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quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28351: Historiografia da presença portuguesa em África (544): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (12): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 2 de Março de 2026:

Queridos amigos,
Quando um dia os investigadores e até mesmo autores de teses de doutoramento queiram dedicar a sua atenção sobre os graves conflitos que ocorreram na região do Forreá e que levaram à ruína uma economia agrícola que parecia bastante próspera, fará todo o sentido em acompanhar o olhar do Capitão Brosselard. Como se pode ler neste texto, a missão, prestes a encaminhar-se para Buba, percorre Dandum e os grandes rios do sul, das colónias portuguesa e francesa. Fica-se com a opinião sobre Mahmadou-Paté, a importância de Kadé, à ação política de Mody-Yaya. Vai seguir-se a viagem para Buba, prende a nossa atenção a narrativa onde se descreve a vida dos rios, o cuidado em relevar a importância dos povoados e não se esconde a dimensão brutal dos conflitos étnicos que atravessam a região. Brosselard refere várias vezes a ruína do Forreá, proprietários agrícolas e comerciantes abandonaram a sua atividade no Cumbijã, em Cacine no rio Grande de Bolola, ele também descreverá este povoados da agora colónia portuguesa

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 12
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".

Recapitulando, os dois comissários, Brosselard e Costa Oliveira, percorrem as margens do Corubal e Brosselard cede ao fascínio, rende-se pela escrita ao que vai contemplando:
“As árvores, ávidas de luz, inclinam-se para a clareira que se abre para o rio e os seus ramos alongam-se desmesuradamente, acima das águas. Sobre o rio Corubal está-se ainda em plena floresta, pode perceber-se a margem oposta, mas para reconhecer a direção do rio é preciso caminhar sobre os ramos e avançar até a alguns metros do rio, correndo-se o risco de ser apanhado por um crocodilo. A montante distinguimos alguns pontos de rochedos; este afloramento de rochas permite que na maré-baixa se possa atravessar o rio a vau. Acima desta barragem o rio Koliba chama-se Kokoli, a jusante o curso do rio é livre até à altura de Contabane; a largura do Koliba é de trezentos a quatrocentos metros, é um grande rio.”


Os membros da comissão portuguesa, o Sr. Cabral e o Capitão Bacelar juntaram-se a nós durante a estadia que fizemos em Mahmadou-Guini. As duas missões encontram-se completas e o seu efetivo era o seguinte: a missão portuguesa composta por 4 membros, 50 soldados, 100 carregadores, portanto cerca de 150 a 160 pessoas; a missão francesa composta por 3 membros, 20 soldados e 50 carregadores, portanto 73 pessoas.

A 13 de março, os oficiais continuam as suas operações de reconhecimento para Dandum, o curso do rio Cogon e o do rio Grande (Kokoli, nesta região) divergem, o primeiro para sul e o segundo para norte-noroeste. O rio Grande é um rio majestoso, correndo no meio de uma imensa floresta que se estende a perder de vista. Ligeiras neblinas espalham-se por lugares da floresta da margem direita, e dá para perceber o carácter pantanoso desta região.

Tendo convidado o chefe de Dandum para encontrar um homem de boa vontade para levar a Geba a carta destinada ao Sr. Galibert, este Fula escusou-se a satisfazer o meu pedido; a região entre o Kokoli e Geba, diz ele, está às ordens de um chefe de nome Mahmadou-Paté. É o irmão de Bacar-Guidali, o ex-rei do Forreá destronado e assassinado por Mody-Yaya; ele corta a cabeça a todos os Fulas que apanha, e nenhum homem de Kadé ou Dandum se irá aventurar para lá do Kokoli.

Nós sabíamos, com efeito, que este Mahmadou Paté não deve ser confundido com o seu homónimo do Forreá, fizera-se chefe de todos os descontentes e oprimidos e intersetava todas as comunicações diretas entre Kadé e Geba.

De criação recente, Dandum é uma povoação de escravos do rei de Kadé, a sua população situação entre 800 e 1000 habitantes. Os indígenas fazem grandes esforços para desbravar nas proximidades os terrenos favoráveis ao cultivo. São industriosos e podemos utilizar o concurso dos seus ferreiros para repara certas peças do nosso material. Os seus tecelões fazem com algodão colhido na floresta tecidos talvez grosseiros, mas de uma solidez a toda a prova.

O intérprete Ibrahima regressou de Kadé com dois delegados de Mody-Yaya, mas sem carregadores nem cavalos, mas trouxe cumprimentos calorosos e protestos de amizade. Kadé forma um distrito que depende diretamente da autoridade dos almamis; Mody-Yaya, que usa o título do rei de Kadé, rei do Gabu e rei do Forreá, tem uma autoridade contestada sobre o Gabu, um território essencialmente Mandinga que conseguiu até agora manter uma barreira intransponível ao fluxo Fula. Ele é mais feliz no Forreá, onde fez assassinar em 1886 o rei Bacar-Guidali. Ele deixa de tempos a tempos esta região e só vai a Kadé depois de ter comido o que há nos celeiros, e então rouba tudo o que lhe é conveniente, porque os Fula-Cundas são considerados pela gente de Kadé proprietários sujeitos a impostos discricionários.

Atualmente a povoação de Kadé tem cerca de 400 casas e a sua população é de 3 a 4 mil habitantes. Num raio de 3Km à volta da população estabeleceram-se sucessivamente doze povoados mais pequenos que têm uma população que é o dobro de Kadé, e no seu conjunto pode contar com mil homens livres armados.

A importância que dá a Kadé é devido à ação política de Mody-Yaya. Este chefe, para lá da influência considerável que deve ao seu nascimento, porque ele vem da família dos Alpha que detém com a dos Sory o poder no Futa-Djalon; goza também da devoção absoluta dos seus partidários, que usufruem de benefícios que Mody tem no Forreá. Kadé está situada numa região muito fértil, beneficia de estar próxima das escalas de mercadores, a povoação recebe mercadores europeus e serve de entreposto para as regiões mais longínquas, protegida a norte pelo fosso do Koli e a sul e sudoeste por montanhas inacessíveis, está ao abrigo de investidas dos inimigos da raça Fula e pode ser considerada como uma excelente base de operações para as empresas que se estabeleçam a oeste. Estamos em crer que se não parar o desenvolvimento de Kadé a povoação tornar-se-á a capital do Futa-Djalon.

Chegámos ao fim do primeiro texto publicado em Le Tour du Monde pelo Capitão Henri Brosselard, páginas 97 a 144, primeiro semestre, 1889.

Segue-se também na publicação do primeiro semestre, o segundo e último texto, começa por se dizer que a fronteira sul estava reconhecida e os comissários decidiram regressar a Buba, damos novamente a palavra ao Capitão Brosselard e à primeira pessoa do singular.

A 18 de março, deixo Dandum com a retaguarda da coluna e junto depois a coluna no riacho de Tiancoun-Kapé. A 20, chegámos a Saala, é impossível ver o chefe, partiu à procura do filho. Este andava há seis dias à caça com um escravo, os dois caçadores não regressaram, admite-se na povoação que foram mortos por elefantes. No dia seguinte, mantivemo-nos no local à espera das bagagens deixadas ao cuidado de Mahmadou-Guini. Os oficiais fazem reconhecimentos nos arredores. N’Garanké que tinha trazido uma carta do tenente a Dandum, voltou com um intérprete. Parte de Saala com os carregadores e regressa no dia seguinte, trazendo um grande carregamento, cerca de 40Kg. Em 32 horas percorreram 105Km, dos quais 70 com 40Kg à cabeça. Para encorajar os carregadores faço um presente pecuniário a N’Garanké e dou-lhe uma grande espingarda de caça.

A 22, a coluna francesa deixa Saala, tendo aqui ficado parte das bagagens à guarda de dois atiradores; a coluna atravessa um território abundante em caça e atingimos o riacho de Kevel. O seu leito é rochoso, tem água corrente muito fresca. Faz-se o reconhecimento desta admirável estação que bordeja por toda a parte este curso de água, da foz à sua confluência com o Cogon. Entrámos logo depois em Kevel, povoado e habitado pelos Fulas. Há à sua volta belas savanas onde pastam bois e vacas enormes. A floresta vizinha tem árvores centenárias. As perdizes são aqui abundantes, elas aproximam-se até aos nossos pés e na povoação vêm comer o milho espalhado no chão.

Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Alameda de poilões, Selho, Casamansa, desenho de P. Langlois, segundo uma fotografia
Uma rua de Ziguinchor, desenho de Taylor, segundo uma fotografia
Cais de Conacri, bilhete postal antigo
Entrada de Conacri, bilhete postal antigo

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 9 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28333: Historiografia da presença portuguesa em África (543): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (11): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28333: Historiografia da presença portuguesa em África (543): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (11): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 25 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
É da maior conveniência fazermos uma recapitulação de tudo o que até agora se tem passado nesta narrativa do Capitão Henri Brosselard, que chefia a comissão francesa para a demarcação das fronteiras da Guiné Portuguesa. Estávamos em 1888, ele saiu em janeiro de França e encaminhou-se para a capital da colónia portuguesa. Daqui seguiu para o sul, para o início de uma região chamada Rivières du Sud, esteve nos rios Nuno e Compony ou Cogon; e fez uma longa marcha até Kandiafara, foi aqui que se encontrou com a comissão portuguesa, ambas as comissões deram como definidas as fronteiras entre Ponta Cajet e a região de Kandiafara. Irão seguir depois para Buba. É uma narrativa onde o seu autor muito provavelmente utilizou o seu relatório oficial, os itinerários da viagem estão todos datados, as diferentes atividades de exploração claramente referenciadas; o Capitão Brosselard é observador, esculpe perfis, é exuberante em tudo quanto menciona das paisagens por onde passam, e dá-nos aqui um belo texto sobre a caçada ao elefante e como aqueles paquidermes em fúria destroçam os corpos dos caçadores. Não é demais insistir que o leitor deve retomar o que se publicou no blog sobre a narrativa do chefe da comissão portuguesa, que irá aparecer minuciosamente transcrito em Guiné, Bilhete de Identidade Tomo II.

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 11
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".

Vimos no texto anterior que a coluna do Capitão Brosselard já passou pela fronteira do Forreá e do Futa-Djalon, ia a caminho da pequena povoação de Mahmadou-Guini e assistiu à destruição de uma floresta para a transformar em terras de cultivo. O capitão descreve agora o seu encontro com Mahmadou-Guini.

Mahmadou-Guini veio visitar-me. Este Fula apresenta-se com à-vontade e dignidade. É um negro grande e belo; de largas espáduas, parece estar dotado de um vigor fora do comum, o seu rosto transparece ousadia, tem marca de pertencer a uma raça superior. Na sua conversa, ele testemunha a sua devoção a Mody-Yaya. Em 1886 ele terá prestado grande ajuda ao seu soberano nas lutas que precederam o assassinato do rei do Forreá. Atualmente Mahmadou-Guini contenta-se a fornecer marfim ao rei de Kadé de quem recebe escravos dos dois sexos.

Durante a nossa estadia em Koumataly vi gente de Mahmadou-Guini que regressando a casa devem ter percorrido as florestas ribeirinhas do rio Grande à procura de sinais da passagem de elefantes. Manifestei interesse, se acaso se proporcionasse, de assistir à caça desses grandes animais e acordou-se que eu esperaria a chegada da coluna para nos lançarmos sobre as pistas dos elefantes, se tivéssemos a felicidade de os encontrar.

Alguns dias depois, estes pisteiros chegaram à povoação do seu senhor, anunciando que tinham encontrado a alguns quilómetros indícios muito recentes de um jovem elefante e que não tinham visto nenhum outro nas proximidades; era de supor que todos os da manada tinham atravessado a margem direita do rio Koliba (Koliba em francês, Corubal em português). A experiência indicava aos caçadores que o animal assinalado não ficaria muito tempo sozinho na margem esquerda. Era necessário apressarmo-nos sobre estes vestígios se não se queria perder a oportunidade, não se podia esperar a chegada dos brancos.

Oito caçadores partiram na pista do jovem elefante, bem abastecidos de pólvora e de balas, estavam armados de grandes fuzis que se podem encher de pólvora e de projéteis até à boca do cano. Os caçadores rapidamente reconheceram os indícios identificados pelos pisteiros. Quase nus, para poderem deslizar como répteis através das lianas e silvas, percorreram rapidamente muitos quilómetros e subitamente desembocaram numa clareira; o elefante estava lá, mas era apenas um adolescente e admirámo-nos dos seus companheiros estarem separados dele. Não havia tempo a perder, o jovem elefante deu conta da presença dos caçadores e persentindo um perigo procurou uma saída no matagal. Não havia tempo a perder, era preciso aproveitar deste seu embaraço no meio das lianas para o impedir da fuga rápida, e uma bala atingiu-o quando ele fazia um supremo esforço para abrir caminho. Gravemente ferido, o animal gritou de dor, os seus gritos ecoaram pela floresta. Os caçadores ficaram fora da clareira, na previsão de uma atitude ofensiva do jovem elefante. De repente ouviram-se outros gritos da manada respondendo aos do jovem elefante. Instintivamente os caçadores compreenderam o perigo que os ameaçava, os outros elefantes não estavam longe. Rapidamente os caçadores abandonaram a sua vítima que estava agonizante, e procuraram fugir através da floresta, corriam como loucos, atrás deles estalavam as lianas arrancadas e árvores quebradas, os monstros ganhavam rapidamente terreno.

Para desgraça dos caçadores, esbarraram num mato espinhoso e ficaram bloqueados. Feridos pelos espinhos, com o sangue a escorrer das feridas, não podiam recuar e cinco elefantes avançaram para eles. A fuga era impossível, urgia enfrentar o inimigo e defenderem-se com as armas. A uma boa distância, atiraram-se oito tiros a sangue-frio, todos acertaram, mas o adversário não parava, pelo contrário, precipitaram-se com cada vez mais fúria sobre os Fulas, sete deles foram apanhados pelos elefantes que os tomaram com a tromba e atiraram-nos ao chão ou quebraram-nos contra as árvores. Só um conseguiu escapar, fugiu enlouquecido até ao povoado, aqui os indígenas ficaram horrorizados com o que ele contou: só Mahmadou-Guini não parecia nada perturbado, incitou os mais bravos a segui-lo, todos os homens válidos correram para o lugar da carnificina. Os sete cadáveres que jaziam no chão estavam horrivelmente mutilados e de tal modo desfigurados que só puderam ser reconhecidos pelos familiares, identificados pelos amuletos e vestuário ainda presos aos pedaços de carne.

Mais longe viu-se um dos cinco elefantes, estava ferido, não se podia mexer, foi morto. Enfim, chega-se à clareira onde o jovem elefante fora a causa do acidente, estava sentado sobre o flanco, agonizando, foi morto à catanada.

Durante a nossa estadia ao pé de Mahmadou-Guini uma manhã informaram-me que estava a chegar um Fula que vinha pelo caminho de Dandum. Este homem, vestido de modo ridículo e bizarro, chamou a nossa atenção, os calções cor de cereja e um casaco castanho-esverdeado, trazendo à cabeça um embrulho volumoso e conduzindo pela mão um carneiro com bom tamanho. Passa à frente da habitação onde os oficiais tomam as refeições e apercebendo-se dos negros que comem cuscuz ao pé de uma casa vizinha, dirige-se para ali, senta-se entre os convivas, come e bebe sem ter previamente proferido uma palavra nem dirigindo a palavra a quem ali estava.

Uma vez saciado começa a conversar e cumprimenta todos os presentes, informa-os da finalidade da sua viagem. Parece que esta maneira de proceder é habitual no Futa-Djalon. Este homem era um servidor de Mody-Yaya, dirigia-se a Bolama para oferecer ao governador da Guiné Portuguesa, da parte do rei de Kadé, um dente de elefante quadrado, no volumoso embrulho que transportava à cabeça. Os dois comissários fizeram um reconhecimento do Koliba, eram acompanhados por uma escolta de carregadores, atiradores e soldados portugueses. Não há qualquer caminho para chegar ao rio, caminha-se como se pode através do mato, o capim alto torna por vezes a marcha tão difícil que é necessário deitar-lhe fogo para abrir caminho.

A quinhentos metros do rio, a vegetação toma uma dimensão imponente, é uma verdadeira floresta virgem quase impenetrável, que impede o acesso às margens. Os negros cortam a vegetação com as catanas e os machados, é a única maneira de fazer uma passagem. Chega-se enfim às margens do rio. As roupas estão em farrapos, as mãos feridas, os rostos desfigurados. As imensas árvores em forma de chapéu de sol estão ligadas por uma inextrincável rede de lianas que suspendem e entrecruzam lá nas alturas. Bandos de macacos mandris marcham em filas intermináveis sobre as lianas suspensas no espaço; lançam-se muitas vezes no topo das árvores da extremidade de um ramo para o outro, alguns deixam-se cair, agarram-se a um ramo ou mesmo a uma simples extremidade da folhagem, e lançam-se no vazio. Eles tomam certamente os viajantes por camaradas; não parecem minimamente emocionados pela nossa passagem.


Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Carta antiga de África e das ilhas de Cabo Verde, Sanson, cerca de 1680
Bijagós e um morro de bagabaga, desenho de Sirouy, segundo uma fotografia comunicada por Charles Brongniart
Escala de Foundiougne, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia
Posto de Kawlakh, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 2 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28314: Historiografia da presença portuguesa em África (542): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (10): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28314: Historiografia da presença portuguesa em África (542): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (10): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 25 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
Graças à preciosa colaboração da Biblioteca da Sociedade de Geografia, encontrou-se o mapa contemporâneo desta viagem do Capitão Brosselard que de Bolama desceu ao rio Nuno, subiu o Compony e já está em Kandiafara e conjuntamente com o seu colega português irão em direção a Dandum. É uma narrativa muito impressiva, recheada de pormenores, há quem procure a ligação entre o rio de Buba e o Corubal, a coluna já foi fustigada por um ataque de abelhas, nos acampamentos andam as cobras em perseguição dos ratos, jovens Fulas carregadoras ameaçaram fazer greve, a vegetação é deslumbrante e agora chegámos ao território de um caçador lendário Mahmadou-Guini, estamos na fronteira entre o Forreá e o Futa-Djalon, este caçador Fula, que se socorre de uma legião de pisteiros anda à procura de elefantes na região do Corubal francês, iremos seguidamente assistir a uma caçada de elefantes, onde ocorrerá uma tragédia.

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 10
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".

Ocorreu a chegada do comissário português a Kandiafara, em 25 de fevereiro. A 28, Brosselard declara ao colega português a sua intenção de prosseguir. Estavam asseguradas as provisões, armazenadas a 40Km a leste, na povoação de Koumataly; não havia mais nada a fazer nesta região onde estavam imobilizados, tudo estava completamente estudado e os dois comissários puseram-se de acordo sobre o estabelecimento da fronteira deste a ponte da Cajet até à região vizinha de Kandiafara. O Sr. Oliveira decidiu que partiria conjuntamente com a comissão francesa; organizou uma pequena coluna de carregadores e de soldados e convidou o Sr. Cabral a esperar a vinda do grosso da coluna das provisões que deviam chegar em breve, sob o comando do Capitão Bacelar. O Sr. Galibert recebeu a missão de ir reconhecer o curso do Corubal, estudar o problema geográfico da comunicação deste rio com o rio Grande de Bolola e de regressar a Bissau para tomar posse da coluna de abastecimentos que ele conduziria até Geba. O Sr. Galibert deixou Kandiafara em 29 de fevereiro.

A 1 de março, a comissão franco-portuguesa deixa Kandiafara e começam as operações de reconhecimento da região compreendida entre o rio Cogon (ou rio Compony) e o Koliba (nome francês para o rio Grande de Bolola). No dia seguinte fez-se paragem no riacho de Kével. Uma esplendida vegetação, escreve Brosselard, envolve o riacho numa semiclaridade; estamos à sombra de magníficos poilões. Esperávamos descansar antes do almoço quando ouvimos gente a gritar e apercebemo-nos de que o burro do Sr. Oliveira vinha aos saltos na nossa direção. O burro escoicinha, salta e rola; fora atacado por uma nuvem de abelhas que o perseguem; só o largam para se lançarem à esquerda e à direita sobre os negros e os oficiais. Os fumos das cozinhas perturbam-nas no seu sossego e elas vingam-se à sua maneira. A debandada é geral; os negros, desprovidos de roupa e surpreendidos nas suas abluções, sofrem cruelmente com os ataques das malditas. O campo de batalha pertence ao inimigo. Impunha-se organizar um cerco para inverter as posições. Os indígenas avançam então metodicamente, protegidos, não pelo tradicional cesto de vime cheio de terra, mas com enormes fachos incendiários; aos poucos conseguem fazer recuar o inimigo e asseguram a posse das posições laboriosamente conquistadas, lançando a chama e o fumo de todos aqueles autênticos archotes. Depois almoçámos tranquilamente, os olhos um pouco picado pelo fumo, estávamos envolvidos por uma nuvem protetora.

Na confluência do Kével, o Cogon espraia-se, magnífico, com uma largura de mais de duzentos metros e uma profundidade de metro e meio ao pé das margens. A corrente é pouco sensível, as águas são muito claras e permitem ver uma multidão de peixes em movimento. Os crocodilos e os hipopótamos são numerosos, eles parecem disfrutar de uma segurança absoluta, mostram as suas enormes cabeças e olham-nos com espanto.

À noite, chegámos a Koumataly. Este povoado está situado sob a margem esquerda do riacho do Talidiol, uma autêntica barreira de vegetação, intransponível fora da passagem construída por cima do lugar. Uma cinquentena de casas estavam muradas por uma dupla cerca de caniços entrançados. É um caminho que permite ir ao Cogon ou de subir na floresta e andar sobre os planaltos, podendo permitir, no presente caso, aos negros protegidos pelas cercas de caniços entrançados, de contra-atacar e também de assegurar o abastecimento. O riacho de Talidiol constitui uma admirável linha de defesa para fechar a estrada de Kadé. Aliás, os Fulas ficaram muito tempo em Koumataly, antes de empurrar os seus colonos para as ricas regiões de Contabane e de Guidali. Fortificados na povoação, eles puderam repelir com sucesso todas as tentativas de regresso dos Biafadas.

O cabo Sidi tinha construído uma instalação muito confortável à sombra de enormes toldos. Este palácio de bambu e de colmo compunha-se de quatro divisões, com portas e janelas. Infelizmente o arvoredo que nos protege com a sua sombra impenetrável está povoado de cobras que se deixam cair durante a noite sobre o teto da nossa habitação, a perseguir os ratos que vêm à procura das nossas provisões. As idas e vindas destes animais produzem na palha da habitação um barulho infernal que nos impede de dormir.

Em Koumataly nós contratámos mulheres e raparigas porque era impossível procurar carregadores. Para resolver a dificuldade dos transportes, decido que o intérprete Ibrahima se deve dirigir a Kadé para falar com Mody-Yaya, levará ricos presentes e pedirá sessenta carregadores e cavalos; juntar-se-á à missão em Dandum. Importa assegurar-se da boa vontade do rei de Kadé. A 7 de março continuámos as nossas operações para leste. A região onde estão povoações como Koumataly e Saala parecem-nos bem cultivadas. A presença das belas raparigas Fulas, sempre dispostas a brincar e a rir, espalha um pouco de alegria na coluna; mas estas jovens recusam continuar na coluna, com o pretexto de que faz demasiado calor e que vão morrer de sede; este seu comportamento obrigou a fazer uma paragem dos outros carregadores e obrigam-nos a tomar medidas repressivas. Em 8 de março acampámos no riacho de Nianta-Fara, constatou-se haver por toda a parte indícios de panteras, e apurou-se que o gigantesco arvoredo que cobria o bivaque estava cheio de cobras. Os negros fizeram grande fogueiras para afastar os visitantes indesejáveis.

As raparigas, que não têm vestuário para se abrigarem, juntaram-se à volta de uma fogueira que as protege da humidade noturna. Para pôr termo às suas intermináveis conversas, distribuíram-se alguns cobertores, o que lhe permitiu deitarem-se e dormir. O campo parece mergulhado no silêncio, mas fomos rapidamente alvoraçados pelos rugidos das feras que devem estar descontentes de nos ver instalados nos seus domínios; os macacos respondem em concerto, toda a gente desperta e as jovens Fulas retomam as suas conversas. A 9, atravessámos o belo riacho de Laballére, considerado como fronteira do Forreá e do Futa-Djalon. A região é selvagem, acidentada e muito arborizada e assim chegámos exaustos à povoação de Mahmadou-Guini, o grande matador de elefantes. O Nemrod Fula (referência a Nemrod, um grande caçador da Baixa Mesopotâmia) instalou-se nesta região desértica e selvagem para estar no centro do seu campo de ação. A região é, de facto, muito abundante em caça; os elefantes são numerosos, sobretudo na margem direita do Koliba, onde se estendem entre o rio e o Geba imensas florestas pantanosas, impenetráveis para o homem.

A trezentos metros da pequena povoação de Mahmadou-Guini, no fundo do riacho, está uma mata onde se erguem árvores seculares; a terra aqui é de uma grande riqueza e os escravos do chefe Fula esforçam-se por destruir a soberba floresta para fazer terras de cultivo. Por todos os lados se veem fogueiras fumegantes ao pé de poilões e outras árvores que têm muitas vezes mais de dois metros de diâmetro na base. De vez em quando ouve-se um estalo sinistro: é um desses gigantes que tombam. Já por terra, deitam fogo ao imenso cadáver e em poucos dias o gigante das florestas fica reduzido a poeira.

Mahmadou-Guini vem visitar Brosselard, é o que iremos contar no próximo texto.

Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Uma rua de Ziguinchor, desenho de Taylor, segundo uma fotografia
Dá-se ao leitor um pormenor da carta da Guiné Francesa contemporânea da demarcação das fronteiras em 1888. Se o leitor aumentar as dimensões da imagem encontrará as povoações percorridas do rio Nuno para o Compony até Dandum. O encontro com o comissário português, o tenente da Armada Real Eduardo Costa Oliveira deu-se a 25 de fevereiro, em Kandiafara. Daqui partiram as duas delegações conjuntamente.
Fula a cavalo, imagem retirada do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 26 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28297: Historiografia da presença portuguesa em África (541): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (9): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28297: Historiografia da presença portuguesa em África (541): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (9): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 19 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
Temos agora uma narrativa sobre a caça ao hipopótamo na região de Kandiafara. Vai aparecer o comissário português, o Tenente Costa Oliveira, da Armada Real, vem acompanhado, traz dez dias de atraso, tinha desembarcado nas margens do rio Cajet, só encontrara obstáculos, por embarcação pôde subir até Cantagniès (provavelmente o Cantanhez). A partir de agora as duas missões andarão irmanadas, irão prosseguir até encontrar as respetivas colunas de carregadores; outro membro da comissão francesa irá reconhecer o curso do Corubal, saber se este comunica com o rio Grande de Bolola. Creio que o leitor apreciará este documento histórico alusivo à primeira demarcação das fronteiras da Guiné, será aqui que se selará o destino de Ziguinchor e de todo o Casamansa de português.

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 9
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".

Vimos no texto anterior que o Sr. Galibert recebeu a incumbência por parte do Capitão Brosselard para fazer uma exploração no rio Cogon; experiência sem sucesso, agora o Capitão Brosselard relata uma experiência que ele viveu e que culminou com a morte de um hipopótamo, como se escreve.

Avistou-se um dia na margem oposta um enorme crocodilo que espreitava macacos. Querendo afastar estes perigosos animais das águas de Kandiafara, nas quais as pessoas da nossa missão se banhavam diariamente, dei ordens para atirar sobre eles quando os avistássemos na vizinhança do acampamento. O crocodilo não parecia mover-se, mas depois se ter atirado várias vezes embarquei no barco à vela com o Sr. Galibert e dois estivadores, e dirigimo-nos para a margem oposta.

O crocodilo mergulhou e apareceu a uma certa distância, a embarcação vigiava os seus movimentos e cada vez que ele aparecia davam-se mais tiros. De repente, na vizinhança do barco apareceram dois hipopótamos e olharam-nos com surpresa. Tive o despropósito de disparar sobre um deles, o monstro deu um salto enorme acompanhado de um barulho tal que quem estava na margem se apavorou, pensando o pior. O Sr. Galibert manobrou o barco para meio do rio, sabia por experiência que se navegássemos para um baixio, onde a besta tivesse pé, estávamos perdidos. De súbito, a um metro apenas da embarcação o monstro pôs a cabeça fora de água: a proa guinou e ergueu-se e houve um barulho sinistro que parecia anunciar que a frágil embarcação ficaria em mil pedaços. Achando-me de pé, fui atirado borda fora, isto enquanto a embarcação se enchia de água. Chegou-se à margem direita com dificuldade: não era sem tempo.

Contrariamente a uma opinião muito difundida, os hipopótamos só atacam quando pensam estar ameaçados, os indígenas dão-lhes caça, conhecendo esta particularidade. Tivemos ocasião de assistir a estas caçadas e, em cada uma delas, é utilizado o mesmo método: os monstros eram assinalados na proximidade de um banco de areia e os indígenas atiravam sobre os que se encontravam fora de água. Uma piroga dirigia-se ao mesmo tempo para um deles, o hipopótamo não demorava a dar caça à embarcação que se refugiava prudentemente no banco de areia. O hipopótamo não parava, perseguia os caçadores, começava o tiroteio e o animal ficava num estado enfurecido, dirigia-se contra os agressores, mas, como a sua marcha é lenta não lhes permitia chegar aos caçadores a tempo. Estes vão atirando à queima-roupa, especialmente sobre os olhos e a besta enorme ficava rapidamente cega. Seguiam-se as arremetidas com lanças e golpes de sabre usados para lhes quebrar os jarretes (acima do joelho). O animal cambaleava, a luta tornava-se desigual: o sangue escorrendo por todas as feridas. Nesta altura aumenta o número de caçadores, o solo está empapado de sangue.

Animal esgotado, a sentir que chegou a sua hora, a procurar ainda fugir para o rio, aqui entrando e mergulhando. A superfície da água a ficar rapidamente vermelha, e este indício sangrento indica aos carrascos onde ele está, perseguem-no dando gritos horríveis. O animal, a morrer, é, entretanto, obrigado a vir frequentemente respirar à superfície. A piroga segue-o de perto, levada por dois negros vigorosos: um rema, o outro maneja uma lança de ferro, fere o animal sempre que pode. Não é raro ver a piroga erguer-se e afundar-se. Quando isto acontece, os negros nadam e põem-na a flutuar; a sua vítima, que já não pode distingui-los também já não pode atacá-los com as suas poderosas mandíbulas. Por último, o hipopótamo dirige-se em direção a terra para expirar. Aqui chegado, ele para, a sua respiração é ruidosa, o seu dorso agita-se com violência. Os indígenas dançam, gritam e assistem à agonia do monstro, agonia que por vezes se prolonga por horas.

Os negros são apreciadores da carne de hipopótamo; os primeiros colonos portugueses da Guiné gostavam muito deste alimento e os padres autorizavam mesmo que a comessem à sexta-feira, pois consideravam que o hipopótamo era um peixe.

Durante a nossa estadia em Kandiafara enviei mensagens em diferentes direções para recolher informações sobre a digressão dos portugueses. Ninguém podia atravessar as linhas de demarcação marcadas pelo limite atual da invasão Fula. Todos os caminhos estavam sob vigilância, faziam-se emboscadas nas florestas aos infelizes Nalus quando procuravam escapar aos seus invasores.

A presença da missão não fez cessar os ataques invasores. Assim vi-me obrigado a fazer advertências a Bacar-Lombi, fazendo-lhe saber oficialmente que se eu soubesse que uma povoação Nalu fosse atacada eu iria defendê-la, tomando partido contra o agressor. Na esperança de obter algumas informações, enviei um intérprete a Buba, mas o comandante da praça nada sabia. Temia-se que o Sr. Costa Oliveira estivesse a enfrentar grandes dificuldades: a situação política do país permitia admitir a hipótese de uma resistência armada dos indígenas.

Bacar-Lombi pôs muitas dificuldades para fornecer carregadores. Foi enviando gente em pequenos contingentes, exigindo caso a caso um novo testemunho de reconhecimento. Os que estavam prometidos para 22 só chegavam a 23; enviei ao chefe Fula o intérprete Ibrahima, com ordem de pedir explicações. Nessa circunstância este chefe ganancioso respondeu que “lhe tinha sido prometido como presente dois barris de pólvora e que ele só tinha recebido um; que os brancos não cumpriam a sua palavra e que ele não se sentia obrigado a cumprir a sua”.

O intérprete observou-lhe tinha sido enviado um barril com um conteúdo com o dobro que os de uso habitual. “Pouco importa, respondeu Bacar: prometeram-me dois barris e eu só recebi um”. O intérprete deu-me conta da sua missão e foi enviado um segundo barril a Bacar-Lombi. Ele decidiu agradecer e aproveitou para dar sinal que exigia mais para haver boas relações, pediu açúcar e frascos de perfume. Recebeu açúcar e o incidente ficou sanado. No mesmo dia chegava um correio do Sr. Oliveira, o comissário português estava em Cantagniès (provavelmente Cantanhez) e anunciava-se para o dia 25. A 24, chegou um segundo correio: a missão portuguesa estava em Simbéli. A 25, encontro-me com os portugueses, com os Srs. Oliveira e Cabral. O Capitão Bacelar, teve de regressar a Bolama para repatriar uma parte do pessoal, recrutar novos carregadores e organizar uma coluna de víveres. O comissário português explica que veio atrasado dez dias porque procurou atravessar a região essencialmente pantanosa que separa o Cacine do Compony. Após ter desembarcado nas margens do rio Cajet, não pôde fazer uma só etapa em direção ao leste, detido pela vegetação cerrada e os lodos profundos, precisou de subir a norte e assim alcançar o Cacine. Neste rio, graças a Sayon-Sallifou, que no cumprimento das minhas instruções procurara embarcações, a missão portuguesa pôde subir até Cantagniès. A partir daqui dirigiu-se para Kandiafara seguindo o caminho anteriormente utilizado pelo Tenente Clerc.


Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Carta da Guiné em 1897, proveniente do Arquivo Histórico Ultramarino, houve depois alteração de fronteiras
Carta geográfica da autoria do capitão Henri Brosselard referente ao Casamansa e o distrito de Cacheu, podemos ver como o Governo português reivindicava o território até ao Rio Casamansa e como acabou o esbulho
Os homens sobem para a piroga, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia
Cúter (designação do barco) da ilha de Gorée, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia
O Casamansa em Carabane, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 19 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28271: Historiografia da presença portuguesa em África (540): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (8): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28271: Historiografia da presença portuguesa em África (540): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (8): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 18 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
Devo uma explicação ao leitor, estou a fazer uma tradução livre da narrativa do capitão Brosselard, um belo francês do século XIX, tenho três dicionários de francês à frente e nem sempre tenho sucesso com a escolha das palavras mais adequadas e fico sempre com a noção de que a fluidez destas descrições não é das melhores, isto somente para pedir a benevolência do leitor, sou um tradutor improvisado. Temos aqui a viagem do tenente Clerc que anda a explorar o Cacine e descobriu que não é um rio é um braço de rio. De facto a Guiné só tem dois rios se entendermos que um rio tem de ter nascente e foz, são o Geba e o Corubal. O fascinante desta digressão é a descrição dos meandros e confluência de riachos à volta do Cacine, os cenários estão diferentes na maré-alta e maré-baixa. Outro membro da comissão francesa, o Sr. Galibert, tentou explorar o ponto alto do rio Cogon, encontrou obstáculos intransponíveis, mas vai premiar com uma cena espantosa de caçada ao hipopótamo.

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 8
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".

Vimos no texto anterior que o Capitão Henri Brosselard determinou ao Tenente Clerc que fosse explorar as proximidades do rio Cacine, deu-se a particularidade de quando este e a sua comitiva chegaram a Ahmadu-Boubou, onde pernoitaram, passaram por povoações que nunca tinham visto um branco. No dia seguinte à pernoite no entreposto de Ahmadu-Boubou a pequena coluna transpôs com a baixa-mar os braços do rio de Kakondum e com muitas dificuldades por causa do lodo que se estende pelo outro lado do leito, numa extensão de duzentos metros; este lodo é tão mole que nele nos afundamos até aos joelhos.

Após esta peripécia, era preciso seguir na direção de Cacine através de um caminho atravessado por pântanos e era muitas vezes necessário caminhar neste leito lodoso por causa da vegetação muito cerrada que bordeja as margens. De resto este caminho só é praticável na maré-baixa porque na maré-alta a água sobe um metro nos pântanos.

Este rio tem um aspeto imponente porque as suas águas são límpidas e correm sobre uma areia dura; o rio banha uma das regiões mais selvagens, onde o homem parece pouco conhecido e pouco temido pelos animais, porque todos, aves aquáticas, macacos, serpentes, caimões e crocodilos, ficam ao alcance de tiros de espingarda e parecem olhar os viajantes com espanto. O guia assegurou que, apesar da maré estar a subir, era possível passar a vau. Os atiradores e os homens da escolta, inteiramente nus, colocaram à cabeça tudo quanto levavam e apesar dos buracos em que se podia cair a qualquer instante, atravessaram o rio com água até ao queixo.

O guia voltou à outra margem para buscar os pertences do tenente, mas a enchente e a profundidade do rio tinham aumentado, ele perdeu o pé no regresso e deixou cair a sua carga. Apesar da ajuda dos seus companheiros que se lançaram à água e mergulharam, dando o seu melhor, tudo se perdeu.

Tomou-se o caminho que conduzia à aldeia de Ahmadu-Boubou. O chefe da localidade, ou melhor dito, o proprietário, estava ausente; mas a sua mulher, uma negra muito bela, ofereceu ao tenente, em nome do seu senhor, uma generosa hospitalidade. Ahmadu-Boubou, disse ela, gosta muito dos franceses; ele foi educado na Gorée e ele fala fluentemente a vossa língua: ele ficará muito satisfeito por um branco de França ter dormido sob o seu teto!

A casa de Ahmadu-Boubou era em terra batida, estava coberta de colmo e lembrava precisamente as casas rurais que se encontram na Baixa-Normandia. O interior era composto de quatro grandes divisões; uma delas, a mais confortável, servia de quarto do proprietário; nela ficou instalado o Tenente Clerc. O mobiliário, relativamente luxuoso, compunha-se de uma cama de ferro revestida com um mosquiteiro, lençóis muito brancos e com uma coberta acolchoada; diante da cama, uma espécie de baú em carvalho, e sobre o pano que o cobre havia cadernos e livros, entre os quais uma história em França do padre Gaultier e uma gramática francesa de Noël et Chapsal.

O Tenente Clerc chegou à tardinha a Cantaguiès, residência de Toly-Bey e no regresso prometeu uma recompensa aos negros que encontrassem a sua bagagem que ficara no rio. A notícia espalhou-se na povoação de Ahmadu e até em Cantaguiès, e à noite, pelo luar, mais de vinte negros mergulharam para obter a recompensa anunciada. Após muitas horas de esforços penosos, as suas pesquisas foram coroadas de sucesso.

No dia seguinte o tenente regressou ao Cacine numa piroga. A oito quilómetros do vale que se tinha atravessado na véspera, a maré deixara de se sentir e o rio recuara bruscamente. Não era mais do que um riacho pantanoso e arborizado.

O Cacine, por conseguinte, pode ser considerado como um braço de mar, mais do que um rio. O tenente tornou a descer o Cacine até à confluência com o braço de rio de Kakondum, neste sítio o rio atinge uma largura de 400 metros; as margens são arborizadas, o aspeto é do mais selvagem possível. Ele subiu então ao braço do rio de Kakondum, o qual tem uma largura de 100 metros, mas que recua rapidamente e então não tem mais de 10 metros na parte superior do seu curso.

O explorador das fontes do Cacine regressou a Ahmadu-Boubou com a sua pequena coluna, tomou depois a direção de Compony para fazer o reconhecimento da região de Tchiermo até Kandenbel e regressou a Kandiafara a 21. Enquanto o Tenente Clerc explorava o Cacine, o Sr. Galibert dirigiu-se para o braço do rio de Nalouel, com três estivadores, num barco à vela. Atingiu duas escalas usadas pelos comerciantes, situadas nas margens opostas deste braço do rio, a sete metros da confluência do Cogon. Estas duas escalar têm o nome de Nalouel e de Gadamael e dão o seu nome ao rio. A maré faz-se sentir até à altura destas duas povoações. A montante, a vegetação cobre o rio e torna-se impossível toda e qualquer tentativa de navegação.

Convidado a tentar explorar o alto Cogon, o Sr. Galibert não pôde, devido à sua fraca embarcação mais do que saber a alguma distância acima da barreira de Kandiafara, a cerca de 7 mil metros acima deste ponto. Chegado a esta distância, o rio separa-se em dois braços, um corre debaixo das árvores entrelaçadas e o outro estreita imediatamente. Rio cheio de pedras, mas a água é muito clara e profunda. Acostou num baixio, marcado por vestígios de hipopótamo, debaixo de um caramanchão de verdura. Perto havia uma planície de ervas secas muito altas; deitou-se fogo, enquanto alguns homens foram caçar e em menos de 20 minutos trouxeram um antílope e uma corça. Há muitos hipopótamos no Cogon; em Kandiafara vê-se a toda a hora as suas grossas narinas à superfície da água e ouvem-se permanentemente as suas poderosas fungadelas. Estes grandes paquidermes são perigosos para a povoação.

Segue-se uma espantosa descrição da caça ao hipopótamo, será tema de substância no próximo texto.


Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Carta da Guiné em 1897, proveniente do Arquivo Histórico Ultramarino, houve depois alteração de fronteiras
Esta carta das populações da Senegâmbia e do Alto Níger é muito mais do que uma curiosidade, permite-nos observar o posicionamento no que vai ser a Guiné Portuguesa, veja-se a importância dos Soninqués, dos Nalus, Mandingas e Fulas
Postal antigo da Guiné Francesa, fala-se aqui de povoações por onde andou o capitão Henri Brosselard
Postal antigo da Guiné Francesa, cerimónia religiosa dirigida por um Almami

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 12 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28257: Historiografia da presença portuguesa em África (539): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (7): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28257: Historiografia da presença portuguesa em África (539): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (7): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 18 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
O Capitão Henri Brosselard revela-se um excelente observador e pela sua digressão até Kandiafara ganha a perceção de que a região do Futa-Djalon tem uma saída natural em rios que ficaram em território da Guiné Portuguesa, caso do rio Grande de Bolola (Buba) e o Cumbijã, acrescentando-lhe rios que ficavam em domínio francês como o Nuno e o Pongo, apontando para outra região importante, como os Rios do Sul. Brosselard encontrou-se com o rei Mamadu Paté e o seu colaborador Bacar-Lombi, este revelar-se-á um ganancioso, como veremos mais adiante, toda esta missão decorre em território tumultuoso, os Fulas procuram afastar os Nalus do Forreá. A grande surpresa deste relato é de ficarmos a saber que se tinha descoberto o rio Cacine, quando o Tenente Clerc, colaborador de Brosselard, chegou à povoação de Kandenbel, houve uma enorme agitação, era a primeira vez que aparecia ali um branco.

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 7
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".

Prosseguindo o relato sobre a situação do Forreá, damos de novo a palavra ao Capitão Henri Brosselard. Atualmente a Praça de Buba assegura a manutenção do statu quo entre os Biafadas e os Fulas, pondo um travão à expansão destes últimos no noroeste, mas é em detrimento do seu comércio tanto mais que os fulas abandonam de boa vontade a escala de Buba onde os mercadores portugueses são pesadamente taxados, sabendo que lhes era fácil traficar em condições mais vantajosas nas escalas de Combidiah, do Cacine e sobretudo em Kandiafara. Também o comércio do Compony tem uma grande extensão: e se instalarmos ali uma alfândega uma parte do comércio do rio Nuno será desviado completamente deste rio.

Em Kandiafara, o rio Compony tem ainda 10 metros de água; até ao mar o leito do rio é sempre profundo, infelizmente à entrada há uma passagem difícil por causa de uma barra arenosa e com alguns rochedos; porém, nada impede a navegação a pequenos vapores e às embarcações de toda a natureza que podem subir até Kandiafara, mais de 80km do interior. A escala de Kandiafara parece, pois, destinada a prosperar, tanto mais que os barcos podem atracar no cais com 4 ou 5 metros de água. Porém, os progressos efetivos não se poderão concretizar sem a nossa proteção, só assim se poderão instalar de um modo permanente e seguro; e os indígenas não os impedirão até que nós tivermos feito o ato de posse.

Kandiafara beneficiará então completamente do comércio que existia antigamente no rio Grande de Bolola e que se cifrava em milhões. Esta escala terá, além disso, a vantagem de continuar o comércio com o Futa-Djalon, durante a época das chuvas, quando o Geba, o Combidiah, o rio Nuno, o Pongo e o Mellacorée não forem acessíveis às caravanas do interior. Um facto completamente novo e digno de atenção, que constatámos recentemente para a escala da Dubreka, produzir-se-á igualmente em Kandiafara: os Fulas vieram a Dubreka durante a época das chuvas e vieram e chegaram igualmente a Kandiafara. Estas duas escalas são de facto as únicas que se podem realizar no Futa-Djalon, por itinerários no país acidentado.

Kandiafara fica a três dias de Kadé para os Fulas; e esta povoação, como iremos ver adiante, tem uma importância capital e parece contrabalançar a influência dos maiores centros do Futa-Djalon. Em suma, esta escala no futuro está situada no terreno da navegação marítima do Cogon e o reconhecimento que fizemos deste rio, que desce do centro do Futa-Djalon, permite-nos apreciar a sua importância: estamos em crer que poderá ser utilizado para a navegação de pequenas embarcações até à altura de Dandum, isto é, a meio caminho de Kandiafara e de Kadé, e talvez para lá indo do rio Nuno ao Futa-Djalon; o Capitão Lambert atravessou este rio durante a baixa-mar, a mais de 500km de Kandiafara. A descrição que o nosso compatriota faz deste rio mostra a importância que ele ainda tem a esta distância da sua foz.

O rei Mamadu Paté disse a Bacar-Lombi na minha presença que ele devia fornecer-me carregadores. A fisionomia deste último revelou-se interessante, também fui informado da situação que ele ocupa no país.

Bacar-Lombi era o homem que Mody-Yaya queria fazer rei do Forreá; foi só devido às instâncias portuguesas que a nomeação recaiu em Mamadu Paté. Apesar deste insucesso à candidatura real, Bacar-Lombi que é chefe militar dos Futa-Cundas, não viu diminuído o imenso prestígio que possui. É, aliás, o tipo acabado de homem de guerra: alto, com uma fisionomia viril e severa, muitas cicatrizes provenientes de golpes de sabre. É ele que teve a iniciativa de todos os golpes de mão com êxito tentados pelos Fulas, nas últimas guerras. Sempre na primeira linha, dotado de uma bravura lendária, cobre-se de glória em todas as circunstâncias e mostra uma fidelidade sem mácula. Também, não sendo de facto o rei, ele é tão poderoso quanto o rei.

Estas informações eram mais do que suficientes para apreciar a necessidade de manter nas melhores relações com o vice-rei; também, em 16 de fevereiro, enviei-lhe um mensageiro para lhe recordar as palavras de Mamadu Paté e fiz acompanhar a missiva de um certo número de espingardas, barris de pólvora e noz de cola, presentes que me parecem dever ser bem acolhidos por um homem de guerra como ele.

Escrevi a Sayon-Salifou, convidando-o a fornecer informações sobre os movimentos dos Portugueses e encarregando-o igualmente de os informar da minha presença em Kandiafara. Dei-lhe a ordem de pôr à sua disposição todos os meios necessários para assegurar o sucesso das operações de que o incumbi. Entretanto, o Tenente Clerc foi convidado a estudar a solução do problema geográfico referente às nascentes deste rio. O Sr. Galibert foi igualmente convidado a completar o estudo do rio Compony a partir dos afluentes que o alimentam na parte do seu curso já visitado. Sendo o Cogon um grande rio era de presumir que o Cacine não tinha nascente no Futa-Djalon; as suas nascentes não podiam estar muito longe da foz.

Este rio, que o Tenente Clerc teve a honra de aqui revelar as nascentes tinha sido descoberto, em circunstâncias trágicas, pelo Sr. Wallon, hoje almirante.

Aí por 1855, tomou-se conhecimento no Senegal que dois industriais se tinham estabelecido num rio desconhecido da Costa e ali fabricavam moedas falsas de cinco francos com a efigie do rei Luís Filipe. Um aviso comandado pelo Tenente Wallon foi à procura destes audaciosos falsários e o seu refúgio foi descoberto no Cacine, rio cujos acessos haviam escapado até então às investigações dos navegadores. Quando o aviso apareceu nas proximidades dos moedeiros falsos estes infelizes suicidaram-se.

O Tenente Clerc organizou seguidamente a pequena expedição que ele estava encarregue de dirigir e deixou Kandiafara a dezoito pela manhã. Durante o primeiro dia de exploração, na curva de um caminho, ele apercebeu-se da presença de Bacar-Lombi, que estava acompanhado de dois escravos, à sombra de um gigantesco poilão.

Este chefe indígena estava informado da viagem do Tenente Clerc e, na esperança de um presente, pôs-se à disposição deste oficial.

Kandenbel mostrou satisfação com a chegada do explorador. Era a primeira vez que um branco entrava na povoação e toda a população se acotovelou com espanto e admiração à sua passagem. Precedido por um griot que dedilhava a sua guitarra de duas cordas as melodias mais suaves dos Fula-Cundas, ele teve dificuldade em abrir caminho para a morança do chefe da povoação. Muito curiosas estavam as mulheres que invadiram esta morança. Esperando desembaraçar-se da sua presença, o nosso companheiro distribuiu por elas braceletes em celuloide; foi uma ideia muito infeliz, porque todas as mulheres queriam por sua vez penetrar na morança para obter este presente, e como ele não podia satisfazer esta infinidade de pedidos, deixou bruscamente a povoação. Dirigiu-se para Dodi-Maovudo, não parou aqui, continuou na direção do pântano de Kakondum e, pelas seis horas da tarde atingiu o entreposto de Ahmadu-Boubou, comerciante negro que explora a zona do alto Cacine.


Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Pormenor da carta publicada por Le Temps em março de 1890 para ilustrar a viagem do Capitão Binger 1887-1889
Missão católica a Boffa, desenho de Taylor, segundo uma fotografia
Escrava de Mamadu-Guimi, desenho de G. Vuillier, segundo uma fotografia
Interior de Dandoum, desenho de A. de Bar, segundo uma fotografia
La Mésange e o seu escaler, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia
Mulher Fula, desenho de G. Vuillier, segundo uma fotografia

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 5 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28241: Historiografia da presença portuguesa em África (538): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (6): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28241: Historiografia da presença portuguesa em África (538): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (6): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 12 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
Quando o Capitão Henri Brosselard saiu de Bolama em direção ao rio Nuno e daqui a Kandiafara, este itinerário não era inocente, conforme comprova a narrativa do chefe da missão francesa para a delimitação de fronteiras. Ele observa neste seu relato a importância do rio Nuno no contexto dos chamados Rios do Sul, e procurou habilmente sondar Mamadu Paté (que se revela leal à França) sobre a chamada relação de forças no Forreá e quem era quem na Península de Cacine. Era facto assente que a política francesa passava por criar uma barreira de acessos comerciais dos portugueses às rotas dos Futa-Djalon, entretanto havia que sondar as linhas de tráfego do Futa até Cacine. também ficou verificado que as comunicações entre o rio Nuno e o rio Compony eram extremamente difíceis, a acessibilidade só poderia ser garantida por pequenas embarcações. E o capitão Brosselard também deixa claro a luta pelo poder em que os Fulas do Forreá procuravam expulsar os Biafadas e os Nalus, nesta época (1888) já o próspero comércio da região do rio Grande do Bolala estava praticamente dizimado pelas sanguinárias guerras travadas no Forreá.

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 6
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".

Retomando o texto anterior, a coluna do Capitão Henri Brosselard chegou a Kandiafara, na véspera já tinha chegado a esta pequena povoação o Sr. Galibert. Na penúltima etapa deste percurso, Brosselard tinha atingido o rio Compony ou Cogon, aqui desfraldou a bandeira francesa, para ele ficava claro que tinha percorrido regiões completamente desconhecidas, deixadas em branco das cartas geográficas, confirmava-se ter chegado a um dos rios dos chamados Rios do Sul, cuja existência era contestada, negada pelos geógrafos que pensavam que o curso de água atravessado por alguns viajantes nas altas regiões do Futa-Djalon tinha a sua foz no estuário do rio Cacine, reconhecido em 1885 pelo tenente do navio Vallon, agora nau capitânia.

Para determinar a fronteira sul da Guiné, devíamos visitar regiões que não tínhamos assinaladas a não seu por vagas informações, todas erróneas, como pudemos verificar na continuação deste reconhecimento e que nós sabíamos estar num grande estado de desolação provocado pela invasão de hordas Fulas. Antes de começar o nosso trabalho e dar uma direção às operações, incumbia-me uma dupla missão que iria cumprir em Kandiafara: assegurar-me da boa vontade dos chefes do país e recolher informações genéricas sobre a geografia das regiões à volta.

Logo à minha chegada constatei haver uma grande emoção que reinava no país. Corria o rumor que um chefe francês vinha fazer a guerra; os Fulas do Forreá, que muito maltratavam os Nalus, invadindo diariamente o território e destruindo toda e qualquer povoação, não se sentiam sossegados, pois estavam em crer que a França tinha vindo em auxílio dos reis dos Nalus, seu aliado. A povoação Fula de Simbéli, edificada a alguns quilómetros de Kandiafara, fora abandonada pelos seus habitantes, e o rei do Forreá, Mamadu Paté, convocara o seu exército.

O primeiro dia foi consagrado à instalação; os oficiais ficaram numa casa de comércio abandonada e os restantes militares construíram abrigos confortáveis. O Sr. Galibert deu conta da sua navegação pelos braços de rio estreitos e lamacentos que permitem a navegação às pequenas embarcações para passar do rio Nuno para o Compony. Ele partira de Samiah com a maré, na noite de 10 de fevereiro, tinha descido com a embarcação do rei Dinah e uma outra embarcação ligeira no curso do rio Nuno até Victória. Costeando depois a margem direita do rio Nuno, andou em braço de rio até Kassagoua. A sete quilómetros de Boffa deixou Kassagoua e penetrou noutro braço do rio sinuoso que desagua no Compony, perto do Cabo Sin. A 12 chegou a Bassiah, pequena povoação de comerciantes situada na margem esquerda do rio, subiu o Compony com a maré e chegou a 13 a Kandiafara. Os braços de rio de Tankina e de Socotia estabelecem uma outra comunicação entre o rio Nuno e o Compony, mas a navegação só é possível por canoa. Esta região de cursos de rio é muito perigosa e insalubre, mesmo para quem lá vive. Encontram-se aqui alguns Nalus misturados com Bagas e Biafadas que fugiam da invasão Fula e procuravam aqui um refúgio seguro.

A 14 à noite, recebi uma mensagem do rei Mamadu Paté. O rio do Forreá anunciava que estaria no dia seguinte em Simbéli e solicitava uma entrevista com o chefe francês. A 15 fui ao encontro acompanhado de um intérprete, de cinco atiradores e de um certo número de atiradores; instalei-me provisoriamente na povoação, mandei montar uma tenda fora do recinto, num espaço descoberto.

Ao cabo de algumas horas ouviu-se o rumor longínquo dos tambores, acompanhados de cânticos, de gritos, de tiros, anunciando a aproximação do rei e do seu exército. Mamadu Paté apareceu montado num cavalo, precedido pelos griots (cantores e tocadores de Korá) que teciam louvores ao seu senhor. Atrás deste grupo vinha uma longa fila de guerreiros, armados de espingardas e de sabre, vestidos com uma curta túnica presa à cintura na qual pendia um grande corno com pólvora. Muitos deles traziam chapéus de abas lisas, tecidos com caniços tingidos com variadas cores; esta indumentária pitoresca era completada por um grande número de amuletos que pendiam no pescoço ou estavam fixados no vestuário ou nas armas.

Mamadu Paté apeou-se ao pé da tenda que estava destinada às conversações e sentou-se na companhia dos principais chefes que tinham vindo com ele. Os guerreiros sentaram-se no chão à volta da tenda. A reunião não podia ter lugar na povoação de Simbéli: o rei estava em guerra com os Biafadas e enquanto não regressasse dessa campanha os usos e costumes proibiam-no de se abrigar na povoação. Avancei, precedido dos meus atiradores, bem indumentado, tendo a arma na espádua e a baioneta no cano. O rei veio na minha direção e travámos os cumprimentos da praxe.

Já sentados, os carregadores depuseram os presentes que foram oferecidos ao rei. Este, homem prudente, fez saber antes, por um confidente, que precisava de deixar à guarda do chefe de Simbéli a maior parte dos presentes que lhe estavam destinados, com este subterfúgio não precisava de acompanhar os seus acompanhantes. Os presentes ficaram à vista de todos, aos pés do rei, estes estavam destinados a mostrar a sua generosidade.

Começaram as conversações. Exponho as razões que me traziam ao Forreá e Mamadu Paté protesta a sua simpatia pela França e por tudo o que é francês. Peço ao rei para me vender cavalos. Ele não pode satisfazer o meu pedido, só tinha três e em mau estado, Mody-Yaya tinha recentemente levado os que ele possuía. Antes de regressar a Kandiafara, e para satisfazer o pedido do meu hóspede, mostrei-lhe a potência das espingardas dos meus atiradores. Estes dispararam sobre troncos de árvores distantes a 300 metros. Os Fulas não puderam conter a sua surpresa e admiração.

Os Fulas do Forreá, que eu acabara de ver o seu exército quase completo de 600 a 800 homens, são antigos escravos dos Fulas. No seguimento de conflitos com a raça conquistadora, eles obtiveram uma certa autonomia; atualmente eles reconhecem a soberania do rei de Kadé, ele próprio é um dos grandes feudatários do Futa-Djalon.

Os Fula-Cundas, gente pobre e guerreira, só podem assegurar a sua independência conquistando território fora do Futa-Djalon, por isso se lançaram em 1852 sobre o Forreá, que estava nas mãos dos Biafadas, eram conduzidos pelo rei Bacar-Demba e expulsaram-nos para os pântanos da costa e para lá do rio Grande de Bolola; depois, sempre à procura de mais territórios, eles empurraram os Nalus para o Combidiah (será o rio Cumbidjã?). Também têm agora presença no Cogon em Kandiafara, sobre o Cacine na vizinhança das nascentes e sobre o Combidiah. A capital do reino está estabelecida em Bolola, a alguns quilómetros do posto português de Buba.

Inebriado pelos seus sucessos, Bacar-Demba quis tornar-se independente do Futa-Djalon, mas as suas pretensões fizeram sombra aos almamis, para estes o Forreá abre uma das melhores rotas da costa: também Alfa-Ibrahim enviou um exército no país e o rei, bem como o seu irmão Doura e todos os seus filhos foram assassinados por Mody-Yaya, rei de Kadé, que era o executor desta política bárbara. Este príncipe dirigiu-se em seguida para Buba junto dos portugueses e a pedido expresso destes últimos nomeou Mamadu Paté rei do Forreá.

Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
O mapa mostra a proliferação e rios e rias entre o rio Nuno e o rio Geba
Bacary-Lombi, desenho de P. Langlois segundo uma fotografia
Fulas de Kandenbel, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
O intérprete Ibrahima, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Ataque de abelhas, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia
Gravura não identificada, seguramente que não tem base fotográfica

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 29 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28226: Historiografia da presença portuguesa em África (537): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (5): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)