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quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28313: (De) Caras (252): Manuel Joaquim (ex-fur mil arm pes inf, CCAÇ 1419, Bissorã e Mansabá, 1965/67): escreveu-nos o último mail há 4 anos, por razões de saúde do foro oftalmológico deixou de poder ler o blogue... Temos de arranjar outra maneira de o blogue chegar até ele...

 

Manuel Joaquim > Maio de 2022> 
"Vivinho da costa!"


Foto (e legenda): © Manuel Joaquim (2022). Todos os direitos reservados, [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné ]




1. Mensagem do Manuel Joaquim, que vamos publicar com... 4 anos de atraso.

Foi o último mail que recebemos dele, mas escrito por um dos seus netos. Por ser muito pessoal, não o publicámos na altura. Nele fazia confidências sobre o seu estado de saúde, justificando-se por não poder mais acompanhar regularmente o nosso blogue. Ontem voltámos a falar com o Manel. Nems equer falámos deste mail "esquecido na caixa do correio". Mas por ele continua connosco, e fez 85 anos,  achámos que era a altura certa para a publicar.

Recorde-se que o Manuel Joaquim:

(i) é professor primário reformado;

(ii)  foi fur mil arm pes inf, CCAÇ 1419 / BCAÇ 1857 (Bissorã e Mansabá, 1965/67));

(iii)  é membro da Tabanca Grande desde 1/8/2009;

(iv) tem 114 referências no blogue;

(v) é  autor das séries "Memórias de Manuel Joaquim" e  "Cartas de Amor e Guerra";

(vi) é pai de duas amorosas filhas e avô babado de netos;

(vii) é padrinho do "menino Adilan" (hoje, o nosso amigo José Manuel  Sarrico Conté, uma infeliz história de guerra com um final feliz; também desembarcou no T/T Uíge, no Cais da Rocha Conde d'Óbidos, em 9/5/1967; e partiu com o padrinho no mesmo comboio; foi criado com a família do Manuel Joaquim) (*).

Ontem, ele fez anos (85), falei com ele ao telemóvel: estava a almoçar, feliz, com a família (esposa, filhos, netos). Está relativamente otimista: o seu problema de saúde do foro oftalmológico está  estável, ao fim de 4 anos, estando a ser medicamente acompanhado... Está  fazer tudo para "salvar" a sua vista direita.

Enfim, metaforicamente falando, el ainda consegue "ver luz ao fundo do túnel":  tem autonomia para andar na rua, mas infelizmente não consegue seguir o n0sso blogue. Não pode ler...nem sequer  letras garrafais... Depende dos filhos e dos netos, para ler e escrever. E não me pareceu psiquicamente me baixo: incentiva-nos a continuar a editar o nosso blogue...  

Fiquei feliz por saber dele, apesar dos seus problemas de saúde. Falámos de camaradas que vieram totalmente cegos da guerra como o Arruda (Moçambique) (já falecido) e o Patuleia (Angola),  ambos dirigentes  da ADFA - Associação dos Deficientes das Forças Armadas. Camaradas que ele conheceu. Eu referi o caso mais concreto do nosso grão-tabanqueiro nº 870,  o Manuel Seleiro, natural de Serpa (**).

O Seleiro, por explosão de uma mina, ficou completamente cego, sem uma mão, só tem dois dedos na outra... Aprendeu a recorrer a um leitor de ecrã, um programa de computador que os deficientes visuais usam para ter mais autonomia no computador, e de modo a facilitar o acesso às aplicações mais populares da Internet.  Com software de síntese de voz e a placa de som do PC, a informação do ecrã é lida,  permitindo o acesso a uma variedade de aplicações de trabalho, educacionais e de lazer, e o envio de informações para uma linha (em braille). Ele não sabe braille, mas tem competências informáticas que lhe permitiram criar e editar um blogue e uma página pessoal. É casado, tem um filho, só pode andar de transportes públicos, a esposa esposa também é deficiente visual (não tem visão lateral).
 
Transmiti-lhe, em meu nome pessoal e em nome da Tabanca Grande, o nosso grande apreço por ele, amizade, camaradagem, solidariedade. E deixo-lhe mais à frente um comentário, mais pessoal,  na sequência da nossa conversa ao telefone. LG
____________________

Data - 19 set 2022, 19:53
Assunto - Manuel Joaquim


Olá, Luís, boa tarde

Aqui estou eu, vivinho da costa!

Em vez de novas palavras, junto um texto e anexo mais duas  fotos da minha chegada da Guiné, as únicas que até hoje vi retratando uma partida de comboio de um cais de Lisboa (*).

 (...) Como vês estou vivo. Pediste-me um sinal de vida e aqui estou eu com a corda ao pescoço, qual Egas Moniz, perante ti e de mais editores pedindo desculpa pelo meu silêncio que mesmo me parecendo inadmissível aconteceu. Estou aqui hoje a dar notícias, já o fiz na página do Facebook da Tabanca da Linha.

Há uns dois anos comecei a ter problemas oftalmológicos cuja causa foi posteriormente diagnosticada como Degenerescência Macular (DM). Em resultado disso, hoje estou sem visão frontal no olho esquerdo e a lutar para que não me aconteça o mesmo no olho direito, onde já há sinais de DM. 

Para “ajudar” , no dia 1 de maio de 2021 sofri um enfarte agudo do miocárdio a que se seguiu um edema pulmonar. Parece-me que a minha recuperação do enfarte vai bem. Vi-me obrigado a emagrecer (15 quilos até agora), sinto-me muito bem assim mais leve e aqui estou dando notícias.

Na prática o meu grande problema é a leitura e a escrita; não consigo fazê-las sozinho. Perdi a assiduidade de leitura deste blogue. A situação está melhor agora com a aplicação de “leitura em voz alta” do computador; o problema é não conseguir ler documentos digitalizados. Para escrever é que é mais difícil, só me valendo da visita de algum dos netos como acontece agora.

Anexo uma foto de hoje para veres como estou rijo (na aparência)!

Termino com votos de saúde para todos vocês meus queridos amigos, que sejam muito felizes! (**)

Um grande abraço

Manuel Joaquim

(Revisão / fixação de texto: LG)

2. Comentário do editor LG: 

Manel, ontem, ao falar contigo pelo telefone, fiquei muito feliz por te ouvir e por saber que estavas aí, à mesa, rodeado pela tua família, a festejar os teus 85 anos.

E fiquei a pensar numa coisa: tu dizes que já não consegues acompanhar o nosso blogue porque não podes ler, devido à DM. Pois então teremos de arranjar outra maneira de o blogue chegar até ti.

Porque há uma coisa que quero que saibas: tu não deixaste a Tabanca Grande. Continuas a ser um dos nossos. O teu lugar à sombra do nosso poilão, é vitalício,  está lá, mesmo que os teus olhos já não consigam ler o que escrevemos.

Temos 114 referências tuas no blogue, temos as  “Memórias de Manuel Joaquim”, temos as tuas “Cartas de Amor e Guerra”, temos a fabulosa saga  do teu "minino Zé Manel": tudo isso faz parte da memória colectiva dos camaradas da Guiné. E tens, sobretudo, muitos amigos que não te esquecem nem te esquecerão, na Tabanca Grande, na Tabanca da Linha, na Ajuda Amiga... 

Tu foste professor. Tem hábitos de aprendizagem, disciplina, curiosidade e capacidade de comunicar. Aos 85 anos, não há nenhuma razão para considerar encerrada a sua aprendizagem tecnológica. Sabes melhor do que nós que nunca é tarde para aprender. E aos 85 anos, não há nenhuma razão para considerar encerrada a tua aprendizagem tecnológica.  

Hoje há leitores de ecrã e síntese de voz muito mais capazes do que em 2022. O neto que te ajuda poderá configurar-lhe o computador ou, talvez ainda melhor, o telemóvel/tablet para ouvires os novos postes do blogue e os comentários dos leitores, em vez de os oleres, como também ditares respostas por voz, em vez de as escreveres. Não precisamos  sequer de recorrer a tecnologia sofisticada. Um áudio de WhatsApp, enviado por uma das tuas  filhas ou por um neto, pode devolver-te uma pequena janela para o mundo da Tabanca Grande.

Repara: se eu te falei do Manuel Seleiro não foi para comparar, relativizar ou atenuar a tua desgraça e o teu sofrimento, mas para te mostrar que a perda da visão não significa necessariamente a perda da autonomia intelectual nem da possibilidade de comunicar.

E, de facxto,  se não conseguires escrever, há uma solução ainda mais simples: falas e nós escrevemos. Tu contas-me uma história da Guiné, ou uma lembrança, ou uma coisa que te venha à memória. Um neto grava. Eu trato do resto, dentro das limitações que também temos. E depois fazemos chegar-te o texto em voz, para que o possas ouvir.  

Não queremos que voltes ao blogue por obrigação. Queremos apenas que saibas que o blogue continua a ser também teu.

E quando me disseres outra vez “Aqui estou eu, vivinho da costa!”, eu fico feliz.

Um grande abraço do teu amigo e camarada,

Luís

(Revisão / fixação de texto, negritos, links: LG)

__________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de  2 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28312: O cruzeiro das nossas vidas (32): A partida de comboio, do Cais da Rocha Conde d' Óbidos para Abrantes, do pessoal do BCAÇ 1857, que desembarcou do T/T Uíge em 9 de maio de 1967 (Manuel Joaquim, ex-fur mil arm pes inf, CCAÇ 1419, Bissorã e Mansabá, 1965/67)

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