípio, que o texto era dele, pelo seu inconfundível estilo narrativo que já conheço  de há 20 anos, no blogue..

 Ao relê-lo, e agora ao fazer o guião para esta BD, fiquei com a "suspeita" de que poderia ser um texto autobiográfico (ou com traços autobiográficos)... Há pormenores coincidentes... O capitão Marques Pereira, por exemplo, era na época o instrutor de equitação da Academia Militar. A cidade do do Norte será Braga (onde o Vb fez o examde admissão ao liceu). 

Em suma, o "irmão mais velho" que vai, contrariado, para a Academia Militar, terá semelhanças com a história militar  do nosso querido Vb, que em 1962 também entrou para a Academia Militar... 

Mas o texto não me autoriza a que tire esta conclusão.   E eu, portanto,  não tenho  mais  o direito de estar aqui a especular... O Vb, se assim o entender, poderá dar mais informação circunstanciada sobre este caso que o tocou tanto ao ponto de acompanhar, tão intimamente,  o percurso destas duas vidas... trocadas.

Se não é, em todo o caso, bem poderia ser a história dele e do seu irmão mais novo... (que julgo que ele tem). Ou, como diz o provérbio italiano, "se non è vero, è ben trovato" (se não é verdade, é bem achado).

2 comentários:

José Botelho Colaço disse...

Gato escondido com rabo de fora.

Anónimo disse...

Desde 72 (?), o irmão mais novo ficou paraplégico, faltou acrescentar. A família e aquela casa nunca mais foi a mesma. V. Briote