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quarta-feira, 29 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28226: Historiografia da presença portuguesa em África (537): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (5): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 11 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
Recapitulando a matéria dada, celebrada a convenção luso-francesa de 12 de maio de 1886, lá para os finais e 1887, o governo português exprimiu o desejo de que se organizasse uma comissão para a delimitação das fronteiras da Guiné, em dezembro desse ano estavam constituídas as equipas portuguesas e francesas, o Capitão Henri Brosselard dirigia a comissão francesa. É toda esta sua narrativa, que ele irá publicar na revista Le Tour du Monde, que aqui estamos a publicar. Viajou para Bolama, que descreve com algum detalhe, encaminha-se para o Rio Nuno, em Samiah recebe a visita do rei dos Nalus e irá a uma receção ao seu palácio; descreve o Rio Nuno e parte para Kandiafara, percorreu florestas espessas, admirou paisagens deslumbrantes, foram atacados pelas formigas, chegaram ao Rio Compony, deu-se o encontro das caravanas francesas. Vamos continuar.

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 5
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro"Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".

Continuando a descrição da viagem da comissão orientada pelo Capitão Brosselard entre o rio Nuno e Kandiafara, concluímos o texto anterior com a referência a um assalto por formigas, em Samiah, em pleno entreposto, damos de novo a palavra aos comentários na primeira pessoa sobre tais vicissitudes. Uma fila longa e espessa de formigas estendia-se pelas paredes e perdia-se no jardim; a cabeça da coluna das formigas invadiu a galeria do primeiro andar. Foi necessário aquecer água toda a noite e lançá-la sobre este tipo de invasores. Sorte bem triste teria o armazém onde chegassem estas formigas vorazes, numa noite desapareceria tudo o que fosse comestível.

Um animal, fosse um cavalo, um boi ou mesmo um homem, atacado pelas formigas negras, é um ser perdido. Não há muito tempo, a prisão em que um indígena estava encarcerado num posto foi invadida por estes animais ferozes: o homem fartou-se de gritar, em vão. No dia seguinte quando lhe foram levar comida, só encontraram um esqueleto assombrosamente limpo, o homem tinha sido devorado pelas formigas.

A 13 de fevereiro atravessámos pelas margens de um rio de nome Tamalagba a povoação de Kantagara. Trepámos para uma espécie de planalto que separa o Tamalagba do rio de Tomboïa. É aqui que se encontra a povoação com o mesmo nome, no meio de uma floresta de uma robustez extrema. Árvores gigantes cujas raízes se espalham por toda a parte; flores que contém um veneno subtil e difundem um perfume irritante que cobre os arbustos que bordejam o carreiro que estamos a percorrer. Uma encosta suave permite descer da povoação, que está acima a uma centena de metros, até ao rio de Tamboïa. Nesta estação passa-se facilmente a vau, o rio tem uma largura de 70 metros, a água que corre sobre a areia é clara e de boa qualidade.

A coluna continua a sua marcha e iremos fazer uma grande paragem perto da povoação de Brandicara, habitada, como Tomboïa, por emigrados de Tenda. No momento em que o Tenente Clerc chegava com a vanguarda da coluna e fazia o reconhecimento do local para bivacar, uma enorme serpente verde saiu das ervas húmidas à volta do riacho, quase aos pés deste oficial, dirigia-se para ele ameaçador; mas ao ouvir os gritos dos negros que acorreram, desapareceu na alta vegetação. Na região que a nossa coluna estava a atravessar, parece que esta serpente é muito comum e faz numerosas vítimas.

À noitinha, o acampamento estava instalado junto de um ribeiro de nome Katiapé. Corre no fundo de uma ravina profunda com os flancos a pique; e imensas árvores cobrem-na com a sua folhagem.

A 14 de fevereiro atravessámos o ribeiro de Camoïn. Agora o país mudara de aspeto; as árvores atingem proporções gigantescas e crescem muito com as copas cerradas; as lianas e as silvas misturavam-se em todas as direções e uma erva alta, aí de 2,50 metros, cobria inteiramente o chão. É a floresta virgem em todo o seu poder vegetal. Sente-se que um considerável curso de água corre ali perto; é impossível ir reconhecê-lo, impraticável naquele matagal cerrado; porém, os barulhos dos hipopótamos confirmam a sua proximidade. A coluna avança lentamente, o carreiro mergulha muitas vezes numa semiobscuridade e pode-se, coisa rara neste país, caminhar com a cabeça descoberta.

O chão está de tal modo deteriorado pelos elefantes que se torna indispensável caminhar com precaução para não se cair nas fendas que se escondem na espessura das ervas. As palmeiras tornam-se cada vez mais numerosas; abruptamente, na curva do carreiro, uma brecha luminosa aparece na floresta e revela um panorama admirável, está exposto à luz tropical.

Saindo da penumbra da floresta, os olhos ficam ofuscados por tanta claridade. Diante de nós, um rio com a largura de 300 metros e com um considerável volume de água. À direita, a algumas centenas de metros, uma barragem de calhaus mostra-se a descoberto, porque estamos na maré-baixa. As águas galgam-na, impetuosas. Na outra margem avistamos a pequena povoação de Kandiafara, construída em anfiteatro sobre as encostas de uma alta colina, no meio de uma vegetação selvagem e exuberante. À esquerda, os declives abruptos mergulham no rio Cogon. Ambas as margens estão guarnecidas por uma espessa cortina de palmeiras e no fundo do bosque vemos as suas coroas entre a folhagem brilhante.

Os rochedos que canalizam o rio retêm as raízes de inumeráveis plantas de variada folhagem cuja ramagem pende no rio. Este rio majestoso que se estende diante de nós é o rio Compony chamado Cogon pelos indígenas; o tratado de 1886 tornou-o possessão da França. Desfraldo as cores nacionais, e em nome da França tomo possessão do Cogon.

O Sr. Galibert tinha chegado na véspera à noite a Kandiafara, a embarcação e a coluna tinham podido cumprir o seu programa e atingir no mesmo tempo a última escala do rio Compony.

Neste duplo reconhecimento feito por terra e por rio através da região compreendida entre o rio Nunez e o Compony, tínhamos percorrido regiões absolutamente desconhecidas, completamente omitidas nas cartas geográficas, reconheceu-se o curso inferior do Cogon, um dos grandes rios chamados Rios do Sul, cuja existência era contestada.


Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Posto de Benty, desenho de P. Langlois, segundo uma fotografia
Perto do riacho de Camoïn, desenho de A. de Bar, segundo uma fotografia
Embarcação do rei Dinah, dos Nalus, desenho de Weber, segundo uma fotografia
Ambiente do interior de uma habitação Fula, desenho de E. Ronjat, segundo uma fotografia
Um chefe de Simbéli, desenho de E. Ronjat, segundo uma fotografia
Desembarcadouro de Kandiafara, desenho de P. Langlois, segundo uma fotografia

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 22 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28205: Historiografia da presença portuguesa em África (536): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (4): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28205: Historiografia da presença portuguesa em África (536): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (4): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 5 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
Os relatos dos dois principais protagonistas pela primeira demarcação das fronteiras da Guiné portuguesa são indiscutivelmente do maior interesse. O leitor já tem à sua disposição aqui no blogue a narrativa portuguesa que saiu do punho do tenente da Armada Real, Costa Oliveira; a do responsável francês, o capitão Brosselard, não lhe fica atrás, mostra claramente a cultura naturalista que era dominante na sua geração, o seu grau de cultura revela-se na qualidade da exposição e traz-nos outros aportes: logo a convicção da fraquíssima presença portuguesa no rio Nuno, curso de água muito importante para as transações francesas a partir do Futa-Djalon, que eles esbarraram aos portugueses; a teia formada por contratos entre as autoridades francesas e os Nalus; a Guiné Portuguesa ficou com o remanescente da etnia Nalu na região da península de Cacine, etc. Quando as duas comissões se encontrarem, surgiram tensões, a França começará por nos dar uma fronteira a leste que irá regatear noutras etapas da demarcação.

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo capitão Henri Brosselard – 4
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".

A missão francesa encontra-se em território Nalu, mais propriamente na Corte do rei Dinah, em Samiah, a coluna está imobilizada, recrutam-se carregadores, e o Capitão Brosselard aproveita para dar informações sobre o rio Nuno, a situação passada e presente do rio.

Diz que o rio Nuno foi descoberto em 1447 por Nuno Tristão (o que é completamente falso), observa que foi durante bastante tempo um antro de negreiros. Em meados do século XIX, os comerciantes tomaram o lugar dos negreiros e em 1850 havia no rio Nuno cinco entrepostos franceses, três ingleses, um norte-americano e um indígena. Partilhavam um comércio de 4 milhões de francos. Tal como acontecia ainda hoje (entenda-se, na época do relato do Capitão Brosselard) consistia na exportação de café, couro, ouro, marfim, arroz, amendoim, índigo e cera. Hoje há também borracha, acrescenta, partem trezentas toneladas através do rio Nuno. Esta preciosa mercadoria, que pode valer, segundo a sua qualidade, entre 6 a 8 francos o quilo, representa, por si só, a carga para 12 mil carregadores, em todo o transporte no Futa-Djalon.

Os direitos da França sobre o rio Nuno datam do primeiro Tratado do Protetorado, assinado em 28 de novembro de 1865, pelo governador Pinet Laprade e Youra rei dos Nalus. O Posto de Boké foi construído em 1876 e a partir daqui rumou René Caillié para a sua grande viagem através da Senegâmbia e o Sarah. Há aqui perto um monumento edificado pelos cuidados do General Faidherbe que evoca o corajoso empreendimento do nosso compatriota. Em 20 de janeiro de 1884 os Nalus cederam à França o país. O rio Nuno faz parte do grupo dos rios franceses entre a Guiné portuguesa e a Serra Leoa, cada um destes cursos de água vai em direção do Futa-Djalon. Os territórios banhados por estes rios e pelos seus afluentes fazem parte integrante do domínio colonial francês.

Segue-se uma descrição detalhada da região envolvente do rio Nuno.

Vamos agora entrar noutro capítulo, dá-se a partida da missão francesa para Kandiafara, local aprazado para o encontro com a missão portuguesa, esta chefiada pelo Tenente da Armada Real Costa Oliveira. Damos de novo a palavra ao Capitão Brosselard.

"Durante a minha estadia no rio Nuno pude, depois de muitos esforços, recrutar uma trintena de carregadores e organizei a minha pequena coluna que partiu a 10 de fevereiro para Kandiafara. O Sr. Galibert embarcou no navio de Dinah com as bagagens e pessoal doente e sugeri que fosse pelo rio Compony por um afluente que permitia, disseram-me, passar do rio Nuno para o Compony. O Sr. Galibert deveria reconhecer esta passagem assim como o curso do Compony, entre a embocadura e Kandiafara.

Com o pessoal válido, tomei o caminho que conduzia a Kandiafara e no dia 10 à noite pernoitámos em Roppas, escala do rio Nuno e última povoação dos Nalus na margem direita deste rio.

Fomos recebidos no entreposto, outrora um dos primeiros do rio Nuno e que depende hoje da casa Blanchard. Na ausência do responsável, a mulher deu-nos hospitalidade, uma mulata de certa idade que num instante e com o concurso de um grupo numeroso de indígenas organizou a sua casa para nos receber. O entreposto perdeu muito do seu antigo esplendor. Os edifícios caíram em ruínas, os tectos desmoronaram-se, os revestimentos de mármore foram arrancados pelos indígenas só restam vestígios de uma antiga prosperidade.

Em 11 de fevereiro, a coluna deixou Roppas perto das seis da manhã, coluna composta por 3 oficiais, 9 atiradores, 5 estivadores, 5 criados, 17 carregadores. A coluna atravessou a povoação de Patea, depois Caméiompo, por fim Yacoubéia. Os habitantes destas povoações são cultivadores pacíficos. A região que eles habitam produzia no passado muita mancarra, e a importância do entreposto de Roppas era em parte devida à abundância deste produto. Agora a cultura do amendoim parecia substituída, de um modo geral, pelas do milho, sorgo e arroz. São de assinalar algumas plantações de café; todo o planalto, aliás, parece adequado a este tipo de cultura.

A caminho das 9 horas, após termos passado uma espécie de cabeço através de matagais impenetráveis, chegámos abruptamente a uma ravina profunda de 50 metros e achámo-nos na presença de uma vegetação tropical de uma beleza fascinante e de um vigor exuberante. Um espesso tecto de verdura, formado por palmeiras gigantescas, deixa apenas filtrar alguns raios solares, que vêm acentuar os tons da folhagem.

Flores de grande variedade espalham odores inebriantes. A coluna percorre lentamente uma espécie de caminho estreito e tortuoso que foi mantido cuidadosamente no meio deste sítio encantador. Nesta ravina corre um riacho límpido, com água fresca e pura; as suas margens estão cobertas de um espesso tapete de elegantes fetos, tão juntos que parecem um tapete de espuma. Reina aqui uma humidade amena e suave, impenetrável ao sopro da brisa. Pássaros de uma plumagem multicolorida animam com os seus cânticos esta esplêndida solidão; e nuvens de borboletas de asas cintilantes esvoaçam em todas as direções.

Enquanto admirávamos esta poderosa e maravilhosa manifestação da natureza, sussurros característicos faziam-se ouvir à nossa volta: este local encantador estava povoado por um grande número de cobras.

De repente, o caminho, já tão estreito, voltou a diminuir; depois, num desvio, apareceu uma forte paliçada na qual existia uma abertura com a forma de porta. Passámos curvados por ela, e entrámos na povoação de Yaugaïa. Aqui mudou o espectáculo: estamos no meio de um povoado de Landumãs. Árvores da alta floresta cobrem as moranças, geralmente miseráveis; sentados à sombra, homens e mulheres confeccionam cestos elegantes destinados a servir de colmeias para as abelhas. As raparigas e mulheres andam praticamente nuas. O povoado está completamente cercado por uma forte paliçada; do lado da ravina é inacessível; do lado do planalto, a paliçada está reforçada por espessos bananais.

Após uma paragem de algumas horas na floresta, a coluna prossegue viagem, seriam duas horas e meia da tarde. O caminho penetra logo num espeço matagal que bordeja o riacho de Keimeia e desemboca na povoação de Toumané-Badé. Esta povoação, como a precedente, esta protegida dos assaltos devido à espessa vegetação que a envolve. Algumas paliçadas e espessos bananais completam as defesas. Estes bananais são tão cerrados que é impossível passar por eles, e atingem dimensões enormes.

A 12 de fevereiro, a coluna põe-se em marcha às 6 horas da manhã; a floresta na qual se pernoitou desaparece rapidamente, dando lugar a uma imensa pradaria onde grandes antílopes, surpreendidos pela vanguarda da coluna, não tiveram tempo de evitar os tiros que lhes fizeram baixas. Aves pernaltas, galinholas, flamingos e outros pernaltas são os hóspedes habituais deste solo verde e um pouco pantanoso. À nossa aproximação, ainda entorpecidos pelo frio húmido da manhã, parece que se põe a voar com um certo desgosto. A pradaria é atravessada pelo Bouroumda, que sai de uma estreita garganta aberta entre duas colinas e desaparece mais adiante numa floresta espessa e impenetrável que se estende à volta da pradaria. Faz-se um alto num bosque com árvores magníficas, à sombra temos uma fonte de água deliciosa; infelizmente, as abelhas disputam-nos este lugar de repouso, por isso tivemos de partir.

A coluna é surpreendida pela noite antes da nossa chegada ao acampamento. Instalámo-nos à luz de uma imensa fogueira. A meio da noite fomos bruscamente acordados por uma gritaria que vinha de todos os lugares do nosso acampamento. Num instante todo o pessoal se pôs de pé e apercebemo-nos à luz do fogo que o acampamento fora invadido por legiões de formigas. Todos os objectos colocados no chão desapareciam sobre a acumulação de terra amontoada por estes minúsculos trabalhadores; os nossos objectos iam sendo devorados, incluindo os nossos mosquiteiros que nos cobriam já estavam esburacados. A obra das formigas é extraordinária; porém, elas não atacam seres vivos, enquanto as suas congéneres, as formigas negras, são de uma ferocidade extrema."


Territórios franceses da Senegâmbia e do Sudão, com destaque para a Guiné Portuguesa
Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 15 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28185: Historiografia da presença portuguesa em África (535): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (3): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28185: Historiografia da presença portuguesa em África (535): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (3): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 28 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
Encontro aspetos surpreendentes nesta viagem do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada província da Guiné. Considero esta narrativa da melhor utilidade e sugiro a sua comparação com a do Tenente da Armada Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, já aqui publicada. Brosselard saiu de Bolama, que descreveu com detalhe, promete encontrar-se com Costa Oliveira em Kandiafara, no dia 12 de fevereiro, entretanto encontra-se com o rei dos Nalus, uma narrativa espantosa, e irá dar-nos seguidamente um retrato da visita que faz ao rio Nuno, dizendo erradamente que foi descoberto por Nuno Tristão em 1447 (Nuno Tristão foi assassinado no rio Gâmbia, norte da Grande Senegâmbia, nunca chegou a terras da Guiné e por conseguinte não podia ter chegado ao rio Nuno).

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (3)
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro Guiné Bilhete de Identidade Tomo II.

Henri Brosselard descreveu Bolama, onde se veio a encontrar com Costa Oliveira, procurou organizar os aprovisionamentos para a expedição, irão ser expedidos para Bissau, combinou com Costa Oliveira encontro em Kandiafara em 12 de fevereiro, por se supor estar situada na vizinhança da linha fronteiriça. É aqui que recomeço o texto de Brosselard.

Entretanto o Aviso Dakar veio fundear diante de Bolama, em 4 de fevereiro. A comissão francesa tomou mediatamente as suas posições para o embarque de pessoal e bagagens. No dia seguinte partimos para o rio Nuno.

Depois dos trâmites alfandegários, o Dakar passou o entreposto de Bel-Air e acabou por fundear no entreposto de Samiah. Desembarcámos e instalámo-nos na feitoria que pertence à Casa Blanchard, fomos amavelmente recebidos nesta propriedade fortificada.

Informado da nossa chega ao rio Nuno, o rei dos Nalus veio fazer-nos uma visita em Samiah. No dia seguinte, acompanhado dos meus oficiais, visitei o rei Dinah na sua residência. O palácio real é uma residência notável, situa-se à beira do rio, a povoação terá 600 habitantes. Desembarcámos sem dificuldade, havia maré-alta. O rei sabia fazer as honras da hospitalidade, revelava uma compostura europeia.

Atravessámos três filas de paliçadas e postigos de vigia bem defendidos, caminhámos à direita e à esquerda por muros altos que envolvem as casas das pessoas importantes do círculo real e penetrámos no reduto onde se encontram as cinco habitações reais, quatro das quais tinham a forma aproximada de casas europeias, as paredes são em adobe e a cobertura em palha, muito espessa; uma casa maior tinha forma circular, era o salão de receção, contiguo estava o quarto onde o rei dorme e toma as suas refeições. Ficámos na varanda onde os músicos manejavam os balafons e cantavam em homenagem aos hospedes do rei.

Após um compasso de espera, passámos ao salão, tinha uma mesa e cadeiras, um certo conforto europeu, e uma limpeza admirável, serviam cerveja e limonada como refresco. O quarto do rei Dinah, contiguo ao salão de receção, estava mobilado com um conforto que nos surpreendeu. Amplo, coberto com um teto, as paredes forradas com esteiras, uma grande cama no meio, coberta com mosquiteiro, aqui e ali cadeiras estofadas; nas paredes, havia gravuras francesas e inglesas, espelhos deslumbrantes e garridos, um relógio de cuco e a dar horas! No toucador, todo o necessário em porcelana e cristal; ali perto um cofre-forte contendo o tesouro e os arquivos do reino; é ali que está preciosamente guardado o Tratado passado em nome da França com o predecessor de Dinah. Uma outra habitação está reservada a morada das mulheres. Dinah apresentou-as com orgulho, se bem que elas sejam pouco prendadas pela beleza.

No pátio desta casa os escravos pilam o milho miúdo. Inútil dizer que estes escravos são mulheres, porque em África um indígena sentir-se-ia desonrado se fosse condenado a este género de trabalho. A quarta casa continha os abastecimentos de arroz e milho, bem como o local reservado aos estábulos. Dinah tem um cavalo, aliás possante e raro, e quase desconhecido nesta costa de África. Enfim, a quinta casa composta pela sala da Justiça e as prisões. Atravessando o pátio, o rei mostra-nos os poços onde o seu pessoal se abastece de água; vemos seguidamente a cisterna. É Dinah quem guarda a chave do cadeado da cisterna para se precatar de qualquer tentativa de envenenamento.

Na sua imaginação bárbara, Youra, o predecessor de Dinah, tinha inventado suplícios que inspiravam terror a todo o povo. Um desses suplícios, que ainda se praticava há pouco tempo, consistia em prender o supliciado no momento da maré-baixa a um porte no rio; quando subiam as águas, o infeliz via pouco a pouco a água chegar à boca que ele se esforçava por fechar, o nível da água, entretanto subia, invadia as narinas provocando uma asfixia lenta.

Dinah Salifou tinha sucedido ao seu tio Youra, conforme o costume que rege os direitos da sucessão. O filho mais velho de um irmão de Youra, um certo Tocha, primo direto de Dinah procura contrabalançar o prestígio do rei e ganhou adeptos que parecem ser em grande número entre os chefes Nalus. A influência moral de Tocha supõe-se ser mais forte que a do primo e Dinah, sem o apoio que lhe dá França, estaria provavelmente há muito tempo destronado. Os dois primos detestam-se, admite-se que pode haver atentados de um contra o outro (e o Capitão Brosselard conta duas histórias de tentativas dos primos em matarem-se).

Voltando ao relato na primeira pessoa, o Capitão Brosselard, que tinha curiosidade em ver frente-a-frente os dois, convidou-os a almoçar no mesmo dia em Samiah. No dia aprazado, perto das dez horas os cânticos barulhentos dos músicos que marcam a cadência aos remadores anunciaram a chegada da embarcação real, no mastro flutuavam as cores francesas. Dinah veste com aparato, traz uma espécie de estola de veludo coberta de bordados a fio de ouro; avança com passadas comedidas, com a gravidade que convém a um grande rei. Tocha chega por sua vez; o seu primo apresenta-o e expõe os laços de parentesco existentes.

Na sala de jantar cada um toma o lugar à mesa. Dinah senta-se no lugar de honra, à sua frente senta-se o Tenente Clerc, com o qual Dinah conversa em inglês. O rei tem boa figura, tem o aspeto de um europeu bem-educado, maneja com facilidade a faca e o garfo. Tocha é mais hesitante, antes de levar a comida à boca observa os seus vizinhos para os imitar. Na conversação, Dinah, por cortesia com o chefe da missão, recorda factos agradáveis sobre o General Faidherbe quando ele foi Governador do Senegal; são lhe dadas notícias do general, o rei mostra satisfação em voltar a vê-lo se puder visitar a exposição em 1889.

Durante este período em que a minha coluna está imobilizada em Samiah para recrutar carregadores, tive o prazer de percorrer o rio Nuno e de recolher informações sobre a situação presente e o passado deste rio.

É com esta descrição que iniciaremos o texto seguinte.


Praia de Bolama: Porto Beaver, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia
Territórios franceses da Senegâmbia e do Sudão, com destaque para a Guiné Portuguesa
Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Carregadores e guias, desenho de E. Ronjat, segundo uma fotografia
Ataque de abelhas, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia
O rio Grande do Geba, desenho de P. Langlois, segundo uma fotografia
Interior do estabelecimento comercial Maurel e Prom em Bolama, desenho de Taylor, segundo uma fotografia
Carta do território francês do Casamansa e distrito do Cacheu, feita pelo Capitão Henri Brosselard, dá perfeitamente para ver a região do Casamansa que detinha presença portuguesa, com sede em Ziguinchor, e que nos foi surripiada pela Convenção Luso-Francesa de 12 de maio de 1886. A República do Senegal vive em permanência a rebelião do Casamansa, por razões fortemente étnicas, os povos do Casamansa, Djolas, não querem pertencer ao Senegal.
Uma das muitas imagens da Exposição Universal de Paris de 1889, referida na conversa entre o rei dos Nalus e o Capitão Henri Brosselard

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 8 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28164: Historiografia da presença portuguesa em África (534): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (2): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28164: Historiografia da presença portuguesa em África (534): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (2): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
Importa explicar ao leitor que me sinto numa fase experimental nesta tentativa de coligir importantes relatos de olhares estrangeiros sobre a Província da Guiné nascida em 1879. Estou absolutamente convencido que fazer a História da Guiné exige uma multiplicidade de relatos que se prendem com o espaço da Senegâmbia, há que ter em conta os contributos de Cabo Verde e de espaços que hoje se designam por Senegal, Guiné-Conacri, talvez mesmo a Serra Leoa. Fui atraído pela perspetiva de que na Biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa se possam encontrar relatos de primeiríssima água e então este projeto teria pernas para andar, vamos confiar que há matérias palpitantes para engalanar o barco. O relato do Capitão Brosselard pareceu-me da maior utilidade e premência, Brosselard irá falar também da Senegâmbia, da terra dos Bagas e do Futa Djalon, regiões que antes de haver Província tinham bastante trato comercial com a nossa Pequena Senegâmbia. Devia esta explicação ao leitor, pois não se deve excluir que em determinado momento eu possa sentir que as fontes se secaram ou que dei com o nariz na porta.

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - I:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (2):
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

Não quero induzir o leitor em falsas esperanças, peço que se tome esta iniciativa de procurar ver a Guiné pelos olhares de estrangeiros, em tempos do Terceiro Império, ou seja, a partir do último quartel do século XIX, em publicações que estejam depositadas na Biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa, a título experimental. Não consigo vislumbrar se há muitos títulos interessantes que aqui se possam reportar. O tempo dirá.

Na continuação do ponto 3 que vem do anterior texto, é importante dizer que o relato do Capitão Henri Brosselard-Faidherbe me pareceu um bom ponto de partida, e espero ampliar o que ele escreve sobre a Guiné mostrando o mundo envolvente do que então se denominava por África Ocidental Francesa. Como vivemos tempos de grande imprevisibilidade, repito que vamos ver se a experiência resulta e se será possível encontrar textos de indiscutível valia. É este o aviso à navegação que faço. A publicação Le Tour du Monde era de grande qualidade e há imagens de cortar o fôlego. Quem então a dirigia tomou iniciativa de convidar Brosselard a contar o seu ponto de vista sobre a demarcação das fronteiras entre a possessão portuguesa e as francesas. O Capitão é o chefe da missão francesa parte para Bolama e interrompemos a narrativa precisamente com a descrição que ele faz da ilha e de quem a povoa. Retomando o texto anterior, damos de novo a palavra a Brosselard, não nos esqueçamos de que estamos em fevereiro de 1888.

Bolama passa por insalubre de junho a dezembro devido às chuvas que começam no fim de maio e vão até ao final de setembro, nessa época de chuvas aumenta a humidade durante as noites, o que é pernicioso para a saúde.

Os indígenas dos Bijagós são pretos rudes, mas empreendedores e navegadores intrépidos. Podemos vê-los nas suas pirogas a afrontar o mar mesmo no mau tempo. Na época do tráfico negreiro multiplicaram-se as incursões dos Bijagós no continente, pareciam piratas costeiros, raptavam os habitantes para os vender aos negreiros. No século passado vendiam de 300 a 400 cativos por ano; a sua obsessão pela aguardente levava-os mesmo a venderem-se uns aos outros. Todavia, os negreiros tinham pouco interesse nos escravos Bijagós.

Levados para o continente americano, só trabalhavam à custa de pancada, procuravam sempre fugir e acabavam por se enforcar.

As ilhas do arquipélago são muito vicejantes: a praia coberta de areia fina, as árvores chegam à beira-mar, as palmeiras e as laranjeiras formam espessas florestas. A vegetação é sempre verde. As bananeiras e laranjeiras dão frutos deliciosos. São ilhas encantadoras, mas o seu acesso ao navegador é dos mais arriscados, pois na orla marítima há muitos bancos do lodo mole, misturados de areia que as correntes deslocam muitas vezes, o que impõe imensa prudência na navegação; as correntes são numerosas e fortes, os barcos são facilmente desviados da rota ou podem mesmo naufragar. Quando um navio naufraga, surgem pirogas de todos os pontos do horizonte e a coberta do navio naufragado é tomada de assalto pelos Bijagós.

1 - As possessões portuguesas costeiras estavam dependentes da administração de Cabo Verde, do arquipélago chegava um Governador que dependia diretamente do Governador de Cabo Verde, dispunha de alguns subordinados e de uma centena de soldados, a maior parte eram indígenas de Cabo Verde.
Os portugueses ocupavam na Guiné Ziguinchor, Cacheu e Farim, Bissau e Geba. Em 1870 decidiu-se agrupar estes entrepostos em colónia autónoma. Bolama foi escolhida a Bissau como capital devido ao seu clima ser reputado como mais saudável.

Para criar recursos financeiros, estabeleceram direitos alfandegários e um ruinoso importo sobre a terra, dito imposto predial rural que imobilizou logo as tentativas agrícolas que estavam em curso em diferentes lugares devido a iniciativas de casas comerciais. A crise agrícola foi enorme, seguiu-se a crise comercial que atingiu muitos estabelecimentos franceses, que eram responsáveis por quase a totalidade do comércio da Guiné Portuguesa: Blanchard e Companhia; J.-B Pastré e Companhia; Maurel e Prom; Thiraiziot, Meinet; Oesliner de Conning. Estas casas eram as únicas a deter o monopólio da exportação, os estabelecimentos portugueses davam-lhe colaboração. A importação, salvo o tabaco que vinha da América, era essencialmente europeia. Hoje a importação diminuiu e a exportação não se dirige mais exclusivamente a Marselha, pois uma linha de vapores portuguesa serve a Guiné com um serviço regular, o que permite aos comerciantes portugueses poderem abastecer-se diretamente da metrópole. Parece à primeira vista que para eles seria mais fácil fazer concorrência ao comércio francês, já que eles estão protegidos por direitos alfandegários e municipais. Mas tal não acontece: estes comerciantes não têm um crédito suficiente para comprar as mercadorias que só são fornecidas em grandes quantidades e com obrigatoriedade de serem pagas num lapso de tempo curto; por isso os comerciantes portugueses continuam a fazer os seus negócios com as casas francesas.

2 - Apesar dos recursos de toda a natureza que a Guiné quase possui, o sistema de impostos introduzidos pela Administração arruína a colónia. Constatamos com pesar que os portugueses não parecem querer alterar esta deplorável situação. E na falta de artigos, porque não há por exemplo tabacos portugueses, encoraja-se o contrabando.

Desde a minha chegada a Bolama que me ocupei do recrutamento de transportadores. Pretendia recrutar entre 20 a 30 destes indispensáveis auxiliares. Em Bolama deparei-me com uma dificuldade intransponível para encontrar os auxiliares. O Tenente Oliveira, chefe da delegação portuguesa tinha arrebanhado ali todos os que estavam dispostos a cooperar com esta missão e dispunha já 50 carregadores, o que era ainda um número insuficiente. E punha-se, pois, procurar o aprovisionamento fora de Bolama.

Ficou decidido que a canhoneira Guadiana transportaria até Bissau os senhores Galibert e Cabral que iriam tentar recrutamento dos carregadores. Partiram a 1 e regressaram a 3, não tinham tido o menor sucesso. Decidi imediatamente que a comissão francesa deveria dirigir-se para o rio Nuno havia aqui uma maior possibilidade de arranjar transportadores que na colónia portuguesa.

Os aprovisionamentos, organizados em dois carregamentos distintos e destinados a subir mais tarde o rio Geba foram embarcados para Bissau, onde o senhor Galibert os confiou ao representante da casa Blanchard. Depois de negociar com a comissão portuguesa, acertámos o encontro em Kandiafara em 12 de fevereiro, por se supor que esta povoação estava situada na linha fronteiriça que tínhamos o propósito de determinar.


Praia de Bolama: Porto Beaver, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia
Territórios franceses da Senegâmbia e do Sudão, com destaque para a Guiné Portuguesa
Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Carregadores e guias, desenho de E. Ronjat, segundo uma fotografia
Ataque de abelhas, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia
O rio Grande do Geba, desenho de P. Langlois, segundo uma fotografia
Interior do estabelecimento comercial Maurel e Prom em Bolama, desenho de Taylor, segundo uma fotografia
Carta do território francês do Casamansa e distrito do Cacheu, feita pelo Capitão Henri Brosselard, dá perfeitamente para ver a região do Casamansa que detinha presença portuguesa, com sede em Ziguinchor, e que nos foi surripiada pela Convenção Luso-Francesa de 12 de maio de 1886. A República do Senegal vive em permanência a rebelião do Casamansa, por razões fortemente étnicas, os povos do Casamansa, Djolas, não querem pertencer ao Senegal.

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 1 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28147: Historiografia da presença portuguesa em África (533): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (1): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28147: Historiografia da presença portuguesa em África (533): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (1): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)




1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 15 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
Recorrendo à fantasia, aí quando eu tiver 105 anos dá-me um treco em plena Biblioteca da Sociedade de Geografia, de onde não posso desandar, há sempre uma reminiscência guineense que espera por mim. Pretendia arrumar e preparar volume com as grossas centenas de páginas da papelada do Boletim Oficial e derivar para outras leituras e escritos e, como nos contos de Sherazade, a Dra. Helena Grego lembrou-me que há muitas mais leituras a fazer em terreno ignoto, referindo-se ao apreciável volume de publicações naquela biblioteca onde de poderão catar relatos de estrangeiros sobre a Guiné. E pôs-me em cima da secretária Le Tour du Monde. Não resisti, começo hoje o relato do Capitão Brosselard, em finais de 1887 foram-lhe atribuídas as funções de comissário do lado francês para a demarcação das fronteiras. Morreu prematuramente, deixou-nos um relato digno de ser visitado e as imagens de Le Tour du Monde são por vezes de uma beleza inexcedível. Os dados estão lançados, vamos ver se me aguento no balanço.

Um abraço do
Mário


A Guiné vista por estrangeiros - I:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (1):
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

Tenho uma confissão a fazer ao leitor. Concluída a pesquisa a mais de 100 anos do Boletim Oficial da Província da Cabo Verde e Costa da Guiné até à Província da Guiné, projetei começar a sistematizar as cerca de 500 páginas de material compulsado, é certo que não passa de uma ferramenta auxiliar para estudiosos de várias procedências, e deixar as investigações sobre a Guiné em banho-maria. Conversando com a Dra. Helena Grego, uma bibliotecária devotada, que me tem dado apoio sistemático nos últimos quinze anos, e dando-lhe conta de que queria agora fazer uma investida no mundo da ficção, reagiu, nem pensar, tem ainda muito trabalho aqui para fazer, nunca se fez o levantamento dos últimos séculos de como autores estrangeiros viram a Guiné. Sugiro que comece pelo artigo assinado pelo Capitão Henri Brosselard-Faidherbe (1855-1893), que coordenou a primeira comissão de demarcação de fronteiras pelo lado francês, logo em 1888, ele foi também sócio correspondente da Sociedade de Geografia de Lisboa, à semelhança do Tenente da Armada Real Eduardo João da Costa Oliveira, que coordenava pelo lado português essa primeira comissão de demarcação de fronteiras, ele era o sócio n.º 1878 da Sociedade de Geografia de Lisboa (o relato do Tenente da Costa Oliveira fará parte do meu livro "Guiné Bilhete de Identidade, Tomo II, Da Pequena Senegâmbia à Guiné Portuguesa").

Vamos ver se tenho arcaboiço para tal expedição, desconheço as toneladas de papel que me podem estar reservadas, e sabe-se lá em que idiomas. À secretária, recebo três tomos da Revista Le Tour du Monde, de facto só o relato do Capitão Brosselard se prende especificamente com a Guiné Portuguesa, nos outros dois volumes são tratados os temas da Terra dos Bagas e do Rio Nulo e também do Futa-Djalon. Vou então lançar-me ao trabalho, peço desculpa ao leitor se a minha tradução for manhosa.

1 - No ano de 1887, as Câmaras francesa e portuguesa ratificaram uma Convenção relativa à delimitação das possessões franco-portuguesas da costa ocidental de África. Antes da assinatura da Convenção, os territórios ditos Rios do Sul do Senegal, compreendidos entre Dakar e a Serra Leoa, estavam submetidos à autoridade da França ou reconhecida a sua soberania, à exceção de Bathurst, na Gâmbia e de alguns entrepostos portugueses disseminados entre o Casamansa e o rio Grande de Bolola.

Na região dita dos Bijagós, os estabelecimentos franceses e portugueses, cuja origem remonta a um passado longínquo, achavam-se muitas vezes na orla costeira, encravados uns nos outros. Esta situação não deixava de criar dificuldades entre os comerciantes e as autoridades das duas nações.

A Convenção franco-portuguesa teve por objetivo pôr termo a estas situações, reconhecendo os direitos dos portugueses na região onde estavam agrupados os seus entrepostos de Cacheu, Farim, Bissau, Geba, Buba e Bolama. Ziguinchor, no Casamansa, foi entregue à França.

O território português denominado Guiné Portuguesa, constituía um enclave no meio do enorme território que está submetido à França ou dependente da sua soberania. O rei de Portugal fez o reconhecimento do protetorado estabelecido pela França no território do Futa-Djalon, na sequência dos tratados feitos com os almamis (líderes) em 1881.

Em finais de 1887, o Governo português exprimiu desejo de que o tratado fosse aplicado sem demora e os dois Governos concertaram-se para a constituição de uma comissão de delimitação de fronteiras. Em dezembro de 1887, o Capitão Henri Brosselard-Faidherbe, oficial às ordens do Ministro da Marinha, foi designado para as funções de comissário do Governo francês. É o relato da sua última viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa que temos o privilégio de poder oferecer aos leitores.


2 - Em dezembro de 1887, organizei a missão que me fora confiada, tendo como adjunto o Tenente de Infantaria Clerc e o Sr. Galibert, publicista, que outrora tinha procurado fazer fortuna na costa de África, veio oferecer-me os seus serviços, que eu aceitei.

Desembarcámos em Dakar a 13 de janeiro. No Senegal o Governador designou o Dr. Noury, médico da Marinha, para se juntar à comissão. De regresso a Gorée, ocupei-me a organização minuciosa da exposição. Confecionaram-se modelos específicos de tendas, camas e outros objetos destinados aos oficiais, bem como trinta caixas de forma cúbica, com 40 cm de cada lado. Dois carregamentos deviam subir o curso do rio Geba e outros dois igualmente deviam ser agrupados no curso do rio Cacheu. A comissão devia estar munida de um bote.

Em 26 de janeiro partiu-se de Dakar num aviso (um navio pequeno e rápido) com pessoal indígena, os carregamentos e bagagens. A comissão portuguesa era composta do Tenente Costa Oliveira, Tenente da Armada Real, o Sr. Cabral, antigo Secretário-Geral, e o Sr. Bacelar, Capitão de Cavalaria e especialista em topografia. Durante alguns dias visitou-se Bolama e arredores.


3 - A capital da Guiné Portuguesa situa-se na ilha do mesmo nome, a extensão é de 8 milhas de leste a oeste por 3 ou 4 milhas de norte a sul.

Tem uma rica vegetação e possui árvores comercialmente muito procuradas. O desembarque faz-se sem recurso a um pontão. Para chegar a terra, os europeus são obrigados a desembarcar às costas de um homem. Quanto às mercadorias transportadas nos navios de uma certa tonelagem, é preciso transbordá-las em pequenas embarcações que dão à costa na maré alta e o desembarque faz-se com a maré baixa.

Acima do porto, a vila espraia-se em anfiteatro, sobre uma inclinação suave que desce de uma vasta planura até às margens arenosas. O bairro europeu foi construído em pedra; a maior parte das casas tem dois andares e são revestidas de telhas.

O porto, na maré alta, acha-se a dez metros do grande estabelecimento da casa Maurel e Prom; mas na maré baixa mais de duzentos metros separam a água do cais, são duzentos metros de terreno lodoso com restos de barros e detritos.

O bairro indígena está construído na parte norte; as casas são construídas em adube, cobertas de palha que é retirada na época seca para se evitarem os incêndios. O Governador está instalado num edifício que se destaca pelo seu aspeto elegante e bem conservado. Uma capela pitoresca envolvida por um caramanchão de folhagem ergue-se numa colina da vila, bem perto um hospital de construção simples montado em pilares; na mesma colina construíram-se recentemente casernas.

A população da ilha estava estimada em 3.730 habitantes, compõe-se de europeus, mestiços e pretos; os europeus serão em número de 150, os mestiços cerca de 1.000. A guarnição é de cerca de 400 homens. Em Bolama está metade desse contingente composto em grande parte de angolanos enquadrados por europeus.

Os portugueses só tomaram posse de Bolama em 1870; o concelho de Bolama inclui a ilha das Galinhas, as duas ilhas estão separadas por um canal com cerca de 3 milhas. Nas águas das duas ilhas são abundantes as tartarugas e a pesca é bastante lucrativa.


Praia de Bolama: Porto Beaver, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia
Territórios franceses da Senegâmbia e do Sudão, com destaque para a Guiné Portuguesa
Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Carregadores e guias, desenho de E. Ronjat, segundo uma fotografia
Ataque de abelhas, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia
O rio Grande do Geba, desenho de P. Langlois, segundo uma fotografia
Interior do estabelecimento comercial Maurel e Prom em Bolama, desenho de Taylor, segundo uma fotografia
Carta do território francês do Casamansa e distrito do Cacheu, feita pelo Capitão Henri Brosselard, dá perfeitamente para ver a região do Casamansa que detinha presença portuguesa, com sede em Ziguinchor, e que nos foi surripiada pela Convenção Luso-Francesa de 12 de maio de 1886. A República do Senegal vive em permanência a rebelião do Casamansa, por razões fortemente étnicas, os povos do Casamansa, Djolas, não querem pertencer ao Senegal.

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 24 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28129: Historiografia da presença portuguesa em África (532): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1974, depois do 25 de abril (91) (Mário Beja Santos)