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quarta-feira, 20 de agosto de 2025

Guiné 61/74 - P27135: Humor de caserna (210): Fugir com o cu (ou melhor, com o pé) à seringa (José Teixeira, "fermero", que "firma"na Tabanca de Matosinhos)

1. Mais uma história. bem humorada, do nosso "fermero"  Zé Teixeira (que hoje "firma" na Tabanca de Matosinhos, mas que noutra incarnação foi 1º cabo aux enf, 
CCAÇ CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá e Empada, 1968/70)...

Estamos em agosto de 2025... Um mês que há muito deixou de ser  "o nosso querido mês de agosto": é cada vez mais trágico, com a banalização dos incêndios, da morte e da devastação do interior do nosso Portugal...

O Zé Teixeira, que apesar de tudo não se deixa abater com o desolador espetáculo que o mundo à volta nos oferece, mandou-nos, para animar o blogue,  mais uma das suas histórias pícaras. Agora reeditadas (*).


Humor de caserna (21o) > O balanta que fugiu com o cu (o melhor, com o pé) à seringa



Em Mampatá Forreá (na região de Quínara, entre Buba e Aldeia Formosa), os dois únicos balantas que lá conheci (a população era Fula, Futa-fula e Mandinga) eram lenhadores, contratados pela tropa a troco de uma marmita de comida diária para cortarem lenha para a cozinha militar.

Um deles tinha tanta força como de ingenuidade. Um dia peguei numa faca e disse-lhe que o ia matar. Desatou a correr e eu atrás dele, a rir-me às gargalhadas, correndo os dois a tabanca toda.

Ninguém sabia o que se passava nem entendia porque quando eu parava, atrás de uma morança, ele parava e, se eu começasse a correr, ele fugia por entre as moranças, a rir-se, mas sempre longe de mim. 

Enfim, um bom espectáculo para um fim de tarde de alguém  que, como eu,  apenas precisava de queimar o tempo (e ainda faltava tanto!)...

Só parámos, quando deitei a faca ao chão. Depois demos um abraço e   fizemos as pazes. 

Certo dia acertou com o machado num pé. cortando profundamente um dedo. Por pouco não traçava o osso por inteiro.

Dirigiu-se à enfermaria, ao ar livre, isto é, ao cantinho onde todos os dias eu montava o meu engenho de enfermaria.

O meu dilema era completar a obra do machado e sacar o dedo ou tentar suturá-lo, na esperança de o osso solidificar. Ou, então, aguardar dois dias pela avioneta do correio e mandar o "embrulho" para Bissau.

Optei pela sutura, lavei muito bem o pé  (que talvez nunca tivesse sido lavado na vida...) , e preparei a seringa para a anestesia local. Ele baixa a amostra de calções mais negros que a sua pele, convencido que ia tomar uma injecção. Quando se apercebe que ia ser picado no pé, começa a gesticular que não. 

No pé, é que não!!!... 

Claro que eu não sabia balanta, e ele não sabia crioulo, nem português. Assim não nos entendíamos, mas ele encontrou a solução: desata a correr pela aldeia fora com o dedo dependurado e a sangrar. 

Pica no pé, nunca, só no traseiro!!!...

Passado algum tempo lá voltou. Com a ajuda do companheiro, conseguimos entendermo-nos melhor. Fiz de novo a higienização da ferida, suturei como pude e,  passados uns dias, com a ajuda de umas picas de penicilina lá se curou e voltou ao trabalho de lenhad
or para ter direito a comer (os nossos restos).

José Teixeira

(Revisão / fixação de texto, título: LG)
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Nota do editor:

(*) Último poste da série : 4 de agosto de 2025 > Guiné 61/74 - P27086: Humor de caserna (209): um "fermero" que em Empada ganhou fama de curandeiro, milagreiro e... abortadeiro (Zé Teixeira, Matosinhos)

terça-feira, 29 de julho de 2025

Guiné 51/74 - P27065: Humor de caserna (207): A fome aguça o engenho: roubar vacas, não prenhas, aos balantas de Nhacra, com recurso aos serviços de um "ginecologista"; e "pescar" galinhas com anzol... (Eduardo Campos, ex-1º cabo trms, CCAV 4540, 1972/74)




Guiné > Bissau > Nhacra> c. 1973/74 > Na piscina do quartel... O Eduardo Campos aparece em primeiro plano, a bricnar com um cãozinho. 

Foto (e legenda): © Eduardo Campos (2010). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné




Crachá da CCAV 4540/72 (1972/74), "Somos um Caso Sério": a penúltima companhia a guarnecer Nhacra.Em 10 de abril de 1974, tinha um pelootão destacado na Ponte de Ensalmá.  Em 16 de agosto, foi rendida no subsector de Nhacra pela CCaç 4945/73 e
seguiu para Bissau, a fim de efectuar o embarque de regresso à metrópole.


1. O  Eduardo Campos, ex-1º cabo trms, CCAÇ 4540 (Cumeré, Bigene, Cadique, Cufar e Nhacra, 1972/74) foi um dos nossos camaradas que melhor conheceu Nhacra  onde permaneceu quase um ano, até ao fim da guerra... Tem  cerca de 6 dezenas de referências no blogue. Mora na Mora e faz parte da Tabanca Grande desde 21/5/2008. É autor da série "Histórias do Eduardo Campos".  Algumas delas têm interesse documental para se conhecer melhor como  era o quotidiano da NT nos últimos anos da guerra da Guiné. E estão, em geral,  devidamente recheadas com o "piripiri" do humor de caserna (*).  

Por norma, e se acordo com as nossas regras editoriais, não fazemos juízos de valor (de natureza ética,  disciplinar, deontológica,  política, operacional, etc.) sobre  os episódios aqui relatados (neste caso, sobre levantamentos de rancho, ladrões de vacas,  pilha-galinhas...).  Essa função cabe ao leitor, não ao editor.

A CCAÇ 4540/72, vinda do sul, de Cadique, Cantanhez, região de Tombali, esteve destacada em Nhacra cerca de um ano, desde setembro de 1973 a agosto de 1974.

Como o Eduardo já aqui escreveu, Cadique foi o inferno e Nhacra o paraíso. Ele voltaria ao "local do crime", mais de 3 décadas e meia  depois,   em abril de 2010, com um grupo de companheiros. E não escondeu a sua emoção: 

Quem por lá andou na construção da estrada que liga a Cadique, sabe o quanto nos custou, em sofrimento e morte, essa obra. A partir de Iemberem comecei a sentir e a pensar algo que jamais conseguirei decifrar, mas que posso tentar definir como um misto de emoções, desilusões, euforia, tristeza… por ali fora ia dizendo: “Aqui estive emboscado!”, “Ali morreu o A, o Bê, o Cê..”, “Foi aqui que o capitão paraquedista Terras Marques levantou 4 minas.”, etc, etc. (***)


 A fome aguça o engenho: roubar vacas, não prenhas, aos balantas de Nhacra, com recurso ao serviço de um "ginecologista"; e "pescar" galinhas com anzol... 

por Eduardo Campos


Como nada de importante acontecia  em Nhacra, os dias eram passados de uma forma totalmente diferente das matas do Cantanhez, e, acreditem que por vezes, surgiam-nos as saudades. A vida era tornava-se demasiado sedentária.

As alternativas encontradas, para fugir à rotina, eram as idas a Bissau, e, já que a alimentação nunca foi algo digno desse nome em Nhacra, aproveitava estas saídas para ir ao Pelicano, à Churrascaria de Santa Luzia, ao Bento, etc. Assim, evitava que a “dieta” que me tinha sido imposta, fosse levada muito a sério.

Por falar de alimentação, enquanto no Cantanhez suportávamos tudo, por vezes até com um sorriso, em Nhacra as coisas eram diferentes. O pessoal ficou mais rebelde e negou-se a comer duas vezes. Houve dois levantamentos de rancho.  Um dos quais teve como resultado, que passadas duas horas do início do levantamento, estávamos a comer um bacalhau cozido com batatas, que parecia ter sido confecionado no Hotel Hilton.

Embora não estivesse de oficial de dia nessa data, foi o nosso camarada e amigo tabanqueiro Vasco Ferreira (ex-alferes mil da CAÇ 4540), que resolveu o problema.

A dificuldade em adquirir gado bovino (como já disse em poste anterior , o povo,  por motivos religiosos e tradicionais,  não o vendia) (**), dava origem a que, um grupo de camaradas acompanhado de um especialista em ”ginecologia”, fossem às tabancas, de madrugada, â procura de gado. Então o nosso “especialista” apalpava… apalpava e, não estando prenha a vaca, toca a roubá-la.

Logicamente, o dono da rês vinha atrás deles a gritar e a chorar, mas não havia nada a fazer. Chegados ao aquartelamento, acabavam por fazer negócio e diziam que lhe pagavam um preço justo.

A minha eterna dúvida, nestes negócios forçados, é: “Mas que raio de preço justo era esse, se o homem não queria vender o animal!?”

A minha curiosidade sobre o desenvolvimento destas operações levou-me a que, um belo dia, os acompanhasse para ver como decorria a captura da vaca selecionada.

Nesse dia, logo por azar, o “ginecologista” improvisado enganou-se e trouxe mesmo uma vaca prenha. Foi remédio santo para mim, nunca mais comi carne bovina até ao fim da comissão.

A partir de determinada altura, mesmo cabritos, galinhas e porcos os nativos resistiam em vender. 

Aqui chegados, um camarada das transmissões inventou uma fórmula original, na época, para roubar galinhas, que constava do seguinte: um fio de pesca com vários anzóis, onde colocava uns grãos de milho. Depois pela tabanca fora ia espalhando mais alguns grãos de milho pelo chão. As galinhas vinham por ali adiante a comer os grãos e acabavam, quase sempre, por engolir um dos anzóis. Quando o tal camarada via que a bicha tinha caído na esparrela, saía rapidamente da tabanca com a “vítima” atrás dele.

(Seleção, revisão / fixação de texto, título, negritos: LG)

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Notas do editor:

(*) Último poste da série > 28 de julho de 2025 > Guiné 61/74 - P27060: Humor de caserna (206): Dois conselhos que aprendi na tropa mas que depois esqueci na guerra: 'Nunca dar nas vistas, nem nunca armar em herói, já que os cemitérios estão cheios deles'..... Felizmente fui para Nhacra e acabou-se a guerra (Eduardo Campos, ex-1º cabo trms, CCAÇ 4540, Bigene, Cadique e Nhacra, 1972/74)


(***) Vd. poste de 6 de junho de 2010 > Guiné 63/74 – P6546: Histórias do Eduardo Campos (14): Cantanhez: Do inferno ao Paraíso

Guiné 61/74 - P27064: As nossas geografias emocionais (536): a Nhacra que eu conheciu no final da guerra (Eduardo Campos, ex-1º cabo trms, CCAÇ 4540, Cumeré, Bigene, Cadique, Cufar e Nhacra, 1972/74)



Guiné > Bissau > Nhacra > Janeiro de 1972 > Foto 249 > Fonte do Vale,  desvio para a estrada para Cumeré

Foto nº 249 do álbum do  João de Jesus Moreira, ex-fur mil at cav , MA, CCAV 2721 (Olossato e Nhacra, 1970/72)




Guiné > Bissau > Nhacra > Agosto de 1971 >  O João Moreira em cima do espaldão do morteiro 81

Foto nº 212  do álbum do  João de Jesus Moreira, ex-fur mil at cav, MA, CCAV 2721 (Olossato e Nhacra, 1970/72)


Guiné > Bissau > Nhacra > Janeiro de 1972 >Posto retransmissor da Emissora Oficial da Guiné, com anti-aéreas

Foto nº 227  do álbum do  João de Jesus Moreira, ex-fur mil at cav, MA, CCAV 2721 (Olossato e Nhacra, 1970/72)

Fotos (e legendas): © João Moreira  (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné.]
 


Guiné > Bissau > Nhacra> c. 1973/74 > Aspeto da entrada e porta-de-armas do quartel


Foto (e legenda): © Eduardo Campos   (2010). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné


Guiné-Bissau > Região de Tombali > Cacine > Cadique > Junho de 2007 > Pedras que falam da CCAÇ 4540, "Somos um Caso Sério":  esteve aqui, em Cadique, em pleno coração do Cantanhez, na margem esquerda do Rio Cumbijã, de 12 de dezembro de 1972 a 17 de agosto de 1973.

 Foto: Pepito / AD - Acção para o Desenvolvimento (2007)./ Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné 



1. Condensação de 2 textos do  Eduardo Campos, ex-1º cabo trms, CCAÇ 4540 (Cumeré, Bigene, Cadique, Cufar e Nhacra, 1972/74), um dos nossos camaradas que melhor conheceu Nhacra  onde permaneceu quase um ano. Tem  cerca de 6 dezenas de referências no blogue. Faz parte da Tabanca Grande desde 21/5/2008.

É autor da série "Histórias do Eduardo Campos". Vamos lembrar algumas das suas memórias de  Nhacra, que ficava as escassas duas dezenas e meia de quilómetros, a norte de Bissau.


A Nhacra que eu conheci no final da guerra

por Eduardo Campos 




1. Em 08/09/73, saímos do Depósito de Adidos, com destino a Nhacra, onde iríamos substituir a CCaç 3477, “Os Gringos de Guileje”


A partir de 19/09/73, a Companhia passou a ter á sua responsabilidade o subsector de Nhacra, sob as ordens do COP 8, instalado no local.

A área do subsector de Nhacra, tinha por limite:

  • a Norte o Rio Mansoa, 
  • a sul o Rio Geba, 
  • a Oeste o Canal do Impernal 
  • e, a leste, confinava com o Dugal.

Era atravessada, nos seus limites, por uma estrada asfaltada (com grande movimento de pessoas e viaturas), que ligava Bissau a Mansoa. Havia também a ligação entre Nhacra e Cumeré, em estrada asfaltada.

As tabancas mais populosas tinham ligações com as estradas principais, através de picadas largas.

Sobre o Canal de Impernal e no itinerário Bissau – Mansoa, encontrava-se a Ponte de Ensalmá, onde se mantinha em permanência um destacamento da Companhia, dada a sua importância estratégica e pelo facto capital de ser a única ponte que permitia a ligação por terra, entre Bissau e o resto do território da Guiné.

O terreno apresentava uma uniformidade e configuração incaraterísticas, em que os relevos praticamente não existiam. Er apenas entrecortado pelas bolanhas que abundavam nessa região, visto formarem-se a cotas inferiores às do terreno.

Hidrograficamente a região era rica, com os importantes rios Mansoa e Geba, bastante caudalosos na praia-mar, que chegavam a atingir cerca de três metros de amplitude e invadiam uma série de canais, do qual se destacava o Canal do Impernal, que estabelecia a ligação entre eles, dando origem à ilha de Bissau… 

Sim, disse ilha, porque Bissau era uma ilha e, curiosamente, muitos dos nossos camaradas desconheciam o facto.

A mata era muita reduzida nessa região, exceptuando-se pequenas manchas existentes no extremo norte do Rio Geba e nas proximidades do Canal do Impernal.

Na zona interior a savana arbustiva, era salpicada aqui e além, por árvores de grande porte (poilões), mangueiros e cajueiros.

Nas zonas marginais dos rios e dos canais, zonas extremamente pantanosos, abundavam as plantas hidrófilas que se ramificavam em múltiplas raízes, formando o que se designava por “tarrafo”.

A fauna, sem ser abundante, poderia considerar-se rica em diversas espécies. Além dos animais considerados domésticos (bovinos, caprinos, suínos e galináceos), destacavam-se as gazelas, os porcos-espinhos, os macacos, as hienas e as cabras do mato.

Nas aves destacavam-se os pelicanos, as garças os periquitos, além das perdizes, rolas, codornizes, galinha-do-mato, patos, sem esquecer  os jagudis. (...)



2. Em Nhacra, fomos encontrar os camaradas do Pelotão de Morteiros 4581/72 e os do 3º Pelotão AA da Btr AA 7040, além de dois pelotões de Milícias: o 329, aquartelado em Oco Grande,  e o 230 aquartelado em Bupe, ambos pertencendo à Companhia de Milícias de Nhacra e que ficaram adidos à CCAÇ 4540.


O IN não possuía dentro da nossa ZA, pessoal suficiente em quadros e grupos que lhe permitisse desenvolver uma atividade dinâmica e poderosa, quer para flagelar e atacar o aquartelamento e o Centro Emissor de Nhacra, quer para emboscar as NT fora do aquartelamento.

No entanto, fomos informados que Nhacra e o Centro Emissor foram flagelados pelo IN duas vezes: a primeira ao tempo da CCAÇ 3326, em maio de 1972, por um grupo equipado com armas automáticas e RPG-2 e 7; e a segunda em agosto de 1972, utilizando também um canhão s/r. Em ambos os casos sem qualquer consequência material ou pessoal para as NT.

Sabíamos que o IN andava por ali perto e que atravessava, frequentemente, algumas linhas principais de infiltração, para o interior da nossa ZA a saber: de Choquemone, Infaide, Biambe, pela península de Unche para Iuncume, quando se dirigiam para Nhacra.

As principais prioridades da nossa Companhia eram:

  •  a garantia da segurança do Centro Emissor de Nhacra,
  •  o itinerário Bissau–Mansoa;
  •  e, através de intensa actividade (patrulhamentos e reconhecimentos), evitar que o IN se aproximasse de forma a evitar que pudesse atacar a cidade/capital de Bissau, o Aeroporto de Bissalanca, os complexos miltares de Brá e da Sacor, bem como as instalações militares e civis do Cumeré.

Em onze meses de permanência em Nhacra, nunca tivemos contacto com IN, nem as instalações sofreram qualquer ataque.

Os aglomerados populacionais da ZA da nossa Companhia distribuíam-se por dois regulados: 
  • o Regulado de Nhacra com as tabancas de Nhacra, Teda, Sal, Bupe, Sucuto, Incume, Sumo, Nhoma e Cholufe; 
  •  e o Regulado do Cumeré com as tabancas do Cumeré, Com, Cuntanga, Quide, Birla, Caiana, Som Caramacó, Cola, Nague, Ocozinho, Rucuto e Oco Grande (reordenamento zincado).

A estrutura agrícola existente baseava-se numa economia básica de subsistência, cujos produtos, que ocupavam lugares especiais de relevo, eram o amendoim, o arroz, o milho, a mandioca, o feijão, a cana sacarina e pouco mais. 

Na pecuária existiam boas condições para a criação de gado, com a condicionante, porém,  do ancestral costume tribal que considerava o gado como um sinal exterior de respeito e riqueza e não com um factor económico.

Era evidente e manifesto o desagrado em abater, ou mesmo vender, qualquer cabeça de gado, fosse para alimentação ou para outros fins industriais. 

Em toda aquela zona predominava a etnia Balanta, coexistindo com algumas minorias étnicas que se estabeleceram em chão Balanta, vindas de outras regiões, escorraçadas pela insegurança que a guerra originava, principalmente Fulas, Mandingas e alguns Manjacos.

Os Balantas eram dotados de uma impressionante constituição física, trabalhadores, valentes, enérgicos e com grande força de vontade pela vida, ao que acrescentaria que eram bons agricultores, arrancando da terra os meios de subsistência de que necessitavam, alimentando-se à base de arroz, azeite de palma, milho e mandioca. Além disso, eram polígamos e condenavam o celibato. Extremamente supersticiosos, acreditavam na transfiguração da alma, atribuindo à feitiçaria as suas desgraças.

Praticavam o roubo, em especial de gado, com a consciência de um ato não criminoso, mas sim um admirável e enaltecedor sinal que revelava a perícia pessoal, bem com de toda a sua própria tribo. 

O gado bovino que possuíam destinavam-no às cerimónias de sacrifício, nomeadamente nos seus rituais de acompanhamentos fúnebres ("choros").

Os Fulas de um modo geral eram hospitaleiros, considerando mesmo a hospitalidade como um dever sagrado. Apesar da influência que o Islamismo tinha entre eles, praticavam ainda o feiticismo e criavam gado, considerado este facto como um sinal de respeito e nobreza.

A acção psicológica desenvolvida pela NT na zona era bastante intensiva, apesar de se constatar,  em alguns núcleos, certa reserva em relação à mesma, quando não nula, com maior evidência nas tabancas de Sal e Bupe.

As populações tinham:
  • apoio médico/sanitário, 
  • transporte em viaturas militares, 
  • assistência educativa prestada por missões religiosas em várias escolas, um professor militar e vários elementos africanos que estavam adidos à Companhia,
  •  sendo também de salientar a assistência religiosa prestada por padres missionários aos domingos.

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)


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Nota do editor LG:


terça-feira, 15 de julho de 2025

Guiné 61/74 - P27019: Felupes, balantas e outros combatentes que eu conheci (3): Coisas difícieis de acreditar (Carlos Fortunato, ex-fur mil, CCAÇ 13, Bissorã, 1969/71)


Foto nº 1  > Guiné > Região do Oio > Bissorã > Bolanha de Cate >  1973 >  A 
 população balanta prepara a bolanha  para o cultivo do arroz 


Foto nº 2  > Guiné > Região do Oio > Bissorã > Bolanha de Cate >  1973 >  Uma patrulha da CCaç 13 atravessa uma bolanha de Cate, na época seca, sob o comando do capitão Carlos Oliveira 


Foto nº 3  > Guiné > Região do Oio > Bissorã > Bolanha de Cate >  1973 >  Trilho em Cate 

Fotos (e legendas): © Carlos Oliveira   (2003). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Carlos Fortunato e Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Foto nº 3 > Guiné > Região do Oio > Bissorã > 1969  > Uma patrulha da CCAÇ 13 regressa ao quartel, , ao anoitecer. O fur mil at inf Carlos Fortunato, o mais alto, é o segundo do grupo.  
As capacidades dFotoos balantas permitem-lhes 

Foto (e legenda): © Carlos Fortunato (2003). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Já aqui o dissemos por mais de uma vez: seria uma pena o fabuloso "baú" do Carlos Fortunato, com as coisas & loisas da Guiné, se perder... Referimo-nos nomeadamente à página na Net, Guiné - Os Leões Negros, que esteve alojada no Sapo, até há uma dúzia de anos. Foi depois descontinuada (o "Sapo" tirou o tapete a quem "viajava" de borla...), mas felizmente foi salva, sendo capturada pelo Arquivo.pt.


De vez em quando eu gosto de a revisitar e vou lá repescar algumas das "pérolas literárias" do Carlos (fizemos juntos a viagem para a Guiné no T/T Niassa, em 24 de maio de 1969, ele foi para a futura CCAÇ 13, Bissorã, e eu para a CCAÇ 12, Bambadinca; regressámos, de novo, juntos, no T/T Uíge, em 17 de março de 1971; "sãos e salvos", e com o "bichinho" da Guiné; "Guiné - Os Leões Negros", uma página ou portal, que não é um blogue, criada em 2003, é, cronologicamente, mais antiga que o nosso blogue, de 2004).

Este texto da autoria do Carlos Fortunato, foi  publicado em 24/02/2003, e revisto em 21/07/2006 (*). É uma homenagem aos combatentes balantas, que foram grandes soldados, ao serviço tanto do PAIGC como das NT (**).

Carlos Fortunato, ex-fur mil arm pes inf, MA, CCAÇ 13, Bissorã, 1969/71, é o presidente da direção da ONGD Ajuda Amiga. Tem sido de uma dedicação extraordinária à causa da solidariedade para com o povo de Bissorã.


Felupes, balantas e outros combatentes que eu conheci (3): Coisas difíceis de acreditar...

por Carlos Fortunato (*)


As capacidades dos balantas permitem-lhes fazer coisas difíceis de acreditar.

Um dos casos ocorreu já em Bissorã, quando numa das acções que realizámos a Cate, creio que em Novembro de 1969. Saímos por volta da meia noite, mas um dos soldado africanos só acordou 2 horas depois de já termos saído. Apesar de desconhecer qual o nosso destino ou o caminho que íamos seguir, conseguiu seguir-nos encontrar-nos, numa noite escura, depois de termos passado por água, mato cerrado, etc.

Devo confessar que eu me perdi nessa patrulha. Já andávamos há mais de uma hora caminhando noite dentro, quase sempre a corta mato, tendo atravessado as inevitáveis bolanhas que nos deixavam totalmente encharcados, quando chegámos a uma zona em que o mato era de tal forma cerrado, que tivemos que o passar rastejando.

Ora como é natural, os primeiros que passaram a rastejar fizeram-no muito lentamente, mas quando retomaram a marcha normal os que vinham atrás tiveram que correr para os apanhar, vindo eu praticamente no fim da coluna, quando acabei de rastejar, só vi o soldado que ia à minha frente largar a correr para não perder a ligação com o resto da coluna.

Mal atravessei o mato cerrado, larguei a correr para não perder de vista o vulto que corria à minha frente, mas era uma noite muito escura, e não vi um enorme buraco feito por um javali, no qual cai numa confusão de corpo, G3, e granadas.

A minha primeira preocupação foi se alguma das cavilhas de segurança das granadas não tinha saído (o que faria rebentar a mesma ao fim de 4 segundos), depois de verificar/repôr corretamente as cavilhas, atirei a arma para fora do buraco, e consegui sair do mesmo com alguma dificuldade.

Neste espaço de tempo a coluna tinha desaparecido, e eu não fazia a mínima ideia onde estava, e sentia-me incapaz de encontrar o caminho de regresso, assim tentei seguir na direcção para onde tinha visto o último soldado correr.

Naquela direcção havia apenas alguns tufos de capim, e a escuridão não permitia procurar um rasto, talvez por o meu nome ser Fortunato (nome de origem italiana, que significa sorte), acabei por encontrar o resto da coluna, a qual tinha parado um bocado mais à frente, pois já tinha sido dado como "desaparecido em combate".

Algum tempo depois deste incidente, e já estando nós a montar uma emboscada, ouvi um ruído de alguém que se aproximava a coberto do capim, alertei os soldados, mas estes disseram-me que era o soldado do nosso pelotão que não se tinha apresentado à partida, e para grande surpresa minha era mesmo...

Como foi possível ele conseguir-nos seguir? Como sabiam os soldados que era ele?

O conhecimento do terreno e os sentidos mais desenvolvidos dos soldados africanos, permitiam-lhes realizar coisas, que para um soldado vindo da metrópole eram simplesmente impossíveis.

O alferes Roda, da CCaç 14, realizou em Bolama uma secção de hipnotismo, em que num dos números dava a cheirar uma folha de papel em branco, e os africanos,  depois de hipnotizados e com os olhos vendados, eram capazes de localizar e apanhar os bocados de papel espalhados pelo chão.


(Revisão / fixação de texto: LG)
___________________

Notas do editor LG:

(*)  Texto do furriel Carlos Fortunato Publicado em 24/02/2003, e revisto em 21/07/2006 por Carlos Fortunato. Título original: Realizando o impossível

(**) Último poste ds série > 8 de dezembro de 2024 > Guiné 61/74 - P26245: Felupes, balantas e outros combatentes que eu conheci (2): O Dudu veio para Portugal, obteve a nacionalidade portuguesa, era DFA, vivia em Torres Vedras (Eduardo Estrela, ex-fur mil, CCAÇ 14, Cuntima e Farim, 1969/71)

domingo, 22 de junho de 2025

Guiné 61/74 - P26948: Bom dia desde Bissau (Patrício Ribeiro) (57): jovens balantas de Encheia à porta da Impar Lda... e um mergulho na piscina do antigo Clube Militar de Oficiais





Foto nº 1A e 1 > Jovens balantas de Encheia à porta da sede da Impar Lda, na Av Domingos Ramos, 43 D, Bissau, CP 489



Foto nº 2 > Antiga piscina do Clube Militar de Oficiais, hoje integradas num complexo hoteleiro (que começou por ser, a seguir à independência, o Hotel 24 de Setembro)


Guiné-Bissau > Bissau > 15 de junho de 2025

Fotos (e legendas): © Patrício Ribeiro (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]




Patrício Ribeiro


Português, natural de Águeda, da colheita de 1947, criado desde criança em Nova Lisboa, hoje Huambo, Angola, ex-fuzileiro em Angola (1969/72), a viver na Guiné-Bissau desde 1984, fundador, sócio-gerente e ex-director técnico da firma Impar, Lda; é um "histórico" nossa Tabanca Grande (que integra desde 6/1/2006): é o português que melhor conhece a Guiné e os guineenses; é o nosso "embaixador" em Bissau, colaborador permanente para as questões de ambiente, geografia e economia, autor da série "Bom dia, desde Bissau": tem  cerca de 190 referências no nosso blogue.

1. Mensagem do Patrício Ribeiro


Data - 15/06/2025, 14:00
Assunto - Bom dia, desde Bissau


Bom dia, desde Bissau...

Hoje domingo, um grupo duas dezenas de jovens vieram visitar a Praça de Bissau.

Estes 3 jovens que estão na foto, informaram que fazem parte da “cultura balanta”, vieram das tabancas balantas da região de Bissorã, estes 3 são de Encheia.

Nesta época, final da campanha de caju, os camponeses têm algum dinheiro, para poderem fazer as suas cerimónias.

Há muitos “choros”, são precisas muitas vacas e porcos, as pessoas ficam com dívidas para pagar durante muito tempo, porque o dinheiro não chega e as festas são grandes, para não ficarem atrás das cerimónias dos amigos.

Como hoje é domingo, vou dar um mergulho à piscina da antiga messe dos oficiais, junto ao QG e almoçar lá.

Quando cheguei á Bissau,  em 1984 , vai fazer agora uns anos, acompanhado por uma equipa de colegas, era aqui que tomávamos banho, com sabão e toalha de banho, com água pelo joelho, não havia água em mais nenhum local do Hotel 24 de Setembro,

Era assim o nome que o hotel tinha naquela data… depois já mudou de nome 2 vezes (ver foto da piscina).

A chuva hoje vai deixar dar o mergulho… ela chegou com força no início de junho, praticamente chove todas as noites, a humidade e o calor é aquela o que vocês conheceram quando por cá andaram.

Abraço. Patrício
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quarta-feira, 28 de maio de 2025

Guiné 61/74 - P26855: Facebok...ando (80): Bissássema (cor GNR ref João Manuel Pais Trabulo, ex-alf mil, CCAÇ 2314, Tite e Fulacunda, 1968/69) - Parte III: Feitos prisioneiros do PAIGC em 3/8/1968, foram libertados na sequência da Op Mar Verde, em 22/11/1970: António Júlio Rosa, Geraldino Marques Contino e Victor Capítulo



Guiné > Região de Quínara > Tite > Bissássema > CCAÇ 3327  > c. 1971/72 > Jovens balantas en traje de festa.  Três anos depois da tragédia de Bissássema,  a CCAV 2765, com apoio de um destacamento de engenharia do BENG 447, deram início em 15 de janeiro de 1971 às obras da construção do quartel da nova tabanca de BissássemaEm 12 de Novembro de 1971, a CCaç 3327 / BII 17 fez deslocar dois pelotões para Bissássema onde foram substituir a CCav 2765. 

Foi a esta companhia açoriana que coube, para além da proteção das tabancas da sua zona,  a missão principal de a construir  um  reordenamento com 100 moranças e váriso equipamentos coletivos.

Foto do álbum do Rui Esteves, ex-furriel miliciano enfermeiro (CCAÇ 3327, Teixeira Pinto e Bissássema, 1971/73), e que vive em Vila Nova de Gaia; é um dos históricos da  nossa Tabanca Grande.


Foto (e legenda): © Rui Esteves (2005). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Segunda parte do texto do antigo alf mil at inf da CCAÇ 2314 (Tite e Fulacunda, 1968/69), J. M. Pais Trabulo, disponível na sua página do Facebook (João Manuel Pais Trabulo), e também reproduzido na página do CCAÇ 2314 - Agis Quod Agis.e e na página do BART Tite - Guiné (BART 1914).

Hoje Cor GNR ref, Pais Trabulho (natural de Meda, a viver em Gouveia), tem mantido viva a memória desse tempo que foi dramático, para quem nomeadamente esteve em Tite e Bissássema, em fevereiro de 1968 (CART 2314, CART 1743 / BART 1914, milícia e população, etc.).

Esta subunidade, a CART 2314 passou a estar representada na Tabanca Grande pelo ex-fru mil OE/Ranger, MA, Joaquim Caldeira (nº 905) (vive em Coimbra).


Bissássema (cor GNR ref João Manuel Pais Trabulo, ex-alf mil, CCAÇ 2314, Tite e Fulacunda, 1968/69) - 

Parte III: Feitos prisioneiros do PAIGC em 3/8/1968, foram libertados na sequência da Op Mar Verde, em 22/11/1970:  António Júlio Rosa, Geraldino Marques Contino e Victor Capítulo 



Cor GNR ref Pais Trabulo
(Fonte: página do Facebook)

(...) Mais tarde, precisamente três anos depois, em 15 de janeiro de 1971, a CCAV 2765, com apoio de um destacamento de engenharia do BENG 447, deram início às obras da construção do quartel da nova tabanca de 
Bissássema.

Em 12 de Novembro de 1971, a CCaç 3327 fez deslocar dois pelotões para Bissássema onde foram substituir a CCav 2765. 

Para efeitos operacionais, em Bissássema, a CCaç 3327/BII 17 tinha adidos os Pelotões de Milícias 294 e 295.

Para além da proteção das tabancas da sua zona,  a Companhia tinha como missão principal a construção de 100 casas no reordenamento, construir ainda uma escola, um furo artesiano, eletrificar o perímetro do aquartelamento e uma Cooperativa Agrícola, entre outras iniciativas e ordens recebidas.

Esta CCaç 3327/BII 17 seria substituída em Bissássema pela CArt 6252/Bart 6520/72, tendo cessado as suas funções no TO da Guiné no dia 14 de Dezembro de 1972.

Mais uma vez entendemos recordar e divulgar o sacrifício que estes jovens militares portugueses tiveram no cumprimento do seu dever que, embora lhes tenha sido imposto, o desempenharam com o sacrifício da própria vida, para bem das populações autóctones e do País.

Na madrugada de 22 de novembro de 1970, no decurso da operação “Mar Verde”, estes e outros os prisioneiros portugueses, no total de 26, foram libertados da prisão Montanha por um grupo de combate do Destacamento de Fuzileiros Especiais (Africanos) nº 21, numa ação armada efetuada pelas Forças Armadas Portuguesas na Guiné-Conacri, sob o comando de Alpoim Galvão.

António Júlio Rosa, alferes miliciano, natural da Abrunhosa, Mangualde, e mais dois seus militares, cabo cripto Geraldino Marques Contino e soldado Victor Manuel Jesus Capítulo, da CArt 1743, tinham sido  feitos prisioneiros, na madrugada de 3 de fevereiro de 1968, por forças do PAIGC.



Foto da autoria de Pais Trabulho
 (com a devida vénia...)

Sobre essa noite fatídica de Bissássema no seu livro "Memórias de um prisoneiro de guerra", o alferes miliciano António Júlio Rosa, entretanto falecido, relata-nos:

  • "Seria meia-noite, quando, quem estava já dormindo, e era o meu caso, foi despertado violentamente!... Os 'turras' estavam a atacar!... Ouviam-se rebentamentos e muitas rajadas. Era um fogo contínuo e feroz. O ataque tinha sido desencadeado, a sul, no lado da mata... Estavam lá os africanos de Tite e alguns de Empada. O tiroteio manteve-se muito intenso durante cerca de meia hora. Depois... diminuiu até cessar completamente.
  • "Quando o tiroteio acabou, ficámos convencidos de que o ataque tinha sido repelido. Contactei o Maciel para darmos uma volta pelos abrigos e ver se tudo estava bem. Deslocámo-nos até ao último abrigo do meu pelotão, situado a uns cinquenta metros e verificámos que tudo estava normal.
  • "Íamos prosseguir a nossa ronda para sabermos dos africanos, quando, a uns cinquenta metros, se ouviu uma rajada de pistola-metralhadora. O som parecia vir de dentro do nosso perímetro. Ficámos os dois perplexos porque não tínhamos armas que 'cantassem' assim!...
  • "Regressámos de imediato, à zona do comando e alertámos para a possibilidade do inimigo se achar no meio das nossas forças. Dentro do posto de comando encontrava-me eu, o Maciel, o Cardoso, o Gomes e três operadores das transmissões. De repente, apareceu, transtornado, o comandante da milícia de Tite. Só teve tempo de nos dizer que os ‘turras’ estavam dentro do perímetro e se dirigiam para o local onde nos encontrávamos. Mal acabou de falar fomos atacados. Não deu sequer tempo para se tentar encontrar uma solução!...
  • "Rapidamente, procurámos sair para o exterior. Quando cheguei à porta, seguido pelo Geraldino e pelo Capitulo, rebentou uma granada ofensiva mesmo à nossa frente. Com o sopro da explosão fui empurrado para trás e não via nada pois tinha os olhos cheios de terra. Com o estrondo, fiquei surdo!...
  • "Foi uma sensação horrível!... Pensei que ia morrer!... Foi impressão instantânea que passou em segundos. Entretanto, tive outra sensação!... Tive o pressentimento que ia ser abatido!... Sinceramente fiquei preparado para morrer!...
  • "(...) Senti-me agarrado, ao mesmo tempo que alguém me socava, violentamente, mas não sentia qualquer dor. Estava prisioneiro!... O Dino e o Capitulo tiveram a mesma ‘sorte’!... Seriamos levados para Conacri…”


Geraldino Contino (**)

Sobre o assalto a Bissássema pelo PAIGC, segundo conta o Geraldo Contino: 

  • (...) “Dois dias após a chegada ao terreno, pouco minutos a faltarem para a meia-noite, mais precisamente no dia 2 de fevereiro de 1968, (sexta-feira), um numeroso grupo IN, investiu em direção ao extenso e mal programado perímetro das nossas tropas, pelo lado do pelotão das milícias. 
  • "Estes não aguentando o ímpeto do ataque, acabaram por abandonar os seus postos, permitindo abrir brechas na defesa do terreno e possibilitar o cerco ao improvisado posto de comando. 
  • "A confusão surpreende as NT e, permite a captura dos europeus, o Geraldino Marques Contino, o Alf António Rosa e o Victor Capítulo.”

Ainda hoje, temos no nosso pensamento a visão dolorosa do estado dos nossos camaradas em fuga para Tite, bem como as lágrimas que corriam nas suas faces, os olhos cobertos de lama e a maioria descalços, ou mesmo nus, parecendo figuras de filmes de terror, apenas com forças para agarrarem, desesperadamente, a arma, a sua única salvação para manter a vida, quando em redor somente havia a morte…

Sabe-se que esta intervenção, em Bissássema, foi um fracasso para ambos os lados e que o PAIGC sempre ocultou no seu historial:

  • se, pelo lado português, para além dos três prisioneiros e dois desaparecidos e feridos, não se conseguiu concretizar os objetivos propostos; 
  • para o lado do PAICG, o elevado números de baixas levou a que  sempre escondesse as suas consequências, tendo, inclusivamente, sido considerado por alguns, como um dos maior desaires que sofreu o  movimento de libertação da Guiné.

Hoje podemos questionar-nos: será que valeu a pena o sacrifício e a vidas destes jovens?…

Eles não merecem ser esquecidos, cumpriram com o seu dever para com a Pátria!

Procurámos dar a conhecer o que viveram os militares da CCAÇ 2314, e completá-la o mais fiel possível com elementos de quem lá esteve de modo a dar a conhecer o ocorrido. 

Socorremo-nos da História da Unidade, do livro do saudoso alferes Rosa e de relatos do libertado cabo Contino,  como é referido no texto.

17 de Dezembro de 2021.

Cor Pais Trabulo


Capa da 2ª ed. do livro de memórias
do António Júlio Rosa (1946-2019):
"Memórias de Um Prisioneiro" (Lisboa, 
Edições Colibri, 2021, 172 pp.)


2. Nota biográfica de António Júlio Rosa (Mangualde, 1946-Lisboa, 2019:



(i) natural de Abrunhosa-a-Velha, povoação do concelho de Mangualde e distrito de Viseu, nasceu no dia 11 de maio de 1946;

(ii) chegada a idade militar, seguiu para Mafra, onde frequentou o Curso de Oficiais Milicianos; após o Juramento de Bandeira, entrou na Escola Prática de Artilharia, em Vendas Novas,; aqui tirou a especialidade de atirador de Artilharia;

(iv) em 10 de dezembro de 1967, embarcou no T/T Alfredo da Silva, rumo à Guiné-Bissau; desembarcou no dia 20;

(vi) na madrugada do dia 3 de fevereiro 1968 foi levado para a Guiné-Conacri como prisioneiro do PAIGC; na Guiné-Conacri permaneceu um longo e doloroso cativeiro, até 21 de novembro de 1970;

(vii) nessa noite, um grupo de fuzileiros comandado pelo Sr. Comandante Cunha e Silva que integravam a "Operação Mar Verde" concebida pelo Sr. Comandante Alpoim Calvão (já falecido), restituiu os prisioneiros à liberdade;

(viii) antes de escrever o livro nunca se referia ao cativeiro, mesmo em conversa com os familiares ou amigos: o trauma jazia na sua mente; em janeiro de 2000, decidiu finalmente escrever o livro: "Memórias de um Prisioneiro de Guerra"; foi a libertação dos problemas psicológicos que o atormentavam;

(ix) faleceu no dia 6 de abril de 2019, em Lisboa.

Fonte: Edições Colibri, Lx.


(Revisão / fixação de texto, título: LG)
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Notas do editor LG:
 
(*)  Vd. postes anteriores da série > 



(**) 12 de dezembro de 2017 > Guiné 61/74 - P18078: (De) Caras (101): Geraldino Marques Contino, ex-1º cabo op cripto, da CART 1743, ex-prisioneiro de guerra, aqui à conversa com outro camarada do seu tempo, com quem chegou a trabalhar no centro cripto de Tite, o Raul Pica Sinos (CCS / BART 1914, Tite, 1967/69)

quarta-feira, 30 de abril de 2025

Guiné 61/74 - P26746: Historiografia da presença portuguesa em África (479): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial do Governo da Província da Guiné Portuguesa, 1915 e 1916 (33) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 22 de Novembro de 2024:

Queridos amigos,
Sai o governador Josué de Oliveira Duque, entra o governador José António Andrade Sequeira, é um regresso à Guiné, em breve irão sentir-se as consequências da Primeira Guerra Mundial, tudo se agrava com a declaração de guerra da Alemanha a Portugal. O Boletim Official tem que ser passado a pente fino para encontrar matérias de algum suco no meio de tanto tédio administrativo. É assim que ficamos a saber que é recusada ao capitão Teixeira Pinto uma verba que em princípio ele teria direito, os acusados de terem incitado a insurreição dos Papéis e Grumetes da ilha de Bissau são amnistiados, bem queriam ser julgados para contar a verdade dos acontecimentos, todos eles ligado à Liga Guineense, que foi dissolvida, chamaram um advogado de prestígio, Loff de Vasconcelos, que irá escrever uma catilinária a arrasar os depoimentos de Teixeira Pinto, revelando as barbaridades e pilhagens feitas pelos irregulares do chefe de guerra Abdul Indjai. E há um belo documento emanado pelo comando militar dos Manjacos, tenente António Maria, vem publicado no Boletim Official n.º 30, de 22 de julho de 1916, belíssima peça.

Um abraço do
Mário



A Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial do Governo da Província da Guiné Portuguesa, 1915 e 1916 (33)


Mário Beja Santos

Após as campanhas de Teixeira Pinto, o governador Josué de Oliveira Duque tem por fim do seu mandato, fica como encarregado do Governo o secretário-geral Sebastião José Barbosa, isto a 24 de agosto, dois dias depois toma posse alguém que regressa ao Governo, José de Andrade Sequeira, consta no Boletim Oficial n.º 35, de 28 de agosto. Nesse mesmo Boletim Official vem publicado o termo de posse dado ao Sr. Dr. José António de Andrade Sequeira, estão presentes as figuras gradas, o secretário-geral e Encarregado do Governo, a Comissão Municipal, magistrados judiciais, funcionários civis militares, corpo consular, corpo comercial e os mirones do costume.

No Boletim Oficial n.º 40, de 2 de outubro, vem publicada uma decisão da Direção-Geral da Fazenda das Colónias que envolve Teixeira Pinto, tinha sido pedida autorização para o abonar com a percentagem que lhe cabia sobre o imposto de palhota referente a 1914, na importância de 19.950$50, isto por ocasião em que batera os Manjacos e Balantas que se tinham sublevado. Ora o Ministro das Colónias indeferiu não haver portaria que desse ao Capitão Teixeira Pinto as atribuições dos direitos de administrador de circunscrição: “O mencionado capitão Teixeira Pinto não tem direito ao abono da referida percentagem, e que é por meio de recompensa honorífica que se devem galardoar, caso não tenham ainda sido premiados, os bons serviços que durante as operações o referido oficial haja prestado.”

Ficamos a saber através do Boletim Oficial n.º 41, de 9 de outubro, que tinham sido aprovados os estatutos do clube de Bolama, destinado a promover a convivência dos seus associados, proporcionando-lhes todas as distrações e divertimentos compatíveis com os seus recursos, como jogos lícitos, desportivos, leituras, palestras, música, soirées e récitas.

Voltamos a saber que há tensões, sublevações e insubmissões no Boletim Oficial n.º 44, de 30 de outubro, reza o seguinte que manda escrever o governador Andrade Sequeira:
“Sendo a região dos Balantas uma as mais insubmissas desta província;
Considerando que, pela organização social dos Balantas, só uma efetiva e conveniente ocupação militar, de tropas regulares, poderá levar esses povos ao respeito pela soberania nacional, integrando-os na nossa civilização;
Considerando que, assim, se faz sentir a necessidade de uma ação militar persistente e duradoura, que só se pode obter instituindo todo o território dos Balantas num comando militar;
Hei por conveniente desanexar das circunscrições respetivas toda a região dos Balantas e nomear seu comandante militar o Capitão de Infantaria Manuel Correia Dias, que acumulará as suas funções com as de comandante da 1.ª companhia.
Para efeitos desta portaria ficam sujeitos ao comandante militar dos Balantas todos os territórios da região Balanta que, até hoje, estavam sob as jurisdições dos comandantes militares de Bissorã, Porto Mansoa, Nhacra e Goli.”


O problema das armas e munições ir-se-á pôr durante este período e até ao conflito da Primeira Guerra Mundial. Veja o que se escreve no Boletim Oficial n.º 48, de 27 de novembro:
“Atendendo ao que me tem sido representado por vários comerciantes e indígenas, pedindo para se permitir a venda de espingardas ordinárias;
Considerando que a quase totalidade dos povos da Guiné tem por costume, uso e tradição, fazer largo dispêndio de pólvora, que consomem disparando tiros sempre que se trata de cerimónias fúnebres e outras solenidades;
Considerando que a abundância de animais ferozes, especialmente onças, jacarés e lobos, tem originado a perda de muito gado e até recentemente alcateias os últimos animais atacaram e feriram gravemente muitos indígenas da circunscrição de Geba;
Considerando que estando a província inteiramente pacificada não há o menor inconveniente, e antes toda a vantagem em permitir o uso e porte de espingardas ordinárias, cuja venda tem sido normalmente e sem restrições autorizada;
Hei por conveniente autorizar a venda de espingardas de pedreneira e espoleta nas seguintes condições:
Os comerciantes que para tal estiverem autorizados poderão ter nos seus estabelecimentos as espingardas que importarem e que ficarão relacionadas no Depósito de Material de Guerra.
As armas só serão vendidas aos indígenas que possuírem licença para as adquirir, licença que só poderá ser concedida pelos administradores de circunscrição e comandantes militares de territórios desanexados aos indivíduos que estiverem sob as suas respetivas jurisdições.”


E nesta portaria eram mencionadas diferentes formulações para obter licença, definindo os respetivos custos.

Assim chegamos a 1916. No Boletim Oficial n.º 10, de 10 de março, é anunciado que pelas 18 horas fora declarada guerra entre a Alemanha e Portugal. No Boletim Oficial n.º 17, de 22 de abril, surgem dois anúncios que desprovidos de qualquer comentário não dão para entender a sua substância. Há primeiro um agradecimento dos signatários, presos políticos, implicados na chamada rebelião de Bissau, e que tinham sido amnistiados, atos que eles não tinham pedido, o que tinham pedido era ser julgados, e agradeciam a todos os seus amigos e a outras individualidades que tinham patenteado sempre o maior interesse e simpatia pela sua justa causa. Assinavam António dos Santos Teixeira, Augusto Domingos da Costa, Vítor Francisco Robalo, Manuel Gomes Barbosa, Raimundo Ledo Pontes, Manuel Carvalho de Alvarenga e Lourenço Gomes.

Quem eram estes homens? Tinham sido considerados os incitadores da rebelião dos Papéis e Grumetes de Bissau, tinham escrito documentos acusatórios das pilhagens praticadas na ilha de Bissau pelas gentes de Abdul Indjai, o que tinha levado ao protesto do capitão Teixeira Pinto. Estes homens eram dirigentes da Liga Guineense, que fora dissolvida, e tinham chamado para a sua defesa um advogado de prestígio, com escritório em Cabo Verde, Loff de Vasconcelos, autor do segundo anúncio em que diz:
“Anuncia, para os devidos efeitos, que tendo acabado de cumprir a missão que o tinha trazido a esta colónia, contava retirar-se neste mês para Lisboa; como, porém, surgiu um incidente, que desejava liquidar, resolveu continuar manter aqui aberto o seu escritório, definitivamente, e assim oferece ao público os seus serviços permanentes.”


Loff de Vasconcelos irá escrever um texto arrasador, onde procura demolir ponto por ponto as acusações que tinham caído sobre estes comerciantes de serem instigadores da rebelião dos Papéis e Grumetes.

Documento que não deixa de se revelar muito interessante é o relatório escrito pelo tenente António Maria em Canchungo, em 15 de maio de 1916 e transcrito no Boletim Oficial n.º 30, de 22 de julho, é longo, transcrevem-se alguns parágrafos:
“Por toda a parte me diziam que ia encontrar em Basserel um posto muito bonito, já construído e 200 auxiliares, do que havia de melhor. Do posto nada existia, os bons auxiliares quando foram chamados para auxiliar o desembarque de alguns materiais e géneros, recusaram-se.
Fui alojado, com os dez soldados que trouxe, na tabanca dos irregulares, em algumas palhotas dos que andavam por fora, ficando os soldados em três e eu numa, que também servia de arrecadação do material de guerra e demais artigos.”


“O posto começou a construir-se com a exígua guarnição de dez soldados, sem ter recursos alguns. Era preciso chamar o gentio ao nosso convívio e obrigá-lo a entregar as armas e apagar o imposto e ainda a conter a onda desenfreada dos irregulares. Metodicamente vou conseguindo alguma coisa. O gentio, em pequena quantidade, vem ajudar-me no corte do mato.”

“Ao mesmo tempo trabalhava-se na construção do posto de Caió e estradas, sem desprezar a política indígena, atraindo o gentio. Fiz um mercado próximo do posto de Basserel, onde as mulheres começam a ir, protegidas por um europeu contra qualquer extorsão dos irregulares e assim vou pondo termo à fuga de mais gente, principiando a regressar os que tinham fugido.”

“Usei sempre de toda a prudência, inspirando o meu procedimento na mais elevada compreensão da justiça, para manter entre eles o prestígio da autoridade.
Tratei sempre os indígenas com bons modos e boas palavras, a fim de manter o amor e respeito do nome português, sem, contudo, abandonar a firmeza e energia para com os desobedientes.
As obras feitas foram: construção e reconstrução do posto de Basserel; construção do posto de Caió; construção da casa do comando e habitação do sargento em Canchungo; melhoramentos no posto de Xuruberique; rede de estradas em toda a região ligando o Jol e Brames; construção de pontes em Basserel, Jata e Caió, aonde podem atracar lanchas e pequenos vapores; pontes pelo interior e canoas nos rios aonde se não puderam fazer pontes para não impedir a navegação, etc. etc.”


Dá conta da cobrança de imposto de palhota, da receita administrativa, das despesas e o saldo que entregou ao seu sucessor. Julga ter servido a contento, se não de todos, pelo menos da maior parte.

Criou alguns inimigos, fundamentalmente irregulares, teve bons e maus auxiliares nos seus subordinados e indica o nome de alguns em que se pode depositar a máxima confiança, pelo que os recomenda ao governador.

Já estamos em guerra, vamos agora conhecer as medidas restritivas, os bens alemães estão arrestados, há proibições de exportação de géneros e de mercadorias, a Guiné vai conhecer as suas provações decorrentes da guerra.


O automóvel Ford chegou à Guiné, 1910
Uma montanha de amendoim, 1910

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 23 de abril de 2025 > Guiné 61/74 - P26718: Historiografia da presença portuguesa em África (478): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial do Governo da Província da Guiné Portuguesa, 1914 e 1915 (32) (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 9 de abril de 2025

Guiné 61/74 - P26668: Historiografia da presença portuguesa em África (476): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Official do Governo da Província da Guiné Portuguesa, 1911 e 1912 (30) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 12 de Novembro de 2024:

Queridos amigos,
Só lamento que tenham sido publicadas três "radiografias" aos quesitos apresentados pelo governador Carlos Pereira ainda em 1910, ele pretendia que em todos os lugares da administração lhe fornecessem elementos para ele conhecer não só aos povos da Guiné, a sua economia, as vias de comunicação, ter alguns dados precisos sobre a etnografia e a etnologia, por exemplo. Cacheu, Buba e Bissorã, de modo diferenciado, responderam. O tenente Ramos da Silva de Bissorã, vê-se que procurou oferecer ao governador mais do que era pedido. E publica-se também uma nota de louvor de uma expedição para castigar Balantas e Baiotes de que não há qualquer referência no Boletim Official, é por isso que acho que fiz bem em conjugar referências ao Boletim Official com o vastíssimo acervo documental recolhido por Armando Tavares da Silva no Arquivo Histórico Ultramarino.

Um abraço do
Mário



A Província da Guiné Portuguesa
Boletim Official do Governo da Província da Guiné Portuguesa, 1911 e 1912 (30)


Mário Beja Santos

A singular iniciativa do governador Carlos Pereira, pouco tempo depois de chegar a Bolama, em enviar às autoridades da administração então existente um conjunto de requisitos que, todos conjugados, lhe poderiam oferecer a gravura real da colónia vista do lado do colonizador, não teve, infelizmente, a sequência desejada. Vimos anteriormente que responderam Cacheu e Buba, só detetei no suplemento n.º 3 ao Boletim Official n.º 21, de 27 de maio de 1911, o relatório sobre a região de Bissorã, escrito pelo tenente de Infantaria Viriato Ramos da Silva, que abaixo se sintetiza.

Começa por dizer que os habituais habitantes de Bissorã eram descendentes de Balantas cruzados com gente do Oio, onde outrora estivera estabelecida a tabanca Bissorã. Não podendo resistir às constantes correrias dos Oincas, viram-se os de Bissorã na necessidade de fugir para a margem esquerda do rio Armada, em território de Balantas. O espírito irrequieto dos Soninqués do Oio e o ódio profundo que estes votavam aos Balantas seria a causa primária de frequentes desaguisados por suporem que os de Bissorã acolhiam os que iam roubar ao Oio. E dentro desta apreciação sobre a ancestralidade de Bissorã, o tenente Ramos da Silva observava que das três primitivas famílias que se estabeleceram na região descendiam dos atuais habitantes.

E mais comentava o relator que dias antes do estabelecimento do posto de que ele era comandante tinham os de Bissorã sido atacados duas vezes consecutivas, mas infligido grande derrota aos inimigos que eram representantes de quase todas as tabancas do baixo Oio. Insiste-se que se pode dizer que todos descendem de Balantas cruzados com gente do Oio. Mouros e Soninqués falam a língua Mandiga, os primeiros não bebem, os segundos são bebedores. Mandigas e Soninqués vivem juntos na mesma tabanca separadamente.

E vai dissertar sobre nascimentos, funerais, crenças e superstições. Dirá que durante o tempo que dura a aleitação o homem não faz vida comum com a mulher, compete ao pai pôr o nome às crianças. Nos funerais, os Balantas e os Soniqués costumam dar tiros para o ano consoante a grandeza do morto. É usual os Soninqués rapar o cabelo em sinal de luto. A viúva entre os Mandigas veste-se de branco durante três meses. No que respeita a crenças e superstições, os habitantes de Bissorã, como em geral todo o preto, é extremamente supersticioso. E observa que os mouros têm um verdadeiro horror ao Inferno, e faz uma apreciação cultural dizendo que os mouros conhecem algumas constelações.

Lança-se seguidamente numa descrição sobre a fauna e a flora. Quanto a animais ferozes apenas regista o lobo e a hiena. Refere depois antílopes, o gato bravo, a lebre, o porco espinho, os javalis, os ratos de palmeira, macacos de diversas qualidades. Não esquece obviamente as cobras. E quanto à variedade de insetos elenca a formiga cadáver, a bagabaga, moscas e mosquitos, abelhas e libélulas. Na lista de aves inclui: o jagudi, o milhafre, o falcão, grande variedade de rolas, pombos verdes, galinha do mato, chocas, melros, periquitos, papagaios, andorinhas, mas diz também que a lista é mais extensa. Na fauna aquática a sua lista é composta pelo cavalo-marinho e pelo jacaré-lagarto. Mais ampla é a listagem dos peixes, começando pelo bagre, a ventana e a tainha.

Passando para a flora, elenca: bissilão, pau-carvão, sibe-palmeira, farroba e as árvores da borracha. Não esquece as árvores de fruto, logo a laranjeiro, o limoeiro e a papaeira. Lembra que uma parte da riqueza guineense assenta na palmeira e na mancarra. Passando para os cereais, logo as diferentes qualidades de arroz, o milho, inclui nos tubérculos a batata-doce, a mandioca e o inhame. Disserta sobre as plantas tintureiras e as plantas medicinais. Falando da horta que se fez no seu posto, alega se semearam: couve, nabiça, chicória, feijão, batata, rabanetes, tomate e alface; o observa que talvez por serem velhas as sementes, as couves não deram resultado. Dá informações sobre as vias de comunicação: não há estradas na região, a principal via de comunicação é o rio da Armada ou de Bissorã. Quando é necessário levar correspondência ou mensagens por portador esclarece que a pé são três horas até Mansoa e para Bissau são precisos dois dias.

Estamos chegados a 1912 e no suplemento ao Boletim Official n.º 7, com data de 17 de fevereiro, a União Colonial Portuguesa anuncia a realização de um congresso colonial e para o efeito envia um questionário abrangendo os diversos aspetos que a moderna ciência colonial aconselha a debater, apelando à colaboração e participação e ao envio de memórias, comunicações ou teses. E estabelece oito secções para estes trabalhos. A primeira abrange a geografia física e económica, a geografia médica (quais as localidades das nossas colónias que oferecem condições para o estabelecimento de sanatórios), etnologia e etnografia; a segunda secção prende-se com o comércio e indústria, agricultura, vias de comunicação, pautas aduaneiras e navegação; na 3.ª secção temos a sociologia colonial (esclarece-se a definição da condição jurídica dos indígenas não civilizados, quais as melhores soluções para a política indígena na Guiné, quais as vantagens das missões científicas na cultura da raça negra); a 4.ª secção abarca a instrução pública, missões, colonização, regime penal. Trabalho e regime das terras; a 5.ª secção é referente às questões militares (há a possibilidade de ocupar pacificamente a colónia da Guiné?); a 6.ª secção é referente a finanças, banca, crédito predial e agrícola e regime tributário; a 7.ª secção compreende a administração geral, questões jurídicas e questões constitucionais; e por último a 8.ª secção tem a ver com a história da colonização. Procurei até agora sem sucesso a documentação alusiva a este congresso colonial que a União Colonial Portuguesa pretendia empreender.

O Boletim Official n.º 12, de 23 de março de 1912, informa que o encarregado do Governo achou por conveniente louvar os oficiais e as praças constantes de uma relação que vem em anexo pelo valor e disciplina manifestados durante as operações levadas a cabo para castigar os Balantas de Binhone e Baiotes de Jobel e Elia. Lista extensa que começa pelos capitães José Carlos Botelho Moniz e Joaquim Simões da Costa, vem depois uma relação de militares europeus e uma extensa lista de soldados da 1.ª e 2.ª Companhia Indígena.

Mandigas de Farim, 1910
Uma rua de Bafatá, 1910
Duas imagens retiradas do site Coleccionar com História, com a devida vénia
Farol da Ponta do Biombo, em 1910
Bissau do antigamente, imagem retirada de Casa Comum/Fundação Mário Soares, com a devida vénia

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 2 de abril de 2025 > Guiné 61/74 - P26642: Historiografia da presença portuguesa em África (475): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Official do Governo da Província da Guiné Portuguesa, 1911 (29) (Mário Beja Santos)