1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 19 de Fevereiro de 2026:
Queridos amigos,
Temos agora uma narrativa sobre a caça ao hipopótamo na região de Kandiafara. Vai aparecer o comissário português, o Tenente Costa Oliveira, da Armada Real, vem acompanhado, traz dez dias de atraso, tinha desembarcado nas margens do rio Cajet, só encontrara obstáculos, por embarcação pôde subir até Cantagniès (provavelmente o Cantanhez). A partir de agora as duas missões andarão irmanadas, irão prosseguir até encontrar as respetivas colunas de carregadores; outro membro da comissão francesa irá reconhecer o curso do Corubal, saber se este comunica com o rio Grande de Bolola. Creio que o leitor apreciará este documento histórico alusivo à primeira demarcação das fronteiras da Guiné, será aqui que se selará o destino de Ziguinchor e de todo o Casamansa de português.
Um abraço do
Mário
A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 9
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette
Mário Beja Santos
A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".
Vimos no texto anterior que o Sr. Galibert recebeu a incumbência por parte do Capitão Brosselard para fazer uma exploração no rio Cogon; experiência sem sucesso, agora o Capitão Brosselard relata uma experiência que ele viveu e que culminou com a morte de um hipopótamo, como se escreve.
Avistou-se um dia na margem oposta um enorme crocodilo que espreitava macacos. Querendo afastar estes perigosos animais das águas de Kandiafara, nas quais as pessoas da nossa missão se banhavam diariamente, dei ordens para atirar sobre eles quando os avistássemos na vizinhança do acampamento. O crocodilo não parecia mover-se, mas depois se ter atirado várias vezes embarquei no barco à vela com o Sr. Galibert e dois estivadores, e dirigimo-nos para a margem oposta.
O crocodilo mergulhou e apareceu a uma certa distância, a embarcação vigiava os seus movimentos e cada vez que ele aparecia davam-se mais tiros. De repente, na vizinhança do barco apareceram dois hipopótamos e olharam-nos com surpresa. Tive o despropósito de disparar sobre um deles, o monstro deu um salto enorme acompanhado de um barulho tal que quem estava na margem se apavorou, pensando o pior. O Sr. Galibert manobrou o barco para meio do rio, sabia por experiência que se navegássemos para um baixio, onde a besta tivesse pé, estávamos perdidos. De súbito, a um metro apenas da embarcação o monstro pôs a cabeça fora de água: a proa guinou e ergueu-se e houve um barulho sinistro que parecia anunciar que a frágil embarcação ficaria em mil pedaços. Achando-me de pé, fui atirado borda fora, isto enquanto a embarcação se enchia de água. Chegou-se à margem direita com dificuldade: não era sem tempo.
Contrariamente a uma opinião muito difundida, os hipopótamos só atacam quando pensam estar ameaçados, os indígenas dão-lhes caça, conhecendo esta particularidade. Tivemos ocasião de assistir a estas caçadas e, em cada uma delas, é utilizado o mesmo método: os monstros eram assinalados na proximidade de um banco de areia e os indígenas atiravam sobre os que se encontravam fora de água. Uma piroga dirigia-se ao mesmo tempo para um deles, o hipopótamo não demorava a dar caça à embarcação que se refugiava prudentemente no banco de areia. O hipopótamo não parava, perseguia os caçadores, começava o tiroteio e o animal ficava num estado enfurecido, dirigia-se contra os agressores, mas, como a sua marcha é lenta não lhes permitia chegar aos caçadores a tempo. Estes vão atirando à queima-roupa, especialmente sobre os olhos e a besta enorme ficava rapidamente cega. Seguiam-se as arremetidas com lanças e golpes de sabre usados para lhes quebrar os jarretes (acima do joelho). O animal cambaleava, a luta tornava-se desigual: o sangue escorrendo por todas as feridas. Nesta altura aumenta o número de caçadores, o solo está empapado de sangue.
Animal esgotado, a sentir que chegou a sua hora, a procurar ainda fugir para o rio, aqui entrando e mergulhando. A superfície da água a ficar rapidamente vermelha, e este indício sangrento indica aos carrascos onde ele está, perseguem-no dando gritos horríveis. O animal, a morrer, é, entretanto, obrigado a vir frequentemente respirar à superfície. A piroga segue-o de perto, levada por dois negros vigorosos: um rema, o outro maneja uma lança de ferro, fere o animal sempre que pode. Não é raro ver a piroga erguer-se e afundar-se. Quando isto acontece, os negros nadam e põem-na a flutuar; a sua vítima, que já não pode distingui-los também já não pode atacá-los com as suas poderosas mandíbulas. Por último, o hipopótamo dirige-se em direção a terra para expirar. Aqui chegado, ele para, a sua respiração é ruidosa, o seu dorso agita-se com violência. Os indígenas dançam, gritam e assistem à agonia do monstro, agonia que por vezes se prolonga por horas.
Os negros são apreciadores da carne de hipopótamo; os primeiros colonos portugueses da Guiné gostavam muito deste alimento e os padres autorizavam mesmo que a comessem à sexta-feira, pois consideravam que o hipopótamo era um peixe.
Durante a nossa estadia em Kandiafara enviei mensagens em diferentes direções para recolher informações sobre a digressão dos portugueses. Ninguém podia atravessar as linhas de demarcação marcadas pelo limite atual da invasão Fula. Todos os caminhos estavam sob vigilância, faziam-se emboscadas nas florestas aos infelizes Nalus quando procuravam escapar aos seus invasores.
A presença da missão não fez cessar os ataques invasores. Assim vi-me obrigado a fazer advertências a Bacar-Lombi, fazendo-lhe saber oficialmente que se eu soubesse que uma povoação Nalu fosse atacada eu iria defendê-la, tomando partido contra o agressor. Na esperança de obter algumas informações, enviei um intérprete a Buba, mas o comandante da praça nada sabia. Temia-se que o Sr. Costa Oliveira estivesse a enfrentar grandes dificuldades: a situação política do país permitia admitir a hipótese de uma resistência armada dos indígenas.
Bacar-Lombi pôs muitas dificuldades para fornecer carregadores. Foi enviando gente em pequenos contingentes, exigindo caso a caso um novo testemunho de reconhecimento. Os que estavam prometidos para 22 só chegavam a 23; enviei ao chefe Fula o intérprete Ibrahima, com ordem de pedir explicações. Nessa circunstância este chefe ganancioso respondeu que “lhe tinha sido prometido como presente dois barris de pólvora e que ele só tinha recebido um; que os brancos não cumpriam a sua palavra e que ele não se sentia obrigado a cumprir a sua”.
O intérprete observou-lhe tinha sido enviado um barril com um conteúdo com o dobro que os de uso habitual. “Pouco importa, respondeu Bacar: prometeram-me dois barris e eu só recebi um”. O intérprete deu-me conta da sua missão e foi enviado um segundo barril a Bacar-Lombi. Ele decidiu agradecer e aproveitou para dar sinal que exigia mais para haver boas relações, pediu açúcar e frascos de perfume. Recebeu açúcar e o incidente ficou sanado. No mesmo dia chegava um correio do Sr. Oliveira, o comissário português estava em Cantagniès (provavelmente Cantanhez) e anunciava-se para o dia 25. A 24, chegou um segundo correio: a missão portuguesa estava em Simbéli. A 25, encontro-me com os portugueses, com os Srs. Oliveira e Cabral. O Capitão Bacelar, teve de regressar a Bolama para repatriar uma parte do pessoal, recrutar novos carregadores e organizar uma coluna de víveres. O comissário português explica que veio atrasado dez dias porque procurou atravessar a região essencialmente pantanosa que separa o Cacine do Compony. Após ter desembarcado nas margens do rio Cajet, não pôde fazer uma só etapa em direção ao leste, detido pela vegetação cerrada e os lodos profundos, precisou de subir a norte e assim alcançar o Cacine. Neste rio, graças a Sayon-Sallifou, que no cumprimento das minhas instruções procurara embarcações, a missão portuguesa pôde subir até Cantagniès. A partir daqui dirigiu-se para Kandiafara seguindo o caminho anteriormente utilizado pelo Tenente Clerc.
Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia

Carta da Guiné em 1897, proveniente do Arquivo Histórico Ultramarino, houve depois alteração de fronteiras
Carta geográfica da autoria do capitão Henri Brosselard referente ao Casamansa e o distrito de Cacheu, podemos ver como o Governo português reivindicava o território até ao Rio Casamansa e como acabou o esbulhoOs homens sobem para a piroga, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia
Cúter (designação do barco) da ilha de Gorée, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia
O Casamansa em Carabane, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia
(continua)
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Nota do editor
Último post da série de 19 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28271: Historiografia da presença portuguesa em África (540): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (8): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)




































