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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27769: Historiografia da presença portuguesa em África (518): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1962 (76) (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 12 de Setembro de 2025:

Queridos amigos,
Recorda-se ao leitor que surgiu, já no ano anterior, e agora às catadupas, extensa legislação, sobretudo emanada do Ministério do Ultramar. O investigador António Duarte Silva, em "O Império e a Constituição Colonial Portuguesa (1914-1974)", imprensa de história contemporânea, 2019, dá conta deste conjunto de reformas de 1961, sob a égide de Adriano Moreira (Páginas 208 a 214). O reflexo desta legislação na Guiné não se fez esperar. Como o leitor verificará, tomam-se medidas como os julgados municipais de trabalho ou as comissões municipais. Não há guerra de guerrilhas declarada, mas o Boletim Oficial não esconde em louvores ações que por vezes terminam com a morte de guineenses, membros da Polícia Administrativa e são igualmente retirados de funções pessoas "por práticas de atividades contrárias ao interesse nacional". Peixoto Correia deixa a Guiné em outubro, dentro em breve será Ministro do Ultramar; a escolha do novo governador recai de novo na Armada, trata-se do Capitão-de-Fragata (aviador) Vasco António Martins Rodrigues, que chega a Bissau em 21 de dezembro de 1962. Viverá, obviamente, as primeiras ações de guerrilha, a desarticulação do Sul. Num quadro que é historicamente turvo, entrará em desavença com o comandante-chefe, Brigadeiro Lourdes Sousa, têm abordagens estratégicas diferentes, as quezílias ganharão notoriedade, em abril de 1964 serão os dois removidos e entra na Guiné o Brigadeiro Arnaldo Schulz, dirá que resolverá a guerra em poucos meses.

Um abraço do
Mário



Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Guiné, 1962 (76)


Mário Beja Santos

A apresentação do Boletim Oficial mudou profundamente, não de look, mas de natureza. Já lá vão os tempos em que a esmagadora legislação era nada e criada na Guiné, já não falo dos relatórios de campanhas e expedições, reporto-me exclusivamente às informações que eram dadas tantas vezes com carácter não oficioso, matéria viva para análise do estudioso. Os acontecimentos de Angola, no ano anterior, despoletaram uma nova política ultramarina, com Adriano Moreira o acervo legislativo emanado do Governo central passa a aparecer no Boletim Oficial das Províncias. Fica, pois, muito diluída a informação local, esta ganhou formalidade e monotonia: questões avulsas, nomeações, reforço de verbas para as forças aéreas ultramarinas em vigor na Guiné, propostas de fornecimento… é óbvio que vão avultar os acontecimentos da guerra, será o caso de como se regularizam as condições em que os militares da Armada prestam serviço nos comandos navais e de defesa marítima do ultramar ou a restruturação das normas que devem regular nas províncias ultramarinas as organizações de voluntários em caso de necessidade de prestar colaboração às Forças Armadas; isto para sublinhar que é importante esmiuçar com atenção o rame-rame de medidas como as licenças para tratamento, as disposições do Conselho Superior de Disciplina do Ultramar, os anúncios de concursos, das medidas que revelam a emergência da guerra, como é o caso das instruções para o abono da alimentação por conta do Estado e da subvenção de campanha. São estas redações, mesmo orientadas para um espaço superior ao da Guiné que nos convocam para a sabermos o que está a mudar, veja-se este exemplo:
“Os militares e os civis militarizados que, nas províncias ultramarinas, façam parte das forças com a missão de restabelecer a ordem nas zonas onde a ação terrorista ponha em perigo as condições normais da existência da população, têm direito a: vencimentos normais que lhes competem quando em serviço na província; alimentação por conta do Estado; subvenção de campanha.” Mas também medidas como a atualização do regime de ajudas de custo de embarque e subsídio de interrupção de viagem relativos às forças terrestres ultramarinas. Ganhou premência a abertura de créditos a inscrever em adicionamento à tabela de despesas extraordinárias do orçamento.

Enfim, a guerra está a mudar o decisor político. Veja-se o Decreto-Lei n.º 44356, da Presidência do Conselho, no Boletim Oficial n.º 22, de 2 de junho:
“É gratuita a admissão e instrução em todos os estabelecimentos de ensino do Estado dos filhos dos indivíduos falecidos, mutilados, estropiados ou por qualquer forma incapacitados ao serviço da Pátria. O internamento em estabelecimentos de ensino do Estado poderá ser gratuito ou beneficiar de redução quando as condições materiais dos estudantes abrangidos pelo presente diploma o justifiquem.”

É claro que a vida continua, tomam-se medidas compatíveis com as regras do comércio, é o caso do regime respeitante à determinação, prova e verificação de origem nacional das mercadorias transacionadas entre territórios nacionais; ou institucional como a organização da Guarda Fiscal. O Ministério do Ultramar não para, pelo Decreto n.º 44310, a revogação do Estatuto dos Indígenas e mais recentemente do Código do Trabalho Indígena implica a revisão da estrutura dos Tribunais de Trabalho, respetiva competência e processo aplicável; e aquela necessidade que mais se evidencia com a publicação do Código do Trabalho Rural (relações jurídicas de trabalho emergentes de qualquer convenção em virtude da qual uma pessoa, mediante remuneração, preste serviços a outra, sob direção desta); e há medidas fiscais que abrangem as províncias ultramarinas, caso do imposto sobre os proventos de cargos públicos; temos também a autorização que se dá aos governadores das províncias de Cabo Verde e da Guiné para abrir créditos, com contrapartida no saldo das contas de exercícios findos.

Há quem diga que a guerra de guerrilhas na Guiné começou em janeiro de 1963, o que não é rigorosamente verdade, basta ler-se o louvor a um 1.º Cabo do Corpo da Polícia de Segurança Pública pelo zelo, dedicação, valentia e patriotismo evidenciado numa ação efetuada pelas forças da ordem, concorrendo decisivamente para a captura de um indivíduo que pretendia praticar atos de subversão na Província. Há também referência à organização de autodefesa por parte das empresas consideradas como indispensáveis à vida regular da Província, é o caso de: António Silva Gouveia; Sociedade Comercial Ultramarina; Mobil Oil; SACOR; Shell e B.P. Sim, há guerra, veja-se o louvor dado ao cipaio Cofai Turé, da Administração do Concelho de Farim, pelo zelo, dedicação, valentia e patriotismo com que desempenhava várias missões de segurança, qualidades que especialmente evidenciou ao participar na madrugada de 24 de agosto na povoação de Cã Quelu, área de Mansabá, numa ação efetuada pelas forças da ordem da qual resultou a sua morte ao serviço da Pátria.

Mas há muito mais: foi aprovado o Código do Trabalho Rural, prosseguem os anúncios de concursos, autoriza-se a instituição de julgados municipais de trabalho nas sedes das comarcas. Ainda não há guerra de guerrilhas, mas há seguramente subversão: foram demitidos dos cargos de regedores de Caió e Churo e de alferes de 2.ª linha Francisco Mango e Luís Belencante Rodrigues dos cargos de encarregados do regulado de Indafe e Ocante Agebane por práticas de atividades contrárias ao interesse nacional. Há notícias da PIDE, partidas e chegadas de elementos. Foi publicado o Regulamento sobre o movimento migratório na Província: “É proibida a fixação na Província de quaisquer pessoas cuja presença seja inconveniente, mormente os que pela sua presença possam causar alteração da ordem pública ou outros graves inconvenientes, quer de ordem interna quer de ordem internacional.”

Peixoto Correia segue para a metrópole em 30 de outubro, assume funções de Encarregado de Governo o Coronel João Augusto da Silva Bessa. O novo governador, Capitão-de-Fragata (Aviador) Vasco António Martins Rodrigues chega a Bissau em 21 de dezembro.

Retém-se da mensagem de despedida de Peixoto Correia:
“A melhor e mais sã colaboração que podem dar ao meu substituto é de amarem constantemente Portugal, repudiando qualquer aliciamento no sentido deste território alinha com os países onde se notam já evidentes sinais de perturbação social e económica, devido à saída dos europeus.” E acena com o caos das lutas tribais que sem a presença dos portugueses não podiam ser facilmente dominadas.

Família Fula
Dança da “banda” Nalu
Penteado Saracolé
Regedor de Jugudul, de etnia Balanta, concelho de Mansoa

Estas quatro imagens foram reproduzidas do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, ano de 1962

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 18 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27747: Historiografia da presença portuguesa em África (517): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1961 (75) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27663: Notas de leitura (1888): "Porto, 1934 a Grande Exposição", por Ercílio de Azevedo; edição de autor, 2003 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 28 de Julho de 2025:

Queridos amigos,
É o primeiro grande teste do Estado Novo para exibir a gesta Imperial, seguir-se-á 1937 e uma exposição que terá lugar no Parque Eduardo VII e em 1940 a Exposição do Mundo Português é o ápice da grande nação colonial, uma das maiores potências coloniais, é o que sobrou depois das guerras da Restauração e da independência do Brasil. Escolheu-se o Porto e uma área apropriada dentro dele, o Palácio de Cristal, houve obras profundas, Henrique Galvão cuidou dos primores decorativos, o êxito foi retumbante, irá ler-se no texto o número impressionante de comboios, camionetas e automóveis envolvidos, mais de um milhão e trezentos mil visitantes. A Guiné caprichou, pela majestade do régulo Mamadu Sissé, o pintor Eduardo Malta desenhou-o e pintou-o, sente-se que o personagem o deslumbrou; a Rosinha, já noiva do régulo dos Balantas, ganhou o concurso da grande beleza, o fotógrafo Domingos Alvão não lhe regateou belas fotografias; o menino Augusto era tão cativante que até fez publicidade; e o varonil e atlético Papé morreu inesperadamente, tal como o menino Augusto faleceu com tuberculose. O Tenente Henrique Galvão foi alvo de queixas das respeitáveis senhores portuenses que consideravam inaceitável andarem para ali umas meninas pretas com o peito ao léu, elas eram a grande atração dos visitantes, os grandes dignitários do regime não deram seguimento à queixa, dizendo que não tinha pés nem cabeça pôr as meninas vestidas à europeia... a civilidade viria com o tempo. E assim foi ganho o grande teste, o Estado Novo podia orgulhar-se de ter mostrado que Portugal não era um país pequeno.

Um abraço do
Mário



A Guiné e a Primeira Exposição Colonial Portuguesa, Porto, 1934

Mário Beja Santos

Porto, 1934 a Grande Exposição, por Ercílio de Azevedo, edição de autor 2003 é uma grande angular sobre o contexto sociopolítico e cultural em que decorreu a primeira exposição colonial, mostrando igualmente acontecimentos fotográficos, jornalísticos e propagandísticos desta grande realização. Era uma grande aposta do Estado Novo a impor em plena exibição pública o sonho imperial, a grandeza do Império, a missão evangelizadora, destacar as glórias da expansão ultramarina. Crescia por toda a Europa o autoritarismo e as apetências imperiais, havia uma larga tradição de feiras universais, mas eram poucas as exibições da história Imperial. O Ministro das Colónias, Armindo Monteiro, encarregou o Tenente Henrique Galvão da tarefa de organização dos stands da exposição.

O Acto Colonial fora prolongado em 1930, Portugal era a quarta potência colonial no mundo, o artigo 2.º do Acto Colonial era explícito, declarava ser da “essência orgânica da Nação Portuguesa desempenhar a função histórica de possuir e colonizar domínios ultramarinos e de civilizar as populações indígenas”. Procurava-se igualmente ultrapassar a deficiência ou a ausência de conhecimentos sobre a realidade colonial. Era grande a aposta, Salazar era Presidente do Governo desde 11 de abril de 1933, António Ferro editava no ano seguinte um luxuoso e artístico álbum que mostrava o estado florescente da nação, o que se alterara na rede viária, na instrução, nas finanças públicas, no restauro dos monumentos, no teatro e no cinema. O autor também nos desvela a vida do Porto por esse tempo.

E temos a realização passo a passo, a apresentação da iniciativa que meteu peditórios, baile e banquete no Palácio da Bolsa. Segue-se um acervo fotográfico entre a primeira pedra e a inauguração, nesse dia não faltarão o Presidente Carmona, o Ministro dos Negócios Estrangeiros, o Ministro da Guerra, o Ministro das Colónias, o Cardeal-Patriarca. Todas as colónias têm o seu pavilhão, ocupam espaço próprio, os visitantes cedo vão ficar deslumbrados com as mulheres guineenses em tronco nu, irá ouvir-se a queixa das respeitáveis senhoras do Porto, apelos uns atrás dos outros ao Tenente Henrique Galvão para que acabe com aquele desaforo, ver os indianos como encantadores de serpentes ainda vá, mas poder ver aquelas mulheres sem vergonha era inaceitável. Galvão replicou que os indígenas estavam vestidos exatamente como viviam.

Ercílio de Azevedo vai mostrando como ao longo da exposição eram apresentados os trabalhos jornalísticos, as visitas de pompa e circunstância como a do futuro Rei Eduardo VIII de Inglaterra, mostram -se imagens das grandes paradas, não falta o grande Cortejo Colonial, participam também as gentes da metrópole, não faltarão os Pauliteiros de Miranda, o carro da Casa do Douro, as Tricanas de Coimbra. A CP promoveu excursões a preços excecionais. A exposição custou 1.500 contos e rendeu 3.500, foi visitada por um milhão e trezentas mil pessoas, movimentou 1.300 comboios, 5000 camionetas, 2000 camiões e 40.000 automóveis.

Vieram muitos indígenas ao Porto, a comitiva guineense caprichava, o seu Embaixador era o Régulo Mamadu Sissé, o seu filho Abdula era um distinto fidalgo gentílico. Os jornais noticiavam:
“Mamadu, Rei dos Mandingas desde 1913, com a sua corte em Pachisse, domina os Balantas e ganha os Galões de Alferes, submete os Bijagós. Filho espiritual de Maomé, ao nascer do sol voltado para Meca começa o reinado de cada dia. Esposado de Catarina, grande mulher, filha da linhagem do Régulo de Bissau, tem ainda outra e outra. Mas no amor do homem todas três era como se fossem uma só. Malique, filho mais velho, dos treze que são, lá ficou a governar as rudimentares relações dos súbditos com a certeza indestrutível de ter obedecido. Sem fronteiras na vontade, além do Alcorão e do respeito da soberania portuguesa, majestaticamente, Mamadu, hirto nos seus 67 anos de amor a Portugal, em magoada saudade confidencia que Folupe, centro da sua casa, da sua família e da sua corte era a sua Pátria toda.”

A Rosinha merecia todo o destaque da imprensa. Vieram autoridades galegas e condecoraram Mamadu Sissé, houve grande emoção na comitiva guineense. O Régulo que chefiava a secção indígena da Guiné era Mona Sambu, Eduardo Malta fez-lhe um desenho. Entrevistado pela imprensa, Mona Sambu revelou que era Régulo dos Balantas, já o pai desempenhara funções na polícia e acompanhara o Capitão Teixeira Pinto e Mamadu Sissé nas operações de ocupação. A Rosinha iria casar com ele.

Quem ganhou também notoriedade foi o Augusto, era o ai-jesus do público, umas vezes aparecia com o capacete colonial, houve empresas que lhe tiraram fotografias para venderem produtos. Houve igualmente acontecimentos tristes na comitiva guineense. Morreu um Bijagó vigoroso de nome Papé, era apresentado como um dos pretos mais atléticos da exposição. Na aldeia lacustre em que viviam os guineenses batucou-se, em som de luto.

Este álbum termina com uma coletânea de depoimentos revelando imagens propagandísticas de grande valor.


Quadro de Eduardo Malta mostrando o rego Mamadu Sissé e Grupo da Guiné
A dimensão do evento
Fachada da exposição, entrada do Palácio das Colónias
O famoso mapa propagandístico de Henrique Galvão, irá reaparecer com a Guerra Colonial
O comboio da exposição. Fotografia de Domingos Alvão
Interior da exposição, Nave central
"O Homem do Leme na Exposição Colonial de 1934 – Nesta exposição a escultura do Homem do Leme era em barro. Só mais tarde foi fundida e colocada em frente à praia, na Avenida de Montevideu". Do blog Do Porto e não só.
Réplica do Farol da Guia em Macau
Aldeia da Guiné
A Rosinha, mulher Balanta, ganhará o prémio da grande beleza feminina da exposição
O simpático Augusto, chegou a aparecer em anúncios de promoção tabágica, não voltou à Guiné porque morreu tuberculoso. Fotografia de Domingos Alvão
"Amélia Rey Colaço (1898-1990), no Teatro Gil Vicente na Exposição Colonial do Porto, com um vestido de António Amorim tendo ao colo o miúdo guineense Augusto. Foto Domingos Alvão, Porto Museu Nacional do Teatro".
Trabalho de Almada Negreiros alusivo à exposição do Porto
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Nota do editor

Último post da série de 19 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27650: Notas de leitura (1887): "Soldadó", de Carlos Vale Ferraz; Editorial Notícias, 1997 (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27548: Notas de leitura (1875): Uma publicação guineense de consulta obrigatória: O Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné (5) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 29 de Outubro de 2025:

Queridos amigos,
Os tambores da guerra chegaram aos Boletins da Associação Comercial da Guiné. Haverá no entanto questões associativas graúdas que não são perceptíveis só da leitura dos editoriais do Presidente da Direção estar constantemente a fazer apelos à Unidade, lamentando casos de concorrência desleal. A organização de cada um destes números do Boletim, estou seguro, merecerão leitura convidativa dos investigadores: temos aqui o rol minucioso de importadores e exportadores; o seu grau de intervenção seja junto do Governador ou até no envio de cartas ao Ministro do Ultramar; apoiam a formação de milícias (estamos em 1962) e louvam a organização destas em Mansabá e Farim e para além de Xime, o que bate certo com as áreas de infiltração e posicionamento dos acabamentos os guerrilheiros para lá do Corubal e na região do Morés. A Associação atribuía bolsas de estudo e criara uma secção de assistência social. Se bem que episodicamente já se fazem perguntas políticas, como, por exemplo, perguntar as razões do anticolonialismo norte-americano. E há artigos de informação económica sobre o amendoim, o arroz, a borracha, o mel e os couros. Vamos prosseguir, na Biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa ainda há mais uns anos de Boletins. Tenho que bater à porta da Biblioteca Nacional para saber que aqui vou suprir tal carência, gostava de saber se o Boletim foi publicado até 1974.

Um abraço do
Mário



Uma publicação guineense de consulta obrigatória:
O Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné – 5


Mário Beja Santos

A leitura dos sucessivos Boletins de 1962 irão permitir compreender que há sérios desconfortos na vida associativa, o Presidente da Direção está permanentemente a clamar “Unidade! Unidade!”, e no número de junho, numa escrita um tanto vernacular, não esconde as suas queixas, onde não falta azedume:
“Nesta Guiné caminhante pachorrenta e ensonada dum trilho interrupto, vário e contingente em que se produziu a sua parcimoniosa evolução ao longo de muitas décadas, dócil por atavismo e bem-comportada por tradição, umas centenas de indivíduos – ditos comerciantes e industriais! – à unificação salvadora preferem os caminhos da deriva, renegam-se e se se encontram é para destroçarem-se numa concorrência desmedida, ilógica, desleal.”
Depois dos queixumes recorda-se a necessidade de manter as quotas em dia e enfatiza-se a unidade em torno dos interesses comuns. Faz-se o anúncio da atribuição de bolsas de estudo e a criação de um serviço de assistência social a associados em precariedade.

Nunca como nesse ano os dirigentes se revelaram tão reivindicativos. Escreve-se sobre a borracha, uma riqueza inaproveitada, pede-se ao Governo a eliminação das imposições aduaneiras, a bonificação do frete marítimo para o produto destinado ao Continente, lembrando que há uma concorrência com a borracha recebida do Índico.

E também nunca como agora surge imensa participação dos leitores. Aparece uma curiosa caixa com muitas perguntas:
“Por que motivo não exportamos mais ginguba? Por que não aumentar a produção de óleo de amendoim? Por que valorizamos o franco da AOF acima do câmbio oficial? É princípio moral, se quer ponto de vista político o anticolonialismo no Ianque? (Dá-se a seguinte resposta: no século passado foi programa de partido para uso interno, variável com as preferências do eleitorado: sulista ou nortista. No presente, é arma política de que os EUA se servem para combater a Europa. O nosso País está na tabela).”

A Associação revela-se de facto participativa, atuante. Veja-se a carta enviada ao Encarregado do Governo sobre a campanha da mancarra, dando sugestões: antecipar por uns dias a data da abertura da campanha, propõe-se 10 de dezembro; pede-se a fixação dos contingentes exportáveis; e considera-se indispensável saber com antecedência os preços FOB-Bissau e CIF-Lisboa, que são estabelecidos pela Metrópole, etc. etc. Vemos também nos sucessivos números a manutenção de secções informativas e a listagem das relações dos importadores e exportadores na Guiné. Anuncia-se no número de dezembro a vinda do novo Governador, Comandante Vasco Rodrigues.

Terá porventura utilidade dá conta, com algum desenvolvimento de situações em que a Associação se revela não só conhecedora das realidades económicas, é combativa e faz-nos querer que sabe com bastante rigor do que fala. Veja-se o extrato de uma carta dirigida ao Governador da Guiné sobre a campanha do coconote, há aqui neste conjunto de imagens uma que revela um certo sabor de vitória:
“Senhor Governador,
Dirigem-se-nos alguns exportadores pedindo a nossa intervenção no sentido de esclarecermos o Governo da Província na conveniência de promover, pela estância competente, a atualização do valor fiscal do coconote, fazendo-o corresponder, como é lógico esperar-se, à cotação efectiva e em prática na Província desde o princípio do ano corrente: 1$90 por kilo nos portos de embarque; de contrário, voltarão, por certo, a repetir-se as imobilizações nos armazéns de consideráveis quantidades do produto, com todas as consequências nefastas, entre as quais sobreleva o excesso de acidez que, aviltando a qualidade, desacredita e torna impraticável a exportação para os mercados estrangeiros, donde os dois seguintes resultados previsíveis: aviltamento do preço de compra aos naturais; não diremos a total paralisação, mas um retraimento muito sensível nas aquisições àqueles, e sempre, em qualquer das hipóteses, com maléficas consequências no equilíbrio social e económico da Província, o que a todos compete evitar.”

Como se pode ver na imagem que aqui se junta com o título Última Hora, foram bem-sucedidos.

Em 1962 já está declarada a subversão na Guiné, e no Boletim Oficial, a propósito do assassínio do cipaio Cofai, considerado um homem bom, respeitado e respeitador entre Mandingas, Balantas e Fulas, que parecia destinado ao regulado de Oio, exulta-se a resposta dada pelos 1200 mancebos guinéus para incorporar a milícia da Guiné portuguesa, eles serão os guardiões desta terra sagrada que irão banir os nocivos sediciosos, ora convertidos em sectários do mal. Se estes 1200 mancebos irão defender as populações de Mansabá e Farim, há também que contar com os 600 naturais para lá do Xime.

E há também uma carta enviada ao Ministro do Ultramar a propósito de uma arbitrariedade que impediu o reabastecimento de “frescos” destinados à população civil da Guiné pelo vapor da carreira Ana Mafalda, e diz-se claramente:
“Estamos em guerra, sabemo-lo – senão efectiva, por hora, de nervos há muito. Em posição fronteira, vivemos parelhas com os nossos soldados os riscos, a ansiedade, o nervosismo, o desconforto moral e material. Vivemos com eles em estreito, fraterno convívio e, desde a primeira hora que a defesa da Pátria os atirou para estas paragens, estamos decididos a dar-lhes o calor humano da nossa assistência.

Exigimos que aí na Metrópole os homens que mandam, saibam que ainda existimos ao lado das forças militares e que nós próprios temos o direito de comer as hortaliças e os legumes e os frutos e a sardinha e o carapau e os demais frescos da Pátria distante, porque temos a mesma boca para comer, para falar e para reclamar sendo preciso. Que não podemos compreender e muito menos aceitar sem espanto e sem revolta que os serviços de Manutenção Militar em Lisboa exijam para seu uso exclusivo os frigoríficos dos navios – dos navios das nossas carreiras – aqueles que servem habitualmente a Província e a abastecem e que nós pagamos bem caro, com total desprezo pela gente sem farda, porém torna-se necessária no território nas suas funções pacíficas, como aqueles que esses aí julgam estar protegendo e servindo bem para, afinal, envergonharem com o tratamento de exceção.”


Vamos ver no próximo número o ano de 1963.


Publicidade ao Grande Hotel, em Bissau, publicada num Boletim da Associação Comercial de 1962
Peixoto Correia, o Governador da Guiné que irá ser o próximo Ministro das Colónias, imagem inserta num dos números do Boletim da Associação Comercial de 1962
Lembrança aos associados de que a Direção tivera uma vitória com o valor fiscal do coconote
Publicidade de uma renomada casa comercial de Bissau
Penteado de uma Boenca
Papéis (Safim), mulheres a pescar
Felupes (Susana), mulher com cesto

Estas três últimas imagens foram retiradas de diferentes números do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, 1962

(continua)

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Notas do editor:

Vd. post da série de 12 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27523: Notas de leitura (1873): Uma publicação guineense de consulta obrigatória: O Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné (4) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 15 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27533: Notas de leitura (1874): "Cartas de Guerra (61-74) Aerograma Liberdade”, por Ricardo Correia; edições Húmus, 2024 (Mário Beja Santos)

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27535: Documentos (46): Brochura "Missão na Guiné", da autoria do Estado Maior do Exército. 3ª ed. (Lisboa, SPEME, 1971, 78 pp.) - Parte IV: "aspecto humano" (pp. 25-38)




- 33  - 
Dançarinos bijagós


 - 34 -
"Homerns Grandes" da Guiné, um dos quais é oficial de 2ª linha


- 35 -
 Tabanca fula


- 37 -

Edifício dos CTT em Bissau


- 38 -

Bolama


Capa do livro: Portugal. Estado Maior do Exército - "Missão na Guiné". 

Lisboa: SPEME, 1971, 77, [5] p., fotos.


1. Tem valor sentimental e documental esta brochura do Estado Maior do Exército, que nos era distribuída já a bordo do navio que nos transportava para a Guiné (ou do avião dos TAM, a partir de finais de 1972). Estamos a reprodiuzir a brochura da 3ª edição,  de 1971.

Tem 77 páginas (mais 5 inumeradas) e é ilustrada com  9 fotos.  Tudo a preto e branco. Baratinho. A edição é do SPEME (Serviço do Publicações do Estado Maior do Exército).  Em 1967 (de 1958 a 1969) era Chefe do Estado Maior  (CEME) o gen Luís Câmara Pina (1904-1980). 

É constituída por três partes: 

(i) Missão no Ultramar; 
(ii) Monografia da Guiné: aspeto físico, humano e económico; 
(iii) Informações úteis. 

Vamos agora reproduzir a II parte da "monografia da Guiné: aspecto humano" (ou seja, sucinta caracterização etnográfica dos povos que habitavam, na época, o território).

 A ordem é pelo  peso demográfico de cada um (segundo o  censo de 1960 que registou cerca de 544,2 mil habitantes): dos grupos étnico-linguísticos mais importantes (balantas e fulas, com < de 100 mil) aos "minoritários" (> 10 mil) (Felupes, baiotes, sossos, nalus)... 

No meio (> 100 mil e < 10 mil) posicionavam-se os restantes: 

  • manjacos (65 mil), 
  • mandingas ( 60 mil), papéis (40 mil), 
  • beafadas (ou biafadas) (13,5 mil), 
  • brames ou mancanhas (12,5 mil), 
  • bijagós (12,5 mil), 
  • futa-fulas (10 mil). 

Na altura, há 65  anos, antes do início da guerra,  os balantas (150 mil) e os fulas (120 mil) representavam praticamente metade (49,6%) da população total (ou 51,5%, se juntarmos os futa-fulas aos fulas).

A leitura deste livrinho também contribuiu para a replicação de alguns estereótipos, criados pela antropologia colonial portuguesa: por exemplo:

  • islamizados  (em vez de muçulmanos, de pleno direito, impuros,continuando a adorar o "Irã" e/ou a beber o vinho de palma;
  • por seu turno,não há "cristianizados",  mas só cristãos;
  • balanta = ladrão de gado, bêbedo, brigão, homem do mato, "cabeça dura", turra, cabr-macho,  excêntrico como o  Pansau Na Isna;
  • fula= polígamo, que põe as mulheres a trabalhar no campo; semi-feudal;  "cão dos tugas";
  • futa-fula = casta superior;
  • manjaco = marinheiro;
  • mandinga = artesão (ourives, ferreiro, músico); "o antigo dono daquilo tudo";
  • papel = o malandro de Bissau (como o 'Nino' Vieira);
  • biafada = "robusto mas indolente";
  • bijagó = pobre diabo subjugado pelo matriarcado;
  • felupe = caçador de cabeças; ferozmente independente;
  • nalu = o anáo da floresta do Cantanhez em vias de extinção;  
  • mancanha= reguila (como Vitor Sampaio, da CCAÇ 12), etc.
Estes estereótips multiplicam-se  nas história das unidades...(Teremos oportunidade de selecionar alguns exemplos em próximos postes).

PS - Se nos reportarmos à realidade de hoje, a populaçáo total mais do que quadriplicou em 65 anos: 2,272 milhões (no final de 2025), com a seguinte distribuição (em %) dos principais grupos étnicos: 

  • fulas (28,5)
  • balantas (22,5)
  • mandingas (14,7)
  • papéis (9,1)
  • manjacos (8,3)
  • beafadas (3,5)
  • mancanhas (3,1)
  • bijagó (2,1)
  • felupe (1,7)
  • mansoanca (1,4)
  • balanta mané (1)
  • outros (4,1)
Total=100

Religião: muçulmanos (50%), animistas (40%), cristãos (10%)

Principais aglomerados populacionais (em milhares, por arredondamento)
  • Bissau: 709,1 (quase 40 vezes mais do que em 1959, que era estimada em 18 mil);
  • Bafata: 22,5 (4 mil, estimativa de 1959; 
  • Gabu:  14,4 (antiga Nova Lamego);
  • Bissorã: 12,7;
  • Bolama: 10,8 (3 mil, estimativa de 1959);
  • Cacheu:  10,5.
Total= 780 mil (=34,3% do total da população)

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Fonte: excertos de Portugal. Estado Maior do Exército: "Missão na Guiné".  Lisboa: SPEME, 1971, pp. 25-38.

(Seleção, edição de fotos e páginas, fixação de texto: LG)

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Nota do editor LG:

(*) Vd. postes anteriores da série :