sábado, 9 de novembro de 2019

Guiné 61/74 - P20328: Meu pai, meu velho, meu camarada (59): "Maria Bárbara, canta mais uma morna... / S’nhôr Tenente, ‘m câ pôdê cantá más... Uma morna imortal, numa homenagem à Morna, em vias de ser oficialmente consagrada como "património cultural imaterial da humanidade"



Com a devida vénia, da página do Facebook do Instituto do Património Cultural da República de Cabo Verde.


1. Lê-se na ONU News, com data de anteontem, dia 7

"A morna de Cabo Verde deu mais um passo no processo de inscrição para o Patrimônio Imaterial da Humanidade da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura, Unesco. Nesta quinta-feira, o Comitê de Avaliação do Patrimônio Cultural aceitou a inscrição do gênero musical, mas a decisão final será ratificada, em dezembro, pela Unesco, durante reunião na Colômbia."

O dia foi de grande júbilo  para todos os cabo-verdianos, dentro e fora da Pátria, e naturalmente para os amigos de Cabo-Verde e da sua música, em geral, e da morna, em particular,

Falando à ONU News, da cidade da Praia, Sandra Mascarenhas, diretora do Instituto do Património Cultural, "explicou o impacto da decisão para o povo em Cabo Verde e nas diásporas cabo-verdianas pelo mundo":

“A inscrição da morna na lista representativa da Unesco representa para os cabo-verdianos o reconhecimento daquela que consideram ser a sua música maior, um reconhecimento identitário por excelência. À semelhança do que aconteceu com o fado, eleva a morna a uma categoria que transcende o próprio país. Para a diáspora, que sempre se vê e se revê na morna, será um reconhecimento daquilo que os identifica como cabo-verdianos. É a autoestima de toda uma nação que é elevada.”

E acrescenta o ONU News: "Tradicionalmente, a morna é tocada com instrumentos acústicos, sobretudo violão, e canta temas como amor à terra, partida para o estrangeiro e saudade".


2. O "meu pai, meu velho, meu camarada", Luís Henriques (1920-2012), estaria hoje feliz, se fosse vivo e estivesse lúcido, com esta notícia... Ele que tanto amava Cabo Verde (onde foi expedicionário, em 1941-43) e que me passou o gosto pelas mornas e pela morabeza cabo-verdiana... 

Cantarolava, em crioulo,  algumas mornas do seu tempo, que acabaram por  me ficar na memória como a célebre "Maria Bárbara, canta mais uma morna",  celebrizada já no meu tempo pelo grande Bana (que eu descobri no pós-25 de Abril, por volta de 1979/80,   no seu restaurante "Monte Cara", na Rua do Sol ao Rato; com outro nome, o sítio já era popular tornou-se popular, em finais de 1976, graças sobretudo à música do grupo Voz de Cabo-Verde, a mítica banda de Luís Morais & Companhia)

Há tempos deu-me curiosidade em saber quem era essa "Maria Barba"e o que dizia a letra da morna... Encontrei o seguinte no Blogue ArrozCaTum > terça-feira, 11 de agosto de 2015 >

 [8362] - A SAGA DE MARIA BARBA...  [Excertos, com a devida vénia...]

(...) O amigo Artur Mendes é senhor de uma curiosidade científica acima da média e essa característica não é raro colocá-lo na senda de autênticas pérolas da História e das Gentes de Cabo Verde... Neste caso, colocou-se em contacto com a Nanie Lima, que se apelida a si própria de "The Creola Genealogist" - e de quem há dias publicámos umas fotos antiquíssimas - no sentido de tentar desvendar o segredo de Maria Barba de quem, afinal, apenas se conhecia o nome da Morna com o mesmo nome e que o Bana popularizou... Pois bem...Nanie Lima não se deu por achada e respondeu à curiosidade do Artur com o trabalho que passamos a reproduzir, depois de traduzido do original, em inglês dos EUA...

Foto: Dias Mulheres da Boa Vista, 1926. Nanie Lima (2015),
 com a devida vénia
"Há algum tempo postei no Face Book uma foto com o título "Retrato de Duas Mulheres", que ilustrava as figuras de duas jovens e que concitou grande curiosidade...(Duas mulheres da Boavista - 1926).

Muita gente me perguntou quem eram elas mas, ao tempo, eu não fazia a mais pálida ideia... Por isso, foquei toda a minha atenção naquilo a que eu chamo "os narizes Lima" e constatei que elas tinham o mesmo nariz da minha avó Joana Fortes Lima Gomes e de outro membro da família, o Padre Manuel Antonio de Brito Lima (...).
Maria Barba, Boavista, s/d.
Foto de Nanie Lima (2015)

A foto das duas mulheres foi reeditada por vários amigos e, por fim, obtive de Joana Lima Ramos, da Boavista, a informação de que se tratava de Maria Bárbara e Nha Luci... À minha insistência para confirmação, garantiu que, na realidade, se tratava de MARIA BARBA, a célebre cantadeira de mornas que, no auge da sua carreira, chegou a cantar na I Exposição Colonial de Lisboa  [, ou melhor do Porto, no Palácio Cristal], em 1934...

A única foto que dela consegui não é de grande qualidade e não faz decerto jus à sua figura,  ela que era ainda muito jovem quando casou, tendo tido o primeiro filho em 1930...A foto é de 1926.

Maria Barba (Bárbara) nasceu na Boavista, em 1910 e ali faleceu, em 1974. Ficou célebre através da morna "Maria Barba" que me habituei a ouvir, vezes sem conta, durante a minha infância... Sinto-me, pois, honrada por poder dar este testemunho de uma mulher da ilha dos meus antepassados Limas! (...)



3. "Maria Barba", cantada por Bana, letra recolhida e fixada pelo autor do blogue "ArrozCaTum, Zito Azevedo


Maria Barba, canta mais uma Morna
Para despedida do Sr. Tenente Serra ) (2 vezes)

S’nhôr Tenente, ‘m câ pôdê cantá más 
‘m ti ta bai nhâ camin pâ Manga
Pâ matança di gafanhôt
Oh, Sr. Tenente, oli cóbe d’plícia e cheo
Djál bem bscóme
Ai, s’um ca bai, el tâ mandam’
Prese pâ Porte, oi, oi,...


Quem é o chefe desta povoação ?
Porque Maria Barba tu não vais ainda (2 vezes)

Nôs cóbe-chef ê Nhô Tôc d’Chuc Canóche
Amim’ ti ta bai nhâ camin pâ Manga
Nhâ mãe ê fráca, nhâ pai ê môrte
Amim’‘m câ tem q’êm raspondê pa mim,oi,oi 
Maria Barba, canta mais uma Morna

Porque eu falarei com o vosso cabo chefe, 
Maria Barba, canta mais uma Morna
Se tu fores presa, responderei por ti.

Saúde, Sr. Tenente, saúde Sr. Inginher
Um muito obrigada de Maria Barba
Oh S’nhôr Ten. Serra ora bocê bai pâ Lisboa
Ai câ bocê squêcê di nôs, oi, oi, ...

Maria Barba não me esquecerei de vocês. 


4. Tradução das partes em crioulo para português, da responsabilidade do editor LG,  a partir de versão francesa (cortesia de "Cape Vert, Mindelo Infos > Musique capverdienne : Maria Barba" )

(...)

- Senhor tenente,
eu não posso cantar mais,,
Tenho de ir ar à Manga
Para caçar gafanhotos.
Oh, senhor tenente, tem ali o cabo chefe
que me vem buscar,
se eu não for, ele vai-me mandar
para a prisão do porto.
(...)

- O nosso cabo chefe chama-se
Nho Toc d'Chuc Canoche,
Vou a caminho da Manga,
A minha mãe está doente, o  meu pai já morreu,
Ai, não tenho ninguém que cuide de mim.

(...)
Saúde, senhor tenente,
Saúde, senhor engenheiro,
Um muito obrigado da Maria Bárbara,
Oh, senhor tenente Serra,
Quando regressar a Lisboa,
Não se esqueça de mim. (...)


5. Nota do editor do blogue ArrozCaTum:
O amigo Adriano [Miranda Lima, membro da nossa Tabanca Grande, colaborador permanente do blogue Praia do Bote}, que teve conhecimento deste trabalho, ainda andou a indagar por informações do "tenente Serra" e chegou à conclusão de que não era oficial do exército...Houve, depois, informação obtida por Rui Machado, de que teria sido um oficial da Armada que terá estado destacado na Boavista em serviços de hidrografia e se terá encantado pelas mornas de Maria Barba-
6. Notas,  em francês,  do sítio  "Cape Vert, Min(delo Infos > Musique capverdienne : Maria Barba" , taduzidas para português pelo nosso editor LG (e que este  não pôde  validar pelo confronto com outras fontes, para além da Nanie Lima)

A jovem Maria Barba [, nascida na Boavista, em 1910,]  tinha dois filhos. [O primeiro nasceu em 1930, tuinha ela 20 anos, segundo Nanie Lima.]

Em junho de 1934, integrou a delegação cabo-verdiana enviada à Exposição Colonial Portuguesa no Porto [, e não em Lisboa, como escreveu, por lapso, a Nanie Lima]...

Mais tarde,  já no início da década de 1940, quando a seca e a fome atingiram o arquipélago [, 1941/43,], ela deixou a ilha de Boa Vista e partiu para o continente africano.

Desembarcou na Gâmbia e estabeleceu-se na Guiné-Bissau onde morreu em 1974. [Nanie Lima diz que ela nasceu e morreu na Boa Vista.]

Por sua vez, a equipa que o tenente Serra acompanhou, percorreu o arquipélago de julho de 1926 a dezembro de 1931 [, no ambito de uma missão geográfica.] 

Em Boa Vista, este militar terá tido duas filhas com D. Vitória Santos Brito. Em Lisboa, ele interpretará esta morna perante vários amigos e terá escrito a Dona Vitoria para apresentar cumprimentos à Maria Barba..

Quanto à praga de gafanhotos, a que se refere a letra da morna... Eram frequentes nessa época, e ainda hoje.  E cada família era obrigada a enviar um dos seus elementos para combatê-los, protegendo as culturas da ilha. Na véspera do encontro com o tenente Serra, a Maria Barba estava escalada para esse efeito, e não tinha quem a pudesse substituir [, tendo o pai morrido e a mãe estando doente: "Nhâ mãe ê fráca, nhâ pai ê môrte". ]

Ao que parece, muitos  anos mais tarde, Bana gravou a morna, modificando a letra  (ou alguém por ele...), ao falar de um "pai malandro" ["Nha mae é fraca e nha pai é malandre"], uma versão que terá chocado a criadora deste tema, que continuou a interpretá-lo sem nunca, todavia,  ter conseguido  obter o reconhecimento (legal) da sua autoria. É considerada um a"morna tradicional".

[Mas estas notas foram  publicadas em 2015, no sítio "Cape Vert, Mindelo Infos > Musique capverdienne : Maria Barba" , baseando-se  nos "trabalhos sucessivos de Noel Fortes, Rui Machado e Otilia Leitão. Fizemos uma adaptação livre das notas.]
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Nota do editor:

Último poste da série > 19 de julho de 2017 > Guiné 61/74 - P17602: Meu pai, meu velho, meu camarada (58): Ilha de São Vicente, Lazareto - Parte I [álbum fotográfico de Luís Henriques (1920-2012), natural da Lourinhã, ex-1º cabo inf, nº 188/41 da 3ª Companhia do 1º Batalhão Expedicionário do Regimento de Infantaria nº 5 [, Caldas da Rainha], que esteve em Cabo Verde, Ilha de São Vicente, entre julho de 1941 e setembro de 1943]

Guiné 61/74 - P20327: Os nossos seres, saberes e lazeres (363): A minha ilha é um cofre de Atlântidas (5) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 15 de Maio de 2019:

Queridos amigos,
Regressa-se ao Vale das Furnas porque o seu parque é irresistível, permite passeios de toda a espécie para quem gosta da Natureza: é o jardim da flora endémica e nativa dos Açores, a coleção de fetos, espantosa, o Jardim de Vireyas, os rododendros da Malásia, os canteiros de azáleas, as camélias, os metrosideros magníficos, e muito mais.
Há a piscina, permite um banho a qualquer hora do dia ou da noite, ainda no Vale temos a Poça da D. Beija, também com banhos quentinhos. E depois a Lagoa, com a sua carga mística, as suas caldeiras, permite um passeio circular à sua volta até chegar à Igreja da Senhora das Vitórias, um sonho de José do Canto que ali perto tem a sua mata-jardim, uma zona ajardinada com cerca de dez hectares, com cameleiras como não se vê em parte nenhuma e também com um vale dos fetos, como resistir a tão poderosíssima natureza, às atrações deste vale encantado?

Um abraço do
Mário


A minha ilha é um cofre de Atlântidas (5)

Beja Santos

O viandante não esconde que esta arquitetura do Hotel Terra Nostra o surpreende sempre, gosta igualmente do aditamento, atenda-se à sequência de imagens que guardam o histórico do ponto de partida, de meados da década de 1930, expandiu-se harmonicamente, houve cuidado em não deformar o que saiu da imaginação do arquiteto António Vasconcelos. Os obreiros desta realização tiveram um dado cultural em conta, aqui funciona o Parque Terra Nostra, que tem mais de dois séculos de vida. Tudo começou em 1775, o então cônsul dos Estados Unidos em São Miguel, de nome Thomas Hickling aqui fez construir a sua residência de verão. Depois, em meados do século XIX, o jardim experimentou um notável desenvolvimento. Todo este aparato arquitetónico bate certo, para mim é um monumento nacional, o edifício e a fabulosa envolvente do parque, de que iremos falar.




O viandante faz-se acompanhar de uma obra de incalculável valor “Uma Viagem ao Vale das Furnas na Ilha de S. Miguel, em Junho de 1840”, por Bernardino José de Senna Freitas, Fidalgo da Casa Real, Comendador da Ordem de Cristo, já foi referido, é um histórico bem detalhado que envolve capitães donatários, a história de erupções, a vida agrícola, aqui não se resiste a uma citação:  

“A lavoura é feita com bois, os quais geralmente são de marca pequena: os burros, que há em grande número, conduzem os estrumes para as terras, em seirões feitos de um encanastrado de junco. Os carros têm rodas de dois pés de diâmetro, pouco mais ou menos, consistindo de uma peça de madeira, de forma circular, cuja circunferência é orlada de enormes pregos de cabeça cónica: estas rodas são fixas a um eixo de madeira, o qual gira em uns encaixes de pau”.
O Vale das Furnas esteve anexo à Vigararia da Maia, e o autor disserta sobre ordens religiosas, como trajam os Fornenses, e em dado momento é muito pouco amável com os locais:  
“Há quarenta, ou cinquenta anos, o povo do Vale das Furnas era o mais indiligente, e preguiçoso da ilha: as mulheres cavavam as terras, e sachavam o milho: e os homens estavam em casa, as mais das vezes deitadas. Nestes últimos trinta anos eles se hão feito activos, serviçais e laboriosos; sendo devida esta mudança à afluência de pessoas, que de todos os pontos da Ilha concorrem ao Vale para fazer uso das águas medicinais, ou para se divertir; e bem assim às grandes quantias que ali deixam, as quais ficam repartidas por todos os Fornenses”.



Senna Freitas procede à descrição do Vale das Furnas e à análise das suas águas medicinais, revela-se deslumbrado:  

“Multiformes penedias em desordem se encontram, monumentos do antigo vulcão: perto e longe se avistam alvejando altas casas de ricos proprietários; e aparecendo entre estas muitas outras toscas moradas dos laboriosos agricultores deste vale. Abundantes fontes, prodigiosas e diferentes; emana aqui água azeda, trazendo um sedimento saponáceo e adesivo. Absorve nossas atenções a pavorosa caldeira grande, medonho laboratório da natureza; revestido interiormente de uma substância petrificada e branca, da feição do gesso, o que tudo parece devido à acção perene do calor interno e dos vapores sulfúricos, que operam na pedra-pomes, e no barro vulcânico”.
O viandante pode confirmar que assim é, antes porém delicia-se passeando por um jardim em florescência primaveril, rosas acetinadas, camélias aos enxames, azáleas multicoloridas. E assim se entra no Vale das Furnas e dá-se conta, imagine-se, de que há água peideira…




Senna Freitas revela muita atenção às águas medicinais, e adianta informação:  

“Os banhos sulfúricos são fornecidos pela água fervente da caldeira grande, cujo calórico excessivo é de mister arrefecê-lo. Para este fim há um veículo em direitura da caldeira, que encaminha esta água fervente; a fria é da mesma caldeira, que se demora em reservatórios, ou tanques espaçosos, mas de pouca profundidade, para que possa arrefecer de um para outro dia”.
E não é possível resistir a outra observação:  
“Ainda diremos, que adiante daquelas Furnas se encontram águas frias, contendo ácido muriático, sulfúrico, e carbónico, com ferro, alúmen e magnésio: outras com sabor ácido, salino e amargoso; outras quentes, e ferruginosas. Uma destas vertentes, ou fonte, denominada de Água azeda, sai mansamente de uma bica de pedra, e se derrama em uma bacia, ou receptáculo côncavo, igualmente de pedra, e daqui, precipitando-se em fio pelos lábios da bacia, forma um pequeno regato no chão”.
E lembra que alguém chamou a este local a Arcádia dos Açores, que tudo supera as paisagens da Itália e da Suíça. E ficamos por aqui, nunca se vem ao Vale das Furnas sem sair com o deslumbre de que é território primigénio, fica-se mesmo a meditar o que terão pensado as primeiras gerações povoadoras que viam este fumo à distância, o temor que lhes provocava, uma ilha idílica com o inferno à solta, até se descobrir que se Portugal possui um vale encantado é aqui que se encontra.






(continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 2 de novembro de 2019 > Guiné 61/74 - P20301: Os nossos seres, saberes e lazeres (362): A minha ilha é um cofre de Atlântidas (4) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P20326: Parabéns a você (1103): António da Costa Maria, ex-Fur Mil Cav do Esq Rec Fox 2640 (Guiné, 1969/71); António João Sampaio, ex-Allf Mil da CCAÇ 15 e ex-Cap Mil, CMDT da CCAÇ 4942/72 (Guiné, 1973/74); Ernesto Ribeiro, ex-1.º Cabo At Art da CART 2339 (Guiné, 1968/69) e João Alves Martins, ex-Alf Mil Art do BAC 1 (Guiné, 1967/70)




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Nota do editor

Último poste da série de 6 de novembro de 2019 > Guiné 61/74 - P20317: Parabéns a você (1102): Jorge Cabral, ex-Alf Mil Art, CMDT do Pel Caç Nat 63 (Guiné, 1969/71)

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Guiné 61/74 - P20325: Memória dos lugares (398): destacamento de João Landim, no rio Mansoa: quem eram os " Homens de Ferro [em] Botes de Borracha", que aqui estavam, em junho/julho de 1970, com uma seção do 3º pelotão da CART 2520 (Xime e Quinhamel, 1969/71) ? Era gente dos fuzileiros especiais e do BENG 447... (José Nascimento)



Guiné > Região do Cacheu > Rio Mansoa  > João Landim >  Junho/Julho de 1970 >   O destacamento, composto por dois barracões, guarnecido na altura por 1 secção do 3º pelotão da CART 2520 (Xime, Enxalé, Mansambo e Quinhamel, 1969/71), comandada elo fur mil José Nascimento.


Foto (e legenda): © José Nascimento (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Legenda complementar do autor (*):


 O que consigo ler da última foto é:

Homens de Ferro [em] Botes de Borracha

D.F.E. / A2 [ou 12 ?]
Destacamento de Fuzileiros Especiais N. A2 [12 ?}

Furriel M.L. Dias

Sinais - Vargas- Lagares
Fuz. Esp.

LDM 203

Tenentes Brito e Beijamim [Beijamim assim mesmo] [Seria o então tenente RN  Rebordão de Brito ? E o Benjamim  ? Havia um outro tenente DFE Benjamim Correia ... LG]

Guerreiro
Pinto


2. Escreve o José Nascimento, ex-fur mil, CART 2520 (Xime e Quinhamel, 1969/71) (*):

 [O destacamento de João Landim] era composto por um barracão onde nós militares do 3.º pelotão da CART 2520  havíamos de permanecer e por um outro barracão onde "moravam" os militares da Engenharia e da Marinha, responsáveis pela manobra e cambança das duas jangadas que operavam entre margens do Mansoa, para o transporte de viaturas militares e civis, bem como de população.

Aqui permaneci nos meses de Junho e Julho de 1970. Ao escurecer era posto a funcionar um pequeno gerador que nos iluminava durante a noite, mas o seu barulho era de tal forma infernal, que, passado quase meio século, parece que ainda ouço o seu roncar dentro da minha cabeça.

A casa de banho era composta por uma estrutura de madeira, com um ou dois bidões no seu cimo, que diariamente os elementos vindos de Safim os abasteciam de água potável, também nos traziam as nossas refeições que, para não variar,  quase sempre chegavam fora do horário que seria normal para o almoço ou para o jantar.

Para as necessidades fisiológicas, existia uma pequena estrutura de madeira já meio apodrecida. Quando a maré do Mansoa subia, as águas do rio exerciam as funções de estação de tratamento. Curiosamente, a algumas dezenas de quilómetros da foz, a água aqui era salgada, que quando a maré enchia, quase nos entrava pelo barracão adentro.

Apesar das enormes dificuldades foi um aliviar de tensões e  uma fuga ao perigo constante que representou a nossa estada no Xime. A noite é que era passada com alguma apreensão devido às precárias condições e ao reduzido número de militares para fazermos a nossa própria segurança.
Durante o dia controlávamos as viaturas, tanto civis como militares, que atravessavam de uma margem para outra do rio, fazendo o registo em folhas de papel próprias.

A permanência em João Landim também permitiu que algumas vezes embarcasse no "machimbombo"  que vinha de Teixeira Pinto ou de Bula com destino a Bissau. Aproveitava para ter um almoço diferente do que era habitual (bianda com bianda) e para fazer umas compras de pequenas recordações que traria até à Metrópole quando em Agosto de 1970 vim abraçar os meus familiares.
Terminava a minha pequena aventura em João Landim, para lá não voltaria mais." (...).

Temos 13 referências a João Landim no nosso blogue. Mas muitos maisa camaradas passaram por aqui e devem fotos deste lugar. (**)



Guiné > Região do Cacheu > Rio Mansoa > João Landim > Junho de 1973 > O rio Mansoa em João Landim e a jangada que fazia a sua travessia. Primeiro entravam as viaturas, depois as pessoas. Bissau ficava a cerca de quinze quilómetros e para a "peluda", o fim da comissão, faltavam, ainda quatro longos meses. A Helena regressaria mais cedo a casa, o Francisco só chegará a Lisboa a 11/10/1973, no T/T Niassa, com os seus rapazes do Pel Rec Daimler 3089.

Foto (e legenda): © Francisco Gamelas (2016). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

Guiné 61/74 - P20324: Notas de leitura (1234): Missão cumprida… e a que vamos cumprindo, história do BCAV 490 em verso, por Santos Andrade (31) (Mário Beja Santos)



1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 21 de Junho de 2019:

Queridos amigos,
Na sabida ausência de uma História da Guerra da Guiné que nos faça entender de forma liminar a evolução da luta armada e da cabal resposta encontrada pelos altos comandos, forçoso é andar a pinçar elementos avulsos sobre os quais não há doutrina. Parece que tudo se sabe e tudo já se revelou sobre a política de António Spínola, os livros publicam as suas diretivas, as alterações da manobra, os dispositivos encontrados depois da subversão de vários destacamentos, a africanização da guerra, os Congressos do Povo, e o mais que se sabe.
Louro de Sousa e Arnaldo Schulz aparecem como figuras espectrais, terão feito algumas coisas, não se sabe ao certo o quê e como; e, como se vai vendo, a partir de efetivos exíguos foram pondo as peças no terreno, não viraram as costas à capacidade ofensiva. Isto igualmente para dizer que ainda há muito para investigar, e não só no Arquivo Histórico-Militar, há que contar com estes dados relevantes referenciados na "Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África", revelam-se utilíssimos. Mas os arquivos dos Ministérios do Ultramar e da Defesa precisam igualmente de ser vasculhados de alto a baixo.
É interminável este processo da procura da verdade histórica para tirar a guerra da Guiné deste imenso claro-escuro.

Um abraço do
Mário


Missão cumprida… e a que vamos cumprindo (31)

Beja Santos

“Foi morto por um camarada
depois de tanto sofrer.
José da Silva Peixeiro
na Guiné veio morrer.

Logo que a gente cá chegou,
connosco começou a alinhar,
mas teve grande azar
e no Hospital o tempo passou.
Em Mansabá, ferido ficou
com uma mina comandada.
Andou 8 meses sem fazer nada,
ficando em serviço auxiliar.
Depois de no quartel estar
foi morto por um camarada.

Quando isto aconteceu,
foi um dia depois do jantar.
Com ele o Tamba a brincar
instantaneamente morreu.
José Rebelo o acidente cometeu
dando uma rajada sem querer.
O Peixeiro a socorrer
mas o destino salvá-lo não quis,
morreu este infeliz,
depois de tanto sofrer.

O Rebelo é bom soldado
um dos bons colegas nossos.
Dava gritos com remorsos
por saber que era culpado.
No Hospital foi internado
para esquecer o seu companheiro.
Este amigo verdadeiro
recorda sempre com amargura
o dia em que matou na Amura
José da Silva Peixeiro.

Da família se despedia
chorando como uma criança.
Ele ficou de lembrança
para toda a Companhia.
Abraçou-se ao Joaquim Maria
que até o fez esmorecer.
Com as lágrimas a correr,
gritava que ia para a morte
e realmente teve pouca sorte:
na Guiné veio morrer.”

********************

Enquanto se registavam estes versos do bardo, consternado com esta morte por acidente, avivou-se na memória um outro acidente vivido no alvorecer de 1 de janeiro de 1970, findara uma vigilância num posto avançada em Bambadincazinho, bem perto de Bambadinca, veio um Unimog 411 conduzido pelo Xabregas recolher as caixas de munições, quem pôde arranjar lugar na caixa lá se assentou e é nisto que ao trepar para a viatura o soldado Quebá Sissé meteu o gatilho na G3 e disparou sobre o soldado Uam Sambu, que me caiu no colo, logo gemendo: “Alfero, estou morto”. Correu-se para a enfermaria de Bambadinca, o médico Vidal Saraiva tudo tentou, mas eram muitos os órgãos afetados, veio um Dornier que o levou para o Hospital Militar, chegou já morto. Houve que providenciar o afastamento de Quebá Sissé, havia muita gente iracunda, pronta para o trucidar, o tempo cura estas feridas, cada um de nós já tinha um rol de lembranças de tais provações vividos noutros acidentes. O lamento do bardo é, no entanto, de um vigor universal, clama por todas essas vidas perdidas.

Tem-se feito apelo à imaginação e ao vasculhar de papéis para acompanhar a vida deste BCAV 490, situá-lo no tempo, na germinação da guerra, a documentação em livro é paupérrima, momentos há, onde se procura estudar esta história da guerra da Guiné e fica-se com a sensação de que até 1968 houve uns epifenómenos, uns murmúrios, nada se procedia com acerto, parecia que aos altos comandos faltara toda a sorte de discernimento, de definição de uma estratégia, de um posicionamento do dispositivo consoante se ia desmantelando um mundo sacudido pelas arremetidas da subversão. À cautela, tentou-se nova fonte, no caso vertente a “Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África, 1961-1974”, no momento em que aqui se escreve já foram publicados muitos volumes e, valha-nos a surpresa, indiciam-se pistas para entender o evoluir da situação. Logo no terceiro volume, intitulado “Dispositivo das Nossas Forças, Guiné”, datado de 1989, identifica-se a sequência cronológica entre 1962 e 1966. Em agosto de 1962, a Guiné dispunha de 4 batalhões com sedes em Bissau, Tite, Bafatá e Bula e um de reserva no Quartel-General, dispunha igualmente de 15 companhias do tipo caçadores. A guerra alastrou, o dispositivo ficou rarefeito, houve que criar mais três zonas de ação de batalha: Mansoa, Tite e Catió, foram mesmo criados destacamentos de pelotão, como em Caió (Bula), Nhacra, Ilha das Galinhas (Tite) e Canhamina, Sare Bacar, Paunca e Pirada (Bafatá). O CTIG (Comando Territorial Independente da Guiné) aparecia reforçado com uma companhia de Engenharia. Mais guerra e mais tropa, em 11 de novembro de 1963 são contabilizados 7 comandos de batalhão de caçadores, 1 batalhão de cavalaria, 15 companhias de caçadores, 7 pelotões de caçadores independentes, 7 companhias de artilharia, e muito mais. No final do ano de 1964 temos já um novo acréscimo dos efetivos. Dá-se a informação de que estão referenciados os corredores preferentemente utilizados pelo PAIGC: Sitató, Jumbembem, Sambuiá e Canja, isto a partir da fronteira norte; e Guileje, na fronteira Sul. Surgiram as forças paramilitares, estão constituídas companhias de milícias, os respetivos pelotões disseminam-se por todo o território. Consta nesta Resenha que o dispositivo, neste final de ano de 1964, tomara a seguinte forma:  
“A Oeste, um comando de agrupamento com sede em Mansoa e com três setores de batalhão (Farim, Mansoa e Bula); no Sul, um comando de agrupamento com sede em Bolama, com três setores de batalhão (Tite, Buba e Catió); no Leste, o setor de Fá Mandinga, área retirada ao batalhão de Bafatá. A área do batalhão de Buba passa a ter uma ocupação muito mais densa no extremo Sul. Além da companhia de Cacine, são instalados efetivos em Guileje, Cacoca e Ganturé. Nova Lamego passou a ter duas companhias; são instaladas companhias em Fajonquito e Pirada. Igualmente instalaram-se destacamentos de pelotão em Geba, Béli, Madina do Boé (2), Cantacunda e Camamudo”.
Resumindo a situação, há 2 comandos de agrupamento, 12 comandos de batalhão, 1 batalhão de Engenharia, 47 companhias tipo caçadores, 5 companhias de milícias, no essencial.

Brigadeiro Fernando Louro de Sousa
No final do ano de 1966, que consta na obra que se está a citar, o dispositivo tinha-se mantido mais ou menos estacionário até meados de 1965, altura em que chegou à Guiné mais um comando de batalhão, irá então decorrer um processo de remodelação que não trouxe alterações profundas mas um outro enquadramento das forças. Recorde-se que se está exclusivamente a falar da evolução do dispositivo na Guiné, há que encontrar agora resposta, se possível, para as orientações estratégicas urdidas pelo Brigadeiro Louro de Sousa e pelo General Arnaldo Schulz. Encontramos resposta no 6.º volume, Tomo II, dedicado à Guiné, Livro 1, 2 e 3, 2014. O documento começa por retomar o enunciado do volume a que se fez referência quanto a efetivos e dispositivo das nossas tropas. O Conselho de Ministros deu Carta de Comando ao Brigadeiro Louro de Sousa, Comandante-Chefe das Forças Armadas na Guiné, em 13 de março de 1963. Chegado a Bissau, este oficial-general manda publicar a diretiva n.º 1 logo a 16 de abril, e estão referenciadas mais diretivas com datas de maio e junho. São documentos de iniludível importância, o Comandante-Chefe revela-se bem informado e procura dar resposta num contexto atribulado e altamente movível, o PAIGC coloca as suas pedras no Sul, atravessa o Corubal e instala-se no Morés.
Daí a importância à Ordem de Operações n.º 1, de 1 de agosto, em que se dá conta do que são as forças inimigas:
“ (1) Em todo o território da Província da Guiné o In tem:
- intensificado a campanha de propaganda e aliciamento e as ações de terrorismo, tendo em vista completar o controlo de todas as populações fora das áreas restritas da ocupação militar;
- melhorado a sua organização e a preparação dos seus elementos que se consideram bastantes numerosos;
- melhorado nitidamente o seu armamento, dispondo já de numerosas pistolas, espingardas e pistolas-metralhadoras; sabe-se que dispõe de metralhadoras e utilizou engenhos explosivos;
- possibilidade de lançar ações de maior envergadura com o apoio do Senegal e da República da Guiné”.

Gen Arnaldo Schulz
A ordem de operações elenca o que fazem e devem fazer as Forças Armadas na Guiné, qual a sua missão e execução, é um texto marcado pela lucidez e revela equilíbrio entre propostas de medidas defensivas, exploratórias e apelo à capacidade ofensiva.
Numa diretiva com data de 27 de agosto, volta a identificar o inimigo, isto a propósito da Operação “Dardo”:
“a. A região de Olossato-Bissorã-Talicó-Mansabá, desde o princípio de julho, é objeto de uma intensa atividade terrorista que tem como núcleos principais as matas do Dando, Fajonquito, Cã Quebo, Cai, Morés, Talicó e pretende:
- mediante ataques à população civil, coagi-las a tomar o seu partido ou pelo menos facultar apoio;
- posteriormente, conseguir o controlo da região e cortar as nossas comunicações para o norte e leste.

b. O In dispõe de bom equipamento, no qual se incluem metralhadoras e é constituído por seus grupos com a seguinte localização:
- Fajonquito;
- Cã Quebo;
- Mansodé;
- Morés;
- Região de 2 pontes (Mamboncó);
- Dando.”

O espírito ofensivo revelava-se em operações, a partir de agosto. Em 2 de novembro, o Comandante do BCAV 490 e a CCAV 489 atingiram o Morés. Na noite de 3 para 4 pernoitaram no Morés onde se ergueu a bandeira portuguesa. São mais dois elementos. A primeira diretiva sobre a ação psicológica de que se tem conhecimento é datada de 27 de setembro de 1963 e em 11 de novembro desse mesmo ano elaborou-se um modelo de “relatório periódico de ação psicológica”. A partir de novembro, deixou de haver paz no chamado setor Leste. Uma mina na estrada Bambadinca-Porto Gole, depois ataque a Amedalai e uma constante presença em área de grande população, em Samba Silate, uma grande tabanca que será posteriormente abandonada.

(continua)
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Notas do editor

Poste anterior de 1 de novembro de 2019 > Guiné 61/74 - P20298: Notas de leitura (1232): Missão cumprida… e a que vamos cumprindo, história do BCAV 490 em verso, por Santos Andrade (30) (Mário Beja Santos)

Último poste da série de 4 de novembro de 2019 > Guiné 61/74 - P20312: Notas de leitura (1233): “A Sociedade Civil e o Estado na Guiné-Bissau, Dinâmicas, Desafios e Perspetivas”, coordenação de Miguel Barros; Edições Corubal, 2014 (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P20323: Agenda cultural (711): A não perder: curso, 15 euros por 4 tardes de sábado (, 9, 16, 23 e 30 de novembro), na Livraria-Galeria Municipal Verney, Oeiras, sobre "A Herança Judaica em Portugal": (i) a antiguidade na península ibérica; (ii) sinagogas, judiarias e comunidades; (iii) a Inquisição no património mental; e (iv) Amsterdão e Nova Iorque: duas cosmopolitas comunidades da diáspora.






1. Tenho pena que seja aos sábados de tarde... Era um curso que eu gostaria de poder frequentar. Fica aqui a sugestão para os nossos leitores, com destaque para os camaradas da Tabanca da Linha. LG

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Nota do editor:

Último poste  da série > 5 de novembro de 2019 > óxGuiné 61/74 - P20314: Agenda cultural (710): Lançamento do livro "A Nossa Guerra: dois anos de muita luta, Guiné 1964/66", dos nossos camaradas Belmiro Tavares e José Eduardo Reis de Oliveira: Instituto de Ação Social das Forças Armadas, Oeiras, 6/11/2019, às 14h30. Apresentação de Beja Santos.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Guiné 61/74 - P20322: Historiografia da presença portuguesa em África (184): Roteiro de Bissau: ainda as velhas e as novas toponímias, depois de 21/1/1975



Fonte: António Estácio - "Nha Bijagó: respeitada personalidade da sociedade guineense (1871-1959)" (edição de autor, 2011, 159 pp., il,). Com a devida vénia...


Guiné > Bissau > c. 1960/70 > Vista aérea de Bissau. Ao centro, o Palácio do Governo e a a Praça do Império. Bilhete Postal, Colecção "Guiné Portuguesa, 118". (Edição Foto Serra, C.P. 239 Bissau. Impresso em Portugal, Imprimarte - Publicações e Artes Gráficas, SARL). Coleção do nosso camarada Agostinho Gaspar.

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2019).

 Legenda:  1=Av República (depois de 1975, Av Amílcar Cabral); 2=Av Alm Américo Tomás (hoje, Av Pansau Na Isna); 3= Av Governador Carvalho Viegas (hoje, Av Domingos Ramos); 4=Praça do Império (hoje. Praça dos Heróis Nacionais)




Guiné > Bissau > c. 1969/70 > "Monumento ao Esforço da Raça. Praça do Império"... Bilhete postal, nº 109, Edição "Foto Serra" (Colecção "Guiné Portuguesa").  Coleção do nosso camarada Agostinho Gaspar.

O monumento é da autoria do arquiteto Ponce de Castro. A primeira pedra foi lançada em 1934.  O monumento foi inaugurado em 1941. O granito veio do foram  Porto.  Enquanto a estatuária colonial foi derrubada, a seguir à independência, este monumento, colonialista por excelência, foi o  o único que resistiu às fúria do camartelo do PAIGC.  Ainda lá está, agora encimado com a  a estrela de cinco pontas, que faz parte da bandeira da República da Guiné-Bissau.

Há, na Foz do Douro, Porto, um monumento, datado de 1934,  que terá inspirado o de Bissau, o "Monumento ao Esforço Colonizador Português", da autoria dos escultores Alferes Alberto Ponce de Castro (? - ?) e de José de Sousa Caldas (1894-1965). "Foi construído expressamente para a Exposição Colonial, inaugurada em Junho de 1934 no Palácio de Cristal. Compõe-se de um obelisco encimado com as armas nacionais; na base, seis esculturas estilizadas simbolizam as figuras a quem se deve o esforço colonizador: a mulher, o militar, o missionário, o comerciante, o agricultor e o médico!. (Fonte: Turismo do Porto).

O arquitecto e escultor Alberto Ponce de Castro era natural de Tavira, é o autor do Monumento aos Mortos da Grande Guerra, situado defronte dos Paços do Concelho de Tavira. Em 1922 o alferes de cavalria Alberto Ponce de Castro era reformado e fez um requerimento, à Câmara dos Deputados, ao abrigo da Lei nº 1244. O requerimento seguiu para a Comissãod e Guerra (Fonte: Debates Parlamentares > 1ª Reoública > Câmara dos Deputados > VI Legislatura > Sessão legislatuiva 01 > Número 101 > 1922-07-12 > Página 4)



Guiné > Bissau > c. 1960/70 > "Av Carvalho Viegas"... Bilhete postal, nº 129, Edição "Foto Serra" (Colecção "Guiné Portuguesa"). Coleção do nosso camarada Agostinho Gaspar.

A antiga Av Carvalho Viegas, um governador da província em 1932-40 (Luís António Carvalho Viegas, 1887-1965), chama.se agora (depois de 1975) Av Domingos Ramos. Terminava na Praça Honório Barreto (hoje, Praça Che Guevara).


1. Saudosistas, camaradas ? Parece que o termo não é "politicamente correto"... Nem este blogue é "politicamente correto"... Pois sejamos saudosistas... das coisas boas. O vocábulo não devia incomodar ninguém. Há outros "ismos" bem piores, que mexem com a nossa liberdade e a liberdade dos outros, como por exemplo racismo.

Toda a gente sabe que o nosso blogue é um sítio onde os amigos e camaradas da Guiné partilham memórias (e, em muitos casos, afetos). Os "tugas" que lá estiveram, em 1961/74, a fazer a guerra e a paz,  continuam a amar aquela gente e aquela terra, que era "verde-rubra" (sem segundo sentido)... Cultivam amizades e solidariedades. Vários guineenses são membros da Tabanca Grande, e parte dos documentos (textos, fotos, vídeos) que aqui publicamos, desde há 15 anos e tal, têm interesse para a história comum dos nossos dois países, Portugal e a Guiné-Bissau.

Como já o dissemos, as paisagens e os lugares não têm dono, não pertencem a ninguém. E muito menos as memórias dessas paisagens e desses lugares. Lisboa não é só dos lisboetas. Bissau não é só dos bissauenses. São também, estas duas cidades lusófonas,  dos seus visitantes, dos que por lá passam ou passaram, ou que lá vivem ou lá viveram, mesmo sendo "estrangeiros"...

Bissau faz parte das nossas geografias emocionais... como muitos outros lugares da Guiné, do Cacheu a Cacine, de Bolama a Buruntuma... O António Estácio, filho de pais transmontanos, nascido em Chão de Papel, em Bissau, e também morador em Bolama, em Angola, em Macau e agora no país dos seus progenitores..., é tão bissauense como tantos outros. Pode até exceder a maior parte dos bissauenses em paixão pela sua terra e suas gentes...

Saudosista, o Estácio ? Pois que o seja... Isto para dizer que ele é tão dono do Chão de Papel como da terra onde eu nasci, Lourinhã, ou como o Cherno Baldé, que veio ao mundo em Fajonquito, mas casou com uma  bissauense, nalu, vive e trabalha em Bissau, os seus filhos são bissauenses como os meus filhos são lisboetas...

As imagens dos lugares vão-nos sobreviver, mesmo dos lugares arruinados como as velhas artérias  e os velhos sobrados  de Bissau Velha. As imagens vão sobreviver, nas nossas memórias, enquanto formos vivos, e depois nos suportes em formato digital que deixamos com o blogue... (Ou em papel, se não forem parar ao caixote do lixo.)

Claro que, para os nossos filhos, netos e bisnetos,  estas imagens já não dizem nada ou muito pouco. Mesmo para os nossos contemporâneos que não conheceram a Guiné, nem antes nem depois da Independência, não dizem nada ou muito pouco. E até os nossos amigos e familiares nos chamam "saudosistas"...

Mas quem nos ler, quem nos visitar (... e já vamos a caminho dos 12 milhões de visualizações),  que faça o melhor uso desta informação e conhecimento que aqui recolhemos, analisamos,  tratamentos e divulgamos.

[Nostalgias de outono, Parque das Conchas e dos Lilases, Lisboa, 5 de novembro de 2019. LG]
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Nota do editor:

Último poste da série > 7 de novembro de 2019 > Guiné 61/74 - P20320: Historiografia da presença portuguesa em África (183): o desenvovimento urbano de Bissau, no período em que viveu Leopodina Ferreira Pontes, "Nha Bijagó" (1871-1959)

Guiné 61/74 - P20321: Recordações da CART 2520 (Xime, Enxalé, Mansambo e Quinhamel, 1969/71) (José Nascimento) (15): Mudança para Quinhamel

1. Em mensagem do dia 24 de Julho de 2019, o nosso camarada José Nascimento (ex-Fur Mil Art, CART 2520, Xime, Enxalé, Mansambo e Quinhamel, 1969/71) fala-nos do "Reguila", o 1.º Cabo Cordeiro do 3. Pelotão da 2520.


RECORDAÇÕES DA CART 2520

MUDANÇA PARA QUINHAMEL

Doze meses são passados sobre a permanência da CART 2520 no Xime. É chegada a hora da abalada para Quinhamel.

Enquanto a CART 2520 esteve sediada no Xime, houve dois pelotões que estiveram fora da zona operacional da Companhia; o 3.º pelotão fez o treino operacional em Mansambo e o 4.º pelotão actuou em Galomaro por cerca de quatro meses.

O destacamento da Ponte do Udunduma, localizado entre o Xime e Bambadinca também esteve à guarda da CART 2520, bem como o destacamento do Enxalé, situado na margem direita do Geba a cerca de dois quilómetros do Xime. As tabancas de Amedalai, Taibatá e Dembataco que estavam em auto-defesa também tiveram a protecção da CART 2520.

Foi um ano de grande actividade operacional para CART 2520 com um sem número de operações militares no mato, de montagem de emboscadas e de patrulhamentos ao longo dos diversos trilhos e picadas existentes na zona. Foram montadas dezenas de seguranças aos barcos que navegavam pelo rio Geba e um elevado número de colunas do Xime a Bambadinca e também algumas deslocações a Bafatá para a compra de mantimentos, nomeadamente algum gado vacum. Estas deslocações a Bafatá também serviam para descontrair e aliviar algumas tensões acumuladas. A estrada entre Bambadinca a Bafatá já era alcatroada.

Assim que souberam que a mudança ia acontecer, os "músicos" da Companhia fizeram uma canção dedicada a Quinhamel baseada numa música do Duo Ouro Negro e que versava ou rimava mais ou menos assim:

Dizem que vou pra Quinhamel
Uma praia bonita pra me banhar
Pra Quinhamel pra Quinhamel
Pra Quinhamel eu vou lá ficar

Pra Quinhamel pra Quinhamel
Pra Quinhamel eu vou lá ficar
E à noitinha quando o sol se pôr
Do Pelicano ou do Grande Hotel eu vou voltar

 Preparando a recepção aos periquitos

Rio Geba - Adeus Xime

Mas, quando chegados a Quinhamel os operacionais foram apanhados por algumas surpresas. Os pelotões seriam dispersos por vários destacamentos; Biombo, Ilondé, Ome e Safim. Só um pelotão e mais alguns atiradores é que tiveram o privilégio de permanecer o tempo restante da comissão em Quinhamel, além dos elementos da chamada Formação, condutores, mecânicos e outras especialidades.

Safim coube ao 3.º pelotão e lá vamos nós, nem tivemos tempo de saborear o belo clima e a praia de Quinhamel. Chegados a Safim ainda havia outra surpresa, um pequeno destacamento que dava pelo nome de João Landim situado na margem esquerda do rio Mansoa. O comando deste sub-destacamento era feito por um furriel, a nível de secção.
Mal tínhamos postos os pés em Safim e sabendo da necessidade de avançar com uma secção para outro destino, o alferes Marques diz-me:
- Nascimento, vais tu - depositando em mim a sua confiança.
- Só vou com voluntários - respondi-lhe.

De seguida perguntei quem queria ir comigo para o desconhecido. Avançaram os elementos necessários, pouco depois estávamos a caminho.

E assim eis-nos chegados a João Landim à beira do Rio Mansoa plantado.

 João Landim depois de uma tempestade - Junho/Julho de 1970

 João Landim - Jangada no Rio Mansoa - Foto obtida em plena noite com o flash de um relâmpago

João Landim - Junho/Julho de 1970 - Visto do Rio Mansoa

Era composto por um barracão onde nós militares do 3.º pelotão da CART 2520 havíamos de permanecer e por um outro barracão onde "moravam" os militares da Engenharia e da Marinha, responsáveis pela manobra e cambança das duas jangadas que operavam entre margens do Mansoa, para o transporte de viaturas militares e civis, bem como de população.

Aqui permaneci nos meses de Junho e Julho de 1970. Ao escurecer era posto a funcionar um pequeno gerador que nos iluminava durante a noite, mas o seu barulho era de tal forma infernal, que passado quase meio século, parece que ainda ouço o seu roncar dentro da minha cabeça.
A casa de banho era composta por uma estrutura de madeira, com um ou dois bidons no seu cimo, que diariamente os elementos vindos de Safim os abasteciam de água potável, também nos traziam as nossas refeições, que para não variar quase sempre chegavam fora do horário que seria normal para o almoço ou para o jantar. Para as necessidades fisiológicas, existia uma pequena estrutura de madeira já meio apodrecida. Quando a maré do Mansoa subia, as águas do rio exerciam as funções de estação de tratamentos. Curiosamente, a algumas dezenas de quilómetros da foz, a água aqui era salgada, que quando a maré enchia, quase nos entrava pelo barracão adentro.

Apesar das enormes dificuldades foi um aliviar de tensões e uma fuga ao perigo constante que representou a nossa estada no Xime. A noite é que era passada com alguma apreensão devido às precárias condições e ao reduzido número de militares para fazermos a nossa própria segurança.
Durante o dia controlávamos as viaturas, tanto civis como militares, que atravessavam de uma margem para outra do rio, fazendo o registo em folhas de papel próprias.
A permanência em João Landim também permitiu que algumas vezes embarcasse no "machimbombo" que vinha de Teixeira Pinto ou de Bula com destino a Bissau. Aproveitava para ter um almoço diferente do que era habitual (bianda com bianda) e para fazer umas compras de pequenas recordações que traria até à Metrópole quando em Agosto de 1970 vim abraçar os meus familiares. Terminava a minha pequena aventura em João Landim, para lá não voltaria mais.

Em João Landim recordo um pequeno episódio, quando o militar que estava de controle chegou ao pé de mim e me disse que havia um nativo que ia para Bissau e não tinha documento de transporte de alguns produtos hortícolas que levava para venda e me perguntou o que havia de fazer. Eu respondi-lhe para o deixar seguir. Passados alguns minutos, para surpresa minha apareceu-me o militar com um ananás como gratidão, oferecido pelo nativo. Soube a pouco.

Para todos os camaradas da Tabanca Grande aqui vai um grande abraço.
José Nascimento
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Nota do editor

Último poste da série de 30 de julho de 2019 > Guiné 61/74 - P20020: Recordações da CART 2520 (Xime, Enxalé, Mansambo e Quinhamel, 1969/71) (José Nascimento) (14): "O Reguila"

Guiné 61/74 - P20320: Historiografia da presença portuguesa em África (184): O desenvovimento urbano de Bissau, no período em que viveu Leopodina Ferreira Pontes, "Nha Bijagó" (1871-1959)


Guiné > Bissau > C. 1870 > A Rua de S. José, considerada como a artéria mais importante. Ia do portão da Amura, que estava aberto das 8 às 21h00, ao baluarte da Bandeira. Após 5 de outubro de 1910, passou a designar-se como Rua do Advento da República; depois,  Rua Dr. Oliveira Salazar e, após a independência, mudoum  em 21 janeiro  de 1975,  Rua Guerra Mendes, um dos combatentes da liberdade da Pátria, mortos em combate.

 Fonte: António Estácio - "Nha Bijagó: respeitada personalidade da sociedade guineense (1871-1959)" (edição de autor, 2011, 159 pp., il,).




Guiné > Bissaau > Av República > Postal ilustrado > c. 1960/70 > : Av da República (Hoje, Av Amílcar Cabral) > Ao fundo, o Palácio do Governador, e a Praça do Império; do lado direito, a Catedral de Bissau (O postal era uma Edição Comer, Trav do Alecrim, 1 - Telef. 329775, Lisboa).

Foto (e legenda): © José Claudino da Silva (2017). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



António Estácio, V Encontro Nacional
da Tabanca Grande, Monte Real, 2010. Foto; 
1. Já na altura demos o devido destaque a esta publicação do nosso camarada e amigo António Estácio (n. 1947, em Bissau, fez o serviço militar em Angola, em 1970/72),  que representou vários anos de pesquisa, com recurso a várias técnicas (entrevistas, análise documental, observação participante, viagem a Bissau e Bolama em 2006, etc. , tudo a expensas do autor.)


E a propósito das mudanças de toponimia de Bissau, fomos revisitar o livrinho "Nha Bijagó: respeitada personalidade da sociedade guineense (1871-1959)" (edição de autor, 2011, 159 pp., il,).  (**)

Do prefácio, escrito por Eduardo Ferreira, respigamos entretanto os seguntes excertos (*):

(...) Ao ler este livro  não podemos deixar de pensar nas grandes figuras femininas, que foram as “sinharas” e que tanta influência tiveram na costa ocidental africana, em particular nos Rios da Guiné, entre o século XVI e finais do século XIX. 

Essas mulheres que eram na sua maioria crioulas, geriam com enorme maestria os negócios dos seus maridos europeus ou eurodescendentes, resolvendo conflitos, realizando pactos com as autoridades locais, de modo a que as actividades comerciais decorressem sem delongas e fossem coroadas de êxito. A sua condição de crioula, dava à “sinhara” uma capacidade negocial ímpar, pois sendo detentora de uma dupla identidade cultural, era com facilidade que fazia a ponte entre as populações locais e os alógenos,  nomeadamente os europeus. 

Ficaram famosas na Guiné algumas dessas “sinharas”, como a Bibiana Vaz, a Aurélia Correia conhecida por “mamé Aurélia”, a Júlia Silva Cardoso também conhecida como “mamé Júlia” e a Rosa Carvalho Alvarenga, mãe de Honório Pereira Barreto, entre muitas outras. 

Leopoldina Ferreira, vulgo “Nha Bijagó”, é em meu entender uma das últimas grandes “sinharas” da Guiné, pois o seu perfil enquadra-se na perfeição no papel desempenhado por essas influentes mulheres africanas, referenciadas por diversos autores como foi o caso de André Álvares d’ Almada na sua obra “Tratado Breve dos Rios de Guiné do Cabo Verde” de 1594 ou de George E. Brooks com “Eurafricans in Western Africa” publicado em 2004 ou ainda Philip J. Havik com “Trade in the Guinea-Bissau Region: the role of african and luso-african women in the trade networks from early 16th to the mid 19th century” publicado em 1994, para apenas citar alguns.

(...) Um aspecto particularmente interessante nesta obra de A. J. Estácio, é a ligação cronológica que o mesmo faz, entre importantes acontecimentos políticos, administrativos e militares, que tiveram lugar na então Guiné Portuguesa, e as diversas fases etárias da biografada, ainda que esses factos não tenham qualquer ligação directa com a personagem tratada neste livro! 

O autor quis desse modo, dar-nos a conhecer alguns factos da história da então colónia/província da Guiné, que tiveram lugar entre 1870 e 1959, período que abarca a vida de “Nha Bijagó”  (...)

(...) Com esta publicação, António Júlio Estácio, revela-nos mais uma vez, o seu grande apego e dedicação às coisas e às gentes da terra que o viu nascer. (...)

Eduardo J. R. Fernandes, "Prefácio" (*)

[O Eduardo Fernandes, amigo e condiscípulo do autor no Liceu Honório Barreto, em Bissau, e na alt7ra, em 2011, comentador da RDP África].

Nha Bijagó (1871-1959)
Leopoldina Ferreira Pontes, "Nha Bijagó"  (Bissau, 1871 - Bissau, 1959) e a cronologia da cidade de Bissau

Aproveitando a vasta e valiosa pesquisa historiográfica do António Estácio, uma homem de várias pátrias (Guiné-Bissau, Portugal, Angola, Mavau...= vamos aqui recolher e sintetizar algumas datas marcantes do desenvolvimento urbano de Bissau, correspondente ao período em que viveu a "Nha Bijagó"(com a devida vénia ao autor...)


(i) Leopoldina Ferreira (Pontes, pelo primeiro casamento...) nasceu em Bissau em 4 de novembro de 1871. Era filha ("ilegítima", segundo a terminologia do Código Civil em vigor na época, o de 1866) de João Ferreira Crato (natural do Crato, Alto Alentejo, comerciante na Guiné) . Morreu aos 87 anos, em 26 de Maio de 1959. O nominho "Nha Bijagó" deve tê-lo recebido da mãe, Gertrudes da Cruz (de etnia bijagó, natural de Bissau).
(ii) Pouco antes de ela nascer, em 1871, o 18º Presidente dos Estados Unidos da América, Ulysses Simpson Grant , proferiu a sentença referente à posse da ilha de Bolama, pertencente ao, então, distrito da Guiné, favorável a Portugal o que pôs termo ao conflito se arrastava com os ingleses.

(iii) Nessa altura Bissau era uma povoação encravada entre a fortaleza de S. José e um muro, com 4 metros de altura. A igreja e o cemitério ficavam no interior da Amura. De entre as poucas ruas e ruelas, extra-muros, a Rua de S. José era considerada como a artéria mais importante. Ia do portão da Amura, que estava aberto das 8 às 21h00, ao baluarte da Bandeira. Após 5 de outubro de 1910, passou a Rua do Advento da República; depois, a Rua Dr. Oliveira Salazar e, após a independência e a 21 janeiro  de 1975 a Rua Guerra Mendes.

(iv) Em 1872, tinha ela cerca de um ano "quando as ruas de Bissau começaram a ser iluminadas a petróleo. Eram, todavia, poucos os candeeiros"...

(v) A 1877, foi criado o Concelho de Bissau, sendo de 573 habitantes a população na área murada, composta por 391 nativos, 166 oriundos de Cabo Verde e, apenas, 16 europeus.

(vi) Em 1879, ainda a "Nha Bijagó" não tinha completado os oito anos, foi “a sede do Governo transferida para Bolama.” 

(vii) No dia 3 de agosto do mesmo ano, assinou-se o tratado de cessão a Portugal do território de Jufunco, ocupado pelos Felupes.

(viii) Pouco antes de Leopoldina completar os 12 anos de idade, foi publicado o decreto que dividiu a província da Guiné  em quatro circunscriçõess, criando-se assim os concelhos de Bolama, Bissau, Cacheu e Bolola. 

(ix) Tinha ela 14 anos quando Portugal e a França celebraram [, em Paris, em 1886,] a convenção referente à delimitação das possessões dos 2 países na África Ocidental e que correspondem às atuais Repúblicas do Senegal, Guiné-Conacri e Guiné-Bissau.
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(x) As más condições climatéricas, agravadas pela insalubridade da região, dizimavam a população de tal modo que, em 1886, Bissau era o menos povoado de todos os aglomerados urbanos da Guiné.

(xi) Tinha “Nha Bijagó” já 18 anos quando foi, então, lançada, em 1889,  a primeira pedra para a tão almejada ponte-cais,( Foi designada  por ponte Correia e Lança, em homenagem a Joaquim da Graça Correia Lança  Governador da Guiné., de 1888 a 1890,)

(xii) Ano e meio depois, o chefe dos Serviços de Saúde defendia que a capital deveria regressar à ilha de Bissau, ainda que para local ligeiramente diferente, isto é, puxando-a para a zona de Bandim que se situava “em terreno suficientemente elevado e com vertentes para a praia arenosa.”, o que, em termos de drenagem e salubridade, era, indubitavelmente, vantajoso.

(xiii) À beira de completar 22 anos, registaram-se, no interior da fortaleza, dois incidentes graves, em 1893: o incênndio da da enfermaria militar e uma explosão;

(xiv) A 7/12/1893, a vila sofreu um grande cerco, movido por elementos da etnia Papel a que se juntaram os Balantas de Nhacra.

(xv) Em 1984, é demolida uma  parte do muro de 4 m. de altura que ia do Fortim Nozolini ao Baluarte da Balança, com o objetivo de se construir uma igreja católica.

(xvii) Por volta dos seus 25 anos, dada a elevada densidade populacional intramuros, o governador Pedro Inácio Gouveia autorizou “o aforamento de, terrenos no olhéu do Rei”m tendo, em 1900, ali, chegado a ser instalado um lazareto.

(xviii) A implantação da República em Portugal levou à mudança do Governador e, em 1912/13, o primeiro-tenente Carlos de Almeida Pereira manda demolir o muro que constrangia a expansão urbana.

Guiné > Bissau > s/d Av República (hoje Av Amílcar Cabral), com placa central guarnecia  com árvores, que nos anos 50 seria removida, dando lugar a uma ampla avenida, com duas faixas de laterais, arborizadas, destinadas a estacionamento e delas separadas por um passeio. Fonte: António Estácio (2011)
  

(xix) Com a República há mudanças na toponímia:

Rua de S. José > Rua do Advento da República
Rua do Baluarte da Bandeira > Rua Almirante Reis
Travessa Larga > Travessa do Dr. Bombarda
Travessa da Botica > Travessa 5 d’ Outubro
Travessa da Ferraria > Travessa Honório Barreto

(xx) Depois da "campanha de pacificação" do cap João Teixeira Pinto (1913/15),  Bissau é finalmente  objeto dum plano de urbanização que lhe permitiu crescer de forma disciplinada e segundo malha ortogonal bem definida. A autoria do plano é do tenente-coronel engenheiro José Guedes Viegas Quinhones de Matos Cabral que, no início da década de vinte, foi director das Obras Públicas na Guiné.

(xxi) Para além do Mercado Municipal e do Cemitério, por detrás do Hospital, etc., procedeu-se ao aterro e à regularização do molhe da rua marginal {, Rua Agostinho Coelho, numa evocação do primeiro governador da Guiné],  e à construção do edifício-sede da Alfândega.

(xxii) Ao completar 62 anos, teve lugar, em 1933, a transferência da sede da comarca judicial da Guiné, que passou de Bolama para Bissau.

(xxiii) Em 1934, procedeu-se ao lançamento da primeira pedra para a construção do monumento ao Esforço da Raça, da autoria do Arq Ponce de Castro. (. As pedras foram enviadas do Porto e o monumento foi inaugurado em 1941; o único monumento colonial que resistiu ao camartelo revolucionário.)

Fortaleza da Amura. Foto de Manuel Coelho (c. 1966/68)
(xxiv) Em 1936, a Associação Comercial e Industrial da Guiné cedeu ao Estado o terreno que lhe fora concedido, o qual se destinava à sua sede e ficava em frente ao  edifício do Banco Nacional Ultramarino, para no local se construir um grande edifício onde, a par do Tribunal, foram instalados os Serviços de Administração Civil, assim como os Serviços de Fazenda;

(xxv) Em 1939 foi a Fortaleza de S. José, vulgo Amura, classificada como Monumento Nacional.

(xxvi) Em finais da década de 30 foi celebrado o contrato para a realização dos estudos de abastecimento de água, melhoramento que só se viria a concretizar  na segunda metade da década  de 40.

(xxvii) Transferência da capital de Bolama para Bissau,  em 19 de Dezembro de 1941. Em 1945 tomna posse o novo governador, Sarmeno Rodrigues. (***)

 (xxviii) Em meados dos anos 40 efectua-se um novo projecto de urbanização, mudam de nome  as vilas de Canchungo (Teixeira Pinto) e Gabú (Nova Lamego), procede-se à construção do depósito de água no Alto de Intim, assim como do Palácio do Governador; constroem-se moradias no “Bairro Portugal” e surge o Bairro de Santa Luzia; Deu-se início à edificação da Catedral, do Museu e Biblioteca, etc.

Nova ponte-cais (1953) e estátua de Diogo Gomes.
Postal ilustrado, edição Foto Serra.
(xxix) Procedeu-se à colocação de estátuas como a do navegador Nuno Tristão, a de Teixeira Pinto, a do grande guineense Honório Pereira Barreto, etc.

(xxx) A Rua Honório Barreto foi, na Guiné, a primeira a ser asfaltada e reabriu em 6/4/1953.

(xxxi)  De tudo isto e a muito mais “Nha Bijagó” foi contemporânea, como da conclusão da nova ponte cais, inaugurada em 18/5/1953 pelo Subsecretário de Estado Raul Ventura, à construção do aeroporto em Brá e à sua transferência para Bissalanca; à visita do Presidente da República Craveiro Lopes; à inauguração do edifício situado na, então, Praça do Império, onde ficou a sede da Associação Comercial e Industrial da Guiné, etc. (****)

Fonte: Adapt. livre de António Estácio - "Nha Bijagó: respeitada personalidade da sociedade guineense (1871-1959)" (edição de autor, 2011, 159 pp., il,).

A aquisição do livro poderá ser feita diretamente com o autor, através de contacto telefónico:  fixo >  + 351 21 922 9058: telem > + 351  962 696 155.

[Selecão / revisão / fixação de texto para efeitos de edição no blogue: LG]

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Notas do editor:

(*) Vd. poste de 3 de outubro de 2011 > Guiné 63/74 - P8849: Notas de leitura (281): Nha Bijagó, de António Estácio. Prefácio de Eduardo J. R. Fernandes

Vd. também poste de 16 de setembro de  2011 > Guiné 63/74 - P8785: Notas de leitura (274): Nha Bijagó, de António Estácio (Mário Beja Santos)

(**) Vd. postes de:


4 de novembro de 2019 > Guiné 61/74 - P20311: Memória dos lugares (395): Roteiro de Bissau Velha: ruas antigas e ruas atuais, onde se localizavam algumas casas comerciais do nosso tempo: café Bento, Zé da Amura, Pintosinho, Pinto Grande / Henrique Carvalho, Taufik Saad, António Augusto Esteves, Farmácia Moderna...

(***) Vd. também > 18 de outubro de 2017 > Guiné 61/74 - P17877: Historiografia da presença portuguesa em África (98): Bissau, em 1947, ao tempo de Sarmento Rodrigues, revisitada por Norberto Lopes, o grande repórter da "terra ardente"

(****)  Último poste da série > 6 de novembro de  2019 > Guiné 61/74 - P20318: Historiografia da presença portuguesa em África (182): A eterna polémica sobre o racismo no colonialismo português (1) (Mário Beja Santos)