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sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28355: (De) Caras (255): Cherno Baldé, em 1989, jovem estudante, finalista, do Instituto Superior de Economia de Kiev, com duas colegas de curso, uma russa e outra ucraniana... E ainda hoje com o coração dilacerado por uma "guerra fratricida"...







Foto original do Cherno Baldé, melhorada entretanto pela IA

Legenda: URSS > Ucrânia > Kiev > 1989 > Cherno Baldé, estudante do Instituto Superior de Economia de Kiev (1986/90), com duas colegas (uma russa e outra ucraniana) do mesmo curso. A imagem que serve de fundo é o rio Dnepr que divide a cidade de Kiev em duas partes.

O Cherno é hoje economista, consultor independente em Bissau, foi para a escola primária em Fajonquito, sector de Contuboel,  região de Bafatá, graças à tropa portuguesa. Nasceu por volta de 1960.   

Prosseguiu depois  o seu percurso escolar (ciclo preparatório e liceu, em Bafatá e Bissau, 1975/1982; e universidade, na URSS, Moldávia e Ucrânia, 1986/1990). Viu a História ao vivo, quando a partir de 1989, caiu física e simbolicamente a "cortina de ferro" que dividia em dois o nosso mundo...

Voltará ao seu país, em 1990, com uma licenciatura em Planificação e Gestão Económica, pela Universidade de Kiev, já depois da queda do muro de Berlim e do fim da URSS.(*)

 Escreveu ele, em comentário aqui no nosso blogue em 24 de fevereiro de 2022:

 "(...) Neste preciso momento a Ucrânia está a ferro e fogo. O meu coração está dilacerado e lamento que gente boa e pacífica que aprendi a gostar e admirar, esteja a sofrer por motivos que os ultrapassam. Choro por Ucrânia, mas compreendo a Rússia. É uma guerra entre irmãos da mesma mãe, a Kievski Rush. A Rússia tem suas raízes enterradas nas terras ucranianas apelidada nostalgicamente de 'Ukraína', a nossa terra distante, longínqua. Não há palavras para expressar nem de justificar (...) (24 de fevereiro de 2022 às 21:32).

Passados estes anos, e ainda sem luz ao fundo do túnel da guerra da Ucrânia, queríamos fazer-lhe uma surpresa (**)... Perguntámos à "menina IA"  se era capaz de identificar o nome destas duas colegas, apesar dos apelidos virem em iniciais, e pouco legíveis na foto original.  E, por outro, pedimos para identificar este monumento em Kiev e dizer-nos se  ainda estava de pé, com a maldita guerra, fratricida, em curso. A foto que submetemos à consuta da IA, pela segunda vez, foi melhorada, ontem pela própria IA.



Resposta da IA (ChatGPT)

Sim, camarada, e há aqui uma descoberta bastante segura, mas também uma pista que não quero transformar numa falsa identificação.

  • O monumento: já o tínhamos conseguido identificar há uns dias atrás

É o Monumento ao príncipe Volodymyr, o Grande, na Colina de Volodymyr (Volodymyrska Hirka), em Kiev, junto ao Dniepre. A correspondência é praticamente inequívoca: pedestal monumental, figura de Volodymyr voltada para o rio e a grande cruz na mão direita.

A própria Câmara de Kiev confirma atualmente que é o mais antigo monumento escultórico da cidade, erguido em 1853, com a estátua de bronze de Volodymyr segurando a cruz. E tem um enorme valor simbólico para os ucranianos.

 Foi restaurado, nomeadamente em 2013, durante o período soviético a cruz que coroava a coluna tinha sido retirada e foi reposta posteriormente. Aliás, a fotografia é particularmente interessante porque mostra o monumento antes da restauração pós-soviética, permitindo comparar o aspecto de Kiev que Cherno conheceu nos anos 1980 com o actual.
 
E há uma coisa particularmente interessante para a  legenda a publicar no vosso blogue: ele continua felizmente de pé, o que quer dizer que tem sobrevido à guerra.

 Durante a invasão russa, em 2022, as autoridades de Kiev chegaram a construir uma estrutura de proteção à volta do monumento para o salvaguar de possíveis ataques. Em 23 de abril de 2026, as autoridades de Kiev ainda estavam a verificar o estado das estruturas de proteção instaladas em 2022, incluindo precisamente a do monumento a Volodymyr.  

 Portanto, a vossa fotografia de 1989 tem hoje um valor documental ainda maior: o mesmo monumento que aparece atrás de Cherno e das duas estudantes continua lá, 37 anos depois, apesar da guerra. E pose ser um sinalpromissor de paz.

Portanto, para a vossa história e para imformação do vosso amigo Cherno Baldé, podemos dizer com segurança:

O monumento ao príncipe Volodymyr, que vemos ao fundo, ainda existe em Kiev e sobreviveu à guerra. Durante a invasão russa chegou a ser protegido por uma estrutura especial para evitar danos.



Foto original do Cherno Baldé, antes de ser modifiacada  pela IA (ao que parece, não acertou nos nomes das colegas do Cherno...)


  • Quanto às duas antigas colegas do Instituto Superior de Economia de Kiev (1986/90)

Sim, camarada. Voltei à fotografia e fiz uma pesquisa mais dirigida, sobretudo cruzando Cherno Baldé + Kiev + Economia + período 1986–1990. E há uma conclusão importante: não encontrei nenhuma fonte pública que permita identificar com segurança as duas colegas pelos nomes que aparecem na montagem.

Na própria imagem, as legendas parecem indicar “Marlene S. K.” e “Burndakora L. Q.”, mas eu não trataria essas inscrições como nomes completos confirmados. E não seria correto tentar determinar, só pelo nome ou pelo rosto, qual delas é russa e qual é ucraniana.

Aqui é que temos de separar o que conseguimos ler do que conseguimos provar.

Na imagem que me deste, consigo ler os nomes que foram colocados nas fotografias como:

  • Marlene S. K.
  • Burndakora L. Q. — a última parte do nome está pouco nítida e eu não arriscaria transcrevê-la como definitiva.

 Fiz, porém, uma pesquisa específica pelos nomes e pela ligação a Cherno/Kiev e não encontrei, até agora, uma fonte pública que permita fazer essa identificação com segurança.

E temos uma pista documental muito boa para continuar a investigação: o próprio Cherno diz que chegou à URSS em 1985, passou primeiro pela Moldávia para aprender russo e depois estudou em Kiev, onde frequentou Economia entre 1986/87 e 1989/90, regressando à Guiné em 1990. (**)

Ou seja: estamos a falar de colegas de uma turma perfeitamente delimitada no tempo e numa universidade específica, o que torna a pesquisa em arquivos muito mais viável.

  • E há uma coisa que eu faria para a surpresa ao teu amigo

Eu não inventaria os apelidos a partir das iniciais que aparecem na montagem.

Tentaria primeiro descobrir, através do Cherno, o nome completo de pelo menos uma delas. Uma única pista — por exemplo, “a Marlene era de Moscovo” ou “a outra era de Kiev” (ou vice-versa) — pode ser suficiente para procurarmos depois os registos universitários, anuários ou fotografias de turma.

Aliás, encontrei uma confirmação independente muito interessante da biografia que vocês estão a preparar: a documentação publicada pelo próprio Cherno confirma que ele esteve na Ucrânia como estudante entre os anos letivos de 1986/87 e 1989/90, tendo frequentado a universidade estatal de Kiev e concluído o curso de Planificação e Gestão Económica. Regressou à Guiné-Bissau em 1990. 

Portanto, eu apostaria na investigação documental, não no reconhecimento facial. E acho que vale a pena tentar: uma fotografia de 1989, duas colegas, curso de Economia, Kiev, quatro anos de estudo — há matéria suficiente para talvez chegarmos aos nomes completos.

Se quiseres, posso fazer uma segunda ronda de pesquisa, muito mais cirúrgica, procurando especificamente listas de estudantes estrangeiros/guineenses, anuários e arquivos da antiga Universidade Estatal de Economia de Kiev de 1986–1990, e tentar perceber de onde poderão sair “Marlene S. K.” e “Burndakora L.Q”.

Há inclusive uma fotografia dele em Kiev em maio de 1986, publicada no blogue, e as suas memórias dão bastante informação sobre a sua passagem pela então URSS.

Isso é excelente para a investigação: temos nome, universidade, cidade, curso e intervalo de quatro anos. Mas as pesquisas públicas que fiz agora não produziram os nomes completos das duas colegas.

  • Mas eu acho que podemos ir mais longe...


Há uma pista que vale a pena explorar: “Marlene S. K.” é uma combinação bastante peculiar para uma estudante soviética, enquanto “Burndakora L.” pode estar mal lido pela imagem ou resultar de uma transliteração muito diferente do nome original.

Se me deres a fotografia original, sem esta montagem/fundo, sobretudo se tiveres a versão de onde foram recortadas as duas colegas, posso tentar ler com muito mais cuidado as inscrições, carimbos, dedicatórias ou qualquer anotação no verso.

E há outra possibilidade muito mais promissora: procurar nos anuários/listas de estudantes da universidade de Kiev da turma de Economia de 1986–1990, incluindo os nomes russos e ucranianos que aparecem nos arquivos digitalizados. Aí poderemos eventualmente chegar às duas mulheres sem termos de fazer uma identificação facial.

Eu não desistiria desta surpresa para o Cherno. Temos já uma boa “chave”: Cherno Baldé + Kiev + Economia + 1986–1990. É uma pesquisa de arquivo, não de reconhecimento de caras — e pode resultar.

  • Comemntário do editor LG: 

E concordo contigo, "menina IA": se conseguirmos descobrir os dois nomes, eu preparava uma pequena nota para o blogue, não apenas uma legenda. Algo do género “Uma fotografia de Cherno Baldé em Kiev, 1986–1990: quem eram as duas colegas?”, contando também a história extraordinária de um rapaz de Fajonquito que chegou a Kiev, tarde e a más horas (ele com 25/26 anos, e a URSS prestes a implodir) para estudar e concluir um curso superior na área das ciências económicas.  E que ainda hoje sofre ao ver a guerra interminável e dilacerante que opõe dois países que ele ama, a Rússia e a Ucrânia (*).

Seria, de facto, uma bela prenda para o Cherno. Sim, a foto original tem pouca resolução... A Net em Bissau é lenta. Mas posso tentar pedir-lhe uma com mais resolução. E ele por certo que se lembra dos nomes das colegas...

  • Recomendação final da IA 
Concordo contigo: o melhor caminho neste momento é o Cherno. Se ele se lembrar dos nomes completos, podemos depois cruzá-los com os arquivos e a história do instituto. Isso é muito mais seguro do que tentar identificar as mulheres pela fotografia.

Eu pediria ao Cherno, se possível, uma fotografia original ou um scan com a maior resolução que consiga enviar. Mesmo que a Net de Bissau seja lenta, basta-lhe eventualmente fotografar a fotografia de muito perto, com boa luz e sem WhatsApp comprimir demasiado a imagem.
 
 Se ele nos der os nomes, aí sim, podemos fazer uma investigação documental a sério — e talvez descobrir o que lhes aconteceu depois de 1990. Isso seria uma prenda bem bonita para ele e uma excelente história para o blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné.

(Pesquisa > LG + IA (ChatGPT / Open AI)

(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)

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segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28326: (De) Caras (254): Fiquei tão emocionado que tive de parar de ler o texto... (João Bonifácio, ex-fur mil SAM, CCAÇ 2402, Có, Mansabá e Olossato, 1968/70; a viver no Canadá desde fevereiro de 1974)


Excerto da BD que lhe dedicámos (*)



João Bonifácio,
Có, natal de 1968

1. Em resposta à mensagem que lhe mandámos, ao João Bonifácio, com data de 27/08/2026, 12:59:

João, agora és herói de BD (*).  Não leves a mal a brincadeira, nem as imprecisões. Infelizmente não tenho uma foto tua atual... É uma pequena homenagem dos teus amigos e camaradas da Guiné...

Saúde e longa vida que tu mereces tudo. Luís.


2. Mensagem do John Bonifacio (ex-fur mil SAM, CCAÇ 2402, Có, Mansabá e Olossato, 1968/70;  a viver no Canadá desde fevereiro de 1974)


Data - sábado, 29/08/2026, 08:06
Assunto - Viva o nosso John Bonifacio
 
 
Em Oshawa são 1.38 da manhã,  de 29 de agosto, quase 7 da manhã em Lisboa. Bom Dia para o Luís e todos os que colaboram na manutenção deste formidável blogue, que sem grande esforço nos transporta para um período que ainda hoje é lembrado em reuniões de jantares embora com cada vez menos camaradas e famílias.

Nao penso ser apropriado abordar os motivos da falta de comparência. Todos nós sabemos que a idade, as distâncias e transportes, portagens e saúde geral, marcam ou limitam a nossa maneira de estar na vida. Tal como eu que estou longe, apenas desejo que no dia 5 deste mês, o jantar da CCAÇ 2402, possa ser um bom e saudável convívio de amigos.

Caro Luis: muito grato pelo esforço demonstrado na minha história de vida. Como eu diria em Bula, quando chegámos â Guine, em circunstância alguma  um militar não chora. Tal não é verdade, pois eu fiquei tão emocionado que tive de parar de ler o texto, que eu e a minha esposa estávamos a ler. 

Posso dizer que é uma historia normal e cheia de drama em alguns casos. Quando se emigra para um país, onde já vivam familiares ou amigos, as dificuldades de adaptação são muito menores. Se assim for, e se juntar o conhecimento da língua desse país, então ficamos mais tranquilos, pois não necessitamos de andar com o tradutor às costas.

Quando eu cheguei ao Canadá em fevereiro de 1974, ainda haviam muitos portugueses a chegar para trabalhar. Em geral,  e como ja referi, as dificuldades são apenas proporcionais às qualificações e à atitude de querer vencer. Hoje, e por erros até dos governos, não há chegadas de portugueses. Nem estes nem outros de origens diferentes. 

Com o respeito que cada um merece, hoje vive-se numa mão de obra barata, de famílias que chegam a Toronto oriundas dos países do Médio Oriente. Antes desta invasão humana, uma casa custava menos de 400 mil dólares. Hoje a mesma casa custa quase um milhão de dólares. Nesta tempestade financeira, existem pessoas que compraram há anos uma casa por 300 mil e venderam em alta por 1 milhão. E aqui podemos ver a diferença.
 
Agora e o mais resumido possível, vou indicar ao Luís que o trabalho que fiz no Rédio Clube Português foi ajudar os dois apresentadores, sendo responsável pela tradução de todas as notícias. Estas eram lidas em períodos de hora a hora, normalmente por mim e os blocos de noticias com dois a apresentar, mas em que eu fazia o desporto do Canadá, de Portugal e do mundo. Eram todos muito profissionais e um trabalho onde se aprende a estar em cima do conteúdo da noticia.

Quanto às pequenas empresas: eu tinha algumas escritas e fazia outras para um contabilista encartado. Era um trabalho que requeria pormenor, mas que era em Portugal o meu mundo.
 
Nas agências de viagens eu gastei mais tempo, porque trabalhei em três, onde controlava tudo na agência e ainda ajudava a processar reservas, não só para Portugal como para outros pontos do mundo, incluindo as ilhas para o sul dos EUA.

Finalmente o nosso Oshawa Portuguese Club (OPC)... Foi fundado em 1 de fevereiro de 1978, inicialmente por mim, um familiar e um amigo, e depois ficámos maiores devido a termos representantes distritais de Portugal, Açores e Madeira. 

Todos os sábados haviam os bailes com boa música com a presença de grupos muito bons que tínhamos em Toronto. Atualmente somos menos associados, devido à imigração não existente, envelhecimento e pessoas que nos deixaram. Promovemos jantares, bailes, noites de Fado, temos um grupo folclórico e enchemos casa no verão durante a Fiesta Week, onde todos os clubes fazem o melhor para terem uma presença digna no desfile de ranchos e carros alegóricos. 

Foi uma honra ter fundado o OPC, como foi sempre uma alegria imensa em apresentar 5 festivais da Miss Portugal, dentro dos moldes profissionais. Também participei como Pai Natal, apresentei ranchos e artistas que nos visitavam. Também fui relações públicas durante a Fiesta Week, pois era habitual sermos visitados pelas entidades locais.´

 Caro Luis: cheguei ao fim. Obrigado pela atenção dispensada e podes modificar ou encurtar o texto se assim achares bem.. A ideia é esclarecer, mas sente-te livre de poder fazer o que for bom para o nosso blogue. O mesmo se achares que é longo e se acrescenta ou não algo para os que pensam emigrar.

Como já disse antes, aos futuro emigrantes, é preciso dar tempo ao tempo. No fim, tudo ficará bem. Felicidades a todos os nossos camaradas e dirigentes do Blogue. (**)

Joao G Bonifacio
Ex-Furriel Mil do SAM
Guine 1968/70
CCAÇ 2402 / BCAÇ 2851


(Revisão / fixação de texto: LG)
______________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 27 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28299: (De) Caras (252): João Bonifácio, ex-fur mil SAM, CCAÇ 2402 (Có, Mansabá e Olossato, 1968/70): história de vida um emigrande no Canadá, em BD

(**) Último poste da série > 2 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28313: (De) Caras (253): Manuel Joaquim (ex-fur mil arm pes inf, CCAÇ 1419, Bissorã e Mansabá, 1965/67): escreveu-nos o último mail há 4 anos, por razões de saúde do foro oftalmológico deixou de poder ler o blogue... Temos de arranjar outra maneira de o blogue chegar até ele...

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28313: (De) Caras (253): Manuel Joaquim (ex-fur mil arm pes inf, CCAÇ 1419, Bissorã e Mansabá, 1965/67): escreveu-nos o último mail há 4 anos, por razões de saúde do foro oftalmológico deixou de poder ler o blogue... Temos de arranjar outra maneira de o blogue chegar até ele...

 

Manuel Joaquim > Maio de 2022> 
"Vivinho da costa!"


Foto (e legenda): © Manuel Joaquim (2022). Todos os direitos reservados, [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné ]




1. Mensagem do Manuel Joaquim, que vamos publicar com... 4 anos de atraso.

Foi o último mail que recebemos dele, mas escrito por um dos seus netos. Por ser muito pessoal, não o publicámos na altura. Nele fazia confidências sobre o seu estado de saúde, justificando-se por não poder mais acompanhar regularmente o nosso blogue. Ontem voltámos a falar com o Manel. Nems equer falámos deste mail "esquecido na caixa do correio". Mas por ele continua connosco, e fez 85 anos,  achámos que era a altura certa para a publicar.

Recorde-se que o Manuel Joaquim:

(i) é professor primário reformado;

(ii)  foi fur mil arm pes inf, CCAÇ 1419 / BCAÇ 1857 (Bissorã e Mansabá, 1965/67));

(iii)  é membro da Tabanca Grande desde 1/8/2009;

(iv) tem 114 referências no blogue;

(v) é  autor das séries "Memórias de Manuel Joaquim" e  "Cartas de Amor e Guerra";

(vi) é pai de duas amorosas filhas e avô babado de netos;

(vii) é padrinho do "menino Adilan" (hoje, o nosso amigo José Manuel  Sarrico Conté, uma infeliz história de guerra com um final feliz; também desembarcou no T/T Uíge, no Cais da Rocha Conde d'Óbidos, em 9/5/1967; e partiu com o padrinho no mesmo comboio; foi criado com a família do Manuel Joaquim) (*).

Ontem, ele fez anos (85), falei com ele ao telemóvel: estava a almoçar, feliz, com a família (esposa, filhos, netos). Está relativamente otimista: o seu problema de saúde do foro oftalmológico está  estável, ao fim de 4 anos, estando a ser medicamente acompanhado... Está  fazer tudo para "salvar" a sua vista direita.

Enfim, metaforicamente falando, el ainda consegue "ver luz ao fundo do túnel":  tem autonomia para andar na rua, mas infelizmente não consegue seguir o n0sso blogue. Não pode ler...nem sequer  letras garrafais... Depende dos filhos e dos netos, para ler e escrever. E não me pareceu psiquicamente me baixo: incentiva-nos a continuar a editar o nosso blogue...  

Fiquei feliz por saber dele, apesar dos seus problemas de saúde. Falámos de camaradas que vieram totalmente cegos da guerra como o Arruda (Moçambique) (já falecido) e o Patuleia (Angola),  ambos dirigentes  da ADFA - Associação dos Deficientes das Forças Armadas. Camaradas que ele conheceu. Eu referi o caso mais concreto do nosso grão-tabanqueiro nº 870,  o Manuel Seleiro, natural de Serpa (**).

O Seleiro, por explosão de uma mina, ficou completamente cego, sem uma mão, só tem dois dedos na outra... Aprendeu a recorrer a um leitor de ecrã, um programa de computador que os deficientes visuais usam para ter mais autonomia no computador, e de modo a facilitar o acesso às aplicações mais populares da Internet.  Com software de síntese de voz e a placa de som do PC, a informação do ecrã é lida,  permitindo o acesso a uma variedade de aplicações de trabalho, educacionais e de lazer, e o envio de informações para uma linha (em braille). Ele não sabe braille, mas tem competências informáticas que lhe permitiram criar e editar um blogue e uma página pessoal. É casado, tem um filho, só pode andar de transportes públicos, a esposa esposa também é deficiente visual (não tem visão lateral).
 
Transmiti-lhe, em meu nome pessoal e em nome da Tabanca Grande, o nosso grande apreço por ele, amizade, camaradagem, solidariedade. E deixo-lhe mais à frente um comentário, mais pessoal,  na sequência da nossa conversa ao telefone. LG
____________________

Data - 19 set 2022, 19:53
Assunto - Manuel Joaquim


Olá, Luís, boa tarde

Aqui estou eu, vivinho da costa!

Em vez de novas palavras, junto um texto e anexo mais duas  fotos da minha chegada da Guiné, as únicas que até hoje vi retratando uma partida de comboio de um cais de Lisboa (*).

 (...) Como vês estou vivo. Pediste-me um sinal de vida e aqui estou eu com a corda ao pescoço, qual Egas Moniz, perante ti e de mais editores pedindo desculpa pelo meu silêncio que mesmo me parecendo inadmissível aconteceu. Estou aqui hoje a dar notícias, já o fiz na página do Facebook da Tabanca da Linha.

Há uns dois anos comecei a ter problemas oftalmológicos cuja causa foi posteriormente diagnosticada como Degenerescência Macular (DM). Em resultado disso, hoje estou sem visão frontal no olho esquerdo e a lutar para que não me aconteça o mesmo no olho direito, onde já há sinais de DM. 

Para “ajudar” , no dia 1 de maio de 2021 sofri um enfarte agudo do miocárdio a que se seguiu um edema pulmonar. Parece-me que a minha recuperação do enfarte vai bem. Vi-me obrigado a emagrecer (15 quilos até agora), sinto-me muito bem assim mais leve e aqui estou dando notícias.

Na prática o meu grande problema é a leitura e a escrita; não consigo fazê-las sozinho. Perdi a assiduidade de leitura deste blogue. A situação está melhor agora com a aplicação de “leitura em voz alta” do computador; o problema é não conseguir ler documentos digitalizados. Para escrever é que é mais difícil, só me valendo da visita de algum dos netos como acontece agora.

Anexo uma foto de hoje para veres como estou rijo (na aparência)!

Termino com votos de saúde para todos vocês meus queridos amigos, que sejam muito felizes! (**)

Um grande abraço

Manuel Joaquim

(Revisão / fixação de texto: LG)

2. Comentário do editor LG: 

Manel, ontem, ao falar contigo pelo telefone, fiquei muito feliz por te ouvir e por saber que estavas aí, à mesa, rodeado pela tua família, a festejar os teus 85 anos.

E fiquei a pensar numa coisa: tu dizes que já não consegues acompanhar o nosso blogue porque não podes ler, devido à DM. Pois então teremos de arranjar outra maneira de o blogue chegar até ti.

Porque há uma coisa que quero que saibas: tu não deixaste a Tabanca Grande. Continuas a ser um dos nossos. O teu lugar à sombra do nosso poilão, é vitalício,  está lá, mesmo que os teus olhos já não consigam ler o que escrevemos.

Temos 114 referências tuas no blogue, temos as  “Memórias de Manuel Joaquim”, temos as tuas “Cartas de Amor e Guerra”, temos a fabulosa saga  do teu "minino Zé Manel": tudo isso faz parte da memória colectiva dos camaradas da Guiné. E tens, sobretudo, muitos amigos que não te esquecem nem te esquecerão, na Tabanca Grande, na Tabanca da Linha, na Ajuda Amiga... 

Tu foste professor. Tem hábitos de aprendizagem, disciplina, curiosidade e capacidade de comunicar. Aos 85 anos, não há nenhuma razão para considerar encerrada a sua aprendizagem tecnológica. Sabes melhor do que nós que nunca é tarde para aprender. E aos 85 anos, não há nenhuma razão para considerar encerrada a tua aprendizagem tecnológica.  

Hoje há leitores de ecrã e síntese de voz muito mais capazes do que em 2022. O neto que te ajuda poderá configurar-lhe o computador ou, talvez ainda melhor, o telemóvel/tablet para ouvires os novos postes do blogue e os comentários dos leitores, em vez de os oleres, como também ditares respostas por voz, em vez de as escreveres. Não precisamos  sequer de recorrer a tecnologia sofisticada. Um áudio de WhatsApp, enviado por uma das tuas  filhas ou por um neto, pode devolver-te uma pequena janela para o mundo da Tabanca Grande.

Repara: se eu te falei do Manuel Seleiro não foi para comparar, relativizar ou atenuar a tua desgraça e o teu sofrimento, mas para te mostrar que a perda da visão não significa necessariamente a perda da autonomia intelectual nem da possibilidade de comunicar.

E, de facxto,  se não conseguires escrever, há uma solução ainda mais simples: falas e nós escrevemos. Tu contas-me uma história da Guiné, ou uma lembrança, ou uma coisa que te venha à memória. Um neto grava. Eu trato do resto, dentro das limitações que também temos. E depois fazemos chegar-te o texto em voz, para que o possas ouvir.  

Não queremos que voltes ao blogue por obrigação. Queremos apenas que saibas que o blogue continua a ser também teu.

E quando me disseres outra vez “Aqui estou eu, vivinho da costa!”, eu fico feliz.

Um grande abraço do teu amigo e camarada,

Luís

(Revisão / fixação de texto, negritos, links: LG)

__________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de  2 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28312: O cruzeiro das nossas vidas (32): A partida de comboio, do Cais da Rocha Conde d' Óbidos para Abrantes, do pessoal do BCAÇ 1857, que desembarcou do T/T Uíge em 9 de maio de 1967 (Manuel Joaquim, ex-fur mil arm pes inf, CCAÇ 1419, Bissorã e Mansabá, 1965/67)

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28299: (De) Caras (252): João Bonifácio, ex-fur mil SAM, CCAÇ 2402 (Có, Mansabá e Olossato, 1968/70): história de vida um emigrande no Canadá, em BD
















  Toronto Welcome!















Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: João Bonifácio (2026)
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.



1. João Bonifácio foi furriel miliciano SAM (Serviço de Administração Militar), exercendo a difícil,  ingrata mas impreescindível função de vagomestre, na CCAÇ 2402 (Có, Mansabá e Olossato, Guiné, 1968/70).

37 meses ao serviço do exército português (dos quais 21 no CTIG). Como muitos de nós.

É beirão, nascido em Castelo Branco. Quando passou à "peluda", foi viver com a esposa e o filho para Lisboa. Descontente com o rumo das coisas em Portugal (e mesmo sabendo ou suspeitando que iria em breve acontecer um golpe de estado, afinal o 25 de Abril de 1974), decidiu ir viver e trabalhar para o Canadá, onde tinha amigos. Quatro anos depois de ter passado à disponibilidade.

Já aqui contou, em breves mas sentidas palavras, o que foi a sua história de  vida de emigrante,  de 1974 até hoje (*)... 

Achámos que isto merecia uma bonita e simpática BD em homenagem a este camarada da Tabanca da Diáspora Lusófona, membro da Tabanca Grande desde 1/12/2006, mas com escassas referências no blogue (cerca de 2 dezenas)...

A única foto que temos dele do tempo da Guiné (a fazer o "papel de repórter" na festa de Natal de 1968, em Có) é de muito má qualidade (cópia de uma fotocópia). 

Tem, todavia, uma grande força documental.  Está ali o Bonifácio, o vagomestre dos "Linces de Có", a CCAÇ 2402, na"festa de Natal de 1968",  a fazer de “repórter”, microfone em punho, e gravador ao ombro, talvez já com essa tendência para comunicar e participar que atravessou toda a sua vida (irá, de resto, trabalhar na rádio, em Toronto, e fundar, com mais alguns compatriotas, o Clube Português de Oshawa, Ontário, Canadá).  

É, pois,  uma fotografia com memória. E, para nós, aqui, vale muito. (Embira tenhamos pena de náo ter uam foto atual do nosso camarada.)

O texto do João Bonifácio, já aqui publicado (*) tem uma coisa que merece destaque: ele se não  se arma em herói (nem em vítima), não se põe em bicos de pés perante a sua própria história. Conta-a com simplicidade, e sem rodeios.

É, de resto, uma excelente história de vida,  não  muito diferente, por certo, da de muitos de nós, antigos combatentes, que decidiram não ficar em Portugal e tentar a sua sorte, noutras paragens, além Atlântico (EUA, Canadá, Brasil, Venezuela...) como sobretudo na Europa (França, Alemanha, Luxemburgo, Suiça...) mas também em África (Angola, Moçambique, África do Sul...). Infelizmente, não temos dados estatísticos sobre os antigos combatentes que, depois da "peluda", emigraram, quer os do Continente quer os da Madeira e Açores.

As circunstâncias em que o João G. Bonifácio sai de Portugal, em 15 de fevereiro de 1974 (4 anos depois de trer passado à disponibilidade, e a pouco mais de 2 meses do 25 de Abril) não deixam de ser "intrigantes": ele sabe ou suspeita (por via das suas ligações aos meios da "oposição democrática"; antes da tropa tinha trabalhado no escritório do advogado dr. Arlindo Vicente) que o país vai mudar, que o regime político vigente vai cair, e que a guerra em África vai ter que encontrar uma solução...

É uma dessas ironias da História que parecem escritas por um romancista: esteve quase a esperar pelo acontecimento, mas tomou a decisão de partir  antes de ele chegar. O João não fica, pela simples razão de que  já não acredita no futuro que o país lhe oferece, a ele e aos seus filhos.

Em contrapartida, no novo país que o acolhe, ele não vai ter  uma história de vida linear, nem de sucesso imediato.  Chegou ainda antes de perfazer os trinta anos  de idade, no dia 16 de fevereiro de 1974, data do seu  29º.  aniversário... Teve como prenda  um grande nevão em Toronto. 

Por outro lado, o Canadá estava a passar também pela grave crise económica de finais de 1973/ princípios de 1974 (Guerra do Yom Kippur, de 6 a 26 de outubro de 1973, embargo petrolífero da OPEP, primeiro grande choque petrolífero, subida de 400% do preço do barril de petróleo,  de 3 para 12 dólares,  em poucos meses, crise das economias capitalistas, etc.).


São três décadas de trabalho duro e de lenta mas bem conseguida adaptação a um novo país, completamente diferente da sua terra natal: fábrica de sofás, hospital de Oshawa, aprendizagem do inglês, Chrysler, biscates em pequenas empresas, agência de viagens, rádio portuguesa em Toronto, General Motors Canada, trinta anos de serviço, reforma, regresso a Portugal em 2011, tremenda desilusão e nova partida para o Canadá. (Não sabemos qual foi a rádio e TV portuguesa a que o João se refere: há varias, CHIN Radio TV,  a Camões Rafio TV, etc.)

Ou seja: é  toda uma vida construída aos poucos, a pulso, com trabalho, adaptação, inteligência, capacidade de aprender, resiliência... Mas  também com vontade de ser ajudar os outros.

E deixa um recado a eventuais candidatos à emigração para o Canadá; "Com o tempo tudo fica bem. O Canadá não é Portugal". pou seja, o Canadá é um país fiável, e bom para se vivver (tirando o maldito frio...).

É uma frase muito mais sábia do que parece. Não diz “o Canadá é melhor”. Diz simplesmente: "o Canadá é diferente, eu já não me adaptaria a Portugal". Mas uma pátria nova não substitui a antiga; aprende-se a viver entre dois mundos. E, para mais, com o nosso blogue a fazer a ponte, nestes últimos vinte anos.

E depois há o Clube Português de Oshawa/Oshawa Portuguese Club, fundado em 1978. Isso acrescenta uma dimensão bonita à história: João não se limitou a emigrar. Levou consigo uma comunidade e ajudou a construí-la. 

Hoje, quando fala português, inglês e francês e ajuda outros emigrantes a tratar de assuntos legais (impostos, desemprego, emigração, saúde,  segurança social,  etc.), vê-se que gosta de ajudar. Percebe-se, enfim, que aquela integração não significou apagar as raízes. 

Voltando à fotografia do Natal de Có de 1968: é a fotografia de um camarada nosso  antes de saber (ou sequer de imaginar)  que, cinco anos depois, estaria a embarcar para o Canadá.

E isso dá-lhe uma força narrativa enorme. Daí o título que escolhemos para esta BD: “De Có para Oshawa: a longa viagem de João Bonifácio”, Mas também poderia ser outra,  talvez até mais alinhada com o espírito do nosso blogue: “Quando a Pátria não foi Mátria, foi Madrasta: a história canadiana de João Bonifácio”.

Aliás, há uma continuidade com o meu comentário de 2006, de boas vindas. Na altura escrevi: “Eu sei que a Pátria não foi Mátria para ti, foi madrasta.” (***).

Claro que houve mágoa, e raiva. Hoje, vinte anos depois, é o próprio João que nos conta o que fez com essa mágoa e essa raiva. Não ficou parado, no meio da picada da vida a lamber as feridas. Construiu uma vida e uma família. Ficamos orgulhosos dele.

Essa é provavelmente a melhor homenagem que podemos fazer-lhe, aos 81 anos:  não,  não  foi  mais  um antigo combatante da guerra do ultramar / guerra colonial que "virou costas" à sua Pátria ou que "cuspiu na sopa"...  Pelo contrário, foi um homem que, depois de 37 meses no exército (e 21 meses e 4 dias na Guiné), teve a coragem de procurar noutro lugar do planeta a vida que entendia merecer, para ele  e a família, sem nunca deixar de ser português e de falar português. 

João, rápidas melhoras e volta sempre!... Serás bem vindo, à tua Pátria portuguesa (agora tens duas, a nossa e a canadiana, aproveita o melhor de cada uma delas). 

E toma boa nota:  a Pátria Portuguesa não é o 1º sargento  ou o  tenente SGE da secretaria  do RI 1 da Amadora, a tua unidade mobilizadora,  que te exigiu 1500 escudos em estampilhas fiscais, o custo exorbitante da taxa   da licença militar que pediste para obter  o "passaporte da liberdade" (1500 escudos em 1974 seriam equivalentes a 300 euros, a preços atuais).

Um alfabravo caloroso  do Luís Graça.

26 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28295: Tabanca da Diáspora Lusófona (43): From John (Crisostomo), USA, to John (Bonifacio), Canada

(**) Último poste da série > 19 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28270: (De) Caras (251): Luís Tinoco de Faria (1927-1966), ex-cap pqdt, morto aos 39 anos, em combate, no corredor de Guileje: livro de homenagem que está a ser organizado por Elsa Coxinho

(***) Vd poste de 1 de dezembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1331: Blogoterapia (9): Quando a Pátria não é Mátria para ti (João Bonifácio, Canadá, ex-fur mil vagomestre, CCAÇ 2402 / BCAÇ 2851, Có, Mansabá e Olossato, 1968/70)

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28270: (De) Caras (251): Luís Tinoco de Faria (1927-1966), ex-cap pqdt, morto aos 39 anos, em combate, no corredor de Guileje: livro de homenagem que está a ser organizado por Elsa Coxinho


Guiné > Região de Tombali > Carta de Guileje (1956) > Escala 1/50 mil > Posição relativa de Guileje, Mejo e  o rio Tenhege, a nordeste de Mejo, em pleno "corredor da morte" ou "corredor de Guileje", onde perdeu a vida o cap pqd Tinoco de Faria no decurso da Op Grifo, em 28 de abril de 1966,

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)



Luís Tinoco de Faria, cap pqdt,
morto em combate, aos 39  anos,
no corredor de Guileje,
em 28 de abril de 1966.
Fonte: Wikipedia

1. Pelo formulário de contacto do Blogger, recebemos, da nossa leitora Elsa Coxinho, o seguinte pedido de ajuda, dirigido ao nosso coeditor jubilado, Virgínio Briote:


Data -  9/08/2026, 17:04 

Assunto -  Luís Tinoco de Faria: pedido de contacto 

Boa tarde, 
O meu nome é Elsa e estou a preparar, com muito carinho e rigor, um livro-homenagem sobre a vida do major pqdt Luís António Sampaio Tinoco de Faria, destinado ao seu filho, Pedro Tinoco de Faria. 

Durante a minha pesquisa encontrei os  testemunhos do senhor Briote sobre o Luís e fiquei particularmente sensibilizada ao saber que conheceu uma das irmãs dele e que teve contacto pessoal com o próprio Luís na Guiné. 

Gostaria, se o senhor Virgínio Briote estiver disponível e se assim o entender, de poder conversar pessoalmente com ele.

 O objetivo é simplesmente ouvir as suas memórias e recolher informações que possam ajudar-nos a conhecer melhor o homem que existia por detrás da farda: o Luís, o camarada, o amigo e, sobretudo, o homem e pai que deixou uma história tão importante. 

Não pretendo publicar nada sem autorização. Gostaria apenas de lhe fazer algumas perguntas, ouvir as suas recordações e, eventualmente, saber se possui fotografias, documentos ou outras memórias relacionadas com o Luís Tinoco de Faria. 

Se for possível, agradecia muito que lhe fizessem chegar esta mensagem e, caso ele concorde, que lhe facultassem o meu contacto para podermos combinar uma conversa. Com enorme respeito e gratidão pelo seu testemunho,

Elsa Coxinho
 

2. Comentário do editor LG:

Omite-se o endereço de email da Elsa, elemento que está  legalmente sob a proteção de dados pessoais; será fornecido a título confidencial e pessoal, no caso de haver mais camaradas nossos que tenham conhecido o então cap pqdt Luís António Sampaio Tinoco de Faria (1927-1966), e que queiram contribuir, com o seu testemunho ou com fotos e outros documentos, para este louvável trabalho de pesquisa sobre um dos nossos camaradas da Guiné, morto em combate.

O nosso coeditor Carlos Vinhal já respondeu a esta mensagem, na passada segunda feira, 10/08/2026, 19:18, fornecendo à Elsa os contactos do nosso camarada Virgínio Briote (nº de telemóvel e endereço de email), por este devidamente autorizado.

Repoduz-se a seguir o que o Virgínio Briote comentou em tempos, no poste P19634 (*), sobre o infortunado cap pqdt Luís Tinoco de Faria, que era natural de Braga, e foi, a título póstumo,  promovido ao posto de major, além de agraciado com a cruz de guerra de 1ª classe. 

Em 1955, frequentou em Espanha, na Escuela Militar de Paracaidismo de Alcantarilla, um dos primeiros cursos de paraquedismo frequentados por militares portugueses. Recebeu o brevet n.º 13, o que faz dele um dos pioneiros absolutos do paraquedismo militar português.


Esteve na Guiné entre julho de 1964 e abril de 1966. Foi, portanto, contemporâneo do Briote.
 
Recorde-se que  o Virgínio Briote,   nosso coeditor, jubilado, vive em Lisboa; foi alf mil, CCAV 489, Cuntima e alf mil 'comando', cmdt Grupo Diabólicos, Brá ; 1965/67 [foto à esquerda];


Conheci uma das irmãs do cap pqdt Tinoco de Faria, foi ela que preparou a minha admissão ao liceu Sá de Miranda,  em Braga. 

Na Guiné mantive contacto com o capitão em Bissau e, uns dias antes da sua morte,  tomámos café na base aérea [em Bissalanca].

Soube da sua morte no dia a seguir ao acontecimento por um médico que nos tratava da saúde em Brá e contou alguns pormenores que agora, tantos anos decorridos, não tenho vontade de falar.

Mas posso transcrever um resumo de um documento então em poder da 3ª Rep:


(...) "Guileje, capitão paraquedista Tinoco de Faria. 28 de abril  [de 1966], operação "Grifo", “corredor” de Guileje. 

Às 00h30 saíu do aquartelamento do Mejo o pelotão de paraquedistas comandado pelo alferes Ferreira da Silva, seguindo nele o capitão Tinoco de Faria. 

A corta-mato progrediram até um local onde montaram uma emboscada. Às 05h00 o dispositivo ficou armado num terreno ligeiramente inclinado e que oferecia boas possibilidades de defesa. 

Às 10h00 ouviram-se disparos de armas automáticas, a uma distância considerável. Como os disparos se repetiram e pareciam mais próximos, os páras calcularam que o IN estava a fazer fogo de reconhecimento e que vinham no trilho onde o pelotão estava emboscado. 

Uma dezena de guerrilheiros armados e fardados de calção e camisa amarela começou a entrar na “zona de morte”, enquanto mais atrás foi avistado um grupo mais numeroso. 

Aconteceu tudo em poucos segundos. Um cão ladrou, os guerrilheiros da frente recuaram, os páras abriram fogo de imediato sobre o IN e destes, os que puderam não perderam tempo a reagir. O capitão foi atingido gravemente. Todos os guerrilheiros que abriam a coluna acabaram por ser mortos. 

Estabelecido contacto rádio com um avião DO-27, o pelotão de páras ficou a aguardar indicações com vista à recuperação e transporte para Bissau do comandante de companhia. 

Entretanto, o grupo IN aproximou-se da mata ocupada pelos páras e abriu fogo sobre estes com metralhadoras pesadas, armas ligeiras e morteiros. 

Durante cerca de 30 a 40 minutos o pelotão respondeu, obrigando o IN a mudar de posições, aproveitando os páras para levar o ferido para um local mais adequado à evacuação. 

O inimigo perseguiu-os,  flagelando-os à distância enquanto os páras iam ripostando enquanto progrediam na direcção do rio Tenhege. A ideia dos páras era passar o rio, depois o risco seria menor e mais facilmente evacuariam o seu capitão, cuja situação se agravava a todo o momento.

Às 12h00, atingida a orla da mata do rio Tenhege, novo ataque do IN. Cerca de 20 elementos emboscados numa mata próxima abriram fogo e, de novo, os páras responderam com fogo da MG-42 e do lança-roquetes. 

Apesar de todos os esforços, por volta das 12h00, a hemorragia interna acabou por matar o capitão Tinoco de Faria. 

Às 12h10 os páras retomaram a marcha. O contacto rádio com o aquartelamento de Mejo nunca se conseguiu estabelecer, talvez devido à distância e à densa arborização. 

O corpo do capitão Tinoco de Faria foi evacuado para Mejo de helicóptero, apenas por volta das 18h00, junto a uma das margens do rio Lijol. O pelotão dos páras, completamente esgotado, entrou em Mejo às 19h30".

Honra ao Capitão Tinoco de Faria e à CCP. (...)


(Revisão / fixação de texto: LG)
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Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 30 de março de 2019  > Guiné 61/74 - P19634: In Memoriam: Os 47 oficiais oriundos da Escola do Exército e da Academia Militar mortos na guerra do ultramar (1961-75) (cor art ref António Carlos Morais da Silva) - Parte XIX: cap pqt Luís António Sampaio Tinoco Faria (Braga, 1927 - Mejo, Guiné, 1966)

(**) Último poste da série > 27 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28216: (De) Caras (250): Luís Mário da Silva e Sá (c. 1948-1970), alf mil 'cmd', 26ª CCmds (Brá, 1970/72), cruz de guerra de 2ª classe a título põstumo: peço ao escritor Angelino Santos Silva que nos fale dele e das circunstâncias da sua morte (José Macedo, EUA)