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sábado, 31 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27688: (De) Caras (243): Procura-se um senhor da Rádio chamado Carlos Boto, que terá feito 3 comissões de serviço no CTIG, esteve em Cabuca, e trabalhou depois no Rádio Clube Português até 2010 - Parte III


Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Cabuca> 2ª CART / BART / BART 6523 (Cabuca, 1973/74) > "De pé,  o Carlos Boto com o crucifixo e eu, Ricardo Figueiredo,  a seu lado" (ao canto inferior esquerdo, será o fur mil trms, LG)


Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Cabuca> 2ª CART / BART / BART 6523 (Cabuca, 1973/74) > "Eu, Ricardo Figueiredo,  a ser entrevistado pelo Boto para a Rádio No Tera"


Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Cabuca> 2ª CART / BART 6523 (Cabuca, 1973/74) > "À porta da Rádio No Tera: da esquerda para a direita, 1º  cabo cripto, eu (Ricardo Figueiredo), o Carlos Boto (com a cruz ao peito) e o furriel trms"

Fotos ( e legendas)o: © Ricardo Figueiredo  (2026). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem com'plementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



 Chat (2026). Cartoon sobre a Rádio No Tera, Guiné, Região de Gabu, 1973 [ o C. B.,  no seu estúdio] : [imagem gerada por Mistral AI /Le Chat ]. Orientado e modificado por Luís Graça. 


1.  Perguntei ao Ricardo Figueiredo (ex-fur mil at inf, 2ª 
 CART / BART 6523, Cabuca, 1973/74) e a outros camaradas que conheceram o Carlos Boto ou que o poderiam ter conhecido do Pifas e do QG/CTIG):

(...) Três comissões ? Três companhias ? As contas podem estar mal feitas... De qualquer modo, o Carlos deixou boas e gratas memórias na malta que o conheceu, apesar da vida "turbulenta" que teve no CTIG (temos pelo menos 4 referências ao seu nome: Jorge Canhão, José António Sousa, Augusto Silva Santos, Ricardo Figueiredo)...

Só encontrei o seu nome (completo) no "Diário da República", mas pode não ser a mesma pessoa... E ainda no episódio dos despedimentos do RCP (Rádio Clube Português), em 2010, de que ele terá sido uma das vítimas. (*)


2. Resposta do Ricardo Figueiredo (foto 
atual à direita):

Data - 30 jan 2026, 11:10

Assunto - Carlos (Manuel Marques) Boto, radialista, procura-se

(...) Olá, Meu caro Luís Graça,

Que tudo esteja bem contigo e com a tua Alice.

É esse mesmo, o Carlos Manuel Marques Boto.

Aproveito para te contar dois episódios caricatos.

O primeiro caso, quando cheguei a Cabuca.

Fui nomeado pelo meu capitão, para receber a transmissão do espólio da CCav 3404. 

Na conferência dos efectivos (milícias e tropa regular) fui informado pelo então Capitão da CCav 3404, que faltava o Carlos Boto mas que o desse como presente pois era hábito desaparecer por uns dias mas que voltaria.

Comuniquei esse facto ao meu capitão, Franquelim Vaz que, contrariado,  acabou por aceitar, dando-o assim como presente.

Terminada a sobreposição, a CCav 3404 abandonou Cabuca e a 2ª Cart/Bart 6523 ficou definitivamente colocada em Cabuca.

Duas semanas após a partida da CCav, quando me encontrava perto da "porta de armas",sou alertado por um dos sentinelas que,  assustado,  me indicou a proximidade de um... Táxi !

Parado à porta de armas,  o motorista,  um nativo, apresentava-se nervoso, quando surpreendentemente sai do veículo o nosso Carlos Boto, de camuflado todo roto, G3 na mão e algumas granadas no cinturão.

Estava apresentado... o Carlos Boto !

Tivemos de fazer uma coluna para levar o taxista até Nova Lamego.

Mais um processo disciplinar !

O segundo caso: o Boto pediu para montar a Rádio No Tera, o Capitão autorizou-o e eu dei-lhe todo o apoio e ajuda possível,juntamente com o furriel trms e o alferes António Barbosa.

As emissões decorreram sempre com normalidade, chegaram a Bissau e o Pifas (Programa de Informação das Forças Armadas) chegou a fazer-lhes referências elogiosas.

Até que um dia o Carlos Boto, inadvertidamente, divulga a possível visita de um Brigadeiro ao Aquartelamento.

O Capitão Vaz ordenou de imediato o cancelamento das emissões.

Entretanto fomos visitados pelo Capelão, tendo-se realizado uma missa campal.

Nessa noite o Boto apanha uma bebedeira monumental e, de G3 em punho, ameaça matar tudo e todos, até se entrincheirar no abrigo dos criptos.

O Alferes Barbosa, que era de operações especiais, aproveitando uma distração do Boto, acaba por o imobilizar.

Foi-lhe dada ordem de prisão e, dois dias depois , foi feita uma coluna para o entregar à ordem do comandante do Batalhão, em Nova Lamego.

Nunca mais encontrei o Carlos Boto. Um homem bom, calcinado pela guerra, pelos castigos, pela bebida e pelos devaneios.

Para terminar,apenas uma informação complementar, o Carlos Boto era filho de um tenente coronel do SPM (Serviço Postal Militar).

Anexo algumas fotos do Carlos Boto.

Grande abraço, com amizade.

Ricardo Figueiredo

PS - Infelizmente nunca compareceu a qualquer almoço nosso, dos "Abutres de Cacuca",

Tentei procurá-lo nas rádios,mas ninguém soube dizer nada. Cheguei até a contactar o nosso camarada e amigo Armando Pires, para tentar descobrir o Carlos Boto, mas também nada se conseguiu.

Estás à vontade para publicares quer as histórias quer as fotografias.

Sim,  a CCAV 3404 teve também a sua rádio por iniciativa do Carlos Boto e chamava-se também "No Tera". (**)

Dispõe sempre. Entregarei ao Bandalho Zé Ferreira o teu abraço.

Abraço-te com amizade,
Ricardo


3. Comentário do editor LG:

Conforme escrevi em comentário ao poste P27685 (**), em 11 de julho de 2010, o encerramento do Rádio Clube Português (RCP) pela Media Capital marcou o fim de uma das estações mais emblemáticas do país, resultando no despedimento coletivo de 36 profissionais.

O Carlos Manuel Marques Boto (frequentemente referido como Carlos Botto) era um desses profissionais. Antes da sua carreira na rádio, serviu na Guerra do Ultramar na Guiné-Bissau entre 1971 e 1974: integrou a CCav 3404 / BCAV 3854, Cabuca (1971/73) e, posteriormente, a 2ª CART/BART 6523 (1973/74).

Provavelemente já tinha,  antes do serviço militar, experiência de trabalho como radialista. Em Cabuca, fundou e dinamizou a rádio Nos Tera (Nossa Terra, em crioulo), ainda no tempo da CCAV 3404, que foi rendida em 1973 pela 2ª CART/BART 6523 (1973/74).

O que se sabe do seu paradeiro, hoje ?

As informações públicas mais recentes sobre Carlos Botto são escassas e provêm essencialmente de comunidades de antigos combatentes.

Na altura do fecho do RCP, em 2010, foi um dos subscritores de um manifesto contra o processo de despedimento coletivo, questionando a falta de transparência da Media Capital.

De acordo com registos do nosso blogue (Luís Graça & Camaradas da Guiné), o Carlos Botto terá aparecido num dos convívios da sua antiga subunidade (CCav 3404, Cabuca, 1971/73), embora tenha mantido um perfil reservado nos anos seguintes. Isto é, nunca mais apareceu, nem nos convívios da CCAV 3404, nem nos da 2ª CART / BART 6523 (Cabuca, 1973/74) (que passou a reunir-se a partir de 2014).


Guiné > Bissau > 1961 > O tenente Manuel Ascensão Boto, 
o militar de maior estatura,chefe do SPM Regional da Guiné.
Seria depois, como major, chefe do SPMR 
de Angola. Terá morrido em 2000
como ten cor ref.

Fonte: Revista Militar, nº 8/9, ago/set 2020, pag. 713


Por essa altura, apareceram diversos pedidos de informação sobre o seu paradeiro feitos por antigos companheiros de armas em fóruns de veteranos, e nomeadamente no nosso blogue.

Em vão. O que se passa ?  Talvez ele não queira mesmo reatar essas antigas relações. Nem tudo terá sido agradável para ele, no CTIG. Teve problemas disciplinares, foi despromovido, andou em bolandas, etc. Pode ter preferido exercer o "direito ao esquecimento". 

E, para mais, pode ter sido obrigado a deixar de trabalhar na rádio, porventura a paixão da sua vida.

Se o que o  Ricardo Figueiredo diz é verdade, que ele seria filho de um tenente coronel do SPM, pelas nossas pesquisas, tratar-se-ia então do ten cor ref Manuel Ascensão Boto (1921-2000); em 1961 era tenente (SGE ?), tendo estado à frente do SPMR da Guiné e depois, como major, do SPMR de Angola.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27682: (De) Caras (241): Procura-se um senhor da Rádio chamado Carlos Boto, que terá feito 3 comissões de serviço no CTIG, esteve em Cabuca, e trabalhou depois no Rádio Clube Português até 2010 - Parte I





Guiné > Bissau > Brá > Depósito de Adidos > Casa de Reclusão Militar > Março de 1973 > O "carcereiro" em alegre e franco convívio com alguns reclusos por ocasião de um aniversário. "O camarada ao fundo, de óculos e barba, é o Carlos Boto, já aqui referenciado por outros camaradas"... Vê-se que está de gravador na mão, recolhendo declarações de outro camarada, possivelmente o aniversariante e ambos... reclusos. O Carlos Boto deve ter seguido depois para Cabuca, na zona leste, região de Gabu, onde animaria a rádio local "No Tera" (A nossa Terra)... Ainda hoje os seus camaradas desse tempo (2.ª CART/ BART 6523, Cabuca, 1973/74) andam à procura do seu paradeiro...


Fotos (e legenda): © Augusto Silva Santos (2013). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Há várias referências, no nosso blogue, ao Carlos Boto, um homem da rádio, e nosso camarada no CTIG, que terá passado, pelo menos, por 3 companhias... Mas, desde 2013, têm sido vãs as tentativas para o encontrar.

Em 5 de outubro de 1972, o Jorge Canháo econtra-o no Cumeré. Eram amigos de infância. o Carlos Boto estaria, aparentemente, em fim de comissão. Mas em finais de 1972, ele é referenciado como estando colocado, por razões disciplinares,  na CCAV 3404 / BCAV 3854 (Cabuca, 1971/73). 

Por volta de março de 1973,  era recluso na Casa de Reclusão Militar, em Brá, Bissau quando o Augusto Silva Santos, colocado no Depósito de Adidos, ali fazia sargento da guarda.

Ainda em 1973, terá regressado a Cabuca, já no tempo da 2ª Cart / Bart 6523 (1973/74), onde fundou e dirigiu a Rádio "No Tera", até ser novamente transferido para Bissau, outra vez por motivos disciplinares. 

2. O nosso saudoso José António Sousa (ex-sold cond auto,  CCAV 3404/ BCAV 3854, Cabuca, 1971/73), já aqui escreveu sobre ele:

(...) Este camarada era condutor e foi integrado na CCav 3404 nos finais de 1972 (desconheço a data certa), era filho de um oficial do exército e talvez por ter estado sujeito a alguma disciplina militarista (digo eu) na sua adolescência e juventude,  tornou-se um jovem um tanto ou quanto irreverente. Não é que fosse mau rapaz, mas era um pouco rebelde, o que lhe terá custado algumas sanções disciplinares na tropa. E apareceu em Cabuca por isso mesmo.

O Botto (sic) era um indivíduo muito criativo, organizava todo o tipo de actividades para combater o isolamento a que estávamos sujeitos dentro daquelas duas fiadas de arame farpado: desde o futebol ao basquetebol passando pelo voleibol, lá estava a assinatura do Carlos Manuel Marques Botto. Chegou até a organizar um gincana com bicicletas, depois de ter convencido alguns nativos emprestar-lhas,  embora algo desconfiados...

Até que um dia resolveu criar uma emissora de rádio!... Um radialista por excelência, como ele, tinha que passar por tudo, para conseguir os seus intentos.

Foi escolhida uma pequena casa que havia sido construída com a finalidade de substituir a velha enfermaria mas que nunca fora  utilizada.

Com a colaboração do pessoal das Transmissões, lá conseguiu arranjar o equipamento necessário para o sua emissora de rádio. 

Pôde também contar com a minha colaboração, pois para alimentar os equipamentos era necessária corrente eléctrica e esta era fornecida através de uns cabos ligados à bateria do “meu" Unimog estacionado nas traseiras da “emissora”. Também lhe dava assistência no som. 

O genérico de apresentação era o Pop Corn, na época muito em voga. Para além da música emitida por um gravador de cassetes, organizavam-se os mais diversos concursos que sempre divertiam o pessoal. 

Fiquei surpreendido quando há cerca de dois ou três anos atrás soube que o meu amigo Carlos Botto havia regressado a Cabuca, já no tempo da 2ª Cart/ Bart, 6523, provavelmente pelos mesmos motivos da primeira vez, e como não podia deixar de ser, mais uma vez uma emissora de rádio, a “Rádio Nos Tera”.

Passei muitos bons momentos com este camarada que nunca mais vi, soube que apareceu num dos convívios da CCav 3404 mas eu não estive presente. Gostava muito de o rever. (...)


3. O Carlos Boto é também aqui referido como "amigo de infància" pelo Jorge Canhão: encontraram-se no Cumeré em 5 de outubro de 1972, um "periquito", acabado de chegar à Guiné, e o outro "velhinho", pronto para regressar a casa (o que não chegou a acontecer) (**).

 De facto, em comentário ao Poste P11071 (*), o Augusto Silva Santos escreveu o seguinte ao José António Sousa:

(...) Somos do mesmo tempo na Guiné, embora eu tenha pertencido ao BCaç 3833 / CCaç 3306. O Batalhão estava sediado no Pelundo, e a minha Companhia em Jolmete. 
.
Fui ali colocado em rendição individual pelo que, finda a comissão daquela unidade, fiquei colocado no Depósito de Adidos, em Brá. 

É aqui que eu penso ter conhecido o teu camarada Carlos Botto, se não estou enganado, isto tendo em conta que já lá vão 40 anos. Se é a mesma pessoa de que estamos a falar, acabei por o conhecer em circunstâncias pouco normais, visto ele estar recluso na Casa de Reclusão Militar, onde eu habitualmente fazia Sargento da Guarda. 

Repito, não sei se tratará da mesma pessoa, mas tenho uma vaga ideia de que sim, pelo nome e pela figura. Possuo inclusive duas fotos que talvez permitam a sua possível identificação. Essas fotos estão datadas de março de 1973 (...) (***)


4. No mesmo poste comentou o Ricardo Figueiredo, ex-fur mil, 2.ª CART/BART 6523, "Abutres de Cabuca", Cabuca, 1973/74, hoje advogado e membro do Bando do Café Progresso, além de nosso grão-tabanqueiro:
.
(...) Também eu ando a tentar localizar o Carlos Botto ! 

Na verdade dei a minha colaboração para ele criar a Radio "No Tera" e cheguei também a fazer parte da equipe redactorial da mesma. 

O Carlos era um bom rapaz ! Todavia, em dia que não posso precisar e após ter emborcado uma garrafa de uísque, desatou aos tiros e acabou por ser detido e enviado sob prisão para Bissau , sem nunca mais lhe termos posto a vista em cima. É pois natural o que afirma o anterior comentador. Pela minha parte, continuo a desenvolver esforços para o encontrar (...)


5. Comentário do editor LG:

Por pesquisas na Net, e seguindo uma sugestão de uma leitora nossa, Maria Reis (*), descobri que em 2010, o Carlos Botto trabalhava no Rádio Clube Português e foi um dos subscritores de um manifesto contra o despedimento coletivo que atingiu um grupo de 36 trabalhadores. 

Continuamos sem saber por onde ele anda (****)...Esperemos que esteja bem de saúde, e a fazer o que gosta de fazer, que é a rádio . 

Em próximo poste, falaremos da sua rádio "No Tera", ao tempo dos "Abutres de Cabuca" (1973/74).

(Seleção, revisão / fixação de texto: LG)
 


segunda-feira, 15 de setembro de 2025

Guiné 61/74 - P27221: De (Caras) (240): O capelão do BCAÇ 2855, José Torres Neves, que eu fui visitar a Mansoa, em 12/10/1969, e que vai celebrar missa no próximo dia 4 de outubro, na nossa terra, Meimoa, Penamacor, em convívio de antigos combatentes meimoenses (João Afonso Bento Soares, maj gen ref)




Foto nº 1A e 1 > Guiné > Região do Oio > Mansoa > 12 de outubro de 1969 >  Dois conterrâneos, o alf graduado capelão, CCS/BCAQÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) e o cap enf trnms, STM / QGCTIG (1968/70). Ambos são de Meimoa, Penamacor.




Foto nº 2 e 2A > Guiné > Região do Oio > Mansoa > 12 de outubro de 1969 >  Da esquerda para a direita,  o fur mil trms STM, o cap eng trms STM João Afonso Bento Soares, a esposa (que segura uma máquina de filmnar de 8 mm), o cap pqdt Albano Figueiredo, do BCP 12, e a esposa.


Fotos (e legendas): © João Afonso Bento Soares (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Mensagem de João Afonso Bento Soaresex-cap eng trms,  STM/QG/CTIG (1968/70), hoje maj-gen ref:



Data - sábado, 13/09/2025 00:32
Assunto - Ida a Mansoa, em outubro de 1969



José Torres Neves, alf graduado capelão,
CCS/BCAÇ 2885 (Mansoa, 7/5/1969 - 3/31971)

 Caros Amigos:

Em resposta ao v/ mail,  muito me congratulo pelo justo elogio que é feito ao ex-capelão em Mansoa, Padre José Torres Neves.(*)

Acontece que ele é meu conterrâneo,  da freguesia de Meimoa,  concelho de Penamacor,  Beira Baixa.

No próximo dia 4 de outubro de 2025, convidei-o para ir à santa terrinha celebrar a missa e estar presente no almoço-convívio que se segue de antigos combatentes meimoenses na Guerra do Ultramar  (de que ele é, aliás, parte integrante, face à sua comissão na Guiné).

Por coincidência a minha primeira comissão no Ultramar foi precisamente na Guiné, no período 1968-70. Eu era capitão e comandava o Destacamento do STM no CTIG / QG em Bissau, pelo que fui lá visitá-lo (à paisana) num fim de semana. 

Nessa altura, tive lá a minha mulher (3 meses, passados os quais ela regressou à metrópole dado o seu estado de gravidez já avançada). Nessa visita a Mansoa, levei comigo um capitão paraquedista e a mulher (ver fotos acima) (**)

Um forte e amigo abraço

Major general João Afonso Bento Soares

PS: -1 ª foto: Eu, capitão e o Zé Torres Neves, cpelão | a 2ª foto (da esquerda para a direita) - Furriel que chefiava o posto de Trms do STM (dependente do Dest STM que eu comandava); cap Bento Soares e mulher grávida;  cap paraquedista, Albano Figueiredo (já falecido) e mulher.

__________________

Notas do editor LG

(*) Vd. poste de 12 de setembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27214: Álbum fotográfico do Padre José Torres Neves, ex-alf graduado capelão, CCS/BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) - Parte XXVIII: Mansoa, sector O4


(**) Último  poste da série > 10 de setembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27204: (De)Caras (239): Cabos de Manobras (ou marinheiros CM), heróis esquecidos (José António Viegas, ex-fur mil art, Pel Caç Nat 54, Mansabá, Enxalé, Missirá, Porto Gole, Bolama, Ilha das Cobras e Ilha das Galinhas, 1966/68)

quarta-feira, 10 de setembro de 2025

Guiné 61/74 - P27204: (De)Caras (239): Cabos de Manobras (ou marinheiros CM), heróis esquecidos (José António Viegas, ex-fur mil art, Pel Caç Nat 54, Mansabá, Enxalé, Missirá, Porto Gole, Bolama, Ilha das Cobras e Ilha das Galinhas, 1966/68)



Foto nº 1 e 1A



Foto nº 2





Foto nº 3 e 3A




Foto nº 4 e 4A

Guiné > Região do Oio > Porto Gole > c. 1966/68

Fotos (e legendas): © José António Viegas (2021). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].



José António Viegas
1. Mensagem do José António Viegas, ex-fur mil art, Pel Caç Nat 54 (Mansabá, Enxalé, Missirá, Porto Gole, Bolama, Ilha das Cobras e Ilha das Galinhas, na altura, colónia penal, 1966/68); é membro da Tabanca Grande desde 6/11/2012; tem 65 referências no nosso blogue; vive em Faro; é um dos régulos da Tabanca do Algarve:

Data - 26/08/2025, 10:36

Assunto - Cabos Manobras

Caro Luis, pouco se fala destes homens, os Cabos Manobras, que pilotavam as LDM e LDP, em patrulhamento rio acima rio abaixo, fazendo patrulhas, levando mantimentos, trazendo os camaradas mortos...

De dois tenho conhecimento que morreram num ataque a navegar. Em Portugole onde aportavam várias vezes empatrulhamento e aí ficavam um  ou dois dias nos anos 67/68, deram uma grande ajuda num ataque ao aquartelamento com sua peça de 20mm.  

Um abraço, 
Zé Viegas


2. Comentário do editor LG:

Tens razão, Zé Viegas. São heróis esquecidos. Da nossa Marinha. Da nossa guerra. Vou criar o marcador "cabo de manobra". Na nomenclatura da Marinha, o cabo de manobra chama-se Marinheiro CM, se não erro. Nem sequer existia no nosso blogue esse descritor. Em contrapartida, temos bastantes referèncias às LDG, LDM e até LDP.

Quem eram estes hoemns da Marinha Portuguesa que, apenas com o posto de cabos, comandaram LDM e as LDP ? (*)

Eis o que apurei na Net através dos assistents de IA (Gemini e ChatGPT) e do nosso blogue;

(i) Papel crucial dos cabos de manobra nas Lanchas de Desembarque na Guerra da Guiné (1961-1974)

Durante a Guerra Colonial na Guiné Portuguesa, entre 1961 e 1974, as Lanchas de Desembarque Médias (LDM) e Pequenas (LDP) da Marinha de Guerra Portuguesa desempenharam um papel vital na logística, no transporte de tropas e em operações de combate nos intrincados rios e canais do território.

No seio das suas reduzidas tripulações, a figura do "cabo de manobras" (ou cabo era essencial, acumulando funções de marinharia, liderança e, frequentemente, de combate.


(ii) As múltiplas funções do cabo de manobras


O cabo de manobras (pou marin heiro CM) era um praça especializado da Marinha, com funções técnicas e de comando em pequenas embarcações..Apesar de serem militares de baixa patente, cumpriam a missão de patrão, isto é, eram quem efetivamente conduzia e comandava a LDM ou LDP na operação diária.

Eles assumiam tipicamente o papel de patrão (comandante) das Lanchas de Desembarque Médias (LDM) e das Lanchas de Desembarque Pequenas (LDP), sendo responsáveis pela navegação, segurança, disciplina e missão operacional das suas guarnições.

Os cabos de manobras eram marinheiros promovidos que acumulavam experiência náutica e exerciam funções de comando prático nas lanchas,

As suas responsabilidades a bordo das LDM e LDP eram vastas e críticas para a operacionalidade destas embarcações em ambiente de guerra. As suas principais funções incluíam:
  • Manobra da embarcação: eram responsáveis por todas as manobras de atracação, desatracação, reboque e fundeio; a sua perícia era fundamental para a aproximação a margens não preparadas, para o desembarque e embarque rápido de fuzileiros e material, por vezes vezes sob fogo inimigo;
  • Navegação e governo da Lancha: nas LDP e LDM, o cabo de manobras assumia a função de patrão da lancha, sendo o responsável direto pela sua condução e segurança, navegando por rios traiçoeiros, com correntes fortes e pouca profundidade, er sujeitos a minas e emboscadas (a partir das margens);
  • Manutenção do aparelho do navio: tinham a seu cargo a conservação de todo o material de convés, como cabos, guinchos, ferros e a rampa de desembarque, um elemento crucial destas embarcações;
  • Funções de combate: dada a natureza do conflito e as tripulações reduzidas, os cabos de manobras operavam também o armamento a bordo, como as metralhadoras, e participavam ativamente na defesa da embarcação durante emboscadas e confrontos diretos.

(iii) Tripulações e armamento das LDM e LDP


A composição das tripulações e o armamento variavam consoante a classe da lancha, mas caracterizavam-se por serem reduzidas e multifuncionais.


Tipo de Embarcação | Tripulação Típica | Armamento
  • DM (Lancha de Desembarque Média) | Cerca de 6 praças (frequentemente um cabo como patrão e marinheiros) | 1 peça Oerlikon de 20 mm e 2 metralhadoras MG 42;
  • LDP (Lancha de Desembarque Pequena) | Cerca de 4 a 6 praças (um cabo como patrão e marinheiros) | Variava, podendo incluir 1 peça de 20 mm e/ou metralhadoras ligeiras
Estas embarcações eram a espinha dorsal da Marinha na Guiné, a par das LGG e ad das LFG, , assegurando a mobilidade das tropas num teatro de operações anfíbio. As suas missões iam desde o patrulhamento e escolta de embarcações civis ao desembarque de fuzileiros em zonas de combate e ao reabastecimento logístico de aquartelamentos isolados.


(iv) Memórias de dois cabos de manobras mortos em combate

Apesar das dificuldades em encontrar registos centralizados e detalhados de todas as baixas por especialidade, a investigação documental, nomeadamente em publicações como a "Revista da Armada" e em arquivos de veteranos, permite identificar casos concretos de sacrifício.

Um exemplo documentado é o do Cabo M n.º 2404, Jorge António Pereira.

A 7 de agosto de 1973, na região de Tancroal, no rio Cacheu, a LDM 113 que comandava foi violentamente emboscada. Atingida por fogo de lança-granadas (RPG), a lancha sofreu danos significativos. O Cabo Jorge António Pereira, que atuava como patrão da embarcação, teve morte quase imediata em resultado do ataque.

A sua morte, e a de tantos outros marinheiros, testemunha a dureza e os perigos constantes enfrentados pelas guarnições destas lanchas, que, com bravura e competência, foram um pilar fundamental do esforço de guerra português no território da Guiné. O cabo de manobras, em particular, personificava a resiliência e a polivalência exigidas naquele complexo teatro de operações.

Há ainda o caso, anterior também no TO da Guiné,da LDM 302, que registou oito ataques graves durante a sua vida: os dois primeiros verificaram-se em 1964, sem consequências, ocorrendo nova flagelação em 1965, da qual resultaram 30 impactes no costado, não se registando baixas no seu pessoal, para o que muito contribuiu a resposta imediata e eficiente da sua guarnição; nesse ano foi atacada de novo por mais duas vezes, sendo na última feridos 10 militares de uma unidade do Exército embarcada na lancha.

No dia 16 de dezembro de 1967 foi atacada e afundada no rio Cacheu, incidente que ocasionou a morte do seu patrão, MAR M Domingos Lopes Medeiros, e do GRT A Manuel Santos Carvalho (foram ambos condecorados a título póstumo na cerimónia do 10 de Junho de 1968, com a medalha de Cruz de Guerra de 3ª classe).

Trazida à superfície, a LDM 302 foi reparada em Bissau, e posta de novo a navegar. Logo no primeiro cruzeiro, seis meses depois e no mesmo local onde tinha sido anteriormente atacada - Porto Coco, no rio Cacheu - foi de novo atingida com violência, o que teve como consequência a morte do GRT A António Manuel, e ferimentos noutra praça.

De novo reparada, a lancha já não voltou mais ao Cacheu, passando a actuar no rio Grande de Buba, onde mais uma vez sofreu em Fevereiro de 1969 novo ataque, que causaram três feridos. Seria abatida em 30 de Novembro de 1972.(**)

Existem algumas fotos históricas destas lanchas e das suas guarnições, mas imagens individualmente identificadas de cabos manobras são raras. Em blogues de veteranos, como o "Luís Graça & Camaradas da Guiné", é possível encontrar fotografias de LDM (ex: LDM 203, LDM 302) com tripulantes, embora sem identificação detalhada dos cabos manobras ao nível individual. E sobretudo no blogue "Reserva Naval", do nosso amigo e camarada Manuel Lema Santos ( https://reservanaval.blogspot.com/ ).

Essas imagens retratam geralmente pequenas tripulações ao lado da embarcação ou em patrulha junto a margens de rios da Guiné, permitindo visualizar o ambiente operacional típico, mas raramente atribuem nomes diretamente aos cabos manobras.

Resumo: O cabo manobra era o patrão responsável pelo comando prático das LDM e LDP na Guiné, garantindo o cumprimento das missões navais de patrulha e apoio às operações terrestres e ribeirinhas. As fotos existem, mas raramente individualizam estes cabos; surgem geralmente em grupo junto às lanchas nas imagens de arquivo.

(Pesquisa: LG + assistente de IA / Gemini, ChatGPT)

(Revisão / fixação de texto: LG)
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(**) Vd. poste de 

14 de agosto de 2015 > Guiné 63/74 - P15003: Notas de leitura (747): “A Epopeia da LDM 302”, por A. Vassalo, em BD, Edições Culturais da Marinha, 2011 (Mário Beja Santos)


28 de junho de 2012 > Guiné 63/74 - P10084: Antologia (76): Vida e morte da gloriosa LDM 302, a cuja heróica guarnição pertenceu o marinheiro fogueiro Ludgero Henriques de Oliveira, natural da Lourinhã, condecorado com a Cruz de Guerra em 1968 (Manuel Lema Santos / Luís Graça)

terça-feira, 26 de agosto de 2025

Guiné 61/74 - P27152: (De) Caras (238): o senhor Michel Ajouz, o comerciante libanês de Bissorã, cristão maronita, amante do bom uísque (Manuel Joaquim / Rogério Freire)



Guiné > 1956 >  Anúnico da casa comercial de Michel Ajouz, um sírio-libanês ou descendente . Fonte: Turismo - Revista de Arte, Paisagem e Costumes Portugueses, jan/fev 1956, ano XVIII, 2ª série, nº 2.




Ferreira do Alentejo > Figueira de Cavaleiros > 25 de Setembro de 2010 > Jantar em casa do Jacinto Cristina > Rótulo, já muito deteriorado, de uma garrafa de uísque trazida da Guiné... Buchanan's, from Scotland, for the Portuguese Armed Forces... with love...

 Esta foi comprada em Bissau, em junho de 1974, e aberta no nosso primeiro encontro, na festa de anos da filha do Jacinto Cristina, em março de 2010


Foto (e legenda): © Luís Graça (2010). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Garça & Camaradas da Guiné]

1. Na Guiné, aprendemos a distinguir o bom "scotch whisky" do "uísque marado de Sacavém" que se bebia nas noites de Lisboa e arredores (Reboleira, etc.) nos anos 60/70, nos primeiros bares de alterne que apareceram... 

Os comerciantes libaneses (ou de origem sírio-libanesa) também gostavam do bom uísque... E cultivavam a arte de bem receber. Como era o caso de Michel Ajouz, comerciante com loja em Bissorã, cristão maronita. (Haveria também libaneses, muçulmanos xiitas: será que também bebiam uísque com água de Perrier ou Vichy ?)

O Michel Ajouz, sobre o qual se publica dois testemunhos, devia ser cristão maronita: celebrava o natal cristão, recebia em sua casa os militares estacionados em Bissorã e tinha uísque do bom para oferecer às visitas. Infelizmente não temos nenhuma foto dele,.

Diz o Manuel Joaquim, que o conheceu em 1965, no Natal desse ano, e que era o mais idoso, o decano, dos comerciantes libaneses de Bissorã. Em comentário ao poste P13403 (*). acrescenta: 

(...) No P10966 deste blogue, o Pepito dá-o como um dos pequenos comerciantes libaneses localizados no chamado "Bissau Velho" em 1952, aquando do regresso de Amílcar Cabral à Guiné.

Pelo que me lembro de lhe ter ouvido, os seus negócios devem ter crescido muito nos anos seguintes. As referências que fazia à sua facilidade nos contactos com certas personagens "graúdas", do regime, e de certos meios económicos, e a ambientes luxuosos que teria frequentado em Portugal,  seriam só "garganta"? Acho que não.

Em 1966, a sua actividade comercial em Bissorã era reduzida mas percebia-se que o não teria sido antes. 

(...) Do meu tempo em Bissorã, como ligação económica da tropa com a comunidade libanesa, só me lembro do fornecimento do pão. Não convivi com a comunidade libanesa de Bissorã, a não ser neste caso que referi no meu poste (*). Melhor dizendo, não tive qualquer tipo de relação com a comunidade comerciante local, libanesa ou outra. Mas sei que outros meus camaradas mantinham contactos, alguns destes de carácter muito chegado.

(...) Quanto ao juizo de "em todas as guerras os comerciantes são peritos em tirar partido da situação, procurando estar bem com os dois lados", não está longe do que eu penso mas creio não se aplicar ao Michel  Ajouz. 

Curiosamente, fui eu quem, em 1966, prendeu um dos comerciantes locais, por sinal um dos que eu via todos os dias por seu meu vizinho e passar à sua porta quando me dirigia ao quartel. Ainda hoje estou para saber a razão de ter sido encarregado de tal acto. Experimentarem-me politicamente? (...) (Manuel Joaquim, quarta-feira, 16 de julho de 2014 às 06:20:04 WEST).

Anos mais tarde, em 1969/70, o Armando Pires (ex-fur mil enf, CCS/BCAÇ 2861 (Bula e Bissorã, 1969/70), também conheceu o  Michel Ajouz: 

(...) "As recordações com que ficámos um do outro não são famosas. Mas é conversa que não é para aqui chamada." (O Armando não quis partilhar connosco este segredo, alegando que havia protagonistas ainda vivos)... Não seria o caso do Michel Ajouz, que já em 1965/66 era o decano dos comerciantes de Bissorã. 

O Rogério Cardoso (ex-fur mil, CART 643/BART 645, Bissorã, 1964/66 também conviveu com o Michel Azjouz, "um velhote libanês de óptimo trato, grande sabedor de Bridge".


2. E a propósito dos  cristãos maronitas, recorde-se que  são uma das comunidades mais antigas e influentes do cristianismo oriental, com forte presença histórica no martirizado Líbano, dilacerado pelos conflitos político-militares e étnico-religiosos.

Qual é a sua origem ? O maronitismo deriva de um movimento monástico do séc. IV/V em torno de São Maron, eremita da região da Síria (c. 350–410). A comunidade consolidou-se nos montes do Líbano, preservando autonomia e identidade próprias,  mesmo durante os domínios bizantino, árabe, mameluco e otomano. Ou seja, até à I Grande Guerra (1914/18), em que colapsou o império otomano, e depois o Líbano tornou-se um protetorado francês.

A Igreja Maronita é uma igreja autónoma (sui iuris) dentro da Igreja Católica, mas em plena comunhão com Roma. Segue, todavia, a liturgia antioquena-siríaca. 

Os maronitas são a maior comunidade cristã do Líbano. Estima-se que constituem cerca de 20% a 30%  da população libanesa (o último recenseamento oficial é de 1932, por isso os números são sempre aproximados). O Líbano tera  hoje cerca de 6 milhões de habitantes (com c. 10,5 mil km2 de superfície).  A Igreja Maronita desempenhou um papel central na história e identidade do Líbano. 

Numericamente ainda mais significativos são os maronistas da diáspora (sobretudo Brasil, América do Norte e Austrália). Não há estatísticas exatas, mas estima-se que os maronistas no Mundo inteiro sejam  3 a 4 milhões. E no Líbano entre 1 e 1,5 milhões. Na Guiné-Bissau, o seu número é residual.
  

(i) Manuel Joaquim (ex-dur mil arm pes inf, CCAÇ 1419, Bissau, Bissorã e Mansabá, 1965/67) (*)

Na noite de Natal de 65, o decano dos comerciantes libaneses, o sr. Michel,  acho que era este o seu nome, preparou uma recepção na sua casa, para a qual convidou os comandantes das companhias alocadas em Bissorã, CART  643 e CCAÇ  1419, seus oficiais e 1.ºs sargentos e sendo o restante pessoal militar representado por um furriel e por um praça de cada uma das companhias. 

Posso estar enganado,  mas é a ideia que tenho.

Da CCAÇ 1419 fui eu o furriel escolhido. Não sei se “de motu proprio” ou cumprindo decisão superior, o 1º sargento  da companhia fez-me o convite que eu aceitei, algo contrariado, após alguma insistência.





Imagem:  Cartaz publicitário da extinta Casa Africana, uma loja emblemática da Rua Augusta, em Lisboa. S/ indicação da origem. Cortesia de Manuel Joaquim.


Para a ocasião vesti o meu fato “de ir à missa” comprado na  então famosa casa de moda da Baixa lisboeta, a Casa Africana, uns dias antes de embarcar. “Ótimo para usar em África”, disse-me o vendedor em resposta à minha inicial informação de que estava prestes a embarcar para a Guiné e precisava de um fato para levar.

E lá fui de fatinho azul-ténue, muito leve, com risquinhas verticais pretas e muito finas. A confraternização correu bem. Houve “comes e bebes” e muita conversa, geral e particular, entre os convidados e o dono da casa.

Recordo bem a qualidade do uísque, uma maravilha, do resto tenho noção vaga duma conversa do anfitrião discorrendo sobre as suas relações com personagens conhecidas na política e na sociedade empresarial, tanto na Guiné como em Portugal (no Continente, como então se dizia).

Não sei que idade teria o sr. Michel mas para mim era um homem já idoso, um senhor culto, bem viajado, bom conversador e de óptimo trato. Penso que teria sido, antes da guerra, um grande comerciante. Em 1965 a sua actividade comercial já estava muito reduzida.

Havia música mas não havia “garotas”! A animação não foi muita mas deve ter havido alguma já que o evento durou umas boas horas. O certo é que não me lembro dela. Talvez por causa do meu estado de espírito naquela altura como se pode adivinhar pela breve referência que fiz ao assunto num aerograma enviado à namorada:

(…) “Há por aqui umas famílias de emigrantes libaneses que nos proporcionaram umas festazinhas agradáveis na quadra que passou há pouco. Mas o sofrimento cá anda roendo a alma. E para muitos de nós a bebedeira foi a fuga. O whisky aqui é barato. Assim a bebedeira fica barata também.” (…)

Uma nota final: interessante o lembrar-me ainda hoje da qualidade do uísque do sr. Michel e não me lembrar de muitas outras coisas mais importantes. Pensando bem, compreendo. Pois para quem andava afogando mágoas, eu por exemplo, curtindo alegrias e lavando o estômago com VAT69, J. Walker red label e outros deste género, encontrar e saborear o uísque do velho libanês foi um momento inolvidável. Aquilo não era uísque, aquilo é que era whisky! (...)


 
(ii) Rogério Freire (ex-alf mil art, minas e armadilhas, CART 1525, Bissorã, 1966/67) (**)

(...) Vi a referência ao Michel Ajouz e ao meu nome e não posso deixar de contar uma história do "arco da velha".

Depois de regressar da Guiné, Bissorã, em finais de 1967, iniciei a minha atividade profissional como Delegado de Informação Médica (Propaganda Médica,  à moda antiga).

Uma das minhas zonas de trabalho era a região de Leiria. Num belo dia, creio que de 1971 ou 72, ao sair de Monte Real através do pinhal de Leiria a caminho da Marinha Grande, viajando a 80/90 km à hora, passo por um homem só,  que caminhava em direção a Monte Real e veio-me à memória o Sr. Michel Ajouz.

Fiquei de tal maneira incomodado com a visão que, passados uns bons 5 a 6 Km,  decidi voltar atrás e,  surpresa das surpresas, era mesmo... o Michel Ajouz!... Em pleno Pinhal de Leiria,  a fazer o seu passeio matinal.

Foi uma grande alegria, ele lembrava-se perfeitamente de mim e da CART 1525 bem como dos outros alferes, o Rui, o Oliveira e o Silva bem como do Capitão Mourão [ Jorge Manuel Piçarra Mourão]  que era ocasionalmente seu parceiro de bridge.

Fiquei a saber na altura que vinha às Termas de Monte Real à procura de alívio para as suas maleitas. E depois de um grande abraço nos separámos.

Foi um daqueles acasos ... em pleno Pinhal de Leiria quem me diria vir-me a encontrar com o Michel Ajouz, de Bissorã,  5 a 6 anos depois?  (***)

(Revisão / fixação de texto, itálicos e negritos, título: LG)

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Notas do editor LG:




(***) Último poste da série > 2 de agosto de 2025 > Guiné 61/74 - P27079: (De)Caras (237): Ercília Ribeiro Pedro, ex-enfermeira paraquedista, do 2º curso (1962), reconhecida pela Maria Arminda em foto de grupo, tirada no Brasil, em 2012, e pertença do álbum do cor art ref Morais da Silva

sábado, 2 de agosto de 2025

Guiné 61/74 - P27079: (De)Caras (237): Ercília Ribeiro Pedro, ex-enfermeira paraquedista, do 2º curso (1962), reconhecida pela Maria Arminda em foto de grupo, tirada no Brasil, em 2012, e pertença do álbum do cor art ref Morais da Silva



Brasil > 2012 > Grupo de militares portugueses e suas esposas, em visita a diversos estabelecimentos do exército brasileiro, no qual se incluiu o cor art e docente da Academia Militar, Morais da Silva. Foto reproduzida com a devida autorização do autor. (*)

Foto (e legenda): © António Luís Morais da Silva  (2012 ). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Grça & Camaradas da Guiné]


1. Mensagem do nosso camarada e amigo, cor art ref Morais da Silva (*):

Data - quarta, 30/07/2025, 22:41
Assunto - Help!

Caro Luís

Em 2012 fiz parte de uma caravana de militares e família que deambulou 15 dias pelo Brasil.

Na foto esta senhora que assinalei e cujo nome esqueci, viajava com o marido, militar paraquedista. Será a enfermeira Maria Arminda,  nossa camarada no blog?

Tive a infelicidade de, em Porto Alegre, dar uma valente “marrada” numa porta de vidro do McDonald’s e daí marchar para o hospital militar acompanhado e amparado por esta senhora que a minha memória teima recordar (?) como enfermeira paraquedista… Será?

Abraço
Morais da Silva

2. Comentário do nosso editor LG:

Não reconheço a Maria Arminda Santos nesta foto de grupo. A única cara que não me é estranha, é a do militar que está à direita da senhora assinalada pelo Morais da Silva.

Submeti a foto em causa à apreciação da Arminda. Eis a resposta que meu deu, no próprio dia: 


Ercília Ribeiro Pedro (2011). Fotograma do filme "Quem Vai à Guerra", de Marta Pessoa. 

Fonte: Página do Facebook "Quem Vai à Guerra" (com a devida vénia...)


Data - 31/07/2025, 16:23

Luís,

Só agora vi o email. A minha colega é a Ercília Ribeiro Pedro, casada com um oficial, Ribeiro Pedro. Ela também foi paraquedista do segundo curso,  se não estou em erro, e ambos ainda estão vivos.

Um abraço,
M Arminda


3. Resposta do Morais da Silva ao mail da Maria Arminda Santos:

Data - 31/07/2025, 16:58

Boa tarde.

Muito obrigado.

Como ex-Cmdt de Gadamael 70-72,  tive que, infelizmente, ter muitas vezes a ajuda preciosa das equipas piloto-enfermeira pqdt. Foram e continuam a ser merecedoras da estima de todos os ex-combatentes.

Para a minha camarada Maria Arminda o obrigado do velho capitão. Para o Luís o abração costumado.

Morais Silva


4. Nova mensagem do editor LG, para a Maria Arminda, c/c Morais Silva

Data - 31/07/2025, 17:48 

Obrigado, Arminda. É uma boa ajuda para o nosso cor art ref, Antonio Luís Morais da Silva, também nosso camarada da Guiné (*).

A Ercília é, de facto, do 2º curso (1962) (escreveu-me em tempo o Miguel Pessoa), curso que formou 5 enfermeiras pqdt.  Esteve em Angola como alferes graduada enfermeira pqdt. Casou em Luanda com o Ribeiro Pedro, paraquedista. Segundo ela diz no vosso livro,  "Nós, as Enfermeiras Paraquedistas"... (2014, pag. 394) integrou depois várias ONG, como voluntária e apanhou várias guerras (do Iraque, guerra do Golfo, a Angola, guerra civil, passando pela Guiné-Bissau, Timor e Moçambique (**).

Boa continuação da fisioterapia (a minha está a correr, na expectativa da próxima cirurgia: a minha prótese da anca ainda meia solta, já tem 12/13 anos)...

Um alfabravo, Luís
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5. Resposta da Maria Arminda:

Data - 31/07/2025, 18:06

Obrigada pelas notícias. Confirmo as informações sobre a Ercília e do seu trabalho. Ao lado, de bigode. é hoje o major-general paraquedista, Hugo Borges [ex-tenente pqdt, e 2.º cmdt, CCP 121 / BCP 12, um dos bravos de Guidaje, na batalha de Guidaje, em 23/5/1973].

Um abraço
M Arminda
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Notas do editor LG:

(*) Morais Silva:


(i) foi cadete-aluno n.º 45/63 do Corpo de Alunos da Academia Militar (e depois, mais tarde, professor de investigação operacional na AM, durante cerca de 2 décadas);

(ii) no CTIG, foi comandante da CCAÇ 2796, em Gadamael, entre jan 1971 e fev 1972; instrutor da 1.ª CCmds Africanos, em Fá Mandinga; adjunto do COP 6, em Mansabá;

(iii) fez parte do Grupo L34, na Op Viragem Histórica, no 25 de Abril de 1974;

(iv) é membro da nossa Tabanca Grande, com mais de 150 referências no blogue.

terça-feira, 22 de julho de 2025

Guiné 61/74 - P27045: (De) Caras (236): Sobrenomes invulgares dos militares do BCAV 2867 (Aníbal José da Silva, ex-Fur Mil Alimentação)

1. Em mensagem de 1 de Julho de 2025, o nosso camarada Aníbal José Soares da Silva, ex-Fur Mil Vagomestre da CCAV 2483 / BCAV 2867 (Nova Sintra e Tite, 1969/70), enviou-nos um texto com sobrenomes invulgares de militares do seu Batalhão.


SOBRENOMES INVULGARES DE MILITARES DO BCAV 2867

APÓS CONSULTA DA HISTÓRIA DA UNIDADE

No ano de 1962, na Escola Comerial de Oliveira Martins, tive um professor de Português que era um colecionador apaixonado por diversas coisas. Uma das suas coleções consistia em obter e registar nomes invulgares, mas reais, de indivíduos.

Na altura fixei alguns nomes, que agora não lembro, mas há um que ficou gravado na minha memória. E o nome é “José Casou de Calças Curtas”, de um brasileiro, está bem de ver. Por outras fontes registei outros nomes, também reais e que são: António Pancadas Acabado; Um Dois Três de Oliveira e Quatro; Pedro Penedo da Rocha Calhau, Pica Sinos e Aurora da Liberdade Viva a Républica.

Em tempos, em conversa com amigos sobre o tema e sabendo que no meu Batalhão (BCAV 2867) havia sobrenomes de camaradas, também invulgares, consultei a História da Unidade e daí resultou a seguinte lista:

Cuco
Galinha Jorge
Toucinho
Tarrinca
Cabeceira
Birrento
Calção
Chambrinho
Poupada
Bicho
Parracho
Paquim
Boleto
Negalho

Barriga
Fachada
Carrão
Portásio
Cabeçarra Valseiro
Vestias Palhinhas
Cachucho
Estreito
Inverno Chainça
Palhaça Lérias
Saiote
Vestias
Tacão
Ratola
Brissos
Sandonico Cascalho
Vale de Râ Lauzinha
Minorsa
Tanca Galinha
Xufre
Coelho Rijo
Tendeiro Ameixa
Brilho Faritas
Cerqueiro Repolho
Samouqueiro
Estevainha
Pagarim Lança
Engrossa
Chaveiro
Sota
Limpinho
Chita Ferragem
Ratalho
Rolo Jarreta
Acatis
Verdade Ventinhas


Arcozelo/Gaia, 01 de Julho de 2025

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Nota do editor

Último post da série de 20 de junho de 2025 > Guiné 61/74 - P26940: (De) Caras (235): Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades... (Alberto Branquinho, ex-Alf Mil Art)

sexta-feira, 20 de junho de 2025

Guiné 61/74 - P26940: (De) Caras (235): Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades... (Alberto Branquinho, ex-Alf Mil Art)

Mafra > Escola Prática de Infantaria (EPI) > 1968 > Cerimónia do Juramento de Bandeira > Desfile dos novos militares, onde se integrava o nosso camarada Paulo Raposo, frente ao Convento de Mafra.

Foto (e legenda): © Paulo Raposo (2006). Todos os direitos reservados: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Em mensagem de 19 de Junho de 2025, o nosso camarada Alberto Branquinho, ex-Alf Mil Art da CART 1689 / BART 1913 (Fá, Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69), enviou-nos este curioso texto com o título:


MUDAM-SE OS TEMPOS, MUDAM-SE AS VONTADES…

Março, talvez Abril, de 1966. Escola Prática de Infantaria (instalada nas traseiras do Convento de Mafra.)

Uma formação militar de soldados-cadetes saiu do portão lateral direito do Convento, de farda cinzenta e com a velha Mauser em posição de marcha, no ombro esquerdo. Marcham ao som de banda militar (com o som amplificado) instalada em frente ao Convento. Passados cerca de três meses de instrução militar, vão fazer o chamado “Juramento de bandeira”.

Em pé, a meio da escadaria frontal ao Convento e de costas para o mesmo está Sua Excelência o Chefe de Estado, Almirante Américo Thomaz, ladeado por Altas Individualidades.

A banda militar parava de onde em onde (ou, talvez, baixasse a intensidade do som), ao mesmo tempo que se ouvia uma voz ampliada pelo microfone: “Angola é nossa, Angola é nossa, Angola é nossa…”, repetida várias vezes, em que os sons “gó” e “nó” eram ampliados pelo bater mais forte dos pés esquerdos dos cadetes em marcha. Depois de acabar a repetição da frase, a banda voltava a tocar.

Quando cada pelotão ia passar em frente ao Almirante Américo Thomaz, o comandante de cada pelotão dava a ordem de “olhar à direita”. O Almirante respondia em cumprimento militar, levando a mão direita à pala do boné.

Depois de toda a formação militar ficar parada no largo em frente do Convento e em frente às individualidades, ouviram-se os discursos habituais. Acabada a cerimónia, os vários pelotões marcharam em direcção ao portão lateral esquerdo ao Convento. Lá dentro, na parada existente nas traseiras, foi dada ordem de “Destroçar” e cada um recolheu às suas “instalações privadas”. (No nosso caso uma cama e um armário metálico colocado à cabeceira de cada cama, tudo integrado em cinco ou seis filas de camas e armários, que iam do altar da capela-dormitório até à parede, onde se encontrava a porta de entrada; a todo esse conjunto acrescentavam-se mais duas camas e respectivos armários, colocadas dentro da estrutura metálica que separava que separava o altar do restante espaço e protegidas por duas cabeças aladas de dois anjos rechonchudos.)


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Passados cerca de dez anos sobre o que vai escrito acima, um antigo soldado-cadete, que estava incorporado naquela formatura, passeava com uns amigos, ao entardecer, em Copacabana. Olhou sobre a esquerda e viu o Almirante Américo Thomaz passando em sentido contrário, em traje civil simples, acompanhado pela filha. Chamou a atenção dos amigos e, quando todos olhavam, o Almirante viu-os e fez-lhes um cumprimento com a cabeça. Todos retribuíram. Apesar de lhe ter apetecido marchar, batendo com o pé no chão ao ritmo de 1966, não o fez.

(“…Malhas que o Império tece…”)

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Notas do editor

Vd. último post de Alberto Branquinho de 11 de fevereiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26485: Humor de caserna (102): o macaco-fidalgo ou "fatango"... "ó meu alferes, parecia que era um gajo... dos turras!" (Alberto Branquinho)

Último post da série de 16 de junho de 2025 > Guiné 61/74 - P26926: (De) Caras (234): o nosso Raul Solnado da Guiné... o Abílio, Valente e Magro, ex-fur mil amanuense, CSJD/QG/CTIG (Bissau, 1973/74)