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terça-feira, 16 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28103: Timor-Leste: passado e presente (35): Barlaque: casamento tradicional e modernidade, o verso e o reverso (resumo analítico de artigo, publicado pelo Diligente, excelente jornal digital, feito em Díli)


Prompt original e composição editorial: Luís Graça.

Texto: Luís Graça + Rui Chamusco

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.

Barlaque: ritual de união familiar ou ataque à igualdade de género?
Autoria: Equipa do Diligente
Fonte: Diligente (16 de julho de 2023)


1. Sobre a "Equipa do Diligente", convirá saber o seguinte:


“Sobre as pessoas. Para as pessoas”

Somos um grupo de jovens jornalistas timorenses ansiosos por melhorar a indústria dos media no nosso país. Queremos difundir informação imparcial que possa ajudar as pessoas a enfrentar todas as questões sociais e económicas com pensamento crítico.

Queremos que o povo timorense seja ouvido. Queremos que todos estejam conscientes do que se passa no nosso país.

Ambicionamos ser um projeto inovador, com uma aposta forte em trabalhos de investigação, reportagens, podcasts e outros conteúdos informativos.

Como primeiro website informativo totalmente em português, em Timor-Leste, temos a preocupação acrescida de produzir conteúdos de fácil compreensão e explicar assuntos complexos de forma simples.

Vamos dar voz aos cidadãos, promovendo debates sobre os direitos humanos e a defesa das minorias, ao mesmo tempo que mostramos ao mundo a riqueza cultural de Timor-Leste e os aspetos que o tornam único.


2. Aqui vai uma sinopse crítica do artigo supracitado, estruturada, para melhor legibilidade.   Inclui os pontos-chave, as tensões culturais e as vozes dissonantes, além de uma reflexão final que convida ao debate.

O barlaque (ou barlak, em tétum) é uma tradição ancestral timorense que formaliza o casamento através da negociação entre famílias, envolvendo a troca de bens (dinheiro, animais, adornos como belak ou kaebauk) como símbolo de união e respeito. 

Originário do termo indonésio berlaki (mulheres com companheiro para casamento), o ritual divide-se em três fases:

(i) Tuku odamantan (“bater à porta”): 

primeiro contacto entre famílias, a do pretendente e a da futura noiva, com troca de presentes simbólicos: cigarros, vinho, cabrito, noz-de-areca (equivalente à noz-de-cola africana).

(ii) Hamos dalan (“abrir o caminho”): 

cerimónia de reconhecimento mútuo, onde a mulher passa a integrar a família do homem (fetosán), e os homens da família da noiva se tornam umane (herdeiros da uma lisan, casa sagrada).

(iii) Kahe aitahan (“prenda”): 

casamento cultural, com troca de anéis e fios de ouro/p e prata; aqui, define-se se o sistema é patriarcal (kaben sai: a mulher e filhos passam à uma lisan do homem) ou matriarcal (habanin: o homem entra na uma lisan da mulher).

A Face oculta: violência, dívida e desigualdade

O artigo desmonta o mito da “união familiar” ao expor casos concretos de exploração económica e opressão de género (os nomes são fictícios, para proteger a privacidade das pessoas entrevistadas):

  • Martinha, mãe de duas filhas, recusa o barlaque por considerá-lo uma "venda de mulheres": os tios da noiva (figuras centrais no processo) decidem o valor e ficam com a maior parte, reduzindo a mulher a um objeto de transação. 

A recusa de Martinha em ser "barlaqueada" (sic) gerou conflitos familiares, mas a sua resistência expôs uma verdade incómoda: mulheres barlaqueadas são frequentemente vítimas de bullying, violência doméstica e controle excessivo por parte do marido e da família do marido.

“Se eu não fosse a um funeral ou não soubesse cozinhar, seria alvo de ofensas. Não quero ser propriedade de ninguém.”

  • Yane Maia, revisora linguística, viu o seu casamento desmoronar-se devido a conflitos entre sistemas matriarcais e patriarcais, na cultura Bunak (matriarcal), as mulheres barlaqueadas não podem pertencer à uma lisan do homem, sob pena de “maldição de morte” para si e para os filhos; a família do marido recusou um compromisso híbrido, demonstrando a rigidez de um sistema que nega autonomia às mulheres.

Mais de 50% das mulheres timorenses (15-49 anos) já sofreram violência física ou sexual por parceiros masculinos (fonte: CEDAW/ONU). 

O barlaque, segundo o artigo, agrava esta realidade: casais endividados para pagar o ritual (que pode ir até aos 20 mil dólares, num país em que os rendimentos médios mensais andam na casa dos 150 dólares) vivem sob stress extremo, gerando divórcios e agressões.
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O artigo opõe três perspetivas

Defensores
do Barlaque
Críticos
do Barlaque
Neutrais
(Antropólogos)

Eugénio Sarmento (lia-nain):

o barlaque é um fator de união familiar e respeito pela fertilidade da mulher.

 
A violência doméstica não é culpa da tradição, mas de “pessoas que não a compreendem”.
Berta Antonieta (ativista feminista):
´
o barlaque reduz a mulher a um bem material, equiparando-a a búfalos ou dinheiro.

A cultura é dinâmica e deve ser mudada.
Alessandro Boarccaech

o barlaque é um facto social com dois lados: união familiar vs. discriminação.

A violência doméstica está ligada a fatores estruturais (educação, hierarquias, álcool, políticas públicas).

Josh Trindade
(antropólogo): os objetos trocados não são para “comprar” a mulher, mas para valorizar a sua fertilidade.

Critica os “colonialistas” que julgam a cultura sem a conhecer.

Martinha/Yane Maia
:

o ritual perpetua a desigualdade e a violência, especialmente quando as famílias pobres usam as filhas como fonte de rendimento.
Paulino dos Santos (engenheiro):

propõe reduzir os custos do barlaque e de outros rituais (lia mate, lia moris) para evitar pobreza e divórcios.
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O Debate Central: Tradição vs. Direitos Humanos

O artigo levanta questões incómodas e urgentes:


(i) O barlaque é compatível com a igualdade de género?

  • Os defensores argumentam que o ritual simboliza respeito e consolida laços familiares.
  • Os críticos respondem que, na prática, a mulher perde autonomia: os tios decidem o seu valor, e ela passa a ser “propriedade” da família do marido (ou, no caso matriarcal, o homem é que se torna dependente).
(ii) O barlaque é a causa da violência doméstica?

  • Não diretamente, segundo os antropólogos: a violência tem raízes mais profundas (educação, poder, álcool).
  • Mas legitima-a: ao tratar a mulher como um bem transacionável, o ritual normaliza a sua subalternização, criando um ambiente propício ao abuso.

(ii) Pode o barlaque adaptar-se aos tempos modernos?

  • Josh Trindade sugere que o pagamento pode ser fracionado (em prestações), aliviando a pressão financeira.
  • Berta Antonieta propõe uma revolução cultural: “A cultura foi feita pelo homem, mas é dinâmica. Podemos mudá-la.”
  • Alessandro Boarccaech questiona: “Para que serve o barlaque hoje? É justo? Respeita a diversidade?

Reflexão final: um espelho para Portugal  ( e Guiné-Bissau) ?

O artigo do Diligente é um retrato cru de como a tradição pode ser ao mesmo tempo um pilar cultural e uma prisão

OkEm Timor-Leste, o barlaque é um sistema complexo, com nuances entre o matriarcal e o patriarcal, mas com um denominador comum: a mulher é o último elo da cadeia de decisão.

Paralelos com Portugal

  • A dote (ou enxoval ou bargal) em Portugal também já foi um símbolo de status e negociação familiar, mas evoluiu para um gesto simbólico.
  • A violência doméstica em Portugal (como em Timor-Leste) tem raízes culturais profundas, muitas vezes mascaradas por “tradições”.
  • A resistência de Martinha lembra as mulheres portuguesas que, nas décadas de 60/70, recusaram casamentos arranjados pelas famílias ou a submissão ao marido, "chefe da família.
  • A igualdade da mulher perante a lei em Portugal é um direito fundamental consagrado no Artigo 13.º da Constituição da República Portuguesa, que garante que todos os cidadãos são iguais e proíbe qualquer discriminação com base no sexo.A revisão do Código Civil, que entrou em vigor em abril de 1978, marcou uma revolução histórica nos direitos das mulheres em Portugal. Pela primeira vez, a lei instituiu a igualdade de género no casamento, abolindo o estatuto de dependência legal e económica da mulher face ao marido.
  • A revisão do Código Civil, que entrou em vigor em abril de 1978, marcou uma revolução histórica nos direitos das mulheres em Portugal. Pela primeira vez, a lei instituiu a igualdade de género no casamento, abolindo o estatuto de dependência legal e económica da mulher face ao marido.
  • As principais alterações introduzidas pelo Decreto-Lei n.º 496/77 incluíram: (a) fim da figura de "chefe de família": o poder de decisão exclusiva do marido sobre o agregado familiar foi eliminado; (b) gestão conjunta do património: o marido deixou de ser o único administrador dos bens do casal, passando a direção da família a pertencer a ambos os cônjuges.

Pergunta para os leitores do nosso blogue:

Até que ponto uma tradição (o "fanado", por exemplo, ou o "casamento infantil", na Guiné-Bissau) pode ser “respeitada” se ela perpetua desigualdades ou tem práticas que atentam contra os direitos humanos ?

 Será o barlaque um ritual de união… ou um mecanismo de controle social ? 

Veremos, em próximo poste, algumas semelhanças com o casamento tradicional na Guiné-Bissau.

Nota para citação: Sinopse crítica elaborada por LG +  IA  ( Vibe  / IA Mistral Medium 3.5) a partir do artigo “Barlaque: ritual de união familiar ou ataque à igualdade de género?”, publicado no Diligente, 16 de julho de 2023.

(Revisão / fixação de texto, negritos, links, título: LG)
____________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 11 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28012: Timor-Leste: passado e presente (34): a revolta de Manufai (dez 1911 / out 1912) - Parte I

terça-feira, 9 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28084: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte VIII: semana de 24 a 31 de março: do ensino da língua portuguesa ao barlaque


Timor-Leste > s/l > s/d > Familiares a negociarem o valor do "barlaque" | Foto: Josh Trindade. Fonte: Cortesia de Diligente, Dili, Timor-Leste (»*)

O pedido tradicional de casamemto é comum a muitos povos. Em Angola, chama-se "alambamento". Na Guiné-Bissau, não há um termo específico em crioulo, variando conforme os grupos etno-linguísticos. Mas em Bissau é conhecido como o "pidi noiva". (LG)


1. Continuação da publicação de excertos das crónicas da III Viagem (2019) (**), de Rui Chamusco a Timor-Leste.

1.1. O nosso amigo (e membro da Tabanca Grande), Rui Chamusco, professor de música reformado, a viver na Lourinhã, vai a Timor Leste todos os anos (exceto na pandemia), desde 2016. É o lider de uma associação de solidarieddae com Timor Leste (ASTIL), que já montou, equipou e pôs a funcionar uma escola nas montanahs de Liquiçá (Manatti / Boebau), a Escola de São Francisco de Assis (ESFA), e fez o "apadrinhamento" de crianças em idade escolar.

São 3 dias de viagem até Dili!... Fica lá 3 ou 4 meses... Ele já tem 80 anos e há dias fez uma operação delicada cirúrgica, de que está a recuperar bem... Temos publicado as suas crónicas anuais no nosso blogue.

Além da música, é o homem dos sete intrumentos (acordeão, viola, gaita de foles, violino, órgáo, etc.). Dá explicações de grego, latim e protiuguès. Faz a sua horta. E é especialista em micologia (a ciência dos cogumelos): sabe os cogumelos todos pelo seu nome científico... E atà data ainda náo comeu nenhum daqueles venenosos e mortais que deu direito a passaporte para a eternidade.

A sua história é inspiradora. É um exemplo vivo de como a solidariedade portuguesa com Timor-Leste continua a ser concreta, persistente e transformadora, mesmo décadas após a independência. 

Lendo as suas crónicas (que ele reuniu numa brochura em pdf, com cera de 3 centenas de páginas), aprende-se muito sobre a história, a cultura,  a geografia, a sociodemografia, a idiossincrasia dos nossos amigos timorenses.


1.2. Já aqui publicámos excertos das crónicas da I viagem (2016), II (2018) e VI (e última) (2025).

Depois meteu-se a pandemia, e o Rui só voltou a Timor Leste em 2023 (IV viagem), e anos seguintes: 2024 (V viagem) e 2025 (VI viagem).

Este ano talvez lá volte, mas apenas pelo Natal, se a saúde o permitir.

O Rui Chamusco, o "malae" (tuga), o "abô" (avô) Rui, é juntamente com a família luso-timorense Sobral (Gaspar e Glória, e também o "Eustáquio", irmão do Gaspar) um dos grandes pilares deste projeto de solidariedade com o povo timorense, que é a Escola São Francisco de Assis (ESFA).

É um exemplo vivo de amor à lusofonia e de solidariedade para com o povo de Timor-Leste, que merece ser conhecido pelos nossos leitores.

Apesar da pandemia (e da "burocracia"...), o projeto da Escola São Francisco de Assis (ESFA), inauguradas em 19/3/2018, vai continuar a avançar com a construção da "casa do professor" e a aquisição de uma viatura todo-o-terreno ("pick up"), indispensável para se chegar a Boebau, na montanha. Nestas crónicas de 2019, há referência a dificuldades e limitações que, felizmente, já foram superadas. Mas o encanto destas crónicas deve ser partilhado.
  

Rui Chamusco,  professor
de música, reformado, é cofundador e líder da ASTIL - Associação dos Amigos Solidários com Timor Leste: é ntaural ds Malcata, Sabugal; vive na Lourinhã; é membro da Tabanca Grande, tem 70 referèncias no blogue


III Viagem a Timor-Leste :  2019 (Rui Chamusco, ASTIL)


Parte VIII: semana de 24 a 31  de março:  do ensino da língua portuguesa ao barlaque






24.03.2019, domingo  - “ Cantando espalharei por toda a parte ... se a tanto me ajudar o engenho e a arte... - Os Lusíadas - ( Canto I-2ªestância / estrofe )


Se há algo que nos une e identifica pelo mundo é a nossa língua mãe. Esta é uma das razões que justificam o nosso envolvimento neste projeto de solidariedade em Timor Leste: ajudar e promover ações que motivem os timorenses, e particularmente as crianças a aprender e a falar a língua portuguesa, que até é a segunda língua oficial desta nação.

Por isso construimos a Escola São Francisco de Assis em Boebau; por isso criamos o programa de apadrinhamento de crianças e jovens; por isso ensaiamos todas as semanas canções portuguesas a um grupo de crianças que, sempre que solicitem, se desloca a restaurantes ou lugares públicos para actuação; por isso dou todos os dias explições (aulas) a crianças e jovens que demonstrem uma vontade expressa de aprenderem o português.

“ Cantando espalharei por toda a parte...se a tanto me ajudar o engenho e a arte...”
- Os Lusíadas - ( Canto I-2ªestância / estrofe )

Como professor aposentado, habilitado para o ensino da música e da língua
portuguesa, sou testemunha de que o engenho e a arte, neste caso a música, são meios privilegiados do ensino do português, ou de qualquer outra língua. Com efeito dá um prazer enorme ouvir estas crianças de Ailok Laran ou de Boebau Manati interpretarem um elenco de canções portuguesas, numa língua que lhes é estranha mas que muito desejam compreender e falar.

É desta gente ávida de aprender que eu gosto e tento ajudar, com a ajuda do acordeão ou da guitarra. Já vi alguns portugueses que, assistindo aos ensaios do grupo, não conseguiram conter as lágrimas de emoção. (Não é João Crisóstomo e José Ascenso?)

Já vi alunos e professores da universidade de Dili interromperem por diversas vezes a Adobe (minha afilhada) que interpretava a canção “Chuva”, no dia 5 de Maio, dia da língua portuguesa. Já vi as crianças da montanha cantando o hino da escola com toda a alma e coração. Já vi o entusiasmo de toda esta gente com que cantam e dançam “ Ó malhão, malhão!”

Sim, acredito que a arte, a música fazem milagres. Que, como Camões escreveu, cantando espalharei por toda a parte, mais concretamente por estas terras do extremo oriente, a musicalidade da nossa língua e a possibilidade destas crianças e jovens poderem aprender e desenvolver a língua portuguesa.

Que bom é ser português! Que bom é fazer tantos amigos através da língua que
falamos. Que bom é sentir o amor dos timorenses por um país que se chama Portugal.


26.03.2019, terça feira  - “ Eu só sei que nada sei...”


Esta nem ao diabo lembra.

Hoje à noite, ao jantar, enquanto saboreàvamos uma “pinguinha de vinho do Porto”, veio à baila o tema do álcool, mais propriamente dos vinhos: o sabor, o grau, as marcas, as diferentes qualidades de branco, tinto e rosé, e evidentemente o consumo.

Foi então que o Eustáquio nos revelou algo inimaginável para quem gosta mesmo de saborear um bom vinho, fruto das uvas e do trabalho do homem. Disse-nos que aqui, em Timor, mesmo não sendo uma terra produtora do néctar dos deuses, se consome muito álcool e há muitos bébados.

Como assim? Perguntamos nós. Ele então explicou:

- O timorense tem várias maneiras de se embriegar. Há quem beba o álcool simples; há o vinho da seiva de bananeira (sabo), uma espécie de aguardente, que misturam com cocacola e .......; há o vinho importado mas que é dificil de adquirir devido ao fraco poder de compra da maioria dos timorenses. Mas é raro beberem o vinho puro proveniente da fermentação do sumo das uvas. E aqui vem a revelação: ao álcool, ao vinho adicionam gasolina ou diluente para atingirem o mais rápido possível o efeito da bebedeira. São momentos de alienação e de curtição que parece agradar-lhes imenso. Até talvez quem sabe para esquecerem durante algumas horas os seus problemas e carências do dia a dia.

Seja como for, convenhamos que tal mistela pega fogo. E como o consumo exagerado de álcool é vício, nem quero pensar nas consequências físicas e psicológicas nestes corpos franzinos a que se sujeitam estes amigos de Baco. E, mesmo que seja uma questão cultural deste país, não me conformo a que nada se faça por esclarecer e emendar esta ementa tão perigosa. Que Deus nos valha!...

Mais ainda. O Amali contou que, quando apanham alguém bêbado, o que não deve
ser difícil de encontrar, fazem um menu todo estranho, e que consiste em fazerem
uma salada de tomate, cebola e outros ingredientes, que depois é recheada com
chinelos cortados aos bocadinhos. O desgraçado do bêbado, já não tendo a
clarividência do que está no prato, come tudo, inclusive os chinelos, pensando que
está comendo bocadinhos de carne. Isto já é malvadez e malandrice: gozar com quem não tem capacidade de discernimento. Que Deus lhes perdoe!...

26.03.2019 - Notícias aterradoras

Já não é a primeira vez que ouvimos falar disto. Um clima de violência fortuita
provocada por grupos de marginais, treinados em artes marciais ou outras técnicas de ataque, que espalham o terror nos bairros mais povoados e problemáticos da capital, Hudi Laran, Bairro Pité, Bidau, Comoro, etc... Ontem aconteceu em Ailok Laran, Um médico chinês foi assassinado, nem a polícia sabe por quem, e abandonado numa das estradas da localidade. Vingança? Ajuste de contas? Malvadez? Todas questões sem respostas que urge resolver para tranquilidade e sossego de todos nós.

A crueldade destes grupos de malfeitores é tão refinada que mortes já fizeram,
cortaram os corpos aos pedaços e foram deitá-los ao mar para alimento dos crocodilos que por aqui abundam.

O clima de terror está instalado. De tal modo que ninguém ousa sair à noite, e muito menos um malai (estrangeiro). Quanto menos se der nas vistas mellhor. Porque, de qualquer direção podem surgir os atacantes com setas, armas brancas (nelas incluindo as catanas), armas convencionais, ou até em confrontos corporais, lutas em que levam quase sempre a melhor devido aos cursos que frequentam em artes marciais.

O comandante das Forças Armadas, general Lere, já falou, em entrevista na GMN,
(uma das estações de Rádio e Televisão de Timor Leste) que se a polícia não resolver este problema da segurança das pessoas, as forças armadas encarregar-se-ão de o fazer. Mas até agora não se nota que algo tenha sido feito. E os factos assim o provam.

As consequências estão à vista. Para além da perda de vidas humanas e dos feridos
com marcas físicas e morais indeléveis, há países e governos que já reagiram a este
clima de medo e de terror. O governo chinês já anunciou de que iria retirar de Timor Leste todos os seus cidadãos.

Um grave problema que urge resolver para bem dos cidadãos estrangeiros e para bem de Timor Leste.

27.03.2019, quarta feira  - “Não é com vinagre que se caçam moscas...”

Mais uma vez eu servi de recurso para obter o que se pretendia: a assinatura e carimbo do pároco de Motael, padre Justino, num assento de batismo a fim de dar andamento ao pedido de nacionalidade portuguesa. Sou testemunha das voltas e voltas que é preciso dar para que isso se consiga. Os pedidos são muitos, e até há párocos que já colocaram à porta do cartório um letreiro dizendo: “Não tenho tempo para atender estes pedidos”. 

Em situação de desespero, porque o processo em Lisboa depende deste documento, foi-me pedido pela família para ir com o Amali falar com o pároco.

Não me fiz rogado, e depressa me aprontei para irmos de motor tentar obter o
almejado papel. Pedi para falar com o pároco, o que me foi logo concedido, com
muita simpatia de quem assiste os serviços do cartório paroquial. Passados três
minutos, o padre Justino vem até mim, e depois de um cumprimento de reverência
fomos para o seu gabinete de atendimento numa sala ali ao lado. Conversamos
durante bastante tempo (mais eu do que ele pois quis explicar-lhe os motivos da
minha estadia em Timor Leste), e já quase no final da conversa expliquei-lhe o que
pretendia. 

O padre Justino compreendeu perfeitamente o que estava em causa (falamos bastante dos documentos falsos que abundam nos processos timorenses e
que bloqueiam ou anulam o andamento dos mesmos) e, sem qualquer resistência,
perante a apresentação da fotografia do assento de batismo, ele me disse: “Sim, vou
assinar e carimbar.” 

Claro que fiquei contentíssimo que por minha intercessão se tenha obtido este precioso documento.

Um muito obrigado ao pároco de Motael fechou este nosso encontro, e uma alegria
enorme quando disse ao Amali: “Já está!”

Este episódio faz-nos pensar e perguntar: Quantos documentos não válidos serão
passados nos cartóríos paroquiais das igrejas de Timor que, por falta de
esclarecimento, de nada servem por os processos em causa? Quanto dinheiro (coisa rara para os bolsos de muitos timorenses) não se tem gasto inutilmente? Quem deve esclarecer esta situação, que se repete em muitos dos processos?

Em meu entender, a embaixada de Portugal e a igreja são os responsáveis de tal
situação. E por isso, devem proceder, quanto antes melhor, à resolução deste
roblema.

E já nem gostaria de falar de “advogados” e “solicitadores” oportunistas que, sem
saber o que fazem, estão extorquindo a economia que quem mal pode pagar os seus
serviços.

Moral deste caso: “Não é com vinagre que se apanham moscas...” mas com bons
modos, esclarecimentos e muita verdade.

29.02.2019, quinta feira  - Em defesa da Língua Portuguesa

É uma preocupação de todos, e particularmente aqui em Timor Leste, país que adoptou o português como segunda língua oficial. A responsabilidade é dos governos de Portugal e de Timor Leste, dizem uns. A tarefa é de todos dizem outros. O que é certo é que, apesar de todos os esforços feitos por quem sente este dever de promover e desenvolver a língua portuguesa em terras timorenses, a nível oficial e particular, os resultados não são muito visíveis. E se o trabalho de campo desenvolvido por escolas de referência como as escolas CAFE implantadas nas principais cidades do país, e a escola Rui Cinatti em Dili que são apoiadas pelo governo de Portugal têm tido um papel importante na promoção e defesa da nossa língua, a verdade é que não vemos na prática, na vida do dia a dia, os timorenses como falantes de português. Falam tetum ou bahasa (língua indonésia).

Mas então, depois de 17 anos de independência, o bahasa ainda se fala correntemente?

É isso mesmo: idosos, adultos, jovens e crianças compreendem e falam correntemente a língua indonésia. Como é que, com tanto esforço dos dois governos envolvidos e de instiutições particulares o português não é mais compreendido e falado?! Como é que a geração dos mais novos tem apetência e competência para a prática do bahasa?

Talvez que tenhamos de ser humildes e aprender com a estratégia dos indonésios. É que o governo indonésio, salvo as barbaridades dos militares ocupantes que reprimiam com prisão e até a morte os falantes de português, investiu numa rede escolar que cobre boa parte do território timorense; investiu no comércio local com a presença de cidadãos daquele país; investiu nos meios de comunicação social tais como operadoras telefónicas (as suas mensagens são em bahasa), e particularmente nos canais de televisão que, queiramos ou não, são o melhor meio de divulgação, porque junta o som e a imagem. Hoje, nos lares que têm televisão e em espaços públicos afins, a maior parte do tempo de antena é coberta com filmes, programas entretimento, noticiários, etc... em lingua bahasa.. Crianças e jovens, adultos e idosos aprendem sem muito esforço, de uma maneira lúdica, este idioma que os atrai.

Ora, sabendo nós da afeição que os timorenses têm pelos portugueses - eu sou
testemunha e sujeito desta afeição - e necessitando muitos timorenses de compreender e falarem a língua portuguesa por questões de emprego e de estatuto social, pergunto se não será possível o estado português investir mais na utilização destes meios de comunicação, sobretudo a televisão. É que aqui, por terras do extremo oriente, só se onsegue ver (apanhar) a RTPI, a Rádio Televisão Internacioal, e na maior parte das vezes em péssimas condições. Porque não investir em programas de entretimento, em filmes, nalgumas telenovelas, noticiários, programas desportivos, programas musicais (incluindo o folclore nacional)?...

Bem me parece que seria muito mais eficaz na consequção dos objetivos do que muitas das ações de várias instituições apoiadas pelo governo de Portugal. Claro que contando sempre com o precioso tarbalho que estas instituições têm desenvolvido.

Aqui fica a sugestão deste grão de areia que, também preocupado e empenhado no
ensino da língua portuguesa (mesmo que seja a cantar) vai tentando no dia a dia
motivar sobretudo as crianças, para compreenderem, a falar e a cantar, e a
expressarem-se na língua de Camões, o idioma de muitas nações irmãs - a CPLP
(Comunidade dos Povos de Língua Portuguesa).

31.03.2019, sábado - Curta metragem: Ação!..

Esta manhã, foi um rodopio aqui em Ailok Laran. Todas as crianças apadrinhadas
(treze) foram convocadas para gravarem uma mensagem para as suas madrinhas 
ou padrinhos. Claro que tivemos de valer-nos das cábulas: folhas A4, onde préviamente escrevi o que cada um(a) tinha de dizer. Tempo de treino de leitura, correção, tentativas de gravação, olhares, gestos, cenários; pára, repete, agora, silêncio ... um sem fim de trabalhos que nos ocuparam toda esta manhã de domingo. Foi uma verdadeira aula de português, e creio que estas crianças não irão esquecer facilmente as suas mensagens. Aliás, cada uma guardou consigo a folha respetiva.

A seguir, é o envio das mensagens que, como eu não sou nenhum perito am novas
tecnologias, me ocupam parte importante do meu dia e noite de trabalho, A conta
gotas, lá vão sendo enviadas às madrinhas e aos padrinhos.

O feedback tem sido muito positivo, com mensagens de madrinhas e padrinhos a
manifestarem o seu regozijo por verem os seus afilhados a falarem em português.

E é assim que, com pequenas coisas, vamos lidando com esta grande tarefa de ensinar estas crianças a falar a língua de Camões.

31.03.2019 - “ barlak” (ou barlaque) e cultura timorense...

Hoje o Eustáquio foi fazer de negociador no “barlak” (já grafado como "barlaque") de um sobrinho. Quando chegou a casa, contou-nos como se tinha passado. Já não é a primeira vez que o Eustáquio faz este trabalho. As famílias dos noivos confiam nele porque, para além de ser um homem sensato, é um grande conhecedor e praticante da cultura e da tradição timorense.

Então, o que é o “barlak" (ou barlaque) ?

 O “barlak” é uma festa, uma cerimónia entre as famílias dos noivos em que o “manefon” (o homem que pede a mão da noiva passando assim a fazer parte desta família) e particularmente a sua família negoceia com a família da noiva “os dotes” para que se realize o casamento. 

“Os dotes” envolvem dinheiro e bens. Neste "barlak" foram 2.500 dólares em dinheiro que o pai do noivo tem de dar à família da noiva, sendo que 500 dólares para a compra de um “krau” (boi ou vaca) e tempêros; mais 15 caixas de cervejas, 10 caixas de coca cola e outras bebidas. 

A família da noiva (creio que duas irmãs) serão as cozinheiras. Oferecerá também um porco e uma saca de arroz de 30kg, que serão partilhados pelas famílias e pelo negociador que terá direito a mais ou menos 3kg do animal abatido. 

Uma semana antes do casamento reunir-se-ão de novo as famílias para fazerem o balanço de como estão as responsabilidades atribuídas, e para acertarem os pormenores da festa de casamento que será no próximo mês de Junho.

A par desta tradição cultural, está a preparação que os noivos fazem através de cursos e reuniões de preparação para o casamento que cada paróquia organiza. Estou a falar, claro está,  de casamentos católicos.(*)

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)
_______________

Notas do editor LG:


(...) “Ter muitas filhas é uma alegria para a família timorense, pois, no futuro, poderão trocá-las por dinheiro e animais. A mulher, quer queira quer não, tem de aceitar a decisão dos seus familiares sobre o preço do barlaque. Eu não quis ser vendida”

O “grito de Ipiranga” é de Martinha (nome fictício), uma das poucas mulheres que, numa sociedade fortemente patriarcal como a de Timor-Leste, levanta a voz para dizer “não”.

O barlaque é uma tradição que existe em Timor-Leste desde os tempos antigos. Este ritual acontece quando um homem e uma mulher decidem casar e têm de, em consequência de uma espécie de “obrigação cultural”, envolver as famílias de ambas as partes para negociar o matrimónio, o que normalmente envolve entrega de bens ou dinheiro aos familiares da noiva. (...) 

domingo, 7 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28078: Humor de caserna (272): As minhas "turras" com a menina IA que não tem um pingo de sentido de humor... A propósito da cantora ié-ié de Jabadá, que não era... "careca" (Luís Graça)


Guiné > Região de Quínara > Jabadá > CCAV 2484 (1969/70) , Os Dragões de Jabadá" >  A cantora ié-ié Isabel Amora (1946-2020), atuando para os militares do aquartelamento, que ficava na margem esquerda do Rio Geba. 

Representação artística, livre,  desse espetáculo. Tudo indica que, nesse dia e local,  a jovem artista, em princípio de carreira (e infelizmente já falecida),   tenha aparecido com duas indumentárias diferentes: vestido curto, mas de manga comprida e minissaia, e na segunda parte  blusa de manga curta e calça à boca de sino. A foto (inspiradora...) é do Manuel Antunes, ex-sold cond auto (CCAV 2484, "Os Dragões de Jabadá"), que vive no Canadá


Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Foto: Manuel Antunes (2022)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.

1.  Falar com máquinas pode até ser divertido mas também às vezes exasperante... Divertido, por enquanto... Um dia pode vir a ser um pesadelo, como foram durante 48 anos na Ditadura Militar e no Estado Novo os coronéis da censura (que não eram máquinas, eram pior, eram "calhaus")... 

De vez em quando tenho as minhas "turras" com a IA. Recusa-se a fazer a ilustração que lhe peço, alegando que o meu prompt "pode violar as suas  politicas de conteúdo" (sic). 

Nunca diz quais são. É preciso então contestar, uma, duas,  três vezes. Às vezes, falo mal:  "P*rra, a foto de uma jovem cantora ié-ié, de minissaia, que vem de Portugal e vai atuar no mato, na Guiné, para os soldados portugueses e a população local... é material pornográfico ou tem conotação sexual?!... A minissaia também chegou depressa ao Portugal de finais dos anos 60!...

"E depois tens que perceber que quem está na guerra, lá no cu de Judas, a 4 mil km de casa, o que mais quer ver é um belo par de...pernas de uma jovem da sua idade!... Não lhe mandem uma matrona de média idade, fadista, como a Cilinha, mas uma garota estouvada da música ié-ié!"...

Resposta, sensata e conciliadora, por fim, da ferramenta da IA (ChatGPT / Open AI): 

(....) "Camarada, pelo que descreves, não vejo nenhum problema de política em mostrar uma cantora jovem de 1969/70, de minissaia, a atuar perante soldados num quartel da Guiné. Mostrar pernas, minissaias ou moda da época não tem nada de problemático.

O que provavelmente aconteceu foi outra coisa: o sistema automático pode ter interpretado a combinação de fatores como:

  • imagem de uma pessoa real;
  • pedido de recriação baseada numa fotografia histórica;
  • referência à atratividade física ("bom par de pernas");
  • contexto militar.

Por excesso de cautela, alguns filtros automáticos bloqueiam pedidos perfeitamente legítimos. Isso acontece ocasionalmente.

Para ser claro: uma ilustração histórica ou humorística de uma cantora dos finais dos anos 60/início dos 70, de minissaia, a atuar num quartel da Guiné, não tem nada de sexual explícito nem de impróprio. E o teu objetivo é manifestamente documental e de reconstituição de ambiente.



Isabel Amora em Jabadá ,c. 1969/70
Foto: 
Manuel Antunes (2022)

Aliás, a fotografia que mostras de Jabadá é interessante 
por outra razão: ela transmite muito bem o que era o ambiente desses espetáculos improvisados. Não havia necessariamente 
um palco. Muitas vezes a artista cantava num terreiro, com um microfone ligado a uma aparelhagem rudimentar, rodeada por militares sentados em bancos, bidões ou simplesmente no chão. O centro das atenções era a novidade da visita, a quebra da rotina e o contacto com alguém vindo da metrópole". (...)

E mais adiante, a púdica da menina da IA continua a desculpar-se, depois de "engolir os insultos":

"Também concordo contigo num ponto histórico: em 1969/70 a minissaia já estava perfeitamente instalada em Portugal, sobretudo entre as artistas de variedades e cançonetistas mais jovens. 

Uma reconstituição fiel da época teria muito mais provavelmente vestidos curtos, penteados da moda e botas ou sapatos de salto baixo do que os vestidos compridos que apareceram na primeira imagem.

Quanto ao 'humor de caserna', faz parte da memória da guerra  e não me escandaliza nada que o Zé Soldado apreciasse a música... e também um bom par de... pernas".

"Á falta de melhor, camarada", acrescento eu, com ironia...Afinal,  quem lê os aerogramas, os jornais de unidade e as memórias dos antigos combatentes como no meu blogue, incluindo a decoração dos "bunkers" (ou buracos onde dormiam)  com fotos de meninas de mama ao léu, encontra isso a cada passo.

2. Bom, lá acabámos, por fim, por chegar a um acordo mutuamente satisfatório. E a menina da IA, que não tem sentido de humor (nem muito menos "sex appeal")  mas agora "mais meiguinha" vem então com a sua contraproposta:

"Se quiseres voltar a tentar uma ilustração, eu sugeriria descrevê-la em termos históricos: Jabadá,  Guiné Portuguesa, 1969/70. Jovem cantora portuguesa em início de carreira, com vestido curto, típico da moda da época, a atuar ao ar livre perante militares da CCAV 2484 e alguns habitantes locais. Ambiente descontraído de espetáculo de variedades no mato, fotografia de época, realista, sem identificação de pessoas concretas."

Muito bem, concluimos os dois que esse pedido, formulado assim, é perfeitamente compatível com uma reconstituição histórica, asséptica, neutra, sem ofensa para a moral pública no séc. XXI nem muito menos para a "bons costumes" da pátria do Tio Sam.

E eu, diplomaticamente, encerrei o assunto, tratando-a também por "camarada" (imaginem!) (ela gosta destas "cumplicidades", ou "ligações perigosas", dirão alguns dos nossos leitores):

"Assim, está bem, acabamos por nos entender os dois, camarada!... Faz lá essa ilustração, há poucas fotos dessa época com artistas da Metrópole a atuar para as Forças Armadas na Guiné (que era um sítio feio, perigoso, pouco recomendável para meninas cantoras de minissaia, etc.)".


Pesquisa: LG + IA (ChatGPT / OPen AI)
(Condensação, revisão/fixação de texto, negritos, itálicos, título: LG)

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 5 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28072: Humor de caserna (271): "Poema para o meu irmão branco" (ou... a única cor que não muda é a da hipocrisia)

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28073: Retratos humanos da Guiné-Bissau de hoje (5): Vendedeiras de bananas, no antigo estacionamento do aeroporto internacional Osvaldo Vieira, Bissalanca, agora requalificado (João Melo, ex-1º cabo cripto, CCAV 8351/72, Cumbijã, 1972/74)




 
Guiné-Bissau > Bissau > Bissalanca > 3 de maio de 2025 >  Jovens vendedeiras de bananas... Lindas bajudas!...E bela froto!... " Tirada no estacionamento do aeroporto Osvaldo Vieira, atualmente em remodelação e ampliação por uma firma turca". (Depois das obras de requalificação, foi inaugurado em março de 2026: vd. aqui vídeo da pãgina da famosa  Tita Pipoka, ativista e empreendedora social).


Foto da página no Facebook (João Reis Melo)


1. João Melo (ou João Reis de Melo), ex-1º cabo op cripto, CCAV 8351, "Os Tigres do Cumbijã" (Cumbijã, 1972/74): 

(i)  é profissional de seguros, vive em Alquerubim, Albergaria-a-Velha; 

(ii) viaja regularmente, desde 2017,  para a Guiné-Bissau, em "turismo de saudade e de solidariedade" (em que distribui material pelas escolas de Cumbijã, e apoia também, mais recentemente,  o clube de futebol local); 

(iii) regressou há pouco tempo da sua viagem desde último ano (2026); 

(iv)   tem já  cerca de meia centena de  referências no nosso blogue para o qual entrou em 1 de março de 2009.


2. Na sua página do Facebook, em 3 de junho, 18:12, escreveu a sguinte nota sobre as estas e outras fotos de gente anónima de Bissau;

(...) Eu vou quase todos os anos à Guiné. Tiro imensas fotos daquele belo povo e NÃO TIRO E NÃO PUBLICO uma foto que não tenha a autorização das pessoas que aparecem nas mesmas! 

Tenho muito respeito por toda a gente e, em especial para com o Povo da Guiné que merece de tudo menos de ser "usado".  Nunca existiu, nem nunca existirá, de minha parte, qualquer outra intenção (...) senão  a vontade de transmitir a beleza que a mulher Guineense tem! (...)
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sexta-feira, 22 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28046: Retratos humanos da Guiné-Bissau de hoje (4): Cadi, a jovem mãe muçulmana no final do Ramadão (João Melo, ex-1º cabo cripto, CCAV 8351/72, Cumbijã, 1972/74)

 

Guiné-Bissau > Bissau > 20 de março de 2026 > Fim do Ramadão: a jovem mãe Cadi, com os seus dois filhos.

Foto (e legenda): © João de Melo (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Postagem do João Melo , publicada no Facebook da Tabanca Grande, 21 de maio de 2026, 17:43 


 Encontrei a jovem Cadi e seus dois filhos, em traje de festa, pelo final do Ramadão em 20 de março 2026.

A tradição de usar roupas novas não ocorre durante o Ramadão (que é um mês de jejum e introspeção), mas sim no Eid al-Fitr,  a grande festa de três dias que celebra o fim do mês de jejum.

O uso de roupas novas e elegantes para esta ocasião simboliza a renovação espiritual após o mês de autodisciplina, sendo costume:

(i) acordar cedo e tomar banho purificador ("Ghusl");

(ii) vestir as melhores roupas disponíveis;

(iii) reunir com a família, vizinhos e amigos.

(Revisão / fixação de texto, itálicos, negritos, título: LG)


2. Comentário do editor LG

Obrigado, João, pela tua sensibilidade sociocultural, pelo teu ecumenismo português, e pelas belas fotos que fizestes na última visita à "nossa" Guiné-Bissau, terra abençoada pela biodiversidade, o multiculturalismo e a tolerância religiosa.

No nosso tempo, não tínhamos "nem tempo nem pachorra" para compreender o "outro" (que era diferente de nós: na língua, nos costumes, na religião, na gastronomia, etc.).

 Os meus soldados eram fulas e muçulmanos e não falavam português, mas, na "freima" (como se diz no Norte, em Candoz) da guerra, pouco sabíamos das diferenças que nos separavam...

Ora é importante saber distinguir  as duas grandes festas do calendário islâmico, e que se celebram na Guiné-BIssau: 

  • o Eid al-Fitr (o fim do Ramadão) ("Korité");
  •  e o Eid-al-Adha, a "festa do sacrifício", a "festa do carneiro" ("Tabaski")

Têm sentidos religiosos diferentes. Na Guiné-Bissau, onde cerca de metade da população é muçulmana (sobretudo fulas e mandingas, mas também outros grupos, biafadas, nalus, etc.), ambas têm também enorme importância social, económica, cultural e familiar.

  • Eid al-Fitr: o fim do Ramadão ("Korité")

Eid al-Fitr significa literalmente “Festa da Quebra do Jejum”.

Marca o fim do mês sagrado do Ramadão, o fim  do jejum diário, desde a alvorada até ao pôr do sol, é o tempo de reconciliação, esmola e convívio. Equivale á nossa Quaresma cristã, período de jejum e abstinência  (no nosso tempo de meninos e moços) (e só os ricos podiam comer carne, porque compravam a bula), ou a "burla").

É uma festa de alegria e agradecimento a Deus (Allah) depois do esforço espiritual do Ramadão, marcada pela oração, autocontrolo, disciplina, caridade, purificação moral.

Antes da oração festiva, os fiéis devem dar esmola aos pobres (zakat al-fitr), para que todos possam celebrar.

Em  Bissau e nas tabancas do interior, as famílias vestem roupa nova ou os melhores panos; há oração coletiva logo de manhã; visitam-se parentes, vizinhos e marabus; matam-se galinhas, cabras ou carneiros conforme as posses; prepara-se arroz, cuscuz, leite, chá forte e doces.

Nas famílias e comunidades, é também uma ocasião de perdão entre parentes, vizinhos e amigos; ofertas às crianças, ajuda aos mais pobres; e reforço dos laços de linhagem e comunidade.

Muitos bissau-guineenses chamam-lhe simplesmente “Korité” (forma usada na África Ocidental francófona, vinda do uolofe). 

Este ano o feriado (nacional) foi a 20 de março de 2026.

  • Eid al-Adha: a festa do sacrifício ou do "carneiro" ("Tabaski")

É a festa maior do Islão. Recorda o episódio bíblico/corânico em que Abraão (Ibrahim) aceita sacrificar o filho por obediência a Deus, antes de Deus substituir a vítima por um carneiro. Representa :obediência a Deus, fé,sacrifício, generosidade. Coincide com a peregrinação a Meca (Hajj).

Na Guiné-Bissau e em toa da região n África Ocidental chama-se   “Tabaski”.

É talvez a festa mais visível entre os muçulmanos guineenses: compra-se um carneiro dias antes; os mercados enchem-se de gado; há grande movimento económico; famílias emigradas enviam dinheiro para comprar animais. Este ano  será a 27 de maio de 2026 (feriado nacional).

O ritual central é: oração comunitária; sacrifício do carneiro; partilha da carne (uma parte para a família, outra para os parentes e outra ainda para os pobres).

Em Guiné-Bissau, como no Senegal ou na Guiné-Conacri, o Tabaski tem também forte dimensão social: visitas intermináveis, música, chá, roupa nova, fotografia familiar, exibição de prosperidade. 

Em resumo:

Eid al-Fitr = festa da conclusão espiritual;
Eid al-Adha = festa do sacrifício e da partilha.

Na Guiné-Bissau, estas festas têm ainda uma particularidade interessante: convivem lado a lado com práticas tradicionais africanas (animismo) e com o cristianismo. 

De facto, não é raro ver-se famílias “mistas” (como é o caso do nosso amigo Cherno Baldé, futa-fula e muçulmano, casado com uma nalu, cristã) participarem umas nas festas das outras, sobretudo em contexto urbano (Bissau),

Essa convivência religiosa sempre foi um dos traços mais notáveis da sociedade guineense, já no tempo dos "tugas".  E isto não obstante as tensões politico-militares e as crises económicas do pais. A tolerância religiosa manifesta-se no calendário dos feriados nacionais, civis e religiosos, sendo estes últimos tanto muçulmanos como como cristãos.


Ano Novo - 1 de janeiro

Dia dos Heróis Nacionais - 20 de janeiro (aniversário da morte de Amílcar Cabral)

Terça feira de Carnaval - 17 de fevereiro 

Domingo de Páscoa - 5 de abril

 Dia do Trabalho - 1 de maio

Dia Nacional - 24 de setembro (dia da independència)

Dia de Natal - 25 de dezembro

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Nota do editor LG_

Último poste da série > 20 de maio de 2026 > Guiné 61774 - P28039: Retratos humanos da Guiné-Bissau de hoje (3): Vendedora de caju no Mercado Central de Bissau: foto de João Melo (2025)

terça-feira, 19 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28038: Retratos humanos da Guiné-Bissau de hoje (2): Ainda as "bideras", sempre "mal vistas" pelo(s) poder(es) (Cherno Baldé / António Rosinha)




Guiné-Bissau > Bissau > c. março / abril de 2026 > A "bidera" Ramatulai


Foto (e legenda): © João de Melo (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné - Bissau > Bissau > Setembro de 2022 > " Uma das bideras no mercado improvisado de Bairro d’Ajuda (Espaço Verde), Decoliciana Malú Mango,  Reportagem de Filomeno Sambú

Fonte: Jornal O Democrata, 24 de setembro de 2022 (com a devida vénia...)



Cherno Baldé (tem 330 referências
no nosso blogue)


1.  Comentários (*) do nosso colaborador permanente Cherno Baldé que "firma" em Bissau:

Caros amigos,

A palavra "Bideira" vem da palavra portuguesa "vida", isto é,  o esforço do "dia a dia", a luta diária, para se sustentar a si e a família. Mas, atenção que ser "Bideira" não significa ser miserável, pois da mesma forma que as "lavadeiras" não forneciam a parte mais importante do sustento das famílias nas localidades com aquartelamentos durante a guerra, a "Bideira" vulgar, sentada à berma da estrada ou que deambula à procura de clientela com uma cesta de mancarra ou outros produtos do quotidiano não pode sustentar uma família, é tão somente um complemento das mulheres para não ficarem em casa sem fazer nada de útil. 

Esta é a parte económica e financeira que o justifica. Outra parte, mais social e humana,  é a necessidade da interação com o mundo, com as pessoas fora do círculo familiar para efeitos de saúde mental em contextos urbanos menos abertos para pessoas de origem rural, habituadas à interação social permanente com o meio ambiente e com as pessoas e que ficam um pouco perdidas sem esta alimentação da palavra e da "fofoca" habitual nas aldeias e meios urbanos do interior. 

Uma particularidade bem marcante dessa realidade é o facto de que, em Bissau, mesmo vivendo numa casa cercada com muros, as pessoas, sobretudo mulheres e crianças, poucos aguentam o sufoco de viver intramuros, preferem a rua, as feiras e a liberdade de deambular com uma cesta de produtos agrícolas com valor abaixo de 1 euro.  Vão à cidade, para os mercados dos Bairros ou ao Bandim, muitas vezes à revelia dos maridos e familiares que não concordam com este "nomadismo" com disfarce de "Bideira". 

As verdadeiras "Bideiras"encontram-se dentro dos mercados na revenda do pescado, legumes e frutas. Estas,  sim, são vendedeiras de verdade e com rendimentos que rivalizam com os comerciantes (homens) de nível médio no mercado nacional, algumas fazendo actividades de import-export de diversos produtos e bens de consumo.

Voltando ao retrato da mulher (a Ramatulai), ve-se que ela não tem fome, pelo contrário, está obesa de um certo grau (peso a mais), deve ser mulher casada com um pequeno comerciante, funcionário público ou ainda com o marido no exterior e à espera de agrupamento familiar. Entretanto, precisa fazer alguma coisa para não morrer de ansiedade ou de solidão,  como acontece um pouco por toda a parte.

Pelo nome Ramatulai (de origem árabe, Benção/Graça de Alá) percebemos que é fula (subgrupo fula-preto), e há muitas variantes (Rama, Ramatu, Aramatu/a, Tulai, Matu), um nome tipicamente muçulmano e da região da Africa Ocidental e de alguns países do Magrebe (Marrocos, Argélia...)


segunda-feira, 18 de maio de 2026 às 14:00:00 WEST

É com muito gosto que partilho ideias, opiniões e saberes sobre a minha terra com os veteranos da Guiné nas páginas deste Blogue, uma quase enciclopédia. 

Passei quase toda a minha vida a tentar descobrir os pilares em que se assenta a civilização Ocidental e sobre as suas gentes, sem todavia descurar, também, dos nossos. 

É sempre justo e útil a partilha para um maior e melhor conhecimento sobre nós e sobre o outro.

segunda-feira, 18 de maio de 2026 às 23:39:00 WEST


(...) Ramatulai como nome feminino ou Aramatulai ( que a paz ou benção esteja contigo) como expressão religiosa é muito presente no meio muçulmano e equivaleria à popular "Maria da Graça" no meio português-

Em Fajonquito havia uma das minhas primas que tinha esse nome e que, no acto da matrícula lhe atribuiram o nome português "Maria da Graça", logo a junção dos dois dava "Maria da Graca Ramatulai Balde", um nome desnecessariamente comprido e por sinal, também, redundante, mas que sõ estou a descobrir agora, coisas que a ignorância e o mimetismo africano permitiram largamente em contextos de encontros e de integração de culturas e crenças religiosas. 

A força simbólica do nome está no facto de que, em todas orações, que se fazem cinco vezes durante o dia, as últimas palavras que se ouvem, sistemanticamente, são as seguintes : 

"Assalamu-alaikum wa-rahmatullai Wa-barakatuh", ou seja, "Que a paz, a misericordia e as bencãos de Allah estejam convosco".

Embora as circunstâncias actuais não permitam proibir a prãtica, o trabalho das "Bideiras ambulantes" não é um trabalho respeitado nem desejado no seio das famílias, independentemente do estatuto (rico, remediado ou pobre) porque está ferido de uma desconfianca generalizada devido ao caráter ambulante e incerto do negócio, de modo que, da mesma forma que as lavadeiras podiam ser "Lava-Tudo",  aos olhos do povo, então esta metáfora pejorativa também se aplica às "Bideiras" como vendedeiras "Vende-tudo".

Mas, apesar de tudo isso, a liberdade e as oportunidades sociais que esta atividade proporciona às bajudas e mulheres (noivas) na sua interação com o mundo e o meio envolvente, compensa largamente o desafio de ultrapassar as barreiras sociais impostas e/ou qualquer tentativa de as limitar nos seus movimentos, de modo que é uma dor de cabeçaa social com que os pais, maridos e chefes religiosos e comunitários estão confrontados numa época de grandes e rápidas transformações sociais, culturais e económicas, ou seja, na fase da globalização mais acelerada e mais invasiva da vida em geral e familiar em particular. (...)

terça-feira, 19 de maio de 2026 às 12:43:00 WEST 


António Rosinha
 (tem 165 referências no blogue)

2. Comentário de António Rosinha (*):

(...) Essa imagem de Bideira não é mais nem menos de uma mulher africana a adaptar-se forçadamente à maneira da mulher das feiras europeias.

Curiosamente, com o sistema comunista à PAIGC de Luís Cabral, este tentou acabar com esta atividade, porque todo o comércio tinha que ser através dos Armazéns do Povo.

Até o simples camarão que as próprias mulheres apanhavam com as suas redes, e a mancarra cultivada e torrada por elas, Luís Cabral mandava a polícia impedir de negociar na rua ou de porta a porta.

A colonização e a descolonização das antigas colónias de África e seus autores, tais como Luís e Amílcar Cabral na Guiné, Lucio Lara, Agostinho Neto e Viriato da Cruz em Angola...e seus progenitores, mereciam um historiador isento.

O sistema colonial português foi muito mal substituído, com muitas desvantagens para os guineenses, pelo sistema soviético-berdiano.


 
(Revisão / fixação de texto, negritos, itálicos, título: LG)

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Nota do editor LG:

(*) Último poste da série > 17 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28030: Retratos humanos da Guiné-Bissau de hoje (1): A "bidera" (vendedora ambulante) de Bissau (João Melo, ex-1º cabo cripto, CCAV 8351/72, Cumbijã, 1972/74)