Guiné > Região do Cacheu > Có >2ª C/BART 6521/72 (Có, 1972/74) > c. outubro/novembro de 1972 > O "rancho" > Messe da caserna do 2º pelotão: um dos primeiros almoços. O autor, em primeiro plano, à direita.
Foto (e legenda): © Luís da Cruz Ferreira (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
1. O livro do Luís da Cruz Ferreira (*) vale sobretudo pelas "pequenas histórias" que ele guardou do seu quotidiano em Có, na sua tripla função de:
- enfermeiro (função que ainda exerceu) (pp. 59-100),
- 'barmam' função para a qual estaria, de resto, mais calhado, devido à sua experiência na restauração, antes da tropa) (pp. 100-108);
- e finalmente como professor do Posto Escolar Militar nº 20 (pp. 109 e ss.)
Uma das histórias que ele nos conta (pp. 84/85), passou-se ainda no tempo da sobreposição com os "velhinhos" da CCAÇ 3308.
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Luís da Cruz Ferreira, de alcunha "O Beatle" |
(...) Um camarada dos 'velhinhos' que estava a tratar de acender o fogareiro a petróleo para preparar o petisco para o seu grupo (da sueca) e estava a aplicar gasolina em vez de utilizar um combustível menos explosivo e mais adequado, para aquecer a cabeça do fogareiro (...).
O autor confessa que não tomou notas de nada, tudo o que escreve, muito anos depois, é "de memória" (pág. 87).
Esta ocorrência passou-se uns dias, ou escassas semanas, antes da partida da CCAÇ 3308, portanto em novembro de 1972: recorde-se que a 2ª C/BART 6521/72 tinha seguido em 290ut72 para Có, a fim de efectuar o treino operacional e a sobreposição com a CCaç 3308; e menos de um mês depois, em 25nov72, assumiria a responsabilidade do subsector de Có, ficando os "Có Boys" entregues a si próprios.
(...) Seriam talvez 11h30 quando incompreensivelmente o nosso camarada coloca gasolina, talvez em excesso, na cabeça do fogareiro e lhe chega a chama de um fósforo ao inflamável combustível, provocando uma explosão que lhe atinge o tronco nu, do peito à cintura. Uma grave queimadura que coube a mim socorrer, quando me apercebi da sua gravidade" (...)
O "Beatle", no seu curto estágio em cirurgia plástica, no Hospital Militar Principal, à Estrela, em Lisboa (pág. 27), tinha pelo menos assistido ao tratamento de alguns queimados, e das suas observações colheu alguns ensinamentos que lhe vão ser agora úteis, nesta emergência:
(...) Era uma situação deveras complicada e que exigia um tratamento delicado e paciente. Felizmente a nossa enfermaria estava apetrechada com os mais variados medicamentos. Não faltou o soro que era indispensável e as compressas especiais para aplicar sobre a zona queimada. (...)
Foi o nosso 1º cabo aux enf Luís da Cruz Ferreira quem tratou o ferido do princípio ao fim, na enfermaria de Có, sem necessidade de ser evacuado para o HM 241. Diz ele que perdeu uns bons "litros de transpiração"... O problema maior era substituir, regularmente, as compressas sem provocar dor no doente. Este acabou por ter alta, com evidente satisfação sua e do enfermeiro que o tratou.
(...) Não só por sido o meu primeiro trabalho, mas também pela dureza do mesmo e, finalmente, por tudo ter corrido muito bem, senti-me orgulhoso, igualmente pela confiança que em mim depositaram todos os meus camaradas enfermeiros, incluindo 'velhinhos' e o próprio sinistrado, a quem era justo duvidar da capacidade de um 'periquito' inexperiente. (...) (pág. 85).
O sucesso do tratamento foi comemorado no bar:
(...) "Este camarada 'velhinho' (...) fez questão de me ir buscar à enfermaria e convidar-me, de modo solene, para beber com ele uma cerveja" (...).
Terá sido a cerveja que ao "Beatle" melhor soube durante toda a comissão:
(...) O que eu senti foi poder partir no meu íntimo a alegria daquele jovem, um pouco mais velho do que eu, que, como homem, quer voltar para a sua terra, no estado em que chegara à Guiné (pág, 85)
__________________Nota do editor LG:
(*) Último poste da série > 15 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28022: Notas de leitura (1923): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (2): III - O que eu sei da guerra que estou a travar e IV - O conhecimento da morte, Missirá devastada, o desafio de lhe dar nova vida (Mário Beja Santos)































