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sábado, 2 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P27980: Fotos à procura... de uma legenda (205): de que etnia ou grupo etno-linguístico seria a jovem mãe do "mininu" Adão Doutor ? O Cherno Baldé diz que não era felupe/jola, mas balanta-mané... Seria ? Uma desafio aos nossos leitores, no Dia da Mãe (que é amanhã)

 


Guiné > > Região do Cacheu > Bigene > c. 1966/67 > O alf mil médico Adáo Cruz ( CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887, Canquelifá e Bigene, 1966/68), com uma jovem mãe, e o seu filho a quem pôs o nome de "Adão Doutor", em gestor de gratidão para com o médico, "tuga", que a assistiu no porto.

Foto (e legenda): © Adão Cruz (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Quem seria esta jovem mãe de Bigene ? Felupe/jola (lê-se: djola) ou balanta mané ? Ou até senegalesa ?

Esta é uma fotografia histórica fascinante e um testemunho tocante do nosso camarada Adão Cruz. A imagem capta um momento de profunda humanidade no contexto da assistência médica militar às populações locais durante o conflito.  

No entanto, identificar uma etnia específica apenas por traços visuais ou indumentária não é tarefa fácil, à distância de 60 anos (a idade do nosso "Adão Doutor", se for vivo, como desejamos que esteja). Para mais, tratando-se de uma localidade fronteiriça como Bigene, numa região caracterizada por grande porosidade demográfica, cultural e migratória (de um lado o Cacheu, na Guiné-Bissau,  e do outro Casamança, no Senegal).

Mas vale o esforço, tanto mais que amanhã, 3 de maio, primeiro domingo de Maio, é o Dia da Mãe em Portugal e na Guiné-Bissau.


2. Recorde-se a origem desta imagem e da história, feliz, que está por  detrás dela. Foi-nos contada pelo nosso camarada Adão Cruz, ex-alf mil médico, CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68). E ele foi o protagonista, juntamente com a primeira jovem mãe que "estreou" o "serviço obstétrico" do posto médico miliar montado em Bigene (c. finais de 1966/princípios de 1967). 

O primeiro parto a que ele assistiu deve ter ocorrido no princípio de 1967. E ninguém, da localidade, entendia a língua da jovem mãe:

(...) Quando cheguei à Guiné, uma das primeiras preocupa­ções que tive foi começar a conhecer as pessoas e os costumes (...).

Conhecer um povo, ainda que pequeno, originário de quarenta grupos étnicos, fragmentado e encurralado física e psicologicamente em zonas estanques por impo­sição de uma violenta guerra de guerrilha, não era fácil e a desvirtuação constituía um perigo possível.

Tentei iniciar a penetração neste novo mundo através da abertura que a minha missão de médico facultava e facilitava. (...)

As mulheres de Bigene, e não só de Bigene, pariam no mesmo local onde defecavam, uma pequena cerca de esteiras nas traseiras da tabanca, longe da vista das pessoas e sobretudo dos homens, como se o acto de parir fosse indigno e imprudente, obrigando ao mais submisso recato.

Como se não bastasse, uns dias antes da data prevista para o parto atulhavam a vagina com bosta de vaca, a qual sofria pútridas fermentações que exalavam o cheiro mais nauseabundo que imaginar se pode. 

Os tétanos, quer da mãe quer do recém-nascido, eram extremamente graves e frequentes, soube eu mais tarde.

Neste primeiro contacto fiquei boquiaberto e decidi atuar. Não seria difícil imaginar a resistência destas pessoas a qualquer tipo de reforma dos costumes, se não fosse tido em conta um facto importante. 

Ao contrário do que se diz e do que se pensa, os negros, sejam eles homens ou mulheres, são muito espertos, nada ficando a dever aos brancos e superando-os em muitas coisas dentro da mesma escala de cultura. (...)

Só assim foi possível a rápida aceitação e compreensão dos esclarecimentos que fiz na tabanca acerca de infeções e higiene, acerca do papel da mãe, da dignidade do parto e das vantagens de este ser efetuado na nossa enfermaria, ainda que pequena e modesta.

Não demorou muito tempo a aparecer a primeira parturiente. Era uma linda mulher grávida de termo que não falava nada que se percebesse. Não sou capaz de precisar nesta altura a etnia, mas lembro-me que nem os outros negros entendiam o seu dialecto.

Mas o seu sorriso, apesar das dores, era tão aberto e confiante que não precisávamos de melhor forma de comunicação e entendimento. (...)

Nas minhas mãos um pouco trémulas eu segurava o fruto do primeiro parto que assisti na Guiné. Era um belo rapazinho que, apesar da pobreza alimentar daquela gente, nasceu bem nutrido e de uma cor rosa-marfim. Os negros nascem brancos, como se sabe. Uma deliciosa ironia antirracista da natureza.

Embora as nossas dificuldades logísticas e económicas fossem grandes, lá consegui oferecer-lhe o alimento, sob a forma de leite condensado, indispensável aos primeiros meses de aleitamento, pois a mãe parecia ter esgotado todas as reservas das suas entranhas ao gerá-lo de ma­neira tão eutrófica e tão perfeita.

Umas semanas após o nascimento vem ter comigo o Chefe de Posto e diz-me sorridente:

- Doutor, vou dar-lhe uma linda notícia que a mim, pes­soalmente, me enterneceu. A mãe daquele catraio... aquele primeiro parto que o doutor fez, lembra-se?... A mãe veio registá-lo há dias, oficialmente, com o nome de Adão Doutor. (...) (*)



3. Comentário do Cherno Baldé (**)

(...) O Sector de Bigene é predominantemente habitado pelo subgrupo balanta-mané, um substrato de população que resultou da assimilação de balantas sob o dominio mandinga (séculos XVIII-XIX) da mesma forma que aconteceu com os Banhuns, Djolas, Pajadincas, Landumas, Fulas, entre outros cujo processo foi interrompido com a entrada em cena da islamização, da autonomização e ascensão dos fulas e finalmente com as conquistas e partilha dos territórios entre as potências coloniais (segunda metade do séc XIX).

Desta feita, há uma grande probabilidade de a mulher da foto pertencer à etnia dos balantas-mané, um subgrupo em fase de transição entre o animismo e islamismo praticado na região, pelo menos é o que diz a sua postura e vestuário.´

A vila de Bigene, em meados dos anos 66 era um centro de trocas comerciais de produtos da época (amendoim, coconote, peles de animais, mel, cera, tecidos europeus, materiais e produtos para a agricultura entre outros), pelo que albergava uma população um pouco diversificada, empurrando os locais para a periferia fronteiriça.

sexta-feira, 1 de maio de 2026 às 12:05:00 WEST

(Revisão / fixação de texto, negritos, itálicos, título: LG)

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Guiné 61/74 - P27979: Fotos à procura... de uma legenda (204): "A mulher na imagem é igualzinha à minha mãe" (Cherno Baldé)..."Fermero, tua minina, tua mulher parte banana" (José Teixeira)



Guiné > > Região do Cacheu > Bigene > c. 1966/67 > O alf mil médico Adáo Cruz ( CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887, Canquelifá e Bigene, 1966/68), com uma jovem mãe, e o seu filho a quem pôs o nome de "Adão Doutor", em gestor de gratidão para com o médico, "tuga", que a assistiu no porto.

Foto (e legenda): © Adão Cruz (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Comentários ao poste P27970 (*):

(i) Cherno Baldé

Cada época tem sua marca, sua imagem própria que nunca se confunde com outras de épocas diferentes. Anos 60, no território da Guiné (dita portuguesa) as imagens têm a marca da originalidade, de sofrimento agarrado a alma de gente simples, humilde, de gente que não controla o destino, de gente sujeita a violência e imprevisibilidade da guerra, uma guerra escondida em cada esquina, em cada árvore, em cada baga-baga.

A mulher na imagem é igualzinha à minha mãe, no tamanho, nas feições rudes e vincadas de uma mulher camponesa da Guiné dos anos 50/60. Os pés, duros e escarpados não sabiam o que era usar chinelas ou sandálias que, mesmo o que tivessem, para não atrapalhar no caminho da bolanha, preferiam colocá-los na cesta das roupas,  equilibrada encima da cabeça... Na verdade, eram mais para mostrar ao branco do que proteger os pés calejados de tanto morder a areia quente dos trilhos do mato.

A adornar o peito, aí estão os colares tradicionais feitos de sementes e raízes de aroma da maternidade africana que nenhuma mulher dispensava na época e que tinha o efeito benéfico de afastar o cheiro do leite com mistura do suor da criança colada ao seu corpo de forma quase permanente.

Quanto ao nome dado a criança, era sobretudo a vontade e a firma decisão da mãe, pois era um direito que ninguém podia questionar, mas na realidade o nome oficial e que seria válido dentro da comunidade, era sempre um direito do pai que, como mandam as regras, devia obedecer aos critérios da tradição do grupo étnico. 

Todavia, para a mãe e as crianças do núcleo familiar, em respeito à dor e sofrimento que constituem o dificil processo do parto, ela será sempre o "Adão Doutor" da sua querida e sofrida mãe.

quinta-feira, 30 de abril de 2026 às 19:48:00 WEST



Guiné- Bissau > Bissau > Maio de 1997 > "Eu e a minha mãe"

Foto (e legenda): © Cherno Baldé (2011). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



(ii) José Teixeira

Como já contei no blogue, eu tratei uma bebé com alguns meses de uma crise de paludismo. O seu estado de saúde era muito grave, com elevada temperatura, muitos vómitos. E
stava tão débil que nem no peito da mãe pegava. Abusivamente, cometi um ato médico que lhe salvou a vida. Ao fim de duas horas, começou a baixar a temperatura. Pouco tempo depois, mamou um pouco. Foi uma tarde inteira de luta e sofrimento para mim e para a mãe, mas valeu a pena.

No dia seguinte, a mãe veio trazer-me a menina, logo de manhã, como combinado e trazia também um cacho de bananas. A primeira frase dela foi: "Fermero, tua mulher parte banana". A partir dessa data, ficou a ser minha mulher. Todos os dias de manhã, enquanto estive em Mampatá elas (mãe e filha) vinham visitar-me:  "Tua mulher parte mantenhas". Trazia quase sempre fruta ou uma caneca de água fresquinha que ia buscar à fonte de Iroel para mim.

À noite, ficavam as duas à porta da casa, a aguardar a minha passagem para o abrigo para partir mantenhas.

Fui cerca de dois meses para a Chamarra. Duas vezes por semana ia a Mampatá em serviço de apoio ao enfermeiro africano que me substitui. Procurava a minha menina para lhe fazer festinhas. No regresso definitivo para Buba, passei por Mampatá. Para minha grande alegria e grande sofrimento, lá estava a mãe com a minha mulher ao colo: "Pega minina. Leva tua mulher contigo!"

Este momento continua gravado na memória, pelo sofrimento que me causou, pela recusa que tive de dar.






Guiné > Região de Tombali > Mampatá (1)> 1968> O 1º cabo enfermeiro Teixeira (CCAÇ 2381, Buba e Empada, 1968/70), com a sua inseparável amiguinha Maimuna.

Foto (e legenda): © José Teixeira (2005). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

Revisão / fixação de texto, título: LG)
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Nota do editor LG:

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27970: Fotos à procura... de uma legenda (203): Um "mininu" chamado Adão Doutor


Guiné >  > Zona do Cacheu > Bigene > c. 1966/67  > O alf mil médico Adáo Cruz ( CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887, Canquelifá e Bigene, 1966/68), com uma jovem mãe, e o seu filho a quem pôs o nome de "Adão Doutor", em gestor de gratidão para com o  médico, "tuga",  que a assistiu no porto. A mulher parece ser do grupo étnico diola, djola ou jola / felupe

Foto (e legenda): © Adão Cruz (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. A foto é do nosso camarada 
Adão Cruz, médico cardiologista, reformado,  ex-al mil médico,  CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68); nasceu em Vale Cambra, em 1937; poeta, escritor, pintor, com diversos livros publicados e exposições em Portugal e no estrangeiro; membro da nossa Tabanca Grande desde 27 de junho de 2016; tem mais de 240 referências no blogue; é autor das séries "Contos ser e náo ser" e "Memórias de um médico em campanha".

A CCaç 1547 / BCAÇ 1887 desembracou em Bissau, com o resto do pessoal do seu batalhão em 13 de maio de 1966, seguindo de imediato para  Fá Mandinga, a fim de efectuar a IAO (instrução de aperfeiçoamento operacional) sob orientação do BCaç 1888, substituindo a CCav 702 na função de intervenção e reserva daquele sector, e tendo tomado parte em operações na região de Xitole e no baixo Corubal.

 De 27 de maio de 1966  a 7 de junho de 1866, foi entretanto deslocada, temporariamente, para Nova Lamego, em reforço do BCaç 1856, em virtude de um previsível agravamento da pressão inimiga neste sector, tendo efectuado acções na região de Pataque e outras.

Em 13 de setembro de 1966, recolheu a Bissau, a fim de seguir para Bula, para realização de uma operação na região de Jol, sob dependência do BCav 790.

Em 27Set66 foi colocada em Bigene, tendo assumido a responsabilidade do respectivo subsector, com um pelotão destacado em Barro, em substituição da CCaç 762 e ficando então integrada no dispositivo e manobra do seu batalhão.

Em 29 de 0utubro de 1967, foi rendida no subsector de Bigene pela CArt 1745 e seguiu para Bissau, a fim de substituir a CCaç 1497 a partir de 2 de novembro de 1967 no dispositivo de segurança e protecção das instalações e das populações daquela área, sob ependência do BArt 1904 e depois do BCaç 2834. 

Manteve-se em Bissau até ao embarque de regresso, em 25 de janeiro de 1968,  tendo, entretanto, destacado um pelotão para Nhacra, em reforço da guarnição local.


Comentário do editor LG:

A fotografia e o testemunho do nosso camarada Adão Cruz dizem muito mais do que aparentam à primeira vista. Parece haver ali uma tensão silenciosa entre dois mundos: um médico miliciano, jovem, deslocado pela força de uma guerra que ele próprio rejeita, segurando nas mãos um recém-nascido (terá uns escassas semanas, talvez um mês e pouco de vida), símbolo absoluto de vida, no meio de um cenário que, no fundo, era (ou poderia viver a ser em qualquer momento) um palco de guerra, um cenário de morte organizada. 

Ali está um criança, vitoriosa, que sobrevive ao parto e ao primeiro mês de vida... O gesto de levantar o bebé é quase ritual. Não é só clínico, é um gesto humano, de triunfo da vida sobre a morte. É como se a imagem nos dissesse: “apesar de tudo, a vida continua”. 

E depois há o nome, esta maravilha: "Adão Doutor"!...  Nome, espontáneo, que lhe deu a jovem mãe,  fula, ao seu menino. É uma forma de reconhecimento profundo por parte dela: não é apenas gratidão, é também uma espécie de inscrição simbólica daquele nosso camarada na origem daquela vida. Como se ele tivesse participado não só no parto físico, mas no próprio destino da criança, há 70 anos atrás.

A presença da mulher,  ao lado,  digna, firme, composta, com o seu extenso e lindo colar (e por baixo dos panos que lhe cobrem o corpo, os amuletos protetores), deve merecer especial atenção.

Não está submissa nem apagada,  está ali como sujeito, pro direito próprio, como mulher, como mãe, como pessoa inteira. O olhar dela parece mais difícil de ler do que o do médico (embora ambos estejam viarados para o sol). Carrega  em todo o caso uma experiência que não está escrita, mas onde se adivinha dureza e sofrimento, mas também orgulho e dignidade.

E depois, quando lemos o texto do nosso Adão Cruz, tudo encaixa. Ele recusa a narrativa heroica clássica: não há medalhas, não há pátria exaltada, não há glorificação dos senhores da guerra. Há sofrimento, há dúvida, há humanidade. 

Isso dá ainda mais peso à imagem. Porque percebemos que aquele gesto não era exceção: era coerente com quem ele era, com o que ele pensava e sentia.  A sua guerra era outra: cuidar, salvar, ensinar, reconhecer o outro como igual, uma forma de resistência ética.

E aquela frase final dele (de que aqueles dois anos “valeram vinte”) é muito típica de quem passou por experiências-limite. Não é glorificação da guerra; é reconhecimento de que ali se viveu tudo em estado bruto, sem filtros.

(...) Sempre disse que os dois anos que passei na Guiné, anos de sofrimento e saudade, de tristeza e alegria, de coragem e desânimo, mas sobretudo de inigualável fraternidade e vivência humana, valeram vinte anos da minha vida. Não sei dizer porquê, mas sinto-o até ao mais fundo do meu ser. Sei apenas que me levaram a um futuro do qual nunca saberei o valor que o define, mas que sempre construí em consonância comigo mesmo. Sei apenas que sem esses dois anos, seja eu quem for, nunca seria quem sou. (...)

 Ficamos na dúvida se a mãe é fula ou felupe (**).   As populações da Guiné, muitas vezes apanhadas entre duas forças anatgónicas, tiveram uma experiência particularmente complexa — ora vistas como colaborantes, ora suspeitas, ora simplesmente vítimas. E aqui temos  uma mulher, guineense,  que entrega o seu corpo e o seu filho aos cuidados de um médico militar português. Isso não era banal e algumas, por interditos culturais, de origem religiosa ou não, recusavam-se a ser vistas pior um médico "tuga". 

É um gesto de confiança num contexto onde a confiança era um bem raríssimo (**).

A fotografia, assim, ganha outra densidade:  n
ão é só mais uma criança que nasceu, é um momento de suspensão da guerra; não é só um médico militar, no exercício das suas funções de prestador de cuidados à população; não é só uma mãe, é uma mulher que atravessa o medo e decide confiar.

E o nome "Adão Doutor" torna-se ainda mais forte. Em muitas culturas da África Ocidental, dar o nome exótico (ou uma "alcunha")  ( Adão Doutor, Alfero Cabral, Capitão Fula, Tchombé,  José Manuel Sarrico Cunté,  José Carlos Suleimane Baldé, Nuninho,  Alicinha...)  é um acto profundamente simbólico, não é um capricho, é uma forma de inscrever relações, acontecimentos, memórias. Aquele nome fixa para sempre o encontro entre dois mundos naquele instante concreto.

É um  detalhe cultural (o nome “tuga” dado, em geral,  por agradecimento ou veneração) que bate certo com muitos testemunhos da época na Guiné: o nome funcionava quase como marca de relação, proteção simbólica ou memória do acontecimento.

A foto é de meados da década de 60, em pleno "consulado" de Arnaldo Schulz,o governador que não era propriamente uma figura carismática, popular e empática... Pelo menos, se comparada com António Spínola, o "Caco Baldé".

E há algo que nos fica a martelar: o alferes miliiciano médico, que não recusou a guerra,  não foi desertor, diz que não se considerava combatente... Mas nesta imagem há uma forma de combate, talvez a mais difícil: combater a desumanização.

Esta foto  tem, portanto, “lastro humano”, como dizem os especialistas de fotografia. E, sendo do Adão Cruz, ganha ainda outra espessura.


2. Perguntarão os leitores: que idade terá esta criança, ao certo ? Quantos dias, semanas ou até meses? E esta "cena" deve passar-se em Bigene, takvez no início de 1967...

Esta criança não é um "recém-nascido"... Terá já algumas semanas, até um mês e picos...Já usa adornos e amuletos. É um rapaz. A mãe vem agradecer ao médico, militar, português, Adão Cruz, a ajuda no parto. Não sabemos se é fula, muçulmana, ou de outra etnia: a zona era já de miscigenação (e hoje há balantas, balantas manés, mandinga, fulas, djolas/felupes...).  Em agradecimento pôs o nome do "Adão Doutor" ao filho. Era frequente dar nomes "tugas" às crianças que nasciam em zonas com quartéis. 

Analisando a foto com a ajuda de um ferramenta de IA, pode concluir-se que, de facto,  não se trata propriamente de um "recém-nascido":
  • já tem bom controlo da cabeça (não totalmente firme, mas não é aquele tombar típico de recém-nascido);
  • apresenta membros mais “cheios”, já com alguma gordura subcutânea;
  • a pele não tem aquele aspeto enrugado ou descamativo dos primeiros dias;
  • parece alerta e reativo, não em postura fetal;
  • já usa amuletos/adornos, o que muitas vezes só acontece depois dos primeiros dias (às vezes após o nome ou rituais iniciais).

Tudo isto sugere claramente que não é um recém-nascido (0–2 semanas). Estimativa mais plausível: (i) entre 4 e 8 semanas de vida; ou seja, cerca de 1 a 2 meses. Se tivessemos de afinar mais, diríamos: por volta de 5–7 semanas.

Menos do que isso (2–3 semanas), seria provável ver menos firmeza corporal. Mais do que isso (3 meses), o bebé tenderia a parecer ainda mais robusto e com outra expressão muscular.

Estivemos a reler o primeiro poste que o Adão Cruz publicou no nosso blogue, e não há dúvida, o seu "primeiro parto" no CTIG aconteceu em Bigene, mais provavelemente no 1º semestre de 1966  (**):

(...) Foi  rápida a aceitação e compreensão dos esclarecimentos que fiz na tabanca acerca de infec­ções e higiene, acerca do papel da mãe, da dignidade do parto e das vantagens de este ser efectuado na nossa enfermaria, ainda que pequena e modesta.

Não demorou muito tempo a aparecer a primeira parturiente. Era uma linda mulher grávida de termo que não falava nada que se percebesse. Não sou capaz de precisar nesta altura a etnia, mas lembro-me que nem os outros negros entendiam o seu dialecto.

Mas o seu sorriso, apesar das dores, era tão aberto e confiante que não precisávamos de melhor forma de comunicação e entendimento. Até os olhos do meu enfermeiro Pimentinha brilharam de entusiasmo, entusiasmo que o levou a ler de ponta a ponta a minha sebenta de obstetrícia e a transformar-se em pouco tempo num habilidoso parteiro e carinhoso puericultor.

Nas minhas mãos um pouco trémulas eu segurava o fruto do primeiro parto que assisti na Guiné. Era um belo rapazinho que, apesar da pobreza alimentar daquela gente, nasceu bem nutrido e de uma cor rosa-marfim.

Os negros nascem brancos, como se sabe. Uma deliciosa ironia anti-racista da natureza.

Embora as nossas dificuldades logísticas e económicas fossem grandes, lá consegui oferecer-lhe o alimento, sob a forma de leite condensado, indispensável aos primeiros meses de aleitamento, pois a mãe parecia ter esgotado todas as reservas das suas entranhas ao gerá-lo de ma­neira tão eutrófica e tão perfeita.

Umas semanas após o nascimento vem ter comigo o Chefe de Posto e diz-me sorridente:

- Doutor, vou dar-lhe uma linda notícia que a mim, pes­soalmente, me enterneceu. A mãe daquele catraio... aquele primeiro parto que o doutor fez, lembra-se?... A mãe veio registá-lo há dias, oficialmente, com o nome de Adão Doutor. (...)



 3. Gostaríamos que os nossos leitores acrescentassem, na caixa de comentários, a sua própria legenda, sucinta, espontânea... Não há legendas certas nem erradas. Deixemo-nos levar pela memória, pela emoção.

Pode ser qualquer coisa como "Bigene, c. 1966/67: 'Adão Doutor entre a guerra e a vida, um instante suspenso". Mas eu espero que o nosso Cherno Baldé nos dê uma ajude... Nesta época ele já era um djubi com cinco ou seis anos feitos, o "Chico de Fajonquito"...

Um jovem médico militar português segura um recém-nascido, nu, que terá   chegado ao mundo há pouco tempo. Já ostenta adornos e seguramente amuletos. Ao lado, a mãe mantém-se de pé, firme, inteira, com a dignidade de quem acaba de atravessar uma fronteira invisível entre a vida e a morte.

O cenário é Bigene no norte da Guiné, junto à fronteira com o Senegal. Zona de tensão, de passagem, de incerteza. Zona de guerra.
 
E, no entanto, nesta imagem não há guerra. Há um gesto: o de levantar a criança, quase como uma apresentação ao mundo, há um olhar: o do médico, onde se cruzam cansaço e cuidado; e há um nome que ficou: “Adão Doutor”.

 O autor da fotografia e protagonista da cena, hoje quase nonagenário, recusou sempre a ideia de ter sido “combatente”. Disse de si próprio que apenas combateu a doença e a injustiça. E talvez esta imagem seja a melhor prova disso.

Num tempo em que a linguagem da guerra tende a apagar os pequenos gestos (mais ternos e mais íntimos), esta fotografia devolve-nos uma evidência simples e desarmante: mesmo nos lugares mais improváveis, a vida existe, insiste, persiste. (***)

(Pesquisa: LG + IA (ChatGPT, Open AI)
(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)
______________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 27 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27960: (In)citações (286): Guerra colonial (Adão Cruz, Cardiologista, ex-Alf Mil Médico)

(**) 25 de junho de 2016 > Guiné 63/74 - P16235: Memórias de um médico em campanha (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547) (1): O Parto - ou o nascimento do Adão Doutor em Bigene
 
(***) Último poste da série > 29 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27869: Fotos à procura de...uma legenda (202): No Dia Mundial da Poesia e da Árvore (Joaquim Pinto de Carvalho, régulo da Tabanca do Atira-te ao Mar)

terça-feira, 14 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27919: Casos: a verdade sobre... (67): Kalashnikovomania - Parte II: Eu tinha 3 amores... (J. Casimiro Carvalho)




Foto nº 1 > Guiné > Região de Tombali > Guileje > CCAV 8350 (1972/74) > Março de 1973 > O  fur mil op esp J. Casimiro Carvalho empunhando, para a fotografia, A AK-47,  usada pelo Grupo do Marcelino da Mata, antes ou depois da operação de resgate do ten pilav Miguel Pessoa, cujo Fiat G-91 foi o primeio a ser abatido por um Strela sob os séus de Guileje, em 25 de março de 1973. Ao Casimiro Carvalho chamo-lhe o "herói de Gadamael", foi um dos bravos que ajudou a aguentar àquela posição, juntamente com os páras do BCP 12... O exército ficou-lhe a dever uma cruz de guerra...




Foto nº 2  > Guiné > Região de Tombali > Guileje > CCAV 8350 (1972/74) > Março de 1973 > O  fur mil op esp J. Casimiro Carvalho empunhando, para a fotografia, um RPG 7,  usado pelo Grupo do Marcelino da Mata, antes ou depois da operação de resgate do ten pilav Miguel Pessoa.



Foto nº 3> Guiné > Região de Tombali > Guileje > CCAV 8350 (1972/74) > Março de 1973 > O  fur mil op esp J. Casimiro Carvalho com a nossa metralhadora ligeira HK-21 que, com ele, "nunca encravava".



Foto nº 4 > Lamego > CIOE > c. 1971 > O soldado-instruendo J. Casimiro Carvalho,  na instrução com a  G3

Fotos (e legendas) : © J. Casimiro Carvalho (2009). Todos os direitos reservados [Edição e legendcagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné



1. O José Casimiro Carvalho foi fur mil op esp da CCAV 8350 ("Piratas de Guileje")  e da CCAÇ 11 ("Lacraus de Paunca"), tendo passado por Guileje, Gadamael, Nhacra e Paunca, entre outros sítios, entre 1972 e 1974. 

Nas quatro fotos acima, vemo-lo "aprendendo a amar" a G3 (em Lamego), usando a HK-21 (de fita ) (em Guileje) e depois, em março de 1973, ainda em Guileje, "dando uma voltinha com as gajas do IN", a AK-47 e o RPG 7K47 (*)..

Muito franca e honestamenet ele descobriu, no CTIG, que tinha (ou podia ter tido) 3 amores... O texto que se reproduz, abaixo,  é resultante de um seu  comentário, datado de 26 de novembro de 2010 às 14:58:00 WET, ao poste P7334 (*).

O J. Casimiro Carvalho é um histórico do nosso blogue para o qual entrou em finais de 2005. Tem uma centena de referências. É atualmente o régulo da TabanKa da Maia, cidade onde vive.

Eu tinha três... amores

por J. Casimiro Carvalho


Ele há coisas que não têm explicação.
Uma delas  são as armas.
Eu, em Lamego, adorava a G3.
Na Guiné adorava a HK 21 
falava com ela
ela compreendia-me,
pois eu a conhecia.
Comigo a gaja não encravava.

Posteriormente, já em Gadamael, 
apaixonei-me por aquela outra gaja, a AK 47.
E foi amor duradouro, caramba,
mas a gaja era mesmo boa,
que me perdoe a minha querida G3, 
pois não sou gajo de  traições.

Portanto, temos três gajas,
todas elas boas,
com as suas particularidades,
convenhamos.
Como as mulheres, né ?!

Um abraço deste vosso camarigo,
J. Carvalho

(Revisão / fixação de  texto: LG)


_________________

Notas do editor LG:


(**) Vd. poste de 25 de novembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7334: Kalashnikovomania (4): O fetichismo da G3... Há amores que não se esquecem (Torcato Mendonça)

terça-feira, 3 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27788: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (39): A rapariga "Singer Plano Inclinado" com quem a malta gostava de dançar, nos bailes do Greco, em Coimbra (Rui Felício, 1944-2026)


Fonte: Imagens e texto: Página do Facebook do nosso saudoso camarada Rui Felício (1944-2026)  > 5 de dezembro de 2025



Ilustração de Rui Borges (com a devida vénia...), um dos antigos condiscípulos e amigos do Rui Felício, da Turma A do 6.º Ano (1960/ 61), do Liceu D. João III, Coimbra. Também ele seguiu direito e, se não erramos, é magistrado aposentado, vivendo em Lisboa (tem página no Facebook, aqui). Também ele é um antigo combatente, tendo estado em Angola, BCAÇ 1875 (1966/68). Além de poeta e ilustrador de talento (tardio?).


1. Mais um microconto nostálgico do nosso Rui Felício (1944-2026). Uma  pequena obra-prima. Título: "Nos Bailes do Greco"... 

Por uma rápida pesquisa na Net, descobri que o "Greco", em Coimbra, era uma associação ou um grupo de amigos, da geração dos "baby-boomers", que adorava dançar e tinha o culto do Elvis Presley... 

Foi lá que o nosso  Rui Felício terá conhecida a rapariga "Singer Plano Inclinado" com quem a malta gostava de dançar... Dou esse título a esta pequena história.  É uma pequena homenagem ao Rui e à sua/nossa geração que fez a guerra e a paz.


A rapariga "Singer Plano Inclinado" com quem a malta gostava de dançar,
no bailes do Greco

por Rui Felício (1944-2026)

Ela colava o corpo ao par com quem dançava mas o rosto e o pescoço encaixavam no pescoço do parceiro, desviando a cara, quase torcendo o resto do corpo para obviar tal postura.

Havia naquela altura um reclame a uma máquina de costura que inventara uma revolucionária forma de costurar e que consistia em alinhavar o tecido de forma inclinada sem necessidade de o retirar para esse efeito.

Era a famosa Singer Plano Inclinado!

A tal moça com quem a malta gostava de dançar, tomou tal “slogan” como alcunha. E a malta avisava:

 Na próxima música sou eu quem vai dançar com a “Singer Plano Inclinado”, ouviram ?!

Rui Felício


(Revisão / fixação de texto, título: LG)

2. Comentário do editor LG

Quando parte alguém da nossa Tabanca Grande, como o Rui Felício, que carregava memórias tão densas do leste da Guiné, a começar pelo desastre do Cheche de que ele foi um dos sobreviventes (mas em que perdeu mais de 1/3 dos seus homens),  deixa sempre um vazio que só as histórias conseguem, em parte, preencher.

Este "microconto" do Rui Felício não são mais do que meia dúzia de linhas,  é verdade, mas é uma pequena joia de observação social e humor de época. Quando o li, na sua página do Facebook, o que me cativou logo  foi  a capacidade  do Rui em transformar um detalhe (digamos técnico ou comercial,  da sua época da adolescência, a publicidade à máquina de costura Singer) numa metáfora comportamental.

Ele não descreve um passo de dança, reconstitui um atitude. Que delícia este contraste, que ironia (sem ser sarcasmo!), na descrição da rapariga, sem nome, que "colava o corpo" mas "desviava o rosto"... nos bailes do Greco!...  (Noutras terra, como a minha,  seria o baile dos Bombeiros.)

É o esboço do retrato dos tabus da nossa sociedade, ainda muito conservadora, a dos finais dos anos 50 / princípios dos ano 60, em que à proximidade física permitida pela dança, num baile público, se contrapunha  a reserva (o tal "plano inclinado") que ajudava a manter  o conveniente decoro e a distância emocional dos dançarinos.

O texto funciona como uma espécie de  "cápsula do tempo". O uso da alcunha "Singer Plano Inclinado" revela muito sobre o espírito daquela juventude coimbrã, nada e criada na cidade dos lentes, a querer romper as "muralhas" dos usos e costumes impostos pela moral vigente em matérias de relações homem (atrevido) - mulher (recatada).

Por um lado, é de destacar a criatividade da "malta" daquele tempo, a forma como se transformavam marcas e slogans em gíria grupal,  demonstra uma cumplicidade geracional muito forte. 

A "Singer Plano Inclinado" é, pois,  um portento de  humor pícaro: é uma observação brejeira,  malandra, mas ao mesmo tempo respeitosa e nostálgica. O Rui consegue, mais uma vez, ser visual sem ser vulgar, muito menos cruel.

E, por fim, é fascinante pensar que um homem que viveu o trauma da guerra colonial e da perda de um filho, em plena idade adulta (o Nuno Felício tinha 38 anos e trabalhava na Antena 1, em 2013, como jornalista)  tenha conseguido preservar esta leveza para contar histórias do ainda seu tempo de "menino & moço". Para o Rui foi talvez a forma, que ele encontrou,  de celebrar a vida que continuava, apesar de tudo.
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 28 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27780: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (38): O Fígaro, um dos cromos do Liceu D. João III, em Coimbra (Rui Felício, 1944-2026)

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27723: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci... (Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, BCP 21, Angola, 1970/72) (15): a minha decisão de não atacar mulheres e crianças


Angola > Moxico > Léua  > c. 1970 > O alf mil pqdt Jaime Silva com o menino de Léua

Foto (e legenda): © Jaime Bonifácio Marques da Silva (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Jaime Silva (foto ao lado):

(i) ex-alf mil pqdt, cmdt 3º Pel /1ª CCP / BCP 21, Angola, 1970/72; 

(ii) tem uma cruz de guerra de 3ª classe;

(iii) membro da nossa Tabanca Grande, nº 643, desde 31/1/2014;

(iv) tem  c. 140  de referências, no nosso blogue; 

(v) nascido em 1946, em Seixal, Lourinhã, onde reside hoje; 

(vi) é professor de educação física, reformado;

(vii) foi autarca em Fafe, com o pelouro de "Desporto e Cultura": viveu lá durante cerca de 4 décadas; 


(ix) é autor do livro  "Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1).


Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci (15): a minha decisão de não atacar mulheres e crianças

por Jaime Silva

Eu não esqueci durante a minha comissão que na guerra não vale tudo…

Lembro-me, bem, duma operação no Leste, em que o meu pelotão tinha sido destacado para detetar e destruir um acampamento de guerrilheiros que, de acordo com as informações da PIDE, estaria localizado algures numa determinada zona, a norte do rio Cassai.

Progredimos durante dois dias na busca do objetivo e, na madrugada do segundo dia, deparámo-nos, a certa altura, com um grande trilho. E, enquanto avaliava a situação, vejo um grande grupo de mulheres e crianças que vinham do rio com as cabaças cheias de água à cabeça, algumas com os filhos às costas, dirigindo-se na direção do acampamento. 

O soldado que estava na minha frente dispara uma rajada, sem consequências. Mando parar o fogo. As mulheres atiram os utensílios ao chão, agarram nos filhos, espavoridas de medo, e correm na direção da base, enquanto gritam para alertar os guerrilheiros – “tropa, tropa!”

Os guerrilheiros disparam algumas rajadas…

Uma vez que tínhamos entre nós e os guerrilheiros, as mulheres e as crianças, e, perante a mortandade evidente que ocorreria se atacássemos, decidi não assaltar a base IN. 

Em vez disso optei montar uma emboscada no local que, pelas características do terreno e pela minha experiência em situações parecidas, previa que seria o ponto de fuga dos guerrilheiros. 

Passado pouco tempo, vejo vir, na nossa direção, um guerrilheiro armado que enquadrava e protegia um grupo com cerca de dez crianças que fugiram do local para se protegerem. Pelas crianças, dei ordens para ninguém abrir fogo e deixar o grupo prosseguir…
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Fonte: excertos de Jaime Bonifácio Marques da Silva -"Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1), pág. 94.95.

(Revisão / fixação de texto: LG)
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Nota do editor LG:

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27513: 1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente (Cabo Verde, Guiné, S. Tomé e Príncipe e Angola, 10 de agosto - 3 de outubro de 1935), de que foi diretor cultural o jovem e brilhante professor Marcello Caetano - Parte VI: o guarda-roupa feminino





Fotogramas > "1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente", documentário de San Payo (1936) > Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Mindelo > Agosto de 1935 > Damas e cavalheiros dançando a rigor a morna... E trajados a rigor.


Cortesia de Cinemateca Digital, documentário "I Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente", realizado em 1936 por San Payo. Disponível aqui:

https://www.cinemateca.pt/Cinemateca-Digital/Ficha.aspx?obraid=1378&type=Video



O elogio da "Monte-Carlo Beach", a praia artificial de Monte-Carlo, o sítio mais chique da Europa...Artigo de Maria de Eça, a propósito da chegada da época  balnear, da "elegância da nudez" ( feminina), e dos benefícios do sol e do mar...Estas imagens eram  muito ousadas para a época, num país parolo, provinciano, conservador, e vigiado pelos censores...  Estamos nos primeiros anos do Estado Novo, impante e triunfante.  Mesmo uma década depois, nas praias portuguesas os fatos de banho, femininos e masculinos, obedeciam a uma bitola...e as infrações estavam sujeitas a coimas.



Fonte: Excerto de. Maria de Eça - As praias portuguesas e estrangeiras". Ilustraçáo, nº 232, 16 de agosto de 1935, ág. 25  (Cortesia de Hemeroteca Municipal de Lisboa)

 

1. Voltemos ao nosso "1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente" (*)... Foi há 90 anos... 20 anos depois começávamos nós a ir para as últimas guerras do Império:  Índia,  Angola, Guiné, Moçambique, Timor...

De repente, vendo o filme, as cenas do baile no Liceu Infante Dom Henrique, no Mindelo, dado em honra dos "excursionistas" (maioritariamente "cavalheiros", só 20% é que eram senhoras: duas professoras, seis estudantes, e trinta e uma mulheres entre as “pessoas de família”), veio-nos à cabeça a pergunta: como era a moda, e nomeadamente feminina, naquela época ? O que é que as senhoras vestiam a bordo numa viagem daquelas, de quase dois meses, com escala por Cabo Verde, Guiné, São Tomé, Angola e, no regresso, Principe e Madeira ?

Com a ajuda da IA (Gemini / Google, ChatGPT), e outars fontes (bibliográfcias), apurámos alguns apontamentos interessantes, que passamos a condensar.

Em 1935, as senhoras que faziam essas longas viagens de navio para as colónias portuguesas em África eram, de facto, poucas. Eram maioritariamente esposas de funcionários coloniais (**), militares, médicos, grandes comerciantes ou fazendeiros ricos. (Os missionários, como eram católicas, não levavam esposas; as "irmãs", as freiras, missionárias, ainda deviam ser poucas na África Portuguesa.)

Em 1935,  os "africanistas" propunham-se  desmistificar África, tornando-a apelativa para as senhoras... A colonização portuguesa até então era maioritariamente masculina. Não ficava bem as senhoras serem... doutoras ( nem muito menos esposas de colonos). Em 1914, no início da I Guerra Mundial, e sendo governador-geral o general Norton de Matos, Angola tinha 11 mil brancos (6 mil em Luanda). Com a mobilização militar para África (Angola, Guiné, Moçambique), nas "campanhas de pacificação" e I Grande Guerra, houve militares que se fixaram naqueles territórios.

Em 1935, as senhoras que embarcaram no vapor "Moçambique", eram sobretudo familiares dos estudantes e professores a quem se destinava o cruzeiro (de lazer, turismo, educação e propaganda). (Repare-se apenas 6 eram estudantes, num total de 79, o que representava menos de 8%.)

"Uma lição portuguesismo", diria, no fim, embevecido e em jeito de balanço, o jovem professor Marcello Caetano, responsável da parte cultural. 

De um modo geral, estas  viagens em si, num paquete da Companhia Nacional de Navegação (CNN) ou da Companhia Colonial de Navegação (CNN), não eram vistas como um  verdadeiro "cruzeiro" de férias no sentido moderno do termo, mas sim como um evento social, de grande formalidade. 

A roupa (masculina e feminina) refletia isso mesmo.

Falando das senhoras, o guarda-roupa para uma viagem que podia durar várias semanas ( conforme o destino),  tinha de ser vasto, funcional e, acima de tudo, elegante, cobrindo diferentes momentos do dia e a transição para o clima tropical ( incluindo a praxe da travessia do Equador para os novatos). Claro que o guarda-roupa também dependia do poder de compra.

(i) O contexto: a moda de 1935

Temos de esquecer as "flappers" de 1920. Em 1935, a moda era muito mais curvilínea, feminina e elegante, influenciada pelas estrelas ou "divas" do cinema de Hollywood (como Greta Garbo ou Marlene Dietrich).

Silhueta: a cintura voltava ao seu lugar natural; as  saias eram compridas (a meio da perna ou mais longas para a noite) e fluidas. O corte em viés (bias-cut) era a grande inovação, fazendo com que os tecidos (como o crepe de seda) se moldassem ao corpo de forma elegante (e, inevitavelmente,  erótica).

Ombros: os ombros eram frequentemente realçados, por vezes com pequenos enchumaços, mangas com folhos ou detalhes.

(ii)  O guarda-roupa a bordo (em alto mar)


A vida no navio era pautada por regras sociais rígidas. O que obrigava uma senhora a trocar  de roupa várias vezes ao dia. E nisso esgotando-se a sua energia. De resto, não tinha mais nada que fazer. As diversões a bordo eram limitadas. O navio, ainda a vapor, de 57 mil toneladas e 112 metrpos de comprimento estava em fim de vida; construído na Escócia em 1908, seria desmantelado em 1939.

  •  De Dia (manhã e tarde no "deck")

O vestuário de dia era "prático" (para os padrões da época), mas sempre impecável.

Vestidos de dia: eram feitos de tecidos mais robustos mas elegantes, como crepe, lã leve (na saída da Europa) ou seda, tinham mangas (curtas ou a três-quartos) e saias a meio da perna; os padrões  eram discretos ou de cores lisas (como azul-marinho, bege, bordeaux);

Conjuntos (fatos de saia e casaco): muito populares; um casaco cintado com uma saia a condizer; era um visual muito "arranjado" para passear no convés ou almoçar.

Acessórios essenciais:

Chapéu: absolutamente obrigatório para sair ao sol no convés; podiam ser cloches (ainda em uso) ou chapéus de aba mais larga, que se tornavam populares;

Luvas: quase sempre usadas, mesmo de dia; de couro leve ou algodão;

Sapatos:
fechados, de salto baixo ou médio, frequentemente de duas cores (estilo "spectator");

Desporto (ou "sport" como então se dizia) (para atividades no convés): os navios tinham áreas de lazer (jogos de "shuffleboard", ténis de convés); para isto, existia o "traje sport", que era o mais informal que se usava em público;

Pantalonas (calças): a grande novidade, os  "pijamas de praia" (calças largas e fluidas, de cintura subida) eram o auge da moda chique para relaxar no convés; eram feitas de linho ou algodão e muitas vezes com padrões náuticos (riscas, âncoras); 

Vestidos-amiseiros: de algodã,  mais simples, muitas vezes de riscas azuis e brancas (o estilo "riviera" ou náutico).

  • Noite (jantares e bailes)

Este era o ponto alto (tal como nós cruzeiros modernos): o  jantar era um evento de gala, especialmente na primeira classe, já de si reservada a uma.minoria privilegiada.

Vestidos de noite: eram longos, arrastando-se muitas vezes pelo chão;

Tecidos nobres: seda, cetim, veludo (para as noites mais frescas no Atlântico Norte) ou crepes pesados;

Corte:  o  "corte em viés" era rei; os vestidos eram fluidos, marcando a silhueta; as costas decotadas eram muito comuns e consideradas o cúmulo da elegância.

Acessórios:

Estolas: de pele (raposa) ou seda, para cobrir os ombros;

Joias: brincos compridos, pulseiras, colares;

Luvas compridas: de seda ou cetim, quase sempre acima do cotovelo;

Pequenas malas de mão ("pochetes"): elaboradas, de metal ou tecido bordado.

(ii) A chegada aos trópicos (Cabo Verde, Guiné, São Tomé, Angola)

À medida que o navio se aproximava do Equador e o calor aumentava, o guarda-roupa mudava drasticamente; as lãs e sedas pesadas eram guardadas nas "malas" (baús de viagem).

O que predominava:

Branco e marfim: estas eram as cores dominantes; refletiam o sol e eram um símbolo de estatuto (mostravam, por exemplo, que se tinha criados para lavar a roupa, que se sujava facilmente);

Tecidos leves: o linho era o tecido de eleição, apesar de amarrotar facilmente;  algodão piqué e a seda crua ("shantung") também eram muito usados;

Vestidos "safari":
embora o "safari suit" fosse mais masculino, a influência era vista em vestidos-camiseiros de linho branco ou bege, muitas vezes com cintos e bolsos utilitários;

Proteção solar:
esta era a maior preocupação;

Chapéus de aba larga
: essenciais; de palha ou tecido leve;

Capacete colonial ("pith helmet"): embora hoje seja um símbolo controverso (associado ao colonialismo europeu e aos sangrentos safaris), em 1935 era comum tanto para homens como para mulheres em certas situações, como uma forma prática de proteção contra o sol intenso; as senhoras usavam versões mais leves e elegantes, muitas vezes forradas a seda;

Óculos de sol: tornavam-se um acessório de moda, além de funcionais;

Em suma, as senhoras (uma minoria) que em 1935 viajavam para a África, ainda negra,  misteriosa, exótica,  levavam um guarda-roupa que projetava elegância europeia, estatuto social e uma tentativa (nem sempre eficaz nem confortável) de adaptação ao clima tropical, mantendo sempre a máxima formalidade. 

Por outro lado, as senhoras  das classes alta e média-alta, que faziam estas viagens nos navios da CNN ou da CCN, com destino a África (e neste caso, o 1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente) (***) poupavam-se, evitando o sol, a poeira, a terra batida, os insetos, etc., nem sempre saindo para "visitas de estudo" que só interessavam aos homens (neste caso, alunos e professores).

 Imaginamos que ficavam, resguardadas (nos hotéis), a beber chá, a cavaquear, a jogar  às cartas...  Enfim, o culto da frivolidade...

Nessa época, elas ainda não tinham um papel ativo na sociedade, na economia, na política, na cultura...E não trabalhavam. A mulher que  trabalhava (nas fábricas e nos campos) não tinha direito ao tratamento... de "senhora".

(Pesquisa: LG + Net + IA / Gemini Google)

(Condensação, revisão / fixação de texto: LG)

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Notas do editor LG;


(**) Vd. poste de 15 de dezembro de 2024 > Guiné 61/74 - P26268: Timor Leste: passado e presente (29): Uma viagem de mais de um mês de Lisboa a Díli, no N/M holandês Sibajac, em agosto/setembro de 1936 (Cacilda dos Santos Oliveira Liberato, "Quando Timor foi notícia: memórias", Braga, Pax, 1972)

(***) Último poste da série > 7 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27398: 1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente (Cabo Verde, Guiné, S. Tomé e Príncipe e Angola, 10 de agosto - 3 de outubro de 1935), de que foi diretor cultural o jovem e brilhante professor Marcello Caetano - Parte V: preços só para meninos ricos ou gente da classe média-alta... Hoje daria para dar a volta ao mundo em 100 dias.

segunda-feira, 15 de setembro de 2025

Guiné 61/74 - P27220: In Memoriam (559): Isabel Bandeira de Melo (Rilvas) (1935-2025): uma mulher pioneira em vários domínios, interditos às mulheres, a começar pelo paraquedismo... Foi a "madrinha" das enfermeiras paraquedistas (1961).






Isabel Rilva (1936-2025): uma mulher portuguesa antes do seu tempo: não foi militar, não foi paraquedista, não foi à guerra, mas ajudou outras mulheres (as enfermeiras paraquedistas) a abrir, pela primeira vez, as portas da caserna...e entrar no teatro de operações.

Fonte: Fotogaleria da realizadora de cinema, Marta Pessoa, autora do documentário "Quem Vai à Guerra" (Portugal, 2011), página do Facebook


1. A triste notícia chegou-nos por mensagem do Miguel Pessoa e confirmada às  9h45 na página do Facebook de Miguel Machado, antigo oficial paraquedista e estudioso da história do paraquedismo em Portugal:

Isabel Bandeira de Melo (Rilvas), filha dos condes de Rilvas. carinhosamente apelidada pelos paraquedistas e pelas enfermeiras paraquedistas por Isabelinha, faleceu ontem,  14 de setembro de 2025, aos noventa anos de idade. Nascera em 8 de janeiro de 1935.

Tinha festejado, a 4 de janeiro último,   o seu 90º aniversário  com salto em queda livre, um salto tandem, a uma altura de cerca de 3 mil metros, a partir do aeródromo de Tancos, numa aeronave do Para Clube os Boinas Verdes, segundo notícia de Mário Rui Fonseca, publicada no jornal Médio Tejo, em 7 de janeiro de 2025.
 
Temos quatro referências à Isabel Rilvas. A Maria Aminda já aqui, em poste de 2011,  veio justamente lembrar o papel pioneiro que a Isabel Rilvas teve na criação do corpo de enfermeiras paraquedistas em 1961,  dizendo no seu discurso,  por ocasião do 50º aniversário do 1º curso de enfermeiras parquedistas,  o seguinte (**):

(...) Convêm também relembrar, neste processo, a importância da Sr.ª. Dª Isabel Bandeira de Mello, conhecida entre nós por Isabelinha Rilvas, à época a primeira Paraquedista da Península Ibérica, em ceder ao Tenente-Coronel Kaúlza de Arriaga, a documentação relativa aos treinos que executavam as “Enfermeiras do Ar”, pertencentes à Cruz Vermelha Francesa.

A Isabelinha, como colega e amiga da maioria das candidatas que integraram esse primeiro curso, teve também a sua quota-parte de influência, na decisão em aceitarem esse desafio.

Pela primeira vez iam ser treinadas em Portugal, mulheres para Paraquedistas. A sua preparação teve início a 6 de junho de 1961 e terminou a 8 de agosto, com a conquista da tão almejada boina verde e brevê, que lhes conferiram o título pelo qual passaram a ser designadas, “ As Enfermeiras Paraquedistas”.

Para se chegar a esse dia, foi preciso percorrer um duro e difícil caminho; vencer barreiras a que não estávamos habituadas, ultrapassar receios e preconceitos, superar debilidades físicas, momentos de fadiga, desânimo e medo do fracasso. Porém entrámos determinadas e convictas de que poderíamos chegar ao fim. Aceitámos voluntariamente esse grande desafio, de trocar a nossa vida rotineira, tranquila e profissionalmente estável, por outra que imaginávamos ser mais agitada, mas da qual não sabíamos como iria decorrer. Éramos jovens, e como tal generosas e aventureiras. (...)


2. A Tabanca Grande partilha, com a família e os/as amigos/as da Isabel Rilvas, a dor pela sua perda. Registe-se, entretanto, a mensagem, acabada de enviar pelo Miguel Pessoa: 

Transcrevo a mensagem que recebi da AFAP (Associação da Força Aérea Portuguesa):

"É com muita tristeza que a AFAP faz saber do falecimento da D. Isabel Rilvas, uma das pioneiras na aviação e no paraquedismo, e nossa sócia extraordinária. A nossa “Isabelinha” conseguiu o seu brevet (aos 19 anos) em 1954 em aviões e planadores; em 1956 tornou-se na primeira mulher paraquedista da Península Ibérica; e em 1981 obteve a licença de voo em balão de ar quente nos Estados Unidos.

O seu falecimento é realmente uma grande perda para a aviação portuguesa.

Informamos os/as nossos/as associados/as que o féretro vai hoje (15SET2025) às 17h30 para a Igreja da Força Aérea (São Domingos de Benfica), e amanhã (16SET2025) o funeral seguirá às 14h00 para o Cemitério dos Prazeres.

Até sempre, Isabelinha!

A AFAP expressa os seus sentidos pêsames à família e amigos!"



Isabel Rilvas


(com a devida vénia..)


3. Algumas notas biográficas desta mulher que, nunca tendo sido militar nem enfermeira paraquedista, teve uma vida notável e foi pioneira num domínio interdito às mulheres portuguesas, a aviação e o paraquedismo:
  • começou a aprender a pilotar aviões na Escola de Aviação Civil do Aero Club de Portugal (Sintra),em 1953, apadrinhada pelo director das Oficinas Gerais de Material Aeronáutico (OGMA), Pedro Avilez (para fazer o curso teve sempre a companhia de Chica,  uma empregada da familia que fez o papel de dama de companhia dela, tais eram os preconceitos da época);
  • em 1954, com 19 anos, tirou o brevê de pilotagem de aviões ligeiros (e posteriormente obteve as licenças equivalentes na África do Sul, Espanha, Itália e Estados Unidos da América, países onde viveu enquanto mulher do embaixador Leonardo Mathias); 
  • tirou também o brevê de voo à vela;
  • em 1955, ao ir com o pai ver um festival aéreo no aeroporto Le Bourget, entrou em contacto com as Enfermeiras Paraquedistas Socorristas do Ar, da Cruz Vermelha francesa. e tem a ideia de criar um grupo de enfermeiras semelhante em Portugal:
  • em 1955, é segunda mulher portuguesa a obter o brevê C que permite pilotar planadores;
  •  em França frequenta o curso de Instrutor Paraquedista no Solo no Centro de Paraquedismo de Biscarrosse onde é aluna da socorrista do ar Jacqueline Domerge; 
  • obtém, em 1956, brevê de 1.º grau de paraquedismo civil e no ano seguinte o de 2.º grau;  foi então a primeira mulher portuguesa (e ibérica) a saltar de paraquedas, no contexto civil; 
  •  para poder manter as suas licenças de paraquedista, Isabel tinha de completar um número específico de saltos, mas foi confrontada com a inexistência de locais onde fosse possível fazê-lo em Portugal; por isso, pediu à Força Aérea que a autorizasse a saltar na base militar de Tancos, local de treino dos soldados paraquedistas; obteve uma licença provisória para saltar no país; foi-lhe também concedida autorização para o fazer com os paraquedistas militares; o seu primeiro salto em Tancos teve lugar em 18 de janeiro de 1959, aos aos 24 anos;
  • fez o curso de instrutora de paraquedismo, completando 25 saltos;
  • em 3 de maio de 1959, convidada pelo Aeroclube de Luanda, saltou em queda-livre em Angola, perante luandenses maravilhados; repetiu a proeza em 17 de maio em Lourenço Marques, fascinando uma multidão de moçambicanos;
  • efectuou saltos de paraquedas de diversos tipos de aviões, entre eles: Stampe, Junkers JU52, Dakota, Tiger Moth, Dragon Rapid e Noratlas;
  • bateu o recorde português de voo sem motor: permaneceu no ar por 11 horas e 15 minutos em Alverca, em julho de 1960;
  • foi a primeira mulher a fazer acrobacias aéreas da Península Ibérica, tendo entrado em várias competições de festivais da modalidade, pilotando vários tipos de aviões;
  • foi a grande impulsionadora da criação do Corpo de Enfermeiras Paraquedistas Portuguesas em 1961 (o 1º curso começou em 6 de junho e terminou em 8 de agosto, na Base de Tancos; das candidatas iniciais, foram selecionadas 11, e só 6 concluíram e receberam o brevê, sendo conhecidas como as “Seis Marias”, como lembru a nossa amiga e camarada Maria Arminda);
  • conseguiu concretizar o seu sonho em 1961, quando Kaúlza de Arriaga, face aos desafios e exigências do inicio da guerra colonial em Angol,  apresentou a ideia a Salazar que, com ressalvas, autorizou a criação do grupo de enfermeiras;
  • em 1981, obteve uma licença de voo em balão de ar quente, nos EUA, sendo a primeira portuguesa a fazê-lo; de regresso a Portugal tentou junto da Direcção-Geral da Aeronáutica Civil obter uma equivalência, uma licença portuguesa, mas foi impossível, por não haver legislação para balões de ar-quente, nem sequer balões;
  • em 2017, foi condecoarada, pelo Presidente da República, com o grau de Grande-oficial da Ordem do Infante D. Henrique, 


(**) Vd. poste 5 de novembro de 2011 > Guiné 63/74 - P8998: As nossas queridas enfermeiras pára-quedistas (28): Comemoração dos 50 anos dos cursos de 1961 das Tropas Pára-quedistas (Rosa Serra / Maria Arminda)