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sábado, 3 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28398: O vinho... pró branco de 2ª e pró tinto de 1ª (5): o "uísque de Sacavém"

 


O "whisky" (em inglês, sem aspas) "preferido por quem sabe" (sic)...Anúncio do "Diário de Lisboa", no tempo em que se começou a fazer grande publicidade ao "Scotch Whisky", bebida até então seleta mas a partir daí cada vez mais popular entre os combatentes da guerra do Ultramar (e dos "colonos" de África)... Era um dos "presentes" mais cobiçados na época, entre amigos e familiares... Traziam-se caixotes de garrafas de uísque de Guiné, de Angola, de Moçambique, no regresso das comissões de serviço militar. Algumas, as últimas, vamo-las esvaziando ainda hoje nas efemérides mais importantes que celebramos: a partida do T/T Niassa ou do T/T Uíge, os cinquenta anos da "peluda", as bodas de ouro, os 75 ou 80  anos de vida, os almocos-convívio da Tabanca da Linha...

Nos bares de "alterne", da grande Lisboa, da Reboleira aos Cais do Sodré,  mas também seguramente na "noite do Porto" bebia-se muito uísque marado, "batizado",  que ficou popularmentre conhecido como "whisky de Sacavém"... Lembro-me ainda na tropa, nas Caldas da Rainha ou em Tavira, ter conhecido o "capitão Vat 69"... 


1. "Uísque de Sacavém" e "vinho a martelo" são duas das expressões mais castiças e conhecidas do calão português para designar bebidas alcoólicas falsificadas, adulteradas ou de péssima qualidade, muitas vezes associadas ao mercado negro e à vivência popular das décadas de 1960 e 1970.


A elas junta-se frequentemente a "água de Lisboa", uma expressão mais antiga, de que falaremos em próximo poste.

Há testemunhos de antigos combatentes recordando os soldados fulas (que eram abstémios, por imposição da sua cultura e religião)  a dizerem, com bastante graça, “água de Lisboa, manga de cabeça grande!”,  isto é, uma bebida que embriagava (como o vinho de palma, consumido pelos "cristãos" / grumetes e  "animistas" / balantas, papéis, etc....)  e que não era necessariamente de má qualidade ("água de Lisboa manga de sabi").

O que poucos sabem é a origem e o significado da expressão "uísque de Sacavém", apesar de ter estado muito em voga durante a guerra colonial em que os portugueses começaram a ter acesso, em África, ao bom uísque escocês, bebida até então só para ricos e estrangeirados.

2. E porque não "uísque do Beato" ?  

No Beato, Poço do Bispo, Marvila, na margem direita do estuário do rio Tejo, havia grandes armazéns de vinho, onde se dizia que o vinho era "batizado" com a água do Tejo, e daí talvez a origem da expressão "água de Lisboa", como chamavam os nossos camaradas guineenses ao vinho da Intendência... 

Mas a origem desta última expressão deve ser mais antiga, relacionada com o abastecimento de água a Lisboa, no início do séc. XVIII e com os impostos que eram cobrados sobre o vinho e os gnéneros alimentícios para financiar a construção e o funcionamento do Aqueduto das Águas Livres.

A verdade é que também se dizia,  em Portugal, nessa época (anos 60/70) que "da água também se fazia vinho"... A frase, injustamente, era atribuída ao grande agricultor e empresário Abel Pereira da Fonseca, com vinhas no Bombarral e armazéns no Beato

O Beato/Poço do Bispo/Marvila era efectivamente uma extensa zona ribeirinha de Lisboa, onde os grandes armazenistas e comerciantes de vinho a granel eram "reis". E o nome de Abel Pereira da Fonseca aparece inevitavelmente nesta história. Na memória popular ficou uma frase que provavelmente nunca saiu da boca do Abel Pereira da Fonseca, em versões diferentes: “Enquanto houver água no Tejo, nunca há-de faltar vinho a Lisboa.” Ou: “Lembrem-se, meus filhos, que até da água se faz vinho.”

Não encontrámos fonte histórica suficientemente sólida para afirmar que ele tenha realmente pronunciado essas palavras, e muito menos à hora da morte. Elas pertencem às "anedotas popular" criadas em torno dos grandes armazenistas de vinho de Lisboa.

Mas essa anedota ganhou uma segunda vida entre os militares que passaram pela guerra colonial / guerra do ultramar. No caso da Guiné, aparece documentada a expressão “água de Lisboa” para designar depreciativamente o vinho fornecido pela Intendência. Ou seja, como sinónimo de vinho "batizado" (e, pior ainda, a "saber a cânfora", que era para tirar a tusa aos combatentes do mato: excesso de testosterona afetava o moral da tropa, suspeitavam os senhores da guerra).
 
“Água de Lisboa” e “vinho de Sacavém” são duas alcunhas com geografias diferentes. 
Não é fácil, na ausência de investigação séria sobre estes tópicos, de encontrar o fio à meada...Há. contuda, uma  pequena histórias de 1966 que liga Sacavém ao uísque falsificado...

3. Uísque de Sacavém: a  falsificação lendária
De facto, o "produto" até tem certidão de nascimento. Ou melhor, a expressão. Terá nascido a 5 de fevereiro de 1966, quando o jornal Diário Popular noticiou o desmantelamento da primeira fábrica de uísque falsificado em Portugal, localizada justamente num armazém em Sacavém.
 Quando a guerra do Ultramar, já ia a meio, acrescentamos hoje nós (que sabemos que ela acabou em 1974, mas em 1966 todos já pensávamos que ia ser a guerra dos 100 anos, e que iria sobrar para toda a nossa geração).
O esquema era engenhoso: os falsificadores compravam garrafas vazias de marcas escocesas conceituadas (como Johnnie Walker ou Vat 69) e enchiam-nas com uma mistura bombástica de álcool etílico puro, um cheirinho de uísque verdadeiro e pastilhas corantes para imitar a cor original. O álcool puro era comprado, ao garrafão, dia sim dia não, numa farmácia próxima na "fábrica clandestina" onde se martelava a mistela...
O "Diário Popular" desse dia refere que "o caso despertou a maior curiosidade entre a população de Sacavém, interrogando-se então, apreensivamente, algumas pessoas acerca da verdadeira origem das garrafas de whisky que adquiriram em data mais ou menos recente» (Fonte: Diário Popular,  nº 8373, de 5 de fevereiro de 1966, 24º ano de publicação, pág. 17.)
O produto era vendido clandestinamente a bares, buates e cabarés de Lisboa e arredores. O caso gerou tanta troça popular que a gíria "uísque de Sacavém" passou a designar qualquer bebida alcoólica contrafeita, barata ou que causasse uma ressaca terrível no dia seguinte.
Portanto, o “uísque de Sacavém” tem uma origem histórica muito concreta e datável — a falsificação descoberta em 1966. Alguns apreciadores (?) desta bebida consideravam até ser difícil distinguir esta falsificação do produto original... O problema não era a cópia ser melhor do que o original, mas sim a inexistência de um tradiçáo de consumo de uísque escocês em Portugal.  

Este acontecimento teve grande repercussão, dando origem a muitas piadas. Havia quem pedisse, na brincadeira, um “whisky de Sacavém”, nome pelo qual ficou popularmente conhecida esta falsificação que apresentava rótulos de consagradas marcas escocesas.  

Já a “água de Lisboa” parece ser uma alcunha popular muito mais antiga e difusa, alimentada pelos impposto ssobre o vinho, pela fama dos grandes armazéns vinícolas lisboetas e pela proverbial suspeita de que o vinho destinado aosmercados africanos ("o vinho p'ró preto") (isto é, para o branco de 2ª, o colono, e o preto de 1ª, o assimilado) era de qualidade inferior.

E há ainda uma deliciosa inversão colonial: o soldado português ia para África e descobria o "Scotch whisky" genuino (importado exclusivamente para as Forças Armadas Portuguesas e fornecidas, sem impostos, pela Intendência aosl "heróis de Portugal" que combatiam pela Pátria em África, enquanto o guineense olhava para a garrafa de vinho que vinha de Lisboa e chamava-lhe, entre deliciado e desconfiado,  "água de Lisboa.”

Estas expressões ajudam-nos a reconstituir a história através de três bebidas: o “Scotch” genuíno,  o “uísque de Sacavém”, marado,  e a “água de Lisboa” / "vinho a martelo",  três expressões que dizem muito sobre a sociedade portuguesa dos anos 60/70 e sobre a experiência colonial / ultramarina / africanista de todos nós.  (vd.  Sons de Abril da RTP/Antena 1).
 
Acrescente-se que, na altura, nos famigerados anos 60/70 (em que já se avolumavam os sinais premonitórios do fim de uma época e do regime de Salazar), era frequente aparecer no mercado vinho de proveniência duvidosa, popularmente conhecido por "vinho a martelo". Porém, segundo as autoridades da época, parece ter sido a primeira vez que uma fábrica de whisky falsificado, como a de Sacavém em 1966,  foi descoberta em Portugal. 

E em 1972 rebenta o escândalo da adição de aguardentes não vínicas ao vinho do Porto, um dos mais sérios golpes na qualidade e na fama deste vinho generoso que chegou a constituir, até fiansi  do séc. XIX, o principal produto de exportaçáo do país. O "vinho a martelo"  feito no Oeste e no Ribatejo em muito contribuiu para essa prática fraudulenta.

4. Símbolo de "status" da classe média

Importa ainda acrescentar, para melhor contextualizar o problema, que o "Scotch" (por antonomásia, o nome para o uísque) vai tornar-se em Portugal nos anos 60/70 do séc. XX um símbolo de "status" e de ostentação, associado ao novo riquismo e à emergência de uma nova classe média na época marcelista e no pós-25 de Abril.
Este fenómeno sociocultural coincidiu com uma fase de transição económica e política no país, refletindo as mudanças profundas da sociedade portuguesa da época. Durante os anos 60 e princípios de 70, Portugal viveu um período de "boom", de crescimento económico industrial e o surgimento de uma nova burguesia (muitas vezes associada a fortunas rápidas feitas na metrópole ou em África). Beber "Scotch"  era "fino", era a forma perfeita de este grupo exibir o seu recém-adquirido poder de compra.
Num país como o nosso, sujeito a uma ditadura de  4 décadas, fechado, tradicionalista,   conservador,  consumir um produto importado e caro (devido às taxas alfandegárias e fiscais) como o "whisky" escocês funcionava como um passaporte de sofisticação, modernidade, cosmopolitismo e ligação à Europa (o novo o"eldorado", depois da poerda do império...). 
O vinho e o "bagaço", pelo contrário,  eram vistos como produtos da  taberna e das casas de comida de bairro, as bebidas das classes populares e do mundo rural. Quem queria distanciar-se dessas origens e afirmar-se na elite urbana adotava o "whisky".
Ter então um espaventoso "bar de sala" em casa, com  garrafas de "Scotch" bem visíveis (como o Johnnie Walker, J&B ou Vat 69), passou a ser obrigatório na nova classe média... Era chique servir um "whisky" às visitas!
Para estas mudanças operadas no consumo de bebidas alcoólicas muito contribuiu, como já o dissemos acima,  a nossa experiência de África (os 13/14 anos de guerra), sem esquecer o "regresso das caravelas",  fluxo de mais de meio milhão de retornados  vítimas da "descolonização".
Após o 25 de Abril, o prestígio do "Scotch" manteve-se, se bem o que perfil do consumo tenha mudado ligeiramente com a democratização do acesso a novos bens importados. Coincidindo com a adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia (CEE), em 1986, o panorama das superfícies comerciais no país sofreu uma revolução sem precedentes. O forte crescimento económico, as ajudas europeias, o investimento estrangeiro e o  aumento do poder de compra  ditaram a transição do comércio tradicional e pulverizado (a mercearias de bairro) para os formatos modernos de hipermercados, grandes centros comerciais, etc.
Em resumo, hoje provavelmente, passados 60 anos, já ninguém se lembra do "uísque de Sacavém".  

Confesso que não sei se chegou a haver, na Intendência, casos notórios de falsificação, em grande escala, do precioso líquido que vinha, da Escócia para a Guiné, "with love", para dessedentar a tropa portuguesa e  retemperar o  ânimo dos combatentes... 

Ainda bebi algum do bom na Guiné (para não dizer "manga de garrafas"...), com "auguinha" de Perrier. Hoje raramente bebo um "visquinho"... Tal como já não fumo há mais de 3 décadas e meia...Hábitos que trouxemos da guerra que nos calhou em sorte...
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Nota do  editor LG:

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28307: Casos: a verdade sobre... (77): a pastora-alemã "Blonde" e o general Spínola: os dois inseparáveis, mas... só na Banda Desenhada

 














Prompt original e composição editorial: Luís Graça.,  João Rodrigues Lobo e Ramiro Jesus
Texto: Luís Graça (2026) 
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.



1. Convém desmentir aqui, de uma vez por todas, a "anedota da Spinolândia" que, à força de ser repetida, corre o risco de transformar-se em "facto verídico": o general Spínola não tinha nem nunca teve, em Bissau, nenhuma cadela de raça "pastor-alemão", no palácio do Governador como "animal de estimação" (*)... Tal como não tinha nenhum "cavalho branco" (**)...E muito menos  uma cadela chamada  "Blonde". E muito menos ainda, que viajasse com ele de helicóptero. 

É uma invenção da 6ª Rep (a IA...), agora em competição com a 5ª Rep (Café Bento, Bissau)...E que desafia a nossa fraca e nebulosa memória... (a sofrer com a perda de neurónios todos os dias, há mais de meio século).

Por razões de segurança, e de bom senso, a segunda hipótese (uma cadela a viajar com o governador e com-chefe, de heli, AL III ou até de DO-27) era de todo inverosímel, dada a falta de helicópteros e de espaço nos helis...

Não existe qualquer fundamento histórico, documental ou fotográfico que sustente que Spínola tivesse uma cadela, da raça pastor-alemão,  no Palácio do Governo em Bissau ou que a fizesse acompanhar nas suas deslocações aéreas na Guiné.

Vamos aos factos...

Pode haver aqui uma confusão com os cães militares que eram usados para fazer a ronda, nocturna, ao Palácio do Governador... Outra coisa, completamente diferente, é Spínola ter uma cadela particular, de estimação, chamada "Blonde", e eventualmente levá-la consigo "by air" .... as suas viagens ao "mato"...

Encontrámos uma fonte particularmente interessante: uma entrevista, a propósito do 25 de Abril,  com Joaquim Oliveira, natural de Lousada, ex-soldado paraquedista, do BCP 12:

(...) "Em 1950, nascia Joaquim Oliveira que, com 21 anos viria a fazer parte do Regimento de Paraquedista de Tancos. 

Em 1971, com a 4.ª classe, foi escolhido para ser treinador de cães de guerra da raça Pastor Alemão e foi mobilizado para a Guiné onde, com os seus cães, fazia a ronda ao Palácio onde residia o General António de Spínola. "(...)

Vd. O Louzadense > 24 de abril de 2021 > As histórias da liberdade

Sabemos, por outro lado, pelo nosso camarada José Câmara (açoriano,  da diáspora lusitana, a viver na terra do Tio Sam, ex-fur mil at inf CCAÇ 3327, e Pel Caç Nat 56, Bissau, Mata dos Madeiros, Teixeira Pinto, Bassarel, Bolama, São João, Tite, 1971/73), que do dispositivo de segurança montada no Palácio do Governador em Bissau (Praça do Império). fazia também parte o Batalhão de Caçadores Paraquedistas n.º 12 (BCP 12)... 

Competia-lhe fazer o patrulhamento móvel noturno no interior do jardim, a cargo  de um soldado paraquedista e do seu cão de guerra (Pastor-alemão) (****). 

Aliás, a utilização de cães de guerra pelo Exército português na Guiné (e pela FAP) está documentada  no nosso blogue. Há, por exemplo, o testemunho publicado por Mário Fitas  sobre a criação de uma Secção de Cães de Guerra na CCAÇ 763, em 1964-66, com vários Pastores Alemães, chefiados pelo "Cadete" (***).

Portanto, temos aqui já uma primeira explicação, muito plausível, para a memória da  alegada "pastora-alemã do Spínola": havia um ou mais pastores-alemães no próprio perímetro do Palácio, mas eram cães militares, não necessariamente propriedade pessoal do Governador, animal de estimação seu ou da esposa Helena.

 Foi porventura essa rotina diária que acabou por gerar, na memória visual de quem passava na zona ou em relatos posteriores mal informados, a associação direta entre o "Pastor-alemão do Palácio" e a figura do próprio Governador Spínola.

Ver o animal nas imediações da residência oficial do Comandante-Chefe levou a que a sabedoria popular, ou a narrativa romantizada da guerra,  transformasse o cão de patrulha do BCP 12 num "bicho de estimação do General".

Os testemunhos e registos em primeira mão devidamente documentados pelos camaradas no blogue repõem o rigor que a história exige: era um cão de guerra em serviço operacional de guarda, pertença do BCP 12, ou seja da FAP,
 não um animal pessoal de Spínola.

2. E a tal "Blonde"?

Aqui está o pomo da discórida A referência à  suposta "cadela Blonde" aparece, de forma muito explícita, no  nosso próprio blogue, num texto publicado em maio de 2026. Aí se refere "a famosa cadela Blonde, a pastora-alemã que o acompanhava" (**).

Mas há aqui um pequeno  "problema metodológico": não encontrámos, com a ajuda da IA,  nenhuma fonte independente anterior que sustente essa afirmação.

Pior: o texto do blogue é precisamente uma passagem em que uma resposta de IA (mais precisamente do ChatGPT) está a ser criticada por misturar factos, folclore e invenção. Ou seja, a frase sobre a "Blonde" aparece dentro desse material gerado/reproduzido, não como resultado de uma fonte primária ou de um testemunho identificável.

Logo a "Blonde" não pode ser dada como "facto histórico". Mais importante ainda: há vários registos fotográficos e cinematográficos de Spínola a chegar e partir de helicóptero,  inclusive imagens da RTP Arquivos  e do Museu da Presidência. Os registos descrevem minuciosamente quem o acompanha. Não se encontra uma única referência a uma cadela a bordo.
 
Mais: não há nenhum piloto, a começar pelo Jorge Félix, que tenha referido ter transportado um cão ou cadela, ao lado do Spínola.

Sabemos que os voos de Spínola eram frequentemente deslocações operacionais ou político-militares, com o Governador e Comandante-Chefe (acumulava os dois cargos) acompanhado pelo ajudante de campo (Almeida Bruno, por exemplo), oficiais, eventualmente outras individualidades e até jornalistas. 

Além do  testemunho do piloto Jorge Félix sobre os voos com Spínola, temos també  também imagens RTP Arquivos em que o percurso é bastante claro: helicóptero → Spínola → receção militar → visita → helicóptero.

Uma cadela de estimação não teria qualquer função nesses voos e ocuparia um lugar num aparelho cujo espaço era precioso (e disputado, quer por militares: feridos, por exemplo; quer por civis: mulheres grávidas, etc.).

Além disso, se fosse uma presença habitual, seria extraordinariamente provável que algum dos fotógrafos, operadores de fotocine, pilotos ou militares que conviveram com Spínola, tivesse deixado uma fotografia ou um testemunho escrito.
 
Mas há uma coisa que pode explicar a história, como já sugerimos acima. Temos três elementos reais que podem ter-se misturado na memória oral:

(i) Spínola tinha cães militares à sua porta, no Palácio;

(ii) esses cães eram pastores-alemães; 

(iii) Spínola deslocava-se constantemente de Alouette III, e existem muitas fotografias dele nos helicópteros.

Da combinação dos três elementos pode muito facilmente ter nascido a história: o Spínola tinha uma pastora-alemã que andava sempre com ele, logo "seu animal de estimação".  E, posteriormente, alguém acrescentou-lhe o nome "Blonde" (loura, em inglês).

3. A ausência de fontes e de registo fotográfico

O período de Spínola na Guiné é provav o mais fotografado e filmado de todo o conflito ultramarino (com registos diários de operadores de fotocine,  reportagens da RTP, jornalistas nacionais e estrangeiros).

Não há imagens nem testemunhos: (i) não existe uma única fotografia conhecida na bibliografia da Guerra Colonial, no arquivo da RTP, na hemerotecas, no Arquivo Histórico Militar ou no acervo da Presidência que mostre o general acompanhado por um pastor-alemão (nem no Palácio, nem junto a aeronaves, a descolar ou a pousar no mato, em AL III ou DO-27); (ii)  e nas memórias de ajudantes de campo, oficiais do seu estado-maior, pilotos ou outros camaradas que serviram em Bissau, não há nenhuma referência,     que saibamso,  à presença de tal animal de estimação ao lado do Governador.
 
4. Por outro lado, durante o período do comando de Spínola (1968–1973), a frota de helicópteros Alouette III da FAP no CTIG  na Guiné era um recurso extremamente escasso, gerido com rigor obsessivo. Os "hélios" (com o dizia a malta...) eram prioritários para:

  • eacuações médicas (de feridos em estadio grave, para o HM 241, em Bissau);
  • operações de assalto de tropas especiais (fuzileiros, comandos, paraquedistas); 
  • helicanhão;
  • apoio tático direto e reabastecimento urgente em tabancas e postos isolados;
  • deslocações do Governador e Comandante-Chefe às tabancas, aquartelamentos e destacamentos (fazendo-se, por norma, acompanhadas pela sua comitiva militar: ajudantes de campo, oficiais de ligação, convidados, jornalistas, etc.)

O espaço a bordo de um Alouette III era contadíssimo e condicionado ao limite do peso e da segurança de voo num território de clima tropicale e, para mais, em guerra. Reservar lugar para um animal de grande porte num meio de transporte militar crítico seria absolutamente  inacreditável, impraticável e inaceitavel. Havia combatentes que morriam no mato por insufuciência de apoio aéreo.

5. Mas não deixa de ter a sua "graça" ou a sua "piada" a suposta existência de um cadela "Blonde" que, na nossa imaginação (e com acumnmplicidade da IA...)  até era capaz de substituir o Jorge Félix aos comandos do heli AL III... 

Daí, finalmente, e ao fim de meia dúzia de tentativas e muitos insultos (!), consumnidores de tempo, paciência e recursos, eu tenha conseguido "produzido" esta BD, em que entram o nosso general, a "Blonde"e o ajudante de campo, o "Aponta, Bruno"... Com a ajuda da IA e, mais uma vez,  do nosso camarada João Rodrigues Lobo.

Spínola tem o seu lugar na Histtória. A "Blonde" só na Banda Desenhada...

 
(Pesquisa: LG + Blogue + IA (Gemini IA / Google | ChatGPT / Open AI)
(Condensação, revisão / fixação de textio, itálicos, nebritos, título: LG)
________________


(**) Vd. poste de 21 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28044: Humor de caserna (268): o anedotário da Spinolândia - Parte XXXVI: mais uma alucinação da IA, "o general do cavalo branco"

(...) Resposta da IA | ChatGPT:

(...) Touché! Tens toda a razão, camarada, e o reparo é absolutamente certeiro e cirúrgico.

Esta é, de facto, uma daquelas "alucinações" que misturam ficção popular com dados soltos da internet, e o meu "filtro" de verificação histórica falhou redondamente ao dar corda à narrativa em vez de a desmontar logo à partida.

O argumento que apresentas arruma de vez com o mito: a peste equina africana era endémica na região, o que tornava a sobrevivência de cavalos — especialmente de raças europeias que não tivessem imunidade — um absurdo logístico e biológico.

Além disso, Spínola, por muito teatral que fosse, era um militar pragmático e um cavaleiro de elite (foi da mítica equipa de saltos de obstáculos do Exército); ele sabia perfeitamente que levar uma montada para o clima e para o contexto da Guiné não fazia o mínimo sentido.

A única coisa que se aproximava de "quatro patas" no folclore factual de Bissau era a famosa cadela Blonde, a pastora-alemã que o acompanhava, e os helicópteros Alouette III, que eram os seus verdadeiros "cavalos de ferro" para as ações de impacto psicossocial nas tabancas. (...)

 Vd. também poste de  19 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28037: Humor de caserna (267). o anedotário da Spinolândia - Parte XXXV: alucinações da IA II: crítica e autocrítica

(***) Vd. psote 18 de março de 2008 > Guiné 63/74 - P2664: Os Cães de Guerra (Mário Fitas e Carlos Filipe, ex-Fur Mil, CCaç 763, Cufar, 1965/66)


(****) Vd. poste de 23 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28047: Humor de caserna (269) : O anedotário da Spinolàndia - Parte XXXVI: o que faz o sargento de guarda ao palácio do Governador com uma mensagem relâmpago ("zulu") num domingo, já noite dentro ? Se necessário, faz o Governador saltar da cama...

(...) O sistema de segurança que era então montado ao Palácio do Governador, sito na Praça do Império, no início da Av da República, englobava as seguintes forças essenciais (**):

(i) uma secção de tropa regular, comandada por um Sargento da Guarda, que tinha a seu cargo os postos de sentinela ao fundo do jardim e ainda um posto de sentinela ao lado direito do jardim; a segurança era feita durante o dia do lado de fora do jardim; com o render dos postos de sentinela às seis horas da tarde a segurança passava a ser feita do lado de dentro dos muros;


(ii) uma secção da Polícia Militar, incluindo um sargento e um oficial, que tinha a seu cargo o pórtico principal do Palácio e o portão lateral de serviço geral;

(iii) durante a noite, entre as dezoito da noite e as seis horas do dia seguinte, a segurança era reforçada com um elemento da Polícia de Segurança Pública (PSP), que ficava encarregado do espaço entre a casa da guarda e do pessoal civil servente do Palácio e o edifício principal;

(iv) também durante a noite, a segurança era ainda reforçada com um cão treinado em segurança e respectivo tratador, na altura um paraquedista, que tinha a seu cargo o patrulhamento do interior do jardim.


(*****) Último poste da série > 20 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28272: Casos: A verdade sobre... (76): O soldado básico que era médico, e que eu conheci no Campo Militar de Santa Margarida, entre 23 de fevereiro e 24 de abril de 1970 (António Tavares, ex-fur mil SAM, CCS/BCAÇ 2912, 1970/72)

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28272: Casos: A verdade sobre... (76): O soldado básico que era médico, e que eu conheci no Campo Militar de Santa Margarida, entre 23 de fevereiro e 24 de abril de 1970 (António Tavares, ex-fur mil SAM, CCS/BCAÇ 2912, 1970/72)









Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: António Tavares (2010)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


 1.   É uma daquelas histórias de caserna que, à primeira vista, parecem quase anedóticas. Mas talvez não o sejam. 

O caso já aqui foi contado, pelo nosso estimado camarada António Tavares, ex-fur mil SAM, vagomestre, CCS/BCAÇ 2912 (Galomaro, 1970/72), que vive na Foz do Douro, Porto.

É a história de um soldado básico que terá chegado (?) a integrar o BCAÇ 2912, em formação, a decorrer no Campo Militar  de Santa Margarida (CMSM), entre 23 de fevereiro e 24 de abril de 1970, e que era médico (ou licenciado em medicina) (*)

O caso merece ser de novo trazido à baila (**). 

António Tavares  contou-a no blogue em 2010, quarenta anos depois dos acontecimentos. Um licenciado, médico, alegadamente por razões políticas, foi incorporado como simples soldado básico. Um “Senhor Doutor” sem galões de aspirante a oficial miliciano médico, que os camaradas (e nomeadamente as praças e os 1ºs cabos milicianos do BCAÇ 2912) procuravam quando precisavam dos seus conhecimentos.

Vale a pena recuperar esta memória,  não apenas pela personagem, cuja identidade foi preservada mas também porque ela nos obriga a olhar para uma realidade pouco conhecida da tropa no tempo do Estado Novo: a distância que podia existir entre a formação, a competência profissional e o lugar que o aparelho militar atribuía a cada homem.

Quanto aos pormenores, alguns poderão exigir confirmação documental. Mas a história, no essencial, é perfeitamente plausível. 

E tem uma ironia que salta à vista: um médico transformado em “soldado básico” pelos homens que mandavam; e reconhecido como médico pelos homens que com ele conviviam, os seus camaradaplls. E que, contrariamente aos outros soldados básicos, era tratado com deferência, respeito e cumplicidade  como "senhor doutor", comendo  na messe de sargentos e dormindo com os 1º cabos milicianos...


O soldado básico que era médico no Campo Militar de Santa Margarida

 por António Tavares

Na lista dos nossos Marcadores/Descritores (badana do lado esquerdo do blogue), no tag ”Os Nossos Médicos”, li o nome de um médico, nosso camarada durante a formação do Batalhão, de que por razões óbvias omito o nome, mas recordo com saudade.

Na formação do BCAÇ 2912, iniciada a 23 de fevereiro de 1970, no Campo Militar de Santa Margarida (CMSM), tivemos um soldado básico que era licenciado em... medicina!

Era soldado básico por motivos políticos,  com o único mal de ter ideias diferentes daqueles que nos mandavam ir matar e morrer… a bem da riqueza de alguns!

Tinha estado no Presídio Militar de Penamacor onde passou dificuldades de vária ordem e até económicas.

Homem de fino trato,  sempre pronto a ajudar quem precisasse dos seus serviços médicos com a sua mala triangular, estetoscópio, antipiréticos, anti-inflamatórios, ligaduras, etc. … Um autêntico João Semana!

Sentia-se útil em ajudar e os milicianos agradeciam a sua cooperação que era muito solicitada naquela frigidíssima terra do CMSM.

O frio era tanto que os camaradas roubavam mantas uns aos outros para não dormirem gelados na caserna!

Eu fui uma das vítimas, mas confesso que também roubei uma! Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão… Logo, fui perdoado. Se o não fui, a penitência foi cumprida logo a seguir no teatro de guerra: Guiné!

No fim da IAO, em Santa Margarida, não faltou nenhuma manta!

Sem o conhecimento da hierraquia militar,  o soldado básico, médico  (ou, pelo menos, licenciado em medicina), dormia na caserna dos cabos milicianos e comia na messe dos sargentos!

O BCAÇ 2912 partiu, em 24 de abril de 1970, da gare marítima de Alcântara, no T/T Carvalho de Araújo, rumo ao CTI da Guiné, com os alf mil médicos Vítor Veloso,  José Alberto Martins Faria e Eduardo Teixeira Sousa.

O Dr. Vítor Veloso, em 1971,  foi para Bafatá como Delegado de Saúde, sendo substituído pelo alf mil médico José Guedes, ex-Otorrino no Hospital Geral de Santo António do Porto.

O médico, já com C
édula Profissional, soldado básico na tropa, esse, continuou no CMSM. Em 1971 ou 1972 encontrei-o na Guiné, tenho a ideia já como alf mil médico.

Os seus bons serviços e competência técnica foram precisos naquela macabra guerra de guerrilha, onde se matava para não morrer!

Quarenta anos passados é o que recordo do "Senhor Doutor" ... Assim era conhecido e tratado pelos milicianos!

Os ex-combatentes conhecem bem histórias de repressão política, com intervenções da PIDE, nos anos de 1961 a 1974,  contra  vários cidadãos de pensamento contrário ao regime vigente de então.

A juventude do após 25 de Abril de 1974,  por muito que leia, veja e ouça,
 não tem felizmente a noção e a vivência de uma guerra de  guerrilha que visava a conquista das populações nativas segundo a propaganda da época.


Com um abraço do 

António Tavares

Ex-Fur Mil SAM, CCS/BCAÇ 2912 (Galomaro, 1970/72)

Foz do Douro, 23-02-2010

(Revisão / fixação de texto, título: LG)


2. Comentátrio do editor LG:

É pena é que o nosso camarada António Tavares tenha omitido o nome do "senhor doutor" do Campo Militar de Santa Margarida (ou, pelo menos, não o tenha partilhado com os editores do blogue).

É uma história perfeitamente verosímil no essencial, mas há nela alguns pontos que importa separar: (i) o que é historicamente plausível; (ii) o que precisa de confirmação documental; e (iii) aquilo que provavelmente resulta de memórias com 4 dezenas de anos.

O que há de verdade nesta história ?

Bem, a figura do soldado básico licenciado em Medicina não deveria ser vulgar, antes pelo contrário. Em princípio, as NT não podiam dar-se ao luxo de perder um médico, com tanta falta deles (quer na metrópole, quer no ultramar). 

Mesmo que o médico não estivesse alinhado política e ideologicamente com o regime que sustentava a guerra. Guerra que, afinal, foi feita por tantos "desalinhados", nomeadamente milicianos, médicos e não médicos, obrigados a cumprir o serviço militar como qualquer um de nós. 

Havia uma enorme penúria de médicos, no início da década de 1960, quando "rebentou a guerra de Angola"... Em contrapartida, não  faltava "carne para canhão", como se costuma dizer...

Hoje (dados de 2025), temos mais de 65 mil médicos, dez vezes mais do que em 1960, sendo quase 60% mulheres. Em 1960, o número de médicos era da ordem dos 6,7 mil (com uma taxa de feminização muito baixa, c. 3% a 5%). Dez anos, no início de 1970, o total de médicos, não ultrapassava os 8,2 mil (taxa de feminização: 15%). 

Era de todo impossível ter 3 ou 4 médicos por batalhão, 1 por companhia!... ( O BCAÇ 2912 teria sido mais a exceção do que a regra.)

 Durante a guerra colonial (1961/74),  só o Exército mobilizou cerca de 1.100 médicos milicianos. 

Portanto, era dramaticamente escasso o número de médicos em Portugal. Com o início da guerra colonial, as Forças Armadas (Exército, Marinha e Força Aérea) tiveram que competir com a sociedade civil e o sistema de saúde (público e privado) por este recurso escasso. (Ainda não havia o Serviço Nacional de Saúde, criado apenas em 1979.)

 Não deve ter sido caso único, durante a guerra colonial, o deste soldado básico, com habilitações literárias superiores,  alegadamente licenciado em medicina...

A ser verdade, conviria encontrar documentação (nomeadamente no Arquivo Histórico-Militar) que confirmasse ou infirmasse a existência deste médico que não passava de soldado básico (entre fevereiro e abril de 1970), no CMSM,  alegadamente "por razões políticas"... E que depois,  beneficiando talvez de uma amnistia, terá sido reclassificado, reabilitado e terá feito  o COM, acabando  por ser mobilizado como alf mil médico...

O pomo da discórdia pode ser este: 

 (i) ser licenciado em medicina não chegava para se ser médico, era preciso estar inscrito em (reconhecido por) a Ordem dos Médicos; 

e, por outro lado, (ii) nada obrigava o Exército a que o indivíduo, médico,  fosse incorporado como aspirante ou alferes miliciano médico.

Um médico convocado para o serviço militar podia, por razões administrativas, disciplinares ou políticas, não ser aproveitado como médico militar, por ter, por exemplo, chumbado no COM (Curso de Oficiais Milicianos).

A explicação dada pelo António Tavares (“soldado básico por motivos políticos”) é elucidativa.

Não havia a categoria de furriéis milicianos médicos nem soldados médicos, muito menos soldados básicos médicos. (Em contrapartida, havia furriéis milicianos enfermeiros, 1ºs cabos auxiliares de enfermeiro e soldados maqueiros.)

O que provavelmente aconteceu, pelo menos neste caso relatado acima, é que  um cidadão português,  apesar de ter uma licenciatura em medicina e ter cédula profissional emitida pela Ordem dos Médicos, foi  incorporado como "soldado básico"...

A passagem pelo Presídio Militar de Penamacor é o elemento que gostaríamos de poder confirmar documentalmente. 

Se esse nosso camarada esteve efectivamente preso por razões políticas (em Peniche, Caxias ou até Tarrafal, para os ultramarinos) ou disciplinares (em Penamacor ou em Elvas) e depois foi colocado como soldado básico no CMSM,  a narrativa ganha uma coerência muito forte.

E há um pormenor delicioso: “Homem de fino trato,  sempre pronto a ajudar quem precisasse dos seus serviços médicos…”

Isto é exactamente o tipo de coisa que acontece numa organização militar: (i) a instituição podia não o reconhecer formalmente como médico; (ii) os camaradas, pelo menos no CSMS, reconheciam-no imediatamente como tal.

Ele tinha conhecimentos médicos, sabia diagnosticar, tinha provavelmente a sua maleta de médico, e as praças e os milicianos recorriam naturalmente a ele. Daí a expressão, cerimoniosa e respeitadora, “Senhor Doutor".

Todavia, a referência à “maleta triangular” merece alguma cautela:  a descrição de uma maleta / estojo médico (com estetoscópio, ligaduras, antipiréticos, anti-inflamatórios etc.) é perfeitamente plausível; mas não se deve tomar esse objeto como prova de que ele tinha oficialmente equipamento médico militar; pode ter sido material pessoal ou obtido informalmente.

 A parte mais saborosa da história (mas que deve ser tratada com cautela ou prudência) é o facto de o "senhor doutor" dormir com os cabos milicianos e comer na Messe de Sargentos. 

E mais: à revelia da hierarquia militar:  “Sem o conhecimento dos Comandos Militares"...

É perfeitamente possível como arranjo informal tolerado localmente.  Até porque o Campo Militar de Santa Margarida não era/é um simples quartel, era/é uma base gigantesca (hoje uma das maiores instalações militares da Europa, a maior instalação militar portuguesa em termos de guarnição e a segunda maior em termos de área ocupada, com 6,7 mil hectares de área ocupada, sendo 350 ha de área da zona de aquartelamentos!).

De qualquer modo, a  expressão “sem o conhecimento dos Comandos Militares” deve ser uma ficção ou uma memória truncada  do narrador. 

É difícil imaginar que ninguém na cadeia de comando, no CMSM,  soubesse que um homem estava a dormir e a comer fora do lugar que formalmente lhe correspondia. (Pelo menos, o comando do batalhão em formação, o BCAÇ 2912.)

O ponto que merece mesmo confirmação: quando ele reaparece como alferes médico no CTIG. Diz o Tavares: “Em 1971 ou 1972 encontrei-o na Guiné, tenho a ideia como Alf Mil Médico".

Isto escritio em 2010, tem de ser lido com reservas. O Tavares podia ter sido atraiçoado pela memória. Bastaria haver aqui uma confusão de identidade, de posto ou de função.

A ser verdade, teríamos uma transformação extraordinariamente interessante: licenciado em Medicina / médico com cédula profisisonal da OM  → soldado básico  (no CMSM)→ médico informal dos camaradas na caserna → finalmente alferes miliciano médico (no CTIG).

E isso levanta uma pergunta histórica muito interessante: o que é que aconteceu entretanto? Foi reintegrado? Voltou  a fazer o COM ? Mudou a sua situação militar? Foi reconhecida a sua  licenciatura? Foi simplesmente mobilizado posteriormente como médico?
 
A história deve ser recuperada não apenas como uma "anedota de caserna" ou uma simples "fait-divers" da história de vida de  um médico,  durante a guerra colonial,  que, hoje, a estar vivo (como esperamos), será octogenário e estará seguramente  reformado.

Ela diz muito sobre a extraordinária capacidade da tropa para criar soluções informais. De facto, o protagonista era "formalmente" um soldado básico, mas na realidade as praças do contngente geral e os milicianos tratavam-no como médico ( “Senhor Doutor").

A instituição militar podia desqualificá-lo ou subalternizá-lo; os homens à sua volta faziam exactamente o contrário: reconheciam-lhe a competência e recorriam a ela.

 E há ainda uma segunda história dentro desta história: descobrir quem era o médico. Não para necessariamente revelar o seu nome mas para tentar reconstruir documentalmente, a partir dos arquivos.  como é que um licenciado em medicina acabou como soldado básico em no Campo Militar de Santa Margarida e, eventualmente, como alferes miliciano médico na Guiné. (**).

Não deve ter sido caso único, durante a guerra colonial, a deste soldado básico, com habilitações literárias superiores,  alegadamente licenciado em medicina...

A ser verdade, conviria encontrar documentação que confirmasse ou infirmasse a existência deste médico que não passava de soldado básico (entre fevereiro e abril de 1970), no CMSM,  "por razões políticas"... E que depois,  beneficiando talvez de uma amnistia, terá sido reclassificado, reabilitado e terá feito  o COM, acabando  por ser mobilizado como alf mil médico...

Todavia, temos  de ser cautelosos: esta não devia (nem podia) ser uma prática corrente. Temos evidência de um caso. Não temos ainda evidência de uma prática generalizada por parte do Exército.

Recordo-me de, também há muitos anos, ter lido uma história parecida: haveria um soldado, que julgo que seria básico, que esteve em Bambadinca, nos primeiros anos de guerra, e que era médico, ou estudante de medicina... Será que alguém se recorda também desde caso ?

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28082: Casos: a verdades sobre... (75): O meu tio paterno Agnelo António Monteiro de Macedo (ilha do Fogo, Cabo Verde, 1925 - Lisboa, 1972), chefe de posto de Catió, preso pela PIDE em 1962/63, detido na Ilha das Galinhas e depois transferido compulsivamente para Moçambique (José Macedo, EUA)





Guiné > Região do Cacheu > Cacheu > DFE 21 (1973/74) > O então 2º ten fuzileiro especial posando, à civil,  na sua mota. Em 1971 tinha frequentado o 1º ano da Escola Naval e preparava-se para ingressar nos fuzileiros. Nesse verão, conheci-o e convi com ele na Lourinhã. Arranjou um trabalho sazonal no parque municipal de campismo  da Praia da Areia Branca.

Foto e legenda): © Zeca Macedo (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].



1. O nosso amigo e camarada de guerra, da Guiné, a viver nos EUA, desde 1977 (onde é advogado),  José Macedo, fez-nos um pedido sobre um tio paterno, que integrou  a carreira na administração ultramarina e passou pela Guiné nos anos 60.

Sabemos alguma coisa sobre esse tio, mas não o suficiente para poder ajudar o sobrinho. Recorremos  tambéma a algumas ferramentas de IA (Hemini/ Google, ChatGPT / Open AI)-


2. Mensagem do José Macedo (EUA); 

Data - sexta, 5/06/2026, 17:55

Assunto - Agnelo Macedo, chefe de posto na Guiné e depois em Moçambique

 Camarada Luís: o meu tio Agnelo Macedo, irmão do meu pai, era Chefe de Posto em Catió, na Guiné. Foi preso pela PIDE, enviado para a Ilha das Galinhas em 1962 ou 1963 por alegadamente ter tido reuniões com dirigentes do PAIGC. 

Gostaria de saber se alguém da(s) unidade(s) estacionada(s) em Catió durante esse período se lembra desse episódio da prisão do chefe de posto . 

Mantenhas, Zeca. 

PS1 - Quando saiu da Ilha das Galinhas foi enviado para Moçambique onde foi chefe de posto em Nacala, concelho de Nampula. Teve problema nos rins, possivelmente pela “porrada” que levou na “prisão” veio a falecer em Lisboa em 1972. Obrigado pela tua assistência.

PS2 - (...) Em 62 João Bacar Jaló foi nomeado Chefe dos Caçadores Nativos no Sector Catió/Cacine. E Foi em Catió que o meu tio conheceu os pais do Zikky (Sayeg) de quem era padrinho. Mantenhas e obrigado.



Agnelo António Monteiro de Macedo (1925-1972):: quando joveme na idade adulta

Fonte: Genealogia...https://www.barrosbrito.com/8286.html (com a devida vénia)


3. Resposta do editor LG:

 O teu tio, que tem o mesmo nome do teu mano, Agnelo Macedo (n. 1952, capitão-de-mar-e-guerra, na situação de reforma) é este teu patrício, nascido em 1925. Descobri em:  https://www.barrosbrito.com/8286.html . 

Agnelo António Monteiro de Macedo (1925-1972): 

  • data e local de nascimento: 4 mar 1925, N. Senhora da Conceição, São Filipe, Fogo, Cabo Verde;
  • data e local do óbito: 23 mai 1972, Lisboa, com 47 anos de idade;
  • era filho de Joaquim Botelho da Costa Monteiro de Macedo (1894-1943) e de Palmira Monteiro (1903-1983);
  • o pai era engenheiro electrótecnico, nascido a 16/12/1895, em S. Filipe, casado (1º casamento) com Palmira Monteiro, natural do Fogo; formado pela Universidade de Toulouse, França; foi nomeado em 17 jan 1922 administrador do concelho da Ilha de S. Vicente mas foi exonerado a seu pedido, dois meses depois  (tendo sido nomeado para substituí-lo o seu primo Simão José Barbosa); foi nomeado presidente da câmara municipal do Fogo em 3 jul 1928;
  • o Agnelo Monteiro era, em 1944, estudante, solteiro, residente na Cidade da Praia, Ilha de Santiago, Cabo Verde;
  • em 26 fev 1946 entrou para os Correios e Telégrafos de Cabo Verde; 
  • desportista, foi um dos sócios-fundadores do Boavista Futebol Clube,  da cidade da Praia (3 de março de 1948);
  • em data que não podemos precisar, seguiu como funcionário administrativo para a Guiné (então portuguesa); dali foi transferido para o nordeste de Moçambique (Nacala, distrito de Nampula).

3. Contexto 

Com base nos dados fornecidos e no cruzamento com o contexto histórico-administrativo e militar da época (transição de 1961 para 1963), aqui estão os caminhos e os factos que ajudam a reconstituir e a validar o pedido do Zeca Macedo. São os anos da contestação nacionalista na Guiné, e também os  "anos de chumbo", de forte repressão das autoridades locais (PIDE, polícia administrativa, exército).

(i) Catió e a prisão (1961/63):

O relato do Zeca Macedo é historicamente muito verosímil e enquadra-se no xadrez político da Guiné naqueles anos cruciais.
 
A região de Catió (no sul da Guiné, junto à fronteira com a Guiné-Conacri) foi a zona escolhida pelo PAIGC para a infiltração inicial e mobilização política, culminando no início oficial da luta armada na "Frente Sul" em 23 de janeiro de 1963 (com o ataque ao quartel de Tite, na região de Quínara). 

A partir de 1961/62, a rede clandestina do PAIGC operava intensamente nos regulados de Quínara e de Tombali e à volta dos postos administrativos daquela zona.

(i) O papel do Chefe de Posto: 

Se o Agnelo esteve de facto em Catió, pode-se levantar a questão de se saber se era Chefe de Posto ou Administrador... Catió, em 1971, já era Concelho...

Como Chefe de Posto Administrativo em Catió (ou no concelho de Catió), Agnelo Macedo controlava o território, a cobrança do imposto de palhota e o contacto direto com as populações locais (maoritariamente nalus e fulas na região, mas também balantas, grandes orizicultores). 

O Chefe de Posto Administrativo era responsável pela menor unidade administrativa (o Posto), em contacto direto com as populações locais, as autoridades tradicionais (régulos) e os assuntos quotidianos. O Administrador de Circunscrição (ou de Concelho), de 3.ª, 2.ª e 1.ª classe, era o magistrado administrativo que governava uma área geográfica mais vasta (a Circunscrição ou Concelho), coordenando vários postos e detendo amplos poderes civis, policiais e de fomento de instrução.

O facto de o Agnelo ser natural de Cabo Verde (São Filipe, Fogo) colocava-o frequentemente sob a mira de especial desconfiança por parte da PIDE, que receava a simpatia ou a colaboração das elites intelectuais e administrativas cabo-verdianas com o movimento liderado por Amílcar Cabral. Em muitos casos, havia laços familiares entre os cabo-verdianos, emigrados na Guiné e os militantes do PAIGC (que rapidamente se transformou em partido armado).

(ii) A Colónia Penal da Ilha das Galinhas: 

Situada no arquipélago dos Bijagós, funcionava precisamente como o destino principal para os presos políticos na Guiné (tanto guineenses como cabo-verdianos),  acusados de subversão ou cumplicidade com o PAIGC, antes e durante os primeiros anos da guerra (e até ao fim da guerra). 

A detenção por "alegadas reuniões com dirigentes do PAIGC" era o modus operandi clássico da delegação da PIDE em Bissau para neutralizar funcionários suspeitos de passar informações ou facilitar a logística nacionalista.

Mas tudo indica que o "suspeito" esteve detido (quanto tempo ?) na Ilha das Galinhas sem culpa formada e sem nunca ter sido julgado. Não se tendo provado que era "militante" ou "simpatizante" do PAIGC, terá sido deixado em paz mas transferido para longe, compulsivamente, para Moçambique. Caso contrário, poderia ter ido parar, no mínino, ao Tarrafal.

(iii) As unidades militares em Catió 

Para responder à dúvida do Zeca sobre quem se poderá lembrar desse episódio, seria fundamental identificar as subunidades militares que estavam estacionadas ou operavam em Catió no biénio de 1962/1963. Tarefa que é muito difícil ou praticamente impossível: em meados de 1962, haveria apenas uma secção a guarnecer Catió, segundo as nossas contas. 

Em todo o Sul (que abrangia as regiões de Qínara e Tombali), havia apenas, já em 1963,  um batalhão, o BCAÇ 237 (sem unidades orgânicas) (jul 61/out 63), com o comando sediado em Tite, e tendo sob o seu dispositivo e manobra  a CCAÇ 152 (em Buba) e CCAÇ 153 (em Aldeia Formosa) (mai 61/jul 63). 

Esta  última, comandada pelo cap inf José dos Santos Carreto Curto, manteve  "forças destacadas em Cufar, Catió e Bolama, por períodos variáveis" (forças essas que podiam ser de 1 secção, 1 secção reforçada, menos de 1 pelotão, 1 pelotão ou 1 pelotão reforçado, nunca uma companhia). E havia em Bedanda a 4ª CCAÇ Indígena (a partir de abril de 1967, CCAÇ 6).


Dispositivo das NT em 8 de agosto de 1962, assinalando-se com uma seta a vermelho Catió (que devia ter uma secção)

Fonte:  Excerto de: Estado-Maior do Exército; Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974). Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África; 6.º Volume; Aspectos da Actividade Operacional; Tomo II; Guiné; Livro I; 1.ª Edição; Lisboa (2014),  pág. 61.
 

Em 7/2/1963, a CCAÇ 153 foi rendida pela CCaç 274 (jan 62/ jan 64) e colocada em Bissau.  Esta fez operações no sector de Catió.

Sabemos por informações recolhidas pelo PAIGC, que Catió  tinha uma delegação da PIDE e ainda  "poucos soldados", por esta altura (c. 1962/63).

É hoje praticamente impossível encontrar  algum militar, ainda vivo, que tenha passado em 1962/63 por Catió e que se lembre de "ter ouvido falar desta história"... o desaparecimento ou a detenção abrupta do Chefe de Posto Agnelo Macedo pela PIDE. 

(iv) A Transferência para Moçambique e o fim prematuro de vida

A transferência de funcionários públicos "sob suspeita" ou após cumprirem períodos de detenção e inquirição  administrativa era uma prática comum do Ministério do Ultramar para afastar, dos palcos de conflito,  
os elementos ativos sem necessariamente os demitir de imediato (o que criaria mais contestação local).

O Agnelo Macedo morreu em maio de 1972, então o alegado episódio da prisão pela PIDE em Catió, em 1962 ou 1963, ocorreu cerca de dez anos antes da sua morte. Isso significa que ainda teria tido uma década de vida após esse acontecimento.

Ora, em muitos casos semelhantes da administração colonial, funcionários suspeitos de "simpatias nacionalistas" eram:

  • presos preventivamente pela PIDE;
  • sujeitos a inquérito;
  • transferidos compulsivamente para outro território ultramarino;
  • afastados de determinadas funções;
  • ou então demitidos da função pública.

A PIDE, apesar de tudo, não terá conseguido "provar" que o Agnelo Macedo era "turra"... O envio para Moçambique (um território imenso e, até 1964, ainda sem frente de guerra ativa) servia como uma espécie de "exílio administrativo". Agnelo Macedo terá continuado a sua carreira   na Administração Civil de Moçambique, como chefe de posto em Nacala,  no nordeste de Moçambique, durante a década de 1960.

O facto de ser cabo-verdiano é relevante. Nos anos que antecederam a guerra, vários funcionários cabo-verdianos da administração colonial mantinham relações pessoais e familiares com quadros nacionalistas da Guiné e de Cabo Verde. Isso não significa que fossem militantes do PAIGC, mas explica por que motivo alguns ficaram sob vigilância da PIDE.

Aliás, Catió era uma zona particularmente sensível. Mais tarde tornar-se-ia um dos principais teatros de operações do sul da Guiné. A partir do início da década de 1960, a polícia política observava atentamente funcionários administrativos, comerciantes e professores suspeitos de contactos com o movimento nacionalista.

O seu  óbito, registado em Lisboa a 23 de maio de 1972, com apenas 47 anos, sugere uma evacuação médica de Moçambique para a metrópole,  possivelmente devido a doença prolongada, uma realidade que afetava muitos dos funcionários que serviam em postos de isolamento e clima insalubre no Ultramar (com a agravante, neste caso, de ter sido preso e muito provavelmente torturado pela PIDE e internado na Colónia Penal da Ilha das Galinhas).

(v) Pistas para investigação adicional

Para robustecer  esta pesquisa e trazer respostas mais concretas ao Zeca Macedo, os caminhos documentais mais eficazes em Portugal são:

  • Arquivo Histórico Ultramarino (AHU): onde repousa o processo individual de Agnelo António Monteiro de Macedo enquanto funcionário do Quadro Administrativo Comum do Ultramar (Guiné e Moçambique); ali constam as nomeações, louvores, licenças e as notas de transferência;  seria importante saber, aqui, quem foram os administradores e chefes de posto de Catió entre 1958 e 1964, por exemplo;
  • Arquivo da PIDE/DGS (no Arquivo Nacional da Torre do Tombo): a consulta pelo nome completo no índice da PIDE/DGS poderá revelar a existência da ficha de cadastro político, o auto de detenção em Bissau e a ordem de internamento na Ilha das Galinhas entre 1962 e 1963;
  • Através do Digitarq 2026 (Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB), descobri que o processo deste antigo funcionário público ultramarino está na Torre do Tombo (ANTT): código de referência: PT/TT/DGAP-DIA/001/014275; pasta em papel, não está tratado arquivisticamente; produção: 1963 (?) - 1974 (?).
  • Condições de acesso: Não é comunicável. O acesso da documentação é regido pelo disposto no Decreto-Lei n.º 16/93, de 21 de Janeiro, tendo sido considerado que em matéria de comunicabilidade nos termos do ponto n.º 2 do artigo 17.º "não são comunicáveis os documentos que contenham dados pessoais de caráter judicial, policial ou clínico, bem como os que contenham dados pessoais que não sejam públicos, ou de qualquer índole que possa afetar a segurança das pessoas, a sua honra ou a intimidade da sua vida privada e familiar e a sua própria imagem, salvo se os dados pessoais puderem ser expurgados do documento que os contém, sem perigo de fácil identificação, se houver consentimento unânime dos titulares dos interesses legítimos a salvaguardar ou desde que decorridos 50 anos sobre a data da morte da pessoa a que respeitam os documentos ou, não sendo esta data conhecida, decorridos 75 anos sobre a data dos documentos"; e nos termos do ponto n.º 3 do artigo 17.º estabelece que "os dados sensíveis respeitante a pessoas colectivas, como tal definidos por lei, gozam de proteção prevista no número anterior, sendo comunicáveis decorridos 50 anos sobre a data da extinção da pessoa coletiva, caso a lei não determine prazo mais curto".
  • Veremos, em poste a seguir, que tendo o Agnelo morrido em 1972, portanto há mais de 50 anos, os familiares podem pedir o acesso ao processo.
No portal Casa Comum, da Fundação Mário Soares e Maria Barroso, não aencontrámos, numa pesquisa rápida,  nenhuma referência ao nome do Agnelo Macedo.

(Pesquisa: LG + Página de Barros Brito + Digitarq «  IA (Gemini IA / Google)
(Condensação, revisão/fixação de texto, itálicos, negritos, título: LG)
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 6 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28077: Casos: a verdade sobre ...(74): A tragédia de Fajonquito, o "Dia Negro" de 2 de abril de 1972, domingo de Páscoa: evocandio duas das suas vítimas, oc ap art Carlos Borges de Figueiredo e o sold Pedro José Aleixo de Almeida (Cherno Baldé, o "Chico de Fajonquito)