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terça-feira, 31 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27874: Casos: a verdade sobre... (65): o acidente com canhão s/r 82, B-10, russo, que vitimou o 2º srgt António Duarte Parente, do Pel Caç Nat 53, no Saltinho, em 13 de maio de 1970





Guiné > Região de Bafatá > Sector L5 (Galomaro) > Saltinho > Destacamento de Contabane (reordenamento junto ao quartel do Saltinho, mais tarde, Sinchã Sambel, em homenagem ao régulo de Contabane > Pel Caç Nat 53 (1970/72) > O Paulo Santiago com o canhão sem recuo 82 B-10, russo, que esteve na origem do acidente, no Saltinho, que provocaria a morte do 2.º srgt Parente (apanhado pelo "cone de fogo" do canhão s/r disparado inadvertidamente por alguém)... A tragédia deu-se no dia 13/05/70, quando já se encontrava naquele quartel a CCAÇ 2701, que rendeu a a CCAÇ 2406, "Os Tigres do Saltinho" (1968/70).


Foto (e legenda): © Paulo Santiago (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)


1. O 2.º srgt António Duarte Parente não pertencia a nenhuma daquelas companhias, aq CCAÇ 2406 e a CCAÇ 2701, era um dos graduados do Pel Caç Nat 53, comandado naquela data pelo alf mil António Mota que o Paulo Santiago foi substituir em outubro de 1970. 

O canhão s/r, apreendido ao PAIGC, foi mais tarde transferido do Saltinho para o reordenamento de Contabane (hoje, Sinchã Sambel).  Mas antes disso, nos primeiros dias de novembro de 1970 foi um heli ao Saltinho buscar, por ordem do Com-Chefe, o canhão s/r 82, B10, para equipar as NT no decurso da Op Mar Verde (invasão anfíbia de Conacri, 22 de novembro de 1970). Voltaram a entregá-lo em dezembro. 

Gravemente ferido, em resultado desse acidente, o Parente foi evacuado para o HM 241,m Bissau, e a seguir para o Hospital Militar da Estrela. Morreu um nmês depois. Está sepultado na Covilhá,

2. Comentários:

(i) Jorge Narciso (*) (**)

(...) António: não tem este o fim de comentar o teu poste (eu até nem fui nem vim de barco, pois era da FAP), antes e verificando que terás estado no Saltinho por 69/70, procurar uma eventual ajuda tua para precisar na memória um facto lamentável, que muito me marcou e do qual não fiquei com registo preciso.

Eu fui mecânico da linha da frente dos helicópteros (exactamente entre  abril de 1969 e dezembro de 1970) e muitas vezes fui ao Saltinho (cruzámo-nos concerteza), nomeadamente na época das chuvas, para proceder a abastecimento de víveres.

Aliás, ali "festejei" os meus 20 anos, facto que, denunciado pelo piloto, "nos obrigou" a só dali sair depois dum copo (penso que de espumoso).

Com essas diversas viagens estabeleceram-se alguns laços de amizade, nomeadamente com um sargento (de quem não me recordo o nome) que é, esse sim, o motivo deste comentário.

Sei que numa determinada altura foi substituída a guarnição do Saltinho (fim de comissão ?), mas que o citado sargento, por ser de rendição individual, ali permaneceu com a nova guarnição. [ Substituição da CCAÇ 2406 pela CCAÇ 2701, em maio de 1970].

Um dia (que também não consigo precisar) parti numa evacuação para o Saltinho (que, diga-se, não era habitual) e qual não foi a minha surpresa (e choque) quando verifico que ela se destinava exactamente ao citado sargento.

Explicaram-nos, rapidamente, ter sido ele atingido pela gravilha projectada pelo escape do canhão sem recuo, montado num dos muros do aquartelamento, que tinha sido extemporaneamente disparado por terceiro, num tiro de experiência e demonstração.

Foi, talvez, a evacuação mais penosa das incontáveis que realizei na Guiné. Desde logo pelo seu gravíssimo estado físico (completamente crivado), pelo emocional, com a sua lúcida compreensão desse mesmo estado, finalmente porque era alguém com quem mantinha uma relação, diria de quase amizade, o que exponencia largamente o nossas próprias emoções.

Desembarcado, com as palavras de encorajamento possíveis, procurei num dos dias seguintes visitá-lo, tendo-me sido informado que tinha sido imediatamente evacuado para Lisboa.

Tendo mantido o interesse , soube muito mais tarde que não tinha resistido aos ferimentos, vindo a falecer.

Recordas ou de alguma forma tiveste algum contacto testemunhal com este caso ? (...)

(ii) Paulo Santiago (**)

Jorge: Vou tentar contar o episódio de que falas (*) , que aconteceu já depois da saída, do Saltinho, da CCAÇ 2406, a que pertenceu o António Dias [. O CCAÇ 2406, Os Tigres do Saltinho, 1978/70, pertencia ao BCAÇ 2852, com sede em Bambadinca).

A tragédia, confirmei agora a data com um camarada, deu-se no dia 13/05/70, quando já se encontrava naquele quartel a CCAÇ 2701. O 2º  srgt Parente, o militar de que falas, não pertencia a nenhuma daquelas companhias, era um dos graduados do Pel Caç Nat 53, comandado naquela data pelo Alf Mil António Mota que eu fui substituir em Outubro de 1970.

O trágico acidente resultou de um disparo ocasional do canhão S/R 82, B10, naquele dia instalado no Saltinho, mais tarde foi comigo para o Reordenamento de Contabane.

Ninguém tem uma explicação cabal para o sucedido. Havia ordens expressas para a arma estar sempre com a culatra aberta, e sem granada introduzida, parece que naquele dia havia uma granada introduzida,e a culatra estava fechada.

Como aconteceu? Junto da arma encontravam-se vários militares, cap Clemente, alf mil Julião, srgt Demba, da milícia, 2º srgt  Parente e ainda mais dois ou três militares. A arma para disparar, granada na câmara e culatra fechada, accionava-se o armador, premia-se o gatilho,acontecia o disparo. Diziam que alguém tocara com o joelho no armador e dera-se o disparo...

O 2º srgt  Parente estava logo atrás do canhão S/R, foi parar a vários metros de distância, e tu, Jorge Narciso, sabes como ele ía. Ficaram também feridos o cap Clemente, queimaduras numa mão e virilha, e o Demba, queimaduras numa perna. Foram também evacuados para o HM 241.

Como dizes,o Parente morreu passado um mês. Já como comandante do Pel Caç Nat 53,recebi uma carta da viúva, pedindo-me ajuda na resolução de um qualquer problema que agora não recordo.

Foi um dia trágico no Saltinho.Isto é, muito dramático, o Parente tinha recebido naquele dia um telegrama, via rádio, informando-o que fora pai de uma miúda...e andara na tabanca a comprar uns frangos para fazer um jantar comemorativo do nascimento...

O alf mil Fernando Mota, da CCAÇ 2701, recebeu uma carta com a notícia que o irmão fora morto com um tiro da Gurda Fiscal. O srgt  Demba da milícia foi morrer no Quirafo em 17 de abril de 1972 .. Será que o Parente ainda viu a filha antes de morrer?

Apesar de não o ter conhecido, é-me penoso falar desta tragédia. (...)
 
(iii) Paulo Santiago (***)

(...) Quanto às munições para o canhão s/r, havia uma quantidade razoável. O Julião, alf mil, CCAC 2701 (Saltinho, 1970/72), num patrulhamento,deu com um pequeno paiol com granadas para o 82B10.Na foto vêem-se algumas embalagens com granadas.


(iv) Luís Graça (***):

Recordo-me bem do Duarte Parente, do tempo de Baambadinca..  Era um dos poucos sargentos, do exército, que era operacional... na região de Bafatá. Tirando os sargentos das forças especiais (páras, fuzos, e talvez comandos), os sargentos do Exército ficavam na secretaria, ou outras funções de apoio... Não se exagera dizendo que a guerra era para os graduados milicianos e as praças do contingente geral... Os do QP, oficiais e sargentos, em geral, protegiam-se melhor...

Eu pensva que o Duarte Parente fosse alentejano, afinal era beirão. Era um gajo com piada, com quem se criava facilmente empatia. Infelizmente, deixou viúva e filha órfão, coisa que eu não sabia... Um das das "bocas" dele que ouvi no nosso bar, em Bambadinca, nunca mais a esquecerei:

- Quando eu vou na rua, só paro em dois lugares: numa taberna ou bar ou numa livraria...

Seguiu depois para o Saltinho onde conheceu o caminho do calvário que o levou à morte, um mês depois já em Lisboa, no HMP. (****)

Não temos, também, infelizmente, nenhuma foto dele. (*****)


(Seleção, revisão / fixação de texto, título: LG)
___________________


Notas do editor LG:





(*****) Últrimo poste da série > 30 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27871: Casos: a verdade sobre... (64): uma mina anticarro, reforçada, que acionámos em Nhabijões, em 13/1/1971, a que altura poderia lançar a nossa GMC ? (António Fernando Marques / Luís Graça)

segunda-feira, 30 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27871: Casos: a verdade sobre... (64): uma mina anticarro, reforçada, que acionámos em Nhabijões, em 13/1/1971, a que altura poderia lançar a nossa GMC ? (António Fernando Marques / Luís Graça)


Luís Graça & António Fernando Marques 
(CCAÇ 12, Contuboel e Bambadinca, 1968/71)



Guiné > Região do Cacheu > São Domingos > 10 de agosto de 1968 > CCS/BCAÇ 1933 e CART 1774 > Levantamento de uma mina A/C reforçada, com duas granadas de LGFog, checas (Pancerovka P-27). Foi detetada por picadores da CART 1744. E levantada pelo alf mil MA Machado, da CCS / BCAÇ 1933, já falecido.

Foto alojada em Aveiro e Cultura > Arquivo Digital (e aqui reproduzida com a devida vénia).

Foto (e legenda): © Eduardo Figueiredo (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Quem um dia caiu numa mina anticarro, russa, TMD (6 kg, mas geralmente reforçada), e safou-se para poder contar aos netos, tem curiosidade em saber a que altura subiu com a sua GMC de 2,5 t...mais os seus companheiros de infortúnio...Essa pergunta fez-ma, há muitos anos, o António Fernando Marques (que entrou para a Tabanca Grande em 2010).

É uma curiosidade legítima que eu, no entanto, nunca tive.  Sei que ele voou mais alto do que eu: ia sobre o rodado duplo da GMC do lado direito,  que acionou a mina, e eu ia no "lugar ao morto", ao lado do condutor, na cabine, fechada. Foi em Nhabijões, em 13/1/1971, há 55 anos (*).  O coicde foi atrás, a GMC afocinhou, é o que eu me lembro.

O Marques esteve 17 dias em estado de coma, no HM 241, em Bissau, e mais 2 anos em recuperação em Lisboa. Eu salvei-lhe a vida, consegui levá-lo, a ele e aos feridos mais graves, até Bambadinca, num Unimog 404, onde já nos esperava o heli AL III.  Mas nunca lhe respondi à sua pergunta ("a que altura voou a nossa GMC").  Não é tarde para o fazer, recorrendo às ferramentas de IA que hoje estão disponíveis (**).

A nossa GMC, de chassi aberto, carregada com 22 homens, equipados, ficou toda torcida e partida.  O rodado duplo desapareceu, tal como o semieixo. Os homens que iam na parte de trás voaram alguns metros. A GMC não mais do que  2, 3 ou 4 metros, segundo as contas abaixo discriminadas. (Em rigor, é difícil responder à pergunta.)


I. Um mina anticarro russa TMD (6 kg) reforçada com 2 granadas de bazuca checa, Pancerovska P27 (3,75 kg de trotil, cada uma) dá para lançar uma GMC de 2,5 toneladas ao ar... Até que altura ?


Podemos fazer uma estimativa física muito grosseira, apenas para ter ordem de grandeza. Na realidade, explosões no solo são extremamente ineficientes a transferir energia para levantar um veículo inteiro.

1. Equivalente explosivo

  • Mina TMD: ~ 6 kg de TNT | 2  granadas Pancerovka P27: 3,75 kg cada → 7,5 kg
  • Total aproximado: 13,5 kg de TNT
  • Energia total libertada:13,5×4,2≈56,7 MJ 13,5×4,2≈56,7 MJ


2. Energia que realmente levanta o camião

Num rebentamento sob um veículo, só uma pequena fração da energia vai para o movimento do veículo: grande parte perde-se no solo; outra parte destrói o chassis; e outra sai em onda de choque lateral.

Valores plausíveis de acoplamento energético: 0,5% a 2%.

Energia transmitida ao camião: 
0,5% → 0,28 MJ |  1% → 0,57 MJ |  2% → 1,13 MJ

3. GMC de 2,5 toneladas

Massa ≈ 2500 kg

Altura máxima se toda essa energia virar energia potencial:ℎ=𝐸𝑚𝑔h=mgE​

Resultados aproximados:

Fração da energia | Altura teórica

0,5 % ~ 11 m
1 % ~ 23 m
2 % ~ 46 m

4. O que acontece na realidade

Na prática quase nunca sobe assim: o veículo parte-se ou roda antes de subir verticalmente,  a explosão cria impulso inclinado, o solo absorve grande parte da energia.

Em incidentes documentados (minas anticarro de 6–10 kg): camiões de 2–3 t são lançados ou capotados, podem saltar alguns metros, muitas vezes ficam virados ou destruídos, não “projetados” para cima.

Estimativa realista: um GMC de 2,5 t provavelmente seria levantado ou atirado 2–5 m, podendo capotar ou ser deslocado lateralmente vários metros.

Curiosidade histórica: na guerra colonial na Guiné, minas com 6–8 kg de TNT já eram suficientes para destruir ou lançar Unimogs e Berliets, mesmo sem reforço de outras cargas.


II. E já agoera: por que motivo as minas enterradas são muito mais eficazes a levantar veículos do que cargas equivalentes detonadas à superfície ? 

A razão é essencialmente física das explosões e confinamento do gás.

1. Explosão à superfície




Infografia: ChatGPT / OpenAI (2026)


Quando o explosivo está à superfície: a detonação gera gases a pressões enormes (centenas de milhares de atmosferas); esses gases expandem-se livremente para todos os lados

O resultado é: a energia espalha-se em hemisfério; grande parte vai para o ar; outra parte vai lateralmente

Consequência: apenas uma pequena fração atinge o veículo.

Mesmo com dezenas de kg de TNT, o veículo pode ser empurrado ou danificado, mas raramente “disparado” verticalmente.

2. Mina enterrada







Infografia: ChatGPT / OpenAI (2026)


Quando o explosivo está enterrado acontece algo diferente:

o solo funciona como confinamento; a  detonação cria gases a altíssima pressão; o  solo bloqueia a expansão lateral.

A energia concentra-se no caminho de menor resistência: para cima. Forma-se então um jato de solo e gases (soil ejecta jet) que pode atingir: 200–300 m/s, centenas de kg de terra projetada. Esse jato funciona como um martelo hidráulico contra o fundo do veículo.

3. Efeito no veículo

O que levanta o veículo não é só a onda de choque, mas: o jato de terra; o impulso súbito concentrado numa pequena área; a pressão confinada.

Por isso minas relativamente pequenas conseguem: arrancar eixos; rasgar o fundo; lançar o veículo para cima.

4. Comparação simples

Situação > Energia que chega ao veículo

Explosão à superfície ~0,1–0,5 %
Carga enterrada ~1–5 %

Ou seja, 10 vezes mais eficaz.

5. Um detalhe curioso da guerra na Guiné

Muitos guerrilheiros do PAIGC aprenderam rapidamente que enterrar bem a mina e colocar terra bem compactada por cima aumentava muito o efeito.

Há vários relatos de Unimogs ou Berliets lançados para o ar, às vezes capotando completamente.

(Pesquisa: LG + IA /Chat OpenAI | Condensação, revisão / fixação de texto: LG)


III. Um mina anticarro russa TMD (6 kg) reforçada com 2 granadas de bazuca checa, Pancerovska P27 (3,75 kg de trotil, cada uma) dá para lançar uma GMC de 2,5 toneladas ao ar (carregada com mais 22 homens, equipados, duas secções de um pelotão)... Até que altura ?

Luís Graça, a tua pergunta é técnica e envolve cálculos de física balística, explosivos e dinâmica de estruturas — áreas complexas que dependem de muitos fatores, como a posição exata das cargas, a geometria do alvo, o tipo de solo, a distribuição de peso na viatura, e até a qualidade da soldadura e do aço da GMC.

Análise qualitativa (baseada em princípios físicos e experiências históricas):

1. Energia liberada:

  • a mina TMD-44 russa tem cerca de 6 kg de TNT;
  • cada granada Pancerovska P27 checa tem 3,75 kg de trotil (TNT).
  • total de explosivo: ~13,5 kg de TNT.
  • a energia libertada por 1 kg de TNT é de cerca de 4,184 MJ, logo ~13,5 kg libertariam ~56,5 MJ.
2. Efeito em viaturas:

Uma GMC (como a GMC CCKW de 2,5 toneladas) tem um centro de gravidade alto e uma estrutura robusta, mas não blindada.

Minas anticarro são projetadas para perfurar ou deformar a estrutura do veículo, mas o efeito de "lançar ao ar" depende da distribuição da explosão (se for sob as rodas ou o chassis, o efeito é maior).

Granadas de bazuca (como a P27) são projetadas para perfurar blindagem, mas aqui estão a ser usadas como carga adicional, aumentando a energia total.

3. Altura estimada:
  • em casos documentados (ex.: minas sob viaturas leves), o veículo pode ser lançado 1 a 3 metros de altura, dependendo da posição da carga e da resistência estrutural.
  • com 13,5 kg de TNT, é plausível que uma GMC seja lançada até 2-4 metros de altura, mas a maior parte da energia seria absorvida pela deformação da estrutura e projeção de fragmentos;
  • se a carga estiver bem posicionada (ex.: sob o eixo traseiro), o efeito pode ser mais dramático, mas dificilmente ultrapassaria 5 metros devido ao peso e inércia da viatura.
4. Fatores limitantes:

O peso da GMC (2,5 toneladas + 22 homens equipados ~3 toneladas) requer uma quantidade significativa de energia para ser levantado.

A maior parte da energia seria gasta em deformar o chassis e projetar fragmentos, não em movimento vertical puro.

Em testes militares, viaturas semelhantes são geralmente capotadas ou partidas ao meio, mas não necessariamente lançadas a grandes alturas.

5. Conclusão prática:

Com essa configuração, é improvável que a GMC seja lançada a mais de 3-4 metros de altura. 

O mais provável é que a viatura seja severamente danificada, capotada ou partida, com fragmentos projetados a dezenas de metros. 

Em casos extremos (carga idealmente posicionada e solo firme), poderia atingir até 5 metros, mas a energia seria maioritariamente dissipada em destruição estrutural.

  (Pesquisa: LG + IA /Le Chat Mistral AI | Condensação, revisão / fixação de texto: LG)

________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 13 de janeiro de 2024 > Guiné 63/74 - P25065: Efemérides (425): O António Marques, meu companheiro de infortúnio, na CCAÇ 12, cujo relógio parou às 13h30 do dia 13 de janeiro de 1971: nunca se esquece de me telefonar todos os anos, neste dia e hora (Luís Graça)

(**) Último poste da série > 9 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27720: Casos: a verdade sobre... (63): o "cemitério de Cheche"

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27720: Casos: a verdade sobre... (63): o "cemitério de Cheche"

Foto nº 1A, 1B, 1 > Guiné > Região do Boé  >  "Cemitério à beira do Rio Cheche" (sic)... Estranha (e perturbante) foto do Arquivo Amílcar Cabral, sem legenda nem uma data precisas (1963-1973)... Estas cruzes só podem ser de militares portugueses, mortos por afogamento na travessia do Rio Corubal, em Cheche, em 6/2/1969... Devem ser captadas por gente do PAIGC.  Parecem ser 11 campas improvisadas, 8 assinaladas com cruzes de ferro e 3  em madeira.

Fonte: Instituição:Fundação Mário Soares e Maria Barroso | Pasta: 05360.000.124 | Título: Cemitério à beira do rio Cheche | Assunto: Cemitério à beira do rio Cheche, Guiné-Bissau | Inscrições: Cheche. | Data: 1963 - 1973 | Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral | Tipo Documental: Fotografias |

(1963-1973), "Cemitério à beira do rio Cheche", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_43446 (2026-2-9)
Foto nº 2 > Guiné > Região do Boé  > Cheche > Parecem ser restos do destacamento de Cheche, abandonado pelas NT em 6/2/1969, aquando da retirada de Madina do Boé.  A sua missão era proteger a jangada que fazia a cambança do rio Corubal. Ficava na margem esquerda. Chegou a lá haver uma pequena povoação.

Instituição: Fundação Mário Soares e Maria Barroso | Pasta: 05360.000.251 | Título: Depósito de combustível, em Cheche | Asunto: Depósito de combustível, em Cheche, localidade junto ao Rio Corubal. | Inscrições: Cheche | Data: 1963 - 1973 | Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral | Tipo Documental: Fotografias

(1963-1973), "Depósito de combustível, em Cheche", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_43064 (2026-2-7)



Guiné > Região de Gabu > Carta de Jábia (1961) > Escala 1/50 mil > Posição relativa de Ché Ché, na margem esquerda do Rio Corubal.  (Habituámos-nos a a grafar o topónimo como "Cheche". Mas na carta de Jabiá vem Ché Ché.)

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)


1. Ao que parece não foram resgatados nenhum corpos das 47 vítimas, por afogamento, na travessia do rio Corubal, em Cheche, na manhã,  de 6/2/1969, quinta feira. Foi a última travessia efectuada. A coluna (5 dezenas de vituras) seguiu para Nova Lamego:

(...) " O Comandante da Operação  [cor inf Hélio Felgas] não permitiu que as duas Companhias [CCAÇ 1790 e CCAÇ 2405] permanecessem no Ché Ché para tentarem recuperar o maior número de corpos possíveis, seguindo por isso logo para Nova Lamego" (...).(*)

O cor inf Hélio Felgas, mais tarde, em 1995, já brigadeiro na reforma, escreveria:

(...) Aguardámos horas, com o helicóptero sobrevoando o local na esperança de localizar alguns dos desaparecidos. Dois ou três bons nadadores também mergulharam na zona onde acorrera o acidente. Nada foi encontrado.(...) (**)

No dia 20, quinta feira, duas semanas depois depois (!),  é que alguns corpos (11)  serão  resgatados a  jusante: a dúvida é saber exatamente em que local do rio.

No dia 20 de fevereiro de 1969, uma equipa de mergulhadores-sapadores da armada, após várias operações de busca, a cerca de 400 m a  jusante do local do acidente,  terão conseguido resgatar  os restos mortais de 11 militares (de resto, irreconhecíveis)

Outra dúvida: teriam sido, ou não, seguidamente helitransportados para Bissau e sepultados no cemitério municipal, no talhão dos combatentes ? Ficaram as cruzes e levaram os restos mortais dos nossos camaradas  ? Não nos parece. Os corpos deviam estar em adiantado estado de putrefacção.

E já agora: porquê 8 cruzes de ferro e 3 de madeira ? Teriam sido trazidas de Bissau, obviamente, as cruzes de ferro (que são do mesmo modelo das  usada no talhão dos combatentes portugueses,  no Cemitério Municipal de Bissau). E essas só podem ter sido colocadas pelas NT.

As cruzes de madeira temos que admitir que tenham sido improvisadas por gente da população local, fula, que conheciam os "tugas" antes da independência. De qualquer modo,  a foto  nº 1 tem se ser da época do acidente (1969). O Arquivo Amílcar Cabral só contempla imagens e outros documentos com datas até 1973 (ano da morte de Amílcar Caberal). Por outro, é de todo improvável  que estass inprovisadas e precárias  sepulturas tenham sobrevido às cheias que vieram logo a seguir, na época das chuvas de 1969.


Guiné-Bissau > Bissau > Cemitério Municipal > Talhão Militar Central > Abril de 2006 > Monumento que celebra os soldados portugueses, mortos nas diversas "campanhas de pacificação" da Guiné, desde a Campanha do Geba (1890) à Campanha do Cuor (1907/08), passando pelas Campamhas do Oio e Bissorã (1913), onde se destacou o Capitão Diabo, Teixeira Pinto. Este cemitério tem três talhões, reservados aos combatentes portugueses mortos em campanha).

Foto ( e legenda): © Hugo Costa (2006).Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

Mais provável é que que  o brigadeiro  Spínola (acompanhado de um  capelão de Bissau) tenha  assistido a esta delicada operação, como de resto era sua intenção,  operação que foi enquadrada por fuzileiros especiais e terá tido forte apoio aéreo.

Estas 11 cruzes da foto nº 1 vêm baralhar a nossa narrativa, também por causa da sua localização...  A foto do Arquivo Amílkcar Cabral tem como legenda: 

"Cemitério à beira do Rio Cheche" (sic).

Ora, não há nenhum rio Cheche, perto do local onde se deu o acidente. Há vários afluentes do rio Corubal, a montante e a jusante de Cheche (vd. carta de Jábai): o mais perto, é o rio Campossabane, a 600 metros,  a montante; a jusante, temos o rio Cambengoi (ou Cambengol), a 3,5 km;  o rio Canchã, a 7,5 km; e o rio Ché Ché Piri, muito mais longe, depois de várias curvas e contracurvas  do Corubal (vd. carta de Padada). Todos afluentes deste.

As cruzes foram colocadas pelos fuzileiros que terão recuperam alguns corpos, no dia 20 de fevereiro de 1969. Irreconhecíveis.

 A legenda deve, pois, estar errada. O rio Ché Ché Piri, afluente do Rio Corubal, ficava a jusante do local da tragédia, uns largos quilómetros abaixo. 

A seguir a Ché-Ché, uns 4 km, no sentido jusante, o rio Corubal fazia uma curva de 90 graus. A corrente deve ter arrastado os corpos. As margens aqui eram altas, cota 40/50. Estamos na época seca, o rio tem muito menor caudal, mas mesmo assim  a corrente era forte, segundo os testemunhos da época.


Guiné > Região de Gabu > Carta de Padada (1959) > Escala 1/50 mil > Posição relativa de Burmeleu, do  rio Ché Ché Piri, e de um troço do rio Corubal,  largos quilómetros a jusante do antigo destacamento de Ché Ché (na estrada Nova Lamego - Madina do Boé)

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)


De qualquer modo, esta foto deve ter sido tirada por alguém do PAIGC e enviada para Conacri. É a única referência (mesmo que indireta) que encontrei, no Arquivo Amílcar Cabral, a esta brutal tragédia que nos enlutou.

Há cinco referências a Cheche  (topónimo) no Arquivo Amílcar Cabtral:
  • as duas que publicamos acima (fotos nºs 1 e 2);
  • e, por fim, uma mensagem urgente do Secretário Geral, para o Boé, com data de 29 de janeiro de 1971, com informações sobre "uma grande ofensiva militar portuguesa no Boé (concentração das forças inimigas em Cheche)", solicitando-se ao Humberto e ao Silvino preparação cuidadosa da defesa da região e ligação permanente com o Secretariado Geral.
O erro no título ("Cemitério à beira do Rio Cheche" também pode ser imputado, eventualmente, aos ténicos da Fundação Mário Soares que trataram o Arquivo Amílcar Cabral. Mas inclinamo-me mais para a hipótese de ter sido legendada por gente do PAIGC, que conhecia mal o nome dos rios naquela zona. 

O António Rosinha reconheceu o local, onde esteve em 1986: ficaria a " montante da jangada menos de 100 metros na margem esquerda do rio" (!)... e não a jusante, como imaginávamos nós...(afinal, todos os rios correm para foz).

A haver ali um rio era o  o rio Campossabane, a montante,  a meio quilómetro de Cheche (segundo a carta de Jábia).  

2. Já tínhamos publicado em tempos esta foto (nº 1) que mereceu diversos comentários de dois  camaradas que conheceram a zona (*)

De qualquer modo, Cheche era  passagem obrigatória para quem vinha de Nova Lamego até Madina do Boé (e Guiné-Conacri) passando por Canjadude, sede da CCAÇ 5 (Os Gatos Pretos, a que pertenceu o fur mil trms José Martins, 1968/70). 

E a verdade é que ainda hoje não há ponte nenhuma, ali, no Cheche, para facilitar as comunicações com  o país vizinho. E, se calhar ainda bem (por razões ambientais).

(i) O nosso camarada José Martins pode esclarecer-nos melhor sobre onde terá sido tirada a foto.

(...) Esta foto, para mim, não é só surreal como ofensiva. A zona de Burmeleu, a jusante do Cheche, não tem as margens como a imagem sugere.

A tragédia ocorreu no rio Corubal e não no Rio Ché Ché Piri. Acho muito estranho que os militares do PAIGC, mesmo depois da independência, fossem retirar cruzes das campas dos militares portugueses, para as colocar ali.

Alguns corpos foram recolhidos por guineenses, mas não prestariam esta homenagem, até porque ocuparam o espaço de cemitérios com novas moranças, como se viu em reportagens televisivas, na zona de Bafatá. (...)

(ii) O Antº Rosinha que foi cooperante na Guiné, como topógrafo, depois da independência,  conheceu o local (em 1986):

(...) penso que aquele lugar fica a montante da jangada menos de 100 metros na margem esquerda do rio.

Evidentemente que ali não há cemitério nenhum. Pode ter havido ali algum tipo de cerimónia de militares nas margens do rio, como se costuma fazer de pôr uma cruz e flores à beira da estrada onde morre de acidente um familiar.

Aquele rio chega, ou chegava quando a Guiné estava mais longe do deserto que é hoje, a ter cheias em que esse lugar está debaixo de água.

Este acidente deu-se no tempo seco, e as chuvas começam em maio /junho (e vão até outubro/novembro),.

Ali é difícil o acesso às margens junto à agua, devido aos grandes arbustos que se debruçam sobre a água, e aquele lugar (que é igual àquele que eu penso) é alcantilado (arriba) mas sem os tais arbusto fechados.

Conheço bem o lugar, porque trabalhei como cooperante das Obras Públicas vários dias a tentar pôr aquela jangada e seus acessos funcionais, em 1986.(...)


(Não sei se é verdade tudo o que eu digo, mas o que digo é apenas o que vejo)

A imagem que se consegue ver no Google é apenas em cheias, pelo que não se vê este pormenor da margem que eu digo.

Mas a foto ou foi tirada de canoa ou de algum bote de fuzileiros, pois como se vê aquilo é uma arriba de dificil acesso, mesmo para uma foto, quanto mais para fazer sepulturas.

Em arribas não se fazem cemitérios, embora lá se encontrem dinossauros.

Contemos a história, e em memória dos que morreram, mesmo sem pôr cruzes, afirmar que não foram eles os culpados de haver tantos guineenses junto ao arame farpado de Ceuta. (...)

sábado, 6 de fevereiro de 2016 às 11:20:00 WET

Enfim, fica aqui o desafio aos nossos leitores para trazerem novos contributos para o esclarecimento deste "misterioso cemitério de Cheche"(***). 


domingo, 28 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27580: Casos: a verdade sobre... (62): Al-Hajj Cherno Rachide Jaló (1906-1973)... O itinerário das colunas que levaram, de Bambadinca a Aldeia Formosa / Quebo, os fiéis que foram à cerimónia fúnebre do imã (Paulo Santiago)


Guiné > Carta Geral da Província (1961) (Escal 1/500 mil) > Percurso (a amarelo) que seguiram os fiéis do Cherno Rachide que foram ao seu funeral em setembro de 1973:  Bambadinca - Xitole - Cambessê - Uria Candi - Cambança do Rio Corubal - Aldeia Formosa / Quebo. A vermelho, o troço  de estrada que estava interdito: Saltinho - Rio Mabiá - Contabane - Aldeia Formosa / Quebo. 

As distâncias quilométricas são mais ou menos as seguintes (hoje em dia): Bambadinca-Xitole: 30  km; Xitole-Saltinho, 20 km; Saltinho-Quebo: 20 km. No nosso tempo, e na época das chuvas, com risco de minas e emboscadas, uma coluna Bambadinca-Xitole-Saltinho podia levar um dia ou até mais... O troço Mansambo - Xitole-Saltinho esteve interdito cerca de um ano (set 1968/ set 69).

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2025)


1. Comentário do Paulo Santiago  (ex-alf mil, cmdt Pel Caç Nat 53, Saltinho 1970/72) (*):

O  poste do Luís fala numa coluna militar para levar os fiéis do Cherno Rachid, de Bambadinca a Aldeia Formosa (Quebo). 

Direi que seriam duas colunas. Assim,as viaturas saídas de Bambadinca seguiam em direcção ao Xitole,e aqui seguiam em direcção ao Saltinho.

Passada a tabanca de Cambessê,  a última do Xitole, poucos quilómetros  andados aparecia a tabanca de Uria Candi onde se cortava à direita por uma picada até atingir o rio Corubal, onde de canoa se cambava  para a outra margem onde estariam viaturas de Aldeia Formosa.

Uma vez, em  que fui a Aldeia Formosa, saí do Saltinho indo até à cambança e na outra margem tinha o pessoal de Aldeia.

O trajeto Saltinho-Rio Mabiá-Contabane estava minado pelas NT e pelo IN.








Guiné > Zona Leste > Setor L1 > Bambadinca > BCAÇ 2852 (1968/70) e CCAÇ 12 (1969/71) > Visita que o Cherno Rachide fez a Bambadinca, no início de janeiro de 1970...  As fotos devem ser de 10 de janeiro.

Fotos do álbum do ex-fur mil at inf Arlindo Roda, da CCAÇ 12 . Sem legenda. (Infelizmente as fotos do meu camarada Arlindo Roda não trazem legendas, local, data, etc.)... 

A personagem  de azul escuro  e "gorro" preto, assinalada a amarelo, tudo indica que seja o Cherno Rachide, a presidir a um encontro com os seus fiéis do regulado de Badora e outras paragens, que se deslocaram a Bambadinca para o cumprimentar, rezar com ele,  ouvir os seus conselhos, etc.. 

 Um seu "adjunto", vestido de branco e também com um gorro preto, segurando um lenço,  recolhe oferendas ao imã (moedas, "pretas" e "brancas", poucas notas, nozes de cola). O Cherno Rachide na altura teria 63 anos. Morreria  3 anos depois.

Recordo-me de as NT lhe terem armado uma tenda, no recinto do quartel de Bambadinca, para ele receber condignamente não só as autoridades locais, civis e militares, como também os seus fiéis...  O chão era coberto por tapetes. O gen Spinola deve ter mandado assegurar o seu transporte e acomodação. A ele e ao seu séquito.

Ele virá a falecer, em Aldeia Formosa, onde residia, em setembro de 1973, em dia que não podemos precisar.  

Na altura, o comandante do BART 3873 (Bambadinca, 1972/74) terá  organizado uma coluna de transporte  para os muçulmanos do sector L1  poderem ir prestar-lhe ( ao imã)  a última homenagem em Aldeia Formosa / Quebo.

No meu tempo ( 1969/71) o troço Saltinho- Contabane - Aldeia Formosa estava interdito, logo a partir da Ponte do Saltinho, sobre o rio Corubal... O transporte até Aldeia Formosa teria que ter segurança militar e seguir outro trajeto, como sugere  o Paulo Santiago, que conheceu bem o terreno  (esteve lá em 1970/72 e voltou lá em 2005 e 2008).

Foto: © Arlindo Roda (2010). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


2. De acordo com a História do BART 3873 (Bambadinca, 1972/74), há uns tantos pontos a destacar no mês de setembro de 1973:

(i) choveu intensamente, e as populações, nomeadamente, os balantas, ocupam-se dos trabalhos agrícolas (cultivo das bolanhas);

(ii) começou para os muçulmanos o Ramadão (de 27 de setembro a 26 de outubro de 1973); 

(iii) o comando do BART 3873 propõe, à Rep ACAP, que dois dos  mais prestigiados ( e "fiéis") régulos do sector L1, o do Xime e o de Badora, sejam escolhidos para a viagem de peregrinação aos lugares santos do Islão, a expensas do governo da província (o critério era sempre o apoio à "causa nacional");

(iii) o PAIGC escolheu, estranhamente (?), a data de 24 de setembro de 1973 (em plena época das chuvas e a 3 dias do início do Ramadão), para proclamar unilateralmente a independência da Guiné-Bissau (em local que ainda hoje é objeto de grande controvérsia, mas que a sua descarada propaganda teimou em dizer durante décadas que tinha sido... em Madina do Boé!) 

(iv) estranhamente, não: a 28ª sessão ordinária da Assembleia Geral da ONU acabava de se iniciar em 18 de setembro de 1973, e logo nesse dia as "duas Alemanhas", a República Federal da Alemanha (Ocidental) e a República Democrática Alemã (Oriental) foram admitidas simultaneamente como Estados-membros da ONU;

(v) morreu o Cherno Rachide (ou Rachid) de Aldeia Formosa / Quebo e o comando do BART 3873 prontificou-se a organizar uma coluna de transporte para os "muitos fiéis muçulmanos" (sic)  do setor L1 (Bambadinca) que quisessem assistir às cerimónias fúnebres; nesta altura, estava em Aldeia Formosa o BCAÇ 4513 (1973/74)-

As NT sempre deram grande importância à "lealdade" dos fulas e da sua elite dirigente, a quem o Amílcar Cabral chamava, com profundo desprezo, os "cães dos colonialistas".  Nunca saberemos ao certo qual o papel que o Al-Hajj Cherno Rachide  Jaló (1906-1973) desempenhou  na "nossa guerra" (***). 

Há quem, como o José Teixeira,  defenda a opinião de que os ataques e flagelações a Aldeia Formosa eram dirigidos para o aeródromo e  o quartel das NT, e nunca para a tabanca (onde residia o imã). E que, por outro lado, um seu sobrinho seria "cabo de guerra" na região, pelo lado do PAIGC (comandante de bigrupo, ou coisa parecida). 

Em conversa há dias com nosso camarada Arménio Santos (ex-fur mil, Rec Inf, Aldeia Formosa, 1968/70), que "trabalhou"  com o Cherno Rachide, no campo da informação e acção psicológica (e que, portanto, o conheceu bem), percebi que este dossiê ainda está longe de estar encerrado de todo. 

Oxalá apareçam mais histórias e testemunhos sobre o Cherno Rachide, cujo sucessor, o seu filho,  Al-Hajj Amadú Dila Djaló, será depois deputado pelo PAIGC, a seguir à independência, na Assembleia Nacional Popular. Contradições ? Realismo político ? O(s) poder(es) tem (têm) horror ao vazio. Sempre. Em toda a parte.


3. Excertos da H. U. (História da Unidade) | BART 3873 (Bambadinca, 1972/74) - Cap. II: 17º fascículo: setembro de 1973 , pp. 67/68/69 (***)







4. Excertos da história do BCAÇ 4513 (Aldeia Formosa, 1973/74) (Transcrição, para suporte digital: Fernando Costa) (****)

CAPÍTULO II > ACTIVIDADE NO TO DA GUINÉ > 4º Fascículo (período de 1Set a 30Set73)

(...) Verificou-se no período o falecimento do Cherno Rachid, chefe religioso de extraordinário prestígio no meio muçulmano, cuja perda abalou muita a população, receando-se não ser fácil encontrar quem o substitua com o mesmo prestígio e a mesma devoção à Causa Nacional (sic) (***).

No dia 29Set73 regista-se a chegada à Província do novo Governador e Comandante-chefe, General Bettencourt Rodrigues, que substituiu nos cargos o General António Spínola. (...)

5º Fascículo (período de 1Out a 31Out73)

(...) Durante o período continuaram a deslocar-se a Aldeia Formosa, em virtude do falecimento do Cherno Rachid, várias autoridades tradicionais, algumas estrangeiras, entra as quais se destaca o Cherno Aliu Cham, do Senegal.

Sekuna, filho do Cherno Racxhid, foi eleito, em assembleia dos "Homens Grandes", sucessor de Cherno Rachid.

Por motivo do acto eleitoral no dia 28 (*****),  e a festa do Ramadão nos dias 28 e 29, efectuaram-se diversas colunas a Buba, Nhala, Rio Corubal, para transporte da população. (...)

04Out73

(...) O Cmdt recebe a visita de todos os "Homens Grandes" da região que vêm comunicar que, reunidos em assembleia, elegeram Sekuna, filho do Cherno Rachid, como seu sucessor. 

Exprimem todo o seu apoio e lealdade à Causa Nacional. Este mesmo facto é comunicado à Rep ACAP, para ser transmitido a Sua Excelência Comandante-Chefe. (...)

09Out73

(...) Esteve presente no Comando do Batalhão, a apresentar os seus cumprimentos de despedida, o Cherno Aliu Cham, da Rep Senegal., e que agradeceu todo o apoio prestado quando do falecimento do Cherno Rachid e todo o apoio sanitário que continua a ser dado em todos os postos fronteiriços da Rep Senegal.(...)


28Out73

(...) Processou-se o acto eleitoral  (*****) e iniciaram-se as festas do Ramadão, que trouxeram a Aldeia Formosa muita população de Buba, Nhala e Saltinho. (...)

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, LG)
________________

Notas  do editor LG:

(*) Vd. poste de 23 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27564: (In)citações (283): Em louvor dos Postos Escolares Militares e do Cherno Rachide (Cherno Baldé, Bissau)

(***) Vd. poste de 23 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27565: Casos: a verdade... (61): Aldeia Formosa / Quebo é atacada ou flagelada pelo menos 7 veses em 1969 e 1971, em pleno consuklado Spinolista: em 7/3/69, 8/3/69, 21/3/69, 9/7/71, 11/7/71, 31/7/71, 12/8/71... E continuou a ser atacada ou flagelada em 1972... Faz sentido continuar a considerar o Cherno Rachid como um "agente duplo" ?

(****) Vd. poste de 27 de janeiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5716: Morte e sucessão do Cherno Rachide, ao tempo do BCAÇ 4513, em Set / Out 1973 (Fernando Costa)

(*****) Recorde-se que em  28 de outubro de 1973 realizou-se, em Portugal, as últimas eleições legislativas sob a égide do Estado Novo. 

Acção Nacional Popular (ANP), partido único do regime "recauchutado" (sucessor da União Naci0nal), elegeu todos os deputados para a Assembleia Nacional (150), num escasso 1,4 milhóes de votos, enquanto a Oposição Democrática boicotou o processo, denunciando a falta de liberdade e condições para eleições sérias e justas, num contexto de crescente contestação política e social do regime.  Seis meses depois aconteceu o 25 de Abril de 1974. O Estado Novo caiu de podre, sem honra nem glória. A Assembleia Nacional foi imediatamente dissolvida.

Pelo "círculo eleitoral da província ultramarina da Guiné", e para a" XI Legislatura da Assembleia Nacional! foi eleitos dois deputados Leopoldino de Almeida e Benjamim Pinto Bull, com menos de 12,2 mil votos.

Por sua vez, o Ramadão de 1973 (ano 1393,  no calendário islâmico) começaria a 27 de setembro  (quinta-feira) e terminaria  a 26 de outubro de 1973 (sexta-feira). 

O Eid al-Fitr, que marca o fim do Ramadã, foi celebrado a 27 de outubro de 1973. (A Guerra do Yom Kippur, também conhecida como a Guerra do Ramadão, começou a 6 de outubro de 1973, coincidindo com o 10º dia do Ramadão.)

O Eid al-Fitr marca o fim do jejum do mês sagrado do Ramadão.  É uma celebração de gratidão a Deus pela força para completar o jejum.  Centra-se muito na caridade (Zakat al-Fitr), no uso de roupas novas e em orações comunitárias logo pela manhã.

Náo confundir com o Eid al-Adha (Tabaski ou a "festa do carneiro", na Guiné-Bissau). Celebra a devoção de Abraão (Ibrahim) e o sacrifício de um cordeiro em lugar do seu filho. Quase todas as famílias que têm condições,  sacrificam um animal (geralmente um carneiro) e dividem a carne em três partes: uma para a família, outra para amigos e vizinhos, e outra para os pobres. Ocorre cerca de dois meses e meio após o fim do Ramadão.

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27565: Casos: a verdade sobre ... (61): Aldeia Formosa / Quebo é atacada ou flagelada pelo menos 7 veses em 1969 e 1971, em pleno consuklado Spinolista: em 7/3/69, 8/3/69, 21/3/69, 9/7/71, 11/7/71, 31/7/71, 12/8/71... E continuou a ser atacada ou flagelada em 1972... Faz sentido continuar a considerar o Cherno Rachid como um "agente duplo" ?




Guiné > Região de Tombali > Sector S2 _ Aldeia Formosa > 1973 > Vistra aérea do aquartelamento, tabanca e aeródromo. Crédito fotoghráficio: José Mota Veiga (JMV).. Edição e legtendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2025).




"Dia sete bombardeamos o campo fortificado de Quebo, com dois morteiros oitenta e dois, quarenta  obuses às onze da noite. Acção pelo camarada (...)"

Fundação Mário Soares e Maria Barroso | Pasta: 07200.170.066 | Título: Mensagem - Boké | Assunto: Bombardeamento do quartel de Quebo | Data: Sexta, 7 de Março de 1969  | (...) Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral

(1969), "Mensagem - Boké", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_40660 (2025-12-22)




"Dia oito nossa artilharia atacou quartel de Quebo com dois morteiros oitenta e dois e quarente cinco obuses às sete da noite. Acção dirigida (...). 8/3/69".


Fundação Mário Soares e Maria Barroso | Pasta: 07200.170.065 | Título: Mensagem - Candiafará | Assunto: Comunica o ataque da artilharia do PAIGC ao quartel de Quebo. | Data: c. Sábado, 8 de Março de 1969 | (...) Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral (...)


(1969), "Mensagem - Candiafará", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_40659 (2025-12-22)




"Dia 21 - Bombardeamenti ao Quebo com dois morteiros Stop Gastamos 33 obuses.Às cinmdo da tarde. Dirigiu ação Nocolau Andrade. 1/4/69"

Fundação Mário Soares e Maria Barroso | Pasta: 07200.170.053 | Título: Mensagem [Frente Sul] | Assunto: Bombardeamento de Quebo (dirigido por Nicolau Andrade) pela artilharia do PAIGC. | Data: Terça, 1 de Abril de 1969 | (...).Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral (...)


(1969), "Mensagem [Frente Sul]", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_40647 (2025-12-22)



(...) "Dia 9/7 - Sabotagem contra Quebo com canhões 75 Stop Opração dirigida Blokpaz Nandenhe, Mora Na Logna, Malan Camara. Dia 11/7 - Sabotagem contra Quebo com canhões 75 Stop Operação dirigida Blokpaz Nandenhe, Malan Camaram Stop Pires. 12/7/71."


Fundação Mário Soares e Maria Barroso | Pasta: 07200.170.017 | Título: Comunicado - Candjafara | Assunto: Mensagem de Pedro Pires para Amílcar Cabral comunicando o ataque do PAIGC ao quartel de Quebo, nos dias 9 e 11 de Julho. | Data: Segunda, 12 de Julho de 1971 | (...) Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral (...)


(1971), "Comunicado - Candjafara", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_40614 (2025-12-22)




"Pires, dia 12 nossa artilharia bombardeou cmpo fortificdao de Quebo utilizando uma peça canhão 75 (...) com 15 obuses às 6 horas da tarde Stop Dirigiu a ação camarada Júlio Mendonça Stop Buotcjha. Candiafra, 13/8/71, Manuel da Silva"

 
Fundação Mário Soares e Maria Barroso | Pasta: 07200.170.021 | Título: Mensagem [Frente Sul] | Assunto: Mensagem de Buota N'Batcha para Pedro Pires comunicando o bombardeamento do quartel de Quebo pela artilharia do PAIGC. | Data: Sexta, 13 de Agosto de 1971 | (...).Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral (...)


(1971), "Mensagem [Frente Sul]", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_40618 (2025-12-22)

 

(...) " 31/7 Bombardeado Quebo Grad Stop Esperamos informações Stop Dirigido  Júlio de Carvalho, Joãozinho Yala e N'Quesna N'Puam Stop Pires. 2/8/71" 


Fundação Mário Soares e Maria Barroso| Pasta: 07198.168.041 | Título: Comunicado - Candjafara | Assunto: Mensagem de Pedro Pires comunicando o bombardeamento do quartel de Quebo, dirigido por Júlio de Carvalho, Joãozinho Yala e N'Quesna N'Puam (refere a utilização do sistema GRAD). | Data: Segunda, 2 de Agosto de 1971 | (...) .Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral (...)
 
(1971), "Comunicado - Candjafara", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_40598 (2025-12-22)


1. Aldeia Formosa (para as NT) ou  Quebo  (para o in) é atacada ou flagelado pelo menos 7 veses em 1969 e 1971, em pleno consulado  Spinolista, em:

  •  7/3/69, 
  • 8/3/69, 
  • 21/3/69, 
  • 9/7/71, 
  • 11/7/71, 
  • 31/7/71, 
  • 12/8/71... 
2. Em 1972 (e até ao fimda gierra), Aldeia Formosa continuou aq ser um objetivoo militar importante tanto para as NT como para o PAIGC. No livro da CECA sobre a atividade operacional no CTIG, pode ler-se:

(...) Em Agosto (de 1972), destacam-se as flagelações contra as posições das Nossas
Tropas em Olossato, na zona Oeste, Bafatá na zona Leste e Aldeia Formosa (4
vezes), Catió (4 vezes) e Bedanda (3 vezes) na zona Sul. (pág. 122)

(...) O ln implantou 47 engenhos explosivos sofreu 24 mortos, 14 feridos e
3 capturados e manteve uma actividade dinâmica com emprego de foguetões
122mm nos ataques aos aquartelamentos das Nossas Tropas em Aldeia Formosa,
Catió e Empada. O aquartelamento de Tabanca Nova, na zona Sul, foi
atacado cinco vezes. (pp. 122/123).

Excertos de: Estado-Maior do Exército; Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974). Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África; 6.º Volume; Aspectos da Actividade Operacional; Tomo II; Guiné; Livro III; 1.ª Edição; Lisboa (2015),  

Pergunto: faz sentido continuar a considerar o Cherno Rachid como um "agente duplo" ? Seriam estes ataques ou flagelações  apenas "manobras de diversão" ? 

Se o Cherno Rachide fosse uma peça importante do xadrez políticvo-militar do partido do Amílcar Cabral, por certo que o poupariam (pu arranjaraiam maneira de o levar para sítio "mais seguro", talvez do outro lado da fronteira... 

Mas não, o aquartelamento e tabanca de Aldeia Formosa /Quebo  é atacado com morteiro 81, canhão s/r 75, sistema Grad (os foguetões de 122 mm, o "jacto do povo")... A vida do Cherno Rachide esteve em risco por diversas vezes nestes ataques e flagelações. Portanto, Aldeia Formosa nunca foi um "santuário das NT". (Segundo o José Teixeira, o homem jogava com um pau de dois bicos, teria um sobrinho como comandante nas tropas do PAIGC, e os artilheiros do IN  nunca apontavam as armas para a tabanca... Ou então eram os "amuletos" do Califa que, segundo os meus soldados da CCAÇ 12, neutralizavam os ataques do IN.)

Não há mais registos, no Arquivo Amílcar Cabral, de ações militares do PAIGC contra Aldeia Formosa / Quebo onde vivia o Cherno Rachid, figura grada (e veneranda) do islamismo sunita na então Guiné Portuguesa... 

O que se terá passado para o PAIGC começar a bombardear n este importante quartel das NT, localizado junto à fronteira com a Guiné-Bissau, alienando o alegado apoio do Cherno Rachide ?  Parece yer havido um período de tréguas até 1969... 

O alargamento da pista de Aldeia Formosa (que passou a aeródromo), o início da construção da estrada Aldeia Formosa-Mampatá - Buba e da estrada Aldeia Formosa - Cumbijã - Nhacobá, o reforço dos meios militares do Sector S2 (CCAÇ 18, antiaéreas, etc.,  mais de 500 homens em armas, sob a dependenència do CAOP1, com sede em Cufar) são reveladores da importància estratégica de Aldeia Formosa (cuja conquista chegou a estar na mira de Amílcar Cabral, em vez de Guileje).

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 10 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27514: Casos: a verdade sobre... (60): Não se faz a guerra sem álcool (nem tabaco)