Pesquisar neste blogue

Mostrar mensagens com a etiqueta Alberto Branquinho. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Alberto Branquinho. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28242: Notas de leitura (1948): "Parábola do livro esquecido", retirada, com a devida vénia, do livro "Inventarium Vitae (Escritos, Memórias e Olvidos)", por Alberto Branquinho; Partenon, 2026

"Inventarium Vitae (Escritos, Memórias e Olvidos)", por Alberto Branquinho. Lisboa: Edições Partenon / Chancela Sítio do Livro, Maio de 2026, 160 pp. (ISBN: 978-989-9198-51-7) (Está à venda em: www.sitiodolivro.pt) (Preço de capa; 12,00 euros)

Sinopse:

"Este livro é um esboço de memórias e, simultaneamente, um inventário-amostra dos livros publicados pelo autor. É, além disso, uma biografia breve de um “baby-boomer” nascido em Portugal, que atravessa grande parte do Salazarismo e do Marcelismo, envolvido, também, na guerra colonial de 1961-1974."


******************************

1. Com a devida vénia ao nosso amigo e camarada Alberto Branquinho, transcrevemos a "Parábola do Livro Esquecido", que se pode ler nas págs. 87 e 88 do seu livro "Inventarium Vitae (Escritos, Memórias e Olvidos)".

Alberto Branquinho, ex-Alf Mil Op Especiais da CART 1689 / BART 1913


Parábola do Livro Esquecido

Quando o livro sentiu estar a ser arrumado na estante (foi há tanto tempo!) havia, ainda, bastante espaço entre ele e os que estavam instalados já instalados à sua esquerda e à sua direita. De maneira discreta podia criar espaço entre as suas folhas. Exercitar-se. Mas, com o decorrer do tempo, esse espaço foi encurtando, de tal modo que quase não conseguia respirar. Quase chegou a odiar os vizinhos à sua esquerda e à sua direita. Além disso, não falavam a mesma língua. Não havia comunicação entre eles. A comunicação própria dos livros. Não se entendiam. Os vizinhos deviam sentir o mesmo que ele sentia. Com a sensibilidade própria dos livros.

E assim esteve durante muitos, muitos anos. Nos primeiros tempos desesperou. Depois conformou-se à sua sorte.

Mas... muito recentemente mão amiga retirou-o (com dificuldade) da estante, consultou o índice e colocou-o em cima de uma mesa. Na horizontal. Agora, repetidas vezes, é folheado e elevado à altura de uns óculos que reflectem sobre ele a luz do candeeiro. Sente-se útil. Aquele que o lê deixa, por vezes, um marcador de cartolina entre duas folhas.

O livro está agora feliz com a sua existência. É útil, lido, consultado, talvez citado. Saiu, ao que parece, do anonimato. Ou, se não saiu já, sente que, em breve, será citado, transcritas partes do seu texto.

Assim vale a pena nascer e continuar a ser livro.

_____________

Nota do editor

Último post da série de 3 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28237: Notas de leitura (1946): "Depois da Guerra", de Luís Rosa; edição de autor, 1990 (2) (Mário Beja Santos)

sábado, 1 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28232: Verso & reverso (1): Levantamentos de rancho, cozinheiros, vagomestres, jagudis, porradas, contos... sem má-fé, "bonecos" da IA ... (Alberto Branquinho / Carlos Pinheiro / Eduardo Estrela / José Manuel Cancela / Luís Graça / Virgílio Teixeira)


Desde 1955 que era proibido caçar (e comer carniça de) jagudis...na Guiné Portuguesa. (Decreto, nº 40040, de 20 de janeiro de 1955, do Minitério do Ultramar(

Foto: arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guine


1. Felizmente que há o verso & o reverso das coisas e das palavras. Se assim não fora, nunca haveria o "outro lado da lua" nem nunca o homem chegaria um dia à lua (se é que lá chegou, apesar das notícias dos jornais, dizem os céticos).

(i) Tabanca Grande Luís Graça (*)

Nem um comentário, Alberto... Se eu tivesse aranjado outro título (por exemplo, "Hoje há jarroz de agudi no forno"), talvez a malta tivesse curiosidade em ler e comentar o teu conto...

quinta-feira, 30 de julho de 2026 às 11:48:00 WEST 

(ii) Alberto Branquinho (*):


Pois é, Luís, há que ter cuidado com a embalagem e com o aspecto do embrulho do produto (ou serviço) que se queira "vender".

Além disso, tenho um primo que me diz:  "Não me mandes mais livros. Não tenho paciência para ler; demoro três dias para ler a 'Bola' e... não leio tudo".

E quem pouco lê... muito menos escreve.

Título que eu colocaria: "Levantamento de rancho: furriel vaguemestre leva uma porrada e passa a operacional no mato".

quinta-feira, 30 de julho de 2026 às 15:55:00 WEST 

(iii) Eduardo Estrela (*)

Eu li o conto e,  se não o comentei,  foi porque gozei que nem um nababo com o seu conteúdo. A certa altura da leitura lembrei-me: querem ver que o sacana do do vagomestre mandou cozinhar jagudis!?

O homem devia era ser louvado! Praticou o princípio da lei do Lavoisier. Não fossem os cozinheiros e todos ficavam satisfeitos. "O que olhos não veem coração não sente", neste caso o estômago.

quinta-feira, 30 de julho de 2026 às 16:29:00 WEST 

(iv) Alberto Branquinho (*):

Quando, pela primeira vez, li o título que lhe deste, o meu entendimento foi: "Arroz com má-fé"...

sexta-feira, 31 de julho de 2026 às 09:57:00 WEST 

(v) Virgílio Teixeira (**)

Enfim, uma história com cenários que nada têm a ver com os nossos soldados, aquartelamentos, fardas, cantinas e refeitórios, terrenos e tudo...etc.

Já vi outros anteriores e a minha opinião é a mesma, o IA veio estragar tudo.

O autor pode até ter boas ideias, mas francamente, e tenho de ser fiel a mim prõprio, eu não acho piada nenhuma a estas bandas desenhadas, prefiro as de antigamente, dos índios e cowboys, desenhadas por pessoas reais, e não por Extra Terrestres, esta coisa, aqui, cheira a outros cenários, e por mim dou o recado completo, sem complexos.

Acho uma pura perda de tempo com um resultado francamente mau, o conteúdo é lastimável.

Tanta outra coisa para publicar e agora é tudo igual, não gosto definitivamente, mesmo que todos os leitores até possam achar alguma ponta de piada.

Nada tem a ver com as personagens que se querem aqui representar, mas o conteúdo é francamente indescritível.

Desculpem a minha franqueza!

sexta-feira, 31 de julho de 2026 às 21:40:00 WEST 


(vi) José Manuel Cancela (**):

Completamente de acordo... E essa de comer aquelas aves nojentas, não cabe na cabeça de ninguém...

sexta-feira, 31 de julho de 2026 às 23:26:00 WEST 

(vii) Carlos Pinheiro (**):

Pensava que já tinha visto tudo, mas afinal enganei-me. A IA veio complicar isto tudo, quando se pensava que era para facilitar

sábado, 1 de agosto de 2026 às 11:50:00 WEST

(viii) Alberto Branquinho (**):
 
Meus senhores (e ex-camaradas de armas): uma coisa são os factos (ou seja, os acontecimentos vividos, embora "pintados" com cores mais vivas ou mais esbatidas) outra coisa são desenhos (com a ajuda da IA ou não) que possam ou não corresponder ao ambiente militar criado "à portuguesa" naquelas terras, em ambientes tropicais, em zonas de guerrilha/contra-guerrilha.

Portanto, não misturemos a apreciação de um escrito sobre factos ou acontecimentos com a sua representação gráfica segundo um qualquer meio ou estilo (gráfico e/ou informático ou outro), que, eventualmente, não retrate os ambientes tal qual aqueles em que vivíamos no chamado "mato" (que não era, propriamente "mato", mas quartéis no interior).

sábado, 1 de agosto de 2026 às 11:14:27 WEST

(ix) Tabanca Grande Luís Graça (**):

Pois é estamos, aqui a discutir duas coisas distintas ( e, portanto, não devemos confundi-las):

(a) um conto ou microconto, da autoria de um camarada nosso, o Alberto Branquinho, que é um "senhor escritor" , com obra publicada e generosa participação no blogue;

e (b) a ilustração gráfica desse conto , da responsabilidade do editor LG (com recurso,  confesso e declarado, à IA).

Em relação ao conto, já aqui publicado em poste anterior (**), e que passou "despercebido", só vamos relembrar o seguinte: não se sabe nem onde nem quando se passa esta "cena de humor de caserna" (em princípio na Guiné, c. 1967/69) , e que para alguns ou muitos de nós seria "inverosímil"... (Perguntarão, indignados, alguns dos nossos leitores mais sensíveis: quem seria o filho da p*ta do vagomestre que teria a "ideia criminosa" de servir gato por lebre, ou pior, jagudi por frango, aos seus camaradas de armas?!)

Aqui convém lembrar que a imaginação supera a realidade e essa é a magia da literatura... E que o humor é sempre caricatura do real..«

Quanto á BD propriamente dita (ou melhor, aos "bonecos", para não ofender os verdadeiros artistas da BD), podem dar "porrada" á vontade: é um produto tosco, artesanal, feito com boa vontade, "pro bono", espírito de reinação...e recursos técnicos limitados... 

E que, no fundo, "parodia" a IA, que é "americana", sabe pouco ou nada de geografia e de história, a começar por Portugal e a Guiné-Bissau... E nomeadamente sobre a guerra do ultarmar / guerra colonial na Guiné (1961/74)... O que sabe, também vai aprendendo connosco..., como ela própria reconhece, o que muito nos honra.

sábado, 1 de agosto de 2026 às 13:10:00 WEST 
 
(Seleção, revisão/ fixação de texto: LG)
____________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 28 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28220: Humor de caserna (283): "Arroz especial ... com mafé" (um conto magistral de Alberto Branquinho, "Cambança Final", 2013, pp. 85-89)

(**) Vd. poste de 31 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28231: Humor de caserna (286): Os frangos do vagomestre: uma BD inspirada num microconto do Alberto Branquinho (2013)

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28231: Humor de caserna (286): Os frangos do vagomestre: uma BD inspirada num microconto do Alberto Branquinho (2013)


Os Frangos do Vagomestre

Uma BD inspirada num microconto
 do Alberto Branquinho (2013)



... Que o essencial dos reabastectmentos vinha de barco ou em coluna logística, uma ou duas vezes por mês, conforme a estação do ano ou as necessidades!









... Oh!, homem, come e cala, que amanhã podes perder o  apetite!







... E quem disse que não havia já "chefs" de cozinha,  arrojados, criativos, precursores da comida gourmet, capazes de apresentar pratos  exóticos, fazendo das tripas coração e valendo-se dos recursos locais (como o lagarto, o jagudi, o macaco-cão, a píton africana / irã-cego,  ou  o leitão do balanta passado a ferro pelo Unimog, etc.) para fazer um arroz especial... com mafé ?!


... Vida dura, a do mato !...

Prompt original e composição editorial: Luís Graça.

Texto : Adapt. de Alberto Branquinho  (2013)

Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. Eu achei o conto "magistral" (*)... Mas, confesso, esperava mais comentários ao poste... O desmérito é do editor, não do autor... De facto, em vez de "Arroz especial... com mafé" (e não má-fé!) , eu devia ter optado por um título mais provocatório... "Hoje há arroz de jagudi  no forno" ou outro título de fazer crescer a água da boca dos camaradas de Baião e do Marco de Canaveses onde se faz o melhor "arroz de anho no forno" ... Em Portugal & arredores.

Recorde-se, para quem leu, que a história começa com um princípio (ou um ameaço) de "levantamento de rancho"... 

Isto passa-se na Guiné, durante a guerra colonial, por volta de 1968, ao tempo em que o valente  Alberto Branquinho andava lá  com os seus bravos da companhia de caçadores  (de "turras", presume-se, não era de leões nem de elefantes). 

Uma solução à "chico esperto", expedita, do vagomestre e do cozinheiro, para contornar a falta de víveres (e nomeadamente de carne...) e assim enganar toda a gente, a começar pelo capitão, foi recorrer aos pobres dos "abutres-de-capuz" (vulgo, "jagudis") que rondavam o quartel e se alimentavam nas nossas lixeiras... 

Ora, toda a gente sabia que o repugnante e feio jagudi era um "animal sagrado".. E desde 1955, que era proibida a sua caça... Eram os "almeidas" da Guiné, comiam os bichos mortos, limpavam as carcaças e, quando havia festa nas tabancas (nomeadamente, o "tchoro", por morte de alguém importante), abatiam-se vacas, não faltavam vísceras para os "almeidas" se banquetearem...

Não tenho que lisonjear o autor, como faz a menina da IA que é para a gente ficar "agarrados a ela"... De facto, a IA é uma nova adição (=comportamento aditivo, vício, dependência), a par do sexo, da pornografia, da droga, da comida, dos ansiolíticos,  do trabalho, do ginásio, do jogo ("gaming"), do telemóvel, das redes sociais (como o blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné), das viagens da Abreu Lopes,  etc..  

O Alberto Branquinho já tem os seus créditos firmados. É uma grande microcontista, a par do "alfero Cabral", de saudosa memória, e de mais uns  talentos literários que se sentam à sombra do nosso poilão (e que não vamos listar para não criar suscetibilidades). 

A ideia do autor  é excelente e a execução resulta. Tem um daqueles ingredientes que fazem com que as histórias de caserna não morram, como as anedotas, que logo se esquem, na hora seguinte: é plausível, é absurda e, no fim, toda a gente diz "isto podia perfeitamente ter acontecido na Guiné do meu tempo".

Porque é que o texto  não  suscitou  comentários imediatos ? Esta é a questão que me intriga... Se o conto é "magistral", porque é que não houve... comentários, e muito menos "magistrais" ?

Reconheço que o título não provoca "pica", não  tem "sex...apelo" (do inglês, "sexappeal"). "Arroz especial... com mafé" é um daqueles títulos prosaicos, sensaborões, chatos... E depois o leitor, desprevenido, confunde "mafé" com "má-fé"... Ora, quem vai "comer" um "arroz especial... má-fé", desconfiando, de pé-atrás ?!

De facto, com um tal título (da responsabilidade do editor...) o conto do Alberto Branquinho só pode despertar curiosidade  em quem sabe o que é o "mafé" e se interessa pela culinária da Guiné-Bissau. 

Para muitos leitores, o poste terá sido visto apenas como mais uma história gastronómica da Guiné-Bissau,  mais um poste da série do "Comes & bebes: no céu não disto: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande", com que tapamos às vezes alguns buracos, sobretudo nas férias de verão em que o pessoal vai a águas e tem menos tempo para coloborar no blogue...

O verdadeiro motor narrativo está lá, entretanto,  escondido já na última parte do conto: "...afinal os frangos do vagomestre eram... jagudis."

É aí que o conto explode. O leitor percorre duas ou três páginas sem imaginar o desfecho. É uma boa surpresa literária. Mas o título, de facto,  não convida ninguém a entrar. 

Vamos experimentar agora com outro: "Os frangos do vagomestre"... mas em em banda desenhada.(**)

O autor merece uma boa BD. Esta "estória cabraliana" (neste caso,"branquiana" ?!...) merece uma boa BD. Os nossos leitores também o merecem. 

Digam-nos depois da vossa justiça. Leiam e comentam. À vontade. E também podem rir, se for caso disso. E se vos apetecer rir. Claro, também podem dizer que não tem graça nenhuma (a BD, não o conto)...

No final, não deixamos de fazer uma ressalva: não temos nenhum "parti-pris", sentimento ou ressentimento contra os nossos vagomestres e cozinheiros que nos mataram a fome durante os dois anos de Guiné. Este conto é também uma homenagem a eles. (Ao pessoal da Intendência, fica reservada a vez para outra altura.) (**)
_______________

Notas do editor LG:

(*) 28 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28220: Humor de caserna (283): "Arroz especial ... com mafé" (um conto magistral de Alberto Branquinho, "Cambança Final", 2013, pp. 85-89)

terça-feira, 28 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28220: Humor de caserna (283): "Arroz especial ... com mafé" (um conto magistral de Alberto Branquinho, "Cambança Final", 2013, pp. 85-89)


    Hoje há "Arroz especial... com mafé", anunciou o vagomestre


1. Não há ninguém como o Beja Santos para, de uma penada só , abrir um livro na página "x" e apresentá-lo ao leitor numa bandeja apetecível, como se tratasse do melhor manjar do mundo.  

Leitor voraz, compulsivo, desde criança, já deve ter lido centenas e centenas de milhares de páginas na sua vida. Não conheço ninguém como ele: bibliófilo e bibliófago... Metaforicamente falando, ele adora e devora livros... Confesso, nunca o vi beber (nem comer),  o que era raro entre a milicianagem de Bambadinca...

Tome-se como exemplo este excerto da sua nota de leitura  do livro de contos do Alberto Branquinho, ("Cambança Final", 2013), poste P12248 (*). 

Num livro de 222 páginas (na prática 160, com as folhas em branco) com cerca de  6 dezenas de contos ou microcontos (2 páginas e meia, em média, cada um), ele é um autêntico "garimpeiro", capaz de descobrir, com o seu olho clínico de lince, uma preciosidade, uma pérola, uma gema, uma obra-prima:

(...) "O confrade Alberto Branquinho reservou-me uma das mais agradáveis surpresas da primeira metade de 2013: 'Cambança Final', Edição Vírgula, deste ano, é mais do que um livro da maturidade da escrita, revela uma grande mestria na linha do conto e no saber dedilhar as teclas dos sentimentos humanos no contexto de uma guerra.

E aquela guerra foi a nossa, estamos todos lá, do atirador ao condutor, do cripto ao enfermeiro. (...)

Nada de pieguices quando há explosões onde os corpos se desfazem, até porque a natureza se encarrega de limpar a destruição, como escreve magistralmente no conto 'Despojos':

'Ia recomeçar a andar e olhou para o chão. Viu, junto ao tronco de uma árvore, três ou quatro formigas grandes, pretas que, com as pinças da cabeça cravadas, tentavam arrastar um pedaço de carne, ainda com um farrapo de farda camuflada agarrado.' (...)

Mata virgem e lama, água e o céu estrelado, chuvas diluvianas, frases em crioulo e a propósito, a linguagem de caserna na justa conta, o caminhar noturno, a solidão mesmo quando temos muita gente à volta. E uma enorme capacidade de trazer a pilhéria e o tom zombeteiro que obriga a uma boa gargalhada. (...).

Não é para todos esta capacidade de relevar o pícaro quando se marcha a arrastar o corpo, no auge do sofrimento. É um dom saber descrever um acontecimento corrente para um soldado branco que assusta o africano, tomando-o por feitiçaria, anda por ali o abismo cultural. 

Porque Alberto Branquinho, como na montanha russa, traça uma atmosfera de pânico, põe ali todos os traços da brutalidade e finaliza com um toque de facécia. 

O plausível diverte e comove. O furriel Melo vai tomar banho, avista uma cobra, foge espavorido a tapar as pudendas, não para de gritar e alguém comenta: 'Acho que a gaja deu uma dentada na picha do furriel cripto'.

O conto 'Arroz Especial'  é a profundidade do insólito, com nojo toda aquela gente vai descobrir que andou a comer (...) o impensável .

 O vagomestre e o cozinheiro têm uma enorme densidade que atravessa estes contos, são mal vistos, são detestados e, no entanto, são convocados para o prodígio de alimentar na mais extrema das monotonias, mesmo quando a cozinha é periodicamente escavacada e o brio profissional sobrepõe-se à virtude militar (...)".

Este conto, por ser de  antologia, merece ser partilhado e chegar a um público mais vasto, até por que a edição é já de 2013, e depois disso o autor já publicou mais outros oito livros, sendo o último uma espécie de autoantologia, "Inventarium Vitae" (**),  onde recupera alguns dos melhores contos do "Cambança Final", mas não este, o "Arroz Especial"...  

Alterámos ligeiramente o título, para efeitos de publicação nesta série ("Humor de Caserna") (***) e neste poste:

Arroz especial... com mafé

por Alberto Branquinho


Fonte: Excertos de Alberto Branquinho, "Cambança Final (Lisboa: Vírgula, 2013, pp.  85-89) (Com a devida vénia)
____________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 4 de novembro de 20130 > Guiné 63/74 - P12248: Notas de leitura (531): "Cambança Final", contos de Alberto Branquinho (Mário Beja Santos)

(**) Vd. poste de 21 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28203: Notas de leitura (1942): Alberto Branquinho, "Inventarium Vitae" (Lisboa, Sítio do Livro, 2026, 160 pp.) - Parte I: enquanto houver língua e dedo, não haverá leitor que nos meta medo...(Luís Graça)

(***) Último poste da série > 23 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28206: Humor de caserna (282): Todos com eles no sítio, todos aptos para o serviço militar (Jorge Cabral, 1943-2021)

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28206: Humor de caserna (282): Todos com eles no sítio, todos aptos para o serviço militar (Jorge Cabral, 1943-2021)

 

Prompt e orientação  editorial: Luís Graça
Texto: Jorge Cabral (2009)
Geração gráfica assistida por IA:
Google (2026). Gemini (versão de 22 de julho de 2026) 
[Grande modelo de linguagem].



1. É uma expressão idiomática, muito portuguesa. Diz-se de um homem "com eles no sítio", que é viril, corajoso. ("Cabra-macho" era a expressão equivalente em crioulo, usada pelos guerrilheiros do PAIGC)...

O  Jorge Cabral (1943-2021), o impagável "alfero Cabral", é autor deste microconto. Faz parte das suas "estórias cabralianas" de que ainda publicou em vida  um livro, volume I.  

Filho de militar, tendo passado  (por pouco tempo) pelo Colégio Militar, era o menos "militar" dos "militares" que eu conheci na Guiné... Em 1969/71, enquanto comandante do Pel Caç Nat 63 (que esteve em Fá Mandinga e em Missirá, no sector L1, Bambadinca),  podia ser considerado o contraponto da "Spinolândia"... 

Spínola, dizia-se, como elogio, que era um general "com eles no sítio"... 

O tema dá "pano para mangas", e será glosado em próximo poste da série "Nomadizações de um marginal-secante". Para já, voltamos a reproduzir a já há muito esquecida estória cabraliana nº 46 (*).


Estórias cabralianas > Todos com eles no sítio...Apurados para todo o serviço militar

por Jorge Cabral

Pois, também eu naquela manhã de Junho me dirigi à Avenida de Berna, ao Quartel do Trem Auto, onde hoje funciona a [Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da] Universidade Nova [de Lisboa].

Éramos mais de cem, altos e baixos, loiros e morenos, alguns mancos, pitosgas muitos, um quase corcunda, três gagos e dois tontos.

Mandaram-nos despir e pôr em fila, numa literal e verdadeira bicha-de-pirilau.

Na mesa, um coronel, um major e um tenente médico, constituíam a Junta Inspectora. Um a um, fomos chamados diante do médico a fim de declarar se sofríamos de alguma maleita.

Após rápido e sumário exame, mesmo para aqueles que se disseram doentes, continuámos todos nus e encostados à parede, esperando o veredicto... que chegou num discurso patriótico do coronel. Falou de Aljubarrota, das picadas africanas, de heróis e da necessidade de homens valentes com “eles no sítio” e, por fim, concluiu:

– Todos aptos para o Serviço Militar.

Claro, pensei na altura, ainda nu e olhando os demais, todos tinham os dois no sítio. Juro que não vi nenhum com eles no pescoço, ou debaixo do braço
.

(Revisão / fixação de texto, negritos, parênteses retos, título: LG)


2. Comentário do editor LG:

O microconto do Jorge Cabral é um retrato irónico e vivo da inspeção militar, onde a expressão "com eles no sítio" ganha um duplo sentido: (i) o literal (todos os mancebos ali presentes tinham, de facto, "eles no sítio", os ditos cujos; e por esse facto passavam a ser "homens"); e (ii) o figurado (a virilidade, a bravura e a coragem que o discurso patriótico do coronel que presidia à junta, tentava evocar, era uma questão de anatomia e testosterona, desde que "certificadas" pelo médico).

É uma crítica subtil, mas acerada, à burocracia e ao ritual vazio da "ida às sortes", por trás daquilo que, em teoria, deveria ser um momento solene e dibno de seleção de homens "valentes", aptos, física, psicológica e socialmente, para a guerra. (**)

É lamentável que na altura, em 2009, esta estória tenha passado despercebida: ou talvez não, teve cerca de 500 visualizações, mas nenhum comentário (*)
___________________


(**) Último poste da série > 22 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28204: Humor de caserna (281): "Exame para ir à guerra", por Alberto Branquinho (excerto do novo livro, "Inventarium Vitae", 2026)

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28204: Humor de caserna (281): "Exame para ir à guerra", por Alberto Branquinho (excerto do novo livro, "Inventarium Vitae", 2026)











Prompt e orientação  editorial: Luís Graça
Texto: Alberto Branquinho (2026)
Geração gráfica assistida por IA:
Google (2026). Gemini (versão de 22 de julho de 2026) [Grande modelo de linguagem].


1.  A IA é uma menina muito púdica. Lida mal (ou não sabe de todo lidar) com a nudez, o corpo humano,  etc. E não adianta citar-lhe o aforismo hipocrático, "Naturalia non sunt turpia" (o que é natural, não envergonha). Foi o cabo dos trabalhos para "fabricar" estas pranchas de BD... Mas cá estão, depois de uma suada e assanhada negociação e de algum trabalho de "corte e costura", ilustrando este microconto (ou pequena crónica) com que o Alberto Branquinho abre o seu último livro, "Inventarium Vitae" (*).

Sim, porque a nossa aventura, antes de sermos chamados para "servir a Pátria", começava, um ou dois anos antes, com a "ida às sortes", ou seja, à "inspeção militar"... Dois dos nossos grandes humoristas, antigos combatentes, membros do nosso blogue, o Jorge Cabral e o Alberto Banquinho, escreveram sobre a "inspeção militar"... Ou mais exatamente sobre a "junta médica militar" de cujo veredicto dependia a sorte ou o azar dos mancebos que o exército queria nas suas fileiras, no tempo em que o serviço militar era obrigatório em Portugal

Temos cerca de duas dezenas de referências ao descritor "inspeção militar". Mas em geral o ângulo de abordagem é o do "dia das sortes", e o que isso representava como "rito de passagem" (do mancebo para o adulto), a sua importância social e cultural no "Portugal profundo" do antigamente... 


Alberto Branquinho
O ato médico em si, de verificação da fisiologia e anatomia dos mancebos, e as cenas mais hilariantes ou mais humilhantes que podia originar, escapa à maior parte dos autores que, "ad hoc", escreveram aqui no blogue sobre o assunto. 

Para o Jorge Cabral, genial humorista, a inspeção médica resumia-se afinal a "tê-los (ou não) no sítio" (sic), uma expressão idiomática bem portuguesa que consagrava o culto do machismo (o "cabra-matcho", da rapaziada do PAIGC). 

Esta, a "Inspeção Militar", do "alfero Cabral",  é uma das histórias de antologia do humor de caserna. Que haveremos de republicar, por estes dias de canícula.  

Outra história, de  fina ironia e clínica observação,  é do Alberto Branquinho, que publicamos hoje, com a devida vénia ao autor e à editora.  É como que um  "aperitivo",  
um convite e uma sugestão para os nossos leitores comprarem e lerem o livro. Reservamos, para outra ocasião, 
e para a série "Nomadizações de um marginal-secante", a análise mais detalhada do texto.

  
A . Exame para ir à guerra

por Alberto Branquinho


Estavam quase todos despidos, embora alguns ainda estivessem com meias e sem sapatos e outros com meias e sapatos calçados.

Uma mulher. de bata vestida, mas não abotoada, com cerca de 50 anos, chegou junto à porta. Acertou os óculos no nariz, olhou os rapazes, levantou uma folha de papel à altura dos olhos e chamou três nomes. Aproximaram-se os três. Ela observou-os Um deles tapava o sexo com ambas as mãos.

 Oh!,  oh!,  que é isso ? Estás com medo que te caiam ao chão ? Venham comigo.

Entraram num salão grande, com chão e paredes em cantaria. Estavam mais dois homens de bata, um com estetoscópio ao pescoço. Fazia frio lá dentro.

Foram pesados, medida a altura e observados os corpos nus, mandando-os rodar, mostrando frente e costas. Quando julgavam necessário, faziam a observação mais cuidada de alguma parte do corpo.

 Aqui parece que há varicocele (#)  — disse a enfermeira, palpando os testículos de um dos rapazes.

O médico, sentado à secretária, olhou por cima dos óculos.

 Abre mais as pernas, rapaz!  — ordenou ela.

Voltou a apalpar, agora com ambas as mãos.

— Não é nada, doutor. Está tudo bem.

A inspecção dos três foi dada por terminada. O médico, ainda sentado, estava a tomar notas. Recebeu os papéis, olhou, arrumou bem as folhas e, depois, olhou na direcção deles:

 — Podem vestir-se. Boa sorte! 

Mais tarde, consultadas as listas afixadas, constataram: "Apurado para todo o serviço militar".

In: Alberto Branquinho - "Inventarium Vitae: Escritos, Memórias e Olvidos". Lisboa: Edições Partenon / Chancela Sítio do Livro, 2026),  pp. 13-14 

(#) LG: Varicocele=dilatação varicosa das veias que drenam os testículos; surge na puberdade;  pode ser causa de infertilidade.

__________________

Nota do editor LG:

(*) Ultimo poste da série > 18 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28192: Humor de caserna ( 280): Treze sextilhas e um refrão para o nosso mano Jaime Silva, agora octogenário (Luís Graça)

terça-feira, 21 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28203: Notas de leitura (1942): Alberto Branquinho, "Inventarium Vitae" (Lisboa, Sítio do Livro, 2026, 160 pp.) - Parte I: enquanto houver língua e dedo, não haverá leitor que nos meta medo...(Luís Graça)

 



Alberto Branquinho - "Inventarium Vitae": Escritos, Memórias e Olvidos". Lisboa: Edições Partenon / Chancela Sítio do Livro, 2026, 160 pp. (ISBN: 978-989-9198-51-7) (Está à venda em: www.sitiodolivro.pt ) (Preçod e capa; 12,00 euros)

Sinopse:

"Este livro é um esboço de memórias e, simultaneamente, um inventário-amostra dos livros publicados pelo autor. É, além disso, uma biografia breve de um “baby-boomer” nascido em Portugal, que atravessa grande parte do Salazarismo e do Marcelismo, envolvido, também, na guerra colonial de 1961-1974."



Dedicatória ao nosso editor LG


1. O Alberto Branquinho acaba de publicar, em maio passado,  mais um livro, o 12º da sua bibliografia, se não erramos as contas. E diz-nos, "off record", que bem pode ser o último. Não acreditamos. Ou esperemos bem que não. Ainda é cedo para "arrumar a caneta e o bloco de notas". Deu-lhe um título sugestivo, "Inventarium Vitae: Escritos, Memórias e Olvidos".

"Inventário de Vida", em português, é uma espécie de antologia, pessoal, dos seus melhores textos., uma parte já publicados, outros inéditos. E é também um esboço autobiográfico que, esperemos, dê origem ao próximo livro, de maior fòlego.

"Não venho falar de mim...nem do meu umbigo" é o título de uma das séries de que ele é autor no nosso blogue. Desta vez, sim, vem falar dele, mas na exata medida em que tem de "enquadrar as situações vividas com outros" (como escreveu na dedicatória no exemplar que teve agentileza  de oferecer ao editor do blogue) ...

Situações que viveu, com os outros, como  é o caso da Guiné, das avenidas novas de Lisboa  (onde ele viveu a sua vida, desde a "peluda"), ou da sua terra natal, Vila Nova de Foz Coa (que ele agora revisita na parte III - Vida Cumprida). Terra de que, aliás,  tem muito orgulho: a capa que escolheu para este seu último livro é justamente a fachada da sua igreja matriz, de singela beleza, de estilo manuelino, monumento nacional desde 1910, e onde presumo o autor foi batizado...Outra foto, é a do museu de Foz Coa, que vem na contracapa.

2. Percebe-se, pelo índice, que a organização do material (em geral, pequenos textos, crónicas, micrcocontos...) é temática: I. Guiné, tempo de guerrilha (pp. 11-80); II - Outros lugares, outros tempos (pp. 81-129); e III - Vida cumprida, inventário breve (pp. 131-158).

Boa parte do livro baseia-se em textos inédito. Mas há excertos de livros anteriores, tais como (com destaque oara Cambança Final): 

  • Contos com encontros (2008) (contos)
  • Parições & Aparições (2012) (prosa)
  • Cambança Final (2013) (contos)
  • QuasOutono?! (2014) (poesia)
  • Filhos d'outrem ou d'algures (2015) (histórias sobre paternidades)
  • Por século e meio (2017) (romance)
  • Sobre/vivèncias (2017) (poesia)
  • Sótáo, rés-do-chão e outras vidas (2018) (contos)
  • Deixem a guerra em paz (2019) (novela)
  • Retratos da Avenida e outros (2023) (contos)
Parabéns, Branquinho: a tua paixão pela escrita (e em particular pelo conto)    já nos deu um "balaio" de livros, os quais  merecem maior e melhor divulgação no nosso blogue. Não vou seguir o teu "conselho": pelo que eu já li, o teu "inventário" (estático) e "balanço" (dinâmico) de uma vida (pou de várias vidas( merece mais umas tantas notas de leitura. 

Afinal, estás, estamos todos nós, irremediavelmente presos na teia do passado. Parafraseando um dos teus poemas, auto-irónico, "temos os bolsos cheios de passado / para o que der e (ainda) vier"... Ou por outras palavras: ainda estamos aqui, não nos fomos embora, nem nos hão de enterrar na "vala comum do esquecimento", ainda temos felizmente presente e futuro (próximo)... 

Enquanto houver língua e dedo..., não haverá leitor que nos meta medo. A vida é um "suplício de Sísifo"... Mas pior do que levar o "pedregulho" até ao cimo da montanha, é um gajo ficar "protésico, radioativo, parkinsónico e alzheimareado"... Enfim, que os bons irãs da Guiné nos protejam... (LG)

Fonte: Alberto Branquinho - "Inventarium Vitae", Lisboa, Sítio do Livro, 2026,  pág. 127

____________________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 20 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28198: Notas de leitura (1941): "Arte de Portugal no Mundo - África Ocidental", por Pedro Dias; Edição do Jornal Público, 2008 (Mário Beja Santos)

domingo, 24 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28050: Humor de caserna (270): o anedotário da Spinolândia - Parte XXXVII: Oh, homem, cale-se! (Alberto Branquinho, ex-alf mil art OE, CART 1689 / BART 1913, Fá, Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69)


Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.
Fontes iconográficas: fotos de Alberto Branquinho e gen António de Spínola (1969), Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné



1. O escritor Alberto Branquinho, alto-duriense de Vila Nova de Foz Coa (uma terra antiga como o caraças), e que faz questão de não esconder que andou na guerra colonial da Guiné, na porrada, é um dos nossos contribuintes (líquidos) desta série, "Humor de Caserna".

Não vive da escrita, é advogado, mas já publicou uma "porrada" de livros, e p0demos dizer que  vários se encaixam no polémica categoria da "literatura da (e não sobre a) guerra colonial"...

 Acaba de publicar mais um, que ele diz que é o último mas a gente não acredita. Ficou de mandar um exemplar autografado para a Tabanca Grande. Ainda nem sabemos como é o título. 

Até lá (até que o livro chegue à Lourinhã, minha terra natal, também velha como o caraças), fui revisitar um dos seus contos da série "Contraponto". Recorde-se quem ele é (ou foi, noutra encarnação):

(i) ex-alf mil art, CART 1689 / BART 1913, Fá, Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69;

(ii) nota curiosa: desembracou em Bissau em 1 de maio de \1967, no tempo do governador e comandante-chefe, Arnaldo Schulz; regressou à metrópolke em 2 de março de 1969, já no tempo do gen António Spínokla;

(iii) depois de ter passado por Coimbra como estudante, fixou-se em Lisboa, onde exerce adv0cacia (advogados e médicos trabalham até morrer);

(iv) dizem os críticos literários que é um dos grandes contistas da guerra da Guiné (ou da Guinezinha, como dizia a senhora dona Supico Pinto,m com ternura);

(v) é autor, entre outros, dos livros de contos "Cambança"; "Cambança Final" e "Deixem a Guerra em Paz";

(vi) faz parte da Tabanca Grande desde 26/8/2008, altura em que venceu a relutância de se associar ao nosso blogue, ao ler o nosso apelo, "Não deixemos que sejam os outros a contar a nossa história por nós";

(vii) tem 163 referências no nosso blogue.


2. A história que se segue tinha originalmente um título modesto (mas honesto), "O Spínola que eu...entrevi". Ele começa por justificar por que é que, muito sinceramente, nunca poderia enganar o leitor se disssesse "O Spínola que eu conheci". Não é homem para enganar os outros, mesmo sendo causídico, vendendo gato por lebre. 

A cena passa-se, nos arredores de Bissau, em Brá, no famoso Depósito dos A(r)didos), num sábado, dia 1 de março de 1969, aquando da despedida de mais um contingente de tropas que cumpriam a sua comissão de serviço e regressavam, no dia seguinte, a casa: BART 1913, CCAV 1693, etc.  

Repare-se que, "naqueles bons velhos tempos" (há quem saudades!...), ainda se trabalhava ao sábado e sol a sol... (Não é como agora, em que  toda a gente, a começar pela tropa,  quer a semana de 4 dias e, de preferência, em teletrabalho).
 

Humor de caserna > O anedotário da Spinolândia: Oh!, homem, cale-se!

por Alberto Branquinho


Não me pareceu que este texto pudesse ser colocado na série “O Spínola que eu conheci”, porque não o conheci. O que posso dizer é que, por duas vezes, pude entrevê-lo.

A primeira foi durante o período de permanência da minha companhia em Bissau (onde nunca estivera), aguardando o embarque de regresso a Lisboa. Encaminhava-me para a messe em Santa Luzia 
[no QG/CTIG], quando o vi, ao longe, em frente à messe, entre meia dúzia de oficiais.

A segunda vez foi durante a formatura de despedida das tropas que, no dia seguinte, embarcavam para Lisboa. Que me lembre, na formatura, estava o meu batalhão  [BART 1913], outro batalhão [ ou, pelo menos, a CAV 1693] e, lá mais à frente, sob a minha direita, tropas da marinha, impecáveis, nas suas fardas brancas.

Eu estava à frente do meu pelotão e tinha a tapar-me a visibilidade sobre um palanquim de madeira (onde estava um microfone), o meu comandante de companhia e, em frente a ele, o coronel que comandava a tropa em formatura. Chegou o Com-Chefe, acompanhado de um oficial que se colocou mais atrás, sob a sua esquerda. Toque de “Sentido”. A seguir, o coronel fez o cumprimento militar. O Com-Chefe respondeu, elevando a mão direita, enluvada, mais ou menos à altura do rosto. Toque de “À-vontade”.

Colocaram um microfone em frente ao coronel. Compasso de espera para o acertar à altura adequada. O coronel colocou os óculos e retirou umas folhas de papel do bolso direito das calças. (Aproveitei para espreitar discretamente, ora sobre a direita ora sobre a esquerda.) O coronel começou a ler. 

Eu não prestava atenção ao que ele dizia, tentando entrever o general, que dava sinais de impaciência. Apurei o ouvido. O coronel falava da arma de Artilharia, da excelência do artilheiro, da história da Artilharia.

O general, que estava cada vez mais impaciente, chegou-se ao microfone do palanquim e ouviu-se, por entre as palavras do coronel, em som nasalado e grave:

 — Já chega!

O coronel pareceu não ouvir e continuou a passar folhas e a ler. E o general:

 — Shh! Shh!

De cabeça baixa, continuei a procurar entrever o palanquim e o general, olhando por cima do sobrolho e pensando: 

 — Vai haver esturro!

O general, de novo:

— Já chega! Shh!

O coronel continuou. Acabou. Dobrou e guardou as folhas.

Ouviu-se o toque de “Sentido” e, logo a seguir, o coronel fez continência. O general respondeu, com um gesto, fazendo oscilar o pingalim sobre o seu lado direito. Então recuou um pouco, ficando, assim, visível, olhou o oficial que o acompanhava 
[talvez oi ajudante de campo, o "Aponta, Bruno"] e que estava à sua esquerda e, com o pingalim apontando o microfone, disse em voz bem audível, mais ou menos isto:

 — Diz lá umas palavras aos rapazes sobre o significado deste ato, que voltam para as famílias, para as mulheres, para os filhos… que era o que o senhor coronel devia ter feito.

(Revisão / fixação de texto, parênteses retos, título, negritos: LG)

________________

Nota do editor LG:

Último poste ds série > 23 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28047: Humor de caserna (269) : O anedotário da Spinolàndia - Parte XXXVI: o que faz o sargento de guarda ao palácio do Governador com uma mensagem relâmpago ("zulu") num domingo, já noite dentro ? Se necessário, faz o Governador saltar da cama...