sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Guiné 63/74 - P16440: Contraponto (Alberto Branquinho) (54): Literatura da guerra colonial, o que é?

1. Comentário do dia 1 de Setembro de 2016, do nosso camarada Alberto Branquinho (ex-Alf Mil de Op Esp da CART 1689, , Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69), deixado no Poste Guiné 63/74 - P16433: Agenda cultural (489): Amanhã, dia de 1 setembro, estreia nos cinemas o filme, de Ivo M. Ferreira, "Cartas da Guerra", baseado nas cartas de amor e guerra de António Lobo Antunes, ex-alf mil médico, da CART 3313 (Angola, 1971/73), inserido aqui na sua série Contraponto:


CONTRAPONTO

54 - LITERATURA DA GUERRA COLONIAL

A - Deixando de lado toda e qualquer postura política ou ideológica, o que é "literatura da guerra colonial"?

1 - É TODO E QUALQUER ESCRITO SOBRE A GUERRA?
2 - É aquela escrita feita por QUEM SOFREU A GUERRA À DISTÂNCIA?
3 - É aquela escrita feita por QUEM SOFREU A GUERRA NOS ESPAÇOS DE GUERRA?
4 - É aquela escrita feita por QUEM SOFREU COM A GUERRA LONGE DOS ESPAÇOS DE GUERRA?
5 - É aquela escrita feita SOMENTE POR QUEM FEZ A GUERRA?


B - Fazer a guerra

Deixando de lado toda e qualquer postura política ou ideológica

- Uma coisa é FAZER A GUERRA outra coisa é SOFRER COM A GUERRA. Daí que eu diga que as ÚNICAS MULHERES que FIZERAM A GUERRA foram as nossas Enfermeiras para-quedistas "(vide livro "NÓS, Enfermeiras para-quedistas", onde algumas delas relatam algumas das suas experiências de guerra)"; muitas outras mulheres (nesses tempos, mas não todas) sofreram com a guerra, mas não fizeram a guerra.


C - Das respostas às questões em A acima se poderão clarificar os EQUÍVOCOS em atribuir o epíteto de literatura de guerra colonial a uma literatura baseada no "consta que" ou no "ouvi dizer":

- No consultório médico ou no posto de socorros;
- Nas messes de oficiais e espaços anexos (incluindo piscinas);
- No cabeleireiro e em outros espaços civis ou militares;
- Etc. etc.

EVITEMOS, portanto, "modas" e atitudes de "Maria vai com as outras".


D - QUESTÃO FINAL

- Por que é que não se fala, escreve, filma sobre os livros do MELHOR escritor da guerra colonial - Carlos Vale Ferraz - que aborda desde a temática da guerra (vivida e sofrida) pura e simples, desde os riscos e os sofrimentos presentes ao planeamento operacional e, até, temática pícara e herói-cómica?

Saudações
Alberto Branquinho
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Nota do editor

Último poste da série de 5 de janeiro de 2015 > Guiné 63/74 - P14119: Contraponto (Alberto Branquinho) (53): "A Malta das Trincheiras" de André Brun

13 comentários:

Vasco Pires disse...

Bom dia Camarada Branquinho,
Cordiais saudações.
"Data maxima venia",a guerra, foi um povo inteiro quem a fez!
E os médicos médicos nos hospitais?
E os amanuenses nos escritórios?
E os operários nas fábricas?
E os marinheiros nos navios?
E aquelas filas quilométricas, de mães, esposas para Fátima?
Há combatentes e não combatentes, na história da humanidade não há guerras somente com combatentes.
Forte abraço. VP

JD disse...

Caro Alberto,
Acho muito oportuna esta tua divisão entre os que fizeram a guerra de forma activa, e tantos outros que sobre a matéria se manifestam, mas não deram o corpo ao manifesto. É claro, que a guerra também incluía os reabastecimentos, a prestação de cuidados médicos e de enfermagem, a troca de mensagens via rádio e por correio, a contabilidade tanto das repartições como das unidades operacionais, mas os efectivos nisso empenhados, em geral, não participaram na guerra, pese embora, eventualmente terem sofrido "ataques" aos aquartelamentos onde estivessem, ocasional ou em permanência.
Esses "ataques", quase sempre provocavam elevado consumo de munições e estrondos de rebentamentos, que era uma forma de praticar a guerra psicológica, do meu ponto de vista, não constituíam a essência da guerra, não obrigavam a mais cautelas e experiências operacionais para além da busca de um lugar seguro (abrigos e trincheiras).
Portanto, a guerra, sob a forma directa e indirecta, ofereceu-nos diferentes experiências, do que resultam diferentes pontos de vista, apesar de, pelos contactos frequentes dos diferentes participantes, e da pequenez e estado de influência do território guineense, possamos saber alguma coisa sobre as a "guerra dos outros". Mas beber água da bolanha por falta de alternativa, de facto, não foi para todos.
Um abraço
JD

Vasco Pires disse...

Bom dia Camarada JD,
Cordiais saudações.
A vida é um eterno aprendizado.
Soube,então, que durante quase dois anos na fronteira Sul,fiz guerra psicológica.
Ah,dada a natureza da minha função, nunca tive oportunidade de me resguardar em valas e abrigos.
Forte abraço. VP

Tabanca Grande disse...

O primeiro poste que se publicoiu neste blogue, em 23 de abril de 2004, começava assim:



SEXTA-FEIRA, 23 DE ABRIL DE 2004
Guiné 63/74 – P1: Saudosa(s) madrinha(s) de guerra (Luís Graça)

Trinta e cinco anos depois.
No 25 de Abril de 2004 presto a minha homenagem às mulheres portuguesas.
Que se vestiam de luto enquanto os maridos ou noivos andavam no ultramar.
Às que rastejavam no chão de Fátima, implorando à Virgem o regresso dos seus filhos, sãos e salvos.
Às que continuavam, silenciosas e inquietas, ao lado dos homens nos campos, nas fábricas e nos escritórios.
Às que ficavam em casa, rezando o terço à noite.
Às que aguardavam com angústia a hora matinal do correio.
Às que, poucas, subscreviam abaixo-assinados contra o regime e contra a guerra.
Às que, poucas, liam e divulgavam folhetos clandestinos ou sintonizavam altas horas da madrugada as vozes que vinham de longe e que falavam de resistência em tempo de solidão.
Às que, muitas, carinhosamente tiravam do fumeiro (e da barriga) as chouriças e os salpicões que iriam levar até junto dos seus filhos, no outro lado do mundo, um pouco do amor de mãe, das saudades da terra, dos sabores da comida e da alegria da festa.
E sobretudo às, muitas, e em geral adolescentes e jovens solteiras, que se correspondiam com os soldados mobilizados para a guerra colonial, na qualidade de madrinhas de guerra.

A maioria dos soldados correspondia-se, em média, com uma meia dúzia de madrinhas, para além dos seus familiares e amigos. Em treze anos de guerra, cerca de um milhão de soldados terá escrito mais de 500 milhões de cartas e aerogramas. E recebido outros tantos. Como este que aqui se reproduz. (...)

https://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/2004_04_18_archive.html



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Tabanca Grande disse...

.,, É evidente que o VP e todos os "artilheiros" foram tão operacionais como eu e a minha tropa-macaca da CCAÇ. ou os manos Branquinho, ou o JD. que esteve numa unidade de quadrícula... Não vamos abrir aqui a "caixinha de Pandora" e separar operacionais e não operacionais... Há mais de 12 anos que lutamos contra isso... Dito isto, o António Lobo Antuines não é um escritor da guerra colonial... Este rejeitou categoricamente os romances da sua fase de aprendizagem de ficcionista, o Cu de Judas, a Memória de Elefante... Ab. LG

Tabanca Grande disse...

.... É evidente que o VP e todos os demais bravos "artilheiros", de Gadamael a Guidaje, e dp Xime a Piche, foram tão operacionais como eu e a minha tropa-macaca da CCAÇ 12, ou os manos Branquinho, ou o JD que esteve numa unidade de quadrícula...

Não vamos abrir aqui a "caixinha de Pandora" e separar operacionais e não operacionais... Há mais de 12 anos que lutamos contra isso... Dito isto, o António Lobo Antunes "não é um escritor da guerra colonial"... Ele rejeitou, há uns anos, categoricamente, os romances da sua fase de aprendizagem de ficcionista, Memória de Elefante e os Cus de Judas, que publicou em 1979 e lhe abriram autoestrada da glóira das letras...

Quer ele queira quer não, é um dos nossos camaradas de guerra... Foi médico em Angola... Podia ter ido parar à Guie ou a Moçambique, não importa. Ab. LG

alma disse...

Não sei se há Literatura da Guerra Colonial. O que há é Literatura, a qual pode ter contado com a experiência do Autor. ou não...A não ser assim, então todos os Romances Policiais, tinham de ser escritos por Inspectores da Polícia...Abraço! J.Cabral

Anónimo disse...

Guerra, esta palavra parece-me que encerra muito em si.
Vamos começar ou continuar a separar quem andou no mato de quem esteve no ar condicionado e
depois definimos querra:
Apenas para quem fez disparos?
Apenas para quem fez disparos e eliminou inimigos?
Apenas para que andou no mato, armado, ou, por outras palavras, bebeu água da bolanha?
Apenas para quem andou no mato e nunca disparou?
Embora perceba e até possa estar de acordo com o que é pretendido pelo Alberto Branquinho, se não estou a fazer uma má interpretação, tenho que dizer que todos os que passaram directa ou indirectamente pela guerra têm o direito de falar e contar as suas experiências, devem é fazê-lo com seriedade e sabendo separar a acção directa da indirecta.
Acabei de almoçar e se calhar já escrevi demais.
Um abraço.
BS

Anónimo disse...

Obrigado a todos os que se dignaram COMENTAR O MEU COMENTÁRIO colocado no POST 16433, que causou uns quantos equívocos e/ou divergências do TEMA do meu comentário.

1 - Não questiono ou questionei a acção,exposição e experiência dos artilheiros ou de outras especialidades ligadas à actividade de fazer a guerra. Falei do conhecimento e da experiência feita para se poder escrever sobre a realidade, ou seja, escrever a chamada "literatura da guerra colonial". Por outro lado, não falei sequer em "operacionais" ou "não operacionais".
2 - Concluo que fazer a guerra foi, também, rezar pelos que estavam na guerra e se alguém escrever sobre essas preces, está a escrever "literatura da guerra colonial".
3 - Concluo, também,que o escrever de experiência feita é, portanto, igual a escrever de experiência lida, ouvida e imaginada e posso, portanto, confirmar ao meu Amigo M.R. que pode escrever ficção, como ele disse, "literatura de guerra colonial", sem correr o risco de estar a escrever "irrealidades ficcionais", caindo no ridículo. (Ele, quando convocado para Mafra, apresentou-se em França, que era o que eu queria fazer e deveria ter feito).
4 - Não esqueçam que, além do meu comentário no POST 16433, ele teve outros comentários.

A CONCLUIR:
Experiência ou simples imaginação ou "ouvi dizer" e saber de experiência feita não são a mesma coisa quando se escreve sobre desenvolvimentos CONCRETOS que são HISTÓRIA; quando forem resultado de outra coisa que não seja saber de experiência feita, não lhe chamem "literatura da guerra colonial", chamem-lhe... o que quiserem.

Ninguém é obrigado a pensar como eu penso e ninguém vai convencer-me a pensar de outro modo, porque é um pensamento... já muito pensado.
E, com isto, dou por terminada a minha actuação.

Saudações
Alberto Branquinho

JD disse...

Caro VP,
Acho que não me interpretaste bem. Era guerra psicológica a que eles nos obrigavam, quando lançavam rockets e morteiros, a que nós correspondíamos com a busca de protecção, e com fartura de tiros de G-3 para nenhures, assim como pela retaliação na mesma direcção de meios mais pesados. Em geral não resultavam baixas para ambos os lados. Lembro aqui, que dormi sempre no meu quarto, quer em Piche, quer em Bajocunda ou outros locais onde permaneci por dias. Sobre a guerra directa ou indirecta, impulsionou-me ao comentário, a recordação dos dias que passei em Bissau, e das advertências sobre os perigos em Piche, e o morticinio que resultava das acções inimigas. Afinal, só foi inferno para os que tiveram azar, e na minha Companhia foram dois feridos com gravidade.
Mas o que quis sublinhar sobre a literatura da guerra colonial, refere-se à imensa quantidade de escritos sobre aspectos colaterais, ou da iniciativa de pessoas que não tiveram participação directa, por vezes, nem indirecta, como é o caso de Lídia Jorge, que escreve a partir de informações e análises diversas. Também entre nós temos dois "Diários da Guiné", de autores com diferentes experiências. Sobre guerra colonial pura e dura quero destacar "Olhos de Caçador", de António Brito, que reflecte uma sórdida experiência em Moçambique; ou a aventura histórica de Alpoim Calvão em "De Conakry ao MDLP". Sobre a guerra enquanto fonte de estudos, destaco "Opiniões Públicas Durante as Guerras de África, de Nuno Mira Vaz, e "Elites Militares e a Guerra de África", de Manuel Godinho Rebocho.
Antes de acabar, quero ainda citar 3 livros: "Nó Cego", de Carlos Vale Ferraz, onde se lê na contra-capa, que combateu «como capitão do mais eficaz, brutal e manhoso corpo de tropas do aparelho português: os Comandos», e "O Herói", de José da Câmara Leme, onde se refere a antítese da ideia do «homem inexpressivo e sólido, exemplo construído de gestos e intenções, estatualizado na imagem aterradora dos ornatos bélicos das medalhas» aqui contra-posto com a ironia crítica do autor, que o considera o «homem feito de si próprio, desenvolvido pelas pequenas causas quotidianas da sua existência vivida no estado de guerra,latente e declarado, que nasce na sua aldei marítima e vai morrer-se no vinho redentor de uma qualquer taberna distante. ... Um dia-a-dia que ultrapassa a vida, isto é, a contradição o ritmo suportável das contradições da existência,jogada da morte para a sobrevivência, suspensa de um acaso que tenta, a todo o custo, incorporar-se no projecto total do destino...»
Finalmente, o meu melhor livro de guerra no sentido de não depender da experiência efectiva: "O Fado Alexandrino", de António Lobo Antunes, uma inexcedível paródia no reencontro de ex-combatentes, onde se destaca a capacidade dos militares para grandes cometimentos. E mais não digo. São cerca de 700 páginas que li em excesso de velocidade, totalmente absorvido pela qualidade da escrita e da trama, enquanto esperava no "La Iruña" pela namorada que trabalhava ali perto.
Ainda não acabou, falta uma meção na poesia: de facto, eu que sou sensível aos camaradas que foram mais afectados pela guerra, também fui muito impressionado por um pequeno volume intitulado "Trinta Facadas de Raiva", do Capitão Calvinho. É uma leitura que dói, mas afigura-se indispensável para o conhecimento e a compreensão da guerra. Como diria o outro: a guerra e as suas circunstâncias.
Um grande abraço
JD

Vasco Pires disse...

Obrigado JD por teu comentário.
Forte abraço.
VP

António José Pereira da Costa disse...

Olá Camaradas

Parece-me que chegámos a um tema fracturante que era bom explorar com intensidade, de modo a estabelecermos uma definição concreta. Sem medos de sermos tomados por exclusivistas, vaidosos ou outro adjectivo ainda pior.
A definição proposta pelo Branquinho está relacionada com a autoria do texto o que me parece o ponto de partida válido. Contudo, a extensão da autoria da "literatura de guerra", no fundo a todos os que eram vivos naquela altura é claramente excessiva. De uma forma ou de outra todos estivemos envolvidos na guerra, bastando para tal sermos portugueses. Todos a vimos e sentimos, mas os que não estiveram directamente envolvidos nela e que resolvam escrever sobre as suas vidas não estão a produzir literatura de guerra. Houve outros fenómenos nacionais e internacionais que marcaram a nossa vivência nesse tempo e que se escrevermos sobre eles não quer dizer que estejamos a escrever sobre a guerra. Se alguém escrever sobre a vivência dos portugueses na 2ª metade do Séc. XX não poderá furtar-se a falar das causas e efeitos da guerra, mas não está produzir literatura de guerra.
Por outro lado, romancear a guerra não é produzir literatura de guerra, é escrever romance, maior ou menor veracidade, no modo como a guerra é abordada enquanto fenómeno sociológico,
Parece-me que a linha vermelha para produção de "literatura de guerra" assenta nas memórias de quem viveu o facto. Este é mais um aspecto a considerar. Mas é capaz de haver outros...

Um Ab.
António J. P. Costa

Vasco Pires disse...

Luis, o teu comentário, fez-me lembrar "Mulheres de Atenas" do Chico Buarque.
Forte abraço. VP