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terça-feira, 28 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27962: Casos: a verdade sobre... (73): Kalasnikovomania - Parte VIII: Fui uma vez (e única) para o mato com uma AK 47 (que sabia manejar). Tinha um bornal para os quatro carregadores, o que era incómodo e desequilibrava o andar... O capitão, "periquito", que foi comigo, também levava uma, mas nem sequer conhecia a arma (Paulo Santiago, cmdt, Pel Caç Nat 53, Saltinho, 1970/72)


Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Sector L5 (Galomaro) > Subsetor do Saltinho > Março de 1972 >  Nas proximidades da foz do rio Cantoro > O Paulo Santiago, e junto dele duas espingradas automáticas AK 47, e numa delas o respetivo bornal (que levava 4 carregadores)

1. Texto publicado na página do Facebook da Tabanca Grande,  (sábado, 25 de abril de 2026, 00;46) pelo Paulo Santiago, ex-alf mil at inf, cmdt Pel Caç Nat 53 (Saltinho, 1970/72), autor da série "Memórias de um comandante de pelotão de caçadores nativos"(*). Tem mais de 210 referências no nosso blogue, para o qual entrou em junho de 2006.


Mais uma história em que entra a AK 47... 

por Paulo Santiago

Naquele dia, fins de março de 1072, facilitei, podia ter sido pior.


1- O capitão, comandante da CCAÇ 3490, que conhecera dias atrás, convenceu-me a ir numa operação com o objectivo de ir armadilhar um local chamado de CeloCelo.

2- Tinha o meu grupo, o meu pelotão disperso, parte em Galomaro,o restante no Saltinho. Por este facto,mostrei reticências em acompanhar os dois pelotões daquela Companhia, e também pelo mau conhecimento dos homens.

3- Em resposta ao choradinho do capitão, "que eu já conhecia a zona",  e também por ele ser miliciano, levou-me a aceitar o "convite".

4- Iria com cinco soldados do meu pelotão, Pel Caç Nat 53.

5- Quando da saída, aparece-me o capitão com duas AK 47, uma para ele e a outra para mim. (Existiam oito AK 47 e dois RPG 2 para serem utilizadas por soldados do Pel Caç Nat 53 quando saíssem com o Grupo  do Marcelino da Mata, e por mais ninguém).

Acabei por levar a arma, sabia trabalhar com ela.

6- Fizemos um alto para comer, por volta das 12.00 horas, junto da foz do rio Cantoro.

Houve militares que se puseram em tronco nu. Um dos meus soldados veio avisar-me da presença de um ninho de abelhas nas proximidades e seria melhor o  afastamento para outro local. O capitão não atendeu ao alerta.

7- Houve o ataque dos insetos, uma enorme confusão, nós os seis retirámos com calma, mas alguns dos que estavam em tronco nu ficaram cravados. Seis evacuados por helis.

8- Acabou a operação. Regressei ao quartel, com os meus cinco soldados,  por um trilho que vinha por Cansamange, não fomos esperar as viaturas ao Quirafo.

9- Nunca mais andei de AK 47. Havia uma bornal para os quatro carregadores, o que era incómodo e desequilibrava o andar.

10- Soube posteriormente que o capitão nunca disparara uma kalash. (**)

(Revisão / fixação de texto, título, links: LG)

________________

Notas do editor LG:


(**) Último poste da série > 23 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27941: Casos: a verdade sobre... (72): Kalashnikovomania - Parte VII: até o ajudante de campo do gen Bettencourt Rodrigues, um tenente 'cmd', se rendeu aos encantos da AK-47 (segundo o fotógrafo António Murta) ou da SA Vz58 (na opinião do nosso especialista em armamento, Luís Dias)

terça-feira, 31 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27874: Casos: a verdade sobre... (65): o acidente com canhão s/r 82, B-10, russo, que vitimou o 2º srgt António Duarte Parente, do Pel Caç Nat 53, no Saltinho, em 13 de maio de 1970





Guiné > Região de Bafatá > Sector L5 (Galomaro) > Saltinho > Destacamento de Contabane (reordenamento junto ao quartel do Saltinho, mais tarde, Sinchã Sambel, em homenagem ao régulo de Contabane > Pel Caç Nat 53 (1970/72) > O Paulo Santiago com o canhão sem recuo 82 B-10, russo, que esteve na origem do acidente, no Saltinho, que provocaria a morte do 2.º srgt Parente (apanhado pelo "cone de fogo" do canhão s/r disparado inadvertidamente por alguém)... A tragédia deu-se no dia 13/05/70, quando já se encontrava naquele quartel a CCAÇ 2701, que rendeu a a CCAÇ 2406, "Os Tigres do Saltinho" (1968/70).


Foto (e legenda): © Paulo Santiago (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)


1. O 2.º srgt António Duarte Parente não pertencia a nenhuma daquelas companhias, aq CCAÇ 2406 e a CCAÇ 2701, era um dos graduados do Pel Caç Nat 53, comandado naquela data pelo alf mil António Mota que o Paulo Santiago foi substituir em outubro de 1970. 

O canhão s/r, apreendido ao PAIGC, foi mais tarde transferido do Saltinho para o reordenamento de Contabane (hoje, Sinchã Sambel).  Mas antes disso, nos primeiros dias de novembro de 1970 foi um heli ao Saltinho buscar, por ordem do Com-Chefe, o canhão s/r 82, B10, para equipar as NT no decurso da Op Mar Verde (invasão anfíbia de Conacri, 22 de novembro de 1970). Voltaram a entregá-lo em dezembro. 

Gravemente ferido, em resultado desse acidente, o Parente foi evacuado para o HM 241,m Bissau, e a seguir para o Hospital Militar da Estrela. Morreu um nmês depois. Está sepultado na Covilhá,

2. Comentários:

(i) Jorge Narciso (*) (**)

(...) António: não tem este o fim de comentar o teu poste (eu até nem fui nem vim de barco, pois era da FAP), antes e verificando que terás estado no Saltinho por 69/70, procurar uma eventual ajuda tua para precisar na memória um facto lamentável, que muito me marcou e do qual não fiquei com registo preciso.

Eu fui mecânico da linha da frente dos helicópteros (exactamente entre  abril de 1969 e dezembro de 1970) e muitas vezes fui ao Saltinho (cruzámo-nos concerteza), nomeadamente na época das chuvas, para proceder a abastecimento de víveres.

Aliás, ali "festejei" os meus 20 anos, facto que, denunciado pelo piloto, "nos obrigou" a só dali sair depois dum copo (penso que de espumoso).

Com essas diversas viagens estabeleceram-se alguns laços de amizade, nomeadamente com um sargento (de quem não me recordo o nome) que é, esse sim, o motivo deste comentário.

Sei que numa determinada altura foi substituída a guarnição do Saltinho (fim de comissão ?), mas que o citado sargento, por ser de rendição individual, ali permaneceu com a nova guarnição. [ Substituição da CCAÇ 2406 pela CCAÇ 2701, em maio de 1970].

Um dia (que também não consigo precisar) parti numa evacuação para o Saltinho (que, diga-se, não era habitual) e qual não foi a minha surpresa (e choque) quando verifico que ela se destinava exactamente ao citado sargento.

Explicaram-nos, rapidamente, ter sido ele atingido pela gravilha projectada pelo escape do canhão sem recuo, montado num dos muros do aquartelamento, que tinha sido extemporaneamente disparado por terceiro, num tiro de experiência e demonstração.

Foi, talvez, a evacuação mais penosa das incontáveis que realizei na Guiné. Desde logo pelo seu gravíssimo estado físico (completamente crivado), pelo emocional, com a sua lúcida compreensão desse mesmo estado, finalmente porque era alguém com quem mantinha uma relação, diria de quase amizade, o que exponencia largamente o nossas próprias emoções.

Desembarcado, com as palavras de encorajamento possíveis, procurei num dos dias seguintes visitá-lo, tendo-me sido informado que tinha sido imediatamente evacuado para Lisboa.

Tendo mantido o interesse , soube muito mais tarde que não tinha resistido aos ferimentos, vindo a falecer.

Recordas ou de alguma forma tiveste algum contacto testemunhal com este caso ? (...)

(ii) Paulo Santiago (**)

Jorge: Vou tentar contar o episódio de que falas (*) , que aconteceu já depois da saída, do Saltinho, da CCAÇ 2406, a que pertenceu o António Dias [. O CCAÇ 2406, Os Tigres do Saltinho, 1978/70, pertencia ao BCAÇ 2852, com sede em Bambadinca).

A tragédia, confirmei agora a data com um camarada, deu-se no dia 13/05/70, quando já se encontrava naquele quartel a CCAÇ 2701. O 2º  srgt Parente, o militar de que falas, não pertencia a nenhuma daquelas companhias, era um dos graduados do Pel Caç Nat 53, comandado naquela data pelo Alf Mil António Mota que eu fui substituir em Outubro de 1970.

O trágico acidente resultou de um disparo ocasional do canhão S/R 82, B10, naquele dia instalado no Saltinho, mais tarde foi comigo para o Reordenamento de Contabane.

Ninguém tem uma explicação cabal para o sucedido. Havia ordens expressas para a arma estar sempre com a culatra aberta, e sem granada introduzida, parece que naquele dia havia uma granada introduzida,e a culatra estava fechada.

Como aconteceu? Junto da arma encontravam-se vários militares, cap Clemente, alf mil Julião, srgt Demba, da milícia, 2º srgt  Parente e ainda mais dois ou três militares. A arma para disparar, granada na câmara e culatra fechada, accionava-se o armador, premia-se o gatilho,acontecia o disparo. Diziam que alguém tocara com o joelho no armador e dera-se o disparo...

O 2º srgt  Parente estava logo atrás do canhão S/R, foi parar a vários metros de distância, e tu, Jorge Narciso, sabes como ele ía. Ficaram também feridos o cap Clemente, queimaduras numa mão e virilha, e o Demba, queimaduras numa perna. Foram também evacuados para o HM 241.

Como dizes,o Parente morreu passado um mês. Já como comandante do Pel Caç Nat 53,recebi uma carta da viúva, pedindo-me ajuda na resolução de um qualquer problema que agora não recordo.

Foi um dia trágico no Saltinho.Isto é, muito dramático, o Parente tinha recebido naquele dia um telegrama, via rádio, informando-o que fora pai de uma miúda...e andara na tabanca a comprar uns frangos para fazer um jantar comemorativo do nascimento...

O alf mil Fernando Mota, da CCAÇ 2701, recebeu uma carta com a notícia que o irmão fora morto com um tiro da Gurda Fiscal. O srgt  Demba da milícia foi morrer no Quirafo em 17 de abril de 1972 .. Será que o Parente ainda viu a filha antes de morrer?

Apesar de não o ter conhecido, é-me penoso falar desta tragédia. (...)
 
(iii) Paulo Santiago (***)

(...) Quanto às munições para o canhão s/r, havia uma quantidade razoável. O Julião, alf mil, CCAC 2701 (Saltinho, 1970/72), num patrulhamento,deu com um pequeno paiol com granadas para o 82B10.Na foto vêem-se algumas embalagens com granadas.


(iv) Luís Graça (***):

Recordo-me bem do Duarte Parente, do tempo de Baambadinca..  Era um dos poucos sargentos, do exército, que era operacional... na região de Bafatá. Tirando os sargentos das forças especiais (páras, fuzos, e talvez comandos), os sargentos do Exército ficavam na secretaria, ou outras funções de apoio... Não se exagera dizendo que a guerra era para os graduados milicianos e as praças do contingente geral... Os do QP, oficiais e sargentos, em geral, protegiam-se melhor...

Eu pensva que o Duarte Parente fosse alentejano, afinal era beirão. Era um gajo com piada, com quem se criava facilmente empatia. Infelizmente, deixou viúva e filha órfão, coisa que eu não sabia... Um das das "bocas" dele que ouvi no nosso bar, em Bambadinca, nunca mais a esquecerei:

- Quando eu vou na rua, só paro em dois lugares: numa taberna ou bar ou numa livraria...

Seguiu depois para o Saltinho onde conheceu o caminho do calvário que o levou à morte, um mês depois já em Lisboa, no HMP. (****)

Não temos, também, infelizmente, nenhuma foto dele. (*****)


(Seleção, revisão / fixação de texto, título: LG)
___________________


Notas do editor LG:





(*****) Últrimo poste da série > 30 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27871: Casos: a verdade sobre... (64): uma mina anticarro, reforçada, que acionámos em Nhabijões, em 13/1/1971, a que altura poderia lançar a nossa GMC ? (António Fernando Marques / Luís Graça)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27753: Memórias de um comandante de pelotão de caçadores nativos (Paulo Santiago) (19): uma ida traumática a Bissau, a morte horrorosa do fur mil Asdrubal Fernandes, vítima de acidente com uma granada de RPG-2; era natural de Esposende


Granada de RPG-2, no museu de Kiev, Ucrânia  (Fonte: Wikipedia)


Ficha do fur mil arm pes inf Asdrubal Fernandes, vítima de um horroso acidente com uma granada de RPG-2. Faleceu em 5/7/1972, no HM 241, em Bissau. Era natural de Esposende, conterrâneo do Mário Miguéis.

Fonte: Estado-Maior do Exército; Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974). Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África; 8.º Volume; Mortos em Campanha; Tomo II; Guiné; Livro 2; 1.ª Edição; Lisboa (2001), pág. 127 (Com a devida vénia...).


1.
 Mensagem  do Paulo Santiago  (ex-alf mil, cmdt Pel Caç Nat 53, Saltinho 1970/72), residente em Aguada de Cima, Águeda, autor da série "
Memórias de um comandante de pelotão de caçadores nativos" (*):


Data - 20 de fevereiro de 2027, 01:07
Assunto - Uma ida traumática a Bissau


Memórias de um comandante de pelotão de caçadores nativos (Paulo Santigo) (19): uma ida traumática a Bissau, a morte horrorosa  do fur mil Asdrubal Fernandes, vítima  de acidente com uma granada  de RPG-2


Paulo Santiago: um histórico
da Tabanca Grande; tem 205
 referências no blogue
Uma manhã em meados de jun de 1972, um soldado  foi chamar-me ao reordenamento de Contabane, hoje chamado de Sinchã Sambel, para vir ao quartel falar com o capitão [mil inf, Dário Lourenço, cmdt, CCAÇ 3490 (Saltinho, 1972/74), do BCAÇ 3872 (Galomaro, 1972/74), conhecida pela alcunha do capitão-proveta, ou "Proveta"]

Desde Maio que me transferira (voluntariamente) para o reordenamento... Sentia-me melhor afastado do Lourenço. Comigo estava o fur mil Mário Rui e uma secção.

No quartel, a quinhentos metros do 
reordenamento, fui ter com o capitão.

−  Santiago, tem de ir a Cansonco levar o chefe de tabanca. Leva um dos pelotões da companhia . (O meu, o  Pel Caç Nat 53, estava dividido, metade estava em Galomaro.)

Em março, poucos dias após regressar de Bambadinca (**),  o Lourenço pede-me insistentemente para ir com ele numa operação ao Celo-Celo para armadilhar um trilho, ordem do comandante do Batalhão. 

Acabei por aceder e fui com cinco Soldados do 53. Correu mal, uma operação que demoraria dois dias, acabou ao fim de uma manhã. Por teimosia e basófia do Lourenço, apanharam com um ataque de abelhas, e teve de vir um heli para evacuar militares em mau estado.

Contei este episódio há anos aqui no Blogue (***).

Com este antecedente disse que não ía a Cansonco com militares que conhecia mal.

− Não vai, vou participar!

Quase a terminar a comissão, o Proveta estava preparado para me tramar.

Falei com o médico, estava na CArt do Xitole, para me mandar a uma consulta de Psiquiatria a Bissau. Sem problemas, arranjou-me a consulta.

Ainda no tempo da CCaç 2701, do cap Clemente, o Marcelino da Mata esteve no Saltinho a treinar oito soldados do meu pelotão (Pel Caç Nat 53) que ficavam à ordem dele (Gr Op Especiais). Conheci o Marcelino na altura.

Soubera, após a trágica emboscada do Quirafo [em 17 de abril de 1972]

e também da morte de um agente, de umas "bocas" ditas pelo Lourenço. Tinha de falar com o cap pqdt António Ramos.

Munido da consulta de psiquiatria, apanhei a avioneta da sexta-feira no Xitole para Bissau.

Em 3 de julho de 1972 almocei com o Marcelino, falei-lhe no que constava sobre a morte do agente e que gostaria de falar com o cap Ramos. Concordou. Após o almoço seguimos para a Amura.

A seguir ao portão de entrada estava um grupo de militares da PM a lavar um jipe todo ensanguentado. Disseram ao Marcelino que o fur mil  Asdrubal estava a instruir um soldado sobre o funcionamento de um RPG 2, a arma disparara, atingindo o Asdrubal.

Já não fui falar com o cap Ramos. Fui com o Marcelino para o Hospital. Mal transposta a entrada, uma cena lastimável, horrível... deitado numa maca, via-se de um dos lados do tronco a cabeça cónica da granada, e  do outro lado uma parte das empenagens. Nalgumas janelas tiravam fotografias.

 −  Marcelino, tira-me isto.

As dores deviam ser um horror mas o Asdrubal estava conciente, falava.

O director do Hospital não autorizava a entrada da maca com receio de
um explosão da granada. O Marcelino disse-lhe que, se a granada não
rebentara com o embate no tronco, já não explodia, nem devia ter a
espoleta.

Não demoveu o médico, resolveu ir à Amura buscar um granada.

Fiquei ali junto da maca sem saber o que dizer.

Entretanto chega um heli com um ferido. Aproximei-me... Devo ter ficado branco, pálido, sem fala... na maca vinha o meu soldado balanta Putchane Obna, de alcunha "Bagaço". Vinha consciente, apanhara um tiro no braço esquerdo. 

O Proveta mandara sair os oito sobre os quais não tinha qualquer autoridade... o gajo não tinha emenda.

Chegou o Marcelino com uma granada de RPG 2. Frente ao director do Hospital desaperta a cabeça, tira a espoleta, aperta a cabeça, bate-a contra o chão, e assim lá conseguiu autorização para a entrada da maca com o furriel Asdrubal.

No dia seguinte fui então falar com o cap pqdt António Ramos, a quem o Marcelino já contara as tristes cenas do Lourenço. Este recebeu passadas poucas horas uma mensagem demolidora escrita à minha frente.

O Asdrubal, clinicamente, estava morto mas continuava a falar, morreu no dia cinco [de julho de 1972].

Não houve participação, não fui à consulta.

Por vezes, lembro-me da emboscada, a pequena distância do quartel, onde o "Bagaço" foi ferido.

Como foi possível a guerrilha estar ali? Alguém falou?

Paulo Santiago

(Revisão / fixação de texto, parênteses retos, links, título: LG)
_______________

Notas do editor LG:

(*) Último  poste da série > 21 de novembro de 2008 > Guiné 63/74 - P3495: Memórias de um comandante de pelotão de caçadores nativos (Paulo Santiago) (18): Vem nos manuais de sobrevivência, está lá tudo..

(**) Vd. poste de 9 de Setembro de 2008 > Guiné 63/74 - P3189: Memórias de um comandante de pelotão de caçadores nativos (Paulo Santiago) (17): Instrutor de milícias em Bambadinca (Out 1971).

(***) Vd. poste de 25 de julho de 2006 > Guiné 63/74 - P986: A tragédia do Quirafo (Parte II): a ida premonitória à foz do Rio Cantoro (Paulo Santiago)

Vd. também poste de 23 de Julho de 2006 > Guiné 63/74 - P980: A tragédia do Quirafo (Parte I): o capitão-proveta Lourenço (Paulo Santiago)

quarta-feira, 24 de setembro de 2025

Guiné 61/74 - P27249: As nossas geografias emocionais (58): A Pousada do Saltinho ou "Clube de Caça", com ar de abandono, em maio de 2025 (João Melo, ex-1º cabo op cripto, CCAV 8351, "Os Tigres do Cumbijã", Cumbijã, 1972/74)



Foto nº 1 > Guiné-Bissau > Região de Bafatá > Saltinho > Antiga Pousada do Saltinho > Maio de 2025 > Quando por lá passou, há  4 meses, o João Reis deparou-se com este espetáculo deprimente... Ele era cliente desta unidade hoteleira desde que começou a ir à Guiné-Bissau, a partir de março de 2017. Encerrou, não se sabe porquê...



Foto nº  2> Guiné-Bissau > Região de Bafatá > Saltinho > Maio de 2025 > : Rápidos do Saltinho, uma das sete maravilhas do país.


Foto nº 3 >Guiné -Bissau >  Região de Bafatá > Saltinho > 25 de março de 2017  > Pousada do Saltinho... Diz o Paulo Santigao que .este edifício, quando quartel, "albergava arrecadação de material de guerra ,enfermaria e gabinete médico, bar e messe de oficiais e sargentos,secretaria,gabinete do comandante"

(...) "Saltinho seria dos poucos locais da Guiné onde o terreno era rochoso,impossível existirem valas naquele quartel.Assim,foram construídos abrigos em betão que funcionavam como casernas.Os oficiais e sargentos dormiam num abrigo que ficava junto da porta de armas. Os abrigos não estavam enterrados,tinham "seteiras" voltadas para o exterior. Havia dois grupos de combate em destacamentos um em Cansonco e outro em Sinchã Mamadu Buco.

"Quando em Março de 72,regressei ao Saltinho,  ido de Bambadinca, encotrei um notável melhoramento...O comandante proveta, da CCAÇ 3490, tinha inaugurado uma messe/ bar para oficiais, apenas três... Exilei-me na outra margem do rio no reordenamento, hoje chamado de Sinchâ Sambel"  (..:)


Foto nº 4 >Guiné -Bissau >  Região de Bafatá > Saltinho > 25 de março de 2017  > Pousada do Saltinho, antigo bar e messe de oficiais.


Foto nº 5 > Guiné -Bissau >  Região de Bafatá > Saltinho > 28 de março de 2019  > Pousada do Saltinho, antigo bar e messe de oficiais > Nas paredes inscrições de clientes, como o nosso camarada Silvério Lobo, de Matosinhos, que lá ficava todos os anos, até à pandemia... O João Melo, na foto, também lá deixou a sua assinatur, em 28/3/2019.


Foto nº 6 > Guiné -Bissau >  Região de Bafatá > Saltinho > 25 de março de 2017  > Pousada do Saltinho > "Boutique do Hotel" (inscrição na parede)


Foto nº 7  > Guiné -Bissau >  Região de Bafatá > Saltinho > 25 de março de 2019  > Pousadfa do Saktinho > Viosta sobre o início da Ponte e o rio Corubal


Foto nº 8 > Guiné -Bissau >  Região de Bafatá > Saltinho > 26 de março de 2017  > Rápidos de Cusselinta


Foto nº 9 > Guiné -Bissau >  Região de Bafatá > Saltinho > 25 de março de 2017  > Pousada do Saltinho > Emblema  da CCAÇ 2701 (1970/72)...


Fotos  nº 10 e 11  > Guiné -Bissau >  Região de Bafatá > Saltinho > 25 de março de 2017  > Pousada do Saltinho > Emblemas  da CCAÇ 2406 (19689/70) e CCAÇ 3490 (1971/74)


Foto  nº 12  > Guiné -Bissau >  Região de Bafatá > Saltinho > 25 de março de 2017  > Pousada do Saltinho > Monumento aos mortos da  CCAÇ 2406, "Os Tigres do Saltinho" (1968/70) e do Pel Çacç Nat 53 (1966/74)


Foto nº 13  > Guiné -Bissau >  Região de Bafatá > Saltinho > 25 de março de 2017  > Pousada do Saltinho > Monumento aos mortos:

  • CCAÇ 2406 / BCAÇ  2852 (1968/70): fur mil at inf Manuel F. S. Paulino  | sold at inf António B. Ferreira | sold  at inf Camilo R. Paiva | sold at inf Nelson M. João | sold António Teixeira | sold at inf Fernando P. Sequeira | sold at ifn Fernando S. Azevedo | sold at inf  Amílcar A. Domimgues;
  • Pel Caç Nat 53 (1972/74):  1º cabo  Fernando A. Alves C (?)

Fotos (e legendas): © João de Melo (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Na sua última viagem à Guinau-Bissau, em maio deste ano, a caminho do Cumbijã, o João Melo passou pelo Saltinho e deixou, na página do seu Facebbok (quinta feira, 31 de juhio de 2025, 12:56) uma emotiva recordação da Pousada do Saltinho, que ele encontrou fechada e com ar de abandono (*). 

Este unidade hoteleira era local de paragem  obrigatória para quem visitava a Guiné-Bissau e ia a caminho do Sul, região de Tombali (Quebo, etc.) mas também de Quínara (Buba, etc.). Eu próprio estive lá em 1/3/2008, a caminho de Guileje, no âmbito do programa social do Simpósio Internacionald e Guileje (Bissau, 1-7 de março de 2008) (**) 


Recorde-se que o João Melo (ou João Reis de Melo) foi 1º cabo op cripto, CCAV 8351, "Os Tigres do Cumbijã" (Cumbijã, 1972/74).  É profissional de seguros, vive em Alquerubim, Albergaria-a-Velha. Integra a Tabanca Grande desde 2009.

 
"Retalhos de uma passagem pela Guiné-Bissau" > Saltinho

por João Melo


Saltinho é, para quem foi militar e cumpriu o Serviço Militar Obrigatório na Guiné, um local onde existia um aquartelamento de militares portugueses que, além de patrulharem toda aquela área envolvente, faziam segurança à ponte General Craveiro Lopes (inaugurada no dia 8 de maio de 1955, pelo próprio, que era entáo preasidente da República),  e que une as margens do Rio Corubal entre as regiões de Bafatá, a norte, Quínara, a Oeste, e Tombali, a sul.

Saltinho, ou melhor os rápidos de Saltinho e Cusselinta, proporcionam uma paisagem de uma beleza invulgar e que são,  na verdade, várias piscinas naturais que se formam naturalmente no rio Corubal, com rápidos de rio que fazem minicascatas e zonas rochosas que formam piscinas naturais com uma temperatura muito convidativa e das quais já tive o privilégio de usufruir.

A zona onde fica a praia de Cusselinta, para além das piscinas naturais, tem uma belíssima praia de areia branca e muita tranquilidade que convida a que nos aventuremos num banho nessas águas,  caso se seja um nadador razoavelmente bom e sempre com companhia por perto.

Saltinho fica na Região de Bafatá e dista 175 Km da capital, Bissau. Mas o Saltinho, para todos aqueles antigos militares e amantes de caça que após a independência de 1974 para lá iam ou por lá passavam em visita aos locais onde estiveram em campanha, Saltinho era muito mais que isso! 

As antigas instalações militares que, entretanto, foram cuidadosamente mantidas e recuperadas para que servissem de apoio como “Pousada” aos caçadores que muito a solicitavam,  proporcionava também uma agradável paragem para uma boa refeição e descanso para posteriormente se seguir viagem. 

Fiz isso várias vezes e sempre com muito prazer. Existiu inclusive uma situação caricata – creio que em 2017 – quando seguia em mais uma jornada de “voluntarismo” para as Escolas de Cumbijã e a bordo do jipe do grande amigo Patrício Ribeiro. 

Estávamos sensivelmente a atravessar Matu du Cão, fiz um telefonema para a Pousada de Saltinho a avisar que tencionávamos almoçar lá e que poderiam contar com 6 pessoas. O diálogo, foi sensivelmente este:

– Bom dia! Estamos com intenção de aí ir almoçar. Pode ser?

 
– Está bem. E o que é que pretendem comer?

– O que é que poderá ser?

– Pode ser porco do mato. Serve?

– Certo. Pode ser.

Seguimos viagem já a “salivar”, a pensar nm o “banquete” que nos aguardaria. Como naquela altura as comunicações telefónicas estavam bem piores que hoje, pois eram poucos os locais onde se poderia ter rede telefónica, seguimos viagem e, quando estávamos a chegar a Bambadinca, o telefone toca e era da Pousada do Saltinho:

– Está? É que já tentámos ligar várias vezes, mas não deviam ter rede, e tínhamos que avisar de uma coisa…

– O quê?

–  É que mandámos o caçador para ir caçar um javali e ele não encontrou nenhum, mas abateu uma gazela. Podemos servir bifes de gazela???

– Claro que sim!...

Resumindo, foi uma gargalhada geral porque chegámos à conclusão de que o menu dependia muito mais da ocasião do que o pré-estabelecido!... O que foi ótimo!!! 

À chegada, lá estavam os deliciosos bifes de gazela,  acompanhados por arroz e batata frita. e, como “salada” umas belas travessas de mangos cortados às fatias. 

Para acompanhar,  e mediante a vontade de cada um, foram servidos (passe a publicidade) vinho branco verde Três Marias e umas cervejas Sagres geladinhas…

Mas… voltando à Pousada de Saltinho, quando lá passei em maio último, após várias tentativas de os contactar telefonicamente sem o conseguir, para avisar da nossa chegada, quando lá chegámos foi com muita tristeza que deparámos com as instalações abandonadas e já tomadas pelo mato!... 

Em resumo, aquele “oásis” com que podíamos contar, já foi tomado pela natureza e, com isso, nos privou de um apoio com que já contávamos.

Seria muito bom que aparecesse alguém com iniciativa hoteleira que pudesse reabrir aquele ícone do tirsmo da Guiné-Bissau que tanta falta nos faz…

Ficamos a aguardar por melhores dias… Seguem algumas fotos do “hoje” e do “ontem”…

(Revisão / fixação de texto, título: LG)


2. A Pousada do Saltinho - Caça e Pesca (também conhecida em 2008 como "Clube de Caça") pertence/pertencia a (ou é/era explorada por) uma empresa portuguesa, com sede em Loures, ACP - Artigos de Caça e Pesca Lda. O seu "site" já não está disponível (fomos recuperálo attarvésw do Arquivo.pt)


Não sabemos a história desta unidade hoteleira, que ocupou e recuperou as antigas instalações militares do Saltinho, e por onde passaram subunidades como a CCAÇ 2406, o Pel Caç Nat 53 (do nosso Paulo Salganho), a CCAÇ 2701, a CCAÇ 3490... 

Contactámos, hoje de manhã,  a empresa ACP - Artigos de Caça e Pesca, Lda. A resposta que nos foi  dada é que a gerência quer reabrir a Pousada do Saltinho lá para fevereiro de 2026...A pessoa com quem falei, confirmou que as instalações estar com um ar de abandono, ams o sequipamentios (ar condicionado, etc.) estão operacionais... Oxalá que sim.

No antigo "site", podia ler-se que "em 1997 a empresa foi constituída, dando seguimento ao que muitos já conheciam por Espingardaria de Loures, Loja de Comércio de Artigos de Caça, fundada por Fernando Caetano em 1981."







Pelo vi na sua página, a Pousada está aberta no tempo seco (entre 1 de fevereiro e 30 de junho). Reproduz-se abaixo o texto promocional (a título meramente informatrivo):


Entre 1 de Fevereiro e 30 de Junho venha caçar connosco!


A POUSADA DO SALTINHO, unidade Hoteleira situada a sul de Guiné Bissau a 50m do Rio Curbal (sic), onde se pode desfrutar de um ambiente calmo e paradisíaco, com Quedas de Água onde se pratica o Jakusi (sic) natural e se desfruta de uma paisagem deslumbrante com todos os atributos que caracterizam o Continente Africano.

Este complexo foi criado para que todas as expectativas dos nossos visitantes sejam correspondidas e o tempo passado na Pousada provoque o desejo de regressar.

Nesta Pousada contamos com habitações equipadas de casa de banho e ar condicionado, restaurante (com refeições típicas do País e típicas da cozinha portuguesa), Bar e esplanada com serviço de Bar.

Actividdes (Passeios e caçadas)

Passeio Fotográfico

Passeio fotográfico onde se poderá ver várias espécies de animais como os flamingos, piriquitos e muitas outras espécies em estado selvagem, sempre acompanhado de um fundo paisagístico fascinante. A cultura e o conhecimento de cada visitante é engradecido ao contactar com os Nativos e conhecer diferentes Etnias e formas de vida muito próprias.Pesca

Para os amantes da pesca, propomos jornadas de pesca tanto no Rio Curbal, como no Rio Grande de Buba e a mais fascinante oportunidade de pescar no Mar dos Bijagos onde se pode pescar entre outras espécies:
  • Lírios
  • Garopas
  • Barracudas
  • Espadartes
  • Pargos

Os transportes são assegurados em veículos todo-o-terreno e todos os grupos são livres de expôr as suas ideias relativamente à vontade de conhecer ou recordar, sendo devidamente acompanhados nas suas visitas.

Caça menor:

Propomo-nos a efectuar jornadas de caça memoráveis.
  • Rolas (diferentes tipos)
  • Chocas "Perdizes"
  • Pombos verdes

Caça Maior:

Caça maior de perseguição com guia qualificado que tem como principais presas:
  • Gazelas
  • Hienas
  • Fococheros
  • Porcos Espinhos
  • Cabras de Mato
  • Lebres
(Não há indicação de preços)

____________________

Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 16 de agosto de 2025> Guiné 61/74 - P27123: As nossas geografias emocionais (57): EUA, Flórida, Key West: passei à porta do José Belo, meu camarada (António Graça de Abreu, Cascais)

quarta-feira, 2 de julho de 2025

Guiné 61/74 - P26977: O segredo de... (50): uma recordação que ainda hoje me persegue: fiquei com fama de ter agredido um 1º cabo, "branco" da CCAÇ 2701 (e para mais meu conterrâneo de Águeda) para defender a honra de uma "preta" (mulher de um soldado meu, do Pel Caç Nat 53, Saltinho, 1970/72) (Paulo Santiago)


Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Sector L1 (Bambadinca) > Saltinho >O crachá da CCAÇ 2701, "Os 3 SSS" (Saltinho, 1970/72)., comandada pelo cap inf Carlos T. Clemente.  Cortesia de Paulo Santiago.



1. Mensagem do Paulo Santiago, ex-alf mil inf,  cmdt Pel Caç Nat 53 (Saltinho, 1971/73) (é um histórico da nossa Tabanca Grande, tem já cercad 2 centenas de referências desde 22/6/2006).


Data - quarta, 2 de julho de 2025, 18:22

Assunto - Recordação que me incomoda de tempos a tempos


Luis,

Estes últimos textos sobre os "filhos do vento" vieram acordar uma mágoa com 54 anos.

Foi em julho de 1971, viria de férias em agosto,encontrava-me no bar após o jantar quando o meu soldado Mamadú Baldé entra transtornado.

- Alferes, o nosso cabo Manuel C... tentou abusar da minha mulher, agrediu-a.

Fiquei de cabeça perdida, ficaria sempre aqui com a agravante de o Manuel C... ser meu conterrâneo, da mesma freguesia.

Procurei o abusador e, quando o encontrei, dei-lhe uma carga de pancada.

Escapou-se para o abrigo onde foi buscar a G3. Teve azar,entretanto vieram outros elementos do Pel Caç Nat 53, detiraram-lhe a arma e levou mais uns murros.

O Manuel C... desapareceu nessa noite em direcção desconhecida. Apareceu passados três dias.

O Cap inf Carlos T. Clemente, cmdt da CCAÇ 2701 (Saltinho, 1970/72), mandou formar a companhia e disse ao cabo Manuel C... para dizer onde tinha andado e qual fora a intenção ao fugir.

Fugira com intenção de ir para a República da Guiné mas tivera receio de cair nalguma armadilha ou mina, e não se tinha afastado muito do quartel e do rio Corubal. Comera umas folhas e bebera água do rio.

Este cabo, da CCAÇ 2701,  tinha a especialidade de atirador mas não saía para o mato,estava na arrecadação de material de guerra com um 2º sargento.

Quando chegou ao fim da explicação dos três dias de ausência,diz o Clemente:

- O alferes Santiago vai decidir qual a punição a dar-te.

Fiquei lixado. Eu, conterrâneo do abusador, que também estava para vir de férias, é que ia decidir a punição.

Claro que o Manuel C... ficou sem o castigo merecido.

Apesar da ausência de punição, fiquei, à data, com a fama de ter agredido um conterrâneo para defender uma preta.

Acrescento: o tipo está num país da América do Sul, e os familiares "rezam" para que ele não venha a Portugal porque da única vez que veio, houve graves problemas.

O Manuel C... devia ter levado uma "porrada", não levou, e ainda hoje, quando me lembro, fico incomodado.

Paulo Santiago

PS - Luís, fica ao teu critério, publicar ou não.


2. Comentário do editor LG:



Paulo, obrigado pela confiança que depositas no blogue, na pessoa do seu editor, e teu velho amigo e camarada. Decidi partilhar o teu "segredo", por uma mão cheia de razões:

(i) não éramos meninos de coro;

(ii) este caso e o seu desfecho são exemplares e merecem ser conhecidos;

(iii) que fique claro: houve casos de violação (ou de tentativa de violação) de mulheres da população civil (e também de prisioneiras) no TO da Guiné; muitos ou poucos, não sabemos, não há estatísticas; houve casos, como em todas as guerras;

(iv) na guerra não vale tudo, e o exército português tinha princípios e valores;

(iv) este caso envolveu um graduado (1º cabo) d CCAÇ 2701, " branco" (e por sinal teu conterrâneo) e a mulher de um teu soldado, do recrutamento local, do Pel Caç Nat 53;

(v) houve violência (física), não chegou a haver violação; o que não atenua a gravidade do comportamento do teu subordinado;

(vi) tu eras comandante operacional de um subunidade, adida ao CCAÇ 2701 (Saltinho, 1970/72);

(vii) com estrito respeito pela hierarquia, o cap inf Carlos T. Clemente (hoje cor ref), não quis fazer o "by pass", isto é, quebrar a unidade comando-controlo;

(viii) não podias deixar de agir, sob pena de perderes a autoridade e o respeito dos teus homens;

(ix) e agiste à boa maneira da malta de cavalaria e dos paraquedistas: uns bons murros valiam mais, naquele contexto, do que uma "porrada" averbada na caderneta militar (não faço juízos de valor nem discuto se, face ao RDM, tinhas outras alternativas);

(x) podia ter ficado cara a tua atitude lúcida e corajosa: o cabo "abusador" foi buscar a G3 com intenções malévolas (talvez de "vingança"); foi felizmente desarmado e, em desespero de causa, decidiu desertar; cobardolas e arrependido, voltou para o quartel ao 3º dia;

(xi) a lição que tu lhe deste, não sabemos se ficou para a vida; mas 1º cabo Manuel C... deveria ter-te ficado agradecido por não quereres vê-lo embrulhado numa folha de papel selado; se o caso chegasse ao com-chefe, o gen Spínola, o teu homem nem saberia de que terra era;

(xii) o caso foi público e notório (agressão a um elemento civil, insucordinação e tentativa de deserção), mas mesmo assim omiste o seu apelido, como de resto mandam as nossas regras editoriais;

(xiii) espero que ele, algures, na América Latina, ainda te possa ler, e mostrar, memso que tardiamente, arrependimento e gratidão (neste caso, pelo teu sentido de justiça);

(xiv) e, por fim e não menos importante, deves sentir orgulho, mesmo ao fim destes 54 anos (!), de não teres cedido à tentação do "nacional-porreirismo" e teres sabido defender a honra de uma mulher (para mais, mulher de um soldado teu), de acordo com o nosso código de ética como militares;

(xv) mais do que "oficial e cavalheiro", soubeste respeitar a tua consciência e honrar a tua farda!

...De qualquer modo, Paulo, e como já aqui temos dito, nesta série "O segredo de...",  há vítimas nem lugar para a vitimização, não há heróis nem vilóes... Em contrapartida, também não consentimos que camaradas insultem outros camaradas, seja a que pretexto for (e, muito menos, na sequência da revelação de um "segredo", seja qual for o seu conteúdo).  

Uns e outros teremos de ser razoáveis e tolerantes, dois exercícios (o da razoabilidade e o da tolerância) que nem sempre não fáceis... Esta série funciona como um verdadeiro... "confessionário". E ir ao "confessionário" é, antes de mais, "desabafar" sem receio de ser criticado (e muito menos  crucificado na praça pública). Vir aqui dar a cara e contar um "segredo" também é um ato de coragem.

terça-feira, 25 de junho de 2024

Guiné 61/74 - P25681: 20º aniversário do nosso blogue (16): Alguns dos melhores postes de sempre (XI): na noite de 22 de junho de 1968, há 56 anos, Contabane transformou-se no inferno - Parte I: a versão de Manuel Traquina (ex-fur mil mec auto, CCAÇ 2382, Buba, 1968/70)




Guiné > Região de Tombali > Contabane > CCAÇ 2382 (1968/70) > Malta da CCAÇ 2382 instalada nma monumental bagabaga (candidato ao concurso O Melhor Bagabaga da Guiné...), nas proximidades de Contabane, uma tabanca e destacamento destruídos na sequência do ataque, de três horas, levado a cabo pelo PAIGC em 22 de junho de 1968.

Contabane foi então abandonado pelas NT e pela população. Mais tarde será feito um reordenamento, mesmo frente ao Saltinho. Por lá passou o nosso camarada Paulo Santiago, quando foi comandante Pel Caç Nat 53 (1970/72). A povoação hoje chama-se Sinchã Sambel.

Foto (e legenda): © Manuel Traquina (2008). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar): Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]





Guião da CCAÇ 2382 (Buba, 1968/70), "Por picadas nunca estradas, por estradas nunca picadas"... Um trocadilho bem achado..., ó Zé do Olho Vivo!




1. O Manuel Batista Traquina,
  "ribatejano, escritor e fadista", com vivências ang0lanas, ex-fur mil mec auto, da CCAÇ 2382, Buba, 1968/70) vive em Abrantes, onde nasceu em 1945.  [foto de 2008 à equerda].   

Podia ter sido apanhado à unha. Ou até ter sido morto. Teve sorte: esteve lá nesse pavoroso ataque a Contabane, em 22 de junho de 1968, e relatou-nos o essencial do que viu e viveu, no seu livro "Os Tempos de Guerra: de Abrantes à Guiné"   (Abrantes, editora Palha de Abrantes, 2009. ISBN 978-972-98796-6-1,228 pp.). A CECA (Comissão para o Estudo das Companhas de África) não faz qualquer referência a este ataque, que reduziu a cinzas Contabane que era até então um importante tampão fula (eixo Contabane - Aldeia Formosa), contra a fúria do PAIGC na região do Forreá.

Beja Santos
e Hermínio Marques

Este episódio de guerra foi recentemente evocado aqui pelo Beja Santos que, no passado dia 17, foi abordado pelo Hermínio Marques, antigo sold cond da CCAÇ 2382, o qual lhe contou como perdeu tod0s os seus haveres há 56 anos, em Contabane.

Ambos estava de passagem pela ilha de Santa Maria. O Hermínio Marques, que vive na América, casado com uma açoriana, reconheceu, no Hotel, o Beja Santos, sendo visita assídua do nosso blogue! (*).


Vamos convidar o Hermínio, que já nos escreveu, a juntar-se a esta tertúlia que é a Tabanca Grande, e onde já cá estão alguns bravos da CCAÇ 2382, a companhia do Zé do Olho Vivo, como o Manuel Traquina, o Carlos Nery, o José Manuel Cancela, o Alberto Ferreira, 
o padeiro, também conhecido por "Geada").



O Ataque a Contabane (**)

por Manuel Traquina

Era o dia 22 de Junho daquele ano de 1968, a Companhia estava na Guiné havia pouco mais de um mês e, ao ser deslocada para a região de Aldeia Formosa, (Quebo) dois pelotões fixaram-se em Mampatá, os restantes bem como o Comando foram deslocados para a aldeia de Contabane. 

Ali parecia respirar-se a paz, a população era numerosa e bastante acolhedora, e como habitual faziam-se alguns patrulhamentos na região, que ficava a poucos quilómetros da fronteira com a Guiné-Conákri.

Naquela aldeia os militares acomodavam-se nas próprias moranças cedidas pelo chefe da Tabanca. À volta da aldeia tinham sido abertos no terreno algumas valas e abrigos, além de duas fiadas de arame farpado. 

Tudo parecia correr dentro da normalidade, naquela tarde eu próprio com mais quatro militares saímos no Unimog a buscar água do poço que se localizava a curta distância.

Porém, já próximo do anoitecer, um dos elementos nativos que connosco efetuavam um patrulhamento, pisou um engenho explosivo, que lhe deixou um pé seriamente afectado. 

Este foi o primeiro sinal de que toda aquela paz não era real, o grupo recolheu à aldeia/aquartelamento, era a hora de jantar e na improvisada enfermaria o furriel enfermeiro Chambel com grande dificuldade, tentava encontrar uma veia onde pudesse administrar algum soro ao militar milícia, que com um pé decepado tinha perdido muito sangue.

Entretanto o sargento João Boiça, apercebendo-se da situação, corria de uma ponta à outra da aldeia, não parava de alertar todos para que de imediato se deslocassem para os abrigos, talvez ao tomar esta medida tenha evitado algumas mortes.

Tinha anoitecido e, de repente,  algumas explosões deram inicio a um ataque que se ia prolongar por cerca de três horas, as balas incendiarias atravessavam a palha que servia de cobertura à morança onde o ferido começava a receber o soro. Disse ao Chambel e ao Coelho que tínhamos que sair daqui imediatamente com o ferido, porém ele, já mais endurecido pela guerra, reunindo as suas débeis forças arrastou-se até á porta e, no escuro,  sem que nos apercebesse-mos desapareceu rastejando, só na manhã seguinte o voltámos a ver, quando da chegada do helicóptero que o evacuou bem como a outros feridos.

Foram cerca de três horas de bombardeamentos em que a aldeia reduzida a cinzas mais parecia um inferno. No final foi uma forte trovoada que, transformou a cinza em lama, onde quase não havia onde nos abrigar. 

Não tenho dúvidas de que nós,  os militares,  que naquela tarde fomos à água, pasámos muito perto do local onde o inimigo preparava o ataque e só não fomos feitos prisioneiros porque o objetivo era o ataque. 

Apesar do grande aparato e grande potencial de fogo, sofremos apenas três feridos,  dois dos quais de maior gravidade. Porém, quase todo o património da companhia ali ficou reduzido a cinza, os rádios, os géneros alimentícios, o equipamento de enfermagem, tudo ali ficou carbonizado, grande parte dos militares ficaram apenas com a roupa que tinham vestida. 

Na manhã seguinte um helicóptero evacuou os feridos, alguns militares apressaram-se a escrever um ou outro aerograma meio queimado e enlameado que foi entregue ao piloto do helicóptero, era a parte psicológica a funcionar, pretendiam partilhar aquele momento de desânimo com alguém do coração.

Contabane foi totalmente evacuada de população e militares, saímos dali moralmente destroçados, alguns apenas de calções, sapatilhas e a sua G3, mas vivos para suportar muitos outros ataques e emboscadas durante os vinte e dois meses que se seguiram. 

Já no termo da comissão viemos encontrar na cidade de Bissau o milícia que, ao pisar a armadilha,  foi amputado de um pé, e que naquela cidade tentava sobrevier como engraxador de sapatos.

Neste agora passado dia 22 de junho de 2008, ao completarem-se quarenta anos sobre este ataque, quero homenagear os dois camaradas mortos,  não neste ataque, mas noutros que se seguiram, furriel Ramiro de Sousa Duarte e o soldado Elidio Fidalgo Rodrigues, pertencentes a esta Companhia.

 Quero também saudar todos os militares da CCAÇ 2382, estou convencido que todos os que viveram este acontecimento o recordam e jamais esquecerão aquelas horas difíceis ali vividas. (***)

Manuel Batista Traquina
Ex-Fur Mil, CCAÇ 2382 (Buba, 1968/70)


Guiné > Região de Tombali > Carta de Contabane (1959 > Escala 1/50 mil > Posição relativa de Contabane, a sul de Saltinho e do rio Corubal, a caminho da fronteira... A nordeste, Quirafo, também de trágica memória para as NT (abril de 1972).

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2024)


________________

Notas do editor:

(*) Vd. poste de  22 de junho de 2024 > Guiné 61/74 - P25674: (De) Caras (209): Hermínio Marques, ex-Soldado Condutor da CCAÇ 2382: "Vou contar-lhe como perdi as minhas coisas em Contabane" (Mário Beja Santos)



Vd.poste anterior: 4 de maio de 2024 > Guiné 61/74 - P25476: 20.º aniversário do nosso blogue (14): Alguns dos melhores postes de sempre (X): O fatídico dia 12 de outubro de 1970: a emboscada de Infandre, Zona Oeste, Setor 04 (Mansoa) (Afonso Sousa, ex-fur mil trms, CART 2412, 1968/70)