Pesquisar neste blogue

Mostrar mensagens com a etiqueta casos: a verdade sobre.... Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta casos: a verdade sobre.... Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28082: Casos: a verdades sobre... (75): O meu tio paterno Agnelo António Monteiro de Macedo (ilha do Fogo, Cabo Verde, 1925 - Lisboa, 1972), chefe de posto de Catió, preso pela PIDE em 1962/63, detido na Ilha das Galinhas e depois transferido compulsivamente para Moçambique (José Macedo, EUA)





Guiné > Região do Cacheu > Cacheu > DFE 21 (1973/74) > O então 2º ten fuzileiro especial posando, à civil,  na sua mota. Em 1971 tinha frequentado o 1º ano da Escola Naval e preparava-se para ingressar nos fuzileiros. Nesse verão, conheci-o e convi com ele na Lourinhã. Arranjou um trabalho sazonal no parque municipal de campismo  da Praia da Areia Branca.

Foto e legenda): © Zeca Macedo (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].



1. O nosso amigo e camarada de guerra, da Guiné, a viver nos EUA, desde 1977 (onde é advogado),  José Macedo, fez-nos um pedido sobre um tio paterno, que integrou  a carreira na administração ultramarina e passou pela Guiné nos anos 60.

Sabemos alguma coisa sobre esse tio, mas não o suficiente para poder ajudar o sobrinho. Recorremos  tambéma a algumas ferramentas de IA (Hemini/ Google, ChatGPT / Open AI)-


2. Mensagem do José Macedo (EUA); 

Data - sexta, 5/06/2026, 17:55

Assunto - Agnelo Macedo, chefe de posto na Guiné e depois em Moçambique

 Camarada Luís: o meu tio Agnelo Macedo, irmão do meu pai, era Chefe de Posto em Catió, na Guiné. Foi preso pela PIDE, enviado para a Ilha das Galinhas em 1962 ou 1963 por alegadamente ter tido reuniões com dirigentes do PAIGC. 

Gostaria de saber se alguém da(s) unidade(s) estacionada(s) em Catió durante esse período se lembra desse episódio da prisão do chefe de posto . 

Mantenhas, Zeca. 

PS1 - Quando saiu da Ilha das Galinhas foi enviado para Moçambique onde foi chefe de posto em Nacala, concelho de Nampula. Teve problema nos rins, possivelmente pela “porrada” que levou na “prisão” veio a falecer em Lisboa em 1972. Obrigado pela tua assistência.

PS2 - (...) Em 62 João Bacar Jaló foi nomeado Chefe dos Caçadores Nativos no Sector Catió/Cacine. E Foi em Catió que o meu tio conheceu os pais do Zikky (Sayeg) de quem era padrinho. Mantenhas e obrigado.



Agnelo António Monteiro de Macedo (1925-1972):: quando joveme na idade adulta

Fonte: Genealogia...https://www.barrosbrito.com/8286.html (com a devida vénia)


3. Resposta do editor LG:

 O teu tio, que tem o mesmo nome do teu mano, Agnelo Macedo (n. 1952, capitão-de-mar-e-guerra, na situação de reforma) é este teu patrício, nascido em 1925. Descobri em:  https://www.barrosbrito.com/8286.html

Agnelo António Monteiro de Macedo (1925-1972): 

  • data e local de nascimento: 4 mar 1925, N. Senhora da Conceição, São Filipe, Fogo, Cabo Verde;
  • data e local do óbito: 23 mai 1972, Lisboa, com 47 anos de idade;
  • era filho de Joaquim Botelho da Costa Monteiro de Macedo (1894-1943) e de Palmira Monteiro (1903-1983);
  • o pai era engenheiro electrótecnico, nascido a 16/12/1895, em S. Filipe, casado (1º casamento) com Palmira Monteiro, natural do Fogo; formado pela Universidade de Toulouse, França; foi nomeado em 17 jan 1922 administrador do concelho da Ilha de S. Vicente mas foi exonerado a seu pedido, dois meses depois  (tendo sido nomeado para substituí-lo o seu primo Simão José Barbosa); foi nomeado presidente da câmara municipal do Fogo em 3 jul 1928;
  • o Agnelo Monteiro era, em 1944, estudante, solteiro, residente na Cidade da Praia, Ilha de Santiago, Cabo Verde;
  • em 26 fev 1946 entrou para os Correios e Telégrafos de Cabo Verde; 
  • desportista, foi um dos sócios-fundadores do Boavista Futebol Clube,  da cidade da Praia (3 de março de 1948);
  • em data que não podemos precisar, seguiu como funcionário administrativo para a Guiné (então portuguesa); dali foi transferido para o nordeste de Moçambique (Nacala, distrito de Nampula).

3. Contexto 

Com base nos dados fornecidos e no cruzamento com o contexto histórico-administrativo e militar da época (transição de 1961 para 1963), aqui estão os caminhos e os factos que ajudam a reconstituir e a validar o pedido do Zeca Macedo. São os anos da contestação nacionalista na Guiné, e também os  "anos de chumbo", de forte repressão das autoridades locais (PIDE, polícia administrativa, exército).

(i) Catió e a prisão (1961/63):

O relato do Zeca Macedo é historicamente muito verosímil e enquadra-se no xadrez político da Guiné naqueles anos cruciais.
 
A região de Catió (no sul da Guiné, junto à fronteira com a Guiné-Conacri) foi a zona escolhida pelo PAIGC para a infiltração inicial e mobilização política, culminando no início oficial da luta armada na "Frente Sul" em 23 de janeiro de 1963 (com o ataque ao quartel de Tite, na região de Quínara). 

A partir de 1961/62, a rede clandestina do PAIGC operava intensamente nos regulados de Quínara e de Tombali e à volta dos postos administrativos daquela zona.

(i) O papel do Chefe de Posto: 

Se o Agnelo esteve de facto em Catió, pode-se levantar a questão de se saber se era Chefe de Posto ou Administrador... Catió, em 1971, já era Concelho...

Como Chefe de Posto Administrativo em Catió (ou no concelho de Catió), Agnelo Macedo controlava o território, a cobrança do imposto de palhota e o contacto direto com as populações locais (maoritariamente nalus e fulas na região, mas também balantas, grandes orizicultores). 

O Chefe de Posto Administrativo era responsável pela menor unidade administrativa (o Posto), em contacto direto com as populações locais, as autoridades tradicionais (régulos) e os assuntos quotidianos. O Administrador de Circunscrição (ou de Concelho), de 3.ª, 2.ª e 1.ª classe, era o magistrado administrativo que governava uma área geográfica mais vasta (a Circunscrição ou Concelho), coordenando vários postos e detendo amplos poderes civis, policiais e de fomento de instrução.

O facto de o Agnelo ser natural de Cabo Verde (São Filipe, Fogo) colocava-o frequentemente sob a mira de especial desconfiança por parte da PIDE, que receava a simpatia ou a colaboração das elites intelectuais e administrativas cabo-verdianas com o movimento liderado por Amílcar Cabral. Em muitos casos, havia laços familiares entre os cabo-verdianos, emigrados na Guiné e os militantes do PAIGC (que rapidamente se transformou em partido armado).

(ii) A Colónia Penal da Ilha das Galinhas: 

Situada no arquipélago dos Bijagós, funcionava precisamente como o destino principal para os presos políticos na Guiné (tanto guineenses como cabo-verdianos),  acusados de subversão ou cumplicidade com o PAIGC, antes e durante os primeiros anos da guerra (e até ao fim da guerra). 

A detenção por "alegadas reuniões com dirigentes do PAIGC" era o modus operandi clássico da delegação da PIDE em Bissau para neutralizar funcionários suspeitos de passar informações ou facilitar a logística nacionalista.

Mas tudo indica que o "suspeito" esteve detido (quanto tempo ?) na Ilha das Galinhas sem culpa formada e sem nunca ter sido julgado. Não se tendo provado que era "militante" ou "simpatizante" do PAIGC, terá sido deixado em paz mas transferido para longe, compulsivamente, para Moçambique. Caso contrário, poderia ter ido parar, no mínino, ao Tarrafal.

(iii) As unidades militares em Catió 

Para responder à dúvida do Zeca sobre quem se poderá lembrar desse episódio, seria fundamental identificar as subunidades militares que estavam estacionadas ou operavam em Catió no biénio de 1962/1963. Tarefa que é muito difícil ou praticamente impossível: em meados de 1962, haveria apenas uma secção a guarnecer Catió, segundo as nossas contas. 

Em todo o Sul (que abrangia as regiões de Qínara e Tombali), havia apenas, já em 1963,  um batalhão, o BCAÇ 237 (sem unidades orgânicas) (jul 61/out 63), com o comando sediado em Tite, e tendo sob o seu dispositivo e manobra  a CCAÇ 152 (em Buba) e CCAÇ 153 (em Aldeia Formosa) (mai 61/jul 63). 

Esta  última, comandada pelo cap inf José dos Santos Carreto Curto, manteve  "forças destacadas em Cufar, Catió e Bolama, por períodos variáveis" (forças essas que podiam ser de 1 secção, 1 secção reforçada, menos de 1 pelotão, 1 pelotão ou 1 pelotão reforçado, nunca uma companhia). E havia em Bedanda a 4ª CCAÇ Indígena (a partir de abril de 1967, CCAÇ 6).


Dispositivo das NT em 8 de agosto de 1962, assinalando-se com uma seta a vermelho Catió (que devia ter uma secção)

Fonte:  Excerto de: Estado-Maior do Exército; Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974). Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África; 6.º Volume; Aspectos da Actividade Operacional; Tomo II; Guiné; Livro I; 1.ª Edição; Lisboa (2014),  pág. 61.
 

Em 7/2/1963, a CCAÇ 153 foi rendida pela CCaç 274 (jan 62/ jan 64) e colocada em Bissau.  Esta fez operações no sector de Catió.

Sabemos por informações recolhidas pelo PAIGC, que Catió  tinha uma delegação da PIDE e ainda  "poucos soldados", por esta altura (c. 1962/63).

É hoje praticamente impossível encontrar  algum militar, ainda vivo, que tenha passado em 1962/63 por Catió e que se lembre de "ter ouvido falar desta história"... o desaparecimento ou a detenção abrupta do Chefe de Posto Agnelo Macedo pela PIDE. 

(iv) A Transferência para Moçambique e o fim prematuro de vida

A transferência de funcionários públicos "sob suspeita" ou após cumprirem períodos de detenção e inquirição  administrativa era uma prática comum do Ministério do Ultramar para afastar, dos palcos de conflito,  
os elementos ativos sem necessariamente os demitir de imediato (o que criaria mais contestação local).

O Agnelo Macedo morreu em maio de 1972, então o alegado episódio da prisão pela PIDE em Catió, em 1962 ou 1963, ocorreu cerca de dez anos antes da sua morte. Isso significa que ainda teria tido uma década de vida após esse acontecimento.

Ora, em muitos casos semelhantes da administração colonial, funcionários suspeitos de "simpatias nacionalistas" eram:

  • presos preventivamente pela PIDE;
  • sujeitos a inquérito;
  • transferidos compulsivamente para outro território ultramarino;
  • afastados de determinadas funções;
  • ou então demitidos da função pública.

A PIDE, apesar de tudo, não terá conseguido "provar" que o Agnelo Macedo era "turra"... O envio para Moçambique (um território imenso e, até 1964, ainda sem frente de guerra ativa) servia como uma espécie de "exílio administrativo". Agnelo Macedo terá continuado a sua carreira   na Administração Civil de Moçambique, como chefe de posto em Nacala,  no nordeste de Moçambique, durante a década de 1960.

O facto de ser cabo-verdiano é relevante. Nos anos que antecederam a guerra, vários funcionários cabo-verdianos da administração colonial mantinham relações pessoais e familiares com quadros nacionalistas da Guiné e de Cabo Verde. Isso não significa que fossem militantes do PAIGC, mas explica por que motivo alguns ficaram sob vigilância da PIDE.

Aliás, Catió era uma zona particularmente sensível. Mais tarde tornar-se-ia um dos principais teatros de operações do sul da Guiné. A partir do início da década de 1960, a polícia política observava atentamente funcionários administrativos, comerciantes e professores suspeitos de contactos com o movimento nacionalista.

O seu  óbito, registado em Lisboa a 23 de maio de 1972, com apenas 47 anos, sugere uma evacuação médica de Moçambique para a metrópole,  possivelmente devido a doença prolongada, uma realidade que afetava muitos dos funcionários que serviam em postos de isolamento e clima insalubre no Ultramar (com a agravante, neste caso, de ter sido preso e muito provavelmente torturado pela PIDE e internado na Colónia Penal da Ilha das Galinhas).

(v) Pistas para investigação adicional

Para robustecer  esta pesquisa e trazer respostas mais concretas ao Zeca Macedo, os caminhos documentais mais eficazes em Portugal são:

  • Arquivo Histórico Ultramarino (AHU): onde repousa o processo individual de Agnelo António Monteiro de Macedo enquanto funcionário do Quadro Administrativo Comum do Ultramar (Guiné e Moçambique); ali constam as nomeações, louvores, licenças e as notas de transferência;  seria importante saber, aqui, quem foram os administradores e chefes de posto de Catió entre 1958 e 1964, por exemplo;
  • Arquivo da PIDE/DGS (no Arquivo Nacional da Torre do Tombo): a consulta pelo nome completo no índice da PIDE/DGS poderá revelar a existência da ficha de cadastro político, o auto de detenção em Bissau e a ordem de internamento na Ilha das Galinhas entre 1962 e 1963;
  • Através do Digitarq 2026 (Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB), descobri que o processo deste antigo funcionário público ultramarino está na Torre do Tombo (ANTT): código de referência: PT/TT/DGAP-DIA/001/014275; pasta em papel, não está tratado arquivisticamente; produção: 1963 (?) - 1974 (?).
  • Condições de acesso: Não é comunicável. O acesso da documentação é regido pelo disposto no Decreto-Lei n.º 16/93, de 21 de Janeiro, tendo sido considerado que em matéria de comunicabilidade nos termos do ponto n.º 2 do artigo 17.º "não são comunicáveis os documentos que contenham dados pessoais de caráter judicial, policial ou clínico, bem como os que contenham dados pessoais que não sejam públicos, ou de qualquer índole que possa afetar a segurança das pessoas, a sua honra ou a intimidade da sua vida privada e familiar e a sua própria imagem, salvo se os dados pessoais puderem ser expurgados do documento que os contém, sem perigo de fácil identificação, se houver consentimento unânime dos titulares dos interesses legítimos a salvaguardar ou desde que decorridos 50 anos sobre a data da morte da pessoa a que respeitam os documentos ou, não sendo esta data conhecida, decorridos 75 anos sobre a data dos documentos"; e nos termos do ponto n.º 3 do artigo 17.º estabelece que "os dados sensíveis respeitante a pessoas colectivas, como tal definidos por lei, gozam de proteção prevista no número anterior, sendo comunicáveis decorridos 50 anos sobre a data da extinção da pessoa coletiva, caso a lei não determine prazo mais curto".
  • Veremos, em poste a seguir, que tendo o Agnelo morrido em 1972, portanto há mais de 50 anos, os familiares podem pedir o acesso ao processo.
No portal Casa Comum, da Fundação Mário Soares e Maria Barroso, não aencontrámos, numa pesquisa rápida,  nenhuma referência ao nome do Agnelo Macedo.

(Pesquisa: LG + Página de Barros Brito + Digitarq «  IA (Gemini IA / Google)
(Condensação, revisão/fixação de texto, itálicos, negritos, título: LG)
___________________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 6 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28077: Casos: a verdade sobre ...(74): A tragédia de Fajonquito, o "Dia Negro" de 2 de abril de 1972, domingo de Páscoa: evocandio duas das suas vítimas, oc ap art Carlos Borges de Figueiredo e o sold Pedro José Aleixo de Almeida (Cherno Baldé, o "Chico de Fajonquito)

sábado, 6 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28077: Casos: a verdade sobre ...(74): A tragédia de Fajonquito, o "Dia Negro" de 2 de abril de 1972, domingo de Páscoa: evocandio duas das suas vítimas, oc ap art Carlos Borges de Figueiredo e o sold Pedro José Aleixo de Almeida (Cherno Baldé, o "Chico de Fajonquito)




Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá >( Sector L2 (Bafatá) >  Fajonquito > 1971 > CART 2742 (1970/72) > "Fajonquito em festa... Com a CART 2742 (1970-72), o ambiente entre a tropa e a população melhorou bastante, atingindo níveis nunca antes vistos. 
.
A foto de 1971 (amigavelmente enviada pelo ex-fur mil José Bebiano) mostra uma calorosa receção de um grupo de artistas vindos da metrópole para animar a malta. Ao meio e ao lado de uma das artistas pode-se ver o nosso saudoso Cap Carlos Borges de Figueiredo. 

O rapazinho nas mãos do homem dos óculos escuros é o Carlitos, filho de um soldado português. (Mais tarde, iria à procura do pai, tendo aquele recusado o encontro à última da hora.)

 O ex-furriel José Bebiano, que era de rendição individual, tendo feito toda a sua comissão em Fajonquito poderia, eventualmente, identificar os soldados que acompanham o seu Comandante nesta foto." (Foto de José Bebiano; legenda de Cherno Baldé).




Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá >( Sector L2 (Bafatá) >  Fajonquito > 1971 > CART 2742 (1970/72) > Dois furriéis milicianos, à esquerda o Alcino Franco Jorge da Silva (da CART 2742, morto em 2/4/1972, juntamente com o cap art Carlos Borges de Figueiredo, o alf mil José Fernando Félix, e o sold Pedro José Aleixo de Almeida) e o José Bebiano, à direita (era de Informações & Operações, de rendição individual,  e esteve  ainda uns meses em Fajonquito, com o José Cortes,  ex-fur mil at inf  CCAÇ 3549/BCAÇ 3884, Fajonquito, 1972/74, a companhia que foi render a CART 2742 ). 

 A CART 2742 pertencia ao BART 2920 (Bafatá, 1970/72). (O José Bebiano, em 2010, era ex-professor de Educação Física em Moura, aposentado desde 30/11/2009; nunca respondeu ao nosso  convite para integrar a Tabanca Grande; tem página no Instagram)
 
Fotos (e legenda): © José Bebiano (2010). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagemcom'plementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].
 

1. Comentário de Cherno Baldé na página do Facebook da Tabanca Grande, 5 de junho de 2026 17:42, com referência ao poste P28073 (*)


O Chico de Fajonquito,
com 14 anos (c. 1974)
(...) Quando falei deste caso no Blogue (**), referi que estava, no momento do rebentamento da granada, a uns 100 metros, na verdade, após verificação, constatei que estávamos, eu e um colega, a menos de 50 metros do local. A nossa sorte foi que tudo aconteceu dentro do edificio que servia de secretaria geral e escritório do capitão da companhia. 

Ouvimos o rebentamento e a seguir uma nuvem de poeira se levantou acima da cobertura de zinco, estávamos na época seca. A seguir, fugimos do local a sete pés e só voltámos quando a população se reuniu, à distância, para se inteirar do ocorrido e partilhar o sentimento de pesar e de luto. 

Foi um dia triste para todos os presentes, sem exceção. De facto, o depoimento do ex-furriel Rui Osório Oliveira (*)  é verídico e oferece-nos detalhes importantes que fazem toda a diferença sobre este caso e, a meu ver, a tese do acidente ganha vulto, afastando a de homicídio premeditado. 

Também, ficamos a saber que, o que estava em causa seria a possibilidade de continuar na tropa e não, necessariamente, na Guiné. 

2. Comentários anteriores do Cherno Baldé sobre esta tragédia (homicídio ? acidente ?) e duas das suas vítimas, o cap art Carlos Borges de Figueiredo, natural de Vila Pouca de Aguiar, e o sold Pedro José Aleixo de Almeida, natural de Portel- (Já agora acrescente-se o concelho da naturalidade das outras duas vítimas deste "acidente com arma de fogo": o fur mil Alcino Franco Jorge da Silva era de Cascais;  o alf mil José Fernando Félix era de Moimenta da Beira.)


Cherno Baldé
(c. 2009)

(...) Pela versão que prevaleceu entre nós, alegadamente, o soldado Almeida estava revoltado por não poder voltar à sua terra após várias comissões de serviço, em virtude de um castigo a que estava sujeito e tinha decidido acabar com a sua vida e com ele, também, a do comandante da companhia. 

Claro que isto faz parte dos rumores que circularam, na ausência de informações oficiais, na altura.

Quero dizer a quem me quiser ouvir, e isto por minha conta, que o Almeida era um soldado "profissional", muito aguerrido,  que dificilmente poderia levar uma vida civil pacata no meio indígena ou gerindo uma lojeca ou um restaurante para servir a malta europeia numa cidade qualquer da Guiné. 

O Almeida não era um soldado vulgar e via-se claramente que não se tinha integrado na companhia dos restantes soldados e milicianos pelos quais  quais ele nutria muita pouca consideração e/ou respeito.

Tão pouco se podia integrar no meio dos pretos,  embora se identificasse com eles. Penso que, antes de mais, o nosso amigo Ameida (ele era de facto um amigo e defensor das crianças que frequentavam o aquartelamento, ai de quem se atrevesse a fazer mal a uma criançaa na sua presença!) deve ter sido mais uma das inúmeras vitimas daquela guerra terrível. (..) (**)


(...) "O que vou dizer pode parecer paradoxal se não incongruente. O sr. Carlos Borges de Figueiredo, ao contrário de muitos outros, foi um capitão pacifista pois ele tinha-se distinguido, sobretudo, pela promoção da educação entre as crianças nativas (o número de alunos na escola local tinha aumentado significativamente facto que poderia estar ligado ao ambiente de paz criado e uma grande sensibilidade pelos problemas sociais da população) e organização de eventos sócio-culturais que, não só afastavam, por algumas horas, o espectro da guerra e da morte entre a tropa mas eram também muito úteis e importantes na construção de relações de aproximação e de confiança com a populaçã local, tão prezada por general Spínola.

Foi nessa altura que, pela primeira vez, recebemos a visita de grupos musicais vindos da metrópole. Numa dessas visitas, lembro-me da presença de uma ou mais mulheres cantavam o Fado. A música era muito morna, lenta demais para o nosso gosto temperado na ritmada, quase violenta dança de tambor mandinga. 

No meio de tudo isso, não nos escapou um detalhe importante. Notámos a deferença e o extremo respeito com que todos a(s) tratavam. O respeito dado àquela(s) mulher(res) contrastava de forma flagrante com a maneira como habitualmente lidavam com as nossas mulheres, fossem elas grandes ou pequenas. E não estou a referir-me, claro a esta, à esposa do capitão que, também, deve ter visitado Fajonquito.

Ele ficou conhecido no meio da populacao local com o nome de Capiton Lelö Dahdè, o que na lingua fula significa o Capitão Cabeça inclinada. Talvez aqueles que o conheceram de perto me possam corrigir, parece que ele tinha o hábito de inclinar ligeiramente a cabeça para um dos lados, daí o nome com que o baptizaram e que fica para a história." (...) (***)

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28072: Casos: a verdade sobre ...(73): A tragédia de Fajonquito, o "Dia Negro" de 2 de abril de 1972, domingo de Páscoa (Rui Oliveira, ex-fur mil trms, CART 2742 / BART 2920, 1970/72)




Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Sector L2 > Fajonquito > CART 2742 > Domingo de Páscoa, 2 de abril de 1972. Os momentos dramáticos que antecederam a tragédia.

Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: Rui Osório Oliveira
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.



1. Mensagem recebida através do  Formulário de Contacto do Blogger 

Data - 4 de junho de 2026 11:22 

Assunto - Narrativa da morte de vários elementos da CART 2742, em  02/04/1972

1.1. Era furriel de transmissões na CART 2742 e gostaria de enviar um documento com a realidade do que presenciei detalhadamente no trágico dia de 2 de Abril de 1972 onde morreram o capitão Borges de Figueiredo, o alferes Félix, o furriel Alcino Silva, e o soldado Almeida que originou o acidente.

Muito do que consta no blog sobre o trágico dia é FALSO (*)

Gostaria rectificar o evento com a minha narrativa (**).

Cumprimentos,

Rui Osório Oliveira, F.N. 07486708  | 
Endereço de email: (...)

Rui Osório  Oliveira 
IT Remote Worker
Vive na Murtosa
(Foto no Linkedin)

AC 101 517 505
ICT System Engeneering
ICT Functional Analysis
WEB.3 - Blockchain
New Business Development
UN Online Volunteer 2010 AWARD

1.2. BART 2920 – CART 2742 - O DIA NEGRO – Dia 2 de Abril de 1972, Domingo de Páscoa


Era habitual aos domingos jogarmos Poker de Dados, éramos 5 habitualmente, o capitão
 [Carlos Borges Figueiredo ], o sargento Moura, o alferes Félix, o furriel Alcino Silva e eu.

Já tinha decorrido algum tempo de jogo quando abruptamente a porta do bar foi aberta com violência. Era o já referido soldado Pedro Almeida, ex-comando, tinha sido expulso da sua unidade e colocado na nossa companhia, para seu castigo e nossa desgraça. 

Na sua mão esquerda tinha uma granada defensiva sem cavilha de segurança. De imediato nos levantámos e o Almeida só dizia: “Quero falar com o nosso capitão”, frase que repetia constantemente, sem uma palavra trocada entre nós, que estávamos a jogar. 

Fomos tentando acalmar o Almeida e instintivamente tentado nos afastar do bar e aproximar de uma saída, estávamos no meio dos corredores na posição que mostro no esquema que segue.


[ Infografia: Rui Osório Oliveira, 2026]


Quando da passagem pedonal se ouviu a voz de um soldado: "É preciso alguma coisa, meu  capitão ?". 

O Almeida, sem mover do sítio os pés, torceu o seu tronco em direcção à voz que se tinha ouvido, apontando com o seu braço esquerdo que segurava a granada e disse: "Ide embora que isto não é convosco, mas com o nosso capitão". 

Neste preciso momento, em que acabou a frase, deu-se a explosão da granada que ele, devido ao seu gesto. deve ter aliviado a alavanca de segurança provocando o seu despoletar. 

Após o primeiro impacto vi o capitão, o Félix, o Alcino e o Almeida por terra tendo tido morte instantânea, os corpos estavam completamente dilacerados, o sangue jorrava por todos os lados. 

No corpo do soldado Almeida havia um buraco em forma de semicírculo que ia da axila esquerda à anca esquerda curvando até á coluna vertebral. Foi este facto que salvou o sargento Moura, que teve unicamente escoriações, e a mim que tive escoriações também, mas em menor grau. Um estilhaço ainda permanece incrustado num osso na base esquerda da minha mão direita, outros tive no braço e na cabeça, mas desapareceram com o tempo.

Fiquei em estado catatónico, e a primeira pessoa a chegar foi o Cabrita Martins que, vendo o meu estado,  me deu um estalo e gritou: "Vai para o rádio e pede socorro". Assim fiz.

Não passou muito tempo quando chegou o general Spínola, de helicóptero, com a sua comitiva entre os quais um médico, que após uma rápida vista dos corpos, viu o sargento Moura e depois a mim, mandou-me tomar um Valium 10mg, só foi pena não me ter dito para não tomar bebidas alcoólicas, o que fiz até voltar para casa.

O general Spínola reuniu os que estavam presentes numa grande roda disse umas palavras de circunstância, alertou para o sucedido, agradeceu o nosso esforço e despediu-se, voltou para o helicóptero e foi embora com a comitiva.

Vi umas mensagens que, entretanto, tinham chegado e fui ao local do acidente onde se encontravam os enfermeiros,  ajudados por outros militares a transportarem o que restava
dos corpos para a enfermaria e posteriormente seguirem para Bissau.

Sei perfeitamente o que o soldado Pedro Almeida queria dizer ao acpitão, era que o deixasse ficar na tropa quando acabasse a comissão, por mais de uma vez o tinha feito anteriormente, mas o capitão nada podia fazer, após o que lhe tinha acontecido em Viana do Castelo, que levou o Almeida a ser expulso dos comandos e vir para a CART 2742. Com tal evento registado jamais poderia permanecer nas forças armadas.

Também sempre senti na pele que, pelo facto de dormir fora, numa moradia, com outro furriel, ter um laboratório de fotografia, e o capitão falar isoladamente comigo, criou um certo mal-estar, quanto à minha pessoa. Sentia-se constantemente algo no ar, no entanto realço que nunca senti qualquer diferença da amizade que me tinham e eu tinha por eles ou diferença de tratamento.

Ao fim da tarde desse dia fui para o bar do sr. Avelino, sentei-me numa mesa que estava num canto, virado para esse mesmo canto, pedi ao ajudante do sr. Avelino uma garrafa de whisky e bebi-a até ficar sem gota, não falei com ninguém, só me fui embora já era de madrugada e ninguém a não ser o sr. Avelino se encontrava no bar, nem na rua. 

Desde esse dia nunca mais consegui entrar à noite no quarto que partilhava com o Alcino Silva, passei a dormir em casa da Cristina, mulher de idade avançada, que me tratava da roupa, onde vivia também a Mimi, mulher linda, com quem eu ficava. 

Quando o acidente ocorreu faltavam cerca de 2 meses para o fim da comissão de serviço e regresso à metrópole. Foi um acidente que me traumatizou para toda a vida e que ainda hoje me vem frequentemente à memória e em pesadelos. 

Este acidente foi ainda mais penoso para mim, pelo simples facto de que o capitão, quando foi de férias pela primeira vez, chamou-me ao gabinete, e disse-me: "Dá-me o endereço de teus pais, porque  quero visitá-los". 

E assim fez, acompanhado de sua esposa, a dra.  Rosa Figueiredo, esta falava frequentemente com a minha mãe, dando notícias minhas, pois eu detestava escrever aerogramas, a tal ponto de alguém ter comunicado o facto ao comando militar de Bissau, tendo eu recebido uma missiva a mandarem-me escrever para a família, e continuar a fazê-lo regularmente sob pena de sanção disciplinar. 

Havia imensas hipóteses de contacto, para provocarem esta reacção, a minha família conhecia a família dos 2 majores do Batalhão  [BART 2920], e uma grande amiga de minha mãe conhecia o comandante do Batalhão, factos que só vim a constatar na altura em que vim férias, no Carnaval de 1971.

Há um hiato de tempo que permanece completamente em branco na minha mente, um período que vai desde este acidente e o já estarmos em Bissau para regressar à Metrópole.

Estava eu e o sargento Moura no Hotel que fica à esquerda de quem desce pela avenida
[da República, hoje av Amílcar Cabral], frente ao Palácio do Governador. Em dois quartos frente um ao outro, e de o Moura me ter pedido para o ajudar a conferir as contas da companhia, dado que conhecia os meus conhecimentos de contabilidade e já o tinha ajudado por diversas vezes anteriormente, dado que existia um erro no balanço final. Ajudei-o e não me lembro da continuação.

Recordo, sim, que eu me sentia mal da minha cabeça, descuidando por vezes a minha aparência. A última recordação da Guiné é de eu estar na 5ª Rep [ Café Bento]. a beber uma cerveja,  quando chegou ao meu lado um polícia militar, era periquito, notava-se pela farda e branquinho de pele, que me disse: “Meu Furriel,  peço-lhe que se recomponha e aperte os botões da camisa e endireite a gravata, senão sou obrigado a dar-lhe ordem de prisão”. 

Eu não disse nada, fiquei a olhar para ele, talvez com cara de parvo, quando vi alguém, um major do  [BART 2920] , chegar ao meu lado e dizer ao PM: “Você vai sair daqui imediatamente ou quem lhe dá ordem de prisão sou eu”. Recordo que ainda houve uma troca de palavras, mas o PM pôs-se na alheta.

O próximo facto de que me recordo, foi já no aeroporto de Figo Maduro, chegar ao pé da família e primos(as) Amaral, de Lisboa, lembro-me de ter entregado à Nanducha um ceptro
dos nativos guineenses. Fomos para um quartel junto ao aeroporto, desfardarmo-nos, vestimos a roupa civil e fui ter com a família, voltei para casa no Porto.

Passado uma prima disse-me: “Ó rapaz quando chegaste ao pé de mim, parecias um Zombie!”.

Este evento mudou completamente o meu mundo, e durante muitos anos ninguém notou, reparou ou analisou o que se passava. Quando tentava falar do que se passava comigo,
acusavam-se de ser solitário, “doido”, “maluco”, “parvo” e "deixa-te disso".

Certo dia numa visita de rotina à médica de família, a mesma notou que algo se passava comigo e perguntou-me o que se passava e o que se tinha passado na Guiné. Receitou-me
um calmante e sem me dizer nada enviou um pedido de agendamento de consulta de psiquiatria no Hospital Magalhães Lemos
 [HML].

Passadas umas semanas,  recebo um convocatória para me apresentar numa consulta no HML, estava nesse momento internado no Hospital Joaquim Urbano, nas infecto-contagiosas com um abcesso de 7 cm no fígado, tendo aí permanecido 1 mês e meio.

Levaram-me à consulta numa cadeira de rodas numa ambulância. No final da consulta receitaram-me Efexor e o psiquiatra comunicou-me que iam iniciar um processo de Stress Pós-Traumático de Guerra, e para avisar quando tivesse alta do Joaquim Urbano.

Assim fiz. Permaneci no HML em regime Ambulatório durante 11 meses e fui acompanhado durante 13 anos com consultas periódicas. 

Passados uns tempos e, após várias consultas no Hospital Militar e  Juntas Médicas, foi-me reconhecida em 29 de outubro de 2008  Deficiência de 39% das minhas capacidades de saúde mental, tendo como tal direito a uma Pensão de Deficiência do Exército via CGA  [Caixa Geral de Aposentações].

Passaram-se 10 anos e, em todas as tentativas do obter a situação do processo, sempre recebi a resposta de ainda não se encontrar finalizado. Nesta altura estava completamente
desaustinado e resolvi apresentar a minha situação no Portal da Internet do Provedor de Justiça, lembro-me do último parágrafo: “Penso que estão à espera de que eu morra para
não pagarem a Pensão a que tenho direito...”

Estávamos em outubro de 2018, no dia seguinte recebi um email do secretariado a comunicarem-me que sido iniciada a análise expedita do meu processo. Tendo na altura
recebido o conteúdo de uma cópia do processo da morte do capitão Borges de Figueiredo, alferes Félix, furriel Alcino Silva e soldado Almeida.

O que mais me custou foi ver os falsos testemunhos dados por vários elementos da companhia, nomeadamente sargento Moura, alferes Baltasar Gomes da Silva e mais um soldado de que não me recordo do nome, afirmando que eu não estava presente durante o acidente. 

Valeu o relatório efectuado por um membro da comitiva em que estava exarado que estava presente no momento acidente, tendo saído ileso unicamente com alguns estilhaços no braço direito que estava estendido, milagrosamente, devido ao facto de o corpo do soldado Almeida, dado que se tinha virado para o soldado que tinha falado, ter absorvido o impacto da granada, salvando igualmente o sargento Moura e  tendo este sofrido mais escoriações.

No dia 18 de novembro estava em Lisboa, dado que a minha irmã se tinha suicidado atirando-se para a Linha do Metro quando este ia a passar, tendo sido trucidada. Estávamos em casa de um familiar, e após os trâmites legais, identificação do corpo, levantamento dos seus pertences e cremação no cemitério de São João. 

Na viagem de regresso ao Porto no Alfa Pendular,  em determinada altura resolvi ligar o telemóvel e ver os emails recebidos, entre eles encontrava-se um da CGA, a dizer  que o processo tinha sido aprovado e que iria receber os retroactivos que tinha direito desde o início do processo até à data, passando a partir desse momento a receber a Pensão de Deficiente mensalmente via CGA.

Rui Osório Oliveira

(Revisão / fixação de texto, parênteses retos, links: LG)

___________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. postes de:

16 de agosto de 2014 > Guiné 63/74 - P13505: Quem era, afinal, o cap art Carlos Borges de Figueiredo, cmdt da CART 2742 (Fajonquito, 1970/72), morto em 2/4/1972, num sangrento domingo de Páscoa? Bem como o infeliz sold Pedro José Aleixo de Almeida? (José Cortes / Luís Graça / Carlos 'Gomes' / Cherno Baldé / António Bernardo)

14 de Novembro de 2011 > Guiné 63/74 - P9041: Memórias do Chico, menino e moço (30): A propósito do poema K3, de Nuno Dempster: Relembrando dois malogrados capitães de Fajonquito, Carlos Borges Figueiredo (CART 2742) e José Eduardo Marques Patrocínio (CCAÇ 3549) (Cherno Baldé)


terça-feira, 28 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27962: Casos: a verdade sobre... (73): Kalasnikovomania - Parte VIII: Fui uma vez (e única) para o mato com uma AK 47 (que sabia manejar). Tinha um bornal para os quatro carregadores, o que era incómodo e desequilibrava o andar... O capitão, "periquito", que foi comigo, também levava uma, mas nem sequer conhecia a arma (Paulo Santiago, cmdt, Pel Caç Nat 53, Saltinho, 1970/72)


Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Sector L5 (Galomaro) > Subsetor do Saltinho > Março de 1972 >  Nas proximidades da foz do rio Cantoro > O Paulo Santiago, e junto dele duas espingradas automáticas AK 47, e numa delas o respetivo bornal (que levava 4 carregadores)

1. Texto publicado na página do Facebook da Tabanca Grande,  (sábado, 25 de abril de 2026, 00;46) pelo Paulo Santiago, ex-alf mil at inf, cmdt Pel Caç Nat 53 (Saltinho, 1970/72), autor da série "Memórias de um comandante de pelotão de caçadores nativos"(*). Tem mais de 210 referências no nosso blogue, para o qual entrou em junho de 2006.


Mais uma história em que entra a AK 47... 

por Paulo Santiago

Naquele dia, fins de março de 1072, facilitei, podia ter sido pior.


1- O capitão, comandante da CCAÇ 3490, que conhecera dias atrás, convenceu-me a ir numa operação com o objectivo de ir armadilhar um local chamado de CeloCelo.

2- Tinha o meu grupo, o meu pelotão disperso, parte em Galomaro,o restante no Saltinho. Por este facto,mostrei reticências em acompanhar os dois pelotões daquela Companhia, e também pelo mau conhecimento dos homens.

3- Em resposta ao choradinho do capitão, "que eu já conhecia a zona",  e também por ele ser miliciano, levou-me a aceitar o "convite".

4- Iria com cinco soldados do meu pelotão, Pel Caç Nat 53.

5- Quando da saída, aparece-me o capitão com duas AK 47, uma para ele e a outra para mim. (Existiam oito AK 47 e dois RPG 2 para serem utilizadas por soldados do Pel Caç Nat 53 quando saíssem com o Grupo  do Marcelino da Mata, e por mais ninguém).

Acabei por levar a arma, sabia trabalhar com ela.

6- Fizemos um alto para comer, por volta das 12.00 horas, junto da foz do rio Cantoro.

Houve militares que se puseram em tronco nu. Um dos meus soldados veio avisar-me da presença de um ninho de abelhas nas proximidades e seria melhor o  afastamento para outro local. O capitão não atendeu ao alerta.

7- Houve o ataque dos insetos, uma enorme confusão, nós os seis retirámos com calma, mas alguns dos que estavam em tronco nu ficaram cravados. Seis evacuados por helis.

8- Acabou a operação. Regressei ao quartel, com os meus cinco soldados,  por um trilho que vinha por Cansamange, não fomos esperar as viaturas ao Quirafo.

9- Nunca mais andei de AK 47. Havia uma bornal para os quatro carregadores, o que era incómodo e desequilibrava o andar.

10- Soube posteriormente que o capitão nunca disparara uma kalash. (**)

(Revisão / fixação de texto, título, links: LG)

________________

Notas do editor LG:


(**) Último poste da série > 23 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27941: Casos: a verdade sobre... (72): Kalashnikovomania - Parte VII: até o ajudante de campo do gen Bettencourt Rodrigues, um tenente 'cmd', se rendeu aos encantos da AK-47 (segundo o fotógrafo António Murta) ou da SA Vz58 (na opinião do nosso especialista em armamento, Luís Dias)

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27941: Casos: a verdade sobre... (72): Kalashnikovomania - Parte VII: até o ajudante de campo do gen Bettencourt Rodrigues, um tenente 'cmd', se rendeu aos encantos da AK-47 (segundo o fotógrafo António Murta) ou da SA Vz58 (na opinião do nosso especialista em armamento, Luís Dias)

 


Espingarda automática, checoslovaca, SA vz58 P (com coronha, punho de pistola, e guarda-mão; e bandoleira). Fonte: cortesia de Wikipedia




Ak-47, de origem soviética. Aos olhos de um leigo, estás duas armas podem confundir-se.

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)




Foto nº 5B, 5A, 5> Guiné > Região de Tombali > Sector S2 (Aldeia Fomosa) > Nhala > 2ª C/BCAÇ 4513 (Nhala, 1973/74) > 23 de Abril de 1974 > "O tenente guarda-costas (que ostenta o crachá dos cmds na boina, e está equipado com uma Kalash), aproveita para ler uma carta chegada da Metrópole, quero crer. Porquê? Porque o envelope é debruado pelo tracejado característico do correio aéreo."



Foto nº 2 e 2A > Guiné > Região de Tombali > Sector S2 (Aldeia Fomosa) > Nhala > 2ª C/BCAÇ 4513 (Nhala, 1973/74) > 23 de Abril de 1974 > "Depois das honras militares o general cumprimenta o cmdt de Nhala, cap Braga da Cruz, da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513. Atrás de si, o Oficial de Dia, alf mil Campos Pereira. [No lado esquerdo da foto, vè-se o ajudante de campo de Kalash em punho.]"


Foto nº 3 > Guiné > Região de Tombali > Sector S2 (Aldeia Fomosa) > Nhala > 2ª C/BCAÇ 4513 (Nhala, 1973/74) > 23 de Abril de 1974 > "A comitiva dirige-se para o aquartelamento. À esquerda da imagem o coronel Hugo da Silva, Chefe do Estado-Maior, cumprimenta o Oficial de Dia. Em primeiro plano, de Kalashnikov, o tenente Ajudante de Campo. E guarda-costas, pareceu-me."


Foto nº 11  > Guiné > Região de Tombali > Sector S2 (Aldeia Fomosa) > Nhala > 2ª C/BCAÇ 4513 (Nhala, 1973/74) > 23 de Abril de 1974 > "As visitas preparam-se para partir. Ao volante do jipe, o Cmdt do Batalhão Ten-Cor Carlos Ramalheira e, ainda a subir, à esquerda, o Cmdt de Operações do BCAÇ 4513, Capitão Cerveira. De cigarro, à direita, o Coronel Hugo da Silva. No jipe de trás o resto da comitiva, apenas se reconhecendo ao volante o Major Dias Marques  [e o ajudante de campo que se preparava para tomar o seu lugar, atrás, no lado direito, no jipe da frente]. A comitiva dirigiu-se a Aldeia Formosa, onde o general almoçou regressando logo a seguir a Bissau."


Fotos do álbum do António Murta, ex-alf mil MA, 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (Aldeia Formosa, Nhala e Buba, 1973/74). Manteve-se a mesma numeração.(*)

Fotos (e legendas): © António Murta (2015). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. É mais um caso de... kalashnikovomania ?! Podia chocar alguns de nós ao ver o ajudante de campo do governador e comandante-chefe que sucedeu ao gen Spinola optar, em vez da G3, por uma arma  com que os  homens do PAIGC nos matavam..

Mas há aqui uma dúvida: trata-se de um AK-47  (como diz o fotógrafo, António Murta)  ou de uma  SA Vz58 (como garante o nosso especialista em armamento, Luís Dias) ?

 Este último diz que é uma SA Vz58:

(...) "Na foto nº 5 é identificado um Tenente dos Comandos, referindo que o mesmo porta uma espingarda de assalto Kalashnikov. 

No entanto, a arma que ele transporta é uma SA Vz58, de origem Checoslovaca, com aparência semelhante à AK-47, mas opera num sistema diferente. 

Estas armas foram adquiridas aquando da Operação "Mar Verde", em 1970, efectuada na República da Guiné-Conacri. Continuaram a ser usadas por forças dos Comandos na Guiné (graduados) e era a arma preferida do então alferes Marcelino da Mata, quando comandava o Grupo de Operações Especiais, mais conhecido pelo Grupo do Marcelino da Mata. (...)

quinta-feira, 21 de março de 2024 às 11:41:00 WET 

2. Comentário do editor LG:

Luís Dias, obrigado pelo teu comentário. Tens "olho clínico", és  bom observador e sobretudo és especialista em armamento.... És capaz de ter razão, a arma do ajudante de campo ( e guarda-costas, o dois em um) não será uma AK-47 mas a tal SA Vz58 (a avaliar por pequenos pormenores como o feitio da coronha, o tapa-chamas, a alça. a mira, o guarda-máo,  o punho, etc., além do porta-carregadores em couro).

Do que tenho dúvidas é em relação às armas que foram adquiridas para equipar as forças que estiveram empenhadas na Op Mar Verde (22 de novembro de 1970). 

De acordo com o António Luís Marinho ("Operação Mar Verde: um documento para a história", s/l, Círculo de Leitores, 2005), foram compradas 250 espingardas automáticas AK-47, além de 20 morteiros  e 12 RPG-7, encomenda feita diretamente à então URSS (!) pela empresa portuguesa "Norte Importadora", de João Zoio, e paga pelo cheque nº 30983. no valor de 3450 contos, endossado ao inspetor da DGS, Barbieri Cardoso (pág.  79). (Essa importância seria equivalente, a preços de hoje, a mais de 1,2 milhões de euros, era muita massa.)

A título de curiosidade:

  • Cada AK-47 (equipamento completo, incluindo 4 carregadores) custava 5750 escudos em 1970 (c. de 2000 euros); loop
  •  Cada mil munições 7.62 para a Kalash custava mil euros (a preços de hoje);
  •  Já o RPG-7 (LGFog) custava 50750 escudos (c. 17,8 mil euros);
  • Cada granada-foguete perfurante (para a bazuca) andava à volta de 1750 euros;
  • O morteiro 82 era ligeiramenet mais caro que o LGFog: 53879 escudos (c. 18,9 mil euros);
  • A granada de morteiro, HE (Altamente explosiva), era mais baratinha: c. 300 euros...

(Seleção e edição de fotos, revisão/ fixação de texto, parênteses retos, título: LG)

__________________

Notas do editor LG:

terça-feira, 21 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27936: Casos: a verdade sobre... (71): Kalashnikovomania - Parte VI: A AK-47 "made in China", que matou camaradas nossos (António Graça de Abreu, sinólogo)

Excerto do "meu diário secreto, ainda inédito, escrito na China, entre 1977 e 1983" (António Graça de Abreu)


Mais uns excertos do "diário chinês, secreto", ainda inédito, do nosso camarada António [José] Graça de Abreu

Recorde-se que ele viveu na China, em Pequim e en Xangai, entre 1977 e 1983; foi professor de Português em Pequim (Beijing) e tradutor nas Edições de Pequim em Línguas Estrangeiras.  

Na altura, ainda era, segundo sabemos, simpatisante ou militante do Partido Comunista de Portugal  (marxista-leninista), o PC de P (m-l), facção Vilar (Eduíno Gomes, mais conhecido por Eduino 'Vilar, n- Ervidel, 1944),   alegadamente o único partido comunista marxista-leninista reconhecido na época pela República Popular da China. Não havia outra maneira de ir entrar na China a não ser com o cartão deste minúsculo partido.

Ex-alf mil, CAOP 1 (Teixeira Pinto, Mansoa e Cufar, 1972/74), o António Graça de Abreu é membro sénior da nossa Tabanca Grande, e ativo colaborador do nosso blogue com cerca de 390 referências. 

Compulsivo  viajante, tem "morança"  em Cascais. É um cidadão do mundo, poeta, escritor, tradutor e reputado sinólogo. Nasceu no Porto em 30 de março de 1947. É casado com a médica chinesa Hai Yuan, natural de Xangai, e tem dois filhos, João e Pedro, e um neto (deste seu último casamento). 

(...) Pequim, 20 de Maio de 1981

Agora veio à China uma delegação da Frelimo, encabeçada pelo moçambicano Marcelino dos Santos, ministro da Economia. Li Shunbao, o intérprete desta delegação, trabalha comigo na secção portuguesa das Edições de Pequim em Línguas Estrangeiras e contou-me, com algum desgosto, a visita dos camaradas de Moçambique ao Armazém da Amizade, a maior loja de Pequim reservada apenas a estrangeiros. (...).


Pequim, 22 de Agosto de 1981

Mas quando é que eu ganho juízo? Hoje descubro outra mulher chinesa, quase a beldade perfeita, no lugar certo, passeando-se pelo Vale das Cerejeiras, por detrás do Wo Fo Si 卧佛寺, o templo do Buda Deitado, na Colina Perfumada, arredores oeste de Pequim. Dela, pouco mais fiquei a saber do que o seu nome, Liu Xiaochun, sendo Liu刘 o apelido de família e Xiaochun 小春, o nome próprio que significa "pequena Primavera, ou Primavera Breve."  (...)


Pequim, 30 de Agosto de 1981

Dia de, no Yuanmingyuan 圆明园, o Jardim da Perfeição e da Luz, antigo Palácio de Verão que data dos séculos XVIII e XIX, encontrar uma chinesinha que pega na minha mão, a pousa sobre o seu joelho bonito -- a palma da mão voltada para cima --, e que me lê a sina. Um portento, a mulher, Wu Mei 吴美 de seu nome, nascida em Nanquim, 23 anos, aluna do Instituto de Cinema de Xangai. Bruxa. Com toda a aprendizagem e tiques de actriz, mais a percepção do essencial das coisas da vida. (...)


Pequim, 18 de Novembro de 1981

Esta manhã chego à embaixada da União Soviética e o tovarich de serviço na Intertourist recebe-me com as seguintes palavras:

"Good morning, do you have American dollars?" (...)



Amadora, 15 de Abril de 1982


Comia sossegadamente o meu bife à hora do almoço quando vi, no pequeno écrã  da TV, um general chinês, de visita a Portugal, a depositar um ramo de flores no monumento aos soldados Comando mortos em combate em África, aqui ao lado no Regimento de Comandos da Amadora, o antigo RI 1 que tão bem conheci há dez anos atrás.

As voltas que o mundo dá, ou simplesmente o doce-amargo do fluir dos dias….

Quando em 1972 parti deste quartel para a guerra na Guiné levava o desgosto de, pequeno alferes miliciano, ir combater por uma causa em que não acreditava. Iria encontrar guerrilheiros que, melhor ou pior, lutavam pela independência das suas terras. 

Depois, em Teixeira Pinto e em Mansoa, no meu Comando de Operações, estive com as 35ª. e 38ª. Companhias de Comandos, impressionantes tropas de combate com quem fiz amigos e com quem cheguei a sair para o mato.[1].  Unidos, camaradas, lutávamos pela sobrevivência, pela vida.

Na Guiné-Bissau, em Mansoa, em Junho de 1973, após uma missão da 38ª. Companhia de Comandos, na estrada Jugudul-Bambadinca, vi-os chegar com quatro espingardas Kalashnikov capturadas aos guerrilheiros mortos numa emboscada, duas delas ainda com sangue fresco. 

Tomei uma das armas na mão, culatra atrás, bala na câmara e apontei para o céu. Eram quatro Kalashs fabricadas na República Popular da China, oferecidas pelos comunistas de Mao Zedong para matar tropas portuguesas

Dez anos depois, um general chinês coloca uma coroa de flores no monumento aos militares Comandos, homenageando os portugueses mortos, muito deles caídos diante das balas disparadas por estas armas, made in China. (...)
____________

(1) Ver o meu Diário da Guiné, 72-74, Lisboa, Guerra e Paz Editores, 2007, pags. 51 a 53.

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)
__________________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 20 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27932: Casos: a verdade sobre... (70): Kalashnikovomania - Parte V. eram ambas excelentes armas, a AK-47 e a G-3, ,mas a primeira foi a arma mais difundida a nível mundial... (Luís Dias, o nosso especialista em armamento)