sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Guiné 63/74 - P16439: Notas de leitura (875): Ida à Feira da Ladra, sábado, 27 de Agosto: a Guiné estava à minha espera, antes, durante e depois da guerra (1) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 29 de Agosto de 2016:

Queridos amigos,
O prazer da descoberta de imagens preciosas e uma unidade militar que permaneceu na Guiné entre 1959 e 1961 não ilude a revolta de ver estas imagens históricas fora do seu lugar apropriado, o Arquivo Histórico Militar, é para lá que irão, espero que me ajudei a descobrir que unidade militar foi esta, o fotógrafo, porventura comandante de companhia deixou-nos imagens de truz, posso afiançar que as dezenas e dezenas de fotografias que ficaram para vender mereciam um bom recato, um espaço que recolha, preserve e permita a investigação da história militar. E ver como estavam equipados os militares de Antanho, onde se sediava o CIM, como cresceram os equipamentos da messe de Santa Luzia. Mas as surpresas desse dia não ficaram por aqui. Eu depois conto.

Um abraço do
Mário


Ida à Feira da Ladra, sábado, 27 de Agosto: a Guiné estava à minha espera, antes, durante e depois da guerra (1)

Beja Santos

Entro habitualmente na Feira da Ladra junto ao Hospital da Marinha, o propósito é vasculhar os trastes que o Nuno trouxe de vários espólios em móveis, bugigangas e livros; conversar e por vezes comprar roupas de cama à D. Ercília, sempre de largo chapéu de palha na cabeça, sentada à volta dos seus haveres numa pose de rainha Ginga, subo depois para uma banca onde estão expostos mapas, relicários e centenas de fotografias. Foi aí que me saiu a sorte grande do dia, a vendedora alertou-me: “Tem para aí mais de uma centena de fotografias da Guiné”. Era inteiramente verdade. Material inacreditável, belas imagens tiradas com uma boa máquina, sempre legendadas, e com trabalho de revelação da Instanta, que foi casa de prestígio. Eram centenas, adquiri nove, mas primeiro deliciei-me a vasculhar a matéria-prima existente. E a conjeturar. Deve tratar-se de uma unidade militar que por ali andou entre 1959 e 1961. Há imagens da chegada a Lisboa, a bordo do Ana Mafalda. A letra é cuidada, aqui e acolá referem-se nomes de alferes. É bem possível que o possuidor deste valioso espólio fosse o comandante de companhia, espólio que deve ter deixado indiferentes os herdeiros, porventura desconhecedores de que existe um Arquivo Histórico Militar. Aqui vos deixo as imagens:

Bissau, 28 de Junho, 1960, vista do edifício dos quartos de oficiais da messe de Santa Luzia

Bissau, 15 de Agosto, 1960, juramento de bandeira, demonstração do CIM, Alferes Vigário num perfeito salto mortal para a lona

Guiné, 23 de Dezembro, 1960, dois soldados a desfazerem um monte de bagabaga que já está com metade da altura; a terra é para preparar o presépio

Rio Cacheu (Barro), 5 de Janeiro, 1961, canoa com indígenas junto da jangada

Rio Cacheu (Barro), 5 de Janeiro, 1961, soldado navegando numa canoa

Bissorã, 5 de Janeiro, 1961, junto do monumento ao Governador Serrão, dois fulas montados em burros, animais estes que abundam nesta região

Bissau, 15 de Janeiro, 1961, início das obras para a construção de mais um edifício para quartos destinados a oficiais sem família, junto da messe

Praia de Varela, 18 de Fevereiro, 1961, quatro rapazes Felupes e o alferes miliciano Lourenço

Praia de Varela, 18 de Fevereiro, 1961, vista dos balneários da praia, os quais têm chuveiro, o que não se espera ao ver-se o seu teto de palha

O regateio deste punhado de relíquias foi relativamente duro, a vendedeira apercebeu-se da minha comoção, jogou com ela. Subo a rampa da feira em fúria, como é possível as pessoas desembaraçarem-se destas imagens históricas para receber uma tuta-e-meia? A meio da ladeira está plantado, frente ao velho Casão, o senhor Manel, vendedor de livros e trastes, de humor instável, num repente grita: “Tudo a 50 cêntimos!” e pode-se comprar um legítimo e intacto bule inglês ou uma caterva de bons livros, mas pode igualmente mostrar-se patibular e sentenciar: “Os livros são a 2 euros, quem não quer desampare-me a loja!”. Tinha aqui surpresas à espera, encontrei um livro que vem referido em “Os anos da guerra”, de João de Melo, bem como um panfleto grosseiro assinado por uma senhora que entrou há pouco na Academia Brasileira de Letras e por prudência não refere na sua vasta bibliografia o que escreveu sobre a Guiné-Bissau. Eu depois conto.

(Continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 25 de agosto de 2016 > Guiné 63/74 - P16420: Notas de leitura (874): (D)o outro lado do combate: memórias de médicos cubanos (1966-1969) - Parte VIII: o caso do clínico geral Amado Alfonso Delgado (IV): "Os guineenses são muito resistentes...Numa ocasião, uma bomba caiu perto de uma mulher e feriu-a no abdómen... Eu devia abrir-lhe o abdómen pois tinha peritonite. Coloquei-lhe anestesia local e, quando lhe ia dar a geral, um avião largou outra bomba que caiu perto. A mulher levantou-se, com a ferida meio aberta, e fugiu. Não a vi mais. Depois disseram-me que a tinham localizado, já morta, a cerca de quatro quilómetros dali."

3 comentários:

António José Pereira da Costa disse...

Olá Camaradas

Este é mais um aspecto da pré-história da guerra da Guiné.
É o tempo do ká-ki. O antes de, quanto já havias alguns (poucos) gritavam que lá vinha o lobo.´
Está aberta uma frente de estudo juntamente com a intervenção do cor. Coutinho e Lima.
"Vamos a eles"!
Venham fotos e depoimentos.´

Um Ab.
António J. P, Costa

Vasco Pires disse...

Bom dia Camarada Beja Santos,
Cordiais saudações.
Sou um leitor assíduo e admirador das suas resenhas.
Acaso pode saber-se quem é a Ilustre "Imortal"?
Forte abraço. VP

Vasco Pires disse...

Ana Maria Machado?
VP