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quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28296: Tabanca da Diáspora Lusófona (44): A minha ida para o Canadá, em fevereiro de 1974 (João Bonifácio, ex-fur mil SAM, CCAÇ 2402, Có, Mansabá e Olossato, 1968/70)









Capa da brochura "Memórias da CCAÇ 2402 (Guiné 1968/1970), Volume II", mimeog", 2008, páginas inumeradas,il. (Coordenação: Raul Albino, 1944-2020).


Ele foi um dos colaboradores deste II Volume, juntmente com o ex-cap inf Vargas Cardoso, também já falecido em 2023,  e de outros camaradas como o Carlos Sacramemto, Carlos Santiago, Carlos Costa, Joaquim Ramalho, Maurício Esparteiro, António Maria Veríssimo, António Fangueiro da Silva, e o próprio Raul Albino. O João Bonifácio é membro da nossa Tabanca Grande desde 1 de dezembro de 2006.

Em homenagem ao Raul Albino, ex-alf mil da CCAL 2402, que nos deixou em plena pandemia  (, aliás foi o próprio João Bonifácio que nos deu a triste notícia),  reproduzimos no poste P21652 dois aponatmentos sobre o Natal de 1968 e de 1969, da autoria do João, incluidos naquela brochura.

As fotos de cima (e as legendas) são do João G. Bonifácio, ex-fur mil SAM, da CCAÇ 2402 (Có, Mansabá e Olossato, 1968/70), a viver no Canadá (Oshawa, Ontario).

Fotos (e legendas): © João Bonifácio (2008. Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]






A história da minha ida para o Canadá, em 1974

por João Bonifácio

Vamos ver como vou ser justo, porque tanto o Luís como o João Crisóstomo querem saber como é que eu vim parar ao Canadá. 

As histórias são quase todas semelhantes. Nem tudo correu bem, e eu nem queria acredita ter servido o exército por 37 meses ( 21 meses e quatro dias npo CTIG). Na verdade eu até nem precisava de emigrar, estando bem empregado. 

Creio que o descontentamento de tudo o que se estava a desenrolar em Portugal, fez com que eu assim decidisse ir para o Canadá. Sair de Portugal foi na verdade o mesmo que deixar tudo e todos a chorar de saudade, mesmo antes de embarcar. Em 15 de fevereiro viajei na TAP para Toronto.

A Montreal chegamos atrasados e por isso estivemos à espera de um avião da Air Canada. À chegada a Toronto, e já numa hora tardia, tínhamos à espera uma tempestadade de neve, frio e uns amigos que nos foram esperar ao aeroporto. 

No dia 16 de fevereiro eu fazia anos. Quando acordei e espreitei pela janela, tudo era um manto branco de neve e as ruas completamente vazias. Também aqui não foi fácil, pois entrámos no Canada no meio de uma depressão económica. Fui ultrapassando estas pequenas/grandes tormentas e fui trabalhar para uma fábrica de sofás, onde não estive muito tempo..

Mudei para o Hospital de Oshawa onde estive 26 meses. Aqui melhorei o inglês e até me ajudou a adaptar ao convívio com pessoas de várias etnias.

No hospital aprendi muito. Do hospital mudei para a Chrysler, na indústria automóvel, onde tínhamos um vencimento bastante bom e com todos os benefícios inerentes, negociados pelo sindicato. Com trabalho extra até arrecadava um cheque semanal muito positivo. 

A minha vida mudava todos os dias. Durante este período fiz escritas de pequenas empresas, trabalhei em duas agências de viagens e um dia até fiz radio em Toronto, a 50 kms da minha morada. A rádio foi a cereja no topo do bolo. Fiz anúncios, notícias e conheci artistas de Portugal e do Brasil.

A idade não perdoa e a certa altura eu comecei a fazer menos. Mudei para a GM Canada onde desempenhei varias tarefas desde a montagem, à inspeção e preparação de documentos para exportação. Cheguei ao fim com 30 anos de serviço e fiz a maior asneira possivel. Vendi tudo e fui embora para a terra do sol.

Portugal já não era o mesmo, e ao fim de um ano e pouco embrulhei tudo e regressei ao Canadã. Todos os meus planos e desejos cairam por terra. Isto aconteceu em marco de 2011 e agora tudo mudou. 

Consegui uma reforma muito confortável e com um pacote de benefícios invejável. Praticamente nada pago na saúde. Contudo o custo de vidaé levado, mas vamos gerindo tudo com calma. É uma vida diferente, e notamos que não ha imigração como na Europa. 

Agora temos os filhos de portugueses que cresceram e constituíram familia.  Tive a honra de formar o Clube Portugues de Oshawa em fevereiro de 1978, com a ajuda de uns amigos, é lá que ainda passamos horas de convívio,

Hoje posso dizer que estou integrado e,  como estudei em Beja, estou bem com o inglês e o francês, para além do meu português que me tem ajudado a fazer traduções e que me faz muito orgulhoso. 

Como gosto de ajudar, estou bem em lidar com o departamento de desemprego, de impostos e finançaas, serviços de saúde e sociais, onde a ajuda aos menos afortunados é muito apreciada. 

Esta é a história da minha vinda para o Canadá. Para os que ainda sonham emigrar, apenas sugiro que deixem o tempo ajudar a adaptação. Com o tempo tudo fica bem. O Canada não é Portugal. Cada um com as sus próprias valências e motivações de futuro risonho. 

Portugal é apenas o resultado da falta de cuidado. Incêndios, desmoronamentos, acidentes e crime sem razãoo, e muitas dificuldades de todo o género. Estou à espera de melhorar um pouco para poder ir até Lisboa. 

Obrigado a todos os que lerem este testamento e também que respondam ao que não gostarem. Ao Luís e João por favor bebam um cafe a meio deste desabafo. Fiquem bem e até breve.

João Bonifácio
ex-fur mil do SAM
CC2402 / BCAÇ 2851
(Có, Mansabá, Olossato, 1968/70)

Oshawa, Ontario, Canada (***)

(Fica a c. 60 km, a nordeste de Toronto, capital da província de Ontario)
___________________

Notas do editor LG:

(*) Vd- pposte de 26 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28295: Tabanca da Diáspora Lusófona (43): From John (Crisostomo), USA, to John (Bonifacio), Canada


(***) Vd. poste de 1 de dezembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1331: Blogoterapia (9): Quando a Pátria não é Mátria para ti (João Bonifácio, Canadá, ex-fur mil vagomestre, CCAÇ 2402 / BCAÇ 2851, Có, Mansabá e Olossato, 1968/70)

(...) O ex-alf mil Raul Albino fez o favor de me enviar este site, e eu, quando posso, procuro rever toda a Guiné, através das exposições de todos os nossos ex- camaradas, a todos os níveis.

Depois de finda a minha comissão, como Furriel Miliciano do SAM (vulgo,vagomestre), e após um pequeno período de descanso e adaptação, regressei a Lisboa com a minha esposa e filho, onde reatámos as nossas vidas.

Não foi longa a minha estadia em Portugal, uma vez que a desilusão que sofri ao regressar... Assim, ao ver que o futuro seria complicado para os filhos, decidi pedir autorização para sair de Portugal, com destino ao Canadá.

Se na altura eu me sentia ofendido com o meu próprio país, bem pode imaginar quando na Amadora me pediram 1500 escudos em selos, para selar a minha desvinculação a Portugal. 

Saí de Portugal a 15 de fevereiro de 1974, mas já sabia que alguma coisa se iria em breve passar. Mas era tarde, eu havia decidido que, depois de 37 meses no exército e 21 meses e 4 dias na Guiné, devia merecer mais um pouco de compreensão. (...)

(...) Comentário de L.G.:

Meu caro João /My dear John:

(...) Fico muito sensibilizado com a tua mensagem… Eu sei que a Pátria não foi Mátria para ti, foi madrasta... E eu sou o primeiro a ser solidário contigo, eu que decidi ficar na terra que me viu nascer... Sei que isso não te vai servir de consolo, mas não imaginas o rol de reclamações que recebo neste pequeno canto da blogosfera!... 

Enfim, o importante é que hoje estejas bem, nesse grande país que eu admiro… Mas as tuas raízes, a tua identidade, o teu passado estão aqui, estão connosco… Nenhum de nós terá futuro, se não souber preservar e até alimentar o passado. A Guiné marcou-nos a todos, com o seu ferrete... Mas foi em português, na língua de Camões, que exprimimos os sentimentos mais nobres ou dissémos os palavrões mais horríveis. 

João: não adianta. Não se escolhe a Pátria, não se escolhem os pais nem os irmãos, não se escolhe a língua materna... Mas dessa ao menos eu tenho (e tu tens, nós temos) orgulho... É em português, e em bom português, que comunicamos na blogosfera, neste blogue, na nossa tertúlia, nesta caserna virtual onde todos cabemos, de Lisboa a Bissau, de Viana do Castelo a Toronto, de Coimbra a Luanda.  (...) 

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