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terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27697: Humor de caserna (238): Ai, minha mãezinha, que me cortaram a p*cha! (Alberto Branquinho, "Cambança", 2009. pp. 26-29)



Capa do livro de contos de Alberto Branquinho, "Cambança: Guiné. morte e vida em maré baixa", 2ª ed.. Lisboa: setecaminhos, 2009, 99 pp. (ISBN: 978-989-602-164-1)



1. Mais uma história de "cambança(s)"(*)  do nosso camarada Alberto Branquinho (ex-alf mil art,  CART 1689 / BART 1913, Fá, Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69; advogado, escritor, duriense de Foz Coa, a viver em Lisboa, depois de ter passado por Coimbra como estudante).

"Cambança", para ele, é mais do que  "passagem para o outro lado" do rio. É uma metáfora: "por vezes uma fuga ou uma mudança. Pode ser uma partida ou um regresso. Quase sempre com a vida em maré baixa" (pág. 6).

Qualquer semelhança com a realidade da Guiné é pura coincidência, avisa o autor. Mas quem não conheceu o cabo Tomé ? E que nunca apanhou uma "cardina" ?


Ai, minha mãezinha, que me cortaram a p*cha! 

por Alberto Branquinho



− Eh,  pá! Deu a “maluca” ao Tomé. Ele vem aí.

− Qual “maluca”… Ele está é com uma “cardina” que nem se endireita.

O cabo Tomé aproximava-se daquele espaço chamado “bar”, feito de tábuas e de chapas de zinco. Vinha em tronco nu, debaixo de uma chuva contínua e miudinha, que há um mês caía sem parar. Trazia um guarda-chuva aberto, quase sem pano, na mão esquerda e uma garrafa de cerveja na mão direita. Tinha as divisas de cabo penduradas das orelhas. E berrava:

−  Cá o filho da Marianinha é o maior. Não há pai p'ra ele.

Repetia e repetia o discurso. E cantava:

O cabo festejava, assim, os vinte e três anos.

Não entrou no bar e atravessava a parada, em chinelos, calções e tronco nu, pisando água e lama. Sentia-se grande, agigantado pelo álcool, com a água a correr por ele abaixo. Sentia a cabeça do tamanho do rebentamento de uma granada de obus, a ferver, a ferver e a pôr-lhe à frente dos olhos pataniscas de bichas-de-rabear.

Era um entardecer cor de chumbo, com pequenas pinceladas de amarelo-rosa no horizonte, por cima da cobertura de zinco da caserna.

−  "Ó rosa, ó linda rosa, ó rosa"… Anda uma mãe a criar um filho… p’ra… p’ra…

Tropeçou e caiu de joelhos na lama, apoiado no cotovelo direito. Tentou levantar-se, mas o pé direito fugiu-lhe muito lá para trás. Até pareceu que o pé lhe ia fugir do corpo. Agarrou o pé com a mão direita e fugiu a garrafa. Puxou o pé, puxou, puxou, perdeu o equilíbrio, caiu sobre o lado direito e, depois, ficou deitado de costas. Ouviram-se gargalhadas do pessoal que, em volta e debaixo dos telheiros, observava a cena.

O Tomé atirou o guarda-chuva. Tentou abrir a braguilha, não conseguiu e rebolou sobre si mesmo, rindo, rindo. Cheio de lama, voltou a tentar abrir a braguilha, mas não conseguia.

 
−  Quero mijar. Eh, pá, abram-me aqui isto, qu’eu quero mijar.

Dois ou três tentaram levantá-lo.

 
−  Eh,  pá, eu só quero mijar.

Com a ajuda conseguiu levantar-se. Os que o ajudaram,  correram para debaixo dos telheiros. Conseguiu abrir a braguilha e, com a mão direita, procurava, procurava dentro dos calções, em dificuldades de equilíbrio.

 
−  Perdi a picha. Perdi a picha.

Ajoelhou-se e desatou a chorar:

 
−  Perdi a picha. Perdi a picha. Ai, minha mãezinha…

Levantou-se, escorregou na lama e caiu de novo.

 
−  Sou um desgraçado! O filho da Marianinha… Mãe, mãe, cortaram-me a gaita!

Chorava, chorava. As lágrimas corriam pela cara, misturadas com chuva e ranho. Tossia, tossia, engasgou-se e desatou a vomitar. Acudiram-lhe de novo.

Vomitava aos arrancos e estremecia-lhe todo o corpo. Levaram-no, amparado pelos sovacos.

Colocaram-no debaixo da água do “chuveiro” que corria dos bidões, ao lado da caserna. Deitaram-no na cama, ainda molhado. Chorava,  abraçado aos mais próximos, entre risos de uns e críticas de outros.

 
−  Este gajo é sempre a mesma merda.

−  Sou uma merda. É, sou uma merda… Mas não vou mais p’ró mato. Nã é, Zé? A gente nã vai mais p’ró mato, nã é,  Zé?

O Zé abanou a cabeça, concordando. O Tomé agarrou-o pelo pescoço, puxou e deu-lhe um beijo na cara.

−  A gente nã vai mais p’ró mato. Que vá o capitão, que leve o comandante e os oficiais todos. Que se fodam. P’ra que é a guerra? P’ra ganhar a taça? Que se foda a taça. Andamos aos tiros p’rás árvores. Os cabrões dos turras pintam-se de verde. Nã é,  Zé? A gente nem os vê. Deixa vir o alferes:  “Ó Tomé, tu hoje levas a bazuca.” ... “Leve-a você”!

−  Vá pá, tem calma. Vou-te buscar uma Pérrier.

−  Água?! Arranja-me uma cerveja.

 
−  Não. Tu já bebeste muito.

−  Apetece-me apanhar chuva.

 −  Não, tens que dormir. Faz-te bem.

−  Dormir? Ah.  Zé, a gente nã vai mais p’ró mato. Que se fodam. Um gajo quase na “peluda” e ir p’rá Metrópole num sobretudo de pau.

Teve um vómito e sujou a almofada.

−  Deixa lá. Está na hora do jantar. Queres que te traga alguma coisa?

−  Nã. Não.

Ficava mais calmo. Adormecia. O outro foi jantar.

No telheiro grande, coberto de zinco, que servia de refeitório, amontoavam-se para o jantar, apupando o cozinheiro.

−  Ide-vos foder! 'Ó tempo que não há frescos…

No meio do barulho das conversas ouviram-se, lá longe, para norte o som das “saídas” de granadas de morteiro pesado e de canhão.

Num instante era uma barafunda. Corriam aos magotes em várias direções, para as armas pesadas, para os abrigos, em busca das G-3 e cartucheiras.  As primeiras granadas começaram a assobiar por cima das cabeças, seguidas dos rebentamentos e dos ruídos que parecem loiça a partir-se.

Gritos, ordens, cheiro intenso, excitante a explosivos, pó, fumo, mais rebentamentos, gritos e mais gritos. Duas ou três granadas caíram dentro do quartel, voaram coberturas de zinco em placas retorcidas, pedaços de tijolo e cimento, vidros partidos. Um barracão começou a arder.

Dois grupos saíram a correr, pelas portas norte e leste, para cortarem caminhos de acesso. Parecia que o pandemónio nunca mais parava.

Começou a diminuir o fogo. Só pequenas rajadas de arma ligeira e vozes que interpelavam ou berravam ordens. Vultos apagavam o fogo com baldes de água. A serenidade voltou aos poucos. Havia movimentações para o posto de socorros. Alguns comeram como puderam o que, frio, ficara a aguardar nos pratos. Outros não saíram tão depressa dos postos ou dos abrigos.

Quando os primeiros voltaram à caserna, viram o cabo Tomé mesmo à entrada, nu, deitado de costas, de olhos espantados, como que olhando o teto de zinco, retorcido, enquanto um fio de sangue lhe escorria do lado esquerdo da boca, passava pelo pescoço e fazia uma poça de sangue debaixo da cabeça.

(Revisão / fixação de texto, links, título: CV / LG)


2. Comentário do editor LG:


Com a devia vénia, ao meu amigo e camarada Alberto Branquinho, bem como ao Carlos Vinhal,  achei que  "Ai, minha mãezinha, que me cortaram a p*cha!" é um título mais forte:  daqueles que não deixam ninguém indiferente: tem a força do calão, a dor do Tomé e a ironia trágica que só a guerra sabe criar.

"Humor de caserna" ?, perguntarãoo alguns dos nossos leitores, eventialmente chocados Sim, é um dos melhores contos da guerra colonial, que eu já li, uma narrativa  portentosa de  humor trágico: mistura o grotesco, a desolação e a ironia amarga da guerra da Guiné, que eu, o Alberto e muitos de nós conhecemos. 

A "cardina" do cabo Tomé, no dia em que fazia 23 anos, é, entre o patético e o cómico, um espelho da desumanização e do absurdo que a guerra  nos impunha, a nós, seus protagonistas. 

O final, abrupto e brutal, em três linhas e meia, é um murro no estômago: reforça a tragédia por trás do riso até então forçado. 

Não, não é só para a gente passar o tempo. É também para a gente pensar. E nos ajudar a indignarmo-nos quando vemos a nossa bandeira e o nosso fato camuflado serem usados indevidamente, na praça pública, em ambientes comicieiros, por quem não tem nada a ver com este filme e, no fundo,só pensa no seu umbigo (o mesmo é dizer, no seu ego de todo o tamanho).

3. Zé Teixeira,  Mário Fitas e Luís Graça comentaram em devido tempo:

(...) Porra! Se eu não tivesse o azar de ter passado pela Guiné, diria este tipo está a "mangar" comigo.

Depois de começar a ler, revi-me no cabo Tomé, até ao ponto da reviravolta, quando eles, os nossos "amigos" entraram na festa e fiquei arrepiado.

Veio-me à memória o Conceição Caixeiro: era de Lisboa, não bebia em demasia, era pacato e pachorrento, mas passava o tempo a cantar e a cantar morreu... Sabes aonde ? Na cagadeira, simplesmente porque estava a cagar, cantando como sempre e não ouviu a saída da granada que o vinha matar, nem o grito de vários colegas - Aí estão eles!

Ficou-se, com a nuca desfeita de encontro à parede da rectaguarda e só meia hora depois, quando à porta da enfermaria eu gritava de contente "Filhos da puta ! Cabrões ! Não há feridos", aparece  o Pedro, que faleceu há dias, e me disse: "Teixeira, vem comigo" e eu fui, para ficarmos os dois agarrados um ao outro a chorar, de desespero.

Ainda bem que escreveste. quanto me ajudaste ! (...) 


(...)  São momentos destes, que fazem esta Tabanca muito Grande. São estes os momentos em que nos tresmalhamos, nos escorregadios carreiros e nas neblinas cobrindo as bolhanhas.

Regredi! 21h00 a Companhia estava formada, o Meco (da Nazaré) segredou-me: "O  furriel  G... acabou de foder a prisioneira maneta."

A Companhia saíu. Madruga dia seguinte 05h00: o furriel  G... , o único a usar capacete, ficou com a cabeça em duas e o capacete com dois furos.

Maldita mata de Cabolol! Estavam à nossa espera!

Escreve!... Escreve, Alberto Branquinho,  mostra aos incrédulos o que foi chafurdar na lama, no álcool e na morte.

Sempre do tamanho do Cumbijã, o velho abraço.

Mário Fitas

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009 às 23:44:00 WET 


(...) São estes momentos, Alberto, Zé, Mário, que nenhuma televisão do mundo (muito menos a nossa RTP) conseguiu filmar... É um quadro portentoso sobre as nossas misérias e grandezas. 

Obrigado, Alberto, pelo teu talento, delicadeza, ternura e compaixão com que falas, não de ti, mas de todos nós, camaradas da Guiné. E viva a nossa Tabanca Grande, que nunca será nem poderá ser política, social e literariamente correcta... Nem nunca precisará de pôr um bolinha vermelha ao canto superior direito... Que o nosso quotidiano também era feito de merda, umbigos, cus, caralhos, tomates, nervos, fel, coração, massa encefálica, medos e coragens, alegria e tristeza, vida e morte... E acima de tudo, camaradagem, o cimento que nos unia, para lá de todas as nossas diferenças, reais e imaginárias... Luís


terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27632: Humor de caserna (233): "Fermero fica quieto, abelha, não faz mal ! Não mexee, não respira, nem que lhe passe um car*lho pela boca" (José Teixeira)


Guiné-Bissau > Região de Tombali >  Ponte Balana > Novembro de 2000 > Um tuga, um homem de calças na mão...na Ponte Balana, antigo destacamento de Gandembel, ao tempo da CCAÇ 2317 (Abril de 1968/janeiro de 1969). O motivo foi um ataque formidável de... formigas carnívoiras! ... Na foto, o Zé Teixeira. Ainbda hoje tem mais medo das formigas do que das abelhas...

Foto (e legenda)  © Albano Costa (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Ó Zé Teixeira é um dos camaradas mais afáveis, brincalhões, prestáveis e  populares da Tabanca Grande. Também dos mais leais, ativos e produtivos. Tem mais de 450 referências.

 E tem-nos acompanhado ao longo destes mais de 20 anos de existência na blogosfera.  Tive a sorte de o conhecer em finais de 2005, na Madalena, Vila Nova de Gaia, onde costumo passar o Natal. 

Acaba de aceitar o meu convite para se juntar à nossa equipa de colaboradores permanentes. Ele é um histórico, um dos cofundadores da Tabanca de Matosinhos.

 Com ele, o nosso corpo de editores e colaboradores permanentes fica mais equilibrado e, sobretudo, rejuvenescido. Aprecio nele a juventude de espírito e a resiliência de escuteiro, tabanqueiro e africanista. 

Vai ser o nosso "ministro" (do latim, "minus", menos, o mais o pequeno, o servidor...) com a tutela  dos "interiores" (Tabanca Grande e demais tabancas, Matosinhos, Linha, Centro, Algarve, Melros, Maia, Diáspora Lusófona, Emiratos, etc.). 

Para os  "exteriores" ("negócios estrangeiros", ligação à cooperação e lusofonia), estamos a pensar  no régulo da Tabanca da Diáspora Lusófona, o João Crisóstomo, que vive em Nova Iorque; vamos convidá-lo formalmente amanhã, na festa da Magnífica Tabanca da Linha: tem poderosas ligações ao Céu e à Terra...

Zé: vem isto a propósito de mais uma das das tuas histórias, pícaras e brejeiras, que passam agora a figurar na série  "Humor de caserna" (*) (e que é repescada do poste P629, de 21 de março de 2006, tem 20 anos).


Recorde-se que o 
José Teixeira 

(i) é régulo da Tabanca de Matosinhos;

(ii) ex-1.º cabo aux enfermeiro, CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá e Empada, 1968/70; 

(iii) é um histórico da Tabanca Grande, que integrou a partir de 14/12/2005; 

(iv) tem c. quatro centenas e meia de referências no blogue; 

(v) vive em São Mamede de Infesta, Matosinhos; 

(vi) é gerente bancário reformado; 

(viii) escritor, poeta, contista, além de escuteiro;

(ix) é autor de séries notáveis como "Estórias do Zé Teixeira", "O Meu Diário", "Crónicas de uma viagem à Guiné", 

(ix) e, por fim e não menos importante, é um homem que tem provas dadas  em projetos dev ajuda e cooperação com a Guiné-Bissau (que ele conhece e ama, como poucos).


"Fermero,  fica quieto, abelha não faz mal ! Não mexe, não respira, nem que te passe um car*lho pela boca"

por Zé Teixeira

A primeira vez que caímos num ataque de abelhas foi o caos.

A coluna com trinta viaturas carregadas e três obuses de 14 mm, protegida pela CCAÇ 2381 e pelos pelotões da Companhia do Capitão Rei, estacionada em Aldeia Formosa que nos tinha vindo buscar a Buba, ficou na sua maior parte à mercê do IN, perto de Sinchã Cherno.

Só que este, o IN, não tinha na sua agenda atacar naquele local, mas mais à frente. Atacou só no dia seguinte depois de nos fazer um morto numa A/C [mina anticarro] comandada que rebentou só na quinta viatura, a do rádio.

Também eu, aqui, fui um homem de sorte. O milícia que ia a meu lado, ao ver as abelhas aos milhões, agarrou-me por um braço e metemo-nos atrás de um arbusto:

- Fermero fica quieto, abelha, não faz mal ! Não mexe, não respira, nem que te passe um car*lho... pela boca.

Assim quieto senti-as à minha volta. Pude ver os meus colegas todos a fugir, a sacudir, a coçar e a desaparecer. Ficaram apenas as viaturas e os obuses, na picada. 

Passados alguns minutos, foram começando a aparecer e tudo voltou ao normal. Eu apenas com duas picadelas, ria-me dos colegas que apareceram a gemer por todos os lados, mas aprendi a lição e preparei-me para um possível segundo ataque que sucedeu meses depois.

Andávamos a montar segurança à engenharia que construía a estrada Buba-Aldeia Formosa. Sentado ao lado do manobrador do caterpílar apreciava como esta máquina derrubava árvores gigantescas, quando de lá de cima cai um grande enxame. Formou-se uma nuvem e toda a gente a gritar,  pernas para que vos quero. Até uma cadelinha, nossa mascote, que nos acompanhava desapareceu, até hoje. Numa fracção de segundos vejo-me só.

Quico atravessado na cabeça, para me proteger do zumbido, braços cruzados, impávido e sereno (a tremer por todos os lados), sentado no caterpílar,  a aguardar o ataque. Imaginem o Zé Teixeira como que vestido com um fato novo. Fiquei coberto de abelhas da cabeça aos pés. Só o zumbido me incomodava.

Passado algum tempo começaram a levantar, pois eu não dava luta e com este gajo é melhor não se meterem. Deixaram-me sem uma beliscadura. Os camaradas foram-se aproximando todos picados. Ficaram mais espantados que eu, por me verem são e salvo de um ataque de abelhas. Pomada para toda a gente. Tive inclusive de injectar anti-histamínicos ao Ferraz para evitar a morte por asfixia devido ao facto de ser alérgico.

Ainda hoje tenho mais medo das formigas, mas essas tem outras histórias já aqui contadas.


(Seleção, revisão / fixação de texto, título:  LG)

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Nota do editor LG:

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27627: Humor de caserna (232): As formigas e as abelhas, nossas amigas... (José Teixeira, ex-1º cabo aux enf, CCAÇ 2381, "Os Maiorais", Buba, Quebo, Mampatá, Empada, 1968/70)


Formiga de correição do género Dorylus, mais frequentes do centro e lestye de Áfrcia,. Há cerca de 200 espécies de formigas carnívoras... Não constroem colónias, são conhecidas por organizarem expedições periódicas de milhares de indivíduos.  Têm um modo de vida em constante movimento.

Fonte: Wikipedia


1. Comentário ao poste P27619 (*), assinado pelo José Teixeira (ex-1º cabo aux enf, CCAÇ 2381, "Os Maiorais" (Buba, Quebo, Mampatá, Empada, 1968/70);  régulo da Tabanca de Matosinhos;  um histórico do nosso blogue, onde tem mais de 450 referências):

Quanto ao humor no tempo da guerra, aí vai mais uma, que se perdeu no interior do Blogue.

Quando estava deslocado em Mampatá, tinha uma tarefa, em partilha com o alferes e furrieis, fazer uma ronda pelos postos de sentinela e ficar a conversar um pouco para ajudar a passar o tempo.

Uma bela noite, cheguei ao primeiro posto e sentei-me ao lado do sentinela. Passados uns dez minutos, ao levantar-me, senti um horror de picadas pelas pernas acima até aos tintins.

Como solução, foi tirar as calças e as cuecas, pendurá-las na ponta do cano da G3 emprestada e continuar a ronda pelos outros três postos.

Quanto às lassas, aprendi com um milícia no primeiro ataque que tive, em me colocar em estátua, sem mexer nem que passasse um car*lho  pela boca! Lembram-se dessa!

Pois bem, nos outros dois ataques de abelhas, aguentei pianinho, de olhos fechados, sem me mexer. O zumbido era ensurdecedor, senti-as pousar, senti o vento que provocavam ao voarem à minha volta, mas saí incólume, a tempo de salvar um camarada, todo picado e alérgico.

Um bom ano.
Zé Teixeira



2. Comentário do editor LG:

Zé, no nosso blogue, nada se perde, e tudo se transforma. A tua história pícara das "formiguinhas, nossas amigas", já a localizei (**). Aliás, volto a reproduzi-la, aqui, trata-se de uma entrada do teu diário (Mampatá, 23 de setembro de 1968).

Por outro lado, registo o vocábulo "lassas", que deve ser crioulo, como sinónimo de abelhas... Cito aqui o nosso Mário Fitas;

(...) "Por informações recolhidas,  a CCAÇ 763 será conhecida no PAIGC com a alcunha de 'Lassas'. Pelo que se veio a saber, 'lassa' será uma espécie de abelha existente na Guiné, a qual, não sendo molestada, não tem problemas, mas se for atacada é terrivelmente perigosa tornando-se fortemente enraivecida.

Esta alcunha resultaria da actuação da CCAÇ 763, pois ao chegar a uma povoação em que a população não fugisse, não haveria problemas, falava-se com a mesma e tentava-se resolver os problemas que houvesse. Em caso contrário, se a população fugisse e abandonasse as suas moranças, estas eram literalmente destruídas.

Pelo que ficou assim com este procedimento, a companhia crismada de 'Lassas'. (...)" (***)

Quanto às nossas amigas formigas, "carnívoras", julgo que se trata das formigas-correição. Temos de melhorar a pesquisa sobre este inseto que, a abelha selvagem, era um dos nossos inimigos mais temidos, talvez até mais do que o próprio inimigo em carne e osso.


3. Excerto de "O Meu diário", de José Teixeira

Mampatá, 23 de Setembro de 1968

Tudo está calmo, há dias que o IN não ataca. Todos estamos convencidos que o próximo objectivo é Mampatá e com o seu novo sistema de ataque nos vai dar que fazer.

Uma das coisas que me agrada fazer, embora perigosa, é a ronda nocturna pelos postos de sentinela. No princípio detestava, mas agora dá-me prazer. Normalmente passo um quarto de hora em cada posto, a conversar baixinho com o camarada que está de sentinela. Assim, ajudo-o a passar o tempo e a manter-se atento. Esta missão nocturna é distribuída pelos Alferes, pelos Furriéis e por mim.

Ontem aconteceu-me uma cena que dá para rir. Como é hábito, avisei com um pequeno assobio (a senha) o primeiro sentinela que me estava a aproximar. Sentei-me ao lado dele no chão e ficamos a conversar. Não notei que me tinha sentado em cima de um carreiro de formiga preta e quando me levantei senti o corpo todo a ser ferrado. 

Que dores horríveis pelo corpo todo!

Tirei a roupa toda, arranquei as formigas como pude, coloquei a roupa na ponta da espingarda e continuei a ronda completamente nu. Estava no primeiro posto, faltavam cinco. Os meus camaradas ao verem-me chegar ao posto com o fato que a minha mãe me deu ao nascer, gozaram em cheio e durante uns dias não se falou noutra coisa.

A formiga preta faz carreiros de quilómetros à procura das suas presas. Na família desta formiga existem várias funções e tamanhos físicos. Assim as batedeiras são grandes e gordas. Normalmente andam fora da fila a procurar as presas e são as mais agressivas. A fila é composta por duas alas laterais e duas alas interiores, sendo as laterais como que soldados, mais fortes que as que vão no interior, as escravas que transportam o alimento para um esconderijo debaixo da terra

Quando as batedeiras localizam a presa, morta ou viva, esta por qualquer razão em estado imobilizado, automaticamente a fila abre-se em duas e começa o envolvimento e a tomada de assalto sem que a vítima dê por nada. Quando esta se mexer sentirá milhares de ferradelas. 

Os cornos das formigas ficam de tal maneira cravados, que muitos ficam agarrados ao corpo, quando a vítima se tenta libertar. Foi isso que me aconteceu. Dizem que gostam muito de atacar os ‘tomates’ e eu que o diga!

Disse-me a Aliu Djaló que a giboia, depois de asfixiar a presa, explora a zona num raio de 20 a 30 metros e se sentir que há formigas, abandona o alimento. Acontece que como fica vários dias a deglutir o animal que caçou, se as formigas forem atraídas pelo sangue da vítima, ou a descobrirem, cobrem-na e no momento em que com o estômago cheio tenta abandonar o local, as formigas atacam e ficam com alimentação para vários dias.

São milhões de formigas. Eu vi uma cobra apanhada pela formiga, melhor, vi uma mancha negra do que fora uma cobra. (...)

(Revisáo / fixação de texto: LG)
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Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 9 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27619: Humor de caserna (231): "Filhos da p*ta, m*rda, car*lho!... Quem me acode?!... Os filhos da p*ta... matam-me!": debaixo de fogo, até um padre diz asneiras: o capelão militar, madeirense, Adelino Apolinário Silva Gouveia, que o saudoso Alcídio Marinho (1940-2021), do Porto, Miragaia, evoca e homenageia aqui

(**) Vd. poste de 11 de janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - P420: O meu diário (José Teixeira, CCAÇ 2381) (6): Mampatá, Setembro-Outubro de 1968

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27534: Prova de vida e votos de boas festas 2025/26 (6): José Teixeira, ex-1.º Cabo Aux Enf da CCAÇ 2381 e António Ramalho, ex-Fur Mil Cav da CCAV 2639

1. Mensagem natalícia do nosso camarada José Teixeira (ex-1.º Cabo Aux Enfermeiro da CCAÇ 2381, (Buba, Quebo, Mampatá e Empada, 1968/70) com data de 15 de Dezembro de 2025:


Caríssimos amigos Luís, Carlos e toda a equipa do Blogue, a que junto todos os camaradas, e seus familiares, que passaram pela Guiné.

O Natal é tempo de relembrar, de comunicar com os amigos, de sentir o calor da sua amizade e de lhes demonstrar através da presença ou gestos, quanto os estimamos.
É tempo de pensar na saúde e bem-estar.
É tempo de olhar para o mundo, e pensar noutro mundo. Um mundo mais justo, sem guerras, sem mortes violentas. Um mundo de paz e amor do qual devemos ser os construtores.

Façamos NATAL todo o ano.


Natal pode ser a paz projetada num abraço,
Num olhar
Que acalma e transmite a esperança
Natal pode ser a força que nos une,
Que nos dá ânimo para lutar
E nos faz-nos acreditar
Que ainda é possível a mudança –

E se pudermos fazer a diferença
Não deixemos o Natal passar.

José Teixeira
Feliz Natal.


********************



2. Mensagem natalícia do nosso camarada António Ramalho (ex-Fur Mil At Cav da CCAV 2639, Binar, Bula e Capunga, 1969/71), com data de 14 de Dezembro de 2025:

Para todos os membros da Tabanca Grande e respectivas famílias, para todos aqueles que lutaram por uma Guiné Melhor, o que tarda em acontecer!

Um forte abraço para todos.
António Ramalho (757)

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Nota do editor

Último post da série de 12 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27524: Prova de vida e votos de boas festas 2025/26 (5): Joaquim Costa, ex-Fur Mil Inf da CCAV 8351/72; Ernestino Caniço, ex-Alf Mil CAV, CMDT do Pel Rec Daimler 2208 e Rogério Freire, ex-Alf Mil Art da CART 1525

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27448: In Memoriam (562): José António Sousa (1949-2025), ex-sold cond auto, CCAV 3404/BCAV 3854 (Cabuca, 1971/73): o funeral é hoje, dia 21, às 16h00, no cemitério da Foz do Douro, Porto


José António Gomes de Sousa (1949 - 2025). 
Tinha 76 anos




Foto de família: o Zé António,a esposa Maria de Fátima e a filha  Alexandra,

Fonte: Página do Facebook > José António Sousa


1. Soubemos, pelo Facebook da Tabanca de Matosinhos, que morreu ontem mais um camarada nosso, o José António Gomes de Sousa (ou José António Sousa). O Zé Teixeira confirmou-nos esta manhã a triste notícia e deixou escrito o seguinte:

(...) A Tabanca de Matosinhos está de luto. O José António Sousa deixou-nos para fazer o caminho eterno.

Ainda ontem esteve no nosso almoço semanal, como era seu hábito há vários anos:
  • um homem calmo,
  •  que transparecia serenidade, 
  • um amigo sempre disponível, 
  • um conversador nato, 
  • um camarada que todos estimamos 
  • e sabemos que ele nos estimava a todos.

Foi apanhado de surpresa pela morte, deixando a família e todos nós em sofrimento profundo.

Zé António, estás no coração de todos os tabanqueiros e estarás presente na nossa memória, quando,  à quarta feira, nos juntarmos para conviver.

À tua esposa, Maria de Fátima, que tantas vezes te acompanhou e nos brindou com a saborosa bola de carne, à tua filha Alexandra, ao teu querido primo Zé Eduardo e a toda a família, os mais profundos sentimentos de pesar da Tabanca de Matosinhos. (...)  (Tabanca Matosinhos 20 de novemrbo de 2025, 20h00).


O corpo está  em câmara ardente desde ontem a partir das 16 horas na Igreja Stellla Maris - Carmelitas, na Rua de Gondarém 274, na Foz do Douro, e o funeral será hoje às 16 horas, indo a sepultar no jazigo de família,  no cemitério da Foz do Douro, Porto.


2. Também a Tabanca Grande se associa a esta manifestação de pesar (*). Daqui enviamos um abraço de solidariedade na dor,  da parte dos editores, colaboradores permanentes e demais membros da nosso blogue à família e aos camaradas da Tabanca de Matosinhos bem como de O Bando do cafeé Progresso que nos últimos anos conviveram mais regularmente com o Zé António Sousa.

O José António Gomes de Sousa, ex-soldado condutor auto, CCAV 3404/ BCAV 3854 (Cabuca, 1971/73) entrou formalmente para a Tabanca Grande em 13/2/2013

Era, cronologicamente, o grão- tabanqueiro nº 602. (**)

Nasceu em 16/6/1949. Despede-se, pois, da Terra da Alegria aos 76 anos. Merecia ter vivido muito mais. 

Era um bom ser humano, amigo e camarada que eu tive o prazer de conhecer na Tabanca de Matosinhos, tal como o Rogério Paupério e outros camaradas do Norte.

O José António Sousa (tem 6 referências no nosso blogue) e o seu camarada Rogério Paupério, ambos membros da Tabanca de Matosinhos e da Tabanca Grande, foram à Guiné-Bissau em 2010 e, na picada do Quirafo (entre o Saltinho, Contabane e Dulombi) depararam-se com os restos calcinados da GMC onde, em 17 de abril de 1972, encontraram a morte, em combate, o alf mil op esp Armandino Silva Ribeiro e mais onze elementos da CAÇ 3490 (Saltinho, 1972/74), incluindo dois milícias e um civil (***). 

O sold at inf António da Silva Batista (1950-2016) por sua vez, foi dado como desaparecido: soube-se depois que fora feito prisioneiro pela força do PAIGC que montou a emboscada, tendo sido apenas libertado em setembro de 1974.


Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Cabuca > Brasão da CCAV 3404 / BCAV 3854 (1971/73) e o menino de Cabuca.

Este batalhão embarcou em 4 de julho de 1971 e regressou à Metrópole em 5 de outubro de 1973. Esteve sediado (comando e CCS) em Lamego (Comandante: ten cor cav António Malta Leuschner Fernandes). 

A CCAV 3404 esteve em Cabuca,  a CCAV 3405 esteve em Mareué e Nova Lamego, e a CCAV 3406 em Madina Mandinga. 

Foto: Cortesia de Os Abutres de Cabuca (2ª CART / BART 6523/73, Cabuca, 1973/74) [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]




O Zé António Sousa, no T/T Niassa, em julho de 1971, a caminho da Guiné


Fonte: Página do Facebook > José António Sousa



3. Sobre a sua  história de vida militar, ele escreveu:

(...) A minha história é igual ou semelhante à de tantos milhares de camaradas que na flor da sua juventude se viram envolvidos na Guerra do Ultramar.

Tudo começou numa manhã de verão, num domingo dia 4 de julho de 1971. Depois de uma viajem noturna de autocarro entre Estremoz e Lisboa, acordei e dei de frente com um navio negro (na altura achei-o feio), na sua proa, o nome: Angra do Heroísmo.

A viagem decorria normalmente quando me apercebi que o navio mudava de rumo para oeste, dirigia-se para o Funchal a fim de ser efetuada a evacuação de um camarada que tinha sofrido uma apendicite.

Desembarcámos em Bissau passados sete dias, no cais esperava-nos um sem-número de camiões civis que nos transportaram para o Cumeré a fim de efetuarmos a habitual IAO.

Durante essa viagem e apesar do desconforto, achei-a maravilhosa, era o meu primeiro contacto com África que há muito sonhava.

A 13 de agosto seguimos na LDG Alfange, Rio Geba acima, rumo ao Xime onde fomos recebidos com pompa e circunstância pela “velhice” local, até câmaras de TV havia; seguimos depois em coluna com passagens por Bambadinca e Bafatá, sempre a praxe a receber-nos. E quando chegámos a Nova Lamego já era noite, famintos, cansados e encharcados, pois durante toda a viagem choveu copiosamente, foi-nos distribuída uma sopa de lentilhas que no momento nos pareceu um manjar. 

Depois do merecido descanso, partimos para o nosso destino: Cabuca. A picada estava em péssimas condições e, com a chuva a cair sem parar,  a viagem foi dolorosa, para percorrer os cerca de 20 quilómetros que separam Nova Lamego e Cabuca demorámos o dia todo.

À chegada, como não podia deixar de ser, a 'velhice'  lá estava para nos receber festivamente, na verdade fomos recebidos com muito respeito pelos nossos camaradas da CCaç 2680 para quem quero aproveitar para enviar um forte abraço.

Caros camaradas, esta é a primeira história que tenho para contar à Tabanca, é uma singela introdução das muitas coisas que aconteceram nos 27 meses que passei na Guiné. (...)

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Guiné 61/74 - P27368: S(C)em Comentários (81): O gen António Spínola e o major cav Carlos Azeredo que eu conheci, em julho de 1968, depois do ataque a Contabane (José Teixeira, ex-1º cabo aux enf, CCAÇ 2381, "Os Maiorais" , Buba, Aldeia Formosa, Mampatá, Empada, 1968/70)


1. Comentário de José Teixeira, ex-1º cabo aux enf, CCAÇ 2381, "Os Maiorais" ( Buba, Quebo, Mampatá, Empada, 1968/70) (*)



Em Julho de 1968, uns dias depois da minha CCAÇ 2381 chegar a Aldeia Formosa, o major cav Carlos Azeredo (comandante do COSAF/COP 1)  apareceu no refeitório à hora do almoço, pediu silêncio e deu a seguinte ordem: 

"Logo, às 17,30 quero toda a gente deitada junto à paliçada, (não havia valas, havia pequenos morros, se não me engano e uma paliçada em cana de bambu num dos lados das casernas). Não quero ver ninguém fora desse local! É uma ordem."

Estava lá a CCAÇ 2381 e a Companhia  dos Lenços Azuis, do Capitão Rei, a CCAÇ 1792 / BCAÇ 1933.

Âs 17.30 começou a ouvir-se, ao longe, as saídas dos morteiros e os rebentamentos, também ao longe.com grandes interregnos e sem resposta de nossa parte, se bem me lembro.

Manteve-se até às duas da madrugada, segundo me disseram. Em pelas 23 horas fui dormir.

No dia seguinte logo de manhã apareceu o Spínola no Hélio. De pingalim e monóculo, pôs- se a ouvir o Carlos Azeredo. Este apontava os locais de saída das canhoadas do lado da fronteira de Conacri e local onde foram rebentando, sem nos afetar, nem á população.

Eu estava por perto, de bata branca, a ouvir a conversa e em dada altura o Spínola disse: 

"Carlos nunca te lembraste de mandar para ali (apontando com o dedo) umas obusadas?"

Na noite seguinte, os obuses 14mm trabalharam bem e na manhã seguinte doeu-me ver o carreirinho de gente (mulheres e crianças) com alguns tarecos à cabeça que se vinham acolher junto de familiares (suponho eu) em a
Aldeia Formosa.

Com isto quero dizer que o Spínola sabia que o Carlos Azeredo estava a mandar cumprimentos aos vizinhos da outra banda.

No dia anterior da parte da manhã, o major Azeredo foi dar um passeio pela Tabanca, como era seu hábito, e comentava-se (pelos velhinhos) que ia visitar (e conversar com ) o Tcherno Rachid.

Um abraço
José Teixeira


________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 28 de outubro de 2025 > Guiné 61/74 - P27360: (Ex)citações (439): Ainda a propósito dos bravos de Contabane... "O maluco do Carlos Azeredo está a bombardear a Guiné-Conacry", dizia, em pânico, o QG... (Carlos Nery, ex-cap mil, CCAÇ 2382, 1968/70)

(**) Últ6imo poste da série > 26 de outubro de 2025 > Guiné 61/74 - P27353: S(C)em Comentários (80): o "Toca-choro" entre os mancanhas de Bula e Có

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Guiné 61/74 - P27319: Os nossos enfermeiros (20): os furriéis milicianos enfermeiros tiravam a especialidade em Lisboa, os 1ºs cabos auxiliares de enfermeiro e os soldados maqueiros, em Coimba (Manuel Amaro / José Teixeira / António Carvalho)


Imagem do sítio oficial da atual ESSM -Escola de Serviço de Saúde Militar (reproduzida com a devida vénia...). 

Trata-se de "um estabelecimento de ensino superior, integrado na rede do ensino superior politécnico", criado em 2 de Agosto de 1979 pelo decreto-lei nº 266/79. A ESSM está colocada na dependência directa do Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas (CEMGFA). 

É herdeira da Escola de Enfermagem da Armada e da Escola do Serviço de Saúde do Exército, entretanto extintas. 

"O ensino nesta escola abrange essencialmente três áreas distintas, dependentes de uma direcção de ensino: a enfermagem, os cursos de tecnologias de saúde e os cursos de saúde militar (...) Os cursos de saúde militar não são conferentes de grau académico e envolvem diversas áreas de formação, nomeadamente socorrismo, emergência médica e patologia de adição (alcoolismo e toxicodependência)."

No passado, nos 60/70, os camaradas furriéis enfermeiros, membros da Tabanca Grande, passaram por aqui, o antigo quartel de Campo de Ourique: o Manuel Amaro, o António Carvalho, o Adriano Moreira, o Manuel Barros Castro, o Manuel Figuinhas, o falecido José Eduardo Oliveira (Jero), etc. , são alguns nomes de grão-tabanqueiros, que me vêm à memória (**)...



1. Um dúvida do nosso editor LG: a formação (instrução de especialidade) dos nossos furriéis enfermeiros, 1ºs cabos auxiliares de enfermeiros, e soldados maqueiros (ou de primeiros socorros) era só feita no RSS (Regimento do Serviço de Saúde, criado em 1965), em  Coimbra, ou também nos hospitais militares de Lisboa, Coimbra e Porto ?

Isto vem a propósito da nota de leitura do livro do Luís da Cruz Ferreira, que foi 1º cabo aux enf, 2ª / BART 6521/72 (Có, 1972/74) e  que fez a especialidade no RSS de Coimba, de janeiro a maio de 1972, e que depois "estagiou" no serviço de cirurgia plástica do HMP, à Estrela, em Lisboa. Já foram produzidos alguns comentários que muito agradecemos (*):


(i) Manuel Amaro, ex-fur mil enf, CCAÇ 2615 / BCAÇ 28922, Nhacra, Aldeia Formosa e Nhala, 1969/71]


Sobre os Cursos dos Enfermeiros militares, eu tive o "azar" de fazer os dois cursos. O de auxiliar no RSS (Regimento do Serviço de Saúde), em Coimbra, no verão de 1967 (onde fui camarada do Zé Teixeira).

 Fiz depois o estágio no Hospital da Estrela, em Lisboa (Serviço de Neurocirurgia).

Andei, entretanto, um ano a "marcar passo" entre Tavira e Évora, em conflito com o exército. Como eu tinha razão, em julho de 1968 iniciei o Curso de Sargento Enfermeiro, em Lisboa, no Hospital da Estrela.

Sobre a matéria dos cursos não tenho documentos mas foi suficiente para o que nos era exigido na Guiné.

Mais, cada Batalhão de Infantaria tinha, ou deveria ter, quatro sargentos enfermeiros (um por companhia), nove cabos auxiliares de enfermeiro (três por companhia operacional), e, creio que quatro maqueiros (na CCS).

(ii) José Teixeira, ex-1º cabo aux enf, CCAÇ 2381, "Os Maiorais" ( Buba, Quebo, Mampatá, Empada, 1968/70)


O RSS. em Coimbra não era assim tão mau, no que respeita à alimentação no tempo em que por lá andei em 1967. 

No que respeita a instrução para enfermeiro, lamentavelmente era assim, ou pior.

Um pelotão com mais de quarenta homens em que 50% vinham do CSM por chumbo forçado dado o excesso do ano anterior em que por necessidade chamaram para o CSM mancebos com o 2º ano. Descontentes e ressabiados, encontraram pela frente um médico que praticamente nunca apareceu no pelotão, um cabo RD enfermeiro, que era bom rapaz e mais nada, dava anatomia do corpo humano a gente que sabia mais que ele. 

Havia gente com o liceu completo, com o curso comercial, com o curso industrial e até professores primários. Um outro cabo RD para a instrução militar, que era amigo e nos deixava sempre à vontade. Os raides eram fantásticos, pois quando nos mandava voltar à esquerda, voltávamos à direita para irmos ver as garotas do liceu; quando nos mandava correr, os da frente corriam mesmo e os detrás faziam que corriam e.  quando ele resmungava, os detrás começavam a correr e os da frente paravam. 

Como as coisas não corriam bem colocaram lá um sargento já velho que tinha vindo de África, mas nada melhorou. Entretanto o cabo RD enfermeiro foi promovido e desapareceu. O sargento vindo da tropa macaca sabia ainda menos: " uma síndrome era um conjunto de sintomas e um sintoma era um conjunto de síndromes", assim se explicava o homem.

O meu Estágio foi no HMP - Porto numa enfermaria de medicina interna, onde havia um 1º sargento que cumpria rigorosamente o seu horário e não incomodava ninguém. Os doentes até nem eram graves. O restante pessoal eram cabos enfermeiros do contingente geral e havia dois cabos milicianos, que aguardavam a convocação para África, que não se incomodaram comigo. Dávamo-nos todos muito bem. 

Sei que aprendi a dar injeções e praticamente mais nada. Acompanhava os médicos na visita aos doentes de medicina, e apenas assisti a uma operação em ortopedia, feita no posto de serviço da enfermaria 8 (ortopedia). Não havia formação específica para estagiários. Andei por lá, cerca de dois meses e fui dado como pronto.

De notar que os cabos enfermeiros com destino aos serviços hospitalares fizeram o mesmo curso que eu, bem como os maqueiros. Os destinados a ser enfermeiros hospitalares, creio que tinham mais um mês de estágio e os maqueiros não os vi em estágio.

A verdadeira aprendizagem foi no terreno.

(iii) António Carvalho (ou "Carvalho de Mampatá"), ex-fur mil enf, CART 6250/72 (Mampatá, 1972/74)
 

No que concerne aos cabos milicianos saídos da recruta, eles tiravam a especialidade unicamente em instalações anexas à Basílica da Estrela em Lisboa, posteriormente estagiavam durante seis meses num dos hospitais das diferentes regiões militares. Isto acontecia nos anos setenta.


2. Comentário do editor LG:

Pegando na História da Unidade do BCAÇ 4612/72 (Mansoa, 1972/74), constata-se que tinha capelão, mas não tinha médico quando chegou ao CTIG em 28/9/72 (o comando e a CCS) (com regresso a 27/9/1974).
  • a CCS evava um furriel enfermeiro,  dois 1ºs cabos aux enf, e dois sold maqueiros;
  • a 1ª C/BCAÇ 4612/71 levava um fur mil enf, dois 1ºs cabos aux enf;
  • a 2ª Companhia  não tinha, originalmente, nem fur enf nem 1ºs cabos aux enf.
  • a 3ª tinha um fur enf, e um 1º cabo aux enf.

Este batalhão vinha, pois,  desfalcado de pessoal sanitário. Pelos complementos e recomplementos, qwue constam da história da unidade, vê-se que o pessoal de saúde teria maior taxa de turnover ou rotação... ou então havia já, na metróp0ole, escassez deste pessoal... 

Um batalhão, a que eu estive adido (de julho de 1969 a maio ou junho de 1970), o BCaç 2852 (Bambadinca, 1968/70), parecia ter o quadro orgânico completo: 

  •  a  CCS tinha 3 médicos (mas eu só conheci um; também não tinha capelão);
  •  dispunha de um fur enf + um 1º cabo aux enf +  2 sold maqueiros (e ainda  um 1º cabo de análise e depósito de águas);
  • das companhias de quadrícula, a CCAÇ 2404, CCAÇ 2405 e CCAÇ 2406, verifico, pela história da unidade, que todas estavam dotadas de um fur enf + três 1ºs cabos aux enf.;
  • os soldados maqueiros só existiam nas CCS.

Quanto ao Regimento do Serviço de Saúde (RSS), sabemos que foi criado em 1965,  com base no antigo Regimento de Infantaria nº 12 (RI 12), e que absorveu as missões dos então extintos 1º e 2º grupos de companhias de saúde. Estava-se em plena guerra do ultramar, e era preciso responder às crescentes necessidades de pessoal sanitário.

Durante o resto da guerra colonial o RSS aprontou e enviou para Angola, Guiné Portuguesa e Moçambique diversas unidades sanitárias, a maioria delas sendo destacamentos de inspeção de alimentos, de inspeção de águas e cirúrgicos. Também formou auxiliares de enfermagem e maqueiros.

O RSS foi extinto em 1975, deixando de existir qualquer unidade mobilizadora do Serviço de Saúde no Exército Português.

(Revisão / fixação de texto: LG)

____________________

(**) Último poste da série > 28 de março de 2024 > Guiné 61/74 - P25314: Os Nossos Enfermeiros (19) : Negócios Imobiliários em Mampatá (António de Carvalho, ex-Fur Mil Enf.º)

domingo, 12 de outubro de 2025

Guiné 61/74 - P27311: Humor de caserna (215): A minha... G3trudes: uma peça em 3 atos e um final feliz (José Teixeira, CCAÇ 2381, ex-1º cabo aux enf, Buba, Aldeia Formosa, Mampatá , Empada, 1968/70)


Guiné > Zona Sul > Região de Quínara > Sector S1 (Tite) > Empada > CCAÇ 2381, Os Maiorais ( Buba, Quebo, Mampatá, Empada, 1968/70) > O 1º  cabo aux enf Zé Teixeira em 1969, com a sua namorada, a G3trudes, com quem irá manter uma conflituosa relação que acabará em divórcio. 

Foto (e legenda): © José Teixeira  (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

 
Humor de caserna > A minha... G3trudes: uma peça em 3 atos e um final feliz

por Zé Teixeira



"O Maioral", Zé Teixeira
(i) Encontro e namoro

Na quinzena de campo, na IAO, que antecedeu a partida para Guiné, deram-me uma companheira, a namorada que, afirmaram, me ia acompanhar durante todo o tempo em que ia estar na guerra. Se houvesse alguma infelicidade, me acompanharia até ao caixão. Era uma G3, a Gertrudes ou a G3trudes.

Disseram-me também para a tratar com carinho. Cuidar dela era cuidar de mim próprio.

Primeiro, trazê-la sempre limpa e asseada, sobretudo o cano, para que a baba, ao tentar sair, furiosa por não conseguir devido a sujidade, não rebentasse o cano. Pois, na pior das hipóteses, as tiras de aço voltavam-se para trás e atingiam o crânio do atirador, mandando-o de volta no sobretudo de madeira.

Segundo, pôr-lhe creme (óleo) nas partes mais sensíveis, para responder rapidamente aos estímulos.

Terceiro, sempre travadinha, para não fazer asneiras.

Quarto, nunca a abandonar, pois, se perdida, dava origem no mínimo, mais meio ano de comissão. O importante era chegar, sempre, ao aquartelamento com a G3trudes.

Durante os primeiros três meses, foi de facto, a minha companheira preferida e inseparável:

  • pendurada no meu ombro, ao lado da bolsa de enfermeiro;
  • deitada a meu lado à sombra de uma árvore protectora do sol e do IN;
  • ou no chão de cimento na caserna em Ingoré.

Antes da partida, prometera a mim mesmo não lhe tocar nas partes sensíveis, porque vomitavam fogo, matavam vidas e isso não fazia parte da minha missão como enfermeiro e muito menos dos meus planos. 

Cantei de alegria, quando soube que as sortes me tinham destinado a ser enfermeiro, convencido que escaparia à guerra pura e dura e que com o meu trabalho iria minimizar dores e, quem sabe, salvar vidas.

Da guerra dura e crua, não escapei, mas cumpri, apesar dos parcos conhecimentos da arte de enfermagem que me proporcionaram, a missão que me destinaram, com dedicação.

(ii) O início do fim de uma relação de amor... impossível

Ao fim de três meses de companhia dedicada, algo de grave se passou que me levou a repudiar a G3trudes para sempre.

Estávamos em plena época das chuvas. Partimos de Buba às seis da matina com destino a Aldeia Formosa,  terra até então desconhecida, onde deveríamos chegar à tarde.

A CCAÇ 1792 veio buscar-nos. Os Lenços Azuis foram, assim, testemunhas no meu batismo de fogo em aquartelamento. Mal chegámos (tínhamos ido ao seu encontro), fomos recebidos com fogo cruzado das duas margens do Rio, mas foi só o susto. Uma amostra do que nos ia esperar no futuro.

Para além de uma enorme coluna de viaturas carregadas com mantimentos, seguiam três obuses de 14 cm. Toneladas de aço a atravessar lamaçais contínuos, pontes montadas e desmontadas por nós e o IN à espreita.

Ao meio da tarde, depois de uma tempestade de... abelhas, quando tínhamos andado apenas uns três quilómetros, uma traiçoeira mina destrói a 5.ª viatura, a das transmissões, levantando uma nuvem de lama. As transmissões terminaram a sua missão.

Ficámos isolados do mundo. Aparentemente, os quatro camaradas que voaram com o sopro, ficaram apenas combalidos, mas um deles, o radiotelegrafista, projectado com o forte impacto, ao cair, ficou ferido interiormente. A morte foi-se aproximando lentamente. A vida dele caminhava para o fim devido à perda de sangue, que não podíamos controlar. Só uma evacuação urgente o salvaria. Tínhamos ficado sem comunicações.

Foram tremendamente dolorosos, para mim e para os enfermeiros das duas companhias, viver estes momentos, horas, de vida, a lutar sem armas, pela vida de um camarada que se apagava. Ele sentia que as forças lhe estavam a escapar. Nós sentíamo-nos impotentes para o salvar. Só o milagre do helicóptero, que não aparecia, porque ninguém sabia, que aquela jovem vida se estava a apagar.

   Já não vejo !    gritava. 

E depois:

  Ajudem-me a levantar   balbuciava ele, mesmo no fim, com a esperança de ainda conseguir recuperar forças e poder gritar bem alto "Safei-me!"... Mas não. Não era possível. O seu destino fora traçado, quando alguém pegou num lápis e riscou o nome dele, assinalando-o para ser mobilizado para a guerra. A guerra que ele não queria...

O sol começou a esconder-se como que envergonhado e o camarada irmão disse adeus à vida, serenamente, sem pressas, em silêncio...

Na azáfama de tratar os feridos, esqueci-me da G3trudes. Foi posta de lado, esquecida, algures. Agora, era preciso procurá-la. Onde ? Tinha-lhe perdido o lugar.

Apareceu uma abandonada junto a uma árvore. Deitei-lhe a mão. Estava safo. E segui caminho.

Uma noite sem sono, com milhares de mosquitos a perseguirem-me e o IN à espreita. Até que o Sol raiou de novo e com ele a ordem de marcha. A partida para o desconhecido. Chão que eu nunca pisara. Lama e mais lama. Mata cerrada. Grandes palmeiras que furaram a selva verdejante à procura do sol, apontavam o céu...

Não demorou muito a aparecer o IN. A coluna era demasiado longa e pesada. Lentamente lá se ia movendo à procura do destino. Deu para emboscarem a frente. Recuaram face à forma como ripostamos e voltaram a atacar a retaguarda.

(iii) Ah! G3trudes de um raio!

Deitado sobre os rodados das viaturas, com o coração a bater como nunca o tinha sentido, escutava o tiroteio que me rodeava, ao ritmo dos rebentamentos das morteiradas que me faziam vibrar violentamente os tímpanos. A G3trudes, a meu lado muito quietinha, quando senti que estava a ser incomodado diretamente. Alguém estava a querer brincar às guerrinhas comigo. As balas assobiavam muito por perto e vinham do alto. Olhei para as palmeiras e vislumbrei fogachos de luz.

A raiva contida, pela morte do camarada, veio ao de cima.

  Ah! G3trudes de um raio! Anda cá!...

Apontar, disparar e... um tremendo coice, um som seco e abafado, seguido de um ruído estranho. À minha frente jazia a G3trudes, com o cano esventrado em tiras. Uma espécie de fole, ou balão.

Fui desarmado para que pudesse cumprir o voto de não matar na guerra para onde me atiraram sem me perguntar.

Deus esteve comigo neste momento. Contrariamente ao que me disseram na instrução de armamento, o cano não abriu em leque, o que a acontecer, muito provavelmente se viria espetar no meu crânio e era a morte certa. O tapa-chamas foi o empecilho que me salvou a vida. 

  Uf! Desta já escapei.

A G3 que no dia anterior tinha encontrado abandonada pertencia ao Salvaterra Bernardes,  natural de Salvaterra de Magos. Um jovem português, deficiente motor e deficiente mental, que assassinos (não encontro nome mais apropriado)´apuraram para todo o serviço militar, fez a recruta e a especialização como atirador e veio cair na CCAÇ 2381, quando já aguardávamos embarque para a Guiné.

A arma na mão deste homem não servia para nada. Não tinha utilidade prática. Limpeza,  para quê? O cano estava cheio de areia. A bala encontrou resistência e provocou o seu rebentamento, mas estava lá o tapa-chamas.

Salvou-me a vida, impedindo o rebentamento em leque e... talvez, assim se tenha salvo a vida do IN que procurava atingir-me.

Restou apenas encolher-me e esperar que a fraca pontaria do adversário desse resultado, o que aconteceu para meu bem.

Não houve feridos de nossa parte. A coluna seguiu caminho.

(iv) O divórcio

A meio da tarde a aviação localizou-nos, o héli veio buscar os feridos do dia anterior e a vida continuou. Chegámos ao destino ao fim da tarde, ou seja vinte e quatro horas depois do previsto. 

Localizei a minha arma na mão do Salvaterra, fiz o relatório que me exigiram para abater a arma destruída e... para não mais ser tentado a fazer fogo e correr o risco de matar vidas humanas, fui entregar a minha arma ao quarteleiro, sob a ameaça do capitão que me daria uma porrada se me apanhasse sem a minha G3trudes.

Fui só e apenas enfermeiro durante o resto da comissão. Afinal era a minha missão.

Zé Teixeira

(Revisão / fixação de texto, título: LG)(**)
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Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 5 de agosto de 2007 > Guiné 63/74 - P2030: Estórias do Zé Teixeira (19): A G3ertrudes encravada que salvou duas vidas (José Teixeira, ex-1.º Cabo Aux Enf)