Pano guineense
1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 3 de Junho de 2015:
Queridos amigos,

Há quem esqueça que as esculturas Nalus e Bijagós são exibidas nalguns dos museus mais exigentes em todo o mundo.
Dentro do artesanato há igualmente expressões de grande valor, mostra de grande sensibilidade, é o caso da panaria, o tecer foi trabalho dos escravos transportados da Senegâmbia para Cabo Verde, o tecer na África Ocidental está documentado desde os tempos mais remotos.
A exposição de que iremos falar realizou-se em 1996 no Museu Nacional de Etnologia e foi um senhor acontecimento, destinada a graúdos e miúdos, muitíssimo bem documentada, foi um primor. Bom seria que estes panos que fazem parte de um riquíssimo acervo do museu deambulassem pelas escolas e pelas localidades onde reside a comunidade guineense instalada em Portugal.
Um abraço do
Mário
Panos de Cabo Verde e Guiné-Bissau
Beja Santos
Entre Abril e Novembro de 1996 decorreu no Museu Nacional de Etnologia a exposição Panos de Cabo Verde e Guiné-Bissau. Por diferentes títulos, foi uma exposição modelar. O museu possui um acervo riquíssimo de panaria cabo-verdiana e guineense. A ideia central da exposição foi a de propor um diálogo com as comunidades cabo-verdianas e guineenses, pensou nos mais novos e em divertimentos multiculturais. Preparou-se igualmente uma excelente documentação, corrigiram-se informações que permitiram avaliar as mutações ocorridas desde a criação do museu (anos 1960) e o fim do século XX. O ponto de partida foi o livro de referência de António Carreira, "Panaria Cabo-Verdiana-Guineense", de 1968, reeditado pelo Instituto Cabo-Verdiano do Livro em 1983.
É sobre a rica documentação produzida que vamos dizer alguma coisa. Nos países da África Ocidental ao Sul do Saara – numa área situada entre o Senegal, a Oeste, e os Camarões a Este – há a tradição de os tecelões produzirem panos de algodão de bandas estreitas, que geralmente não ultrapassam os 25 centímetros de largura, em teares horizontais. Este pano de bandas estreitas é a expressão da tradição e da inovação na tecelagem de Cabo Verde e da Guiné, e está mesmo presente na vida dos emigrantes.
Perde-se na noite dos tempos a tecelagem na África Ocidental, nos apontamentos refere-se a importância da tecelagem no Reino do Gana, por exemplo. Os relatos dos séculos XV e XVI sobre os povos africanos com que se estabeleceram relações comerciais e de amizade dão-nos conta da antiguidade da tecelagem. Cadamosto e Valentim Fernandes referem que a maior parte da gente andava nua mas as mulheres e os homens de estatuto superior usavam roupas de algodão, panos e camisas, compridas e de mangas largas. Os panos vincavam o estatuto social e a hierarquia política dos seus possuidores. Esta tecelagem tem origem em Cabo Verde e depois migrou para a Guiné, onde o pano de bandas continua a ter um papel importante nos momentos ritualizados dos diferentes grupos étnicos; em contratos e cerimónias de casamento muçulmano, nos funerais e no amortalhamento de cadáveres, no pagamento de práticas de adivinhação. Escreve-se nos apontamentos desta exposição que Fulas e Mandingas, no pedido de casamento, a mãe da noiva recebe do emissário do noivo bandas brancas de algodão. Refere-se mais adiante que o vestuário tradicional dos Fulas e dos Mandingas islamizados é o pano de bandas azul-escuro ou claro tingido pelo Saracolés. Os Manjacos e os Papéis usam panos com decoração elaborada e com grande semelhança com a panaria cabo-verdiana.
Era explicado na exposição que os panos apresentados tinham sido recolhidos em 1963, na Guiné, por Fernando Quintino, e em 1964 e 1970, em Cabo Verde, por António Carreira. Os currículos e a vida de investigação de Quintino e Carreira aparecem muito bem detalhados.
Depois produziu-se documentação para o meio escolar, a história dos panos contada na escola. Diz-se concretamente que no século XV já se exportava bastante algodão para Portugal, Flandres e Espanha, e foi com este produto que se passaram a fabricar, a partir do segundo quartel do século XVI, milhares de panos com os quais se adquiriam por compra, escravos na Costa da Guiné.
A produção de panos em Cabo Verde está diretamente relacionada com os primeiros contingentes de escravos que vêm da Guiné (entenda-se, a Grande Senegâmbia). Assim o tecelão surgiu em Cabo Verde com o escravo africano. Sobre o pano artesanal na Guiné-Bissau e a sua recuperação nos anos de 1980 escreve Isabel Mesquitela, alguém de quem aqui se já se falou. Isabel Borges Pereira Mesquitela foi para a Guiné-Bissau em 1986, descobriu que a panaria guineense tinha praticamente desaparecido, procurou contribuir para a recuperação de uma arte ancestral de grande beleza. O declínio da panaria manifestou-se nos anos 1960, entre um pano de importação europeia e um pano produzido num tear Manjaco o preço podia variar sete vezes mais. Para essa recuperação, como ela escreve, selecionou-se Calequisse, Bafatá e Gabu: Calequisse era considerada o berço dos tecelões Manjacos, em Bafatá viviam famílias de tintureiros Saracolés, e o Gabu por ter uma tecelagem diferente da dos Manjacos. Vale a pena ler o que ela escreve:
Esta exposição que decorreu no Museu Nacional de Etnologia produziu documentação do maior interesse, incluía mesmo legendas e explicações sobre as peças expostas e incluía glossário explicando, entre outros termos, o que eram anil, banda, pano, pano boca-branca ou pano de pente ou pano d’obra.
Creio que foram deixados vários aliciantes para uma visita ao Museu Nacional de Etnologia. A panaria guineense merece ser conhecida.
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Nota do editor
Último poste da série de 25 de abril de 2016 Guiné 63/74 - P16013: Nota de leitura (833: “A descolonização da Guiné-Bissau e o movimento dos capitães”, por Jorge Sales Golias, Edições Colibri, 2016 (2) (Mário Beja Santos)