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sábado, 14 de junho de 2025

Guiné 61/74 - P26921: (In)citações (274): Brancos, pretos e morenos (Juvenal Amado, ex-1.º Cabo CAR)


1. Mensagem do nosso camarada Juvenal Amado, ex-1.º Cabo Condutor Auto Rodas da CCS/BCAÇ 3872 (Galomaro, 1971/74), com data de 13 de Junho de 2025:


Brancos, pretos e morenos

Numa noite de Dezembro, há 54 anos, num dia de calor asfixiante, chegamos à entrada da barra do porto de Bissau de águas barrentas, e atmosfera tensa, de quem não sabe para onde vai, se íamos desembarcar directamente num cenário de guerra generalizada onde todos andavam armados em posição de reacção a qualquer confronto.

Ficamos pois admirados, porque quem conduziu o Angra do Heroísmo até ao cais foram pilotos nativos negros, nas suas vestes pouco menos que andrajosas, e quando amanheceu, na vez de viaturas militares onde seríamos prontamente inseridos no dispositivo militar pronto para tudo, estavam viaturas civis de mercadorias, conduzidas também por africanos. Sem escolta fomos transportados durante 40 quilómetros até ao Cumeré.

Fez-se noite no caminho. Nós, mais três companhias madeirenses, chegamos e fomos alojados nas longas casernas. Era véspera de Natal e umas cervejas fizeram a festa até ao inesperado disparo das antiaéreas, que nos fez acordar para uma guerra que havia por ali, quase ao virar da esquina. Nessa noite o PAIGC atacou 16 destacamentos, entre eles Nhacra. Aprendemos assim como eram festejados os nossos dias mais queridos, o PAGC fornecia o fogo de artificio com que se iniciavam os festejos.

A partir daí Geba acima, aproveitando a enchente do Macaréu, fomos transportados para Leste até ao Xime e de lá, transportados novamente em camionetas civis até Galomaro, Dulombi, Cancolim e Saltinho. Tinha começado o nosso relacionamento com as populações, baseado nos serviços que nos prestavam na medida em que lhes pagávamos. O expoente máximo do comércio era entre nós e as lavadeiras, mais as vendedoras de mancarra e, no tempo dele, de caju. Os mais afoitos começaram a visitar os locais onde se bebia vinho de palma e até uma ou duas prostitutas. O bar do Regala era também um dos sítios mais cobiçados com as suas cervejas de litro bem frescas e um bitoque confeccionado pela Dona Maria, que não ficava nada atrás dos que por cá comíamos.

A ligação com as pessoas da tabanca era pois constante e nas colunas de abastecimento era comum camionetas civis fazerem connosco os reabastecimentos aos destacamentos mais isolados.

Depois começamos com os reordenamentos, que de muitas maneiras estreitou as nossas relações com as populações com negociações por vezes hilariantes, onde o homem grande prometia duas galinhas para ser o primeiro a ser contemplado com a sua morança concluída. Bem no final havia sempre muita discussão porque nós dizíamos duas galinhas e ele nem uma queria dar.

Nós fomos cidadãos do Mundo desde 1500. Convivemos e cruzamo-nos com todas as raças sem preconceito se era negra, índia, asiática ou indiana. Diz-se por graça que Deus criou o homem e mulher, os portugueses a mestiçagem tal são os traços do resultado que deixamos pelo Mundo. Também nós emigramos à procura de vida melhor fugindo à guerra ou à miséria e falta de horizontes.

Que sempre houve racismo, é verdade, mas não era generalizado. Hoje assistimos a esse fenómeno, onde parte da nossa sociedade tenta segregar a outra, rejeitando-a, esquecendo que essa gente que habita nos nossos piores bairros, que tem os piores transportes e os piores empregos, são descendentes dos que connosco conviveram, muitos dos quais combateram ao nosso lado e sofreram dores tamanhas.

A sua música e sabores, os idiomas, as suas práticas religiosas, a sua arte, fazem Portugal albergar o Mundo inteiro neste pequeno rectângulo. O Portugal plurirracial é hoje posto em causa por quem antigamente o usava para prolongar aquela guerra sem sentido.

Usam-no para colher votos, achincalham as instituições, provocam, agridem gratuitamente nas ruas com violência das biqueira de aço e poluem os nossos ouvidos com sua constante aparição nas TVs, onde vomitam ódio, muitas vezes às claras.

Albergam-se em partidos que beneficiam da democracia para acabar com ela.

Fazem bandeira dos não assunto, mentem descaradamente e arrastam atrás de si veteranos que acreditam nas suas patranhas usando as nossas justas aspirações.

Como podem resolver o que está mal se eles são o mal?

Juvenal Sacadura Amado
13/06/2025

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Nota do editor

Último post da série de 10 de junho de 2025 > Guiné 61/74 - P26906: (In)citações (273): Envelhecer... com dignidade?!? (Joseph Belo, José para os "tugas")

Guiné 61/74 - P26920: Os nossos seres, saberes e lazeres (685): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (208): Algures, na Renânia-Palatinado, em Idstein, perto de Frankfurt – 8 (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 18 de Março 2025:

Queridos amigos,
Um dos aspetos mais impressionantes na arquitetura da Catedral de Limburgo é o diálogo perfeito entre os elementos essencialmente românicos e o vislumbre do gótico, dentro daquela conceção medieval da nova Jerusalém e da descida de Deus à terra. Se é facto que a catedral perdeu o mosteiro que ali existiu quase como um anexo, o interior deslumbra por ser visível o gótico nas semicolunas na frente dos pilares, no transepto, olhando para a cúpula percebe-se essa conceção, não só pela monumentalidade desta igreja com as suas sete torres que descem das alturas como o diálogo que se processa com o exterior colorido e com doze pilares, é um dos fundamentos da fé cristã, são os doze apóstolos. A Catedral de S. Jorge assenta num penhasco, o seu castelo, ali ao lado, está em processo de restauro e como se poderá ver introduz uma dimensão castelar feudal, é como uma imponência da construção civil a suportar a grandiosidade religiosa. E depois desceu-se ao centro histórico, restauro irrepreensível, após amesendar com amigos queridos, com a chegada da noite, regresso a Idstein. Amanhã é o último dia de folgar, visita ao mosteiro do século XII, Eberbach, por ali houve filmagens de Em Nome da Rosa, baseado no romance de Umberto Eco, Sean Connery era um frade detetive que desvendou mortes misteriosas, belo filme por sinal, não desmerecendo do fulgor do romance.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (208):
Algures, na Renânia-Palatinado, em Idstein, perto de Frankfurt – 8


Mário Beja Santos


O que se mostra na primeira imagem é a Catedral de Limburgo a sofrer obras de restauro. Antes de passarmos ao seu exterior, permita-me o leitor uma pequena recapitulação deste belíssimo e singular templo religioso católico. É essencialmente românico, com influências de gótico e até mesmo do estilo mourisco; o seu interior dá-nos a entender o que pretende a conceção arquitetónica, ver a casa de oração como uma nova Jerusalém. O que aliás se sente no exterior, com as suas sete torres descendo das alturas, e aquele colorido do exterior tem um poder ornamental invulgar, é como se estivéssemos numa cidade celeste; o interior foi restaurado e pintado várias vezes, procurámos mostrar no apontamento anterior obras originais e as respetivas cores; o mosteiro que lhe estava apenso desapareceu, houve adaptação de instalações como é o caso da capela do Santíssimo Sacramento. O leitor irá verificar a magnificência dos sinos desta catedral de S. Jorge. O carrilhão consiste de nove sinos de bronze. Na torre do noroeste há dois sinos históricos datando da Idade Média. Um dos aspetos mais impressionantes que sensibiliza o visitante é verificar o pleno diálogo entre os cromatismos do interior e os do exterior. Vemos na fachada o tipo de janelas, a quantidade de luz que vem incidir sob o seu interior, e atenda-se agora à natureza das torres, ao arredondado das faces que dão a tal lógica de cidade celeste.
Fachada da Catedral do Limburgo a sofrer pequenos arranjos
O outro lado da torre, veja-se a robustez do contraforte, a janela rasgada ao nível do solo e as entradas da luz pelas janelas e óculos
Veja-se o arredondamento típico da arte românica
Descendo em direção à cidade, deslumbrou-me esta imagem do rio Lahn, estava num ponto intermédio do rochedo mas a vegetação parece que pairava sob o arvoredo, há como que uma sensação de neblina, quando aqui se chegou o céu estava um tanto plúmbeo, felizmente que desanuviou
De novo a cidade celeste e a visão de S. João no Apocalipse, vendo a nova Jerusalém e Deus descendo à terra
Foi-me então explicado que o velho castelo do Limburgo, que vem do século X, ganha de novo forma com as construções que estão em restauro no alto deste penhasco em que assenta também a catedral, só vou mostrar obra acabada
Vê-se claramente que é uma construção idealizada noutra de um passado profundo, mas bom gosto não falta e seguramente que o arquiteto teve acesso a esboços do que teria sido o original
Já estou a caminho do Limburgo junto da margem do Lahn, aceito que não era exatamente assim na Idade Média mas que o castelo é uma construção impressionante, não há dúvida
Nunca mais! Estava-se na Alemanha em campanha eleitoral e a igreja católica do Limburgo resolveu lançar o seu pretexto: todos unidos pela democracia e contra a extrema-direita!
É só uma pequena amostra dos encantos arquitetónicos do Limburgo, para ser sincero já passava das 15h00 e não se escondia a vontade de comer, bem procurei um prato de joelho de porco assado, em vão, irei desforrar-me com um arroz de rim que não comia há anos
Outro pormenor do belo casario no centro histórico
Última imagem antes de ir mordiscar, talvez tenha tido sorte com este plano de baixo até ao topo da catedral. Depois dos comes e bebes, já com a chegada da noite, regresso a Idestein. Amanhã é a última jornada, o Mosteiro de, uma extraordinária construção cisterciense, do século XII, aqui os monges levavam uma vida caracterizada pela ascese, nada de salas aquecidas, pouca conversa e comida frugal, mosteiro fundado em 1136, a sua arquitetura e a sua história é um espelho da história cultural do Ocidente, como iremos ver em seguida, antes de dizer adeus à região de Frankfurt.
Duas imagens à entrada do mosteiro de Eberbach, aqui houve filmagens de Em Nome da Rosa, baseado no romance de Umberto Eco, não sei se se recordam.

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 7 de junho de 2025 > Guiné 61/74 - P26896: Os nossos seres, saberes e lazeres (684): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (207): Algures, na Renânia-Palatinado, em Idstein, perto de Frankfurt – 7 (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P26919: Tabanca Grande (576): Jacinto Rodrigues, ex-Alf Mil Art, CMDT do Pel Caç Nat 57 (Cutia e Mansabá, 1969/71), que se senta à sombra do nosso poilão no lugar 906

1. Mensagem do nosso camarada, e novo tertuliano, Jacinto Rodrigues, ex-Alf Mil Art, CMDT do Pel Caç Nat 57 (Cutia e Mansabá, 1969/71), com data de 12 de Junho de 2025:

Caro Luis Graça,
Largos anos passados desde a minha "estadia" na Guiné, entre Setembro de 1969 e Setembro de 1971, onde comandei o Pelotão de Caçadores Nativos 57, no Destacamento de Cutia e em Mansabá, aqui estou a candidatar-me a “tabanqueiro”, apadrinhado pelo Carlos Vinhal, meu “escrivão”, segundo ele diz, pois coadjuvava-me na elaboração dos autos de procedimento disciplinar, quando os havia.

 O outro meu padrinho é o meu amigo Ernestino Caniço que comandou um pelotão de Daimlers  quando estava em Mansabá. Foram eles que chegaram até mim, passados tantos anos! E, por isso, estou-lhes grato.

Estive a comandar o Pelotão de Caçadores Nativos 57, entre Setembro de 1969 e Setembro de 1971, em Cutia, um pequeno destacamento, a meio caminho (15 kms) entre Mansoa e Mansabá, e, depois, em Mansabá, aquando da construção da estrada entre Bironque (a 5/6 kms a norte de Mansabá) e Farim.

Tal como tu, certamente, vivi momentos difíceis e complicados, agravados pelo facto de ter comigo apenas meia dúzia de camaradas metropolitanos, pois os soldados do pelotão eram todos eles naturais da Guiné, de diversas etnias e viviam na tabanca cá com a respectiva família.

Apesar de tudo, foram dois anos que jamais poderei esquecer e que lembro todos os dias. E nessas memórias estão os camaradas com quem convivi e de quem tenho as melhores recordações.

Tal como me referiste no teu mail, remeto uma foto desses tempos da Guiné e uma actual.

Será um privilégio fazer parte deste grupo de combatentes.

Um abraço, Camarada,
Jacinto Rodrigues
ex-alferes miliciano

Alf Mil Art Jacinto Rodrigues
Mansabá > Cap Inf Carreto Maia, cmdt da CCAÇ 2403 (de cabeça descoberta); Alf Mil Art Jacinto Rodrigues, cmdt do Pel Caç Nat 57 (sentado) e Alf Mil Cav Ernestino Caniço, cmdt do Pel Rec Daimler 2208 (à direita da foto).
Mansabá > Uma equipa de futebol, onde o editor reconhce o Alf Mil Art Jacinto Rodrigues, na fila da frente, à direira. O Alf Mil Cav Ernestino Caniço é o terceiro, a partir da esquerda, na fila de trás.
Interior do destacamento de Cutia. Foto © César Dias
Localização do destacamento de Cutia, sensivelmente a meia distância entre Mansabá e Mansoa
Infogravura: © Luís Graça & Camaradas da Guiné (Carta da Província da Guiné - Escala 1:500.000)
O nosso camarada Jacinto Rodrigues na actualidade
Arganil > Encontro de 2025 do pessoal do BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) > Três ilustres tertulianos do nosso Blogue: ex-Alf Mil Cav Ernestino Caniço, ex-Alf Mil Art Jacinto Rodrigues e ex-Cap Mil Jorge Picado
Arganil > Encontro de 2025 do pessoal do BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) > Jacinto Rodrigues e Ernestino Caniço

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2. Comentário do editor CV:

Caríssimo camarada Jacinto Rodrigues, está apresentado oficialmente à tertúlia. Terá ao seu dispor o lugar estatístico 906 debaixo do nosso poilão, mas "sentar-se-á" onde muito bem entender.

Dizem as nossas normas, "muito rígidas" (ver aqui), que na tertúlia nos tratamos por tu e não distinguimos os antigos e actuais postos militares; profissões; habilitações académicas e outras possíveis distinções sociais.  

Une-nos aquela terra vermelha, manchada com o sangue de portugueses e guineenses; a água daquelas bolanhas que bebemos quando a sede já não era mais suportável; os sustos das emboscadas; as muitas noites mal dormidas, no mato e nos aquartelamentos, e a incerteza do regresso para junto das nossas famílias. Além de tudo, só nós nos compreendemos já que a família está farta de nos ouvir.

O editor Luís Graça delegou em mim a missão de receber o ex-alferes Rodrigues, meu contemporanêo em Mansabá, um camarada cordial no trato. É uma honra e um gosto fazê-lo, tratando-se de quem se trata.

Lembro-me de entrar na secretaria da CART 2732 e, dirigindo-se a mim, dizia algo parecido como: "nosso furriel, tem disponibilidade para me escrever aí à máquina umas notas para eu enviar para Bissau?" Segundo me dizia, era preciso manter activos os autos de que era responsável, pelo que de vez em quando havia que mandar papelada para a Secção de Justiça e Disciplina.

Quando há uns bons meses o camarada Rodrigues me contactou por me ter encontrado na net, foi um desfilar de lembranças daqueles tempos que,  sendo maus, são vivências da nossa juventude, irrepetíveis, que jamais se apagarão da nossa memória de velhos combatentes.

Neste blogue temos a oportunidade de deixar escrito o que ainda retemos daqueles dois difíceis anos da nossa vida, pelo que convidamos o "alferes" Rodrigues a contribuir para esta feitura de memórias.
Que retém do comportamento dos seus militares guineenses enquanto combatentes ao lado dos portugueses? Que experiência lhe trouxe para a vida o contacto tão próximo com pessoas que tinham um modo de pensar e de viver tão diferentes dos nossos? A história, filosofia de vida e religião daquele povo, apesar dos nossos estúpidos preconceitos, mantinham-se praticamente intactos, resistindo a séculos de evangelização. 


Caro Jacinto Rodrigues, está apresentado. Não termino sem antes de lhe deixar o habitual abraço de boas-vindas em nome da tertúlia e dos editores, com a certeza de que estaremos aqui ao dispor para o que nos achar úteis.
Se quiser que lhe façamos um postalinho de aniversário, só tem que nos indicar o dia e o mês em que nasceu, o resto é connosco.

Os meus votos de boa saúde
Um abraço a título pessoal do furriel escrivão
Carlos Vinhal, por acaso, também coeditor deste Blogue.

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Nota do editor

Último post da série de 25 de maio de 2025 > Guiné 61/74 - P26845: Tabanca Grande (575): Joaquim Caldeira, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 2314 / BCAÇ 2834 (Tite e Fulacunda, 1968/69), que se senta à sombra do nosso poilão no lugar 905

Guiné 61/74 - P26918: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (37): os arraiais e as fogueiras dos santos populares



Alcachofra brava (Cynara cardunculus)

Coisas & loisas do nosso tempo de meninos 
e moços >  Os arraiais e as  fogueiras dos santos populares

por Luís Graça



Havia as fogueiras do Sant'António, 
do São João, e do São Pedro,
os arraiais populares,
a queima das alcachofras, 
os balões, os refrões
("um tostãozinho, vizinho, vizinha,
p'ros santos populares,
primeiro o Sant'António,
depois o Sã João
e por fim o Sã Pedro,
p'ra
nossa reinação!”)

Havia as bichas-de-rabear,
as bombas de carnaval,
o calvário e as suas catorze estações…

Alguém sabia lá o que era o solstício de verão,
e o eterno retorno,
e as festividades cíclicas,
e a purificação do corpo
e o exorcismo do mal...
E, muito menos, as fogueiras da Santa Inquisição.

Sabia-se da salvação da alma,
e dos raspanetes do padre vigário
e dos puxões de orelhas da catequista
quando a malta não decorava a doutrina,
porque só queria jogar à bola.

Não se dizia “alcachofra”, mas “cardo”…
“Cardo florido”,
no dia seguinte, posto à janela,
depois de queimado na fogueira,
era sinal, para as raparigas, de amor correspondido.
Tinha que ser sofrido, mas eterno, o amor, naquele tempo.

Saltei três vezes á fogueira,
Fazendo fisgas à morte,
Sant'António, dai-me sorte,
E amor p'ra vida inteira.

P'ra que o mê amor não sofra,
Oh Sant'António querido,
Queima-me  bem a alcachofra,
E dá-lhe o cardo florido.

Havia as fogueiras dos santos populares.
E a rivalidade dos bandos dos rapazes da tua rua 
e das ruas vizinhas,
da rua Grande, do Clube, das Aravessas...
Faziam-se e desfaziam-se por essa altura, os bandos, as alianças,
E tudo por causa dos santos da nossa devoção.
Era ver quem conseguia roçar, juntar e acarretar
mais mato e lenha para as fogueiras. 

Durante as semanas anteriores,
já andavam a roçar mato
e a escondê-lo uns dos outros.
Chegava a haver assaltos, roubos, ataques, cabeças rachadas…
Arranjavam-se aliados ocasionais, guardas e sentinelas,
nos mais velhos que tinham currais ou fazendas por ali perto,
à volta dos moinhos de vento 
e do castelo dos mouros.
O Néu, da ti Albertina, que já morreu,

emprestava a carroça,
puxada por uma burra…

Era um mundo estritamente masculino,
de brincadeiras de rapazes, aprendizes de machos,
futuros bravos soldados do império.
As meninas, essas, de saia de chita, brincavam entre elas
com bonecas de papel ou matrafonas de pano
sob a supervisão das irmãs mais velhas, das mães ou das avós.

As fogueiras faziam-se no largo inclinado dos Celeiros
(ou da Bica, por que havia lá um fontanário de 1936,
obra pública do Estado Novo).
Na rua mais alta da vila, 
a do Cemitério ou do Castelo ou dos Valados.

Só havia uma fogueira.
A rivalidade consistia em saber alimentá-la,
e não deixar apagá-la.
E, quanto maior fosse a labareda, melhor.
E só os valentaços se atreviam a furar aquela parede de fogo.

O arraial do largo dos Celeiros
era o orgulho dos meninos da vila velha
e atraía os vizinhos das ruas adjacentes
e os parzinhos,
mais os  casados e os solteiros.

“Um tostãozinho, vizinho, vizinha, 
p'ro Sã João!”…
Era o mais querido dos três santos populares, o São João,
porque era menino.
A seguir vinha o Santo António, 
matreiro, casamenteiro e brejeiro.
Ao São Pedro, de barbas brancas compridas,
já ninguém lhe ligava nenhuma.
E depois já se tinha gasto a lenha toda…

P'lo São Pedro os felizardos juravam amor eterno.
E os rapazes iam às sortes.

Com os tostões angariados,
os pequenos donos do arraial dos santos populares
compravam bichas-de-rabear,
estalinhos,
serpentinas
e até bombas de Carnaval…
E, claro, guloseimas e pirolitos.
Os sonhos pequenos de gente de palmo e meio,
que gostava também de brincar 
ás guerras de índios e cobóis.

Mal sabiam eles que dentro em breve
iria estalar uma guerra a sério,
e que os brinquedos da guerra
já não seriam as bombas de carnaval
nem as bichas-de-rabear
nem as fogueiras de saltar.

Lourinhã, Luís Graça (2005). Revisto, 13/6/2025.

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Nota do editor LG:

sexta-feira, 13 de junho de 2025

Guiné 61/74 - P26917: Recordações de um furriel miliciano amanuense (Chefia dos Serviços de Intendência, QG/CTIG, Bissau, 1973/74) (Carlos Filipe Gonçalves, Mindelo) - X (e última) Parte : a guerra de nervos nos últimos seis meses




Guiné > Bissau > c- 1973/74 > Messe de Oficiais no QG/CTIG em Santa Luzia > "Eu, na messe e piscina em Santa Luzia;  ao fundo vê-se o ecrã de cinema, que funcionava à noite...Os sargentos podiam frequentar a piscina aos sábados, o cinema era acessível a oficiais e sargentos. 


Foto (e legenda): © Carlos Filipe Gonçalves (2025). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


O "senhor rádio", o Carlos Filipe Gonçalves (Kalu Nhô Roque (como consta na sua página no facebook):

(i) nasceu em 1950, no Mindelo, ilha de São Vicente, Cabo Verde;

(ii) foi fur mil amanuense, QG/CTIG, Bissau, 1973/74;

(iii) ficou em Bissau até 1975;

(iv) músico, radialista, jornalista, historiógrafo da música da sua terra, escritor, vive na Praia;

(v) membro da nossa Tabanca Grande desde 14 de maio de 2019, nº 790;

(vi) tem 28 referências no nosso blogue.
(*)


Recordações de um furriel miliciano amanuense (Chefia dos Serviços de Intendência, QG/CTIG, Bissau, 1973/74) (Carlos Filipe Gonçalves, Mindelo) 

IX (e última) Parte : a guerra de nervos nos seis últimos meses


Publico hoje os últimos extractos da 1.ª Parte do livro "Recordações de um Furriel Miliciano, Guiné 1973/74" (*)


Depois das férias em Cabo Verde na Ilha de S. Vicente, regresso a Bissau, no início de novembro  [de 1973], continuava a paranóia latente de guerrilha urbana. Uma situação que vinha de anos anteriores, mas era minimizada… existia, mas não se acreditava que existia! 

No bairro Cupelon e outros a explosão de granadas foi passando de ocasional a frequente, há confusões por tudo e por nada. Lembro-me da mãe de uma funcionária do “ChefInt” que morreu devido à explosão de uma granada! 

Ela estava numa festa, às tantas, um desconhecido foi impedido de entrar, por não ser convidado… momentos depois, ele lançou uma granada para o telhado! Bum! A estrutura do tecto descambou, um pau de cibe acertou no peito da infeliz, que estava sentada num canto. O autor deste acto… despareceu na escuridão!
 
Acontecimentos do género eram corriqueiros! (…).Nelson Herbert (citado anteriormente) que na época era um adolescente, recorda acontecimentos ocorridos desde 1972:

“Ataques atribuídos as células clandestinas dos nacionalistas do PAIGC em Bissau. Um engenho deflagra-se na viatura de um funcionário da PIDE-DGS estacionado junto a sede/cinema do Clube Desportivo, UDIB.” 

Manuel Amante também se lembra, ficou-lhe na memória o caso de “uma bomba que foi metida debaixo do carro de um graduado da polícia, que até era, mau! Não é? Tinha um Mercedes, na altura ele pavoneava-se com aquele Mercedes amarelo, tinha-o parado à porta da UDIB e foi colocada uma bomba que tinha sido transportada numa caixa de sapatos… (#)
 
No final de 1973 a situação em Bissau é extremamente tensa, todo o mundo está alerta e com medo. O ex-militar Abílio Magro e meu colega no QG fez o seguinte comentário:

 “Face ao crescente temor de que um dia a 'coisa' ia chegar a Bissau, o pessoal andava algo receoso e muito nervoso.” 

Nelson Herbert
recordou que “a tal distante guerra, travada contra os «homens do mato» (…) rompe o bloqueio da nossa ingenuidade e chega finalmente ao coração da capital provincial.” (…)

O fim-do-ano de 1973 para 74 passamo-lo de serviço, fechados no quartel! Dias antes do Natal tinha chegado uma ordem para colocar cortinas pretas em todas as janelas; logo depois, foram colocadas em todas as janelas. Dizia-se, era para evitar a localização dos edifícios através da luz, porque temia-se um ataque aéreo nocturno com aviões MiG que os turras tinham recebido em Conacri! 

Circulava no seio da tropa que a “ (…) Direcção Geral de Segurança (PIDE/DGS) na Guiné recolhera informações, dando conta que a guerrilha tem intenção, durante o Natal e o Ano Novo, de usar os MiG em bombardeamentos contra alguns aquartelamentos portugueses.”  (##)
 
Então, a malta preparou-se para o fim-de-ano… a borga seria nas repartições! As gavetas das secretárias ficaram abarrotadas de comes e bebes, que o pessoal foi comprando na cantina e trazia aos poucos às escondidas! 

No dia 31 de dezembro de 1973 saímos do serviço como sempre às 7 horas da noite, fomos jantar na messe. A partir das 20 horas voltámos ao serviço na repartição. Não havia nada para fazer! (…)

Mas, se em Bissau, a quadra do Natal e Ano Novo foi apenas um susto, no mato, a guerra continuava e estava no auge; o ex-Furriel Miliciano Enfermeiro, Abílio Alberto Tavares Faustino, recorda:

 Naquele mês de dezembro aconteceu o “(…) Não Natal de 73. A malta no Cantanhez , sobretudo, as guarnições de Cadique e Jemberém e mais a sul, a de Gadamael, vivia uma situação de exceção devido à crescente pressão por parte do IN (ou seja o PAIGC), aliada ao peso do factor psicológico e físico, o aumento de emboscadas (3 emboscadas, a 15, 17 e 18 de Dezembro) e flagelações que não deixavam de criar uma situação de insegurança. (…)

E assim, foi a passagem de ano, já estamos em 1974.

A queda de aviões Fiat e da localidade de Guileje, os ataques a Guidage e Gadamael, foram sem dúvida factos marcantes de 1973 que ainda estão na memória de todos; no meio da tropa continua a reinar a ansiedade! Mas, como já estamos acostumados com o clima de tensão, encaramos tudo com naturalidade e sempre numa perspectiva de ultrapassar as dificuldades. 

Assim, um início «atribulado» de Janeiro do novo ano de 1974, não é surpresa, pois a guerra continua. A «guerrilha urbana» não reconhecida como tal, vai estar agora bem visível… Uma realidade, que traz o medo e aumenta o sentimento de insegurança! (…)

Em meados de janeiro  [de 1974] soubemos que tinha sido lançada uma bomba contra um autocarro da Força Aérea… Que susto!"

O ex-militar Abílio Magro, citado anteriormente recorda: 

“Apenas me chegou alguma informação difusa de que teria sido colocada uma bomba no autocarro da Base Aérea, sem grandes consequências pelo facto de aquele se encontrar completamente vazio.” 

Nelson Herbert, citado anteriormente recorda: 

“Havia um muro mesmo defronte a Messe dos Sargentos da Força Aérea na Rua Engenheiro Sá Carneiro (…), esse muro foi armadilhado pelo pessoal da Zona Zero ou da clandestinidade do PAIGC em Bissau e foi parcialmente pelos ares… sem vítimas já que o autocarro por obra de qualquer irã resolveu fazer escala nesse dia, alguns minutos mais cedo! (…)"

Em meados de fevereiro, aconteceu uma explosão no QG. Foi pelas 7 da noite, eu estava de serviço de piquete, já tinha jantado na messe, ia para a formatura, depois deveria apanhar o transporte para o local da ronda. Quando a caminho do QG na rua direita depois da rotunda do poilão, ouvi: Buuummm! O chão tremeu! 

Instintivamente, atirei-me ao chão, resvalei logo ali na vala de escoamento de águas pluviais… seguiu-se o barulho de uma chuva de estilhaços, vidros partidos… etc. Depois, ouço um carro apitando… esperei algum tempo… tudo calmo, espreitei! Mas não vi nada! Levantei-me, olho à volta: reina um absoluto silêncio! O portão está fechado… 

Quando chego à porta de armas, vejo através das barras de ferro do portão, pedregulhos, lascas de parede… pastas de arquivo e papelada, caídos na parada! Não me deixam entrar! Há uma confusão total. Volto à messe, onde ouço bocas sobre o acontecido. Só depois das 8 da noite é que tudo se normaliza, lá fizemos a formatura e partimos para a ronda num bairro de Bissau.



O ex-furriel miliciano Abílio Magro recorda: 

“Encontrando-me eu a convalescer de uma operação às varizes a que tinha sido submetido no HMBIS e bebendo uma 'cervejola' sentado na esplanada da Messe de Sargentos de Santa Luzia, num final de tarde, dá-se semelhante rebentamento por ali perto, que julgo me fez levitar por breves segundos. Segue-se de imediato o buzinar contínuo e enervante da sirene de alarme do QG e a debandada geral, desordenada e atarantada do pessoal que por ali estava. "(…)

As coisas pioram com a explosão de uma bomba no Café Ronda, situado a meio da avenida que vai dar à Praça do Império. Naquele dia, eu estava de serviço de guarda, que habitualmente eu fazia na entrada principal do QG em Santa Luzia. À noite depois das 21 horas chegou notícia através do telefone que havia na porta de entrada e estava sob a responsabilidade da PM: houve uma explosão, na esplanada do Café Ronda que estava cheia de gente a tomar a bica depois do jantar! 

O ex-furriel miliciano Abílio Magro descreveu mais tarde: 

“Eu e mais dois ou três camaradas meus, tomamos o nosso cafezinho no balcão referido (Café Ronda) e seguimos de imediato para o cinema UDIB (um pouco acima na mesma avenida) para assistir à exibição de um qualquer filme que por lá andava. Poucos minutos depois do início da exibição do filme, dá-se um tremendo rebentamento lá fora e, quase de seguida se ouvem diversas viaturas com buzinadelas e sirenes, indiciando haver constante transporte de feridos. É interrompida a exibição do filme e surge uma voz aos altifalantes do cinema, solicitando a todos os médicos que eventualmente por ali se encontrassem, o favor de se dirigirem de imediato ao Hospital Militar". (…) 

No dia seguinte, estava eu, de folga, fui a Bissau, ver os estragos… vi que o telhado de zinco, ficou revirado, dava uma ideia da força da explosão. Um militar que estava no Café Ronda disse anos mais tarde, o que lhe ficou gravado mais profundamente na memória:

Foi “(…) a bomba no Ronda, por dois motivos, por estar bastante perto dela e os mortos e feridos mais graves estarem ao pé de mim, um dos mortos, e único na altura, era o empregado nativo que nos estava a servir, (…)

Há, entretanto, outros acontecimentos domésticos marcaram a tensão em Bissau em Fevereiro daquele ano de 1974. Naquele dia de manhã chegou a informação de que na véspera, a PM prendera um soldado Comando Africano, porque andava sem boina, não respeitou estar fardado conforme o regulamento! 

Os Comandos Africanos, tinham fama de destemidos e combatentes intrépidos, lá onde havia «barulho» estavam eles, logo, achavam-se no direito de ser respeitados, mesmo quando desrespeitavam ninharias como essas “coisas” do RDM (Regulamento de Disciplina Militar) sobre o fardamento! 

47 anos mais tarde, coloco/recordo aquele acontecimento na página “Facebook – Guiné Recordações” e solicito depoimentos aos ex-militares da guerra colonial. 

Fernando Pinto recorda: 

“Estava no BENG (Batalhão de Engenharia) 447 Brá, Bissau, ouvi falar nisso, não sei mais nada!” 

António Almeida diz: 

“Foi verdade, eu na altura era condutor do comandante militar. Todos os grandes ficaram em sentido, fomos para o Q.G até tudo acalmar, com a intervenção do dito capitão. Mas, não foi só dessa vez que a estrada de Santa Luzia pôs tudo em sentido, as coisas eram logo abafadas "(…). 

Refere então a bomba que explodiu no QG:

 “Eu, estava lá e fui de imediato buscar o comandante que ficou ferido!” 

José Carapinha descreve o que viu: 

“Certo é que houve bronca (dos Comandos) e da grossa! Como começou não o sei! O que vi: os Comandos Africanos, desde Oficiais a Soldados armados, nota bem, com mocas e bastões, isso vi, outro tipo de armamento não; tudo isto durante a tarde junto da Amura (Quartel da PM e sede do Comando Chefe). Já pela noite ouvi o «arraial» algures lá para os lados do Alto-Crim!” (…)  (###)

 No seguimento destes acontecimentos, em Bissau, os nervos estão à flor da pele! Já estávamos em março, quando certo dia logo após a minha chegada à repartição contaram-me a bronca da véspera: um sururu no cinema ao ar livre, ao lado da Messe dos Oficiais. Já tinha começado o filme… quando aconteceu um movimento de pânico! Todos a correr e a fugir! 

O ex-furriel miliciano, Abílio Magro que lá estava recorda:

 “De repente vê-se um clarão e a debandada foi geral! Com a confusão, algumas cadeiras «ensarilharam-se» provocando tropeções e quedas e, os que caíam ao chão eram espezinhados pelos outros, como foi o meu caso.” 

Explica então a brincar: 

“A bomba tinha sido uma caixa de fósforos que se incendiara a um soldado, enquanto acendia um cigarro em cima do muro e que se terá desequilibrado!” 

A «paranóia» estava instalada! Mas, com o moral alto e muita esperança, lá vamos passando os dias, trabalhando normalmente. Vamo-nos adaptando ao evoluir da situação… As jantaradas nos restaurantes de Bissau e festas para que sou convidado fazem esquecer… minimizam este ambiente tenso. (…) 

E assim, vou encerrar a publicação dos extractos que dão uma ideia do livro que um dia poderá ser publicado. Extractos dos capítulos seguintes a este foram os primeiros a serem aqui publicados, descrevem o 25 de Abril e a situação que se viveu em Bissau em maio/junho de 1974.

Julgo, fui o único militar da tropa portuguesa (não originário da Guiné) que ficou em Bissau e lá viveu até 1975! Os meus camaradas militares cabo-verdianos todos regressaram. 

Logo, a 2.ª Parte deste livro, é sobre chegada do PAIGC a Bissau, os acontecimentos antes e depois do dia 10 de Setembro de 1974, quando Portugal reconheceu o novo país… Ocorre então uma reviravolta na sociedade, acontecem coisas inimagináveis, reina um clima de incerteza e desconfiança no futuro. 

Se houver um eventual interesse na 2.ª Parte do Livro, da parte dos leitores e da direcção desta página do Facebook "Tabanca Grande Luís Graça» e do blogue "Luís Graça & Camaradas da Guiné",  então poderei iniciar a publicação de mais alguns extractos. 

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Notas do autor:

[#]   No livro consta a entrevista com um dos participantes que explica, como decorreu essa acção; mas tratando-se de extractos, não poderei publicar tudo na integra agora. (….)

[##]  Vários documentos, descrevem o problema de sobrevoos de aviões da Guiné-Conacri desde 1963 e “No dia 2 de Agosto de 1973, o jornal inglês Daily Telegraph dá conta de que o PAIGC está a treinar pilotos na União Soviética para usar aviões MiG, a partir da Guiné-Conakry, em possíveis ataques contra a colónia portuguesa.”

[###]  Há mais depoimentos no livro, de militares e de pessoas que viviam em Bissau sobre este acontecimento. (…)

(Revisão / fixação de texto, itálicos, negritos,título: LG)

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Guiné 61/74 - P26916: Notas de leitura (1808): Lembranças do que foi o Museu da Guiné Portuguesa (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 15 de Janeiro de 2025:

Queridos amigos,
Quando visitei este museu pela primeira vez, confesso que fiquei desconsolado com a rusticidade museográfica, tudo exposto um tanto a monte, nada de quadros explicativos, bem quis adquirir uma qualquer brochura, não existia. Estou em crer que o museu criado em 1947, por empenho pessoal do 2.º Tenente Teixeira da Mota era muito mais frequentado por quem fazia parte do Centro de Estudos e quem colaborava no Boletim Cultural da Guiné Portuguesa. O acervo patrimonial terá sido recolhido por administradores e doadores, uma coisa era certa, impressionava pela alta qualidade dos panos e pelas esculturas Bijagó e Nalu, afinal aquelas que se impõem ainda hoje ao gosto de quem aprecia e até coleciona arte africana. Se, porventura, o leitor dispuser de documentação sobre este museu bem podia mostrá-la, ficaríamos assim com uma visão mais ampla deste museu que mudou de significado em outubro de 1974, o seu acervo andou em bolandas, deploravelmente. Temos pelo menos duas belíssimas coleções em museus, o Museu Nacional de Etnologia e o Museu da Sociedade de Geografia de Lisboa.

Um abraço do
Mário



Lembranças do que foi o Museu da Guiné Portuguesa

Mário Beja Santos

Esqueci a data precisa, ou 31 de julho ou 1 de agosto de 1968, quando entrei no Museu da Guiné Portuguesa, que não passava de um museu etnográfico, no mesmo local onde funcionava o Centro de Estudos e a administração e redação do Boletim Cultural da Guiné-Portuguesa. Fora uma criação ao tempo do Governador Manuel Sarmento Rodrigues, 1947, quem ativou todo este empreendimento foi um seu adjunto, Avelino Teixeira da Mota. A legislação idealizara um acervo de outros patrimónios e até um arquivo histórico, este só apareceu em 1970. Completamente ignorante dos valores artísticos do que estava a visitar, registei na memória os panos manjacos e as esculturas Nalu e Bijagó. Na única vez que visitei Nova Iorque, fui ao Museu Metropolitano, que tem uma organização totalmente diferente dos nossos museus, a sequência cronológica é coisa que não existe naquele património, tinha visitado uma sala pomposa de um califa de Bagdade, segui para a sala seguinte, era dedicada a arte africana, e andando por ali a ver escultura e a procurar entender a documentação conservada em vitrinas, chamou-me a atenção um caderno de viagens de um Rockfeller que andara na África Ocidental e fizera aquisições, aí pela década de 1930, deixara escrito no seu caderno que ficara fascinado pela “suprema genialidade” de umas esculturas de um povo chamado Bijagó.

Durante a comissão, ainda em Missirá, recebi um aerograma do Comandante Teixeira da Mota com o pedido de falar com o régulo e em Bambadinca saber se havia um Sónô à venda (cetro das chefaturas, é uma haste de ferro com mais de um metro de comprimento tendo na extremidade superior um processo escultórico, podem ser quatro braços ou uma estatueta), em caso afirmativo que eu pagasse o que eles pediam ou então que fizesse regateio. Bati a várias portas, sem qualquer sucesso. Tinha visto, de facto, as tais hastes de ferro com elementos escultóricos no museu em Bissau, olhei para aquilo tudo como boi para palácio. Como há anos dei conhecimento aqui no blogue, encontrei num catálogo de leilões da Christie’s sobre arte africana, Sónôs com licitação inicial de alguns milhares de euros.

Chega-me agora às mãos um inventário feito no início da década de 1960, o seu autor é omisso nas considerações artísticas ao que inventariou, diz que o museu tem caminhado muito modestamente, que as instalação são muito precárias e o seu conteúdo insuficiente, e que este inventário sirva de ponto de partida para futuros empreendimentos; e despede-se com uma exultação nacionalista: que o museu mostre às gentes que o visitarem o valor de uma civilização luso-tropicalista que só os portugueses podem mostrar ao mundo.

Sumariando a apresentação que ele faz, ficamos a saber:
- Os Balantas estão representados por cestos e arados;
- Os Bijagós por cocharros, cabaças, sais de ráfia, redes de dormir, um tambor cilíndrico de madeira, lanças, machados, pulseiras; as suas artes plásticas são muito expressivas, e ali bem documentadas por um casal de garças, representação de cão, galo, tocador de bombolom, pássaros, missionários, bajudas, canoas, um dançarino da vaca bruto, um tubarão e um homem caçando um pelicano;
- A etnia Brame ou Mancanha tem a representá-la colheres, cabaças, chapéus e esteiras;
- A etnia Felupe apresenta cenas de fanado e danças;
- A etnia Fula tem em exposição cabaças, colheres, barretes de fio de algodão, ornatos para despentear o cabelo, pilões, banquetas, sachos, machados, raspadores, enxós, instrumentos musicais, bastões de madeira ornamentados com anéis e placas de alumínio;
- A etnia Mandinga apresenta ventarolas, peças forradas a couro, ourivesaria de prata e filigrana, adornos, korás e aparece um Sónô com o comentário que é uma haste de ferro com o comprimento de 1,23 metros, na extremidade superior tem 4 braços laterais, encimados por campânulas de bronze e no topo encontra-se uma estatueta de bronze representando um camelo com arreios;
- A etnia Manjaca: cestos, panelas, panos, esculturas de pessoas e tambores;
- A etnia Nalu: também com cestos, esculturas, tambores, a árvore da vida (estilização de dois pássaros de madeira de poilão), máscaras, o icónico Ninte-Camatchole (representação do Deus do fanado, ensina os iniciados da circuncisão a conhecer os companheiros do fanado) e máscaras;
- A etnia Papel: cestos, bancos, panos tecidos com fio de algodão, enfeites e adornos, grupos escultóricos e arados;
- A etnia Saracolé (apresentada no Atlas Missionário como um ramo dos Mandingas): representada por panos;
- A etnia Sosso (também apresentados como um ramo étnico Mandinga): têm em exibição redes de pesca.

É este o conteúdo do inventário, não passa de uma lembrança, porventura acontecimentos tumultuosos vividos na Guiné-Bissau, como a guerra civil, levaram ao desaparecimento deste património artístico; pela sua localização privilegiada, mesmo ao lado do Palácio Presidencial, na Praça dos Heróis Nacionais, o museu foi parar ao INEP – Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa, naquele edifício está hoje a Primatura (gabinete de trabalho do primeiro ministro).

Edifício do Museu da Guiné Portuguesa, década de 1960
Benumbé (visto de lado)
Benumbé, arte Nalu, a mesma peça que a anterior noutra perspetiva
Incauelá, arte Nalu
Esculturas antropomórficas, arte Nalu
Duas peças de arte Bijagó e um chocalho de ferro de arte Papel
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Nota do editor

Último post da série de 9 de junho de 2025 > Guiné 61/74 - P26902: Notas de leitura (1807): "A Independência da Guiné-Bissau e a Descolonização Portuguesa", por António Duarte Silva; Afrontamento, 1997 (3) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P26915: As nossas geografias emocionais (52): Welcome to New York (António Graça de Abreu, Cascais)


1. Mais um "postal" enviado pelo nosso (e)terno viajante António Graça de Abreu, em 10 de abril de 2025, 02:36.  Publicado originalmente na sua página do Facebook em 25 de fevereiro de 2025, 17:52

 
 Nova Iorque, Estados Unidos da América

Welcome to New York, it’s been waiting for you.


Uma curta semana em Nova Iorque. Tentar, de pés bem assentes no chão, avançar na descoberta e leve entendimento da cidade.

Pela primeira vez metido lá dentro, em Manhattan, rua 46, um pequeno apartamento alugado, segundo piso numa vetusta construção de cinco andares entre arranha-céus. Logo por baixo, fumega um restaurante de churrascos argentinos, largando um cheiro a parrilhadas de carne magra e gorda que tresanda. 

Ah, mas estou no coração da Big Apple. Aqui a norte, o Central Park -- um abraço a John Lennon, homem de todas as canções, de todos os sonhos --, ao lado Times Square e a Broadway, o excelso melting pot norte-americano, a Quinta Avenida, a ostentação e o luxo, o teatro das gentes.

Foram quilómetros e quilómetros a pé, por ruas e avenidas até ao sul de Manhattan. Chelsea, Tribeca, a Chinatown com estátuas de Confúcio (551 a.C - 469 a.C.) e Lin Zexu, o herói da Guerra do Ópio, em 1839/42. 

Mais a sul, tristeza, o memorial às vítimas dos aviões loucos que em 2001 colidiram deliberadamente com os dois edifícios do World Trade Center, provocando quase três mil mortos. Hoje a construção toda em vidro com nome de One World, levantado sobre as ruínas dos dois World Center é o sétimo maior arranha-céus do mundo, com 540 metros de altura e 104 andares. Não longe, Wall Street, e anexos, a exaltação do dinheiro, o maior centro financeiro do mundo.

Desta parte da Lower Manhattan se viaja no itinerário curto por barco para a ilhota onde se ergue a Estátua de Liberdade, com paragem em outra pequena ilha, Ellis Island. Aqui se procedia no passado à quarentena e exame médico dos pobres emigrantes europeus que buscavam a América na ilusão da terra do feliz concretizar de todos os sonhos. E quanta tragédia e vilania.

Ah, Nova Iorque tem tudo. Vêmo-la quase todos os dias entrando em nossas casas, com infindáveis histórias na TV. Temos o embeber das aventuras das quatro desvairadas mas brilhantes mocetonas do “Sex and the City”, os intrincados enredos nova-iorquinos de Woody Allen, quase nada e tudo “once upon a time in America.”

Sim, mas os museus de Nova Iorque com tanta Europa transplantada lá para dentro, (o dinheiro compra quase tudo). Que maravilha! A lenta passagem pelo Metropolitan Museum of Art, o Guggenheim, o MoMA e a Frick Collection.

 Fotografando e tomando notas do genial abrir da cor dos pincéis, dos encantos mil, do requintado alvoroço, corações batendo, o baloiçar do olhar. Escrevi:

  • El Greco em Toledo, águas negras do Tejo, prata pendurada nas nuvens, 
  • Velasquez, o retrato da infanta triste, no rosto, maçãs róseas de futuro, 
  • Breughel, o Velho, as ceifeiras crescendo no ouro ondulante das searas, 
  • Vermeer, um beijo na menina sem brinco de pérola, um sorriso iluminando o mundo, 
  • Goya, gatos, pássaros e a criança imaculada como o nascer do dia, 
  • Ingres, a duquesa azul, formosa e serena, uma deusa no céu, 
  • Cézanne, no vale do Oise, pintando o chilrear dos pássaros, 
  • Van Gogh nos trigais de Arles molhando os pincéis no orvalho das nuvens, 
  • Renoir, as crianças azuis com o sol poente embalando a lua, 
  • Picasso, as mãos no decote das meninas de Avignon, não disse nada, pintou tudo,
  • Modigliani, as mulheres nuas, sinuosos querubins, a dádiva, o prazer,
  • Gauguin, o sol quente entrando por dentro do mar, gáudio no rubor das ondas,
  • Chagall, o violinista verde e roxo, um sapato preto, outro branco, até um homem voa,
  • Warhol e Marilyn, a boca entreaberta, um ícone, o desenho dos deuses.

  • Frank Sinatra e Lizza Minelli, ainda com memórias de Leonard Bernstein, entoando loas a Nova Iorque. Assim:

    If I can make it there,
    I'll make it anywhere,
    Come on, come through,
    New York, New York.


    António Graça de Abreu

    (Revisão / fixação de texto, edição de foto, links, itálicos e negritos, para efeitos de publicação no blogue: LG)
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    Nota do editor:
    Último poste da série > 11 de junho de 2025 > Guiné 61/74 - P26907: As nossas geografias emocionais (51): Jerusalém, Israel (António Graça de Abreu, Cascais)