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quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28314: Historiografia da presença portuguesa em África (542): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (10): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 25 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
Graças à preciosa colaboração da Biblioteca da Sociedade de Geografia, encontrou-se o mapa contemporâneo desta viagem do Capitão Brosselard que de Bolama desceu ao rio Nuno, subiu o Compony e já está em Kandiafara e conjuntamente com o seu colega português irão em direção a Dandum. É uma narrativa muito impressiva, recheada de pormenores, há quem procure a ligação entre o rio de Buba e o Corubal, a coluna já foi fustigada por um ataque de abelhas, nos acampamentos andam as cobras em perseguição dos ratos, jovens Fulas carregadoras ameaçaram fazer greve, a vegetação é deslumbrante e agora chegámos ao território de um caçador lendário Mahmadou-Guini, estamos na fronteira entre o Forreá e o Futa-Djalon, este caçador Fula, que se socorre de uma legião de pisteiros anda à procura de elefantes na região do Corubal francês, iremos seguidamente assistir a uma caçada de elefantes, onde ocorrerá uma tragédia.

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 10
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".

Ocorreu a chegada do comissário português a Kandiafara, em 25 de fevereiro. A 28, Brosselard declara ao colega português a sua intenção de prosseguir. Estavam asseguradas as provisões, armazenadas a 40Km a leste, na povoação de Koumataly; não havia mais nada a fazer nesta região onde estavam imobilizados, tudo estava completamente estudado e os dois comissários puseram-se de acordo sobre o estabelecimento da fronteira deste a ponte da Cajet até à região vizinha de Kandiafara. O Sr. Oliveira decidiu que partiria conjuntamente com a comissão francesa; organizou uma pequena coluna de carregadores e de soldados e convidou o Sr. Cabral a esperar a vinda do grosso da coluna das provisões que deviam chegar em breve, sob o comando do Capitão Bacelar. O Sr. Galibert recebeu a missão de ir reconhecer o curso do Corubal, estudar o problema geográfico da comunicação deste rio com o rio Grande de Bolola e de regressar a Bissau para tomar posse da coluna de abastecimentos que ele conduziria até Geba. O Sr. Galibert deixou Kandiafara em 29 de fevereiro.

A 1 de março, a comissão franco-portuguesa deixa Kandiafara e começam as operações de reconhecimento da região compreendida entre o rio Cogon (ou rio Compony) e o Koliba (nome francês para o rio Grande de Bolola). No dia seguinte fez-se paragem no riacho de Kével. Uma esplendida vegetação, escreve Brosselard, envolve o riacho numa semiclaridade; estamos à sombra de magníficos poilões. Esperávamos descansar antes do almoço quando ouvimos gente a gritar e apercebemo-nos de que o burro do Sr. Oliveira vinha aos saltos na nossa direção. O burro escoicinha, salta e rola; fora atacado por uma nuvem de abelhas que o perseguem; só o largam para se lançarem à esquerda e à direita sobre os negros e os oficiais. Os fumos das cozinhas perturbam-nas no seu sossego e elas vingam-se à sua maneira. A debandada é geral; os negros, desprovidos de roupa e surpreendidos nas suas abluções, sofrem cruelmente com os ataques das malditas. O campo de batalha pertence ao inimigo. Impunha-se organizar um cerco para inverter as posições. Os indígenas avançam então metodicamente, protegidos, não pelo tradicional cesto de vime cheio de terra, mas com enormes fachos incendiários; aos poucos conseguem fazer recuar o inimigo e asseguram a posse das posições laboriosamente conquistadas, lançando a chama e o fumo de todos aqueles autênticos archotes. Depois almoçámos tranquilamente, os olhos um pouco picado pelo fumo, estávamos envolvidos por uma nuvem protetora.

Na confluência do Kével, o Cogon espraia-se, magnífico, com uma largura de mais de duzentos metros e uma profundidade de metro e meio ao pé das margens. A corrente é pouco sensível, as águas são muito claras e permitem ver uma multidão de peixes em movimento. Os crocodilos e os hipopótamos são numerosos, eles parecem disfrutar de uma segurança absoluta, mostram as suas enormes cabeças e olham-nos com espanto.

À noite, chegámos a Koumataly. Este povoado está situado sob a margem esquerda do riacho do Talidiol, uma autêntica barreira de vegetação, intransponível fora da passagem construída por cima do lugar. Uma cinquentena de casas estavam muradas por uma dupla cerca de caniços entrançados. É um caminho que permite ir ao Cogon ou de subir na floresta e andar sobre os planaltos, podendo permitir, no presente caso, aos negros protegidos pelas cercas de caniços entrançados, de contra-atacar e também de assegurar o abastecimento. O riacho de Talidiol constitui uma admirável linha de defesa para fechar a estrada de Kadé. Aliás, os Fulas ficaram muito tempo em Koumataly, antes de empurrar os seus colonos para as ricas regiões de Contabane e de Guidali. Fortificados na povoação, eles puderam repelir com sucesso todas as tentativas de regresso dos Biafadas.

O cabo Sidi tinha construído uma instalação muito confortável à sombra de enormes toldos. Este palácio de bambu e de colmo compunha-se de quatro divisões, com portas e janelas. Infelizmente o arvoredo que nos protege com a sua sombra impenetrável está povoado de cobras que se deixam cair durante a noite sobre o teto da nossa habitação, a perseguir os ratos que vêm à procura das nossas provisões. As idas e vindas destes animais produzem na palha da habitação um barulho infernal que nos impede de dormir.

Em Koumataly nós contratámos mulheres e raparigas porque era impossível procurar carregadores. Para resolver a dificuldade dos transportes, decido que o intérprete Ibrahima se deve dirigir a Kadé para falar com Mody-Yaya, levará ricos presentes e pedirá sessenta carregadores e cavalos; juntar-se-á à missão em Dandum. Importa assegurar-se da boa vontade do rei de Kadé. A 7 de março continuámos as nossas operações para leste. A região onde estão povoações como Koumataly e Saala parecem-nos bem cultivadas. A presença das belas raparigas Fulas, sempre dispostas a brincar e a rir, espalha um pouco de alegria na coluna; mas estas jovens recusam continuar na coluna, com o pretexto de que faz demasiado calor e que vão morrer de sede; este seu comportamento obrigou a fazer uma paragem dos outros carregadores e obrigam-nos a tomar medidas repressivas. Em 8 de março acampámos no riacho de Nianta-Fara, constatou-se haver por toda a parte indícios de panteras, e apurou-se que o gigantesco arvoredo que cobria o bivaque estava cheio de cobras. Os negros fizeram grande fogueiras para afastar os visitantes indesejáveis.

As raparigas, que não têm vestuário para se abrigarem, juntaram-se à volta de uma fogueira que as protege da humidade noturna. Para pôr termo às suas intermináveis conversas, distribuíram-se alguns cobertores, o que lhe permitiu deitarem-se e dormir. O campo parece mergulhado no silêncio, mas fomos rapidamente alvoraçados pelos rugidos das feras que devem estar descontentes de nos ver instalados nos seus domínios; os macacos respondem em concerto, toda a gente desperta e as jovens Fulas retomam as suas conversas. A 9, atravessámos o belo riacho de Laballére, considerado como fronteira do Forreá e do Futa-Djalon. A região é selvagem, acidentada e muito arborizada e assim chegámos exaustos à povoação de Mahmadou-Guini, o grande matador de elefantes. O Nemrod Fula (referência a Nemrod, um grande caçador da Baixa Mesopotâmia) instalou-se nesta região desértica e selvagem para estar no centro do seu campo de ação. A região é, de facto, muito abundante em caça; os elefantes são numerosos, sobretudo na margem direita do Koliba, onde se estendem entre o rio e o Geba imensas florestas pantanosas, impenetráveis para o homem.

A trezentos metros da pequena povoação de Mahmadou-Guini, no fundo do riacho, está uma mata onde se erguem árvores seculares; a terra aqui é de uma grande riqueza e os escravos do chefe Fula esforçam-se por destruir a soberba floresta para fazer terras de cultivo. Por todos os lados se veem fogueiras fumegantes ao pé de poilões e outras árvores que têm muitas vezes mais de dois metros de diâmetro na base. De vez em quando ouve-se um estalo sinistro: é um desses gigantes que tombam. Já por terra, deitam fogo ao imenso cadáver e em poucos dias o gigante das florestas fica reduzido a poeira.

Mahmadou-Guini vem visitar Brosselard, é o que iremos contar no próximo texto.

Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Uma rua de Ziguinchor, desenho de Taylor, segundo uma fotografia
Dá-se ao leitor um pormenor da carta da Guiné Francesa contemporânea da demarcação das fronteiras em 1888. Se o leitor aumentar as dimensões da imagem encontrará as povoações percorridas do rio Nuno para o Compony até Dandum. O encontro com o comissário português, o tenente da Armada Real Eduardo Costa Oliveira deu-se a 25 de fevereiro, em Kandiafara. Daqui partiram as duas delegações conjuntamente.
Fula a cavalo, imagem retirada do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 26 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28297: Historiografia da presença portuguesa em África (541): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (9): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

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