1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Julho de 2026:Queridos amigos,
Não é por especial deferência que Howard French destaca o papel dos portugueses na descoberta de África e no comércio negreiro, como temos vindo a apreciar. A historiografia do Estado Novo, quanto a esta matéria, dava ressonância a uma alegada missão civilizadora, exportação da fé e cristianização de gente que ou trilhava os ideais de Mafoma ou adorava ídolos, e, por simpatia, faziam-se trocas que tornavam a economia portuguesa um tanto respeitável na cena europeia. O primeiro verdadeiro contraponto foi dado pelos importantíssimos trabalhos de Vitorino Magalhães Godinho, ele pôs o foco no que os Descobrimentos portugueses e de outros tinham introduzido na economia mundial. Ora este autor dá mesmo conta de que por razões estratégicas, pelo pesado constrangimento imposto pela União Ibérica e pelo esforço exigido pelas guerras da Restauração e recuperação colonial, o comércio de escravos pesou na pouca defesa que se fez do que restava do império português no oriente. Brasil e Angola eram as jóias da Coroa que urgia fazer luzir, como aconteceu com o ouro, os diamantes, o comércio negreiro e a agricultura de plantação.
Um abraço do
Mário
África, os africanos e a criação do mundo moderno, de meados do século XV à Segunda Guerra Mundial - 4
Mário Beja Santos
Se tentássemos contabilizar a proveniência dos autores que escreveram relatos, fizeram investigações, orientaram ou orientam estudos académicos sobre o continente africano, o número mais expressivo iria recair certamente nos europeus, seguido dos norte-americanos. No seu livro Origem: África, o jornalista, escritor e académico Howard W. French, Bertrand Editora, 2022, releva que os relatos tradicionais têm o seu foco na era dos Descobrimentos europeus do século XV, não escondendo os reais interesses de quem e para quê impulsionava estas viagens e a instalação de feitorias e fortalezas: sonhava-se descobrir mundo, encontrar o lendário rei Preste João, ter acesso ao ouro, levar a crença cristã e sempre que necessário, combater a crença muçulmana, encontrara a ligação entre os rios Níger e o Nilo – e parece que mais nada aconteceu. Prosseguindo a sua narrativa, dissecará a evolução do comércio negreiro, destacando o papel da fortaleza de São Jorge da Mina, a criação de uma agricultura de plantação onde o escravo teve desempenho fundamental, a riqueza daí adveniente foi contributo decisivo para seis séculos de desenvolvimento mundial.
Estamos agora na corrida a África ou na partilha de África, entraram em cena velhos atores como Portugal, Espanha, França, Inglaterra, Holanda e novos como a Bélgica e a Alemanha. Os velhos andaram em guerras entre si, caso da Grã-Bretanha e da França pelo vale do rio Ohio fazia parte da competição deles nas Caraíbas e no Canadá, tentavam o controlo da América do Norte, a França queria consolidar as Índias Ocidentais francesas, a mesma França que tinha centros de escravatura no Senegal; no século XVIII, os britânicos disputam a primazia francesa, passaram a ser o primeiro comprador de escravos e em 1761 o império britânico seguia atrás da França nas exportações de açúcar, algodão, rum e café.
A industrialização da Grã-Bretanha e a sua ascensão a potência mundial ficaram indissociavelmente ligadas às colónias de plantação de açúcar, ao trabalho escravo. “A ascensão de Liverpool, a prosperidade do Império Britânico, o triunfo da Marinha inglesa, a riqueza das famílias bancárias britânicas e o sucesso dos engenhos de algodão ingleses, tudo dependia do comércio de escravos e das mercadorias produzidas pelos escravos.” É neste contexto que se pode analisar o conflito entre países por causa das pessoas transportadas acorrentadas através do Atlântico como ouro negro, estes escravos farão parte da competição global e a Conferência de Berlim será também o sinal de que os lugares tropicais ganhavam realce como agricultura de plantação e oportunidades comerciais, aqui, os povos cativos, dentro desta lógica, podiam ser utilizados com maior produtividade. Portugal foi um perdedor, sobretudo por estar ligado ao império espanhol durante a União Ibérica. A Holanda derrotou Portugal em 1637, tomou o controlo da Costa do Ouro, já tinham atingido São Jorge da Mina, irão tomar São Paulo de Luanda, lançarão um ataque contra o Brasil português, também tomaram São Tomé, o império português parecia totalmente perdido, irá parcialmente ressuscitar com a Restauração.
O autor irá focar-se na revolução introduzida pelos engenhos de açúcar no Brasil. Tornou-se imperioso trazer escravos, os índios e toda a classe de indígenas começaram a morrer em massa; sabemos hoje que os culpados foram os agentes patogénicos, uma longa lista que incluía varíola, sarampo, tosse convulsa, varicela, peste bubónica, tifo, febre tifoide, difteria, corola, escarlatina e gripe, tudo trazido do Velho Mundo. Sem os africanos o Novo Mundo não teria sido viabilizado nem de perto nem de longe na extensão em que o foi. Sem os africanos jamais os europeus teriam conseguido ocupar e colonizar os vastos territórios do Novo Mundo com a velocidade com que acabaram por conseguir fazer. O enfoque do autor sobre a indústria açucareira no Brasil irá ser um polo de atração para todas as outras potências competidoras. Entretanto Portugal abriu uma nova frente no comércio negreiro, o Congo, estabelecer-se-ão relações cordiais entre as respetivas coroas. Observa o autor que Portugal calculou que o Brasil laborado por escravos valia substancialmente mais para o reino do que as suas explorações no Oriente. Com a Restauração, Portugal atirou-se à reconquista das duas joias gémeas do império: Brasil e Angola.
Howard French disseca ao pormenor a instalação de plantações francesas e britânicas no Novo Mundo, dá o exemplo de Barbados e também da Jamaica; descobriu-se que as exportações para África não podiam incluir lanifícios pesados, a indústria do algodão ganhou velocidade; deslocou-se o açúcar para as Américas, dá-se a explosão da prata espanhola. Atenda-se aa uma nova observação do autor: “Os mercados africanos desempenhariam um papel vital no crescimento da produção inglesa em geral. Isto incluía de tudo, desde armas a navios, e desde cordas a velas. Porém, à medida que o seu recém-criado império nas Caraíbas crescia alimentado por mão de obra africana, os ingleses descobriram novos mercados especialmente importantes para a próxima grande indústria do futuro, os têxteis, sob a forma de vestuário para escravos.”
Deram-se grandes mudanças na Europa com a chegada do açúcar do café e do chá, produtos que irão ter um valor civilizacional e até contributivo para a história das ideias, produtos que se servirão em novos estabelecimentos que oferecem sociabilidade, os cafés, produtos presentes nas reuniões tanto da corte e do salão onde se discute a política, lá longe, onde se produzem e exportam esses produtos está a mão de obra africana.
Mas voltemos a um sonho antigo, o ouro, que nunca deixou de ser um grande negócio em paragens africanas. Só que teve de estar eclipsado por outra mercadoria, o comércio transatlântico de escravos. E o autor recorda o papel desempenhado por Portugal:
“Quando o comércio de escravos começou a aumentar na primeira metade do século XVI, o seu volume inicial era maioritariamente proveniente de uma área a que os europeus chamavam Cabo Verde, uma área continental que se estende desde os matagais do Senegal e Gâmbia até À Guiné-Bissau e as florestas tropicais e pântanos da Serra Leoa. Em grande medida, esta escolha refletia conveniência por estar mais próxima das Europas e das Américas e por isso começou a integrar-se no emergente mundo atlântico. (…) À medida que outras nações europeias se lançavam no comércio de escravos africanos, o endurecimento da concorrência levou os portugueses cada vez mais longe na costa africana.”
Vamos agora ver os itinerários destes escravos até chegar ao Novo Mundo.
Professor Howard W. French
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Notas do editor
Vd. post de 28 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28303: Notas de leitura (1955): "Origem: África", pelo jornalista, escritor e académico Howard W. French; Bertrand Editora, 2022 (3) (Mário Beja Santos)
Último post da série de 31 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28309: Notas de leitura (1956): “Pai, tiveste medo? A guerra contada é muito diferente da que foi vivida”, por Catarina Gomes; Matéria Prima Edições, 2014 (2) (Mário Beja Santos)


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