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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27720: Casos: a verdade sobre... (63): o "cemitério de Cheche"

Foto nº 1A, 1B, 1 > Guiné > Região do Boé  >  "Cemitério à beira do Rio Cheche" (sic)... Estranha (e perturbante) foto do Arquivo Amílcar Cabral, sem legenda nem uma data precisas (1963-1973)... Estas cruzes só podem ser de militares portugueses, mortos por afogamento na travessia do Rio Corubal, em Cheche, em 6/2/1969... Devem ser captadas por gente do PAIGC.  Parecem ser 11 campas improvisadas, 8 assinaladas com cruzes de ferro e 3  em madeira.

Fonte: Instituição:Fundação Mário Soares e Maria Barroso | Pasta: 05360.000.124 | Título: Cemitério à beira do rio Cheche | Assunto: Cemitério à beira do rio Cheche, Guiné-Bissau | Inscrições: Cheche. | Data: 1963 - 1973 | Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral | Tipo Documental: Fotografias |

(1963-1973), "Cemitério à beira do rio Cheche", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_43446 (2026-2-9)
Foto nº 2 > Guiné > Região do Boé  > Cheche > Parecem ser restos do destacamento de Cheche, abandonado pelas NT em 6/2/1969, aquando da retirada de Madina do Boé.  A sua missão era proteger a jangada que fazia a cambança do rio Corubal. Ficava na margem esquerda. Chegou a lá haver uma pequena povoação.

Instituição: Fundação Mário Soares e Maria Barroso | Pasta: 05360.000.251 | Título: Depósito de combustível, em Cheche | Asunto: Depósito de combustível, em Cheche, localidade junto ao Rio Corubal. | Inscrições: Cheche | Data: 1963 - 1973 | Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral | Tipo Documental: Fotografias

(1963-1973), "Depósito de combustível, em Cheche", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_43064 (2026-2-7)



Guiné > Região de Gabu > Carta de Jábia (1961) > Escala 1/50 mil > Posição relativa de Ché Ché, na margem esquerda do Rio Corubal.  (Habituámos-nos a a grafar o topónimo como "Cheche". Mas na carta de Jabiá vem Ché Ché.)

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)


1. Ao que parece não foram resgatados nenhum corpos das 47 vítimas, por afogamento, na travessia do rio Corubal, em Cheche, na manhã,  de 6/2/1969, quinta feira. Foi a última travessia efectuada. A coluna (5 dezenasd de vituras) seguiu para Nova Lamego:

(...) " O Comandante da Operação  [cor inf Hélio Felgas] não permitiu que as duas Companhias [CCAÇ 1790 e CCAÇ 2405] permanecessem no Ché Ché para tentarem recuperar o maior número de corpos possíveis, seguindo por isso logo para Nova Lamego" (...).(*)

O cor inf Hélio Felgas, mais tarde, em 1995, já brigadeiro na reforma, escreveria:

(...) Aguardámos horas, com o helicóptero sobrevoando o local na esperança de localizar alguns dos desaparecidos. Dois ou três bons nadadores também mergulharam na zona onde acorrera o acidente. Nada foi encontrado.(...) (**)

No dia 20, quinta feira, duas semanas depois depois (!),  é que alguns corpos (11)  serão  resgatados a  jusante: a dúvida é saber exatamente em que local do rio.

No dia 20 de fevereiro de 1969, uma equipa de mergulhadores-sapadores da armada, após várias operações de busca, a cerca de 400 m a  jusante do local do acidente,  terão conseguido resgatar  os restos mortais de 11 militares (de resto, irreconhecíveis)

Outra dúvida: teriam sido, ou não, seguidamente helitransportados para Bissau e sepultados no cemitério municipal, no talhão dos combatentes ? Ficaram as cruzes e levaram os restos mortais dos nossos camaradas  ? Não nos parece. Os corpos deviam estar em adiantado estado de putrefacção.

E já agora: porquê 8 cruzes de ferro e 3 de madeira ? Teriam sido trazidas de Bissau, obviamente, as cruzes de ferro (que são do mesmo modelo das  usada no talhão dos combatentes portugueses,  no Cemitério Municipal de Bissau). E essas só podem ter sido colocadas pelas NT.

As cruzes de madeira temos que admitir que tenham sido improvisadas por gente da população local, fula, que conheciam os "tugas" antes da independência. De qualquer modo,  a foto  nº 1 tem se ser da época do acidente (1969). O Arquivo Amílcar Cabral só contempla imagens e outros documentos com datas até 1973 (ano da morte de Amílcar Caberal). Por outro, é de todo improvável  que estass inprovisadas e precárias  sepulturas tenham sobrevido às cheias que vieram logo a seguir, na época das chuvas de 1969.


Guiné-Bissau > Bissau > Cemitério Municipal > Talhão Militar Central > Abril de 2006 > Monumento que celebra os soldados portugueses, mortos nas diversas "campanhas de pacificação" da Guiné, desde a Campanha do Geba (1890) à Campanha do Cuor (1907/08), passando pelas Campamhas do Oio e Bissorã (1913), onde se destacou o Capitão Diabo, Teixeira Pinto. Este cemitério tem três talhões, reservados aos combatentes portugueses mortos em campanha).

Foto ( e legenda): © Hugo Costa (2006).Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

Mais provável é que que  o brigadeiro  Spínola (acompanhado de um  capelão de Bissau) tenha  assistido a esta delicada operação, como de resto era sua intenção,  operação que foi enquadrada por fuzileiros especiais e terá tido forte apoio aéreo.

Estas 11 cruzes da foto nº 1 vêm baralhar a nossa narrativa, também por causa da sua localização...  A foto do Arquivo Amílkcar Cabral tem como legenda: 

"Cemitério à beira do Rio Cheche" (sic).

Ora, não há nenhum rio Cheche, perto do local onde se deu o acidente. Há vários afluentes do rio Corubal, a montante e a jusante de Cheche (vd. carta de Jábai): o mais perto, é o rio Campossabane, a 600 metros,  a montante; a jusante, temos o rio Cambengoi (ou Cambengol), a 3,5 km;  o rio Canchã, a 7,5 km; e o rio Ché Ché Piri, muito mais longe, depois de várias curvas e contracurvas  do Corubal (vd. carta de Padada). Todos afluentes deste.

As cruzes foram colocadas pelos fuzileiros que terão recuperam alguns corpos, no dia 20 de fevereiro de 1969. Irreconhecíveis.

 A legenda deve, pois, estar errada. O rio Ché Ché Piri, afluente do Rio Corubal, ficava a jusante do local da tragédia, uns largos quilómetros abaixo. 

A seguir a Ché-Ché, uns 4 km, no sentido jusante, o rio Corubal fazia uma curva de 90 graus. A corrente deve ter arrastado os corpos. As margens aqui eram altas, cota 40/50. Estamos na época seca, o rio tem muito menor caudal, mas mesmo assim  a corrente era forte, segundo os testemunhos da época.


Guiné > Região de Gabu > Carta de Padada (1959) > Escala 1/50 mil > Posição relativa de Burmeleu, do  rio Ché Ché Piri, e de um troço do rio Corubal,  largos quilómetros a jusante do antigo destacamento de Ché Ché (na estrada Nova Lamego - Madina do Boé)

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)


De qualquer modo, esta foto deve ter sido tirada por alguém do PAIGC e enviada para Conacri. É a única referência (mesmo que indireta) que encontrei, no Arquivo Amílcar Cabral, a esta brutal tragédia que nos enlutou.

Há cinco referências a Cheche  (topónimo) no Arquivo Amílcar Cabtral:
  • as duas que publicamos acima (fotos nºs 1 e 2);
  • e, por fim, uma mensagem urgente do Secretário Geral, para o Boé, com data de 29 de janeiro de 1971, com informações sobre "uma grande ofensiva militar portuguesa no Boé (concentração das forças inimigas em Cheche)", solicitando-se ao Humberto e ao Silvino preparação cuidadosa da defesa da região e ligação permanente com o Secretariado Geral.
O erro no título ("Cemitério à beira do Rio Cheche" também pode ser imputado, eventualmente, aos ténicos da Fundação Mário Soares que trataram o Arquivo Amílcar Cabral. Mas inclinamo-me mais para a hipótese de ter sido legendada por gente do PAIGC, que conhecia mal o nome dos rios naquela zona. 

O António Rosinha reconheceu o local, onde esteve em 1986: ficaria a " montante da jangada menos de 100 metros na margem esquerda do rio" (!)... e não a jusante, como imaginávamos nós...(afinal, todos os rios correm para foz).

A haver ali um rio era o  o rio Campossabane, a montante,  a meio quilómetro de Cheche (segundo a carta de Jábia).  

2. Já tínhamos publicado em tempos esta foto (nº 1) que mereceu diversos comentários de dois  camaradas que conheceram a zona (*)

De qualquer modo, Cheche era  passagem obrigatória para quem vinha de Nova Lamego até Madina do Boé (e Guiné-Conacri) passando por Canjadude, sede da CCAÇ 5 (Os Gatos Pretos, a que pertenceu o fur mil trms José Martins, 1968/70). 

E a verdade é que ainda hoje não há ponte nenhuma, ali, no Cheche, para facilitar as comunicações com  o país vizinho. E, se calhar ainda bem (por razões ambientais).

(i) O nosso camarada José Martins pode esclarecer-nos melhor sobre onde terá sido tirada a foto.

(...) Esta foto, para mim, não é só surreal como ofensiva. A zona de Burmeleu, a jusante do Cheche, não tem as margens como a imagem sugere.

A tragédia ocorreu no rio Corubal e não no Rio Ché Ché Piri. Acho muito estranho que os militares do PAIGC, mesmo depois da independência, fossem retirar cruzes das campas dos militares portugueses, para as colocar ali.

Alguns corpos foram recolhidos por guineenses, mas não prestariam esta homenagem, até porque ocuparam o espaço de cemitérios com novas moranças, como se viu em reportagens televisivas, na zona de Bafatá. (...)

(ii) O Antº Rosinha que foi cooperante na Guiné, como topógrafo, depois da independência,  conheceu o local (em 1986):

(...) penso que aquele lugar fica a montante da jangada menos de 100 metros na margem esquerda do rio.

Evidentemente que ali não há cemitério nenhum. Pode ter havido ali algum tipo de cerimónia de militares nas margens do rio, como se costuma fazer de pôr uma cruz e flores à beira da estrada onde morre de acidente um familiar.

Aquele rio chega, ou chegava quando a Guiné estava mais longe do deserto que é hoje, a ter cheias em que esse lugar está debaixo de água.

Este acidente deu-se no tempo seco, e as chuvas começam em maio /junho (e vão até outubro/novembro),.

Ali é difícil o acesso às margens junto à agua, devido aos grandes arbustos que se debruçam sobre a água, e aquele lugar (que é igual àquele que eu penso) é alcantilado (arriba) mas sem os tais arbusto fechados.

Conheço bem o lugar, porque trabalhei como cooperante das Obras Públicas vários dias a tentar pôr aquela jangada e seus acessos funcionais, em 1986.(...)


(Não sei se é verdade tudo o que eu digo, mas o que digo é apenas o que vejo)

A imagem que se consegue ver no Google é apenas em cheias, pelo que não se vê este pormenor da margem que eu digo.

Mas a foto ou foi tirada de canoa ou de algum bote de fuzileiros, pois como se vê aquilo é uma arriba de dificil acesso, mesmo para uma foto, quanto mais para fazer sepulturas.

Em arribas não se fazem cemitérios, embora lá se encontrem dinossauros.

Contemos a história, e em memória dos que morreram, mesmo sem pôr cruzes, afirmar que não foram eles os culpados de haver tantos guineenses junto ao arame farpado de Ceuta. (...)

sábado, 6 de fevereiro de 2016 às 11:20:00 WET

Enfim, fica aqui o desafio aos nossos leitores para trazerem novos contributos para o esclarecimento deste "misterioso cemitério de Cheche"(***). 


domingo, 28 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27580: Casos: a verdade sobre... (62): Al-Hajj Cherno Rachide Jaló (1906-1973)... O itinerário das colunas que levaram, de Bambadinca a Aldeia Formosa / Quebo, os fiéis que foram à cerimónia fúnebre do imã (Paulo Santiago)


Guiné > Carta Geral da Província (1961) (Escal 1/500 mil) > Percurso (a amarelo) que seguiram os fiéis do Cherno Rachide que foram ao seu funeral em setembro de 1973:  Bambadinca - Xitole - Cambessê - Uria Candi - Cambança do Rio Corubal - Aldeia Formosa / Quebo. A vermelho, o troço  de estrada que estava interdito: Saltinho - Rio Mabiá - Contabane - Aldeia Formosa / Quebo. 

As distâncias quilométricas são mais ou menos as seguintes (hoje em dia): Bambadinca-Xitole: 30  km; Xitole-Saltinho, 20 km; Saltinho-Quebo: 20 km. No nosso tempo, e na época das chuvas, com risco de minas e emboscadas, uma coluna Bambadinca-Xitole-Saltinho podia levar um dia ou até mais... O troço Mansambo - Xitole-Saltinho esteve interdito cerca de um ano (set 1968/ set 69).

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2025)


1. Comentário do Paulo Santiago  (ex-alf mil, cmdt Pel Caç Nat 53, Saltinho 1970/72) (*):

O  poste do Luís fala numa coluna militar para levar os fiéis do Cherno Rachid, de Bambadinca a Aldeia Formosa (Quebo). 

Direi que seriam duas colunas. Assim,as viaturas saídas de Bambadinca seguiam em direcção ao Xitole,e aqui seguiam em direcção ao Saltinho.

Passada a tabanca de Cambessê,  a última do Xitole, poucos quilómetros  andados aparecia a tabanca de Uria Candi onde se cortava à direita por uma picada até atingir o rio Corubal, onde de canoa se cambava  para a outra margem onde estariam viaturas de Aldeia Formosa.

Uma vez, em  que fui a Aldeia Formosa, saí do Saltinho indo até à cambança e na outra margem tinha o pessoal de Aldeia.

O trajeto Saltinho-Rio Mabiá-Contabane estava minado pelas NT e pelo IN.








Guiné > Zona Leste > Setor L1 > Bambadinca > BCAÇ 2852 (1968/70) e CCAÇ 12 (1969/71) > Visita que o Cherno Rachide fez a Bambadinca, no início de janeiro de 1970...  As fotos devem ser de 10 de janeiro.

Fotos do álbum do ex-fur mil at inf Arlindo Roda, da CCAÇ 12 . Sem legenda. (Infelizmente as fotos do meu camarada Arlindo Roda não trazem legendas, local, data, etc.)... 

A personagem  de azul escuro  e "gorro" preto, assinalada a amarelo, tudo indica que seja o Cherno Rachide, a presidir a um encontro com os seus fiéis do regulado de Badora e outras paragens, que se deslocaram a Bambadinca para o cumprimentar, rezar com ele,  ouvir os seus conselhos, etc.. 

 Um seu "adjunto", vestido de branco e também com um gorro preto, segurando um lenço,  recolhe oferendas ao imã (moedas, "pretas" e "brancas", poucas notas, nozes de cola). O Cherno Rachide na altura teria 63 anos. Morreria  3 anos depois.

Recordo-me de as NT lhe terem armado uma tenda, no recinto do quartel de Bambadinca, para ele receber condignamente não só as autoridades locais, civis e militares, como também os seus fiéis...  O chão era coberto por tapetes. O gen Spinola deve ter mandado assegurar o seu transporte e acomodação. A ele e ao seu séquito.

Ele virá a falecer, em Aldeia Formosa, onde residia, em setembro de 1973, em dia que não podemos precisar.  

Na altura, o comandante do BART 3873 (Bambadinca, 1972/74) terá  organizado uma coluna de transporte  para os muçulmanos do sector L1  poderem ir prestar-lhe ( ao imã)  a última homenagem em Aldeia Formosa / Quebo.

No meu tempo ( 1969/71) o troço Saltinho- Contabane - Aldeia Formosa estava interdito, logo a partir da Ponte do Saltinho, sobre o rio Corubal... O transporte até Aldeia Formosa teria que ter segurança militar e seguir outro trajeto, como sugere  o Paulo Santiago, que conheceu bem o terreno  (esteve lá em 1970/72 e voltou lá em 2005 e 2008).

Foto: © Arlindo Roda (2010). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


2. De acordo com a História do BART 3873 (Bambadinca, 1972/74), há uns tantos pontos a destacar no mês de setembro de 1973:

(i) choveu intensamente, e as populações, nomeadamente, os balantas, ocupam-se dos trabalhos agrícolas (cultivo das bolanhas);

(ii) começou para os muçulmanos o Ramadão (de 27 de setembro a 26 de outubro de 1973); 

(iii) o comando do BART 3873 propõe, à Rep ACAP, que dois dos  mais prestigiados ( e "fiéis") régulos do sector L1, o do Xime e o de Badora, sejam escolhidos para a viagem de peregrinação aos lugares santos do Islão, a expensas do governo da província (o critério era sempre o apoio à "causa nacional");

(iii) o PAIGC escolheu, estranhamente (?), a data de 24 de setembro de 1973 (em plena época das chuvas e a 3 dias do início do Ramadão), para proclamar unilateralmente a independência da Guiné-Bissau (em local que ainda hoje é objeto de grande controvérsia, mas que a sua descarada propaganda teimou em dizer durante décadas que tinha sido... em Madina do Boé!) 

(iv) estranhamente, não: a 28ª sessão ordinária da Assembleia Geral da ONU acabava de se iniciar em 18 de setembro de 1973, e logo nesse dia as "duas Alemanhas", a República Federal da Alemanha (Ocidental) e a República Democrática Alemã (Oriental) foram admitidas simultaneamente como Estados-membros da ONU;

(v) morreu o Cherno Rachide (ou Rachid) de Aldeia Formosa / Quebo e o comando do BART 3873 prontificou-se a organizar uma coluna de transporte para os "muitos fiéis muçulmanos" (sic)  do setor L1 (Bambadinca) que quisessem assistir às cerimónias fúnebres; nesta altura, estava em Aldeia Formosa o BCAÇ 4513 (1973/74)-

As NT sempre deram grande importância à "lealdade" dos fulas e da sua elite dirigente, a quem o Amílcar Cabral chamava, com profundo desprezo, os "cães dos colonialistas".  Nunca saberemos ao certo qual o papel que o Al-Hajj Cherno Rachide  Jaló (1906-1973) desempenhou  na "nossa guerra" (***). 

Há quem, como o José Teixeira,  defenda a opinião de que os ataques e flagelações a Aldeia Formosa eram dirigidos para o aeródromo e  o quartel das NT, e nunca para a tabanca (onde residia o imã). E que, por outro lado, um seu sobrinho seria "cabo de guerra" na região, pelo lado do PAIGC (comandante de bigrupo, ou coisa parecida). 

Em conversa há dias com nosso camarada Arménio Santos (ex-fur mil, Rec Inf, Aldeia Formosa, 1968/70), que "trabalhou"  com o Cherno Rachide, no campo da informação e acção psicológica (e que, portanto, o conheceu bem), percebi que este dossiê ainda está longe de estar encerrado de todo. 

Oxalá apareçam mais histórias e testemunhos sobre o Cherno Rachide, cujo sucessor, o seu filho,  Al-Hajj Amadú Dila Djaló, será depois deputado pelo PAIGC, a seguir à independência, na Assembleia Nacional Popular. Contradições ? Realismo político ? O(s) poder(es) tem (têm) horror ao vazio. Sempre. Em toda a parte.


3. Excertos da H. U. (História da Unidade) | BART 3873 (Bambadinca, 1972/74) - Cap. II: 17º fascículo: setembro de 1973 , pp. 67/68/69 (***)







4. Excertos da história do BCAÇ 4513 (Aldeia Formosa, 1973/74) (Transcrição, para suporte digital: Fernando Costa) (****)

CAPÍTULO II > ACTIVIDADE NO TO DA GUINÉ > 4º Fascículo (período de 1Set a 30Set73)

(...) Verificou-se no período o falecimento do Cherno Rachid, chefe religioso de extraordinário prestígio no meio muçulmano, cuja perda abalou muita a população, receando-se não ser fácil encontrar quem o substitua com o mesmo prestígio e a mesma devoção à Causa Nacional (sic) (***).

No dia 29Set73 regista-se a chegada à Província do novo Governador e Comandante-chefe, General Bettencourt Rodrigues, que substituiu nos cargos o General António Spínola. (...)

5º Fascículo (período de 1Out a 31Out73)

(...) Durante o período continuaram a deslocar-se a Aldeia Formosa, em virtude do falecimento do Cherno Rachid, várias autoridades tradicionais, algumas estrangeiras, entra as quais se destaca o Cherno Aliu Cham, do Senegal.

Sekuna, filho do Cherno Racxhid, foi eleito, em assembleia dos "Homens Grandes", sucessor de Cherno Rachid.

Por motivo do acto eleitoral no dia 28 (*****),  e a festa do Ramadão nos dias 28 e 29, efectuaram-se diversas colunas a Buba, Nhala, Rio Corubal, para transporte da população. (...)

04Out73

(...) O Cmdt recebe a visita de todos os "Homens Grandes" da região que vêm comunicar que, reunidos em assembleia, elegeram Sekuna, filho do Cherno Rachid, como seu sucessor. 

Exprimem todo o seu apoio e lealdade à Causa Nacional. Este mesmo facto é comunicado à Rep ACAP, para ser transmitido a Sua Excelência Comandante-Chefe. (...)

09Out73

(...) Esteve presente no Comando do Batalhão, a apresentar os seus cumprimentos de despedida, o Cherno Aliu Cham, da Rep Senegal., e que agradeceu todo o apoio prestado quando do falecimento do Cherno Rachid e todo o apoio sanitário que continua a ser dado em todos os postos fronteiriços da Rep Senegal.(...)


28Out73

(...) Processou-se o acto eleitoral  (*****) e iniciaram-se as festas do Ramadão, que trouxeram a Aldeia Formosa muita população de Buba, Nhala e Saltinho. (...)

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, LG)
________________

Notas  do editor LG:

(*) Vd. poste de 23 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27564: (In)citações (283): Em louvor dos Postos Escolares Militares e do Cherno Rachide (Cherno Baldé, Bissau)

(***) Vd. poste de 23 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27565: Casos: a verdade... (61): Aldeia Formosa / Quebo é atacada ou flagelada pelo menos 7 veses em 1969 e 1971, em pleno consuklado Spinolista: em 7/3/69, 8/3/69, 21/3/69, 9/7/71, 11/7/71, 31/7/71, 12/8/71... E continuou a ser atacada ou flagelada em 1972... Faz sentido continuar a considerar o Cherno Rachid como um "agente duplo" ?

(****) Vd. poste de 27 de janeiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5716: Morte e sucessão do Cherno Rachide, ao tempo do BCAÇ 4513, em Set / Out 1973 (Fernando Costa)

(*****) Recorde-se que em  28 de outubro de 1973 realizou-se, em Portugal, as últimas eleições legislativas sob a égide do Estado Novo. 

Acção Nacional Popular (ANP), partido único do regime "recauchutado" (sucessor da União Naci0nal), elegeu todos os deputados para a Assembleia Nacional (150), num escasso 1,4 milhóes de votos, enquanto a Oposição Democrática boicotou o processo, denunciando a falta de liberdade e condições para eleições sérias e justas, num contexto de crescente contestação política e social do regime.  Seis meses depois aconteceu o 25 de Abril de 1974. O Estado Novo caiu de podre, sem honra nem glória. A Assembleia Nacional foi imediatamente dissolvida.

Pelo "círculo eleitoral da província ultramarina da Guiné", e para a" XI Legislatura da Assembleia Nacional! foi eleitos dois deputados Leopoldino de Almeida e Benjamim Pinto Bull, com menos de 12,2 mil votos.

Por sua vez, o Ramadão de 1973 (ano 1393,  no calendário islâmico) começaria a 27 de setembro  (quinta-feira) e terminaria  a 26 de outubro de 1973 (sexta-feira). 

O Eid al-Fitr, que marca o fim do Ramadã, foi celebrado a 27 de outubro de 1973. (A Guerra do Yom Kippur, também conhecida como a Guerra do Ramadão, começou a 6 de outubro de 1973, coincidindo com o 10º dia do Ramadão.)

O Eid al-Fitr marca o fim do jejum do mês sagrado do Ramadão.  É uma celebração de gratidão a Deus pela força para completar o jejum.  Centra-se muito na caridade (Zakat al-Fitr), no uso de roupas novas e em orações comunitárias logo pela manhã.

Náo confundir com o Eid al-Adha (Tabaski ou a "festa do carneiro", na Guiné-Bissau). Celebra a devoção de Abraão (Ibrahim) e o sacrifício de um cordeiro em lugar do seu filho. Quase todas as famílias que têm condições,  sacrificam um animal (geralmente um carneiro) e dividem a carne em três partes: uma para a família, outra para amigos e vizinhos, e outra para os pobres. Ocorre cerca de dois meses e meio após o fim do Ramadão.

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27565: Casos: a verdade sobre ... (61): Aldeia Formosa / Quebo é atacada ou flagelada pelo menos 7 veses em 1969 e 1971, em pleno consuklado Spinolista: em 7/3/69, 8/3/69, 21/3/69, 9/7/71, 11/7/71, 31/7/71, 12/8/71... E continuou a ser atacada ou flagelada em 1972... Faz sentido continuar a considerar o Cherno Rachid como um "agente duplo" ?




Guiné > Região de Tombali > Sector S2 _ Aldeia Formosa > 1973 > Vistra aérea do aquartelamento, tabanca e aeródromo. Crédito fotoghráficio: José Mota Veiga (JMV).. Edição e legtendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2025).




"Dia sete bombardeamos o campo fortificado de Quebo, com dois morteiros oitenta e dois, quarenta  obuses às onze da noite. Acção pelo camarada (...)"

Fundação Mário Soares e Maria Barroso | Pasta: 07200.170.066 | Título: Mensagem - Boké | Assunto: Bombardeamento do quartel de Quebo | Data: Sexta, 7 de Março de 1969  | (...) Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral

(1969), "Mensagem - Boké", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_40660 (2025-12-22)




"Dia oito nossa artilharia atacou quartel de Quebo com dois morteiros oitenta e dois e quarente cinco obuses às sete da noite. Acção dirigida (...). 8/3/69".


Fundação Mário Soares e Maria Barroso | Pasta: 07200.170.065 | Título: Mensagem - Candiafará | Assunto: Comunica o ataque da artilharia do PAIGC ao quartel de Quebo. | Data: c. Sábado, 8 de Março de 1969 | (...) Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral (...)


(1969), "Mensagem - Candiafará", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_40659 (2025-12-22)




"Dia 21 - Bombardeamenti ao Quebo com dois morteiros Stop Gastamos 33 obuses.Às cinmdo da tarde. Dirigiu ação Nocolau Andrade. 1/4/69"

Fundação Mário Soares e Maria Barroso | Pasta: 07200.170.053 | Título: Mensagem [Frente Sul] | Assunto: Bombardeamento de Quebo (dirigido por Nicolau Andrade) pela artilharia do PAIGC. | Data: Terça, 1 de Abril de 1969 | (...).Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral (...)


(1969), "Mensagem [Frente Sul]", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_40647 (2025-12-22)



(...) "Dia 9/7 - Sabotagem contra Quebo com canhões 75 Stop Opração dirigida Blokpaz Nandenhe, Mora Na Logna, Malan Camara. Dia 11/7 - Sabotagem contra Quebo com canhões 75 Stop Operação dirigida Blokpaz Nandenhe, Malan Camaram Stop Pires. 12/7/71."


Fundação Mário Soares e Maria Barroso | Pasta: 07200.170.017 | Título: Comunicado - Candjafara | Assunto: Mensagem de Pedro Pires para Amílcar Cabral comunicando o ataque do PAIGC ao quartel de Quebo, nos dias 9 e 11 de Julho. | Data: Segunda, 12 de Julho de 1971 | (...) Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral (...)


(1971), "Comunicado - Candjafara", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_40614 (2025-12-22)




"Pires, dia 12 nossa artilharia bombardeou cmpo fortificdao de Quebo utilizando uma peça canhão 75 (...) com 15 obuses às 6 horas da tarde Stop Dirigiu a ação camarada Júlio Mendonça Stop Buotcjha. Candiafra, 13/8/71, Manuel da Silva"

 
Fundação Mário Soares e Maria Barroso | Pasta: 07200.170.021 | Título: Mensagem [Frente Sul] | Assunto: Mensagem de Buota N'Batcha para Pedro Pires comunicando o bombardeamento do quartel de Quebo pela artilharia do PAIGC. | Data: Sexta, 13 de Agosto de 1971 | (...).Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral (...)


(1971), "Mensagem [Frente Sul]", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_40618 (2025-12-22)

 

(...) " 31/7 Bombardeado Quebo Grad Stop Esperamos informações Stop Dirigido  Júlio de Carvalho, Joãozinho Yala e N'Quesna N'Puam Stop Pires. 2/8/71" 


Fundação Mário Soares e Maria Barroso| Pasta: 07198.168.041 | Título: Comunicado - Candjafara | Assunto: Mensagem de Pedro Pires comunicando o bombardeamento do quartel de Quebo, dirigido por Júlio de Carvalho, Joãozinho Yala e N'Quesna N'Puam (refere a utilização do sistema GRAD). | Data: Segunda, 2 de Agosto de 1971 | (...) .Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral (...)
 
(1971), "Comunicado - Candjafara", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_40598 (2025-12-22)


1. Aldeia Formosa (para as NT) ou  Quebo  (para o in) é atacada ou flagelado pelo menos 7 veses em 1969 e 1971, em pleno consulado  Spinolista, em:

  •  7/3/69, 
  • 8/3/69, 
  • 21/3/69, 
  • 9/7/71, 
  • 11/7/71, 
  • 31/7/71, 
  • 12/8/71... 
2. Em 1972 (e até ao fimda gierra), Aldeia Formosa continuou aq ser um objetivoo militar importante tanto para as NT como para o PAIGC. No livro da CECA sobre a atividade operacional no CTIG, pode ler-se:

(...) Em Agosto (de 1972), destacam-se as flagelações contra as posições das Nossas
Tropas em Olossato, na zona Oeste, Bafatá na zona Leste e Aldeia Formosa (4
vezes), Catió (4 vezes) e Bedanda (3 vezes) na zona Sul. (pág. 122)

(...) O ln implantou 47 engenhos explosivos sofreu 24 mortos, 14 feridos e
3 capturados e manteve uma actividade dinâmica com emprego de foguetões
122mm nos ataques aos aquartelamentos das Nossas Tropas em Aldeia Formosa,
Catió e Empada. O aquartelamento de Tabanca Nova, na zona Sul, foi
atacado cinco vezes. (pp. 122/123).

Excertos de: Estado-Maior do Exército; Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974). Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África; 6.º Volume; Aspectos da Actividade Operacional; Tomo II; Guiné; Livro III; 1.ª Edição; Lisboa (2015),  

Pergunto: faz sentido continuar a considerar o Cherno Rachid como um "agente duplo" ? Seriam estes ataques ou flagelações  apenas "manobras de diversão" ? 

Se o Cherno Rachide fosse uma peça importante do xadrez políticvo-militar do partido do Amílcar Cabral, por certo que o poupariam (pu arranjaraiam maneira de o levar para sítio "mais seguro", talvez do outro lado da fronteira... 

Mas não, o aquartelamento e tabanca de Aldeia Formosa /Quebo  é atacado com morteiro 81, canhão s/r 75, sistema Grad (os foguetões de 122 mm, o "jacto do povo")... A vida do Cherno Rachide esteve em risco por diversas vezes nestes ataques e flagelações. Portanto, Aldeia Formosa nunca foi um "santuário das NT". (Segundo o José Teixeira, o homem jogava com um pau de dois bicos, teria um sobrinho como comandante nas tropas do PAIGC, e os artilheiros do IN  nunca apontavam as armas para a tabanca... Ou então eram os "amuletos" do Califa que, segundo os meus soldados da CCAÇ 12, neutralizavam os ataques do IN.)

Não há mais registos, no Arquivo Amílcar Cabral, de ações militares do PAIGC contra Aldeia Formosa / Quebo onde vivia o Cherno Rachid, figura grada (e veneranda) do islamismo sunita na então Guiné Portuguesa... 

O que se terá passado para o PAIGC começar a bombardear n este importante quartel das NT, localizado junto à fronteira com a Guiné-Bissau, alienando o alegado apoio do Cherno Rachide ?  Parece yer havido um período de tréguas até 1969... 

O alargamento da pista de Aldeia Formosa (que passou a aeródromo), o início da construção da estrada Aldeia Formosa-Mampatá - Buba e da estrada Aldeia Formosa - Cumbijã - Nhacobá, o reforço dos meios militares do Sector S2 (CCAÇ 18, antiaéreas, etc.,  mais de 500 homens em armas, sob a dependenència do CAOP1, com sede em Cufar) são reveladores da importància estratégica de Aldeia Formosa (cuja conquista chegou a estar na mira de Amílcar Cabral, em vez de Guileje).

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 10 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27514: Casos: a verdade sobre... (60): Não se faz a guerra sem álcool (nem tabaco)

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27514: Casos: a verdade sobre... (60): Não se faz a guerra sem álcool (nem tabaco)



Guiné < Região do Cacbeu > Jolmete > CCAÇ 3306/BCAÇ 3833 (Pelundo, Có e Jolmete, 1971/73)> . outubro / novembro de 1972 > O álcool é euforizante e socializante... O tabaco, ansiolítico... Foto do álbum do ex-fur mil Augusto Silva Santos (vive em Almada).


Foto (e legenda): © Augusto Silva Santos (2016). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné > Região de Quínara > Nova Sintra CCAV 2483 (1969/80) : Num mês, talvez atípico, com o de junho de 1970, a escassos, dois ou três meses de mudarem para Tite (sede do sector S1) onde foram acabar a comissão (setembro/dezembro de 1970), os camaradas desta subunidade gastaram 89,4 contos, na cantina (que era comum a oficiais, sargentos e praças). 46% desse valor foi em cerveja e uísque. 89,4 contos (=30,7 mil euros, a valores de hoje) era bastante dinheiro: a dividir por 160 militares, dava 560 escudos "per capita"  (=192 euros, a valores de hoje). (*)

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradasa da Guiné (2025)




I. Temos falado aqui aberta, desinibida e francamente sobre o consumo de cerveja, uísque, vinho  e outras bebidas alcoólicas pelos militares portugueses durante a guerra colonial na Guiné, entre 1961 e 1974...

 Tínhamos acesso a bebidas nacionais (cerveja, vinho, brandy, porto...) e importadas (uísque, gin, vodca, conhaque...). Claro que não havia bar aberto...

É difícil, se não impossível,  definir padrões e níveis de consumo, na ausência de estudos sobre o tema (que não os  há, ou são escassos, ou sofrem de limitações metodológicas). 

Quando muito , podemos socorrer-nos de alguns indicadores indiretos: compras nas cantinas, por exemplo. Ou testemunhos de antigos combatentes. Mas nem todas as compras são consumos imediatos de álcool: a maior parte das garrafas de uísque, sobretudo do uísque velho, bem como de conhaque, era para guardar e levar para a metrópole.E em muitos sítios, as cantinas estavam separadas; os oficiais e sargentos tinham as suas messes e o seus bares. Por outro lado, são  raros os registos dos consumos (ou das compras) nas cantinas (*).

Mas também reconhecemos que, do lado dos combatentes do PAIGC, essa prática está ainda pior  documentada. Ou é de todo ignorada. A maior parte parte dos historiógrafos, de um lado e do outro, não valoriza aspetos da vida quotidiana dos combatentes como os "comes & bebes".
 
Ora, o que sabemos da História é que nunca se fez a guerra sem álcool (ou outras drogas). Matar e morrer é a experiência-limite do ser humano. Não imagino o Inocêncio Cani (que eu não sabia que tinha sido catequista!) a matar o Amílcar Cabral, à porta de casa, a sangue frio. Tinha que estar com a "cabeça grande", sob o efeito do álcool. O mesmo para os matadores do Pelundo, os carrascos dos 3 majores e seus acompanhantes  em abril de 1970.

O consumo de álcool, de um e do outro lado da "barricada", na guerra da Guiné (1961/74) está mal documentado. Pelo menos do outro lado, do lado do PAIGC.

 A documentação é desigual, mas o padrão geral é claro: o álcool (e o tabaco)  fazia parte do quotidiano da guerra, com implicações sociais, psicológicas e logísticas. (**)

1. Militares portugueses na Guiné (1961–1974)

(i) Disponibilidade e tipos de bebidas

Cerveja era comum nas unidades portuguesas, especialmente marcas nacionais enviadas pela Manutenção Militar (Sagres e Cristal).  À Guiné não chegava a cerveja angolana nem moçambicana, nem convinha aos cervejeiros metropolitanos.

Aliás, a mobilização de centenas de milhares de homens ao longo do conflito (1961/75) nos 3 teatros de operações (mais o resto do império, de Cabo Verde a Timor), foi uma oportunidade de ouro para a indústria cervejeira nacional.

Uísque, aguardente, vinho e licores eram consumidos sobretudo por oficiais e sargentos, bem aqueles que tinham melhores possibilidades logísticas ou económicas. Por exemplo, bebi-se melhor em Bissau, Bambadinca e Bafatá. A Marinha, por sua vez, bebia (e comia) muito melhor que o Exército...E  também não ouvimos queixas da Força Aérea.

No que diz respeito à tropa do recrutamento local, grosso modo podemos dividi-la em muçulmanos, animistas e cristãos ou assimilados. 

 Regra geral, os nossos militares muçulmanos (nomeadamente fulas) eram "abstémios" por imperativo religioso. Mas o contacto com os "tugas", levou-os a apreciar a "água de Lisboa"... Não bebiam cerveja nem vinho à frente dos "homens grandes", até por que muitos (CCaç 12, CART 11, por exemplo, a quem demos instrução em Contuboel) ainda eram "meninos de sua mãe"!... A guerra fê-los crescer mais depressa, a eles e a nós. (De resto, o argumento para serem desarranchados era não poderem comer  carne de porco nem beber álcool.)

Os restantes (animistas, cristãos, e sobretudo os mais urbanos, de Bissau...) tanto consumiam as bebidas locais (como a aguardente de cana e o vinho de palma) como não desgostavam da "água de Lisboa". E faziam-no publicamente, confraternizando connosco.

(ii)  Funções do álcool
  • Lazer e coesão: beber em grupo ajudava a criar um sentimento de companheirismo (à mesa) e camaradagem (na caserna, no mato...)  em situações difíceis; bebia-se em grupo, os bebedores solitários seriam a exceção à regra.
  • Socialização, ritual social: celebrações, aniversários, outras efemérides (data da chegada à Guiné, por exemplo),  momentos de descompressão entre operações, e até o ritual do “comes & bebes" nos dias de folga, ou ao fim da tarde; ou nas idas a Bafatá...(a "civilização", o "oásis", para a malta do Leste).
  • Claustrofobia, mecanismo de escape: muitos ex-combatentes relatam que o álcool servia para "esquecer" (a guerra, a solidão, as saudades de casa...):  certamente para aliviar a exaustão física, o stress, o medo, as insónias e até o trauma, o que hoje se reconheceria como sintomas de stress pós-traumático; o ambiente nos aquartelamentos e destacamentos, cercados de arame farpado e com o perímetro exterior armadilhado, e vivendo muitos militares em "bunkers", e por vezes sem população,  era claustrofóbicos; um ambiente propenso à depressão, ao conflito, à violência interpessoal, e ao consumo de álcool; já relatámos aqui alguns  acidentes mortais com "arma de fogo", associados ao ao álcool.
  • Ambiente de caserna: o consumo era normalizado e raramente reprimido, exceto em casos de indisciplina evidente; cada uma das 3 "classes" em presença (nobreza, clero e povo,  com eu chamava aos oficiais, sargentos e praças) tinham os seus locais próprios de "libação": messes, bares, caserna, refeitório, escapes citadinos como Luanda, Bafatá, Safim, Nhacra, etc.

(Iv) Problemas derivados

Há relatos de alcoolismo em certas unidades, embora geralmente omitidos nos relatórios oficiais. Pode haver referências nos autos por acidentes de viação ou acidentes com   arma de fogo (suicídios, homicídios, automutilação, ameaças, e outras formas de violência). Mas todas estas situações são tratadas com pinças...

Alguns comandantes tentavam limitar o consumo antes de operações, mas o controlo era difícil e desigual. Aqui funcionava mais o autocontrolo e o controlo pelos pares ( a nível de secção e pelotão). Obviamente, ninguém podia ir "alcoolizado" para o mato ou para uma coluna. 

A verdade é que não havia ainda testes de alcoolémia na guerra, para nenhuma das 3 armas (Exército, Marinha e Força Aérea). Nem sequer os condutores ou  os pilotos sopravam no balão (uma invenção tardia).

O clima tropical, o desgaste físico, o cansaço agravavam os efeitos do álcool. Ao fim de alguns meses, dizia-que o militar "estava apanhado do clima" ou "cacimbado",

2.A tropa do PAIGC

A documentação sobre o consumo de álcool nas hostes do PAIGC é mais escassa. Não há números. A guerrilha valorizava a disciplina, e o controlo disciplinar e ideológico seria mais rígido. Ainda assim, há elementos que surgem por fontes orais e memórias.

(i) Consumo existia, mas era vigiado

Em várias regiões da Guiné era comum o fabrico e consumo de vinho de palma, aguardente de cana e outras bebidas tradicionais. Os "chefes" chegavam ter  os seus  "tiradores" privativos!

Guerrilheiros jovens, longe das aldeias, das famílias e em longas marchas, emboscadas, operações, etc., podiam recorrer,  ao álcool em momentos de pausa. (Isso também acontecia no nosso lado, era a ocasião em que se apanhavam os "pifos de caixão às cova").

Grande parte dos guerrilheiros do PAIGC eram balantas e de outras etnias animistas, grandes consumidores de álcool (aguardente de cana, vinho de palma...). Tal como não largaram os amuletos, também não romperam com os seus hábitos, a sua cultura, os seus rituais. Podia era haver era menos oferta de álcool, no mato.

(ii) Disciplina política

O PAIGC (ou  o seu  ideólogo, e comandante-chefe, Amílcar Cabral) desencorajava fortemente o consumo excessivo, associando-o à “fraqueza revolucionária”.

Alguns veteranos referem punições internas ou advertências para quem bebesse antes de ações militares. Mas não sabemos como funcionava o autocontrolo e o controlo  por pares. Rui Djassi, Osvaldo Vieira e outros "comandantes" tinham problemas de álcool..

(iii) Funções do álcool (semelhantes às das tropas portuguesas)

Alívio do stress, convivência, e momentos de pausa nos acampamentos. Afinal éramos todos de carne e osso, pesem embora as diferenças culturais.

Em certas áreas, o álcool fazia parte de cerimónias tradicionais que se mantiveram mesmo durante a luta armada ("choro", etc.)

(iv)  Subregisto histórico

A imagem oficial do PAIGC como movimento altamente disciplinado (cultivado por Amílcar Cabral, para efeitos  de "marketing político")  levou a que estes aspetos da vida quotidiana nas "áreas libertadas" ficassem menos documentados ou na obscuridade, 

Os santos não têm pecados. Os gajos eram moralmente superiores aos tugas, Durante algum tempo vendeu-se essa falsa imagem.

Investigadores da história social da guerra admitem que a dimensão humana e informal da guerrilha está ainda pouco estudada, incluindo "comportamentos desviantes" como  consumo de álcool, rituais, amuletos,  sexo, violência (contra crianças, bajudas, mulheres e velhos...), indisciplina, conflitos,  drogas locais,  relações tribais, etc.


3. Inquérito "on line"

Recorde-se aqui os resultados do inquérito "on line" que realizámos em 2016: "Nunca apanhei nenhum pifo de caixão à cova na tropa ou no TO da Guiné"

Votos apurados: 102
Sondagem fechada em 15/3/2016 | 18h04



(i) Nunca > 31 (30,4%)


(ii) Uma vez, por acaso > 25 (24,5%)


(iii) Duas vezes > 10 (9,8%)


(iv) Três vezes > 4 (3,9%)


(v) Mais vezes > 26 (25,5%)


(vi) Não me lembro > 5 (4,9%)


(vii) Não aplicável: não bebia > 1 (1,0%)


Total > 102 > (100,0%)


Em 102 respondentes só um  disse que não bebia.   Mais de 60% (n=65) respondeu que sim, que apanhou um pifo de caixão à cova, uma, duas, três ou mais vezes.  Só 5% respondeu que não se lembrava.

Tal como hoje,  teríamos basicamente três  perfis: (i) abstémios / não-bebedores  (subrepresentados na nossa amostra) (são hoje cerca de 1/4 da população, dos 15 aos 74 anos); (ii) os 3/4 já consumiram álcool na vida; 1/4 bebe diariamente e outros tantos serão bebedores sociais; (iii) bebedores excessivos ou de risco serão uns 3,5%... Claro que os homens bebem mais do que as mulheres...

Enfim,  não dá para comparar com a nossa pequena amostra de conveniência...





Marca de cigarros, de fabrico soviético, que eram distribuídos aos guerrilheiros do PAIGC, durante a guerra colonial / luta de libertação. "Nô pintcha", em crioulo, quer dizer "Avante!"... 


Foto (e legenda): © Eduardo Magalhães Ribeiro (2008). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



4. “Nunca se fez guerra sem álcool (nem tabaco)"

Esta frase, frequentemente citada por veteranos de ambos os lados, é bastante precisa. Não se faz a guerra, sem álcool nem tabaco... nem com o estômago vazio!

De facto, em praticamente todos os conflitos, o álcool ( e o tabaco) é um ansiolítico não oficial, uma espécie de  "lubrificante psicossocial" para a "máquina de guerra",  uma forma acessível de lidar com o medo, a violência, o risco, a morte...



O fornecimento de tabaco está mais bem documentado (no caso do PAIGC, à sua "tropa" era distribuido o maço de cigarros "Nô Pintcha", fornecido pelos "amigos soviéticos"; não sabemos em que quantidades nem com que frequência).

Na Guiné, com isolamento, clima adverso e desgaste físico e psicológico constante, tornava-se ainda mais evidente a importância do álcool e do cigarro, as duas "drogas legais".

 De um lado e do outro. Muitos de nós começaram a beber e a fumar na Guiné. Por outro lado, tínhamos acesso (generoso) a muito tipo de bebibas, que  não eram correntes na metrópole, incluindo a coca-cola. E o tabaco, não sendo de borla, era relativamente acessível. (O Porto era uma das marcas que mais se fumava, custava 3$00 cada maço.)

(Pesquisa: LG  + Net + IA (Gemini, ChaGPT)

(Condensação, revisão / fixação de texto: LG)

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Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 6 de dezembro de 2025 Guiné 61/74 - P27499: A nossa guerra em números (47): mais de 2/3 do consumo, do valor de vendas em junho de 1970 (n=89 contos), na cantina, da CCAV 2483, em Nova Sintra, foi em álcool e tabaco (Aníbal Silva / Luís Graça)

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27465: Casos: A verdade sobre... (59): Num depoimento do Marcelino da Mata para o livro "Os ùltimos guerreiros do Império" (Editora Erasmos, 1997), eu ter-lhe-ei dado "um tiro nas costas", numa operação na zona de Canquelifá. Ora não houve nenhum contacto com o IN... E os ex-fur mil 'cmd' João Parreira e Caetano Azevedo recordam que todos regressámos pelo nosso próprio pé (Virgínio Briote)



Capa do livro "Os últimos guerreiros do império!". Coordenação: Rui Rodrigues. (S/l, Erasmos, 1997,
255 pp, , il) (O livro parece estar esgotado.).

 





Virgínio Briote, ex-alf mil cav, CCAV 489 (Cuntima) e ex-alf mil 'cmd', Comandos do CTIG, cmdt do Grupo Diabólicos (Brá) (set 1965/ set 67); nascido em Cascais, frequentou a Academia Militar; fez o 2º curso de Comandos do CTIG; comandou o Grupo Diabólicos (Set 1965 / Set 1966); regressou a casa em Jan 1967: casado com a Maria Irene Fleming, professora  de liceu, reformada; foi quadro superior da indústria farmacêutica; é um histórico da Tabanca Grande para a qual entrou em 17/10/2005.7

Tem 307 referências no nosso blogue; é autor de notáveis séries como "Guiné, ir e cvoltar", "Brá, SPM 0418", " Memórias de um comando em Barro", "Recordando o Amadu Djaló (...)"; é coeditor (jubilado) no blogue desde 11/7/2007; é também autor de um dos melhores blogues intimistas sobre a experiência de um antigo combatente: Guiné, ir e voltar: Tantas Vidas" (foi descontinuado em 2008, mas pode ser acedido aqui no Arquivo.pt)

1. Mensagem do Virgínio Briote 

Data - 25 de novembro de 2025 17:38  

Caros Camaradas,

Depois de algum tempo sem dar notícias, mas atento ao que os Camaradas vão escrevendo, volto para esclarecer um assunto que me diz respeito e que me foi dado a conhecer num dos últimos dias.

Num artigo publicado num livro com o título “Os Últimos Guerreiros do Império”, no depoimento do Camarada Marcelino da Mata, há referências à minha pessoa, nomeadamente que eu lhe terei dado um tiro nas costas, no decorrer de uma operação na zona de Canquelifá. 

Esta operação,  comandada pelo então capitão Maurício Saraiva, envolveu alguns experientes militares guineenses, entre os quais o então 1º Cabo Marcelino da Mata e os Sargentos e Oficiais instruendos do 2º Curso de Comandos do CTIG.

Segundo a minha memória e a de alguns Camaradas ainda vivos, nomeadamente os ex-furriéis mil 'cmd' João Parreira e Caetano Azevedo (contactados esta tarde), não houve contacto com o IN.

Recordam, sim, que regressaram todos pelo seu próprio pé.

Virginio Briote

(Revisão / fixação de texto, título: LG)
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