
Queridos amigos,
Para o melhor e para o pior, estes documentos de Usodimare e Cadamosto são claros reveladores não só da mentalidade e conhecimento científicos do tempo como permitem visualizar como se formou a lenda henriquina, o tal Príncipe de fervorosa cruzada religiosa, de grande sabedoria científica, casto, a viver na Escola de Sagres; e dão-nos a perceber a visão ptolomaica que geria o que se pensava ser a geografia: que aquelas navegações, depois da terra dos pardos (o que hoje se configura a Mauritânia) chegava à Baixa Etiópia, a Etiópia Alta eram as Índias asiáticas, assim pensava por exemplo Duarte Pacheco Pereira, basta ver a descrição de Cadamosto dizendo que o rio Senegal era um ramo do Gion, que nasce no Paraíso Terrestre, a quem os antigos chamavam Níger, e o outro ramo de Gion era o Nilo... podemos assim ver como estas navegações estavam a alterar em profundidade o conhecimento científico, além de interessar os homens de negócios e a inevitável concorrência de castelhanos (mais tarde espanhóis), ingleses, franceses e holandeses.
Um abraço do
Mário
Para melhor entender o início da presença portuguesa na Senegâmbia (século XV) – 8
Mário Beja Santos
Este terceiro e último volume dos Documentos da Expansão Portuguesa, de Vitorino Magalhães Godinho, Edições Cosmos, 1956, põe inicialmente ênfase numa carta de Usodimare, como se referiu no texto anterior, seguindo-se as descrições das navegações de Cadamosto, navegação primeira e navegação segunda. Vejamos o proémio dessa navegação primeira:
“Tendo eu, Luís de Cadamosto, sido o primeiro em a mui nobre cidade de Veneza que me movi a navegar o Mar Oceano fora do estreito de Gibraltar para as partes do meio-dia, nas terras dos Negros da baixa Etiópia; e tendo visto nessa minha primeira viagem muitas coisas novas, e dignas de memória; pareceu-me meritório despender com elas algum trabalho, e transcrevê-las para que aqueles após mim vierem conheçam qual foi o meu ânimo em buscá-las em diversas e novas regiões.
Deve-se saber que o primeiro inventor destas navegações em os nossos tempos, por esta parte meridional do Mar Oceano contra as terras dos Negros da baixa Etiópia, foi o muito ilustre Infante D. Henrique. Deste Senhor Infante D. Henrique, conquanto pudesse dizer muitas coisas notáveis das suas virtudes, tudo calo a só expor que foi todo dado à milícia de Nosso Senhor Jesus Cristo, guerreando os bárbaros e combatendo pela fé. Durante a sua juventude fez grandes proezas guerreando com os mouros, tanto com a sua própria pessoa como pela sua indústria, as quais são dignas de eterna memória: de tal sorte que estando El Rei D. João, seu pai, em artigos de morte, em 1432, chamou o dito D. Henrique, como quem conhecia as suas virtudes, e com afetuosas palavras lhe recomendou aquela escola de cavaleiros portugueses, rogando-o e exortando-o a continuar com o seu santo, real e louvável propósito de perseguir com todas as suas forças os inimigos da santa fé de Cristo; e depois da morte de seu pai, com a ajuda de El Rei D. Duarte, fez muitas guerras na África aos do Reino de Fez, nos quais sendo bem sucedido por muitos anos, procurando por todas as vias danificar o dito Reino; intentou mandar as suas caravelas armadas à Costa de Safim e Messa, que são do mesmo Reino de Fez; e assim as empregou anualmente, fazendo sempre muito dano aos mouros: e solicitando o dito Senhor que navegassem cada ano mais avante, as fez chegar até um promontório chamado Cabo Não.
Desta maneira navegavam até este Cabo as ditas caravelas, e não ousavam passar mais avante; e desejando o dito Senhor que o passassem, assim o determinou em o ano seguinte; porque sendo as caravelas de Portugal os melhores navios de vela que andam sobre o mar, e sendo estes bem providos de todo o necessário, julgava impossível não poderem navegar por toda a parte; fez preparar três caravelas bem aparelhadas do necessário, e guarnecidas de homens valerosos, as quais se fizeram à vela, e vingaram o dito Cabo, navegando pela costa; e tendo caminhado coisa de cem milhas mais para diante sem achar habitação nem gente alguma tornaram outra vez ao Reino; e vendo o dito Senhor que mais nada podia fazer naquele ano os tornou a mandar no seguinte com ordem de passar além mais cento e cinquenta milhas, ou ainda mais, prometendo a todos fazê-los ricos quando voltassem. Partiram, pois, porém, não achando igualmente nada senão areia, sem qualquer povoação, voltaram para trás.
Não obstante isto, o dito senhor crescendo cada vez mais a vontade de querer saber algumas coisas daquelas partes e sítios, tornou a mandar no terceiro ano. Para resumir: tornou-os a mandar por tantas vezes, durante tantos anos que acabaram por achar algumas partes habitadas por árabes que vivem naqueles desertos, e mais além outra geração de gente a que chamam Azenegues: são homens pardos. E determinadamente chegou a descobrir as terras dos primeiros Negros e em seguida, por etapas, as terras das outras gerações também de Negros, diversas coisas, línguas, costumes e crenças, como no decurso deste meu livrinho mais largamente podereis ver.”
O historiador, nas suas imprescindíveis notas, refere quem é Cadamosto, como as suas Navegações foram pela primeira vez editadas em italiano em 1507. Antes da primeira edição circulava em Portugal uma cópia manuscrita, pois Valentim Fernandes aproveita o relato do veneziano nas suas descrições elaboradas 1505 a 1507. Para os homens daquele tempo, distinguiam-se duas Etiópias: a Etiópia Baixa ou Inferior, que começa no Rio Senegal e corre até ao Cabo da Boa Esperança e daqui até ao Golfo de Meca; e a Etiópia Alta ou Superior, que abrange as Índias asiáticas – é assim que Duarte Pacheco Pereira as descreve no Esmeraldo. A Etiópia Baixa é assim uma parte de África, uma terra dos Negros africanos.
O historiador lembra também como se foi montando a lenda henriquina: a sabedoria científica do Príncipe, a ficção da Escola de Sagres, a discussão um tanto bizantina da castidade do Infante, etc. etc.
Revela-se da maior utilidade avançar alguns elementos sobre a navegação primeira, é o que faremos ainda neste texto e no próximo. Cadamosto tinha 22 anos quando saiu de Veneza e chegou ao Cabo de São Vicente, o Infante estadeava na povoação de Raposeira, conversaram e assentou-se num projeto de navegação. Encurtando dos aspetos descritivos, vejamos o que Cadamosto diz do Rio Senegal, antigamente Níger e de como foi descoberto:
“Depois que passámos o Cabo Branco, navegávamos à vista dele por nossas jornadas até ao rio chamado do Senegal, que é o primeiro rio da terra dos Negros, entrando por aquela costa; o qual estrema os Negros dos Pardos, chamados Azenegues; e parte também a terra seca e árida, que é o deserto sobredito, da terra fértil, que é o país dos Negros. Cinco anos antes que eu fizesse esta jornada, foi descoberto o Senegal por três caravelas do Sr. Infante, entraram dentro nele, e trataram amizade com estes Negros; de modo que principiaram logo a comerciar; e assim de ano em ano foram indo lá navios até o meu tempo.
Este rio é grande, e na sua foz tem de largura mais de uma milha; é de bastante fundo, e faz ainda outra boca, um pouco mais avante, com uma ilha no meio, por cujo motivo se mete no mar por duas bocas, e sobre cada uma destas fozes, forma bancos de areia e parcéis pelo mar dentro, quase uma milha: neste lugar cresce e mingua a água todas as seis horas, isto é, a maré enche e vaza no referido tempo, e sobe pelo rio mais de sessenta milhas, segundo a informação que tive dos portugueses, que estiveram com as caravelas por ele acima.
Quem quer entrar dentro dele, deve ir com a maré por causa dos bancos e de parcéis, que estão na sua embocadura; e do Cabo Branco até aqui contam-se trezentas e oitenta milhas; a costa é toda arenosa até junto à barra obra de vinte milhas, é de Azenegues ou Amulatados; e parece-me maravilhoso, que além do Senegal todos sejam negríssimos, grandes, grossos, e bem formados de corpo; e todo o país verde cheio de árvores e fértil: e da banda de cá todos sejam homens amulatados, magros, enxutos, e de pequena estatura; e o país estéril e seco. Este rio, segundo dizem homens sábios, é um ramo do Gion, que nasce no Paraíso Terrestre, o qual foi chamado pelos antigos Níger, e vem banhando toda a Etiópia, e caminhando pelo Poente par ao Mar Oceano, onde desagua, e faz outros ramos e rios além do Senegal: o outro ramo do Gion é o Nilo, o qual passa pelo Egipto, e desemboca no nosso mar Mediterrâneo; e esta é a opinião daqueles que têm viajado à roda do mundo.”
(continua)
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Notas do editor:
Vd. post de 15 de agosto de 2025 > Guiné 61/74 - P27122: Notas de leitura (1829): Para melhor entender o início da presença portuguesa na Senegâmbia (século XV) – 7 (Mário Beja Santos)